"Em 30 de novembro, Walter Galvani me disse que estava de malas prontas para umas férias em Florianópolis, acompanhado de Dostoievsky, Tolstoi e Tchekov. Se há alguma verdade no velho aforismo "dize-me com quem andas...", pode-se esperar sempre mais e mais surpresas da lavra do mestre de Nau Capitânia e Anacoluto, pois, sabemos todos, flui dos clássicos a água de beber da melhor literatura.
Críticos que não admitem prazer na leitura costumam dizer que enredo é secundário ou só pretexto. Importante, garantem, é "a invenção de linguagem". Como, porém, não é todo dia que se inventa linguagem, a literatura sustenta-se com a produção daqueles que sabem escrever bem.
Walter Galvani, que publicou o primeiro romance em plena idade da sabedoria, depois de quase meio século dedicado à crônica e ao jornalismo, preferiu a criação à criatividade e o eterno ao "moderno". Assim, Anacoluto, que para o dicionário é apenas uma frase quebrada, uma figura de sintaxe, no engenho de Galvani se transforma no personagem encantador de um livro rigorosamente clássico.
Quem sabe contar uma história está a meio caminho da literatura, ensinam Dostoievsky, Tolstoi, Tchekov, Machado, Eça...; depois, resta apenas criar um estilo pessoal, em meio ao de tantos companheiros de viagem, se me faço entender. Walter Galvani nos conta, com a pena do cinismo e a tinta da melancolia, a história de um homem que se recorda da vida porque está condenado a esquecê-la; a vida de quem cresceu no Rio Grande, "passando de moleque distraído para jovem alienado" e adulto preguiçoso, marido infiel, irresponsável, inesquecível.
O romance de Galvani nos revela a angústia de quem passa dos sessenta e não mais provoca sorrisos quando esquece que dia é hoje ou o número do telefone de um amigo. O Mal de Alzheimer achega-se devagar, modifica atitudes e humores, todavia Anacoluto Camargo Neves, que teve dinheiro e sorte na vida, admite tal e lastimoso fado com a desfaçatez possível, para desalento e certas esquivanças da admirável Rosa Pigafé, companheira a quem dedica suas "memórias".
A leitura de Anacoluto, para utilizar palavras do autor, nos propicia a reconciliação com os espíritos superiores."
Moacir Japiassu, escritor
DELICADEZA E FORÇA
A escritora portuguesa Inês Pedrosa, autora de "Fazes-me falta" assim analisou o "Anacoluto":
"Acabei entretanto as aventuras do seu Anacoluto - brilhante romance, meu amigo. A última parte, em torno da doença de Alzheimer, é de uma delicadeza e de uma força enorme - gosto muito da forma como nos vai narrando esta doença, mostrando-a como um verdadeiro anacoluto da existência. Rosa é uma mulher de verdade, e o padre quase me converteu a mim mesma, que, depois de uma juventude cheia de fé católica, professo agora um anti-clericalismo cada vez mais acentuado ( os Godofredos escasseiam no mundo...). Enfim, o Walter escreveu um romance com gente de verdade dentro - coisa não tão frequente como se julga - com um ritmo, um sentido de humor e uma sensibilidade raras. Um romance que nos faz reflectir sobre a essência da maturidade (" Tanta coisa testemunhei e não aprendi nada"), ou seja, sobre a qualidade das almas. Bem haja por ele, meu amigo. Oxalá possam outros leitores de Portugal partilhar o meu prazer - vou fazer tudo o que puder para lhes dar o direito ao seu Anacoluto."
