INTERNACIONAL EM
SUA CASA:
PORTO ALEGRE
Walter Galvani, em 19/12/2006
Desde o início da tarde deste dia 19 de dezembro que o S.C.Internacional , recepcionado por sua imensa torcida, está em casa.
Agora, será preciso estar à altura da sua nova imagem
INTER, EM CASA
Walter Galvani
Depois da demonstração de poderio, caracterizada especialmente pelo controle sobre os nervos do adversário, a utilização de um momento excepcional da partida para decidi-la a seu favor, com seus jogadores demonstrando adesão ao esplêndido plano tático do treinador Abel Braga, fundamentado no respeito ao adversário famoso e o aproveitamento de qualquer deslize, o Internacional venceu por 1 x 0, conquistou o título mundial interclubes e agora festeja em casa.
Foi preparada uma recepção que botou nas ruas de Porto Alegre cerca de meio milhão de pessoas e por onde a equipe transitou, como tradicionalmente se faz com os vencedores de jogos modernos, em cima de um caminhão do Corpo de Bombeiros, e a cidade se vestiu de vermelho.
Mesmo os meio-fios das calçadas apareceram pintados de vermelho e branco, as cores do Inter, por determinação do prefeito José Fogaça, tradicional torcedor do... Grêmio Portoalegrense, o grande rival.
Nessa hora, felizmente, não há divisões. Só se somam interesses e simpatias. Mesmo lembrando que o Grêmio também foi campeão mundial, em 1983, há 23 anos portanto, e que na época os meio-fios foram pintados de azul e branco, e os jornais fizeram a manchete “A Terra é Azul” (como desta vez escreveram que “A Terra é Vermelha”, os colorados festejam há três dias o feito do seu clube, preferencialmente “flauteando” em cima do adversário tradicional.
As rivalidades esportivas se fazem assim.
E é justamente esta rivalidade que acendeu a competição porto-alegrense, hoje a cidade que festeja seus dois campeões. Como São Paulo, a maior cidade do Brasil, ou Buenos Aires, a capital argentina.
Haverá o “dia seguinte”, com a conseqüente ressaca. E então, será importante o Internacional, como clube, dar-se conta do avanço que realizou em campo, através dos seus atletas que tiveram o respaldo do apoio de uma torcida tão grande que até conseguiu deslocar um percentual representativo até o Japão, e agora contabilizar estes efeitos em matéria de imagem.
Hoje não há mais nenhum amadorismo, os funcionários, dirigentes, jogadores e equipe técnica são todos profissionais, e saberão projetar este novo efeito que torna o Inter num clube de expressão mundial, já que carrega o Internacional em seu próprio nome.
OS GRANDES LADRÕES ESTÃO SOLTOS
Walter Galvani, em 21/12/2006
Os pequenos, estes vão para a prisão...
É o Brasil de 2006;
Esta crônica está publicada hoje em "A Razão" de Santa Maria.
MANTEIGA OU MARGARINA ?
Walter Galvani
Por diversas razões, uma delas por efeito da propagação de outro produto e a publicidade qualificada, a manteiga sumiu da mesa de muitas famílias brasileiras, substituída pela margarina, com milhares de argumentos a favor, inclusive a de que se produziriam melhores resultados com relação à saúde. Não sei se é verdade. A margarina é que está sob ataque agora, porque produz “gordura trans” que “inibe a ação das enzimas específicas do fígado, o que favorece a síntese do colesterol”. Pior: a manteiga, a velha manteiga que provém, afinal de contas, do úbere da vaca, porque “é a nata do leite batida até se transformar em emulsão para poder ser utilizada sobre pães, bolachas, etc...” não é que ela virou símbolo de crime hediondo ? ...
Tanto é assim que uma pobre desempregada paulista, ao ver o filho com fome, conforme alegou na Justiça, furtou um potinho de manteiga, no valor de R$ 3,20. A doméstica Angélica Aparecida Souza, de 19 aos, foi condenada pela justiça de São Paulo, a quatro anos de prisão em regime semi-aberto e, por causa do delito, perdeu a guarda do filho de três anos. Para recuperá-la, teria que vencer uma maratona na qual se envolvem anualmente 4 milhões de brasileiros: conseguir um emprego com carteira assinada.
Sorte dela que um empresário de uma firma de terceirização de serviços de limpeza penalizou-se com a sua situação e carimbou o primeiro milagre: assinou-lhe a carteira. Agora, falta o segundo milagre: converter os membros da Justiça paulista ao gênero humano e fazer com que se comovam com a sua situação.
Talvez, na seqüência, o terceiro milagre seria o supermercado que a denunciou por “roubo” (não teria sido furto, apropriar-se de algo que não lhe pertence, sem violência?) retirar sua queixa. Numa seqüência dessas, de milagre em milagre acabar-se-á concretizando o maior de todos eles que seria reconverter a sociedade brasileira ao tão apregoado jeito de ser que faz nosso prestígio no mundo, muito além do futebol.
Enquanto criminosos imperdoáveis são absolvidos ou vivem como marajás em celas isoladas, ligados ao “mundo exterior” por celulares, televisões, internet, desfrutando o ar condicionado e cozinha especial sob a alegação de que poderiam ser mortos pelos inimigos, seguem comandando de dentro dos presídios o negócio de tóxicos, seqüestros, assaltos, do crime por atacado ou varejo, quem furta um pote de manteiga passa por isso. Não se podem tolerar os pequenos furtos, os roubos, é lógico que só um sistema de “tolerância zero” pode levar a sociedade ao paraíso possível. Mas, e os ladrões que conhecemos através dos meios de comunicação que continuam a infelicitar o país, mamando nas tetas da nação, os mais do que conhecidos integrantes das máfias que mancham nossas instituições, esses, o que se faz com eles?
A propósito: a manteiga é composta por cerca de 80% de gordura, sendo o restante água e resíduos de lactose ( o açúcar do leite) e de lecitina, a proteína do leite. Tudo isso ajuda a produzir Vitamina A em grande quantidade e como componentes secundários, vitaminas D e E. Produz uma ação suave sobre as vias biliares. Angélica não sabia de nada disso, provavelmente, mas eis que seu “crime” nos lembra a velha manteiga que na certa acompanhou a meninice a adolescência de muitos de nós.
Não querendo transformá-la em heroína ou exemplo a ser imitado, bem que está chegando a hora de punir os verdadeiros ladrões da nossa honra e da nossa integridade como nação. Com o mesmo rigor com que se tem para os pequenos delitos como esse, da manteiga.
O QUE ESPERA O RIO GRANDE
Walter Galvani, em 24/12/2006
Crônica publicada hoje no jornal ABC DOMINGO, do Grupo Editorial Sinos, que circula na Região Metropolitana de Porto Alegre:
MENOS IMPOST0S, MAIS TRABALHO
Walter Galvani
O deputado que utilizou este lema publicitário que intitula esta crônica, elegeu-se e agora, constrangido, não aceitará cargo no governo de Yeda Crusius, porque a primeira mulher (paulista, aliás) que assume o governo no Rio Grande do Sul, pretende editar um pacotaço de medidas, no primeiro dia de poder, em que se incluem, aumento de tarifas. Tem mais: ela convida os senhores deputados, entre os quais pode estar o próprio presidente da Assembléia, a não se incorporarem ao novo governo, se discordarem destas propostas. A coisa vai mais longe: Yeda sai em “férias de Natal” e só volta na terça-feira, dia 26.
Bem, as miniférias não merecem reparo, porque até o carteiro da minha rua já avisou que só voltará na metade da semana que vem e o pessoal da “limpeza urbana”, o time da “coleta”, deixou o seu envelopezinho de natal, pedindo adiantado. Motivo: estão saindo e só retornam na próxima semana.
Fico em dúvida, mas ainda tenho algumas coisas a fazer e, sobretudo, completar alguns projetos que deverão estar em condições de execução em 2007, sem falar no balanço do ano, que passei a adotar depois que alguns balancetes mensais me “balançaram” o coração e as estruturas financeiras. No mais, já estive nos consultórios médicos dos drs. João Carlos Fernandes e Lorival Cardoso e ambos me asseguraram que posso seguir em frente, tranqüilo, que para o ano que vem estou pronto. Só falta agora fechar as contas do ano, o que farei no próximo fim-de-semana. Espero continuar com boa saúde financeira e então me dedicar ao vôo da palavra, coisa aliás que venho fazendo há mais de cinqüenta anos.
O “enxugamento da máquina com a extinção de cargos” e o verbete “a porta da rua é a serventia da casa” assinalam os rumos do vôo do Rio Grande do Sul a partir de primeiro de janeiro. Deixa-se para trás o sistema “endurecer sem perder a ternura” que consagrou seu antecessor e fez com ele deixasse o Piratini com o seu círculo de amizades ampliado, apesar de todas as dificuldades econômicas do estado. Resta saber se o que vem pela frente é um procedimento ou se apenas teremos uma vassoura nova varrendo os céus do Rio Grande até que as coisas se acomodem, pois é no andar da carreta que as abóboras se ajeitam, como se sabe.
O primeiro já saiu, à esta altura outros estão fazendo o mesmo e ainda outros fatos surpreendentes devem ocorrer. Alianças se desfazem, partidos mudam e pessoas mudam suas posições. Às vezes, nem a eleição passou bem e já temos renúncias.
Este não será, pois, um Natal de amor e ternura, mas sim de preocupação e dificuldades principalmente para quem está, de alguma forma ligado ao governo do estado, seja como simples funcionário, seja como fornecedor, como beneficiário de subsídio ou dependente de alguma forma.
Com o olho na Cultura, coisa que faço também há mais de cinqüenta anos, preocupa-me saber se as leis de incentivo prosseguirão impávidas, o que duvido ou se vai surgir algum outro tipo de benefício, o que é mais improvável ainda. Em todo o caso, não me importo e até aplaudo se a Secretaria da Cultura receber verbas generosas. O mecanismo se chama Fundo de Apoio à Cultura, conhecido como FAC. Sem “facadas”, espera-se, o Rio Grande do Sul precisará seguir mostrando “suas façanhas à toda a Terra”. Para que sirvam de modelo.
No mais, como se diria na Fronteira, é “cautela e caldo de galinha” para esperar o que vem pela frente. E lembrar que todos concordamos com aquele “slogan”: “Menos impostos e mais trabalho!”
MUDARIA O NATAL
OU MUDEI EU?
Walter Galvani, em 26/12/2006
A pergunta que o
velho Machado de
Assis fazia no
início do século
passado, continua
de pé...
UM POBRE NATAL
Walter Galvani
Não sei onde ficou o tal “espírito de Natal” tantas vezes citado e lembrado a todo o momento como capaz de assinalar um momento ímpar das relações humanas. Acabo de percorrer detidamente o noticiário dos jornais a respeito do fim-de-semana que culminou ontem com o feriado natalino e só encontrei acidentes, crimes, tragédias, desgraças. Balas perdidas levaram vidas, dez homicídios marcaram o “feriadão” rio-grandense, fora os afogamentos, desastres rodoviários, o terror e a perda de tempo dos passageiros que pensaram em optar pelo transporte aéreo, evidentemente mais solicitado à medida que as distâncias do país imenso que é o Brasil obrigaram a uma democratização dos serviços. Execuções criminosas de outros tantos criminosos.
Enfim, nem as renas conseguiram salvar o Papai Noel da balbúrdia dos aeroportos brasileiros e a sociedade civil mal e porcamente sobreviveu ao ambiente que mora nos corações brasileiros. Uma pena.
Mais um Natal de fossa nesse país.
Agora, estamos na reta final do fim-de-ano e esperamos que o Reveillon venha lavar e purificar os corações maltratados que pulsam no fundo das nossas carcaças corpóreas danificadas pelo passar do tempo, nossos atribulados esqueletos que tentam suportar a oxidação que os alimentos errados e os remédios em excesso produzem.
Assim sendo, acho que escapamos. Sim, escapamos das bombas, dos tiros, da miséria, da fome, da infelicidade, das guerras, dos erros administrativos, da política errônea e estamos nos dando por privilegiados por podermos chegar ao final deste ano de 2006.
O homem não aprende, a humanidade não progride. Infelizmente, é o que temos a registrar, nesse intervalo de balanço antes que chegue o novo desafio que o 2007 nos reserva.
Ah, sim podemos historiar algumas alegrias... No esporte, por exemplo, mais um clube gaúcho, desta vez o S.C.Internacional chegou ao campeonato mundial. Em Iokohama, no Japão, batendo o poderoso Barcelona, da Espanha.
Uma eleição, aliás reeleição, de Lula para a presidência do Brasil e Yeda Crusius, a primeira mulher a dirigir os destinos do Rio Grande do Sul, como governadora.
Pois é. Vamos ver, no final de 2007, se teremos algo a comemorar além do esporte...
BRASIL, PAÍS DO FUTURO
Walter Galvani, em 28/12/2006
Estamos trabalhando. Por onde devemos começar?
QUAL A SOLUÇÃO PARA A VIOLÊNCIA
NAS GRANDES CIDADES?
Esta pergunta, em geral é respondida com a tradicional resposta: é a Educação.
Trata-se da Educação, com E maiúsculo, única fórmula possível de restabelecer o equilíbrio na sociedade brasileira, abalada em seus alicerces pela miséria absoluta, pela falta de ética generalizada através dos exemplos dos líderes políticos da nação que não se envergonham de se auto-atribuir polpudos vencimentos, enquanto o povão subsiste com migalhas e a classe média aos poucos migra das estatísticas para a geléia geral da pobreza. Os números enganam e são enganosos. Por vezes, a notícia é de que os índices melhoraram, mas, vai se ver houve um desencontro de informações. A estatística é um terreno muito perigoso – Nelson Rodrigues já dizia que ela é “como o biquíni, mostra tudo menos o essencial”.
Sem números exatos fica difícil administrar uma sociedade. Por vezes, um belo programa, um plano trienal ou quadrienal é criado em Brasília, mas Brasília se situa, como se sabe, longe demais das capitais...
É como projeto arquitetônico feito sem a visita do arquiteto/artista ao local... Porto Alegre tem um exemplo disso: há um Museu de Arte em construção, à beira do imenso lago (ou rio?) Guaíba e que não aproveita a paisagem.
Ah, sim, pode ser que o acervo não possa ser atingido pelo calor ou pela luz do sol. Mas, nesse caso, por que não um terraço (uma varanda, como se diz na metade norte do país ou uma esplanada como se usa lá em Portugal) com bares e restaurantes?
O fato é que planos e projetos, por melhores que sejam, por mais competentes que sejam os seus autores, morrem na praia quando se ajustam à realidade. Ninguém compra luvas sem experimentá-las. Impossível.
Então, dizer que se socorrerá o povo com a melhora da Educação é simplista. Antes disso, o pobre precisa sentir o quentinho da comida no estômago, o miserável precisa ter uma pequena casa, uma pobre maloca que seja, mas ele tem que ter um abrigo para as noites de frio ou chuva. Para que tudo isso se viabilize, claro que o melhor caminho é dar um emprego a esses necessitados. Mas, como fazê-lo se eles, os pobres, os miseráveis, não tem qualificação para obter e manter um emprego?
Aí estão, portanto, os desafios para qualquer governo.
Saúde, Alimentação, Habitação, Emprego.
Resolvidas estas quatro pendências, pensa-se então em Educação.
Afirmam, os teóricos da questão social, que é preciso começar pela Educação.
Ótima idéia, mas quem tem tempo para esperar?
Lula, Yeda Crusius no Rio Grande do Sul, ou quem quer que seja em qualquer estado da federação brasileira, se depara com isto, de saída. Este é o problema básico, fundamental.
Então, por qual ponta do novelo se começa?
Se eu tivesse a resposta, na certa me elegeria qualquer coisa nesse país. Por não ter a resposta, jamais tive coragem para candidatar-me.
Mas, ofereço o tema à reflexão.
Durante 2007, se não formos engolidos pelas vagas da inconformidade crescente ou da criminalidade que só quer levar vantagem dos desníveis da sociedade, (veja-se os 18 mortos de ontem no Rio de Janeiro) e do descontrole político, pela falta de seriedade e austeridade, pela ausência de ação efetiva, de combate à corrupção, é o que teremos de fazer.
O velho poeta Gonçalves Dias já dizia que “a vida é combate, que os fracos abate, e os fortes, os bravos só pode exaltar”. Mas, são quinhentos anos de luta.
Estamos construindo o país do futuro. Lembram Stefan Zweig? “Brasil, o país do futuro”.
BONS TEMPOS, QUANDO AINDA SE VIAM AS ESTRELAS...
Walter Galvani, em 30/12/2006
Antes da poluição, da corrida insana contra o tempo e da idéia de "matar o tempo"...
Leiam este belo texto de Rômulo de Carvalho,um autor português:
OBSERVATÓRIO DO MUNDO
Rômulo de Carvalho como professor de Física e Química durante 40 anos em Portugal e António Gedeão (pseudônimo), como poeta, começou a escrever suas memórias ao completar 80 anos em julho de 1985 em Lisboa e concluiu-as aos 90, pouco tempo antes de falecer no dia 19 de fevereiro de 1997. Em pouco tempo, portanto, teremos dez anos do seu falecimento. Ele deixou suas “Memórias” em 1100 páginas de papel antigamente dito “de almaço”, algo como hoje denominaríamos “A-4”, com apenas uma frase com espaços em branco, a última, onde escrevera: “Morria a de de “ e termina com uma palavra: “Adeus”. Sua viúva, Natália Nunes, também professora e escritora, nem sabia da existência do material que é riquíssimo de dignidade humana, observações pertinentes e reflexões instigantes.
É justamente com os títulos de “Memórias” e “A varanda, observatório do mundo” que o “Jornal de Letras” de Lisboa, edição do dia 5 de dezembro de 2006, publica alguns trechos, que julguei oportuno extrair para presentear meus alunos de oficinas de Crônica e de Biografia e Autobiografia.
Na Introdução que Rômulo de Carvalho/António Gedeão escreveu, diz ele:
“Pois queridos filhos dos netos dos meus netos, são queridos quando é certo que nunca teremos trato pessoal. É fácil amarmos as pessoas à distância e por isso nos condoemos dos que padecem quando temos notícias dos seus sofrimentos através dos meios de comunicação social. Se as conhecemos pessoalmente diríamos que tinham tido o que mereciam, e voltávamos a página. Eu amo-vos por princípio, mas como já haverá tanto sangue diverso entrecruzado nas vossas veias, pouco teremos em comum.
Saí há dias do hospital onde fui sujeito a uma intervenção cirúrgica. Não sei se lá para meados do século XXI precisarão de consultar uma enciclopédia para saberem o que é um hospital. É um estabelecimento onde se recolhem as pessoas necessitadas de cuidados médicos que exigem vigilância ativa e o emprego de aparelhagem que não se tem em casa. Recorri ao hospital porque o meu coração (sabem o que é?) precisava de conserto. Enquanto os corações normais funcionam ao ritmo de 70 pulsações por minuto, o meu, pobrezinho, tímido, inadaptado, envergonhado, trabalhava com metade daquele valor. Vinha assim decrescendo, em freqüência, desde anos atrás, e preparava-se para dar-me uma morte suave, com um suspiro, mais dia, menos dia. NO hospital estenderam-me numa cama, abriram-me o peito com um golpe, à frente, à esquerda e em cima, quase a tocar no ombro, e por aí introduziram uma caixinha misteriosa, pequenina e complexa, superiormente sábia, que lá ficou escondida debaixo da pele e do tecido muscular.
Da caixinha sai um tubo fininho que foi enviado ao longo de uma veia até que a ponta tocasse no coração, metendo-o na ordem, fazendo-o pulsar com a freqüência devida. Que métodos tão atrasados! Como era aquilo naquele tempo! – dirão vocês. E eu direi: Que extraordinário progresso!
Agora, durante algumas semanas, terei que ser cauteloso, não fazer esforços físicos, evitar os transportes públicos, o que me aconselha a não me entregar às habituais investigações que prossigo em bibliotecas e arquivos, que me deixam assim um pouco desamparado, obrigando-me a ficar em casa mais tempo do que o habitual. E então como ocupá-lo?
Resolvi ocupá-lo de um modo que há muito projetava, a escrever as minhas memórias com o pensamento em vocês. É claro que isso só interessa a mim, e quando nisso falo aos filhos dos netos dos meus netos é na vaguíssima esperança de acharem graça em imaginar a figura de um antepassado movimentando-se num ambiente que muito pouco se deverá parecer com o seu, expondo sentimentos que o tempo tornará ridículos. Por mim o projeto é extremamente agradável porque tudo o que familiarmente vivi, as pessoas com que lidei, os objetos onde pousei os olhos, os sons que me chegavam aos ouvidos, os cheiros, os tactos, os sabores, tudo isso existe em mim e assim permanece. Tudo isso, e todos esses morreram provisoriamente e só morrerão definitivamente quando me fecharem os olhos, a mim.
Dir-se-ia que a minha vida particular não tem história, mas tem-na. Todos construímos essa história e dela participamos, mas sono os apercebemos disso quando os anos começam a pesar, porque só então nos observamos, como éramos, seres estranhos, nada parecidos exteriormente como o que somos depois.
(Nota: aqui se vê o quanto é possível a autobiografia, o que se pode daí tirar, mesmo que o “autor” não seja um grande personagem da História...”
Vêmo-nos crianças, depois adolescentes, guiados pelas mãos dos pais ou com a sacola da escola às costas, ágeis, curiosos, faladores, brincalhões, seres que nada tem que ver conosco que somos bisonhos e temos ossos que rangem. Os velhos retratos, porém garantem-nos que já existimos assim, realmente, e que a nossa memória dá-lhes vida. Depois morremos todos juntos, de um só golpe. E antes que isso aconteça vou escrevendo estas páginas.
Gostaria imenso (adoraria, como se diz hoje) que algum dos meus trinta e dois tetravôs se tivesse lembrado de mim e se dispusesse a deixar-me um maço de folhas bolorentas e amareladas onde me descrevesse a sua vida, o que o alegrou e o que o fez sofrer, o meio em 2que viveu e tudo quanto o rodeava. Eu, embora da mesma família, sou doutra natureza e estou pensando no gozo que poderei proporcionar-vos dando-vos notícias de mim e deste meu tempo tão distante do vosso. Adeus, meus queridos tetranetos. Até o dia em que pegarem estas páginas.
Julho, 1985.
(Até aqui a introdução; a seguir, sob o título de “A varanda, observatório do mundo”, alguns trechos do trabalho de Rômulo de Carvalho/António Gedeão, a começar da página 21.)
Naquela longa varanda suspensa no espaço, pista de corridas, parque infantil, observatório do mundo, passei horas inesquecíveis. Recordo particularmente as noites de Verão, cálidas, cheirosas das flores da vizinhança, na meia obscuridade. Apagava-se a luz da casa de jantar, para poupar o gás e porque nem sequer se justificava o seu consumo. A mãe trazia uma cadeira para a varanda, e sentava-se, permanecendo com os olhos fechados e o seu sorriso de todas as horas. O pai ficava lá dentro a ressonar na sua cadeira de braços. A avó estava na cozinha a lavar a louça e as irmãs andavam por cá e por lá.
Cálida e cheirosa, a noite. O céu, azul-escuro repleto de estrelas cintilantes. Espetáculo maravilhoso de um firmamento que a civilização aniquilou. Não é saudosismo. Juro! Já não se vêem estrelas, à noite, nem nos céus de Lisboa, nem nos céus dos grandes aglomerados populacionais. Os gases da combustão da gasolina dos automóveis, dos óleos dos caminhões, do combustível dos aviões, a incessante fumarada das chaminés das fábricas, cobriram a cidade de um capacete denso que não se deixa atravessar pela fraca luz das estrelas.
O QUE ADIANTOU, PARA A HUMANIDADE, O ENFORCAMENTO DE SADDAM ?
Walter Galvani, em 04/01/2007
Acho que, nada. Como de nada serviu a invasão do Iraque, afiliada à mentira das mentiras...
Esta crônica foi publicada hoje no jornal "Diário de Canoas" (minha terra natal) do Grupo Editorial Sinos:
A MENTIRA DAS MENTIRAS
Walter Galvani
Não estou aqui para defender um tirano, ditador, assassino de opositores, nem tampouco para celebrar as qualidades de um fundamentalista. Respeito as opiniões alheias, mas a tal ponto, que não posso aceitar que me determinem (ou a quem quer que seja) qual deva ser a religião, credo político, preferência esportiva ou sexual. Sou contra ser contra. Portanto, não é Saddam Hussein a figura que gostaria de reverenciar. Justamente ele, um prepotente, arrogante, um tirano, como tantos outros que por aí pintam de democratas. O povo também erra e muito. É uma pena, mas apesar de que a democracia seja a melhor coisa que os gregos inventaram, não tem sido no seu aperfeiçoamento que temos trabalhado. Acho que nós, ocidentais, só a temos piorado. Adolf Hitler (lembram?) chegou ao poder pelo voto, eleito deputado e escolhido como líder do Partido Nazista. E tantos outros. Ainda está bem viva em minha memória a lamentável ação dos nossos militares (gente respeitável) quando foram empurrados por uma pressão popular, insuflada por grandes redes nacionais de televisões, a tomar o poder em 1964. Nem foi apenas no Brasil. Por outro lado, lembro a simpatia com que foram recebidos os guerrilheiros de Fidel Castro, entre os quais até padres havia e falo porque estive no estádio do River Plate em Buenos Aires em 1959, quando o povo gritava em uníssono “Fidel, Fidel! Viva Cuba Libre”. Por ingenuidade ou conveniência, aderimos. Dias depois, vi uma multidão subir a Calle Maipu no centro da grande capital argentina, gritando “Ditadura si, Democracia no!”...
Saddam foi julgado e condenado por um tribunal farsesco, amparado pelos invasores condenados pela ONU, usando a razão da força. Bush mentiu, todo mundo sabe disso, não havia armas nucleares no Iraque, alegada causa da ocupação. Saddam cometeu lá as suas, mas seus problemas eram internos, de sunita contra xiitas. O Iraque foi dividido e mais dividido ainda está agora. De qualquer jeito, Saddam Hussein merecia um tratamento mais adequado, como qualquer bandido recebe no Brasil. Aqui, mesmo confessando um crime hediondo, um assassino tem o direito de receber defesa pública, paga pelo povo, julgamento imparcial, corpo de jurados e até mesmo relaxam sua prisão preventiva se provar que tem moradia e ocupação ou família. Não acho que deva ser assim, mas condenar alguém a morte, executá-lo, filmar o enforcamento, colocar isso na Internet, é muito mais do que a imaginação pode aceitar. O comprometimento americano é indiscutível. Que diferença do país que acabou com nazismo na II Guerra que todos apoiamos.
Se Bush ainda não enxergou, espero que passem algum bilhetinho para ele, pode ser até coisa da Condoleeza Rice, que ponha na frente do “dono do mundo” a informação de que a melhor coisa seria voltar a criar gado no Texas a continuar o papelão de mais odiado de toda a humanidade.