MAL DE ALZHEIMER ELEVADO Á CATEGORIA DE TEMA LITERÁRIO
O escritor Luis Antônio de Assis Brasil assim se pronunciou sobre o "Anacoluto":
Anacoluto do princípio ao fim é um romance de personagens, em que a trama se organiza não a partir dos episódios que se impõem às personagens, mas são as personagens que elaboram os episódios. O mal de Alzheimer, tão comum em nossos dias, é elevado à categoria de assunto literário e por isso se dignifica. E é a ameaça permanente do mal, cuja precoce presença só notamos a meio caminho do romance, que assim age como um fio condutor ao narrado. Isso dá coerência ao texto, o qual se incorpora ao que a moderna ficção brasileira tem de mais expressivo (e representativo)
Luiz Antonio de Assis Brasil
PITADAS DE GÊNIO
Jane Tutikian, escritora e professora de Letras, assim fala sobre o "Anacoluto":
"É indispensável. Se, efetivamente, não existe narrativa inocente porque, consigo, sempre traz alguma transformação, Anacoluto é a prova disso. Ele é indispensável porque não é inocente. Vou dizer isso também e mais:
O Anacoluto do Princípio ao Fim - a par de Nau Capitânia- Pedro Álvares Cabral: como e com quem começamos, que valeu ao autor um dos mais importantes prêmios da literatura, o cobiçadíssimo Casa de Las Americas - reafirma a qualidade da narrativa longa de Walter Galvani.
Trata-se de uma narrativa linear por adição, quando os elementos de tensão vão sendo habilmente colocados: primeiro, quase que imperceptivelmente, tanto mais pela presença do humor, depois, acenando com a ambigüidade, com a possibilidade, e Galvani faz isso com maestria e, depois ainda, com a gravidade, como a distensão de uma corda de violino que chega ao seu limite, anunciando um final estarrecedor, atroz, patético. É como o Anacoluto, a personagem, no seu exercício de escrever e de fixar a vida, nos coloca cara a cara com a nossa fragilidade. É de arrepiar a alma: a velhice avança com os seus inexoráveis. Em Anacoluto: o Alzheimer.
Engana-se, entretanto, quem achar que é uma narrativa pesada, um livro sombrio e desinteressante, engana-se quem pensa que vai encontrar um seco relatório médico ou uma grande e melancólica queixa. Ao contrário! E aí o talento de Walter Galvani fala mais alto. Neste livro que se faz diário, carta ou confissão de uma luta desesperada para manter a sanidade e a própria história, há a história de uma vida, a de Anacoluto, regida pelo nome, quando o nome rege destinos. (...)
O último capítulo é feito de sintomas, sem que a palavra sintomas apareça, e, aí, Galvani tem "pitadas" de gênio, "absurdos" de sensibilidade. Os sintomas estão lá, todos, e com um Anacoluto que já nada tem das fases anteriores - que se foi perdendo e a gente sabendo, não quis perceber- da história - diário, ou carta, ou confissão - que narra. Agora, não há mais o humor, há a agressividade e a melancolia do esquecimento do passado recente e flashes do passado distante , e ele nos coloca frente a frente com a nossa própria fragilidade.
Uma narrativa forte, viva, pulsante, que termina colocando o leitor face a face com os anacolutos próprios de cada um,( porque somos igualmente incessantes rupturas da lógica),e face a face com o mais humano, porque o mais frágil da nossa própria humanidade. E, cá entre nós, só o Walter Galvani, este escritor e esta pessoa especial, porque é da soma disso que nasce a arte, para nos colocar nesta situação e magistralmente. Assim."
"O conflito mais palpável , razão de ser do relato, é explicitado mais ou menos no centro da narrativa: a luta do personagem contra a doença que ameaça roubar-lhe as lembranças. Anacoluto teme sobretudo a fase derradeira do mal, em que a identidade se dissolve, em que não mais poderá saber quem é. Por isso sua insistência em definir-se,m em assinalar a identidade por meio do nome - o qual, estranhamente, não o marca pelo que ele apresenta de continuidade, mas pelo que há de ruptura. E que maior ruptura poderia haver do que a doença que irrompe com seus lapsos, suas incoerências, o desconcerto que causa?" Marcelo Pen, em "Folha de São Paulo"
"Um livro que surpreende e comove: os pequenos acontecimentos de uma vida comum feridos de morte por um mal traiçoeiro e inexorável. Inaugurando a abordagem, em literatura ficcional, do tema que costura e trama, Walter Galvani confirma-se um escritor solidário com as questões humanas." Valesca de Assis
Escritora, autora de "A Harmonia das Esferas"
"Em meio ao desenrolar dos acontecimentos, o romance de certa biografa os fatos mais marcantes do mundo nestes últimos cinqüenta anos. Os capítulos finais da obra podem ser interpretados como poderosa metáfora de nosso estado mental e das circunstâncias modernas (ou pós-modernas) das quais somos o perplexo produto." Jaime Cimenti, em "Jornal do Comércio" de Porto Alegre
"Destaque ainda no livro é o olhar delicado e minucioso lançado à figura feminina. O autor descreve com precisão a alma da mulher e suas nuanças." Luciana Viccente, no "Correio do Povo"
"As melhores narrativas são as que não precisam provar sua técnica.(...) é uma história triste contada de forma alegre. (...) Não há malabarismo, pirotecnia verbal, fluxo desordenado de passagens, mas uma simplicidade essencial e literária que rumina meio século da memória de um homem que sempre ambicionou se ausentar da lista de chamada. (...) O romance de Galvani apresenta algo diferente e portanto, mais difícil: um otimismo cético, a honestidade do princípio ao fim do personagem, uma lucidez que o faz compreender suas limitações, uma fé pelo porvir que justifica sua resistência em esperar. (...) Resplande a retidão sedutora de Anacoluto. (...) O autor deixa a pesquisa histórica de lado para romancear, somente com a imaginação criadora, o diário dos últimos cinqüenta anos do século XX, demonstrando que o medo de viver pode ser maior que a vida."
Fabrício Carpinejar, poeta, escritor e jornalista"
"Anacoluto". Não se trata apenas do título de um livro, mas de um livro dentro de um título.
À medida em que viramos as páginas, do princípio ao fim, vamos esbarrando com inspiradas figuras e emoções e nada nos surpreende, pois tudo está dentro do título.
É um livro fantástico de um fantástico escritor e fantástico amigo."
Mila Cauduro, escritora, ex-secretária de Cultura do estado do Rio Grande do Sul, líder política proeminente.
UMA LEITORA PRÁ VALER
Chego ao fim de minha leitura. As últimas páginas aconteceram durante o percurso de um ônibus que me trazia para casa no final da tarde. Quase esqueço de descer. Sorte minha foi a curva acentuada que empurrou-me o corpo e a mente para fora do livro. Então desci. E desci um pouco contrariada porque não era momento para ser interrompida. O ônibus continuou e eu fiquei com meus pés sobre a calçada, livro aberto, voltando um pouco os olhos para retomar a concentração e seguir para o desfecho. Terminei ali mesmo, diante do sinal de trânsito que me dizia que eu poderia seguir. Não. Eu não estava com pressa, primeiro terminei a leitura, depois esperei que novamente o sinal fosse gentil e me permitisse passar. Obrigada, caro Walter, pelo belo prazer nas páginas que nos ofereces.
Prometi falar sobre Rosa. Querias que eu te dissesse minha impressão sobre ela, deves ter alguma razão importante, então te direi. No entanto, eu já havia dito que minha impressão mais forte ficou mesmo com o próprio Anacoluto. Natural, suponho, uma vez que a narrativa acontece através do próprio protagonista o que proporciona uma certa cumplicidade entre ele e o leitor. Eu não gostaria de fazer qualquer comparação, mas durante a leitura eu não consegui deixar de lembrar de Bentinho. Não, não... Anacoluto em nada se parece com ele, tampouco vi em Rosa Pigafé uma Capitu. Provavelmente a lembrança aconteceu por conta do narrador em primeira pessoa e porque tudo o que sei sobre a Srta. Pigafé me chega através do olhar amoroso de Anacoluto.
Tenho a impressão de que conheci de Rosa apenas o que Anacoluto quis que eu (ou ela?) soubesse. Os espaços que ele me permite não são muitos. Ele tratou de preencher com cuidado seu relato já que sua intenção era de que, um dia, a própria Srta. Pigafé tomasse conhecimento do que escrevera. Portanto, eu desconfio das palavras do homem. Tal desconfiança é o que me faz feliz como leitora porque você, o autor, me torna co-autora no momento de minha leitura. Gosto mais de Anacoluto do que de Rosa porque ela está estampada de forma forte e bonita (olhar dele, intenção dele) enquanto Anacoluto, mesmo tentando explicar-se e justificar suas fraquezas, é a criatura humana vulnerável, frágil, e contraditoriamente bonita justamente por ser um homem comum.