Quanto a Saddam, um crime não se apaga com outro crime; já o disse até o Papa alemão, este que serviu a Juventude Hitlerista e aparentemente não se arrependeu,.
Exibir o crime cometido em nome da “mais poderosa nação da terra”, que não explicou como o prisioneiro que estava sob sua custódia pôde ser condenado naquele arremedo de julgamento e ainda exposto e humilhado com a divulgação do enforcamento pela Internet, é um absurdo contra a Humanidade. O que nos permite imaginar ao que estamos expostos, todos nós. Que Deus, Alá, Jeová e o Supremo Arquiteto do Universo nos livrem do mal, amém.
Walter Galvani, em 04/01/2007
UM BASTA À INSEGURANÇA
Walter Galvani, em 07/01/2007
No Brasil, não é mais possível conviver com a falta de segurança.
É preciso agir hoje.
Eis a crônica que publiquei hoje no jornal ABC DOMINGO, do Grupo Editorial Sinos:
TOLERÂNCIA ZERO
Walter Galvani
Desculpe leitor amigo, se estou escrevendo o óbvio. Peço que não me abandone. É que estes primeiros dias de governo novo (ou não tão novo) no país e no estado, me obrigaram a mergulhar no lago imenso do já ocorrido e a trazer de lá a idéia de que ou se martela no óbvio, ou nada vai acontecer. Fala-se numa Força Nacional no Rio de Janeiro, onde assaltam adoidado (mas não só lá e eis o óbvio de volta...)e isto, que é o mesmo que pedir a intervenção do Exército e é também o óbvio, já nem chama mais a atenção. O importante é que se concretize, mas não apenas na antiga cidade maravilhosa (antes faltava água de dia e luz de noite, hoje ninguém pode caminhar pelas ruas e avenidas, praias e outros locais de lazer. Todo dia o noticiário se enche de informações sobre assaltos a turistas e não-turistas, sendo que agora queimar passageiros indefesos fechados nas gaiolas de ferro dos ônibus, armadilha insuperável, passou a ser trivialidade .
No entanto, o furto, o roubo, o assalto, o seqüestro foi exportado para o país inteiro. Bons tempos em que se exportava a bossa nova e a última do malandro.
Chegamos ao Rio Grande do Sul, onde o novo governo, pela primeira vez entregue à uma mulher, estabelece um especialista no combate ao crime na pasta da Segurança, o dr. Enio Bacci, e embora no primeiro dia tenha havido o roubo emblemático do carro do sub-comandante da Brigada Militar, antes disso o carro que Yeda usava na campanha e agora o próprio vice-governador é assaltado numa sinaleira, ansiamos pela presença nas ruas, não só da BM, como do Exército Nacional.
Qualquer pesquisa feita aponta para paz e segurança, como itens prioritários nos desejos gaúchos. Depois é que vem o emprego, a educação e a moradia. Como a Segurança é uma questão exclusivamente do Estado, pertence ao Palácio Piratiní a primeira palavra.
Queremos, por pior que isso possa significar, tolerância zero. Como em Nova York que se tornou milagrosamente uma das cidades mais seguras do mundo, graças ao sistema implantado pelo então prefeito Juliani, de estabelecer penas para as mínimas faltas. Nada de concessões.
Isso quer dizer: estacionou em local proibido, guincho, multa pesada. Porque? Ora por que se forem toleradas as pequenas faltas, as médias e as grandes seguirão sendo cometidas.
Cuspir na rua, jogar lixo no chão, pequenos pecados veniais que passaram a ter tratamento radical.
E só assim a grande cidade americana alcançou o status atual de lugar seguro para se viver.
Com o exemplo que recebemos diariamente através da televisão, por exemplo, dos sangue-sugas, mensalões e outros "pequenos deslises" fica difícil, mas acho que a oportunidade é única: chegamos ao limite, usando uma expressão popular, "fundo do poço".
Portanto, é a hora. Mas é a hora de punir tudo, desde trafegar com alto-falantes acima do nivel de decibeis permitido, até bater a carteira do passante.
Cadeia, prisão sumária, formação de processo com prisão preventiva como acontece nos maiores países do mundo, como Inglaterra, França, Estados Unidos, Alemanha ou Japão. Ou seja, detenção sem culpa formada. Um perigo? Sim, um perigo, mas caminho único para restabelecer o reinado da paz e da segurança.
Para quem dúvida da eficácia disso, vamos lembrando o fato de que em certos casos, aplica-se. E aí, pode? Por quanto tempo ficaram detidos os pilotos americanos do Legacy, sem que se provasse a parcela de culpa que tinham eles na derrubada do avião da Gol?
Ano novo, vida nova, governo novo, vida nova.
É a vez da Yeda mostrar que é "macho" e ajudada pelos seus auxiliares começar a cortar de cima para baixo.
Sem o regime de tolerância zero, que precisa ser imposto, pois o caminho da Educação é longo e tortuoso, a nada chegaremos, mais uma vez.
E já que um baixinho disposto assumiu a pasta mais visada e controvertida, que ele tenha todo o apoio da sociedade para realizar o que é preciso.
Basta ler o noticiário dos jornais, antigamente abrigado nas chamadas colunas de "faits divers", mais adiante classificadas como "Editoria de Polícia" para saber que todo dia é dia de atrocidades no antigo país da cordialidade.
Não há po rtanto, mais tempo a perder.
Trata-se de uma guerra, uma guerra civil, sim, na qual estão empenhados os que perderam totalmente os conceitos de ética e só pensam em traficar, matar, roubar, ganhar dinheiro fácil e que agem com a maior naturalidade.
Não há mais cadeias suficientes, é verdade. Mas, é preciso provocar um imediato "boom" da construção civil, produzindo estabelecimentos adequados para a prisão de todos os indesejáveis.
Quanto à propagação do mau exemplo, nesse caso deve vigorar uma espécie de controle e responsabilidade dos próprios emissores.
Sem esta rigidez luterana de conceitos éticos, vamos acabar de volta no fundo da floresta. Só que, não esqueçam, os exemplos de corrupção já chegaram lá também...
Começar quando? Hoje. agora, já.
SEGURANÇA, SEGURANÇA, SEGURANÇA
Walter Galvani, em 12/01/2007
Preocupação número 1 do povo gaúchop.
Crônica publicada
no jornal "A Razão"
de Santa Maria:
FARDA NA PAISAGEM
Walter Galvani
Freqüentemente as autoridades que assumem funções se enganam na apreciação dos problemas, na maioria dos casos de propósito, ou por ainda não terem o distanciamento necessário para enxergar as questões mais urgentes ou pertinentes, ou por, casos raros de má fé, preferirem fazer de conta que elas estão mal colocadas pela população. O caso da Segurança é claro, pois, em qualquer levantamento de opinião pública, vai aparecer como o mais preocupante para todos. Depois da Segurança é que vem a Saúde e o Emprego.
Historicamente, sabemos que a presença da farda na paisagem é o maior inibidor de assaltos, furtos e roubos, mais ainda do que equipamentos eletrônicos, pois esses podem ser eventualmente danificados. Já o guarda inspira respeito, armado ou desarmado, a pé ou a cavalo, de automóvel ou helicóptero.
Assim sendo, é, pelo mínimo, curiosa a reação de um autoridade pública do governo da Yeda Crusius, que vem a público dizer que, pela estatística se percebe que num cruzamento qualquer ou praça pública, não ocorrem há muito tempo delitos, portanto, não se justifica mais a presença ali de policiais. Ledo engano, visão errônea, ou má fé. Se não há delitos ali, é justamente porque os bandidos sabem que há guardas nas proximidades e o que a estatística demonstra é, justamente, que esse fato constrangeu-os.
Ora, o que se quer é que não ocorram atos delituosos em qualquer esquina das cidades, mesmo na sinaleira da Av. Nilo Peçanha com Mal. Andréa, onde o divergente vice-governador Paulo Feijó teve que deixar o celular, alguns trocados e os documentos. Longe de mim pensar que o assalto foi “oficial”, mas sem dúvida parece encomendado por quem acha que a Segurança é fundamental para um bom governo. Tanto que já haviam furtado o carro de Yeda, na campanha política, e inauguraram o novo governo com o roubo do carro do vice-comandante da Brigada Militar. O que os bandidos querem dizer, mesmo acertando o alvo involuntariamente, é que estão dispostos a continuar roubando, matando, seqüestrando, pois não acreditam na eficiência do aparelho do Estado.
Pagando mal seus funcionários, atrasando os salários, ameaçando seus colaboradores é que ficará difícil para Yeda governar, mas é preciso que ela tenha bons assessores e não apenas gente disposta a dizer “sim senhora!”
Ora, dizer que vão retirar os guardas dos pontos mais visados, é informar a bandidagem que pode agir impunemente naqueles locais que, naturalmente surgirão em próximo levantamento, como os mais perigosos da cidade.
O que é preciso é que, em todo o estado, e não apenas na capital, se tenha um correto levantamento dos pontos mais frágeis, para estabelecer ali o sistema preventivo.
Mas, é sempre assim quando se começa um governo. Como o único caminho é o sistema de testar e aprender errando, pois não há pontes entre os governos, mesmo quando são da mesma tiragem, há uma perda de tempo, recursos e esforços.
O jeito é esperar que em Santa Maria ou Porto Alegre, São Lourenço ou São Sepé, Caxias ou Tramandaí, a atenção do estado se distribua pelos pontos mais sensíveis e consiga fazer uma aplicação coerente e equilibrada dos seus serviços.
Só assim será possível atender o ponto número 1 das reivindicações populares, mesmo que tenha que se chamar o “exército nacional”. Sem isso, uma vez que a ética naufragou nos meandros da corrupção da política no país, não há como garantir a paz e a tranqüilidade que necessitamos todos, para os próximos anos.
GUERA E PAZ
Walter Galvani, em 14/01/2007
Crônica a ser publicada na edição do ABC Domingo
O CONCEITO DE PAZ
Walter Galvani
É inacreditável que o presidente de uma nação desenvolvida proponha como plano de paz, o aumento do efetivo numa guerra de intervenção, distante de sua sede, para defender indiscutíveis interesses econômicos – leia-se reservas e preços do petróleo – e, no entanto, mantenha-se no poder. Por maiores que sejam os apoios políticos que possa ter – e não é o caso de Bush, nos Estados Unidos, pois já alcançou o poder capengueando, com votos recontados em plena madrugada – nada justificaria uma atitude de continuar bombardeando e metralhando, matando e fazendo vítimas entre os inocentes, matando mulheres e crianças, para sustentar-se no poder como Senhor da Guerra e amparar as firmas americanas que trabalharão na “reconstrução do Iraque”, leia-se subsidiadas pelo próprio governo para fazer grandes negócios.
Trata-se de uma coisa tão nojenta, tão despida do mínimo de racionalidade e ética, de tanto primarismo, que chego a me perguntar: mas e os cidadãos americanos, o que fazem, se é que podem fazer alguma coisa? Pois, não fazem nada. Talvez batam palmas, no recesso dos seus lares, assistindo suas televisões gigantes, amortecidos pela burrice e pela tradicional ignorância das coisas do mundo que os caracteriza.
É incrível, mas, sem fazer generalizações, é um espanto que uma nação tão poderosa se mantenha na face da terra e com governantes tão idiotas como Bush e um povo tão alienado quanto esse. Mas, assim é, e o pior é que nos tocou assistir à esta avalanche de burrice.
Pergunto-me se durante o Império Romano sucedeu a mesma coisa. Terá sido também a prevalência da lei do mais forte e só isto, ou o império nascido no Lacio conseguiu levar alguma civilização e procedimentos urbanos à longínquas povoações? A História nos diz que não, que não é seguramente o americano uma repetição do romano. Apenas na pretensão de ser Império, isso sim, mas o pior é que não estamos livres deles. (Todos os dias se lê na Internet a tal história de que a Amazônia já é identificada como uma área internacional e não menos do que isso.) Havia então o conceito de Pax Romana, é verdade, e isso queria dizer aceitar as condições de dependência, colaborar para a cobrança de tributos, aceitar as leis romanas e conservar as estradas. Lembram do provérbio, “todos os caminhos conduzem à Roma”? Sim, Roma era a capital do império. Teria sido melhor ou pior?
Não estamos aqui para escolher dominadores melhores ou piores. São dominadores e pronto. Ocupadores, Invasores de território, como é o caso do Iraque.
O que poderíamos dizer a Bush? Tire as suas mãos sujas daí? No caso do futuro da Amazônia, o que poderemos dizer? Ou vamos fechar os olhos ao que acontece no Iraque, ou ao que ocorre agora em Cuba, onde se “festejam” cinco anos da prisão política e cruel de Guantanamo?
Mais soldados americanos para morrer no Iraque significa mais um eufemismo, pois quem vai morrer lá serão os latino-americanos que, em troca de um “green card”, permissão de moradia e trabalho, arriscam-se a engrossar as fileiras das tropas de ocupação.
Condenados pela ONU, pela opinião pública do mundo inteiro, mesmo assim, conduzidos por um títere das grandes forças industriais e comerciais do país, Bush, os americanos continuam praticando o mal de todos os males. Até quando? Talvez até o fim dos tempos, não tenho muitas ilusões. O pior é que o domínio dos segredos atômicos difundiu-se e daqui a pouco uma Coréia do Norte ou um Irã decidem desestabilizar o mundo de uma vez por todas. A solução é força à ONU, nosso destino está em mãos da Organização das Nações Unidas, a única salvação.
MAIS UMA VEZ, BRASIL, A INSEGURANÇA...
Walter Galvani, em 18/01/2007
Crônica publicada hoje no "Diário de Canoas", do Grupo Editorial Sinos
NINGUÉM MERECE...
Walter Galvani
Os bandidos levantam cedo. Ou não dormem. É a primeira constatação que faço, ao saber que eles chegaram às seis da manhã à agência Bradesco, sabendo que ela só abriria às 10 horas e contando, portanto, com quatro horas para desenvolver o seu plano. Tem mais: eles não ligam a mínima para as declarações do comandante do 15º Batalhão da Brigada Militar que se queixou dos postos de auto-atendimento. Ele não gosta deste modernismo pois facilita a ação dos ladrões... Pelo menos é o que se deduz de suas afirmações. “Deu” no Diário: “É tudo muito bonito, mas facilita a ação dos bandidos, que sabem quem entra e quem sai dos estabelecimentos”.
Em primeiro lugar, o assalto à agência nada tem a ver com postos de auto-atendimento, mas em segundo lugar, é preciso habituar-se ao progresso, ao desenvolvimento tecnológico, até admitir que os bandidos também fazem estudos, planejamentos, que se habilitam, que fazem cursos de pós-graduação em furtos e roubos, enfim, desenvolvem toda uma técnica que nos autoriza a pedir o aumento dos efetivos policiais e a presença, sempre, da farda na paisagem.
O tal bando passou quatro horas dentro da agência do banco escolhido para ser assaltado em Canoas e seus integrantes mostraram-se calmos, com o domínio da situação, até acalmaram duas funcionarias grávidas e nem sequer disfarçavam a voz ou tapavam o rosto.
O nome disso é audácia e impunidade.
Sabem eles que no Brasil não vai acontecer nada, que daqui a pouco, se é que serão detidos, serão libertados para continuar em sua profícua atividade, e nem sequer se dão mais o trabalho de ocultar os rostos.
Afinal de contas não vêem eles na televisão políticos sanguessugas ou gente que esconde o dinheiro nas cuecas e que se exibe para as câmaras? No entanto os ladrões de galinha em geral tapam o rosto com uma camiseta suja e rasgada, pois não querem ser filmados e fotografados.
O assalto se deu na rua Fioravante Milanês, conheci o próprio, o homenageado, e é uma pena que o seu nome seja lembrado numa hora dessas por tal fato. Mas, se vivo fosse, tenho certeza que o “seu” Fioravante ia fazer um comentário mais ou menos assim: “Mas a Brigada não estava fazendo uma “blitz” no centro? Até pararam o carro que mais tarde os bandidos usaram para fugir para Porto Alegre levando o dinheiro!”
É, “seu” Fioravante, mas os tempos são outros... Os bandidos agora andam de cara limpa e fazem o seu “trabalho” com perícia técnica, organização e planejamento. Fogem em carro roubado, levando o dinheiro e passam na frente dos policiais que, cansados da “blitz” em cima dos motoqueiros, festejavam o sucesso da sua “operação”. Os fatos são esses, o que não cabe é ficar fazendo “blitzen” (este é o plural da palavra alemã) ao invés de fiscalização permanente. Quem faz “blitz” é porque não tem condições de atuar de forma contínua. Os bandidos também sabem disso. E quando a BM se cansar de seguir esta linha demagógica que, aliás, orienta as ações de todo o aparato estadual, voltaremos aos tempos de sempre.
O que é preciso é farda na paisagem. Permanentemente e não apenas na hora da “blitz”. Aliás, lembrem-se que os inventores da palavra, os criadores da “blitz-krieg” perderam a guerra...
Não há de ser com aparições bombásticas ou intervenções espetaculares que se dominará o território que a bandidagem ocupou. Pague-se mais e melhor aos soldados, aumente-se o efetivo, criem-se leis mais duras e que possam ser aplicadas. Só o fim da impunidade em todos os níveis, tornará o Brasil no famoso paraíso que todos, os que trabalham, modestos e humildes, ambicionam.
O FUTURO DO MERCOSUL PASSA PELAS QUESTÕES POLÍTICAS E DE SUPREMACIA NAS AMÉRICAS
Walter Galvani, em 21/01/2007
Crônica publicada hoje no ABCDOMINGO
BAGUNÇA OU PROGRESSO?
Walter Galvani
Não é preciso lidar com numerologia ou ser adivinho, para perceber que o Mercosul, ou está com os dias contados ou vai acabar num grande impasse que pode ser decisivo para sua existência. A formação de blocos continentais é um caminho irreversível e basta lançar um olhar ao mapa do mundo para compreender que Europa é uma opção, com seus penduricalhos externos tipo ex-colônias ou Estados Unidos da América (que não deixa de ser uma ex-colônia inglesa, aliás...) e o renovado afluxo do leste europeu (antigo conjunto comunista). Outro é a Ásia, pelo extraordinário desenvolvimento do Japão e de alguns outros enclaves de progresso, tipo Indonésia ou Filipinas e finalmente o gigante China, que só pelo número nos assombra.
África é hoje um mercado em potencial, muito distante dos paraísos de consumo que habitamos ou que nos circundam, comparados com os miseráveis países africanos, onde despontam, sim, alguns inesperados bolsões de riqueza, como a África do Sul ou certas regiões do Egito, Argélia, Tunísia, Angola, Moçambique.
Mas e a América do Sul e seu outrora promissor Mercosul? É justamente aí que reside a principal dúvida mundial. A instabilidade política e emocional foi causada pela posição do presidente Hugo Chávez que governa agora amparado pela “Lei Habilitadora” que lhe permite o uso de decretos sem contestação, transformando-o num ditador de fato, assentado ainda sobre os super-poderes do petróleo. Não dou um centavo pela estabilidade política futura da Venezuela que será minada pelos que entendem que só é possível tolerar tal potência e prosperidade se estiver fundamentada no exercício pleno da democracia aos moldes ocidentais, ou seja, dentro dos princípios que aprendemos como palatáveis e que consistem em funcionamento de parlamentos e existência de oposição.
Sem isso não será possível, também, aceitar a existência de um mercado comum e muito menos ainda de uma futura unificação que nos leve, como ocorreu na Europa, à uma moeda única, saudável e livre de inflação e contratempos de golpes e anti-golpes, revoluções e contra-revoluções.
Duvido que o Mercosul tenha longa vida, a menos que se produza uma radical mudança na situação atual.
Os próprios diplomatas brasileiros, em carreira ativa ou aposentados, estão se manifestando para dizer que, do que compreendem de sua profissão, o Mercosul não escapa do fuzilamento ou da forca. Alguns chegam a dizer que “virou uma bagunça”.
As disputas pela liderança do bloco, principalmente entre Brasil e Argentina, viraram figurinhas de histórias em quadrinho, não mais a competente e hostil competição, que nos levou à beligerância em certos momentos, mas também à uniões militares e políticas históricas, como na Guerra contra o Paraguai no século XIX ou na criminosa Operação Condor do século XX para fortalecimento das ditaduras militares direitistas.
Fidel Castro foi a estrela do século passado e o exemplo pesou demais na balança para os Estados Unidos que se apresentam perante o mundo como líderes naturais do continente americano, mas que não toleram subversões da ordem estabelecida pelo capital e pela sua visão de democracia. Por muito menos desembarcaram “mariners” nos paises centro-americanos. Tomem nota: a bacia do Orenoco pode ser o próximo objetivo militar americano, mesmo com o desgaste mundial por causa da fracassada invasão do Iraque, onde o desenlace de Saddam Hussein acabou por se constituir numa pedra a mais no fracasso de Bush.
O pior ainda está por vir. Quanto ao Brasil, será preciso muito equilíbrio, sangue frio e compreensão do seu verdadeiro papel na América do Sul. Qualquer precipitação emocional pode nos colocar numa posição irreversível.
LULA, O PRESIDENTE DA COCA COLA E DAVOS
Walter Galvani, em 28/01/2007
Lula não foi à Nairobi. A crônica hoje publicada no ABC e em outros veículos de comunicação,trata das mudanças do nosso antigo lider operário.
LULA E O PRESIDENTE DA COCA
Walter Galvani
Em Davos, no Fórum Econômico Mundial, estiuvervam presentes mais de 900 diretores de grandes empresas, entre os quais os da Microsoft, da Coca-Cola, da Nestlé e da Renault. Nada mais emblemático do padrão dos homens que se reuniram, e entre eles é claro, o “mais rico do mundo”, com os chefes de estado e nada mais natural do que terem trocado impressões, informações e, como no caso de Lula, almoçado ou jantado juntos. Lá pelas tantas nosso antigo metalúrgico a quem falta um dedo perdido numa operação mecânica que hoje não se faz mais, deve ter comentado com o presidente da Coca, “você viu que delícia estão estas trutas?” Nada mais normal do que isso, num encontro de líderes e portanto aceitável para a convivência de representantes dos estados convidados ao Fórum Econômico na Suíça. São os novos tempos.
Lá pelas tantas vi que Lula disse que é preciso que “os países ricos tenham mais consciência na aplicação de recursos no Terceiro Mundo e saber que isso gera emprego e riqueza, e melhorias na qualidade de vida.” Ele disse também que “é na possibilidade de aumento econômico, na geração de emprego, na distribuição de renda que nós vamos viver um mundo mais tranqüilo.”
Pensei que era o Fernando Henrique falando. Até por isso também: “Eu tenho dito a todos os dirigentes latino-americanos que nós temos de parar de viajar pelo mundo chorando a nossa miséria e apontando culpados pela nossa desgraça.”
Tais declarações não ficariam melhor na boca de vários empresários primeiro-mundistas ou líderes políticos da União Européia, ou Japão, Estados Unidos ou alguns emergentes que se sobressaem? A surpresa é que vieram de Lula, nosso caro fundador do PT, e parece afinar-se pela nova realidade que também atinge os trabalhadores. Com a globalização da economia que não pode ser mais negada ou simplesmente rejeitada como uma excrescência política, nasceu a necessidade de organizações transnacionais dos sindicatos, organizações e reivindicações que, apesar das diferenças nacionais ou regionais procuram agora se instrumentar para agir também globalmente. Conseqüências da modernização.
Precisamos também de novos líderes, de novos sindicatos, de partidos políticos mais atentos ao mundo e menos paroquiais, políticos mais adultos e menos envolvidos em questiúnculas “pontuais”.
A velocidade com que se produzem hoje as mudanças traz em seu processo uma espécie de vertigem a que se submete toda a sociedade. Não é fácil imaginar o futuro, mas a decodificação do que está por vir transformou-se numa tarefa estratégica que pode fazer a felicidade ou a riqueza de um país. Estaremos prontos para isso? Ao invés de ficar lamentando a ausência de Lula no Fórum Social Mundial do Quênia, ou de festejar a sua atuação elegante em Davos, não seria o caso de tentar ler o que está nas entrelinhas dessa sua inesperada “conversão” para a mesma linguagem dos seus antigos opositores?
Em literatura costuma-se chamar de auto-ajuda o tipo de livro que contém conselhos, normas de comportamento ou orientações, para que o indivíduo enfrente melhor os desafios do dia-a-dia, das relações pessoais e familiares. Eis uma linha aberta para os países, partidos, políticos e funcionários públicos...
O que virá por aí, depois da ascensão de Índia e China e do que estão chamando de “segunda camada”, onde nos incluímos ao lado da Coréia do Sul, da nova Rússia ou da Indonésia?
É o que veremos nos próximos capítulos desta empolgante novela que transitou pela impecável e asseada Suíça e terá desdobramentos pelos locais mais inesperados.
A MODA NO BRASIL É TER, A Mão, um plano B
Walter Galvani, em 01/02/2007
Crônica publicada hoje no jornal DDiário de Canoas, do Grupo Editorial Sinos.
O PLANO B
Walter Galvani
Todos sabemos, na gíria que predomina hoje, junto com algumas palavras incorporadas do “economês” como “perfil da dívida” e “pró-ativo”, psicologicamente nos garantimos contra os embates da vida com o “Plano B”. Até a Yeda Crusius já tem (e anunciou publicamente) seu “Plano B”, o que significa que, se não der para governar da maneira que imaginou, lançará mão de outra estratégia. Em nossa vida pessoal, estamos aptos, também, para lançar mão do nosso “Plano B”. O que não dá mais é ficar de braços cruzados esperando que os céus resolvam nossos problemas. De um modo geral, nem Jesus Cristo ajuda, nem São Pedro, nem anjos ou arcanjos. Ninguém, nem aqui nem no plano superior, parece disposto a solucionar as questões para quem não se ajuda de forma, digamos, “pró-ativa”...
Sabendo disso, a Yeda começou a correr também e já fala até em “reavaliação dos benefícios fiscais”, o que significa revisar todos os benefícios porventura ainda franqueados no Rio Grande do Sul, como por exemplo isenções, descontos no pagamento do ICMS e reduções de imposto. Tem gente que ainda acredita que Yeda está assim porque empunha uma vassoura nova e por isso varre com tanta pressa e proficiência (outra palavrinha que veio do economês direto para o nosso dia-a-dia). Ela também fala que vai cobrar o que devem ao estado e nisso inclui particulares, outros parceiros e governo federal, nada que não tenha sido dito pelos governos anteriores, mas seguramente algo que ficou na palavra dos antecessores dela.
O que não é prioritário vai dançar, é claro, e o que é melhor de tudo, o ano que vem, 2008, vai começar (se tudo der certo) com o governo enxuto e realizador, nas mãos do sonhado gerente (razão principal da votação inesperada da Yeda, tão inesperada que derrotou Germano Rigotto).
Mas, não é mesmo uma boa oportunidade de se repensar a própria vida?
Todos nós temos que ter em mãos nosso Plano B e também temos a obrigação de ser pró-ativos e resolver nossas questões pessoais. Se a nossa despesa está maior do que a receita é preciso fazer um corte imediato. Como a Yeda está fazendo, eis uma boa lição que ela nos traz, como professora de Economia que afinal de contas, é.
E também será preciso, tal como a Secretaria de Segurança em mãos do Dr. Ênio Bacci, agir com ”tolerância zero”. Sei que qualquer dia desses posso pagar uma multa por haver parado em local proibido. Foram apenas 30 segundos, para trocar de motorista, mas ali não podia. Não pretendo me defender, mas, sim, cumprir com o que for determinado e não será, por certo, isenção.
É bom que os infratores e os delinqüentes saibam que não há o propósito de “aliviar”. E aos poucos nos acostumaremos, todos, a respeitar o que a coletividade estipulou em suas leis e regulamentos.
Há maus cidadãos? Sim, mas o objetivo é que todos se transformem, nem que isso leve tempo, em bons. Os criminosos se organizam? A Polícia deverá estar mais bem organizada e equipada para reagir em nome da coletividade.
Não cabe discutir questões como a crueldade nos crimes ou os excessos na repressão. Para isso existem as leis. Bem ou mal, elas formam um conjunto de ganhos por parte da sociedade que começou há alguns milhares de anos e veio se consolidando na cultura dos países ocidentais e orientais, estabelecendo um modo de procedimento que só nos engrandeceu.
Você já tem o seu Plano B? Pois é, convém... Pelo menos psicologicamente é preciso estar preparado para o que vem pela frente e em tempos tão difíceis como o nosso, a tendência é pelo crescimento dos problemas.
A MODA NO BRASIL É TER
UM PLANO B...
Walter Galvani, em 01/02/2007
Crônica publicada no Diário de Canoas, do Grupo Editorial Sinos.
O PLANO B
Walter Galvani
Todos sabemos, na gíria que predomina hoje, junto com algumas palavras incorporadas do “economês” como “perfil da dívida” e “pró-ativo”, psicologicamente nos garantimos contra os embates da vida com o “Plano B”. Até a Yeda Crusius já tem (e anunciou publicamente) seu “Plano B”, o que significa que, se não der para governar da maneira que imaginou, lançará mão de outra estratégia. Em nossa vida pessoal, estamos aptos, também, para lançar mão do nosso “Plano B”. O que não dá mais é ficar de braços cruzados esperando que os céus resolvam nossos problemas. De um modo geral, nem Jesus Cristo ajuda, nem São Pedro, nem anjos ou arcanjos. Ninguém, nem aqui nem no plano superior, parece disposto a solucionar as questões para quem não se ajuda de forma, digamos, “pró-ativa”...
Sabendo disso, a Yeda começou a correr também e já fala até em “reavaliação dos benefícios fiscais”, o que significa revisar todos os benefícios porventura ainda franqueados no Rio Grande do Sul, como por exemplo isenções, descontos no pagamento do ICMS e reduções de imposto. Tem gente que ainda acredita que Yeda está assim porque empunha uma vassoura nova e por isso varre com tanta pressa e proficiência (outra palavrinha que veio do economês direto para o nosso dia-a-dia). Ela também fala que vai cobrar o que devem ao estado e nisso inclui particulares, outros parceiros e governo federal, nada que não tenha sido dito pelos governos anteriores, mas seguramente algo que ficou na palavra dos antecessores dela.
O que não é prioritário vai dançar, é claro, e o que é melhor de tudo, o ano que vem, 2008, vai começar (se tudo der certo) com o governo enxuto e realizador, nas mãos do sonhado gerente (razão principal da votação inesperada da Yeda, tão inesperada que derrotou Germano Rigotto).
Mas, não é mesmo uma boa oportunidade de se repensar a própria vida?
Todos nós temos que ter em mãos nosso Plano B e também temos a obrigação de ser pró-ativos e resolver nossas questões pessoais. Se a nossa despesa está maior do que a receita é preciso fazer um corte imediato. Como a Yeda está fazendo, eis uma boa lição que ela nos traz, como professora de Economia que afinal de contas, é.
E também será preciso, tal como a Secretaria de Segurança em mãos do Dr. Ênio Bacci, agir com ”tolerância zero”. Sei que qualquer dia desses posso pagar uma multa por haver parado em local proibido. Foram apenas 30 segundos, para trocar de motorista, mas ali não podia. Não pretendo me defender, mas, sim, cumprir com o que for determinado e não será, por certo, isenção.
É bom que os infratores e os delinqüentes saibam que não há o propósito de “aliviar”. E aos poucos nos acostumaremos, todos, a respeitar o que a coletividade estipulou em suas leis e regulamentos.
Há maus cidadãos? Sim, mas o objetivo é que todos se transformem, nem que isso leve tempo, em bons. Os criminosos se organizam? A Polícia deverá estar mais bem organizada e equipada para reagir em nome da coletividade.
Não cabe discutir questões como a crueldade nos crimes ou os excessos na repressão. Para isso existem as leis. Bem ou mal, elas formam um conjunto de ganhos por parte da sociedade que começou há alguns milhares de anos e veio se consolidando na cultura dos países ocidentais e orientais, estabelecendo um modo de procedimento que só nos engrandeceu.
Você já tem o seu Plano B? Pois é, convém... Pelo menos psicologicamente é preciso estar preparado para o que vem pela frente e em tempos tão difíceis como o nosso, a tendência é pelo crescimento dos problemas.
JÁ SE PENSA EM 2010...
Walter Galvani, em 04/02/2007
Crônica publicada hoje
no jornal ABC DOMINGO
do Grupo Editorial Sinos
FOI DADA A LARGADA!
Walter Galvani
Os que acompanhavam nos velhos tempos, as entusiasmadas transmissões de corridas de cavalo, principalmente na voz de Ruy Vergara Correa, sabem o significado desta expressão que intitula a crônica de hoje: “Foi dada a largada! Assume a ponta o cavalo Estensoro...” e por aí seguia o locutor, vibrante a descrever as ultrapassagens ou no caso exemplar, a liderança mantida “de ponta a ponta” (eis outra expressão idiomática que o turfe nos legou) até que os cavalos cruzassem “o disco de chegada”. E, às vezes, apenas uma cabeça (como na letra do tango argentino mundialmente tornado famoso na voz de Carlos Gardel, “por una cabeza”)... separava o vencedor do segundo colocado.
É o páreo, iniciado ontem, com Arlindo Chinaglia na liderança. Ele correrá uma competição que tem dois anos, mas que representarão quatro, pois preparam a eleição presidencial de 2010. Ora, dirão vocês, “mas o Lula recém emplacou o segundo mandato”; é, mas já se fala em emendas constitucionais que poderiam permitir o terceiro, além de que por trás do eleito, estão nomes consideráveis para esta futura corrida eleitoral, José Serra e Aécio Neves, os poderosos governadores de São Paulo e Minas Gerais. Não, não se trata de recordar romanticamente a política do “café com leite”, a que foi expurgada por Getúlio em 30, consolidada pelo amassamento da “revolução constitucionalista de 32” e o longo mandato ditatorial, mas percebe quais são os “cavalos” que se aproximam e procuram se manter no “pelotão de vanguarda”. É claro que poderão surgir outros competidores, a vida reserva muitas surpresas pelo caminho e até, porque não? – “as intermitências da morte” como escreveria José Saramago.
Entre outras coisas, Chinaglia vai preparar o exame da proposta de transformar em voto aberto o que era secreto e em secreto o que era aberto, vai examinar as questões de encaminhamento de “impeachment” do presidente, que sempre podem ocorrer, e mesmo o exame do regime parlamentar que é uma das propostas, e pasmem! – terá apoio até de Fernando Collor que voltou à vida política como senador, depois de 14 anos de cassação dos direitos.
Se a nossa vida política voltasse ao parlamentarismo que já vigorou em duas oportunidades no país, uma brilhante, durante o império, com Pedro II sobretudo e outra, lamentável, porque nela não acreditava nem o presidente, mera solução política para permitir a posse de João Goulart, derrubado pelo movimento militar de 64, que durou menos de três anos e teve vários “primeiros-ministros”. Mas é o regime preferido de “nove entre dez estrelas” da política internacional. Presidencialismo, quase sinônimo de ditadura para a maioria, só em países pobres como os Estados Unidos, digo pobres, não de riquezas materiais, mas de ideais políticos, ou pobres mesmos ou ricos demais, o que talvez seja o caso citado...
“Assim é, se lhes parece”, diria Luigi Pirandello, um dos maiores autores teatrais de todos os tempos, da época em que se respeitava texto no teatro.
E para terminar, não querendo ser muito saudosista, já que comecei citando Ruy Vergara Correa e passei por Carlos Gardel, Pirandello, João Goulart e Dom Pedro II, (acho melhor lembrar que Hitler também chegou ao poder pelo parlamentarismo), e num país de difícil compreensão, o PT se une com o PSDB e na semana seguinte desfaz sua união para ligar-se ao PC do B ou desse desligar-se, apesar de considerá-lo “aliado histórico”, fica difícil prever o que aconteceria. Chega de futurologia, vamos aguardar que os atuais “cavalos” cruzem o “risco de chegada”.
LIÇÕES DE VIDA
Walter Galvani, em 06/02/2007
Como proceder na áea financeira
BIMESTRAL, UM HÁBITO FINANCEIRO
Tudo o que a nova governadora do estado do Rio Grande do Sul apresenta em sua iniciante administração, serve para modelo dos particulares que, como cidadãos modestos e contribuintes obrigatórios, precisam se adaptar aos sistemas econômicos e financeiros implantados por ela.
Assim, a melhor novidade administrativa, que apenas obedece a Lei da Responsabilidade Fiscal (estranhamente grifada pela Imprensa local, como “nunca cumprida no Rio Grande”) é a de que “a cada dois meses é preciso apresentar um balanço da situação.”
Yeda Crusius já disse que só paga, quando houver dinheiro em caixa. Ou seja: entrou dinheiro, há disponibilidades, paga-se o que se deve. Caso contrário, explica-se ao cidadão, ao prestador de serviço ou funcionário, à instituição ou entidade que estiver cobrando algo, que só será possível pagar quando entrar dinheiro.
Isso se ajusta como uma luva às necessidades particulares. Eu mesmo já estabeleci: só pago quando tiver recebido, trabalho com um rígido orçamento, e dele não me afastarei. Sem essa de deixar que a conta bancária vá pra o vermelho, só para honrar compromissos. Sem o dinheiro tilintar no caixa, não pagarei mais nada. Não me tomem por caloteiro, pois trabalho muito organizadamente e não devo nada a ninguém, mas claro que já tive, como todo bom brasileiro, meus momentos de aperto. Saí das dificuldades arrochando o cinto. Já passei um ano inteiro vivendo do gasto mínimo possível para não ampliar o perfil da minha dívida e não me envergonho disso, até porque aprendi e saí do sufoco.
Quanto ao Modelito Yeda, achei ótimo e já comecei a aplicá-lo: “devo, não nego, só pago quando puder”, é, em outras palavras, a filosofia econômica do novo governo e vou imitá-lo. Copío tudo o que acho certo. E vejam só que modelar posicionamento diante dos fatos econômicos: “A Lei de Responsabilidade Fiscal diz que é preciso esperar dois meses para se ter uma dimensão do realismo entre receitas e despesas.”
Palavra de governadora. Apliquemos isso em nossos mundinhos particulares.
A LUTA CONTINUA
Walter Galvani, em 05/03/2007
Crônica publicada
no ABC DOMINGO ontem e hoje, segunda, em A Razão, de Santa Maria
DÁ PARA MELHORAR
Walter Galvani
Como já se viu, o policiamento, a farda na paisagem, a intervenção imediata das forças da ordem, o rigor, toda esta soma de providências nascidas na resposta à maior preocupação da população, a Segurança, já deu resultados práticos. Em dois meses de administração da Yeda, que começaram com o desafio dos criminosos roubando os próprios carros dela e de alguns oficiais superiores, transformando o vice-governador em alvo de assalto a duas quadras do colégio Anchieta, numa das avenidas mais movimentadas da capital, os números apontam para a reversão do quadro. Conclusão: embora, daqui para a frente possa se imaginar que vai aumentar a audácia dos criminosos, também é garantido que a Polícia, com o apoio do povo, crescerá em suas condições de defesa da pessoa e do patrimônio.
Embora o crime organizado se sofistique, o crime comum, este sobe ao natural, pelo aumento da população. Mas, com a Polícia na esquina, diminui a falsa "coragem" dos criminosos e estes andam emigrando possivelmente para outros estados.
Já se viu, também pelos números dos dois primeiros meses, que o interior, outrora doce refúgio, convive hoje com inesperadas taxas de violência. Vamos dividir isso, mas vamos também reprtir a atenção da Brigada Militar e da Polícia Civil. Possivelmente com a ajuda da Justiça, pois, se o Senado e a Câmara tremem, diante da pressão das bases e não querem aprovar as medidas de aumento da responsabilidade criminal, esperadas por todo o povo brasileiro, também se sabe que os eleitores saberão responder nas próximas eleições...
Homicídios diminuíram em 5,5%, seqüestros relâmpagos em 13,7%, furtos de veículos em 19,2%, bem como o tráfico e a posse de entorpecentes. Baixou também o índice de furtos em bancos, no percentual de 56,4%
São ótimos números. Queremos saber agora é o índice de prisões, mortes de bandidos, condenações por parte da Justiça, aumento de penas para os que devam ser puni dos. Ou seja: aumentar a pressão sobre o crime.
Tudo isso vai desembocar numa necessidade: que o resto do país imite o Rio Grande. Não somos egoístas e queremos que todo o Brasil se livre dessa violência que nos prejudica sob todos os pontos de vista e desmente (vide Rio de Janeiro, Espírito Santo e outros) a fama do "brasileiro cordial".
Ainda nesta semana, bandidos mataram três turistas franceses no Rio.
Festejar as novidades, como "a queda no roubo de carros", não é a única coisa que deveremos fazer.
Precisamos aumentar as dotações para a segurança pública e para isso as empresas são convidadas a assumir a sua parte. A garantia do patrimônio implica na garantia das vidas humanas dedicadas ao trabalho. Para que se saiba que trabalhar vale a pena, também deveremos lutar pelo aumento dos vencimentos dos trabalhadores.
E por fim, mas não por último, lembrar que os meios de comunicação, com destaque absoluto para a televisão, devem colaborar com esta cruzada d e salvação nacional, deixando de exibir detalhes e dar destaque a criminosos. Basta! Estamos cheios desse procedimento vil e esperamos que o produto sangrento do roubo e do crime, não continue enriquecendo falsos empresários.
Walter Galvani, em 05/03/2007
LULA AGORA BATE
PÊNALTIS...
Walter Galvani, em 12/03/2007
E se dá com Bush e faz concessões às multinacionais e diz que entende o mundo econômico moderno e que...
Crônica publicada neste final de semana, primeiro no ABC DOMINGO e depois em A Razão, o grande diário de Santa Maria
LULA GOLEADOR
Walter Galvani
Foram dois pênaltis que Lula converteu em gols no goleiro Sérgio Cabral, governador do Rio. Ampliando a metáfora, foram os gols que ele conseguiu marcar no povo brasileiro, com suas últimas atitudes em que combina a malícia do jogador brasileiro, com a sua habilidade individual e a característica fuga a manutenção de posições. No futebol isso tem feito a glória e o sucesso profissional para nossos jogadores. Na política, não sei... Você votaria hoje em Lula, se ele se apresentasse como paladino dos oprimidos, dos sem-nada? Ou você votaria nele por representar o comedimento, a tolerância, a compreensão dos problemas brasileiros, no molho da adequação e da conveniência?
No gramado do “maior estádio do mundo”, preparado para a final da Copa de 50 que o Brasil perdeu em casa por excesso de confiança e desprezo pelo adversário (Uruguai, 2 x 1, 1950), Lula, sem sapatos, calças arregaçadas, chutou três bolas contra o gol de Sérgio Cabral. Marcou dois e perdeu um. É exatamente o que ele está fazendo com o povo brasileiro. Chuta uma bola daqui, outra dali e vai convertendo umas, perdendo outras, mas vai levando o jogo, agora já no segundo tempo. Há gols perdidos (ou contra) como o da derrubada da Poupança, gol da Febraban, por exemplo, de difícil recuperação. Como é que eu, contribuinte pequenino e ferrenho defensor da minha caderneta, vou agir depois dessa? Ainda bem que ele não expropriou meus recursos como o Fernando Collor que, aliás, é agora seu aliado político.
Há muitos gols perdidos, muita bola fora. Por exemplo: a destruição da Amazônia, a transformação de nossas matas em ninhos da monocultura, de olho nos recursos provenientes do reflorestamento artificial, da “eucaliptação” dos nossos campos! Gol das multinacionais, as mesmas que Lula condenava nos tempos em que ajudou a fundar o PT. Honra e glória para ele, mas os partidos, como as pessoas, mudam. Crescem, envelhecem, vão colecionando rugas, decepções, frustrações e ao final de tantos tropeços, não são mais os mesmos. Nem os homens, nem os partidos. Deveria “incluir-se” no seu “combate à hipocrisia”. Não é só de preconceitos religiosos que se tem feito política no país e Lula, hoje, é um político tradicional no mais castiço sentido brasileiro.
Hipocrisia, por exemplo, é não aprovar medidas mais duras na área de segurança, de olho nos votos que até os presídios produzem. Em resumo, a política em ação no Brasil é a mais hipócrita que se possa imaginar, algo assim como condenar o jogo, o tóxico e apoiar o apadrinhamento das escolas de samba por “bicheiros” e outros “banqueiros”... Mas, livrai-nos do mal, amém, diz a oração cristã.
ENSINO, CULTURA E AMOR COM LIMITES E SEM LIMITES...
Walter Galvani, em 26/03/2007
Crônica publicada neste dia 25 de março de 2007 no jornal ABC DOMINGO
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AMOR, LIMITES E CULTURA
Walter Galvani
Um dos maiores acontecimentos da aérea cultural no Rio Grande do Sul, começou esta semana no velho Salão de Atos da Reitoria da UFRGS: “Fronteiras do Pensamento Contemporâneo”, que promoverá a vinda ao nosso estado de grandes nomes globais e nacionais, possibilitando um mergulho, do qual, na certa não sairemos iguais. E começou bem, depois que o brilhante Luiz Fernando Cirne Lima, falando em nome da Copesul, que preside, e que patrocina o longo evento que envolverá nossas maiores universidades e um público cativo de mais de 1.000 pessoas por noite, saudou os palestrantes da estréia: Luc Ferry, filósofo francês, o homem do chamado “Humanismo Secular” e o ex-ministro da Educação do Brasil, Paulo Renato Souza.
Como dizem os jovens, Luc Ferry “bombou” na abertura defendendo a sua tese de que a educação se faz em cima de três suportes indispensáveis: Amor, Lei e Cultura.
Para o Amor não se torna necessária uma explicação, todos sabem que é preciso injetar este ânimo nos alunos, crianças, jovens ou adultos e isso é tarefa precípua de pais e professores. O passo seguinte, a ”Lei”, onde se pode ler “Limites”, é a tarefa que ele diz ter copiado do judaísmo e que prevê o estabelecimento claro dos limites, até onde se pode ir e que estabelece as regras da convivência, sem as quais a vida se torna impossível em sociedade. E finalmente, a “Cultura”, em seu sentido pleno, que resume todo o objetivo coletivo e transforma a tarefa em missão.
Dito assim pode parecer o óbvio, mas não é o que praticam nossas autoridades e tanto é isso verdade que os aplausos coroaram a intervenção do ex-ministro da Educação da França e fez com que as pessoas que ainda não leram o seu livro, “Aprender a viver – Filosofia para novos tempos” tenham saído com o firme propósito de fazê-lo.
Pode-se dizer que ele nos transformou e este é o poder do pensamento e assim tem sido ao longo dos séculos. Você pode não lembrar mais o nome de nenhum guerreiro ou atleta do passado, mas quem esquece Platão, Aristóteles, Sócrates?
Na semana que vem tem mais: virão ao todo 37 intelectuais de onze países diferentes, e poderemos assim nos abeberar do que há de mais moderno no pensamento contemporâneo, algo invejável e inigualável, que coloca o Rio Grande do Sul, uma vez mais, um passo a frente da comunidade brasileira e nos habilita a olhar para São Paulo e Rio, no mínimo com uma certa compaixão e misericórdia...
O importante é aproveitarmos a lição, tirar dela os resultados. Na semana que vem tem mais.
Nesta terça, dia 27, a palestra é de Robert Darnton. o homem que decifrou as terríveis histórias infantís do medievo europeu e que chegaram até nós.
OS IRMÃOS LASSALISTAS
COMPLETAM 100 ANOS DE BRASIL
Walter Galvani, em 29/03/2007
E o colégio onde fiz os estudos
fundamentais, o La Salle de Canoas
hoje Universidade,
no começo apenas um modesto
colégio.
Os irmãos lassalistas eram carinhosamente chamados
assim, de "urubus do papo branco".
Esta crônica foi publicada hoje no "Diário de Canoas",
onde fica o La Salle:
OS URUBUS DO PAPO BRANCO
Walter Galvani
Não se assustem, era uma expressão carinhosa. Assim mesmo é que chamávamos os Irmãos Lassalistas e eles não se importavam, até achavam graça e não puniam ninguém por se exceder na linguagem. Desrespeitar o Irmão Diretor, desobedecer, não fazer silêncio, responder de maus modos, isso sim era pecado e pecado grave.
Eu mesmo, não poderia esquecer, recordo um dos artigos do regulamento da casa de La Salle: “O silêncio é de rigor nas fileiras, salas de aula e mudanças de exercício”.
Fumar também era proibido e mais ainda pichar os muros.
“Devo respeitar o caríssimo irmão diretor”, com quarenta toques, tive que escrever mil vezes e eis que isso me ajudou a melhorar a letra, coisa que o seu Álvaro e a dona Julieta não conseguiam, pois o aluno era rebelde demais.
Também não aprendi matemática, pois as contas não me entravam na cabeça e até hoje não entram. Respeito, e olhe lá, as colunas do crédito e do débito, e procuro manter ao longo da vida, os números do lado direito mais gordos do que os da esquerda...
Mas, era um deslumbramento ver os “urubus do papo branco”, ou seja os irmãos lassalistas com suas longas batinas jogando futebol com a garotada no meio do pátio de areão e atacando nos arcos com a capacidade ampliada por elas. Muitas vezes a bola que tinha o endereço certo das redes amortecia na batina e se aninhava aos pés do Irmão Evaristo ou do Amadeu ou do Albano.
Não canso de contar que o Irmão Henrique cuidava do nosso intelecto e para tanto fundou um grêmio literário quando ele não tinha mais do que 23 anos e nós 13 ou 14 e olhe lá. E que produzíamos incríveis ensaios literários, poesias, crônicas, artigos e esboços históricos e críticos.
Também veio o Irmão Mauricio Isaac, direto de Paris, e tentou meter em nossa cabeça a pureza da língua francesa e os conhecimentos sobre “la Gaulle avant la conquête romaine”... Ficamos devendo notas para ele. Que chance perdida.
Mas ficaram as sementes. Hoje, quando olho ao meu redor, vejo que os antigos alunos do La Salle progrediram, de um modo geral, e não é por acaso que nos reunimos duas ou três vezes por ano para matar a saudade.
Quando me elegem patrono de uma feira do livro ou algo do gênero, costumo dizer que estou usurpando o lugar do Irmão Henrique. O que é verdade.
O que se fizer por ele ainda será pouco. Felizmente, na mocidade dos seus oitenta e poucos anos, ele continua habitando o velho prédio do La Salle.
Obrigado aos irmãos Germano (o Batista) e Alfredo, que se encheram de coragem e apareceram com as românticas e belas batinas e os colarinhos duros, para nos lembrar que eram legítimos “urubus do papo branco” no dia em que se deu a largada para o centenário do nosso colégio (que comemoraremos no ano que vem) e se assinalou a chegada dos lassalistas ao Brasil, começando pelo Rio Grande do Sul.
Bons tempos? Sim, bons tempos, mas como diria o Irmão Henrique, as sementes até que caíram em terra fértil. Nossos pais estavam certos. E nossos amados “urubus.”
O CAOS AÉREO CONTINUARá?
Walter Galvani, em 02/04/2007
Crônica publicada ontem no
ABC DOMINGO,jornal do
Grupo Editorial Sinos
MOTIM, GREVE, CAOS...
Walter Galvani
Classificar o que houve, deixou de haver, e haverá no setor dos transportes aéreos do Brasil, desde que alguns sargentos da Aeronáutica iniciaram greve de fome na quinta-0feira passada até o Domingo de Páscoa, é uma questão do Ministro da Defesa e do presidente da república. Waldir Pires e Lula tentarão descalçar esta bota, enquanto o povo brasileiro se amotina nos aeroportos e vê o passeio, o cumprimento de missões de trabalho ou os contatos com a família, transformados em pesadelo.
A população pichou alguns vidros nos aeroportos, mas isso é para mostrar apenas a dificuldade de comunicação que se vive, paradoxalmente, neste chamado mundo globalizado e que se assinala justamente pela facilidade... das comunicações.
Trata-se de uma greve? Houve um motim? Qual será o resultado de tudo isso? Prisões? Fica muito chato para um presidente que construiu sua carreira sobre as greves do ABC paulista e abriu seus espaços com as vitórias obtidas.
Lula, um dedo a menos perdido na atividade de metalúrgico, e com os galões de presidente,sobre os ombros, conquistados com as greves que liderou, assentado sobre a sólida estrutura do PT, o partido que ajudou a fundar, talvez inspirado pelo "Solidarnosc" de Lech Walesa que ajudou a derrubar a Cortina de Ferro,está diante do maior desafio: "decifra-me ou te devoro", lhe diz a História.
Enquanto isso, as pessoas amargam nos aeroportos, a conseqüência de uma estrutura anacrônica, que ainda entrega, sob a desculpa da segurança nacional, aos militares o controle de vôo, ao mesmo tempo que os submete aos regimes mais retrógrados que se possa imaginar, resultantes de sua condição específica.
Competência, capacidade, independente do tipo de vinculação de trabalho, eis a questão.
Como modernizar o país que tanto depende do transporte aéreo por suas condições continentais?
Na Semana de Páscoa ameaçada pelas dúvidas, transformada em tormento pela adrena lina gasta, e a gastar pelo que virá, é preciso pensar e muito sobre o futuro imediato, a médio e a longo prazo. A transferência do lider, Edileuso Cavalcante, o "mobilizador" dos controladores de vôo, para Santa Maria, perturba,adia talvez a solução do problema, mas não o resolve. Pode dar efeito contrário.
Eu já decidí: irei de ônibus
O CAOS AÉREO
CONTINUARÁ?