Rosa é mulher bela e jovem que abriu mão do conforto para viver com um homem que, a princípio, não estaria à altura dela. No entanto, a decisão poderia não ser exatamente uma prova de coragem ou amor, mas simplesmente uma alternativa confortável para desvencilhar-se do jugo paterno. Mostrar-se mais forte e decidida do que Anacoluto não me parece tarefa difícil. Tomar as rédeas da administração do lar era natural, uma vez que ele mesmo facilitava, estimulava e admirava-a em tal atitude (tanto melhor para ele). Mas Rosa era mais: tomava conta dos problemas dos vizinhos também, possuía determinação, ao contrário de seu par, ela tomava atitudes, não consultava - fazia. No entanto, mesmo uma mulher com tamanha força, beleza e elegância não consegue camuflar por completo sua sensibilidade e fragilidade. Assim, Anacoluto nos coloca diante de momentos em que Rosa é flor delicada: "Ela tremia toda, os lábios não conseguiam articular direito as palavras que, aos borbotões, afluíam ao seu cérebro" (p. 110). É quando ele sente-se necessário. É quando ele deixa de ser Anacoluto. É quando a flor está em suas mãos.
Fico cá com a impressão de que somos todos um pouco Rosas e Anacolutos permeados por momentos de força e fraqueza; por atitudes decisivas em alguns momentos e também pelas fugas e medos. Rosa não era totalmente forte, tampouco Anacoluto era a figura fraca que tenta deixar transparecer. Um homem que decide escrever sua história para estender aos outros o olhar que ele traçou sobre si mesmo e sobre a mulher amada, é no mínimo, um homem inteligente. Coloco-me no lugar de Rosa, "diante da lareira ou debaixo da amendoeira" a ler as palavras de Anacoluto e penso que provavelmente ela o teria amado como eu passei a amá-lo enquanto lia. Era um homem comum que soube conduzir suas fraquezas em linhas que o absolveriam. Era um sujeito simples que tem em seu nome a marca de todos nós, humanos colocados em pedaços de vida que, sem que possamos explicar muito bem, começam e acabam. Talvez eu o tenha amado porque vi no ato de sua escrita a tentativa de ser mais que um Anacoluto qualquer solto no espaço. Talvez a dor do último capítulo tenha me jogado sobre a calçada, sem querer atravessar sobre a faixa de pedestres, sem querer perceber o sinal verde porque alguma coisa nos meus olhos estava me dizendo: "e terminamos todos de qualquer modo". Anacoluto não. Ele fica. Definitivamente impresso em sensações - "do princípio ao fim".
Peço perdão por tê-lo amado mais. Rosa era meu alvo, mas ele roubou-me o coração. Sei que a Srta. Pigafé é bastante forte para não ficar magoada com minha escolha. Também ela o escolheu um dia. Certamente ela, melhor do que ninguém, sabe o quanto de amor havia em sua determinação.
Ane Walker
NOVO LIVRO DO WALTER GALVANI
Depois do sucesso extraordinário de "Nau Capitânia ? Pedro Álvares Cabral, como e com quem começamos", que está em cinco edições pela Record (Rio de Janeiro), teve uma edição em Portugal pela Gradiva e outra em Cuba, pelo Instituto Casa de Las Américas, Walter Galvani deixa "mares, astros, noites, tempestades" e mergulha na alma humana, nas relações inter-pessoais, na história recente do Brasil,e numa doença destruidora que acaba com o corpo e o espírito de seus personagens.
"Anacoluto do princípio ao fim" é exatamente isso, indo e vindo na perseguição dos motivos que pautam o comportamento das pessoas, dos pequenos ódios e amores, das vaidades, do poder político e familiar, da opressão e da libertação.
É um romance, diríamos,"de auto-ajuda", encaminhando inclusive um procedimento diante do terrível Mal de Alzheimer, cada vez mais presente na medida em que a população vai ampliando seus índices de longevidade.
"Anacoluto" parte de uma figura gramatical que ajuda a explicar a personalidade curiosa que escreve na primeira pessoa.