Walter Galvani, em 02/04/2007
Crônica publicada ontem no
jornal ABC DOMINGO,
do Grupo Editorial Sinos
MOTIM, GREVE, CAOS...
Walter Galvani
Classificar o que houve, deixou de haver, e haverá no setor dos transportes aéreos do Brasil, desde que alguns sargentos da Aeronáutica iniciaram greve de fome na quinta-0feira passada até o Domingo de Páscoa, é uma questão do Ministro da Defesa e do presidente da república. Waldir Pires e Lula tentarão descalçar esta bota, enquanto o povo brasileiro se amotina nos aeroportos e vê o passeio, o cumprimento de missões de trabalho ou os contatos com a família, transformados em pesadelo.
A população pichou alguns vidros nos aeroportos, mas isso é para mostrar apenas a dificuldade de comunicação que se vive, paradoxalmente, neste chamado mundo globalizado e que se assinala justamente pela facilidade... das comunicações.
Trata-se de uma greve? Houve um motim? Qual será o resultado de tudo isso? Prisões? Fica muito chato para um presidente que construiu sua carreira sobre as greves do ABC paulista e abriu seus espaços com as vitórias obtidas.
Lula, um dedo a menos perdido na atividade de metalúrgico, e com os galões de presidente,sobre os ombros, conquistados com as greves que liderou, assentado sobre a sólida estrutura do PT, o partido que ajudou a fundar, talvez inspirado pelo "Solidarnosc" de Lech Walesa que ajudou a derrubar a Cortina de Ferro,está diante do maior desafio: "decifra-me ou te devoro", lhe diz a História.
Enquanto isso, as pessoas amargam nos aeroportos, a conseqüência de uma estrutura anacrônica, que ainda entrega, sob a desculpa da segurança nacional, aos militares o controle de vôo, ao mesmo tempo que os submete aos regimes mais retrógrados que se possa imaginar, resultantes de sua condição específica.
Competência, capacidade, independente do tipo de vinculação de trabalho, eis a questão.
Como modernizar o país que tanto depende do transporte aéreo por suas condições continentais?
Na Semana de Páscoa ameaçada pelas dúvidas, transformada em tormento pela adrena lina gasta, e a gastar pelo que virá, é preciso pensar e muito sobre o futuro imediato, a médio e a longo prazo. A transferência do lider, Edileuso Cavalcante, o "mobilizador" dos controladores de vôo, para Santa Maria, perturba,adia talvez a solução do problema, mas não o resolve. Pode dar efeito contrário.
Eu já decidí: irei de ônibus
O CAOS AÉREO
CONTINUARÁ?
Walter Galvani, em 02/04/2007
Crônica publicada ontem no
jornal ABC DOMINGO,
do Grupo Editorial Sinos
MOTIM, GREVE, CAOS...
Walter Galvani
Classificar o que houve, deixou de haver, e haverá no setor dos transportes aéreos do Brasil, desde que alguns sargentos da Aeronáutica iniciaram greve de fome na quinta-0feira passada até o Domingo de Páscoa, é uma questão do Ministro da Defesa e do presidente da república. Waldir Pires e Lula tentarão descalçar esta bota, enquanto o povo brasileiro se amotina nos aeroportos e vê o passeio, o cumprimento de missões de trabalho ou os contatos com a família, transformados em pesadelo.
A população pichou alguns vidros nos aeroportos, mas isso é para mostrar apenas a dificuldade de comunicação que se vive, paradoxalmente, neste chamado mundo globalizado e que se assinala justamente pela facilidade... das comunicações.
Trata-se de uma greve? Houve um motim? Qual será o resultado de tudo isso? Prisões? Fica muito chato para um presidente que construiu sua carreira sobre as greves do ABC paulista e abriu seus espaços com as vitórias obtidas.
Lula, um dedo a menos perdido na atividade de metalúrgico, e com os galões de presidente,sobre os ombros, conquistados com as greves que liderou, assentado sobre a sólida estrutura do PT, o partido que ajudou a fundar, talvez inspirado pelo "Solidarnosc" de Lech Walesa que ajudou a derrubar a Cortina de Ferro,está diante do maior desafio: "decifra-me ou te devoro", lhe diz a História.
Enquanto isso, as pessoas amargam nos aeroportos, a conseqüência de uma estrutura anacrônica, que ainda entrega, sob a desculpa da segurança nacional, aos militares o controle de vôo, ao mesmo tempo que os submete aos regimes mais retrógrados que se possa imaginar, resultantes de sua condição específica.
Competência, capacidade, independente do tipo de vinculação de trabalho, eis a questão.
Como modernizar o país que tanto depende do transporte aéreo por suas condições continentais?
Na Semana de Páscoa ameaçada pelas dúvidas, transformada em tormento pela adrena lina gasta, e a gastar pelo que virá, é preciso pensar e muito sobre o futuro imediato, a médio e a longo prazo. A transferência do lider, Edileuso Cavalcante, o "mobilizador" dos controladores de vôo, para Santa Maria, perturba,adia talvez a solução do problema, mas não o resolve. Pode dar efeito contrário.
Eu já decidí: irei de ônibus
O VERDADEIRO SENTIDO
E AS DIFERENÇAS
DAS PALAVRAS...
Walter Galvani, em 09/04/2007
Um mundo perigoso. As palavras tem significados diversos
de acordo com a região que se habita.
E como se fala.
As vezes dentro da
própria língua. Na hora
da tradução, maior
é o perigo ainda...
Crônica publicada no
jornal ABC DOMINGO, neste domingo de Páscoa.
LIBERALISMO E LIBERALISMOS...
Walter Galvani
Nós, que lidamos com a palavra, sabemos o quanto ela pode nos trair. Quando por vezes a traduzimos, mais perigosa se torna ainda a lida com esta versátil e volúvel arma. Não é por acaso que os italianos costumam utilizar a expressão “tradutore, traditore” para exemplificar esta situação terrível entre o que se quer transmitir e o texto original, portanto, “tradutor, traidor”. Uma palavra sempre está carregada de conotações, de experiências históricas, de significados adquiridos, coados e transmitidos através da experiência dos povos, nações, tribos. Carlos Ascenso André, escritor português, falava sobre isso ao comentar a sua tradução de “A arte de amar” do poeta latino Ovídio, onde o exercício profissional colidiu com o dever de ser fiel tanto quanto possível, mas trabalhando em cima de um texto que tem dois mil anos de interpretações, transcrições, entendimentos e mudanças de hábitos e comportamentos. Pobres palavras! Ele conta que muitas vezes hesitou, pois aonde cabia uma palavra aparentemente grosseira ou de baixo calão, foi preciso substituir por algo mais sugestivo em língua portuguesa e menos agressivo e desviado do sentido original.
Liberalismo é uma palavra da moda política que passa, no Brasil e de um modo geral na América Latina, por tantos problemas como outras que por aí navegam cheias de incompreensões e enganos. Guy Sorman, intelectual francês, esteve esta semana em Porto Alegre, falando na série “Fronteiras do Pensamento Contemporâneo” e acendeu esta pilha no auditório, mas que nem sei se foi suficientemente compreendido ou melhor, se foi convenientemente “traduzido”. Mas ele foi claro: “Liberalismo como o entendemos na França, não é como se entende no Brasil!”
Isso pode gerar uma montanha de mal-entendidos. Por exemplo: ele não quis dizer que o modelo é o sistema de governo pregado pelos chamados “liberais” no Brasil, porque os chamados “liberais” não tem nada a ver com o Partido Liberal do tempo do império, ou com o Partido Libertador de Raul Pilla e Paulo Brossard no Rio Grande do Sul, porque estes sim, defendiam uma liberdade de ação política e econômica, com um estado “enxuto” –como gostaria o vice-governador Paulo Feijó – e menos intervencionista, mas com ampla liberdade de ação política (e isso é que é ser “liberal”) e sem radicalismos. E isso, repito, é que é ser liberal. Não estamos falando de costumes sociais ou individuais e essa é outra confusão do sentido das palavras.
Quando se diz que determinada mulher é muito “liberal”, no seio da sociedade brasileira já se sabe que se quer dizer que ela tem costumes sexuais, diríamos “avançados” pra não usar outra expressão mais contundente.
UMA CRISE AO SUL...
Walter Galvani, em 12/04/2007
Crônica publicada no Diário de Canoas, jornal do Grupo Editorial Sinos, que circula em minha terra natal.
Antes da crise que derrubou o
secretário de segurança
do governo da Yeda Crusius,
a primeira mulher
a governar os
gaúchos...
DORMIR EM SEGURANÇA
Walter Galvani
O sonho de todos, mesmo dos ladrões perseguidos pela polícia, é dormir em paz. Umas quatro ou cinco horas já são suficientes, pelo menos para os mais idosos. Os policiais, por seu turno, também querem dormir em paz depois da jornada de trabalho, e o secretário de Segurança, mais ainda. Em Nova Iorque, onde descobriram o regime da “tolerância zero”, já estão dormindo depois do extenuante dia de combate aos delitos, por mínimos que sejam. Estacionar em local proibido, furtar um jornal do mostrador da esquina, bater uma carteira ou levar um pão, “distraidamente”, já não valem a pena na maior cidade americana, pois as punições são sérias e pesadas. Desde multas até prisões, passando pela fiança para libertações. Tudo isso gera uma gorda arrecadação que vai para os cofres municipais. E lá os salários não atrasam.
Aqui vivemos uma crise nesta área porque todos querem dormir em paz. Alguns prefeririam, naturalmente, nem sequer serem perturbados. Mas a “tolerância zero” exige atenção permanente e, por vezes, alguém se torna “incômodo”. No mundo da Máfia, tais procedimentos costumam ser punidos, com a eliminação ou, pior ainda, com represálias sérias que costumam atingir amigos e parentes. Por isso a Máfia tem uma formulação compacta de “família”. Não invejo a idéia italiana que nasceu na Sicília, mas, indiscutivelmente funciona. Pelo menos entre os seus membros.
Um desempenho forte na área de segurança pública fatalmente mexe com interesses estabelecidos, aliás, qualquer desempenho forte na área pública tem este resultado.
Daí que compreendo bem que os delegados de polícia, o chefe de polícia, o secretário Enio Bacci e a governadora Yeda Crusius, todos queiram dormir em paz depois da jornada de trabalho, como nós também o desejamos.
O relógio despertador tem só um rival: a consciência. Quem está em paz com ela muitas vezes dorme além da conta e o despertador então passa a desempenhar um papel fundamental para alertar o vivente para seus compromissos do dia.
Quem não comete pequenos delitos ou grandes, quem age de acordo com as normas adequadas de conduta, quem não fere a ética e respeita as amizades e ama ao próximo como a si mesmo, como determina a formação religiosa, seja ela cristã, israelita, muçulmana ou alternativa... dorme em paz e segurança.... Não interessa quem seja o titular desta ou daquela área. E quem não brinca com fogo, não se queima nem faz xixi na cama....
A SEGURANÇA NOSSA
DE TODOS OS DIAS...
Walter Galvani, em 16/04/2007
Sobre o polêmico assunto da segurança pública, crônica divulgada no jornal
ABC DOMINGO
VITÓRIA DA BANDIDAGEM?
Walter Galvani
O jornalista é o historiador do presente, o historiador é o jornalista do passado, cansei de escrever esta frase com primeiras, segundas e terceiras intenções. Às vezes para me defender de acusações de invasão do campo alheio, outras para explicar objetivamente o que estava a fazer, e outras ainda para que me entendessem como um dos tantos bem intencionados, os quais, como se sabe, preenchem todas as vagas do inferno.
Este preâmbulo, antigamente chamado de “nariz de cera” na gíria jornalística, é para dizer que ainda é cedo para qualquer pronunciamento sobre a primeira (ou segunda?) grande crise política do governo Yeda Crusius. Demitir o deputado Ênio Bacci, perder ou não o apoio do PDT, confessar o fracasso da política de segurança de “tolerância zero” ou reafirmá-la, será uma coisa que só os próximos dias, meses ou mais, poderão nos informar com certeza.
A tentação de escrever que a queda do secretário de segurança quer dizer “vitória da bandidagem”, é muito grande. Mas, falar sem saber é um perigo e um privilégio dos jornalistas. Apressados que somos, muitas vezes, cometemos equívocos ou injustiças. Um pouco mais de reflexão, não faria mal a ninguém.
A gente aprende todos os dias com todo o mundo. Não por acaso gosto de conversar com os motoristas de táxi ou meus companheiros de viagem de ônibus ou avião (aliás, não é só Brasil que tem o privilégio de ter uma greve de controladores de tráfego aéreo, veja-se a França!...) - escutam-se frases preciosas, comentários jocosos ou radicalmente desesperançados, mas ouve-se a “voz das ruas”... E um desses companheiros fortuitos de viagem me dizia esta semana que nunca se deve fechar as contas e contar vitória depois de um mês de trabalho. Sempre é bom fazer a contabilidade após dois ou três meses para se tirar uma conclusão correta.
De minha parte, precipitadamente talvez, adotei o sistema da Yeda Crusius: só trabalho agora com o sistema de “caixa”. Entrou dinheiro, paguei as contas... Não entrou, fica para depois, adio, negocío. Boa, professora Yeda!
Assim sendo, vamos esperar um pouco mais para saber se houve mesmo uma vitória da bandidagem, ou se a bandidagem foi derrotada. Se a política de “tolerância zero” terá continuidade, se foi aprovada e se terá mais severidade ainda na sua aplicação. E, feitos os balanços, vamos saber se os resultados foram mesmo favoráveis.
Quer dizer: a História ainda está se escrevendo e de nada adianta um jornalista metido a historiador tentar colocar a carreta na frente dos bois.
MAIS UM MATADOR AMERICANO
Walter Galvani, em 17/04/2007
A cultura da violência produz assassinos
nos Estados Unidos, apesar
da procedência ser da Coréia do Sul ou de qualquer parte.
O bilhete revelador deixado pelo assassino dos estudantes
abre um portão sobre
a psicologia dos desajustados:
Cho Seung-Hui, 23 anos, sul-coreano. Dono de um “green-card” podendo, portanto, morar e trabalhar indefinidamente nos Estados Unidos. Estudante da Universidade Técnica de Virgínia.
Matou 29 colegas e matou-se. Deixou um bilhete dizendo: “vocês me forçaram a fazer isso!”
Mas, como?
Armado com uma pistola e um revólver primeiro matou dois, e duas horas mais tarde levou adiante seu plano macabro e assassinou os demais estudantes-colegas que foi encontrando pela frente.
O que há por trás de uma cara aparentemente tranqüila, espiando sorridente seus colegas de aula?
Diariamente se registra, pelo mundo afora, o desfile das atrocidades, que vão desde um atirador solitário e com melhor pontaria do que John Wayne nos velhos filmes de faroeste, até a imolação diária em Bagdá, passando pelos absurdos brasileiros, como a troca de tiros entre traficantes e passantes, polícia e consumidores e o caso do homem que esqueceu o filho dentro do carro. Claro, a criança morreu e agora aparecem os que vem dizer que ele era um bom pai...
Que Deus me livre de um bom pai desses, imaginem se ele fosse um mau pai...
O desfile de horrores do cotidiano não tem mais fim.
Estou esperando para ver o que será o menu de amanhã ou depois. Já não há mais lugar para a imaginação.
A cada dia que passa, mais se esmeram os humanos em produzir horrores. E imaginem que havia uma frase no tempo dos romanos que dizia assim: “Homo homini lupus”, ou seja que o “o homem é o lobo do homem”. Que bela ofensa ao digno lobo que só caça para sua subsistência e só ataca os humanos, quando é atacado.
Que belo exemplo estamos deixando para os que vierem substituir esta fracassada raça humana aqui na Terra!
COMO SE FAZ POLÍTICA
E COMO SE USA
A ARTE DA PUBLICIDADE
Walter Galvani, em 20/04/2007
Mistérios da comunicação e da política se entrecruzam na
capital do Rio Grande do Sul,
apontada como a sede
do estado mais politizado do BRasil.
Não parece...
ENCONTROS E DESENCONTROS
Não sei, a bem da verdade, em que canal devo classificar o tipo de ocorrência que agita a política do Rio Grande. Existem encontros ou desencontros de Yeda com os partidos que a acompanharam nesta insólita aventura de chegar ao poder, trazendo em seu topo, pela primeira vez, uma mulher ao Palácio Piratini?
Pois bem, isto posto, fico vendo que há um partido que neste ínterim trocou de nome, o PFL que agora se chama no maior lance de insensibilidade publicitária que se poderia imaginar, DEM (mas Dem o quê? Que sigla ineficaz!) e o que será que dizem ou “dêem” ou não? Talvez pelo choque do inusitado e do enigmático possa o tal DEM sensibilizar mais uma meia dúzia de eleitores... Por outro lado, os mesmos DEMocratas estão fora do governo e apesar de haverem conquistado a posição pela eleição do Paulo Feijó estão distantes de Yeda e pela palavra do líder Ônix Lorenzoni parece que não querem se comprometer sentando a seu lado.
Tudo é novo, pois, a partir da chegada de Yeda. Sob o ponto de vista positivo, é uma ótima lição a que a professora de economia nos dá, mandando pagar as contas só quando se tem saldo favorável. Isso é bonito, mas para quem pode.
Por enquanto estou aplicando, mais adiante vou ver se tenho cacife para manter-me e se a Yeda, no governo gaúcho, também.
Também, atrasar salários, embora não seja novidade absoluta (lembremos os tempos de Ildo Meneghetti) principalmente para os professores, não será uma forma lá muito afetuosa de lidar com a máquina governamental.
Como pressão política até pode ser válido agir assim, mas isso demonstraria apenas que o governo não tem entranhas sociais, apenas veias e artérias de aço como ocorre com as máquinas.
SÃO 507 ANOS
DE CONSTRUÇÃO
DO BRASIL,
COMO NAÇÃO NO CONCEITO
E VISÃO NASCIDOS
NA EUROPA OCIDENTAL
Walter Galvani, em 22/04/2007
Cinco séculos mais alguns
dias que assinalamos
a existência e construção
de uma herança
cultural. Somos
"gregos". somos "romanos"
somos "europeus". Mas
nos misturamos produtivamente com africanos (afinal isso todos somos...)( e aborígenes.
A propósito: quando e de onde
vieram os indígenas
pré-cabralinos?
Crônica publicada neste dia
22 de abril no
ABC DOMINGO, jornal
do Grupo Editorial Sinos
507 ANOS, NAU CAPITÂNIA
Walter Galvani
Quando acabou o império romano, suas antigas províncias e colônias foram se libertando, se emancipando, começando a construir seus processos de liberdade política. Em alguns casos a consolidação levou tanto tempo que os movimentos nacionais, então emergentes, acabaram engolfados pelo crescimento dos vizinhos. E aos poucos foi se desenhando um mapa da Europa e da Ásia, mais tarde África, em que as casas nacionais se sobressaiam e garantiam o desenvolvimento local, com seus exércitos próprios, suas bandeiras, suas lendas e tradições, sua língua e sua cultura. Aliás, por falar em língua, a maioria destes resultantes da atomização do império, barbarizaram o latim. Aos poucos nasceram o francês, o italiano, o espanhol, o português, o romeno, o provençal, o galego e também o ramo germânico e saxônico que, embora recebendo contribuições do latim bárbaro e seus descendentes, seguiram outro caminho. Isso tudo é para lembrar que todos vieram da mesma árvore.
Quando Portugal cimentou o seu caminho e acumulou os efeitos da cultura e da tradição, da experiência e do conhecimento que lhe vinha da herança romana como um todo, tornou-se o país mais adiantado do mundo ocidental. De posse das ferramentas e de um pouco de audácia, os portugueses lançaram-se ao mar que os estreitos limites de sua terra já não os continham.
A saga é por demais conhecida. E depois de abrir o caminho marítimo para as Índias, depois de estabelecer-se em toda a costa africana, depois da conquista e ocupação dos Açores, da ilha da Madeira, do arquipélago do Cabo Verde, chegou a vez do Brasil, cuja existência era bem conhecida deles, desde os tempos de Dom João II. Rei morto, rei posto, Dom Manuel I no poder, armou-se a maior esquadra jamais vista em Portugal e entregou-se o seu comando a Pedro Álvares Cabral.
Depois de uma longa jornada de 44 dias, de bordo de sua “nau capitânia” avistou-se terra. Batizada de “Ilha de Vera Cruz”, sua denominação mudada pelo rei, mais tarde, quando teve conhecimento em Lisboa. Dom Manuel, conhecido como “O Venturoso” rebatizou-a de “Terra de Santa Cruz”. O resto sabemos: como aqui havia muito “pau brasil”, acabamos recebendo esta denominação e para cá vieram descendentes de portugueses, galegos, espanhóis, mais tarde alemães, italianos, franceses, poloneses etc. e tal.
Já teremos acabado de construir o país de 507 anos, vamos resgatar a experiência pré-cabralina, que sentido terá toda esta gigantesca miscigenação e intercâmbio que estivemos construindo?
De qualquer maneira o dia da festa é hoje: 22 de abril. Ainda haverá lugar para festas? E o resgate histórico não será uma forma de atualização cultural?
UMA HISTÓRIA INTIMISTA
Walter Galvani, em 24/04/2007
Em meio a tantos horrores
do dia-a-dia, prefiro
hoje mergulhar na felicidade
que, às vezes, não é
"uma casinha pequeninba com gerânios em flor na janela", mas
um... "Fusca" com 32 anos de idade.
UM CASO DE AMOR
Walter Galvani
Tenho um caso de amor com um “Fusquinha” (sim, todo mundo de determinada faixa etária já o teve...) mas, o meu existe a pleno. Como não poderia deixar de ser, minha relação com ele é pontilhada de beijos, abraços e rusgas. Hoje tive uma dessas.
Trata-se de um “Fusca-75”. Ele não foi adquirido por desvelos automobilísticos ou paixões mecânicas. Nada disso: teve a sua compra um fim bastante utilitário, embora não o negue, azeitado pelo amor. No caso de amor meu (e de minha companheira) pela netinha Isabella, cujas aventuras verbais e comportamentais, cansei de narrar aos meus alunos de Crônica ou de Biografia, por aí, pelo mundo, na Unisinos, na Uergs, nas feiras de livro.
Acontece que morando em Guaíba, decidimos (eu e Carla, minha amada companheira de jornada nesta vida) que a melhor maneira de transportá-la para a escolinha ou para a pracinha, seria comprando um carro de menor preço. Foi quando nos deparamos, em mãos de um amigo, mas por acidente de procura nos classificados, com um Volkswagen 1300, modelo 1975. O preço era bom, compramos. E desde então ele tem recebido carinho e atenções, em nome da Isabella, afinal é o “carro dela”.
Com o deslocamento dos familiares para uma pequena estada fora, tocou-me por alguns dias, ficar com o “Fusquinha”. Coisa que fiz com o desvelo que ele merece como “objeto do desejo” dos colecionadores, embora não seja o meu caso, mas repito, como conservador daquela preciosidade. Ele nunca me traiu, durante todo este tempo, até que semanas atrás um pneu arriou e tive de tomar providências à distância. Problema resolvido com um vizinho que “não existe” (mandou fazer o conserto e recolocou o pneu no lugar) eis que esta manhã, dia 24 de abril, o Fusca resolveu não atender meu apelo e “morreu”. Quero dizer, “morreu o arranque”. Não precisei empurrá-lo, para tanto me ajudaram os responsáveis pela garagem onde ele dormiu, mas ele já vinha me avisando, com engasgos inesperados no trânsito que algo ia mal com seu sistema digestivo, a gasolina estava intragável, parece e, finalmente, com a teimosia em tossir e negar o arranque ontem no final da tarde.
Dormi profundamente e me esqueci do problema até que, pouco antes do banho e do café, voltou-me à consciência o problema da véspera e alojou-se em minha mente o medo de que ele se recusasse a me transportar nesta manhã de terça.
“Levá-lo-ei ao médico, digo mecânico – pensei comigo mesmo. (Aliás, que expressão é esta, não é mesmo, com quem mais poderia pensar, a não ser comigo mesmo?)
Pois foi o que tive de fazer. Fui lá na garagem, precisei de auxilio, e os rapazes, atenciosos, me ajudaram sorridentes, até fazendo brincadeira um com o outro, julguei-os felizes por aquela ocorrência matinal e me mandei para o mecânico.
Lá está o Fusca da Isa, agora. Se ela me falar ao telefone, direi que o “Fusca” foi ao medico. Dormirá lá na oficina esta noite. Amanhã estará rodando impávido pelas ruas da capital (e de Guaíba) chamando a atenção pela sua limpeza, estado técnico e aparência. Não liguem, não se trata de paixão ou “volksmania”, mas de um caso de amor pela neta e pelo “carro dela”.
SEGURANÇA, SEGURANÇA
Walter Galvani, em 29/04/2007
Crônica publicada
na edição do ABC DOMINGO,
jornal do Grupo Editorial Sinos
ENTUSIASMO É UM DEUS
Walter Galvani
Já tivemos de tudo, mas em matéria de segurança, estamos sempre presos à esperança. Vejam, numa semana em que, mais uma vez, se produziram seqüestros (alguns relâmpagos, outros temporais de longa duração) e assassinatos, uma dúzia de execuções, importamos também o sistema da morte de crianças e adultos por balas perdidas e as orações na hora da posse do novo secretário de segurança. (Parece que a Yeda não gostou muito do anterior porque ele ajeitava o nó da gravata toda a vez que relampejava, pois pensava que eram os “flashes” dos fotógrafos ou as luzes da televisão)... Brincadeiras. Esqueçamos. Vamos à oração do novo secretário Mallmann. (Tomara que tenha razão e se saia melhor do que o antecessor de tão curta duração).
Pois leu ele para seus funcionários que “a palavra entusiasmo vem do grego e significa ter um deus dentro de si. A pessoa entusiasmada é aquela que acredita na sua capacidade de transformar as coisas, de fazer dar certo. Entusiasmada é a pessoa que acredita em si. Acredita nos outros. Não é o sucesso que traz o entusiasmo, é o entusiasmo que traz o sucesso. Conheço pessoas que ficam esperando as condições melhorarem, a vida melhorar, o sucesso chegar, para depois se entusiasmarem. A verdade é que jamais se entusiasmarão com alguma coisa. O entusiasmo é que traz a nova visão da vida. Nessa semana gostaria de perguntar a você e a seu pessoal como vai o seu entusiasmo? Como vai seu entusiasmo pelo Brasil, pela sua instituição, pela sua atividade, pela sua família, seus filhos, pelo sucesso dos seus amigos?” Depois desta breve introdução ao manual de auto-ajuda do novo secretário, posso responder, bem, ele não me perguntou mas respondo, vai bem, tenho o maior entusiasmo pelo sucesso dos meus amigos, pela minha família, pelos meus filhos e netos, pelo que faço, pelo Brasil, pelas instituições onde trabalho, pela minha atividade, só não tenho é segurança. Não tenho segurança de ir até à esquina comprar uma cerveja depois das nove da noite, de trafegar de carro e parar nos sinais vermelhos depois das dez, de parar numa estrada para trocar um pneu furado, não tenho, senhor secretário, confiança nenhuma em ir a um banco e retirar algum dinheiro para pagar uma conta e às vezes me acordo durante a noite pensando que não devem ser ratos ou gambás que estão fazendo suas correrias, mas algum “mão-leve”e”pé-ligeiro” que adentrou minha casa.
E jamais farei como aquela senhora de Mariluz que era natural de Novo Hamburgo e se aposentou e foi para a “santa paz” da praia onde foi estrangulada e incendiada. Tenho muito entusiasmo, mas também tenho muito medo. E nenhuma segurança.
ESCREVER É COMO
APAIXONAR-SE
Walter Galvani, em 04/05/2007
A escritora espanhola
Rosa Montero, também
jornalista, é o que
há de bom hoje em dia.
Leia o que ela diz
sobre escrever em seu livro
"A Louca da Casa", editado
pela Ediouro,
Rio de Janeiro, 2004
“Nós inventamos nossas lembranças o que é o mesmo que dizer que inventamos a nós mesmos, porque nossa identidade reside na memória, no relato da nossa biografia. Portanto, poderíamos deduzir que os seres humanos são, acima de tudo, romancistas, autores de um romance único cuja escrita dura toda a existência e no qual assumimos o papel de protagonistas. É uma escrita, naturalmente, sem texto físico, mas qualquer narrador profissional sabe que se escreve sobretudo dentro da cabeça. É um rum-rum criativo que nos acompanha enquanto estamos dirigindo, ou levando o cachorro para passear, ou na cama tentando dormir. A gente escreve o tempo todo.”
“Há muitos anos que venho fazendo anotações em diversos caderninhos com a idéia de escrever um ensaio sobre o ofício de escrever. O que é uma espécie de mania obsessiva dos romancistas profissionais: quando não morrem prematuramente, todos eles padecem, mais cedo ou mais tarde, da imperiosa urgência de escrever sobre a escrita, de Henry James a Vargas Llosa, passando por Stephen Vicinczei, Montserrat Roig ou Villa-Matas, para citar alguns dos livros que mais me agradaram.”
“Eu também senti a furiosa chamada desta pulsão, ou desse vício, e dizia que vinha anotando idéias há um bom tempo quando fui percebendo, pouco a pouco, que não podia falar da literatura sem falar da vida; da imaginação sem falar dos sonhos cotidianos; da invenção narrativa sem levar em conta que a primeira mentira é o real. E, assim, o projeto do livro foi ficando cada vez mais impreciso e mais confuso, coisa por outro lado natural, ao ir-se misturando com a existência”.
“De fato, escrever romances é a coisa mais parecida com apaixonar-se que já encontrei (ou melhor, a única coisa parecida), com a apreciável vantagem de que na escrita não se precisa da colaboração de outra pessoa. Por exemplo: quando você está mergulhado na paixão, vive obcecado pela pessoa amada a ponto de ficar o dia inteiro pensando nela; escova os dentes e vê seu rosto flutuando no espelho, está dirigindo e confunde a rua porque foi perturbado por essa lembrança, tenta dormir à noite e, em vez de deslizar até o interior do sono, você cai nos braços imaginários do seu amante. Pois bem, enquanto está escrevendo um romance você vive nesse mesmo estado de espírito de delicioso alheamento: seu pensamento é inteiramente ocupado pela obra, e toda a vez que dispõe de um minuto, mergulha mentalmente nela. Também se engana de esquina no trânsito, porque, igualzinho ao apaixonado, sua alma está entregue e em outro lugar.”
Pgs. 8, 9 e 10
Gostou?
É uma boa reflexão
para o fim de semana.
PENSANDO BEM...
Walter Galvani, em 06/05/2007
Crônica publicada
no ABC DOMINGO deste
dia 6 de maio de 2007
A CULTURA DA CORRUPÇÃO
Walter Galvani
Nascemos, crescemos e vivemos dentro de um caldo de cultura que tem como ingrediente indispensável a corrupção. Seja ela passiva ou ativa, nós aprendemos a praticá-la desde os mais verdes anos e seguimos vida em fora, desempenhando a mesma atuação, como se fosse absolutamente normal. E é sob este ponto de vista de nossa sociedade que agimos até que por azar ou conveniência, ao desembocarmos em um ato mais amplo e que fira os limites, digamos “aceitáveis”, para usar um eufemismo, uma concessão discutível, botamos a cabeça acima da linha de flutuação. O resultado é uma cassação, uma exposição à condenação pública, um par de algemas nos pulsos, uma noite na carceragem da Polícia Federal e uma chegadinha aos tribunais. Não estou defendendo o ato de grandes ou pequenos empresários tentarem fazer andar seus projetos com o uso de propinas, mas muitas vezes eles não dispõem do mesmo poder de barganha das multinacionais ou de grandes e “patrióticas” empresas que apenas pela pressão política e ou pelas ameaças de retirada de investimentos e conseqüente redução no número de empregos facilitados no mercado, obtém as mudanças nas leis, regulamentos, instruções normativas ou decisões políticas.
Você dá vinte reais ao funcionário que faz um pequeno
trabalho em nome das prestadoras de serviço, para que ele “tome uma cervejinha”. O que você está praticando? Corrupção ativa ou passiva, como queira ver, mas você desejava apenas “acelerar o processo”.
Quando grandes empresários aplicam vinte mil reais ou vinte milhões para “acelerar” ou modificar uma decisão governamental, para que seus projetos não sejam vistos como danosos ao Meio Ambiente, por exemplo, o que é que estão fazendo? Praticando a mesma cultura de corrupção com que se acostumaram desde que nasceram.
Pergunto: você acha, sinceramente, que um político “começou a roubar” quando chegou à Câmara, à Assembléia, ao Senado, ou a algum posto executivo, ou ele praticava a sua desonestidadezinha pessoal desde os tempos em que tinha um armazém qualquer numa esquina de vila? Passou do varejo ao atacado, talvez... não mais do que isso.
Mudar as regras do jogo com a partida em andamento, isso também é uma espécie de desonestidade, sem dúvida uma falta de respeito pela ética.
A crise no Meio Ambiente no Rio Grande ou em Santa Catarina, em Jurerê Internacional ou no frágil Pampa gaúcho tem as mesmas raízes. Se existem leis, elas precisam ser respeitadas e não mudadas.
UM DIA, HÁ 62 ANOS
Walter Galvani, em 08/05/2007
O que foi, para um menino
de onze anos,
o chamado "Dia da Vitória"
UM DIA EM 1945, O DIA DA VITÓRIA
Walter Galvani
Canoas, 8 de maio de 1945, 10.000 habitantes. Na prática, todos se conheciam. Sabia-se onde morava o prefeito, quem era o delegado de polícia, o agente dos Correios, e onde residiam os colegas e amigos.
Já há seis anos, os canhões ribombavam na Europa, e em alguns casos, os moradores tinham que suportar a hostilidade ou o preconceito.
Lia-se nos sobrenomes, por vezes, uma possível inclinação favorável aos alemães e italianos, leia-se nazistas e fascistas, que pretendiam dominar o mundo sob a liderança de Adolf Hitler e Benito Mussolini.
É o que se chamava a “Segunda Guerra Mundial”.
E foi num dia 8 de maio, naquele 1945, quando eu recém retornara das aulas no Colégio São Luiz, dos Irmãos Lassalistas, que ouvi a vizinha, dona Angelina Herzer da Silva, que havia corrido até os fundos do seu terreno, que vizinhava com o nosso, gritar para minha mãe:
“Julieta! Julieta! A Guerra acabou!”
Dentro em pouco os sinos da igreja São Luiz badalavam com força, a rádio Farroupilha já transmitira em edição extraordinária um “Repórter Esso” com a informação, daqui a pouco parece que todos sabiam o que se passara na Europa.
O que se passara?
A Alemanha, através do Almirante Doenitz, assinara a Rendição Incondicional.
Cessaram os canhoneios, os bombardeios, as prisões, deportações. Logo se ficou sabendo, abriram-se as portas dos campos de concentração, milhões de prisioneiros magérrimos, reduzidos pela fome, pelas torturas, e que foram vendo suas famílias minguarem e desaparecerem.
Seis milhões de vítimas aqui, seis milhões ali. Números absurdos e inacreditáveis.
Para um menino de onze anos como eu, apenas um acontecimento bizarro naquela meia tarde de maio de 45. Eu completara, dois dias antes, 11 anos, ainda estavam em meu pensamento os momentos agradáveis, uma tarde de futebol, a visita dos colegas de primeira série ginasial.
Sabíamos com quem estávamos. Era a “Segunda Guerra Mundial”, havíamos “ajudado” a combater o nazismo e o fascismo. Com nossas primeiras e aventurosas incursões pelo Latim e pelo Francês, tínhamos certeza de que nosso lado era o dos “Aliados”.
Pensávamos: nunca mais haverá nada igual ou parecido.
Os homens são “irmãos”, o impossível seria repetir-se tal injusta mortandade.
Mas, tudo era tão distante.
Não havia televisão, eram os jornais cinematográficos que nos trariam as imagens, atrasadas, antes de algum filme da “matinée” de domingo no cinema Central. Ou o rádio, ou o “Correio do Povo” na sua sisudez, o imenso jornalão, que meu pai assinava.
E em cujas páginas, anos antes, aprendera a ler. (Não muitos anos antes, na certa entre os seis e os sete.)
Agora poderíamos respirar e pensar em viver em paz, planejar o que faríamos no futuro. Quem sabe conhecer Paris?
Esta discreta euforia, de fato vivemos, ou será uma mitificação que faço agora, 62 anos depois?
Três ou quatro anos mais tarde eu estava no mercado de trabalho, 9 anos depois eu começava no jornalismo.
E agora?
Conhecer o que? São Petersburgo ou Pequim, que até já mudou de nome para Beijing? Ou voltar a Paris, Berlim?
O menino do La Salle de 1945 ainda existe e resiste, tantas guerras adiante?
O PAPA NO BRASIL,
OS POBRES ESCONDIDOS
Walter Galvani, em 09/05/2007
Esta é o símbolo do
descaramento nacional:
retira-se das ruas
os "sem teto". Até que
o Papa vá embora...
DOZE MIL SEM TETO
Walter Galvani
É muito ou pouco, doze mil sem teto numa cidade como São Paulo?
Acho até que é pouco. Trata-se de uma estatística parecida com esta que apresentam do analfabetismo brasileiro. Há os analfabetos totais e os “analfabetos funcionais”. E então a conta pode subir de oito para oitenta... No Brasil é assim mesmo, e depende do que se quer demonstrar, como ouvi, certa vez, quando um grande instituto de pesquisa de opinião havia procurado o Dr. Breno Caldas, então diretor do “Correio do Povo”: - “Mas o que o senhor quer demonstrar, doutor Breno? A gente produz as respostas.”
“Produzir” no caso era um eufemismo, queria dizer “a gente ajeita” as respostas...
Não “ajeitaram” nada porque ele correu com o pessoal do tal instituto. Mas, isso já é historinha para o livro que o Antônio Goulart e o Vilnei Herbstrith estão preparando. Na certa terão muitas “histórias, historinhas e historionas” de imprensa para contar.
Voltando aos 12 mil sem teto da cidade de São Paulo, este é o dado que a administração municipal da capital paulista, sem nenhum pejo apresentou a respeito da visita do Papa. E o que é pior: eles recolheram esta gente, durante a madrugada para que o “Santo Padre” não visse o panorama vergonhoso nas ruas da maior cidade brasileira.
O pior é que eles divulgam isso sem nenhum rubor a lhes tingir o rosto descarado...
Por que não aproveitam o recolhimento e transformam, de vez, os “sem teto” em alegres “com teto novo”? Com esta fórmula, assim que acabar a visita do Papa eles estarão nas ruas outra vez. Sem teto, naturalmente. Nem almoço.
A vida em sociedade tornou-se um desfile de cinismos e hipocrisias. Não importa a religião que queiram homenagear ou o grau de importância do visitante. Pode até não ser ele mesmo, o portador do tal cinismo ou nem imaginar o que de fato ocorre, se for mal informado, é claro. Às vezes a notícia não chega ao centro do poder, como diria Luis XIV...
De qualquer maneira, sim, sabe-se que é difícil resolver um problema como este, mas bem que se poderia tentar! Ainda mais na capital do estado mais rico da federação que recolhe icms do que produz pelo país todo.
Minha contribuição à visita do Papa Bento XVI é esta: sejamos sinceros. De nada adianta ocultar as favelas com painéis de publicidade (como já foi feito no Brasil), nem remover os pobres das ruas (como fizeram com Luis XIV na França do século quinze...)
FANATISMO E
DESTEMOR
Walter Galvani, em 12/05/2007
Ah a juventude! Bem supremo que se desperdiça, e cujo valor só descobrimos quando já estamos, infelizmente,
velhos.
Eis o drama da paixão e morte de um jovem estudante de Medicina.
MURETA E PAIXÃO
Walter Galvani
Há a presença do Papa no Brasil e o deslocamento até São Paulo, com todos os sacrifícios possíveis, inclusive financeiros até, para levar “cuia e bomba de chimarrão”, rejeitados pelo Serviço de Segurança do Campo de Marte ou do Pacaembu, porque lá, estes símbolos gaúchos não são reconhecidos como “mensageiros de paz”. Deve ser ainda algum resquício de 1932 alojado no espírito paulista...
Mas, o tamanho da mureta e as dimensões da paixão esportiva é que se sobrepõem à vontade de estar num acontecimento ímpar e ao fanatismo religioso, para fazer com que as pessoas se excedam. E morram por isto.
Na vitória do Grêmio sobre o São Paulo pela “Libertadores”, um jovem estudante de medicina, uma promessa da nossa sociedade, jogou-se para a morte ao saltar uma mureta de 80 centímetros, mais a grade de proteção de 30 centímetros. Precipitou-se no abismo de 3 metros e meio.
Os funcionários da Segurança do estádio Olímpico dizem que não são poucos “os mais entusiasmados” que sobem ali, nos momentos de paroxismo da paixão clubística. E não descartam, inclusive que o jovem William tenha sido empurrado por outros apaixonados que buscavam a mesma demonstração de loucura que ele cometia.
Pensa-se em elevar a mureta e a proteção para dois metros e tanto. Não o façam. O erro não está na altura da mureta, o erro reside nos corações apaixonados que no auge da onipotência que a juventude gera (no caso, 21 anos) acham que nada os poderá deter.
Nesse “nada mais além”, incendiado pelo comportamento do estádio inteiro, um jovem estudante de Medicina, portanto... jogou-se para a morte, por imprudência, descuido ou crime.
Há já algum tempo que o comportamento das torcidas de futebol vem se tornando de tal forma violento que os próprios clubes e federações adotam punições severas. Pouco severas, talvez. O mau exemplo nasceu na Inglaterra e na Holanda, onde multidões de bêbados, denominando-se “hooligans”, se infiltram nos grandes estádios, naturalmente em dias de decisões importantes, para perturbar os adversários. Alguns jogam pedras, outros radinhos, outros mais ousados “sinalizadores” de fogo, bombas. E outros se atiram para a morte, em honra dos seus clubes. Esta identificação infeliz pode levar à perdas como a deste jovem torcedor do Grêmio Porto-Alegrense, um clube honrado, que em 1903, quando foi fundado, não imaginaria que cumpriria tão definidora trajetória, a ponto de identificar em si, em sua camisa, seu passado, seu presente e por certo seu futuro, todo um sentido simbólico de representação local e regional.
O QUE DIZ O PAPA NO BRASIL
E O QUE REGISTRA A IMPRENSA
Walter Galvani, em 13/05/2007
Há "pequenas diferenças" entre a repercussão "triunfante" na "midia"
eletrônica e impressa no Brasil, e o que
informa a imprensa internacional.
Leiam e reflitam, amigos brasileiros.
Mesmo sendo um conhecido conservador,
sempre é interessante o que dizem do
Brasil, "lá fora".
(Esta crônica está sendo publicada hoje no jornal ABC DOMINGO, do Grupo Editorial Sinos, editado para Porto Alegre, Região Metropolitana e Encosta da Serra no Rio Grande do Sul, estado mais meridional do Brasil)
OS CAVALEIROS DO APOCALIPSE
Walter Galvani
Como sempre, é preciso ler os jornais de fora do país para descobrir o que acontece aqui dentro. Isso porque os meios oficiais conseguem mascarar de tal forma o que de fato sucede que o povo, em meio à poeira cósmica dos comentários e manifestações políticas, fica sem saber o que de fato ocorre.
Visita do Papa. Os brasileiros ficam sabendo através da cobertura maciça feita especialmente pelos sistemas de televisão, de que foi um sucesso e que a Igreja Católica deve crescer depois desta visita. O “sábio” pontífice teria ajudado os brasileiros a encontrar os seus caminhos e a não ser pelo pouco diplomático envelope de Lula que sumiu estrategicamente na hora da entrevista do presidente com Bento XVI, no qual ele narrava suas permanentes preocupações “com a família”, pouco mais se viu de negativo ou pouco positivo.
No entanto, a reação dos jornais internacionais como “El País” e “El Mundo”, de Madri, o “The New York Times” e o “Washington Post” dos Estados Unidos, o “La Reppublica” de Roma, a não ser que estejam todos mentindo, numa “conspiração internacional” contra o Brasil, é diametralmente oposta.
Dizem eles que o Papa “puxou as orelhas” dos bispos brasileiros. Disse-lhes que a Igreja Brasileira tem sido muito tolerante e que modernamente enfrenta-se “os quatro cavalheiros do Apocalipse”. São eles, disse o papa germânico: “O Agnosticismo, o Laicismo, o Relativismo e o Consumismo. E agora, os Meios de Comunicação de Massa, todos empenhados em destruir a família, os valores cristãos, defendendo os casamentos diferenciados.”
Atribuiu-se à “sensualidade inata” dos brasileiros esta espécie de dissolução dos costumes e com isso tentam explicar o crescimento das “igrejas pentecostais evangélicas”.
“É falso – comentam os jornais da Europa e dos Estados Unidos – As chamadas Igrejas Pentecostais Evangélicas são mais conservadoras em matéria de costumes e sobretudo com a sensualidade do que a Católica”.
Surgirão muitas explicações, principalmente depois que o Papa deixar o Brasil. Espera-se que não o acusem de desnorteado como o pobre pingüim que saiu do Chile caminhando e como um descendente dos “happy feet” andou 5.000 quilômetros e foi parar, ontem, no Peru. Ou como o próprio presidente Lula que chegou certa feita à Venezuela e saudou os “bolivianos”.
Se o Papa sabe mesmo o que está dizendo, botou o Igreja Católica brasileira numa saia justa, demonstrando que não se perdeu como pingüim e sim, provou que não é por acaso que leu um longo discurso em português com sotaque irretocável.
LULA APRENDEU A LIÇÃO
Walter Galvani, em 15/05/2007
A entrevista coletiva desta manhã de terça-feira, mostrou
um presidente pronto para
a "sabatina".
LULA, O BOM MENINO
Walter Galvani
Desde muito tempo sabemos que “o bom menino” não falta à escola e aprende a lição. Na entrevista coletiva desta manhã de terça-feira, o presidente Lula demonstrou com eloqüência e precisão, o quanto progrediu desde que foi três vezes derrotado como candidato a presidente até que acabou duas vezes eleito. Como já sabe que não poderá candidatar-se novamente, já acenou com acordos a todos os partidos imagináveis, mesmo aqueles que combatia e que o combatiam. E todos sabem agora, que Lula se transformou num parceiro ideal de convivência política.
Nada melhor.
Lula sabe tudo, Lula já viveu do melhor ao pior, já foi preso, fez greve, aprendeu a tolerar as diferenças políticas, sociais, conviveu com os grandes com os poderosos, colecionou momentos inesquecíveis e decepções notáveis.
Agora, Lula está preparado para engolir todos os sapos que se possa imaginar, mesmo “sapos barbudos”... como os adversários, maldosamente, a ele próprio se referiam e assim, tornar-se como é sua sagrada intenção, presidente de todos os brasileiros. Já avisou que o seu partido, o PT aprendeu a governar, depois de haver aprendido como se vive na Oposição, enfim, Lula já sabe ceder, fazer acordos, nomear antigos inimigos.
Lula aprendeu a lição completa. São poucos os políticos hoje, no Brasil, que possuem o grau de preparação de Luiz Ignácio Lula da Silva para tratar com os correligionários e com os adversários, ou seja, com os aliados e com os, digamos, divergentes políticos para não usar nenhum termo mais pesado.
E é pensando em Lula que escrevo hoje aqui. Bons tempos os do parlamentarismo, mas que no Brasil só valeram a pena durante o império. A experiência republicana não deu certo e escrevo isso para dizer que Lula não deve pleitear mais nenhuma reeleição, mas ele e seu partido aprenderam a conviver, tanto que poderiam compor-se em algum gabinete multipartidário. Como o governo que ele está montando para esta seqüência de mandato que tem.
Governo de coalizão é o nome do jogo neste momento. Se “é para o bem de todos e felicidade geral da Nação”, aceitamos. Vamos ver no que vai dar. Quanto às pequenas perdas (ou serão grandes?) como a tal história das refinarias da Petrobrás na Bolívia, pagou-se também um preço político. Tenhamos muita paciência.
ONDE FORAM PARAR AS NOTAS DE 100?
Walter Galvani, em 17/05/2007
A falta de inflação produz de tudo.
E a Navalha está cortando fundo...
OPERAÇÃO NAVALHA E OPERAÇÃO FURACÃO
Walter Galvani
Já temos de tudo. Até operações com título em inglês que é para impactar ainda mais os contribuintes. E assim é que nem bem saímos da “Operação Hurricane”-1 entramos na “Hurricane-2” e, antes disso, apareceu cortante e atuante a “Operação Navalha”.
São quarenta e três políticos e empresários atingidos aqui, outros tantos ontem e outros mais anteontem e já nem sabemos quem é quem...
Só que estavam lesando o fisco e a fazenda federal e muitos policiais federais saíram do casulo e no escuro da manhã já estavam confiscando computadores, (cuidado com os mails...) e telefones, cofres e documentos.
No meio disso, um amigo me chama a atenção:
Você já se deu conta há quanto tempo você não vê uma nota de cem reais?
Verdade, nem me lembrava, como é que eram mesmo as notas de cem?
Pois é – disse-me ele – isso é o resultado da falta de inflação. O dinheiro sumiu da praça, o dólar caiu e o dinheiro se foi.
Enquanto isso, a navalha está cortando grosso!
E deu até para interromper o furacão.
Temos que pensar duas vezes na hora de abandonar uma função ou de trocar de emprego, ou fazer uma compra grande. Estamos diante de uma realidade nova. E os que estavam acostumados a enganar a opinião pública, cuidem-se. A “navalha” está aí mesmo, fazendo sangrar.
A “pergunta que não quer calar” é: será que depois disso tudo vamos criar vergonha no Brasil e parar de roubar do erário público?
ÁLVARO CÃNDIDO DA SILVEIRA
meu modelo particular
Walter Galvani, em 18/05/2007
Uma crônica
escrita para mim
mesmo ou para mais
duas ou três pessoas
ESCREVENDO PARA DUAS OU TRÊS PESSOAS...
Walter Galvani da Silveira
Profissionalmente tenho usado o nome e prenome que me vieram de minha mãe: Walter Galvani. Propositadamente, ao longo dos anos e desde 1957, não tenho utilizado o meu nome completo, Walter Galvani da Silveira, mas hoje o faço em homenagem ao meu personagem preferido, meu pai, a quem tento inutilmente imitar ao longo da vida (e já lá se vão 73 anos...)
Sei que escrevo hoje para duas ou três pessoas, talvez para mim mesmo e para meus irmãos.
É que o dia 18 de maio era um dia discreta festa em minha família, mas que não podia ser esquecido, apesar de que o titular, meu pai, Álvaro Cândido da Silveira, se fizesse presente apenas com a sua calma, sua simpatia, sua bonomia, sua altivez e sua cativante personalidade de diplomata, inato.
Estaria completando hoje 102 anos. Possibilidade que já existe nos tempos modernos, difícil em sua época e por isso nos deixou no já longínquo 1989.
Mas, quantas lições, meu Deus do céu!
Quantas e quantas vezes fico a imaginar como se comportaria ele em determinadas aperturas que a vida tem me reservado!
E vendo o quanto foi amado e tudo o que teve de enfrentar e suportar, acho que é apenas uma modesta homenagem, esta que lhe faço aqui nas páginas abertas ao público deste site de Internet.
Nasceu em Porto Alegre, viveu praticamente toda sua vida em Canoas, foi um artesão, um profissional de marcenaria, mas, sobretudo um artesão da “arte de viver”.
Pena que partiu sem me transmitir toda a sua sabedoria.
Ainda agora, olho sua fotografia e vejo o caminho que tanto gostaria de haver trilhado. Bravos, Álvaro!
REFLEXÕES
PARA UM
DOMINGO
Walter Galvani, em 20/05/2007
Crônica publicada no ABC deste domingo, jornal do
Grupo Editorial Sinos
MEMÓRIA, LEITURA, HISTÓRIA
Walter Galvani
Você sabe o que é uma “rave”? Já viu acontecer uma em sua cidade, aí numa esquina de Novo Hamburgo ou debaixo do Monumento ao Livro de Morro Reuter? Sim falo daquele obelisco de onze metros representando os livros, no principal acesso da cidade. Você soube que esta semana, na quinta-feira, as pessoas se reuniram para uma “rave”, convocados via Internet, na Borges de Medeiros em Porto Alegre? Você ficou sabendo que um ataque “virtual” impossibilitou qualquer ação através dos computadores na Estônia, porque o governo retirou do seu pedestal um monumento aos soldados russos que lutaram na Segunda Guerra pela liberdade daquele país e aproveitaram para ir ficando – por ordem dos seus superiores, naturalmente – em Riga (ah, vagamente você se recorda dos “Pinhos de Riga”? – pois é, deram origem até à uma música) e assim é que se entra (ou sai da História).
Dia desses, Ivan Izquierdo, um extraordinário professor, o maior conhecedor dos mecanismos da Memória em nosso meio e pelo mundão afora, falou numa das conferências da série “Desafios do Pensamento Contemporâneo” sobre a capacidade e necessidade de “esquecer”. Não há cérebro e não há espaço em cérebro para acumular todas estas coisas que desabam sobre nós e que, basta abrir o computador, escutar o rádio, ler o jornal, assistir tevê, e o que se imaginava absorver nas longas conversas na mercearia da esquina ou no botequim da madrugada, se vai por água abaixo.
Pois é, trate de descobrir o que é uma “rave”. Você vai ver o quanto isso tem a ver com o velho conceito de comunicação entre os jovens e os caminhos da liberdade, enquanto à sombra tanta coisa acontece. Todos os dias, despertamos com uma nova e devastadora informação de que o mundo ainda não desabou não, mas os brasileiros continuam roubando (matando, assaltando) mas também “metendo a mão” via Internet ou ao vivo e a cores, sem vergonha nem divisão de classes ou profissões ou divisão geográfica, roubo acontece também e muito no Centro-Sul ou no Extremo Sul. Que o governo é capaz da maldade de dividir o Ibama para facilitar seus atos e, ao mesmo tempo melhorar seus números e é PAC pra cá e PAC pra lá, pac, pac, pac... Falta-me coragem para passar em revista uma semana. Desde que se começou a revirar o bojo da sociedade, em busca da compreensão da História, o mau cheiro começou.
Receio que a Sandra Pesavento e o Roger Chartier não consigam na próxima sessão do encontro imperdível em que se transformou o “Fronteiras do Pensamento” reavivar o conceito de Memória e História para nós. Chegarei tarde ao lugar número 31 da fila D. Estarei ajudando a preservar a memória de Luís Figueredo, na ULBRA, Campus Canoas. É bom que se construam obeliscos para marcar o que passou. E que não deve passar.
CHINA, MOÇAMBIQUE,
BRASIL...
Walter Galvani, em 22/05/2007
Pão, granada e futebol...
GRANADAS, PEDRAS
E UM PEDAÇO DE PÃO
Walter Galvani
Se você percorre o noticiário, em busca de algum gesto de bondade ou grandeza por parte da humanidade, corre o risco de não encontrar nada numa pobre manhã como essa, de 22 de maio de 2007.
Não é possível acreditar que nada aconteça, mas a seleção, naturalmente feita com o intuito de chamar a atenção, registrar o inusitado, percorre os porões, os infectos subterrâneos da consciência humana.
Hoje, por exemplo, temos para oferecer uma história de granada, um apedrejamento e um pão roubado...
Na China, o glorioso “Império do Oriente”, onde, aliás, o comunismo já foi para o arquivo embora sob o silêncio da maioria – onde a propriedade privada foi restaurada oficialmente através de lei, no ano passado, e onde a pobreza é um fato incontestável, uma pobre garota de 16 anos, roubou um pão, pois estava com fome e não conseguiu resistir ao apelo que ele representava, e suicidou-se.
A imprensa chinesa divulgou o fato mudando o nome da moça. O pseudônimo utilizado é Huang Shiaoling, como poderia ser o que se quisesse em meio aos dois bilhões de chineses. A vergonha, esta é irremovível da cara do país.
A menina deixou um bilhete contando do seu arrependimento, pedindo desculpas e dizendo adeus.
O dono da padaria humilhou-a por mais de uma hora diante dos clientes que chegavam e saíam do estabelecimento. Um deles ainda tentou pagar o pão, que não valia mais de 2 huans, coisa de 0,26 centavos de dólar, mas o padeiro não quis receber o dinheiro e continuou massacrando a moça.
Em Moçambique, jogavam o Ferroviário contra o Lichinga que perdia por 2 x 0. Um torcedor do Ferrovirário festejou mais um gol do seu clube e foi morto à pedradas.
Sem comentários. A moda pode pegar fácil no Brasil...
E por falar em Brasil, no Morro do Livramento, na pobre cidade do Rio de Janeiro, explodiu uma granada dentro de casa de uma família e pai e filha foram parar no hospital. A menina, Ana Clara dos Santos, com ferimentos no rosto. Quem são os culpados? Onde estão? Melhor exclamar como Castro Alves no século dezenove: “Deus, onde estás? Onde te escondes? Em que recanto do infinito Tu te escondes, dizei-me vós, onde estás, Senhor Deus?”
Na época Deus não queria “explicar” a Castro Alves a covardia da escravidão. Dois séculos depois, Deus continua escondido. Não consegue explicar, nem justificar, que continuem se cometendo crimes como estes que reduziram a “Cidade Maravilhosa” a algo bem pior do que Sodoma e Gomorra...
Walter Galvani, em 24/05/2007
DO FOGUETE AO INCÊNDIO
Walter Galvani
No levantamento diário dos horrores que consomem a nossa dita civilização, encontram-se pérolas inesquecíveis. Como essa, por exemplo, do rapaz que teve o peito acertado por um foguete que caiu a seus pés e então explodiu. Era uma “comemoração” no estádio! O Grêmio classificou-se para a fase seguinte da Libertadores e o jovem torcedor foi atingido. De onde saiu o foguete, ninguém sabe. Mas, que selvagens ululantes são esses, meu Deus? E mais:a não existe Polícia? Então como é que entram no estádio portando tais artefatos?
De vergonha e mentira vivemos todos, no molho da hipocrisia e do cinismo.
Vejam, por exemplo, a visita do Papa. Esconderam dos olhos piedosos do “Santo Padre”, doze mil sem teto nas ruas de São Paulo. Sumiram. O governo paulista deu um jeito de retirá-los da circulação durante a semana que o líder dos católicos esteve no Brasil.
Quer dizer então que é possível solucionar o problema dos sem teto? Sim, pois onde estiveram dormindo neste período? Na certa que não foi em nenhuma igreja...
Pois é, o desfile de horrores prossegue com um ex-policial que foi alvejado e cozinhado vivo ou morto no incêndio de sua casa. Acerto de contas? Talvez. A menor (de 13 anos) que estava com ele, sumiu, deu o serviço à Polícia e desapareceu.
Mistérios de um país que perdeu o rumo.
Dia desses passou um carro com placas de Ribeirão Preto com o seguinte letreiro inscrito em sua traseira: “Não roubem, por favor. O governo não quer concorrência.”
Forte, não?
Uma criança de meses foi ferida em assalto em Caxias, apesar dos brados lancinantes dos jogadores do Juventude que ocupavam o carro e pediram aos bandidos que levassem tudo, mas que não ferissem ninguém e mais, que havia uma criança a bordo. Adiantou o apelo? Não. O bebê Miguel continua hospitalizado.
Acho que o presidente do Tribunal de Justiça do Estado, terceiro na sucessão no governo gaúcho, tem razão na veemente defesa que faz do fim da impunidade e adoção da pena de morte no Brasil. Mas... e se a corrupção que vemos todos os dias alcançar também os escalões da Justiça? Será que não se punirá com morte, inocentes? Será que não haverá venda de liberdade?
Como dizia Getulio Vargas, ele próprio governante de um país já corrupto, nas décadas de trinta e quarenta do século passado, “o que salva o Brasil é que de noite os seus políticos dormem... E então o pais cresce.” Palavras de Getúlio.
Três mortos no Rio Grande do Sul por balas perdidas, só no mês de abril.
Isso aqui está virando o Rio de Janeiro?
BILHÕES PARA UMA
GUERRA INÚTIL...
Walter Galvani, em 27/05/2007
Como, aliás, são todas elas.
O governo de Bush
conseguiu embrulhar,
no mesmo saco,
republicanos e democratas.
Crônica publicada
hoje no ABC DOMINGO.
Jornal do Grupo Editorial
Sinos
DINHEIRO PARA A GUERRA
Walter Galvani
O Congresso americano aprovou uma verba de 100 bilhões de dólares para a Guerra no Iraque, sem nenhum cronograma de retirada das tropas invasoras. Vitória de Bush, vitória dos “falcões”, união dos dois partidos, os republicanos e os democratas, coisas incompreensíveis para quem não mora nos Estados Unidos, ou que não estude a política interna daquele país ou pelo menos não conheça a sua história recente.
Esta é uma vitória da indústria do armamento e do alto comando do exército. Nada que tenha a ver com a vida dos soldados americanos, seus familiares, e, muito menos com os civis iraquianos ou por acaso com os políticos da região. Os Estados Unidos da América do Norte também não estão interessados em solucionar a crise política, econômica e social da zona que invadiram. Para eles a paz é apenas um aglomerado insignificante de letras,(em inglês “Peace”). Não há o que fazer.
Derrubar torres em Nova York? Isso, já ficou demonstrado também, é inútil.
A cultura da violência que se propagou por toda a superfície da Terra nasceu, cresceu e floresceu nos Estados Unidos. O cinema americano se encarregou de difundi-la, torná-la apetecível e popular. Os “tiros em Columbine” não são raridade, mas repetecos permanentes de uma realidade, cujo modelo, infelizmente, copiamos.
Nossos jovens cantam em inglês, todos os fins-de-semana, canções cujas letras desconhecem, nossos estádios se transformaram em campos de guerra, onde disparar um foguete contra a torcida “adversária” se transformou num hábito e em pouco tempo ganhará ares de “exercício lúdico”. E já que não fazemos nada para dar segurança à população, na certa continuaremos a praticar, assim como toda a devastação do nosso território, a violência dos nossos dias e noites, o furto, o roubo, o assalto, o seqüestro, o assassinato.
Trocamos nossa paz de outros tempos pela patusca garantia de favores ao Mal.
Nem sequer as crianças, outrora poupadas desta guerra por um resto de humanidade presente nos sentimentos dos envolvidos, se salvam hoje. Elas estão na linha de tiro, como todos nós, que somos apenas números a ser incluídos ou não, pela sorte, na estatística da violência diária.
Vocês lembram do massacre dos indígenas pelos “conquistadores do Oeste” americano? Do revólver do “mocinho” que não se esgotava nunca? Eis o modelo americano, o que adotamos, para o nosso mal. Quanto a investir 100 bilhões de dólares na Guerra do Iraque, serão tantos os beneficiários internos e externos que, duvido que algum padre santo ou não, algum cacique ou índio se manifeste.
"REVISTA" PARA
IMPEDIR TÓXICOS
E ARMAMENTOS, COISA
ANTIGA VOLTANDO À MODA
Walter Galvani, em 31/05/2007
Na Inglaterra já pode.
"REVISTA" NAS ESCOLAS INGLESAS
Walter Galvani
Aconteceu, ou melhor, começou a acontecer o inevitável. As autoridades inglesas, munidas de autorização governamental e com aprovação do Parlamento, podem de agora em diante fazer a revista dos estudantes que chegam aos estabelecimentos de ensino, com armas ou tóxicos.
Vamos dizer que isso não é uma novidade, pelo menos na Europa... Nos tempos em que Pedro Álvares Cabral estudava na universidade de Lisboa, isso antes da sua fabulosa viagem ao Brasil, já eram desarmados os estudantes que apareciam portando pistolas, espingardas ou espadas. O bedel da universidade, autorizado pelos regulamentos vigentes, recolhia o armamento e fundia o metais, transformando tudo em barras, que eram comercializadas em benefício da instituição.
Dizem que, depois de 1498, começou-se a apreender também o fumo, pois tendo o “ítalo-hispano-português (há hoje uma dúvida cada vez maior sobre a nacionalidade do grande navegador), Cristóvão Colombo levou das Antilhas para a Europa, o gosto e o vício pelo tabaco.
(Aliás, coisa oportuna para relembrar num 31 de maio, escolhido como o “Dia Mundial sem Tabaco).
Desarmados e sem as rodelas de fumaça que ajudavam a espantar os maus espíritos e insuflar coragem aos estudantes, esses se viam obrigados a estudar matemática, astronomia, língua portuguesa, um pouco de teologia e muito de filosofia e quem sabe, alguma arte teatral.
Pedro, que então se assinava apenas Pedr’Álvares, por ser “segundo filho” e não poder por isto ostentar o sobrenome completo, também foi “desarmado” alguma vez, e na certa escapou de ser morto em alguma arruaça numa esquina de Lisboa.
Os nossos estudantes de hoje, oriundos de uma cada vez maior “geologia” da sociedade, provenientes de camadas as mais diversas, podem vir a ser surpreendidos com a “cannabis sativa” ou algum “crak” e, pior ainda, se seguirem o modelo americano, armados para o exercício de “tiros em Columbine”. Ninguém está livre disso. Eis uma nova moda que pode chegar aqui, mas que já chegou na Inglaterra, pois sendo lá, todos eles tão próximos dos americanos, pela carga genética transmitida, pela aliança histórica, pela língua e pelos demais valores culturais, sabem que o desastre está sempre ao alcance da mão. E antes que alguns inocentes paguem pelo descuido, e o prestígio da “velha senhora” Inglaterra arraste-se na lama, o jeito é aplicar a incômoda, mas útil, “revista”.
Ôlho vivo em cima desta moda que, tal como os “Beatles” e a “minissaia” decola lá do Reino Unido e acabará aterrissando aqui.
DIA DA IMPRENSA
Walter Galvani, em 01/06/2007
O dia 1º de junho é agora o Dia da Imprensa no Brasil, graças a um trabalho feito pela ARI.
Associação Riograndense de Imprensa.
Foi a data em que
começou a circular,
em Londres, o
"Correio Braziliense".
O jornal de Hipólito
José da Costa, uma espécie de gaúchpo, porque nasceu em
Colônia do Sacramento e foi educado aqui no estado (em Rio Grande e em Pelotas), e mais tarde foi viver
em Portugal, estudou em Coimbra e morou em Londres, como maçon, exilado.
Criticou a coroa portuguesa mas era tão respeitado que, dizem, um dos assinantes do "Correio" era Doim João VI...
Começo a pensar nele a partir de hoje.
BRASIL, MAL NA FOTO...
Walter Galvani, em 03/06/2007
Países mais pacíficos
do mundo: veja a nossa
colocação...
Crônica publicada hoje
no ABC DOMINGO,
do Grupo Editorial Sinos
BRASIL, 83º COLOCADO
Walter Galvani
Celebramos o Brasil quando ele é campeão, e no futebol somos penta, o que significa mais ou menos, que nos consideramos imbatíveis. Estamos, aliás, funcionando agora como produtores de matéria prima... Exportamos nosso “ouro”, nossos craques, para a Europa. E vamos logo produzindo outros. Mas, no que interessa mesmo, ou seja em alfabetização, em produção industrial, em poupança, nisso andamos lá pela rabeira.
Esta semana foi divulgado outro “ranking” mundial, reunindo 121 países integrantes da ONU, pesquisados por uma instituição chamada Global Peace, que estabeleceu o que se denominou GPI (Global Peace Index) e lá figura o Brasil como o 83º colocado. E isso sem estar em guerra, porque o pobre do Iraque ficou em 121º, claro, foi invadido. Aliás, merecidamente, o país invasor do Iraque está pior do que nós: os Estados Unidos estão no 96º posto.
Ali, ao redor do nosso feio lugar, estão México, Ucrânia, Jamaica, Marrocos, estes antes de nós e logo depois, na seqüência, Síria, Camboja, Bangladesh e Equador. Que mistura, hein?
Só para mitigar nossa vergonha, os últimos colocados são, pela ordem: Nigéria, Rússia, Israel, Sudão e, claro, o Iraque. Estes são os lugares menos pacíficos do mundo.
E agora, para inveja nossa, eis os mais pacíficos, onde se vive melhor. Já poderíamos imaginar, numa coleção de dez países, pontifica a Europa, norte daquele continente, mas há surpresas. Vejam a lista:
1º - Noruega
2º - Nova Zelândia
3º - Dinamarca
4º - Irlanda
5º - Japão
6º - Finlândia
7º - Suécia
8º - Canadá
9º - Portugal
10- Áustria
Todos os países escandinavos estão entre os dez primeiros. O segundo lugar é a Nova Zelândia, lá perto da Austrália, país que está cheio de estudantes gaúchos.
E Portugal? Tão menosprezado pelos brasileiros ignorantes e tão pouco respeitado, lá está, entre os dez mais pacíficos, ocupando a nona posição. Vive-se melhor na terra dos nossos irmãos lusos? Parece-me que sim.
Enquanto convivemos com balas perdidas, acertos de contas e assaltos com assassinatos, há gente que ainda vive razoavelmente pelo mundo afora. Por exemplo, falando em latino-americanos, no Chile, 16º colocado, Uruguai, nosso vizinho, 24º ou a própria Argentina, que já foi melhor, e que está na 52ª posição. E até no México, 79º lugar.
Os organizadores da pesquisa citam a escritora inglesa Agatha Christie na abertura dos resultados: “Ganhar uma guerra é tão desastroso quanto perdê-la”, escreveu ela, alertando seus compatriotas, conhecidos pelo orgulho imperial, a pirataria oficial e a guerra de conquistas nos séculos passados.
4.500 vagas em 28 minutos
Walter Galvani, em 05/06/2007
Jornada de Literatura
de Passo Fundo
Todos os anos, quando agosto chega, Passo Fundo assombra o Brasil e o mundo.
Sobretudo, o Brasil...
Ninguém poderia imaginar que uyma Jornada de Literatura reuniria 4.000 pessoas, debaixo de uma lona de circo, mesmo que hoje ela seja virtual (até que, com o frio do Rio Grande é bom que assim seja)para falarde livros.
Pois é verdade, acontece no Brasil, o mesmo país de ignorantes e tantos idiotas virtuais
que não sabem fazer outra coisa a não ser assistir tv.
Lembro muito do filme sobre aquele idiota norte-americano, no qual ele dizia "I watch tv."
Pois é.
Lê-se no Rio Grande e este é um dos nossos maiores e mais jkustos orgulhos.
Para mim, que trabalho na área, é uma enorme alegria.
Viva Passo Fundo, viva a Jornada, viva o Zaffari e viva a Tânia Röseing.
Todos os anos tenho dito e escrito isso.
Espero que o reconhecimnento a essa gente se reproduza e se propague.
Até sempre.
REFLETINDO
COM O PROFESSOR
EUGÊNIO HACKBARTH
Walter Galvani, em 07/06/2007
Crônica publicada hoje
no jornal
Diário de Canoas
AQUECIMENTO E ERA GLACIAL
Walter Galvani
Todo mundo tem direito a ter o seu guru, eletrônico ou não. Um ícone escolhido, alguém em cada área do conhecimento, que possa ajudar a iluminar os caminhos, compreender o que “está por vir”. Assim, nos porões da História, podemos selecionar nomes como Charles Darwin ou Galileo Galilei, Henrik Ibsen ou Shakespeare, Machado de Assis ou Lula. Sirvam-se.
De tanto falarem no “aquecimento global” tomei-me de alguma desconfiança com o tema. Pois não é que o meu “guru meteorológico” vem a público e bota uma pitada de dúvida em cena? Pois é. Eugênio Hackbarth, para mim o símbolo do conhecimento meteorológico, o homem que administra a Estação de Meteorologia Urbana de São Leopoldo e dá mais de duzentas entrevistas mensais e produz centenas de boletins sobre o assunto, faz um alerta, comedido como é seu estilo, mas objetivo, como é também: “há períodos de aquecimento global, há períodos de resfriamento”, são ciclos irremediáveis, basta acompanhar a história da Terra nestes anos todos em que tem sido possível escriturar os dados, colecioná-los e se percebe que se é verdade que é preciso respeitar os azares da vida do planeta, também convém não exagerar.
Bem puxadas as orelhas dos adeptos do catastrofismo, lembra o Prof. Eugênio, que não é de hoje que surgem versões, tanto de um lado quanto de outro, apelando para a dramática reação das pessoas.
Nos anos vinte houve um período de aquecimento, então não se usava ainda o adjetivo “global”, bem como nos anos cinqüenta, deu-se um período de resfriamento.
Que isso não sirva de justificativa, aliás, ajuizadamente, o próprio professor assinala isto, para os inimigos das medidas contra o “efeito estufa”, para os grandes industriais que só visam o lucro ou para os maus cidadãos, para quem com o sistema do “lixem-se os outros” trilham o próprio caminho do desastre. Ou da danação, como diria algum poeta ou profeta perdido nos descaminhos do século vinte e um.
Pois é, mas o professor chama a atenção para os exageros dos que vendem a dificuldade para negociar melhor a facilitação. Cuidado com eles, pois estão em toda a parte, em especial nos governos, nos cargos políticos, na direção das multinacionais ou, quem sabe, nos postos jornalísticos.
Tem muito falso profeta por aí, alertou o meu “guru meteorológico”. E entre o seu conhecimento, diria até sua sapiência, do alto dos seus setentinhas bem vividos, e a loucura ou a má fé que anda por aí, prefiro ficar sob a guarda da prudência. Saio de guarda-chuva, mas não me nego a levá-lo dobrado, debaixo do braço.
DIA É DE CAMÕES
É O DIA DA RAÇA
O DIA DE PORTUGAL
Walter Galvani, em 10/06/2007
10 de junho é uma data especial: data nacional de Portugal, uma homenagem ao poeta Luís Vaz de Camões.
Homenagem a um poeta? É isso mesmo.
Leia-se sobre este original procedimento, na crônica que aqui se transcreve, publicada hoje no jornal ABC DOMINGO, do Grupo Editorial Sinos, que circula na região metropolitana de Porto Alegre, Vale do Sinos e Encosta da Serra no Rio Grande do Sul.
CAMÕES NÃO SE ESQUECE
Walter Galvani
Sempre me surpreendeu, a cada dia 10 de junho, lembrar que há um país que escolheu o seu “dia” a partir da data de um poeta. Faz hoje 427 anos que morreu Luís Vaz de Camões, o genial criador de “Os Lusíadas” e outro tanto que a ele se referem os cultores da língua portuguesa. Ele é o pai da nossa língua e foi ele o primeiro a registrar em versos inspirados, o longo passeio que ela fizera por todos os continentes então conhecidos, gerando um fato indiscutível: fala-se o português em todos eles. É a quinta língua mais falada no mundo, mesmo considerando o indiano e o mandarim (leia-se o chinês), ambas praticadas em países com mais de um bilhão de pessoas. Depois delas vem o inglês e o espanhol e somente eles, junto com o português, praticados pela quantidade assombrosa de pessoas capaz de colocá-los neste “ranking” mundial.
Os povos criam seus mitos e seus símbolos e, de um modo geral, atribuem a uma data a função e a capacidade de representação que as transforma em sólidos avatares da nacionalidade. Comecemos pelo Brasil que erigiu o 7 de Setembro como o ponto de partida para a nossa independência, mesmo que o grito de “Independência ou Morte” tenha sido proferido por um príncipe português que depois foi ser rei em Portugal, nosso Pedro I, lá o Dom Pedro IV. Para os Estados Unidos, o dia é 4 de julho, para os franceses, 14, e assim por diante. Pois, para Portugal, o dia é o 10 de junho e não se relembra com ele nenhuma batalha, nenhum general ou almirante, mas apenas a morte do poeta.
É bem verdade que Camões pintou em “Os Lusíadas” toda a saga da criação de um país e de uma nacionalidade, mas não desferiu nenhum tiro para fazê-lo. Usou apenas os memoráveis versos que começam com o inesquecível “As armas e os barões assinalados” que, como se sabe, passaram “inda além da Taprobana” e que andaram “em perigos e guerras esforçados, mais do que prometia a força humana”. Lá esteve Camões, percorrendo todos os caminhos de mar e terra cumpridos pelos seus antecessores e compôs, com seus versos inspirados, cuidadosamente compostos, a legenda dos bravos portugueses. São eles que estão nos pilares da nação brasileira, são eles que nos transmitiram o orgulho nacional imenso que nos permitiu conservar e fazer crescer este colosso.
Dos 220 milhões de falantes, 180 estão no Brasil, mas também em Portugal, Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Timor Leste e em enclaves como Macau, ou antigas colônias como Damão e Diu. Viaje, portanto, armado com o português na ponta da língua.
QUANDO OS ALUNOS
SUPERAM OS MESTRES
Walter Galvani, em 14/06/2007
Hoje trago para os meus eventuais leitores, um belíssimo trabalho de uma aluna, Camila Canali Doval.
Leiam, por favor, eta crônica está no blog http:/mecanicosda palavra.terra.com.br/index.htm
NÃO POR ACASO
* Camila Canali Doval
Não por acaso saí de casa, ontem, na maior chuva, para ir ao cinema. A verdade é que eu já previa uma tarde maravilhosa com a família, só eu e eles, como há muito tempo não fazíamos.
Não por acaso eu e minha família, ontem, éramos apenas quatro. no dia 2 de junho, em uma estonteante noite de inverno em Gramado, meu irmão se casou.
Não por acaso nós quatro, eu, meus pais e minha irmã, sentimos necessidade de estarmos juntos, um dia inteirinho, fazendo coisas deliciosamente banais. Realizando, silenciosamente, um íntimo ritual de despedida.
Não por acaso comemos pipoca, não por acaso olhamos os filhotinhos de cachorros na vitrine da loja, não por acaso conversamos sobre os últimos acontecimentos, planejamos o futuro próximo e fomos sorridentes e carinhosos uns com os outros.
Não por acaso o filme que assistimos não era um romance nem uma comédia, era um filme sobre a vida, sobre os rumos, sobre os caminhos que tomamos, as ruas que cruzamos, sobre as idas e vindas, sobre as ondas de sinais verdes que se propagam, sobre os sinais vermelhos também, sobre como, às vezes, perdemos o controle do jogo e a bola branca inevitavelmente cai na caçapa.
Não por acaso a história do filme falava de separação e fim, de ressentimento e perda, de paralisia e medo, da instabilidade das certezas, da vontade de fazermos sempre e apenas o que dará certo.
Não por acaso no filme tinha amor, muito amor. Amor para tudo ser verdadeiro, amor para segurar as barras, amor para tudo e todos encontrarem o seu lugar.
Não por acaso desde o filme não pára de chover um instante, como em todos os momentos dramáticos das cenas e da vida, e agora não há luz na minha casa, e reencontro , enfim, o papel e a caneta à luz destas velas, reencontro as palavras, reencontro meu pedaço afastado, reencontro o que há em mim que me impele dolorosa e docemente a criar.
Não por acaso a chuva lava as feridas dos últimos meses, a perda do emprego, a perda da confiança, a perda da certeza, o sentimento de rejeição, o medo de estar no lugar errado na hora que nunca foi marcada, a inesgotável fase ruim que só esgota com essa água toda caindo do céu, com esse abraço mudo e apertado na família, com um respirar fundo, com o enfrentamento de uma enxurrada de sentimentos assustadores necessitando de resoluções.
Não por acaso, às vezes, a tacada sai um pouco mais forte do que o planejado e é preciso recomeçar.
Não por acaso, às vezes, a sinaleira entra em pane e precisamos decidir sozinhos se devemos atravessar.
Não por acaso, ontem, assisti ao filme Não por Acaso. Não tem remédio para a alma melhor do que uma obra-prima.
Camila - Mulher de Sardas | < 00:23:36> comentários[2].
envie este texto para um amigo
CRISTO REDENTOR
CANDIDATO
Walter Galvani, em 17/06/2007
Lula tirou uma fotografia ao lado da estátua do Cristo Redentor, no Corcovado, mas não abriu os braços...
Seria demais.
Crônica publicada neste domingo
no jornal ABC DOMINGO, do Grupo Editorial Sinos:
LULA CRISTO
Walter Galvani
Numa interrupção dos tiroteios na Favela dos Macacos e entre uma preocupação e outra da Ministra do Turismo, mandando que os atrasos dos vôos fossem aproveitados pelos turistas para “relaxar e gozar” – uma forma de expressão de péssimo gosto – seguida pelo seu pedido de desculpas urgente, que não convenceu ninguém, os fotógrafos pediram ao presidente Lula, irmão do Vavá, que posasse junto ao Cristo Redentor no Rio, com os braços abertos, pedindo votos para transformá-lo (o Cristo, naturalmente...) em uma das “Maravilhas do Mundo Moderno”. Num instante de lucidez, Lula disse aos profissionais de imprensa: “Não, depois vocês vão publicar dizendo que eu quero ser Cristo!”
Pode ser que ele esteja se sentindo mesmo como o personagem mítico do cristianismo, uma espécie de “crucificado” moderno, que tudo faz em favor dos seus irmãos e acaba pendurado no alto do Calvário, mas a verdade é que, num lampejo de sorte ou raciocínio, evitou o ridículo maior.
Das acusações sobre a atuação do seu irmão ou da lama que daí respinga, ele se livra com mais facilidade, pois não há quem não entenda, nesse país de corruptos e corruptores, que o procedimento é típico e não surpreende ninguém. Nem mesmo que um senador mande pagar a pensão de uma ex-companheira através de esquemas que, inesperadamente vem à tona, por obra e graça de investigações sérias da Polícia Federal, nada mais espanta uma nação que perdeu a capacidade de se revoltar.
A população brasileira fica indignada é com pênaltis não cobrados, gols em impedimento, erros de arbitragem ou multas inesperadas por infrações de trânsito que, jura, jamais cometidas. Isso sim. Há também os cortes de pensões por aposentados de há muito falecidos e que seguem indevidamente recebidas. Tudo isso deixa a nação indignada. O resto, não mais surpreende, nem choca ninguém.
Assim, Lula sobe o seu Calvário para se transformar num cristo do século vinte e um, quando tudo é válido, até mesmo “relaxar e gozar”, e depois pedir desculpas.
Por isso que os cultores do parlamentarismo dizem que a pior autocracia é a do voto universal, pois uma vez cumprido o rito, não há como mudar ou retocar. Já no sistema parlamentarista de governo, pelo menos se bota um ministério abaixo, por muito menos do que a boquirrota da Marta Suplicy escorregou.
Depois disso tudo, fala-se que só a Educação é capaz de salvar o Brasil. Isso mesmo. Só que é preciso começar lá do início mesmo. Alfabetização, apenas, não é o suficiente.
DOM PEDRO II
POR JOSÉ MURILO DE CARVALHO
PARA O
DIÁRIO POPULAR
DE PELOTAS
Walter Galvani, em 18/06/2007
Pelotas é a segunda cidade do Rio Grande do Sul, e, sob certo ponto de vista,
a primeira.
Estreei neste domingo,
como colaborador daspáginas literárias
do Diário Popular,
o mais antigo jornal diário
em circulação ininterrupta
no Rio Grande do Sul,
dirigido pelo grande jornalista
Clayr Lobo Rochefort,
que dedicou ao seu jornal, já, mais de meio século de vida.
É um orgulho escreverpara
o grande jornal de Pelotas.
Aqui vai reproduzido
meu primeiro artigo:
DOM PEDRO II
Walter Galvani
Todo mundo, quase todo o mundo, é bastante curioso verificar que a leitura de assuntos relativos à antiga Casa de Bragança, que nos deu um rei (sim), e dois imperadores, atraia tanto a atenção dos brasileiros. Nesse momento, está na estante dos “mais vendidos” ou “mais comprados” como queiram, das maiores livrarias do Brasil, a biografia de “Dom Pedro II”, da série “Perfis Brasileiros”, escrita por José Murilo de Carvalho. A edição é da “Companhia das Letras” e o autor, um Prêmio “Casa de Las Américas”, embora não por este volume recém lançado, mas pelo seu trabalho anterior, “Cidadania no Brasil: o longo caminho”. (Participei do júri em Cuba e acho que foi mais do que merecido o prêmio a José Murilo de Carvalho em 2005, pelo seu criterioso estudo sobre a evolução da sociedade brasileira em busca de uma “cidadania” em todos os aspectos filosóficos, sociológicos, e até geográficos da questão.)
Um dos pilares desta construção nacional é a presença da família real portuguesa que gerou a permanência aqui do Príncipe do Brasil, mais adiante Dom Pedro I e do seu filho Dom Pedro II. Tanto o filho como o neto de Dom João VI haverão de agradecer (através dos seus descendentes) por esta lembrança tão viva na construção de uma legítima “cidadania brasileira” que acabou incorporada pelos sambistas do Rio de Janeiro e mais tarde por todo o país: em primeiro lugar, não há desfile de Escola de Samba da cidade antigamente chamada “Maravilhosa”, hoje palco de uma guerrilha urbana ilimitada, que não tenha reis, rainhas, passistas vestidos como nas cortes do século XIX ou concurso de clube ou festa popular, da Uva e do Vinho ao Atlântico Sul, que não eleja rei, rainha e princesas.
Este saudosismo da corte não cessa de produzir os seus efeitos, e é bem explicado pela atitude dos republicanos que fizeram embarcar Dom Pedro II e sua família, ainda de madrugada em 1889 pois, se o povo descobrisse o que fizeram Deodoro e seus camaradas do exército, por certo ainda hoje teríamos a cerimônia do beija-mão no Passo de São Cristóvão.
Embora sintetizado em suas 276 páginas de muita informação, o livro é um reflexo da saudável admiração de Murilo pelo imperador brasileiro, “um homem que amava o Brasil”, talvez na mesma sintonia de seu avô, João VI e seu pai, Pedro I. Na falta da figura paterna, diz Murilo, talvez o jovem Bragança tenha erigido o próprio país em seu modelo. E é nesse sentido, na defesa inclusive da honra nacional e dos seus interesses, que pautou toda a sua vida. Esta admirável reflexão está em todas as páginas do pequeno volume de Murilo de Carvalho e talvez com isso se explique a inesperada voga do livro e do biografado. Talvez também pela falta de modelos recentes onde o país possa se espelhar... afinal, embora a distância no tempo possa portar uma visão reformadora da realidade, também é certo que o filtro do passado ajuda a enxergar com mais precisão o que havia de positivo e negativo na figura enfocada.
“Dom Pedro II”, por José Murilo de Carvalho, edição da Companhia das Letras, série Perfis Brasileiros, São Paulo, 2007, 276 páginas, em torno de 37 reais nas livrarias, uma boa oportunidade de começar a compreender quem somos, de onde viemos e para onde vamos, neste antigo império semi-tropical
O PAPA E O TRÃNSITO
Walter Galvani, em 21/06/2007
Crônica publicada neste dia 21 de junho de 2007, no jornaj
"Diário de Canoas" d
Grupo Editorial Sinos
CÓDIGO PAPAL DE TRÂNSITO
Walter Galvani
O Papa falou, causa encerrada, diziam mais ou menos os romanos, representado o Sumo Pontífice pelo próprio nome da cidade: “Roma locuta, causa finita”. E como não há o que discutir, depois do código de trânsito elaborado pelo Papa Bento XVI, também não se pode fazer reparos. Faltou-lhe apenas dizer por que o homem é tão indisciplinado no trânsito e o gaúcho mais do que qualquer outro. Saiam na rua e vejam por conta própria, constatem o egoísmo, a vaidade, a prepotência e suas conseqüências, como a agressão, a violência, o desrespeito, a desconsideração.
O Papa elaborou um decálogo:
1 – Não matarás; 2 – A estrada seja, para ti, um instrumento de ligação entre as pessoas, não de morte; 3 – Cortesia, correção e prudência para te ajudar a superar os imprevistos; (“Bah, se ele visse os gaúchos em ação! Como são “corteses”, como dão lugar para os outros numa fila!”) 4 – Ajudar o próximo principalmente se for vítima de um acidente; 5 – Que o automóvel não seja um lugar de dominação, nem lugar de pecado (“Se meu fusca falasse...”); 6 – Convencer os jovens sem licença a não dirigir; (“Convencer a quem de alguma coisa?”); 7 – Dar apoio às famílias que tenham parentes vítimas em acidentes; 8 – Reúna-se com a vítima e com o motorista agressor em um momento oportuno para que possa viver a experiência libertadora do perdão; (“Quando? Que hora? Você quer apanhar?”); 10 – Você é o responsável pelos outros; (“Está brincando, Papa?”).
Propositadamente fiz alguns comentários entre aspas para lembrar ao Papa que deve viver no céu com os anjinhos, que estamos sobre a terra e que “tudo que se move é inimigo” para a maior parte dos motoristas.
Finalmente queremos propor ao Papa um estágio aqui em Canoas, em nossas ruas e avenidas, nas passagens de nível e nos viadutos, nas filas e nas estradas que cruzam nosso município. Com direito a pós-graduação em Porto Alegre.
Ele vai ficar sabendo o que é que é bom para a tosse!
Descobrirá, em questão de segundos e poucos metros de ruas e avenidas, que o principal aqui é teoricamente chegar antes. Mesmo que você pare na mesma sinaleira que o “adversário”… Pois, é claro, o motorista do outro carro é um “adversário”, um “competidor” e não um companheiro de sina.
Assim é a dura vida no trânsito do mundo. Não confunda, não estou escrevendo “sic transit gloria mundi”... O sentido é outro, mas também passa depressa. O pior é não saber latim. Nem latir...
EDUCAÇÃO E ENSINO BÁSICO
Walter Galvani, em 23/06/2007
Crônica publicada hoje
no jornal "A Razão"
de Santa Maria
NENHUMA CRIANÇA SEM ESCOLA
Walter Galvani
Por vezes é preciso que o revolucionário desapareça para que suas teses sejam adotadas. Costume velho. Assim, morto Brizola, que aliás não chegou a realizar seu sonho de presidência, lembra-se o velho slogan: “nenhuma criança sem escola”. Esta semana se assinalaram três anos de sua morte e em meu caso pessoal, uma coincidência: naquele dia 21 de junho de 2004, eu ingressava no Hospital São Lucas da PUCRS, com o mesmo diagnóstico de Brizola, que naquele dia deixava a vida para entrar na História: endocardite.
Para quem não está afeito à dialetologia médica, infecção interna, no coração. Tive sorte. Diagnosticada pelos doutores Lorival Cardoso e João Carlos Fernandes, minha doença foi tratada em tempo e acabei cuidado pelo infectologista Gabriel Narvaez e operado pelo cirurgião Marco Antônio Goldani. Com tantos nomes ilustres e o apoio da PUC através da ação do Irmão Elvo Clemente, de quem sou “aluno à distância”, uma espécie de “EAD” particular, há cinqüenta anos, aqui estou digitando com violência herdada dos tempos da máquina de escrever, esta historinha de amizade e carinho que foi conduzida por minha companheira Carla Irigaray, com igualável dedicação.
Mas, eu queria falar de Brizola e apenas aproveitei a coincidência de datas, para salientar que ele cogitou dar à educação o melhor, primeiro como prefeito de Porto Alegre, depois governador do Rio Grande, mais adiante na Guanabara. Aqui no Rio Grande todos conhecemos as modestas mas multiplicadas escolinhas de madeira que brotaram como cogumelos depois da chuva. As coisas mudaram, faltou dinheiro para pagar professores, concentraram os alunos em algumas unidades, fecharam-se outras, criou-se um sistema de transporte em ônibus, faltou verbas para os municípios, enfim, houve de tudo e hoje... bem hoje pouco resta do plano antigo.
Ficou a idéia que foi semeada em 1957 e pelos seguintes vinte ou trinta anos. Ainda hoje, a simples menção da frase, “nenhuma criança sem escola” traz a lembrança. Três anos é muito pouco, Brizola é ainda muito discutido, ele esteve na raiz da briga que manteve João Goulart na presidência, podado pelo parlamentarismo de ocasião, depois na geração do golpe militar, a divisão do país entre posições extremadas que nem sequer eram de direita e esquerda, mas que marcaram a ruptura ideológica entre os conservadores e as “perigosas” forças populares que, mal conduzidas poderiam levar a um novo levante, golpe no golpe, revolução, mortes, ostracismo, exílio, o que acabou acontecendo de forma tipicamente brasileira, mas que também deixou muito ranço ideológico e injustiças.
O QUE ANDA,
ANDA MAL...
Walter Galvani, em 24/06/2007
Crônica publicada
hoje no ABC DOMINGO
do Grupó Editorial Sinos
UM PAÍS EMPERRADO
Walter Galvani
Afinal de contas, sem concessões nem constrangimentos, o que é que está funcionando neste país? Os sistemas de saúde, se, sabidamente é preciso ter um plano particular para contar com um atendimento razoável? A Previdência Social, se é sabido que é preciso contar com planos de complementação privados, para não ficar reduzido à incapacidade financeira, limitado a dois ou três salários mínimos, depois de haver contribuído sobre valores muito maiores? Segurança Pública, se não é mais possível sair-se à rua depois de determinada hora, e, pior ainda, pode-se ser assaltado em qualquer lugar nas grandes e agora também nas pequenas cidades, mesmo ao meio dia?
Será que é possível ainda programar um deslocamento por avião, mesmo sabendo que os vôos são cancelados sem prévio aviso e você não é sequer indenizado? Que, pior ainda, os controladores de vôo podem entrar em greve e você ficar sem o transporte, caro e elitizado, que, no entanto não tem mais controle de qualidade?
Utilizar seu carro nas estradas, onde o atraso de processos de desapropriação e liberação de verbas tem o seu cronograma de obras alterado o que aumenta o risco de acidentes e não se pode sequer imaginar para quando elas estarão concluídas?
De olho na política, você pode imaginar se alguma coisa funciona, em meio a tantos desvios e notícias sobre corrupção?
Na Educação consagrou-se a perda de um ano e onde as escolas aprovam os alunos por decreto? Onde ninguém mais roda, ninguém mais estuda, porque sabe que vai passar, e onde se pagam salários miseráveis aos professores?
Onde é, então, que as coisas funcionam neste país?
Prezados leitores, desculpem o negativismo, mas parece-me que estamos chegando a um impasse. Como nada mais funciona e vamos de mal a pior, temos a tendência de engolir o que é medíocre, o que não passaria por um controle mínimo nem nos empobrecidos paises africanos. Somos Terceiro ou Quarto Mundo, é preciso que se assuma isso de uma vez e deixemos de lado as pretensões, a soberba, a vaidade.
No que é que somos melhores do que os outros?
No futebol, quem sabe, sujeito sempre à competições e comparações, porque, de repente até nisso... sim, há por aí a Argentina, a Itália, a França... Para nada serve enraivecer. Vamos mal e pronto.
Lula é muito engraçado, o povo entende a sua linguagem, mas nivelar por baixo não me parece a melhor saída. Aqui no Rio Grande nos orgulhamos e até botamos em nosso hino, que “sirvam nossas façanhas de modelo à toda a terra”. Mas, vamos ver de perto nossas mazelas, vamos descobrir que o dobro de nada é muito pouco ou é nada também. Portanto, comparar com o resto do país é covardia.
SOBRE INÊS PEDROSA
NO "DIÁRIO POPULAR"
DE PELOTAS
Walter Galvani, em 25/06/2007
É o jornal mais antigo em circulação no Rio Grande do Sul.
Walter Galvani estréia nas páginas literárias, publicado
na edição deste domingo:
FICA COMIGO ESTA NOITE
Walter Galvani
A Editora Planeta está cumprindo uma notável tarefa de lançamentos e, no caso, de atualização da obra de diversos escritores europeus importantes, em especial espanhóis, italianos e portugueses. Nesta roda de acertos, incluiu a apresentação no Brasil de todos os livros de Inês Pedrosa, uma das mais fortes intelectuais de Portugal (por exemplo, pelo romance “Fazes-me falta”) e agora por este excepcional, cheio de ternura, compreensão pelos problemas humanos e de uma tão funda penetração nos sentimentos, e eu diria que até nos sentidos que chega a doer quando se lê, o livro de contos ou quase isso, “Fica comigo esta noite”.
A própria Inês, quando comenta seu trabalho costuma dizer o quanto lhe custa cada “filho” desses, apesar da sua também notória atitude de propagação e defesa de uma postura feminina que vai muito além da simples atuação pelos chamados “direitos da mulher”. Vendo-se Inês Pedrosa em ação, e ela já esteve na Jornada de Literatura de Passo Fundo e várias vezes no Rio, São Paulo e pelo menos uma vez em Porto Alegre, percebe-se que ela é isso. Por vezes, como fez em Passo Fundo há três anos atrás, vestiu-se “de homem”, inclusive de terno e gravata, para deixar bem clara a sua posição de defesa dos verdadeiros valores da pessoa, bem longe da fumarada da “mídia” ou dos resultados colaterais de mitificação de ideais ou conquistas ocasionais.
Fica difícil mergulhar nesse mundo da Inês Pedrosa, sem usar as próprias palavras dela. Aí se explicita um caminho que está presente onde você escavar, em todos os seus textos. Acompanhem por favor, o final do conto “Europa, plano nocturno” que encerra seu livro: “Não há portas para os territórios familiares da dor, não há como conter a violência dentro do ninho (...) Há apenas a dor, cintilando como um clarão no chumbo do céu, chuva de estrelas cadentes sem História nem mártires reconhecíveis. Porque há sempre uma noite mais escura do que a escuridão do mundo. Mesmo para quem, como eu, nunca soube escavar até ao fundo dessa gruta negra, trans-siberiana, húmida, universal, a que chamamos coração.”
A Planeta manteve, como se vê, a grafia portuguesa das palavras (ex. húmida) o que é um bom exercício para quem vai ter de ceder alguma coisa (assim se fazem os tratados) para o Acordo Ortográfico aprovado e até hoje não posto em prática.
“Fica comigo esta noite”, editora Planeta, São Paulo, 2007, 160 páginas, numa edição apoiada pelo Instituto Português do Livro e das Bibliotecas.
GARIBALDI, DIA 4 DE JULHO
Walter Galvani, em 30/06/2007
Duzentos anos do nascimento
de Giuseppe Garibaldi, terá palestra de Alcy Cheuiche, no Memorial do RGS, às 17 horas e o lançamento do livro produzido pela sua oficina, logo após.
Esta crônica foi
publicada no jornal
"A Razão" de Santa Maria:
DATAS RIOGRANDENSES
Walter Galvani
Nesta semana entrante, o Rio Grande começa a festejar uma enorme data, dessas redondas, mas realmente expressiva para nossa História. Será a vez dos 200 Anos de Giuseppe Garibaldi. Foi o autor da Unificação da Itália, o homem que combateu e na força de sua audácia e coragem construiu a aproximação entre todos os italianos e deu-lhes uma pátria única, festejada, aliás, na mesma data que a nossa Revolução Farroupilha, 20 de Setembro, por coincidência e trama virtual da própria História.
Na semana que passou, deu-se o falecimento de Paulo Xavier, este sim um dos maiores nomes da historiografia do nosso estado. Ele foi também um dos primeiros diretores do Departamento de Cultura da SEC, raiz da hoje secretaria, por onde desfilaram e confluíram tantos e tão produtivos projetos.
Também ele um dos grandes entusiastas da figura de Garibaldi, “o heroi dos dois mundos”, que será alvo de um trabalho especial do acadêmico Alcy Cheuiche, que irá proferir palestra sobre Garibaldi, no Memorial Riograndense, dirigido por outro acadêmico ilustre, o Prof. Voltaire Schilling, eleito também na semana passada para a Academia Riograndense de Letras.
Assim, temos vários nomes a unir no instante em que celebramos nosso herói transatlântico, o poderoso Garibaldi, o homem que nos abriu o trânsito para a liberdade, princípio que veio aqui defender e que, junto com Luigi Rosseti e outros grandes nomes italianos, ajudou a inscrever no pavilhão farroupilha: “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”.
Baseada nesses princípios é que nascia nossa república.
Hoje, passados tantos anos, duzentos sobre o nascimento de Garibaldi, quase tantos (172) sobre o surgimento do nosso movimento revolucionário, esmagado pelo império brasileiro mas que deixou sua marca na valentia, na coragem, no desejo de independência e na lisura de atitudes do gaúcho, por certo espelhados no herói que a Itália nos emprestou, registre-se que a semana, o mês e o ano será de lembrar seu nome.
Mas, além do seu nome, o significado da sua empresa internacional pela liberdade, e depois, o envolvimento inolvidável em sua terra natal, contando em todos esses episódios com a participação da brasileira Anita e dos seus filhos, com ela gerados e que ajudaram a levar o sangue riograndense para o solo italiano.
Já que estamos tratando de valores culturais, não esqueçamos o que está inscrito em nosso hino: “Mostremos valor, constância” e que “sirvam nossas façanhas de modelo a toda a Terra!”
ALMIRO ZAGO, ANOTEM O NOME
Walter Galvani, em 01/07/2007
No Diário Popular, o grande jornal da zona sul do estado, publico esta crônica e a poesia de um belo cronista que acompanho e recomendo:
REVELANDO UM POETA E CRONISTA
Walter Galvani
Muitas e muitas vezes, em nossa atividade jornalística e ou literária, enfrentamos o inesperado e agradável encontro com o talento. É preciso saber reconhecê-lo, seja no jovem que recém abre as asas para o primeiro vôo, seja no veterano que pratica o melhor de um nível que talvez nem suspeite haver atingido.
Almiro Zago, um deles. Um veterano, poderíamos dizer, longamente entregue a outras atividades e que me surgiu como “aluno” (e no entanto, o quanto aprendo com ele!) numa oficina de escrita criativa em que os “formandos” se autodenominaram “mecânicos da palavra”. Criaram até um “blog” do grupo, (http//www.mecanicosdapalavra.weblogger.terra.com.br/index.htm) onde, vez por outra surgem maravilhas como este poema do meu aluno-revelação:
ENTARDECER
“Vem
vamos revisitar
antigos outonos
com a sonata do vento
a soprar aromas
e sentir o que fomos.
Vem
a estação ainda demora
vamos de mãos dadas
andar sobre as folhas caídas
pelos caminhos de outrora.
Ao pôr-do-sol
das vinhas esquecidas,
uvas tardias colheremos
para suavizar a palavra,
adoçar o olhar
nas horas estremecidas.
Depois
agasalhados de esperança
meias de lã verde-mate,
esperemos o inverno
na varanda da memória
com chá de menta
e bolo de chocolate.”
Almiro Zago.
Não por acaso, aliás com este mesmo título, lá está no site, uma crônica de Camila Doval, também ela minha ex-aluna, daquelas e daqueles como o Camilo, que ultrapassam o mestre e enchem o professor de orgulho e satisfação.
Fico satisfeito em ver o quanto ainda é possível criar. Como diria Rosa Montero, autora de “A louca da casa”, na sua escrita mistura a experiência pessoal, a autobiografia e a ficção, porque “tudo o que conto neste livro sobre outros livros ou outras pessoas é verdade, quer dizer, responde a uma verdade oficial documentalmente verificável. Mas receio que não possa garantir o mesmo sobre o que se refere à minha própria vida. Porque toda a autobiografia é ficcional e toda ficção, autobiográfica, como dizia Roland Barthes.”
Almiro Zago, por certo no outono da vida como este seu professor (preferiria “companheiro de aprendizagem”) ainda nos terá muito para dar.
Espero estar presente no lançamento do livro de crônicas que prepara com carinho e esmero. Onde por certo figurarão também algumas experiências desta alta densidade poética demonstrada neste poema fundamental com que nos presenteou.
SOGIPA, 140 ANOS
E A ATUALIZAÇÃO
CULTURAL
(Curso especial
que tem forte tradição
no grande clube
porto-alegrense)
Walter Galvani, em 03/07/2007
A convite de Hipérides
Ferreira de Mello, vice-presidente cívico-cultural
da Sogipa, falei
para quase 100 mulheres.
Mais ou menos o seguinte:
A PESQUISA HISTÓRICA COMO RESGATE
E ATUALIZAÇÃO CULTURAL
Com este título, ficou marcada uma palestra para a Sogipa, dentro do Curso de Atualização Cultural realizado pelo clube, que deverei fazer no dia 2 de julho de 2007.
O que direi?
Partindo da idéia de pesquisa histórica que me levou (a mim e minha companheira Carla Irigaray) a Portugal durante o ano de 1998, pois imaginávamos que as comemorações dos 500 anos da descoberta oficial do Brasil ocupariam “corações e mentes” durante o ano 2000, pensamos (mudo para o plural, pois éramos dois com a mesma idéia) em realizar uma pesquisa para produzir um livro.
Quando deixamos o Brasil ainda não sabíamos bem o que nos esperava, nem o que resultaria da nossa proposta.
Antes de partir, esgotamos o que havia em matéria de bibliografia sobre o tema no Brasil e percebemos que havia um espaço para algo que fosse sério e de fato fizesse o resgate do que ocorreu no final do século XV.
Aliás, quem eram aqueles portugueses que chegaram ao nosso continente?
O que pretendiam eles?
Já sabiam da existência de terras nestes paralelos e meridianos?
Ou o mundo de fato “acabava” ali na altura dos Açores ou das ilhas do Cabo Verde?
Durante um ano e meio, antes do nosso embarque que se deu a 8 de março de 1998, (vejo hoje que coincidentemente na data de 8 de março, quando Pedro Álvares Cabral deixou Lisboa em 1500, aliás, logo ficamos sabendo dia 9, porque a frota ficou pronta para partir no dia 8, mas o vento (única fonte de energia na época) somente soprou no dia 9. Foi também a 9 que chegamos à Lisboa em 98, com todo o gás e a disposição de trazer uma contribuição original ao tema do Descobrimento.
Logo se viu que se estávamos atentos às condições históricas do período da descoberta oficial do Brasil, estávamos pouco informados a respeito das condições meteorológicas da nossa própria época, pois, chegamos à capital portuguesa, munidos de roupinhas leves para enfrentar a primavera e o verão europeus que estavam a chegar, mas esquecemos da ponta de inverno que ainda predominava no Velho Continente.
Quase morremos de frio, com o ventinho que teimava em retornar todas as tardes, naqueles saudosos tempos de Lisboa e, pior ainda, quando nos atrevemos a fazer a primeira viagem à Belmonte, terra natal de Pedro Álvares, uma jóia engastada no sopé da Serra da Estrela, onde os montes ainda ostentam o que então se chamava “neves eternas”. Aliás, não é bem no sopé, é na encosta das montanhas, e quem conhece o clima de Gramado e Canela pode bem imaginar o que foi...
O que também não sabíamos era que ao mergulhar na aventura lisboeta com os desdobramentos por outros sítios de Portugal e da Europa é que iríamos nos apaixonar completamente pela História, pelo tema escolhido e pelo personagem especial, um dos nossos “pais fundadores” como diria a Psicanálise.
Foi ele, aliás, quem me apareceu em sonhos, pois saibam que a visita na segunda etapa do sono, naquilo que se costuma classificar como “sono profundo”, um patamar em que o cérebro trata de arrumar as coisas para o dia-a-dia, mas isso muito mais adiante, quando em outubro ou novembro de 1998 me enterrava na redação do texto.
Minha mulher assustou-se com meu súbito despertar em plena madrugada e mais ainda quando, sentando-me na cama, exclamei: “Pedro!” ou nem disse nada, pois hoje misturo com a cena do “Hamlet”, de Shakespeare, quando aparece ao príncipe o espírito do seu pai – “O espírito do meu pai em armas!”, disse o príncipe da Dinamarca. E eu, vendo ali, quem sabe “meu pai” também, não pôde conter a emoção enquanto eu o via e escutava o que tinha para dizer.
Pedro Álvares Cabral com o dedo em riste , surgiu-me como nas efígies que antigamente ilustravam as notas do papel-moeda brasileiro, de perfil, com a barba pontuda, me ameaçava: “Não malbarates a minha herança!”
Ora, “malbaratar”, eis um verbo quinhentista, o que ajudava a dar legitimidade ao personagem que me surgira em sonhos, parido pela minha preocupação em escrever-lhe corretamente a história.
Tempos mais tarde, livro pronto, submeti-me ao que considerava o “supremo julgamento”. Enviei-o ao Prof. Bernardo Vasconcelos e Sousa, que havia conhecido em Lisboa, como “descendente direto e representante oficial da família Álvares Cabral”, 15º na linha sucessória, e que no ano da pesquisa dirigia o Arquivo Nacional Torre do Tombo, o principal arquivo histórico português. Eu lhe havia narrado o sonho, com grande preocupação e angústia e Bernardo, hoje um grande amigo que deixei no além mar, um “irmão transatlântico” como nos tratamos, me respondeu:
“Fique tranqüilo. O Walter não malbaratou a herança!”
Dito isso, tranqüilizei-me. O susto fora grande.
Pelo jeito, não pensaram da mesma maneira os portugueses, pois o livro, que foi grande sucesso no Brasil, alcançando seis edições em pouco menos de dois anos e ultrapassando hoje os 46.000 exemplares vendidos, o que é por qualquer parâmetro um legítimo “best seller” – em Portugal, onde foi lançado em primorosa edição da Gradiva, foi um rotundo fracasso. Até hoje, embora apresentado com toda a pompa e circunstância no castelo da família Cabral em Belmonte, não conseguiu vender muito mais de mil exemplares...
Explica-se e descobri na pesquisa, é claro, Cabral não é importante para os portugueses, apesar de todo o ouro que mandamos para lá durante dois séculos e meio.
Importante, esse sim, foi Vasco da Gama, o que “abriu o caminho para as Índias” e lançou Portugal no mercado internacional em 1497/98 e era o mais cotado para comandar a “maior frota que Lisboa jamais viu”, e, no entanto, foi preterido por Dom Manuel I, que escolheu nosso Pedro, honrando um convite do antecessor Dom João II e com isso “puniu” o Gama por algumas rebeliões que alimentava na sua região natal.
(A propósito: vocês conhecem algum clube de futebol o nome de Pedro Álvares Cabral? Não? Mas “Vasco da Gama” todo mundo sabe, não é mesmo? E assim é, pelo mundo afora, pelos outros sete países da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) ou pelos pontos dispersos da diáspora portuguesa, que vão de Macau (na China) a Goa, Damão e Diu na Índia, ou França, Alemanha e Inglaterra na Europa.
Mas quem era Pedro Álvares Cabral, porque fora ele o escolhido, o que mais fez pela coroa portuguesa, o que fizera antes, como foi a sua meninice, sua adolescência, sua juventude, se estudou onde o fez e em que guerras andou.
Temo estar me perdendo, faltou-me um astrolábio, o que sobrava aos navegadores portugueses daqueles tempos. A tecnologia de que dispunham transformava Portugal no país mais desenvolvido da Europa neste período, Lisboa era uma capital atrativa e rica, posição que conservou até cair sob o domínio da Espanha, e, depois da Restauração em 1680, pelo menos até o terremoto de 1755, período em que foi perdendo um pouco de sua importância, sempre com a independência em risco por causa da idéia do “Iberismo”, até chegar à condição de hoje, quando ocupa um dos últimos vagões da Europa, (embora isso não queira dizer que esteja atrás do... Brasil por exemplo), em termos internacionais.
Temos mais habitantes mas falamos todos, com as pequenas diferenças regionais de acento ou preferências vocabulares, a “língua portuguesa”.
Todos nos entendemos.
Costumo dizer que o futebol, o cafezinho e a língua portuguesa nos unem completamente.
Poderíamos ser (com nossos mais de 180 milhões de habitantes) os líderes naturais da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) mas desprezamos este pedestal, em troca da indiscutível liderança futebolística ou da saudosa música popular e do próprio espírito que conduz à renovação de língua e costumes, embora pudéssemos nos abster com vantagem da exportação da malandragem e da violência, modelos que nos envergonham perante a comunidade mundial, mas que estão indiscutivelmente ligados ao comportamento brasileiro.
Não somos melhores do que ninguém, mas então porque nos orgulhamos tanto e do que nos orgulhamos tanto? Pode-se dizer que o deslumbramento nacional começou com a própria carta de Pero Vaz de Caminha, nosso primeiro cronista, que escreveu uma notável carta que é uma preciosa reportagem e que escancara a admiração dos europeus por nossas matas, nossos rios, nossos mares e ... nossas “índias”...
Foi ele, aliás, um notável cidadão da cidade do Porto, onde era o escrivão oficial da Câmara, quem inaugurou a idéia depois ampliada e trombeteada da “Europa se curva ante o Brasil” e foi a malandrice tropical que ele logo percebeu na Bahia, depois chamada Cabrália, no Porto Seguro e mais tarde na Bahia de Todos os Santos, que passou a predominar no pensamento e no procedimento brasileiro.
Dom João VI que o diga, que veio para cá fugindo estrategicamente de Napoleão, aliás a conselho da Inglaterra, a eterna aliada de Portugal, e apaixonou-se pelo Brasil.
Voltou obrigado, jungido pelas exigências das cortes portuguesas. Deixou o filho a quem mandou que colocasse na própria cabeça a coroa do Brasil, “antes que algum aventureiro o faça”, como foi historicamente claro e só reconheceu a nossa independência, quando foi ele reconhecido pelo Brasil, como monarca.
Seu filho era o Imperador, mas ele o Rei...
É bom ir adiante no resgate da nossa identidade, pois talvez assim seja mais fácil compreender o que se vive diariamente, o que se vê e se lê. Ou melhor: o que se vê, mas não se diz e o que se lê, mas não se comenta...
Mas, voltemos primeiro a 1500. É lá que estávamos.
Ou a 1998, quando voltamos aos sítios em que se formou nosso descobridor oficial, em busca da sua personalidade e da explicação das suas motivações e de seus contemporâneos e é assim que se faz a pesquisa histórica, como um resgate e em busca da atualização cultural.
Foi assim que percorremos o Zêzere, pequeno rio que se formava nos altos da Serra da Estrela e depois atravessava os campos e as encostas, por onde Pedro, um menininho, andava nos anos verdes de sua infância e juventude, a correr a pé e a andar a cavalo, seguindo seu irmão mais velho, o líder “da malta”, como diriam nossos irmãos lusitanos.
Molhava seus “pezitos” naquele pequeno rio, talvez próximo da ponte onde hoje passa uma auto-estrada por onde emigram os descendentes dos seus amigos para trabalhar na França e na Alemanha.
E assim veremos, que para um resgate histórico, acabamos fazendo um trabalho de sapa, de escavação de origens e raízes, para descobrir ou redescobrir e assim explicar o que ficou para trás em nossa formação.
Aos poucos vamos balizando os acontecimentos e sempre que o fizermos, estaremos estabelecendo os pontos de identificação, esclarecendo e , logicamente, abrindo o espaço para a compreensão, para o entendimento, para a memória e, conseqüentemente, para a explicação dos atos que poderiam hoje nos assombrar.
Para tudo acharemos uma explicação convincente.
Este é o resultado iniludível de qualquer pesquisa histórica.
E com isso, refrescamos nossa memória. Restabelecemos nossos padrões, redescobrimos nossas raízes e fazemos luz sobre nossa conduta
UMA FEIRA DE LIVROS EM CANOAS
Walter Galvani, em 05/07/2007
Como é em minha tera natal, estou mais do que preocupado.
Mas acho que a diretora cultural do município, Ivone Frare, achou o caminho certo.
Esta crônica foi publicada hoje no jornal Diário de Canoas:
A SACOLA DA CULTURA
Walter Galvani
Penso exatamente como o Juremir Machado da Silva: não é uma boa medida esta história de cotas nos vestibulares para negros, deficientes, etc e tal. O certo é dar tais condições ao ensino básico, o nosso antigo primário, que os negros, os deficientes, os pobres, chegarão aos exames nas mesmas condições dos brancos, ricos, alemães, italianos, etc... Mais ainda: com o tempo, acabar com os vestibulares, este sim é o caminho. Também acho, como ele aliás, que no entanto, enquanto isso, é preciso que os negros “metam o pé na porta” e nesse sentido, agiu de forma olimpicamente superior, o Reitor Magnífico da UFRGS, José Carlos Henemann, aliás, para orgulho da nossa família, com o mesmo sobrenome da minha avó materna, Alma Henemann.
Isso é para dizer que “dar a mão à palmatória” é um procedimento assás inteligente e eu louvo a Ivone Frare, diretora do Depto. de Cultura, por ter sido capaz de recolocar a Feira do Livro, agora em sua 23ª edição, de volta no Calçadão. Não sei se o Calçadão de Canoas merece a Feira do Livro, se merece a Ivone, se merece os livros e se ele próprio, se merece. Desconfio que não. Mas, não vale a pena discutir isso, a Ivone foi suficientemente lúcida para trazer a Feira de volta para o Calçadão, não importa quais foram as pressões. Vamos ver agora como a cidade responde. Quero saber dos números ao final, esvaziados de qualquer pontualismo.
E a Ivone Frare trouxe os livros para o Calçadão e mais e melhor ainda, levou-os às vilas e bairros distantes com a genial sacada das “sacolas de cultura”, com que atinge inicialmente 225 famílias do bairro Mathias Velho, cada uma portando 30 livros que passam como os santinhos de igreja e na volta recebem os livros lidos, para dar outro giro.
Este projeto iniciou na feira do livro do ano passado e era só para as escolas municipais. Agora, as sacolas vão até o fundo das necessidades familiares. Espero que as sacolas sejam felizes e que o povo as mereça. Desconfio muito que as sacolas voltem vazias... Se isso acontecer, viva os ladrões de livros! Afinal, uma cidade que já tem ladrões de livros está no bom caminho, porque eles só furtarão livros e ninguém morrerá baleado por acerto de contas. Isso, deixamos para os toxicômanos e os traficantes, que, aliás, estão a pedir uma ação do Exército Nacional, que seria benfazeja, já que, como no caso das cotas universitárias, o melhor é meter o pé na porta., agora. Depois se refaz o caminho. Começando pelos livros.
"CRISTO REDENTOR"
CHEGOU LÁ...
Walter Galvani, em 07/07/2007
No estádio do Benfica, em Lisboa, surgiram:
AS SETE MARAVILHAS DO
MUNDO MODERNO
Walter Galvani
Criamo-nos ouvindo falar nas “7 Maravilhas do Mundo Antigo” e, embora delas distantes e talvez impedidos por vários motivos de ver o que restava de algumas delas, já destruídas, sabíamos a lista, de cor:
O templo de Ártemis
Os jardins suspensos da Babilônia
O mausoléu de Halicarnassus
O Colosso de Rodes
O Farol de Alexandria
A estátua de Zeus
As pirâmides do Egito
Neste sábado, no estádio da Luz, “casa” do Benfica de Lisboa, foram anunciadas as “7 Maravilhas do Mundo Moderno”, fruto de uma votação feita através da Internet, mas nem por isso menos expressiva que a relação antiga surgida em torno do ano 200 Antes de Cristo.
Esta nova lista, 2.207 anos depois, traz alguma luz e muita curiosidade, muita polêmica e uma sadia preocupação, bem melhor do que saber de assaltos e crimes, e que pode, momentaneamente, ocupar os espaços da “mídia”. Para início de conversa, é bom saber que há vida inteligente longe das grandes redes...
Mas, vamos aos “aprovados” deste sábado:
Muralha da China
Cidade de Petra, esculpida na pedra na Jordânia
A estátua do Cristo Redentor, na baia da Guanabara, Rio, Brasil
Ruínas de Machu Pichu, Peru
Cidade de Chichén Itzá, na península de Yucatan, no México.
Coliseu, em Roma, Itália.
Aí se alinham, portanto, um estádio, um templo, uma cidade esculpida na pedra, uma imagem de Deus (como fora um Zeus antigamente), a longa muralha da China (protetora e separadora, como tantas de hoje em dia, leia-se México e Palestina...) um mausoléu, como é o Taj Mahal, como o foi o de Halicarnassus.
A UNESCO eximiu-se de qualquer responsabilidade e o Egito pediu que não fossem consideradas suas pirâmides, porque elas já estavam na relação das antigas maravilhas e ainda teve a inspiração de pedir que a Organização para a Ciência e a Cultura das Nações Unidas pensasse em organizar uma lista com bases científicas, com vistas ao patrimônio histórico e artístico e não um resultado de votações por Internet, onde, evidentemente a divulgação e as questões de número influiriam. Como influíram.
Basta percorrer a lista a sentir a falta do teatro de Sidney ou da estátua da Liberdade, ou da Torre Eifell ou do Kremlin. Mas, a lista iría, é claro, muito além de 7, de 21 ou de 121.
Quem não teria hoje uma relação dessas para substituir os escolhidos pela votação popular? Em todo o caso, foi um bom começo.
Vamos nos preparar para os casos de substituição e polêmica. E fez muito bem o Felipão em prestigiar o ato. Pelo menos alguém do Brasil para representar o “Cristo Redentor”...
AS 7 MARAVILHAS
Walter Galvani, em 11/07/2007
Fazer listas, eis uma idéia que deve ter nascido com o surgimento da relação das "7 Maravilhas do Mundo Antigo"... ou seja, no ano 200 A.C mais ou menos...
UMA BOA IDÉIA E A SUA
EXPLORAÇÃO POLÍTICA
E COMERCIAL
Walter Galvani
Ninguém vai dizer que a seleção das “7 Maravilhas do Mundo Moderno”, ainda mais quando é tornada pública num dia “cabalisticamente correto”, como o 7 de julho (mês sete) de 2007. não seja uma boa idéia, sob todos os pontos de vista, inclusive aqueles promocionais, comerciais ou de simples absorção de interesse público.
Em todo o mundo, praticamente, se fala do assunto desde a noite de sábado, quando raríssimos canais de televisão (no Brasil foi só a RedeTV), mas na certa todos os jornais de domingo (a não ser os que circulam com data de domingo no próprio sábado à tarde, nesse caso impedidos materialmente de fazê-lo) divulgaram os nomes das novas “maravilhas do mundo” eleitas na base de toques de celulares (telemóveis, como se denomina em Portugal) e votos por Internet.
O belíssimo estádio da Luz, sede do Benfica de Lisboa, ganhou uma divulgação extra e serviu de base para um espetáculo capenga (se é que foi só o que foi transmitido para o Brasil) onde o perfil da atriz Jennifer Lopez parecia ser o da maior estrela presente, mas pouco convincente, diga-se de passagem, a não ser por sua beleza. Mas, o que estava em questão no momento seria a sua voz...Como disse minha netinha de quatro anos, a Isabella, “sem dúvida uma bela cantora” e mais não disse porque achou que havia dito tudo. E havia mesmo.
O que ninguém cantou e de um modo geral se ficou devendo ao público, foi quem inventou, com que razões e objetivos, o tal pleito.
Ao que se sabe, trata-se de um cineasta suíço Bernard Weber, que pretendeu criar um maxi-evento para sacudir toda a terra. Ele tem aliás a pretensão de abalar os terráqueos com seus livros e filmes.
A lista nascida da duvidosa votação por e-mail e por telemóveis, pela ordem de apresentação, foi a seguinte:
A Grande Muralha da China
A cidade arqueológica de Chichén Tzá (México)
O Cristo Redentor, no Rio de Janeiro
As ruínas de Petra, na Jordânia, cidade esculpida na pedra pelos romanos.
Machu Pichu, em Cuzco, no Peru
O Coliseo, de Roma.
O Taj Mahal, na Índia.
Ora, assim como surgiram estes aí, é óbvio que estava certa a UNESCO (Organização para a Ciência e a Cultura das Nações Unidas) em dizer que não se pode limitar em apenas sete, as maravilhas do mundo moderno, como de certo não se poderia limitá-las em sete quando foram enumeradas por alguém, na altura do segundo século antes de Cristo, com relação ao chamado “mundo antigo”.
Veja-se com que felicidade se enumera outras tantas maravilhas:
Os colossos da ilha de Páscoa
A cidade árabe de Alhambra, em Granada, Espanha
O teatro moderno de Sidney, Austrália
A Torre Eiffel, em Paris
A Estátua da Liberdade em Nova Yorque
A Esfinge de Gisé, no Egito
O complexo de templos do Kremlim, em Moscou.
E que lista mais poderia seguir-se à esta!
Como:
A catedral de Santa Sofia em Istambul
O templo de Kaaba, na Arábia Saudita
A catedral de Notre Dame, em Paris
A catedral de Veneza
A própria cidade de Veneza, edificada sobre centenas de ilhas.
O colosso de Stonehenge na Inglaterra
A Acrópole de Atenas
O complexo de Angkor Wat no Camboja
E tantas outras coisas construídas pelos humanos. De propósito vamos parar por aqui para não sermos tentados a reproduzir a relação das coisas maravilhosas destruídas pelos humanos, lembrando que apenas as Pirâmides do Egito sobrevivem da lista inicial, a tal criada antes de Cristo e que incluía:
O Farol de Alexandria
O Colosso de Rodes
O templo de Artemis
O mausoléu de Halicarnassus
Os jardins suspensos da Babilônia
A estátua de Zeus
Tantos foram os viajantes, guerreiros, filósofos e escritores que se maravilharam diante destas jóias que a tradição perpetuou-as e originou esta nova lista na cabeça dos humanos, o que já fora, aliás, tentado em outras oportunidades, mas seguramente como em 2002, por exemplo.
Bernard Weber, diretor de documentários cinematográficos e escritor suiço, resolveu agora tornar-se ele próprio uma das maravilhas do mundo moderno e lançou esta competição que, bem ou mal, com a mídia moderna terá grande repercussão.
Pessoalmente continuo me deslumbrando com o Colosso de Rodes e o Farol de Alexandria, que iluminam meu pensamento e vivem na minha imaginação. E se tivesse que fazer escolhas, fugiria quase que completamente à lista aprovada, ou, pelo menos multiplicá-la-ia por cinco ou seis.
Quanto a Bernard Weber, este sim terá sua fortuna multiplicada. Ele diz que foi assistente de Federico Fellini, quando tinha 15 anos de idade e que muito aprendeu com o mestre italiano do grande cinema das décadas de 60 e 70 do século passado.
Na certa que a obra do próprio Fellini merecia uma preservação com a classificação de “maravilha do mundo moderno”.
Já o senso comercial de Bernard Weber, quem sabe...
LEIAM, LEIAM, LEIAM
Walter Galvani, em 14/07/2007
Não se envergonhe de ler o "Harry Potter", o sétimo livro.
Mas, leia.
VOCÊ LEMBRA DO TARZAN?
Walter Galvani
Há muito de hipocrisia e esquecimento, talvez alguma pitada de reacionarismo e cinismo nesses que detestam o sucesso de personagens populares, tipo “senhor dos anéis” ou “Harry Potter”, para lembrar o que estará chegando às livrarias no dia 20. Aliás, as que trabalham com encomendas virtuais estão com as listas lotadas e logo começarão a fazer as entregas. Muitas dispensam frete.
Vai chegar caro o novo Harry Potter, em primeiro lugar porque se trata de edições em inglês, importadas dos Estados Unidos, a 159,60 e da Inglaterra, a 144,00 reais.
É o sétimo livro de J.K.Rowling, a mulher que estava quebrada e não encontrava editor e agora já vendeu 325 milhões de exemplares dos livros com o personagem que inventou.
Eu não li, confesso que já tentei e não consegui, mas não condeno as pessoas que gostam de “Harry Potter”, pois, afinal de contas, isso significa leitura. E o mais importante é ler. Sempre. O livro é a base de tudo, é o alicerce da sociedade.
Além do mais, como poderia eu falar mal de quem lê livros de aventura, mistério ou magia, se eu próprio, quando jovem, consumi todos os Tarzans que surgiram na velha Coleção Terramarear, da editora Nacional? Aqui no Brasil, os livros de Edgar Rice Burroughs faturaram tanto quanto hoje Tolkien (com “O senhor dos anéis”) ou Rowling (com o pequeno “Harry”). Li um atrás do outro, “Tarzan na Ilha do Tesouro”, “Tarzan e as formigas”, “Tarzan o Rei da Selva”, “Tarzan, rei dos macacos”, e tantos mais que esqueci. Parece-me que eram 25. Ora, o Potter está apenas chegando ao sétimo, assim como o filme, que também estreou esta semana e que está na quinta película.
Ora, dizer que se detesta uma coisa que se tornou popular, é cinismo puro. Prefiro que comecem por aí, a que se iniciem com a violência, a droga ou o preconceito.
A ensaísta Rosa Sílvia Lopes escreveu sobre estes fenômenos literários e denominou seu ensaio “O poder mágico das palavras”. Eu também acho, embora tenha apanhado efeitos contrários, pois esta arma ensurdecedora, levada pela força do vento, às vezes nos derruba. Mas, que arma! Basta saber usá-la. A crônica, por exemplo, o que é? O resultado da magia das palavras.
Elas são como lanças. Direto ao coração.
DELAÇÃO PREMIADA OU
O PRÊMIO Á COVARDIA
E À TRAIÇÃO
Walter Galvani, em 15/07/2007
Crônica publicada no
ABC DOMINGO,
órgão lider do
Grupo Editorial Sinos
UM PRÊMIO À TRAIÇÃO
Walter Galvani
Em todo o arsenal que se descobriu para combater a corrupção, o mais terrível, algo assim como tentar curar a ferida com o veneno da própria cobra, é o instrumento da delação premiada.
Premiar tal gesto de covardia e falta de integridade moral, até mesmo no crime, é um dos desvãos mais assustadores do comportamento humano. Não digo que não o utilizem, até porque, regulamentado tornou-se prática comum pelos organismos investigativos. Tenta-se seduzir o culpado, dizendo-lhe que se contar tudo, revelando o nome dos comparsas, teria um tratamento especial. Quer dizer: acena-se com a diminuição da punição, com a atenuação das culpas, através de um mecanismo altamente imoral e condenável. Confesse, delate, sua culpa vai diminuir. E estou assombrado que se trate isso, com a maior desfaçatez, com a maioria das pessoas aplaudindo a “inteligência” de quem é capaz de chegar a este ponto e aos que legislaram sobre o assunto, criando a figura da “delação premiada”.
Venho de um tempo em que ser delator era um crime horrível, a ser punido talvez com a própria morte, pelo menos com o esquecimento total e completo pela comunidade, do indivíduo que fora capaz de tão lamentável procedimento. Foi assim que aprendi, e com meus pais, avós, com os meus amigos, passei a praticar o caminho contrário. “Amigo não se discute, se defende”, dizia eu nos exageros da juventude, mas que mostram que outrora o sol brilhava sobre nossas cabeças.
Líamos “O Delator”, romance inesquecível de Lian O’Flaherty e dito isso, digo tudo. Procurem-no em algum “sebo”, onde tantas obras primas repousam ou numa biblioteca pública. Procurem, repito, numa dessas livrarias que reabastecem a população com o que há de melhor na cultura humana e que foi expelido pela falta de lugar nos minúsculos apartamentos gerados pela fúria imobiliária, onde não se pode sequer armazenar algumas centenas de volumes. Mas, voltemos ao delator. Figura desprezível, de um covarde que para safar a própria pele, denuncía os companheiros e com isso vê diminuída a sua própria punição E a isso se chama, “delação premiada”! Não esqueçam que seu crime não mudou. Não cometeu uma ação menor, ou pelo menos, não tão culposa. A culpa continua a mesma, os danos seguem os mesmos, só que com o ouro sujo da traição, o covarde, incapaz de responder pelos seus atos, se beneficiou. A que triste estado chegamos em nossa sociedade. Uma recompensa ao traidor, um prêmio à traição!
PARA QUEM PERDE A
HONRA, A SAÍDA
É O HARAKIRI
Walter Galvani, em 19/07/2007
Leiam, para recordar,
como os japoneses
solucionam as questões,
digamos insolúveis...
da consciência.
Pensem nisso, senhores
administradores do
espaço aéreo (e terrestre...)
brasileiro.
Remember Congonhas!
Harakiri é um dos mais intrigantes e fascinantes aspectos do código de honra do samurai: consiste na obrigação ou dever do samurai de suicidar-se em determinadas situações, ou quando julga ter perdido a sua honra. Significa literalmente "corte estomacal". Esse suicídio ritual também é chamado de seppuku.
Várias circunstâncias podiam levar o samurai a praticar o harakiri.
Entre elas:
- Como castigo e forma de recuperar a sua honra pessoal, uma vez que esta foi perdida em alguma atitude indigna do nome de sua família e de seus ancestrais;
- A fim de evitar ser prisioneiro em campos de batalha, pois era considerado imensa desonra entre os samurais se render ao adversário; assim, eles preferiam renunciar à vida do que entregar-se a mãos inimigas. Além disso, a rendição também não era uma boa escolha, pois os presos eram quase sempre torturados e maltratados;
- Em um ato de pura lealdade, o samurai chega a se matar para chamar a atenção de seu senhor (daimiô) a algo de errado que ele venha fazendo, advertendo-o. Alguns samurais também se suicidavam ao ver o declínio dos seus senhores, ou mesmo quando estes morriam, como forma de acompanhá-los eternamente e seguir o preceito de que um samurai não serve a mais de um daimiô em sua vida.
O ritual do harakiri era praticado da seguinte forma:
O samurai banhava-se, de forma a purificar o seu corpo e a sua alma e dirigia-se ao local de execução, onde se sentava à maneira oriental. Pegava então sua espada curta (wakizashi), ou um punhal afiado e enfiava a arma no lado esquerdo do abdômen, cortando a região central do corpo e terminava por puxar a lâmina para cima. Era importante o corte ser no abdômen, pois era considerado o centro do corpo, das emoções e do espírito para o povo japonês.
Assim, o samurai estaria literalmente cortando a sua "alma".
Importante também era para o samurai escrever um poema de morte, que era uma pequena composição poética onde o guerreiro deixava registradas as suas últimas impressões do mundo, algum desejo oculto ou simplesmente uma despedida formal.
A morte por evisceração era lenta e dolorosa, e podia levar horas. Apesar disso, o samurai devia mostrar absoluto controle de si mesmo, não podendo dar sinais de dor ou medo.
Ao lado do suicida ficava um amigo ou parente, o kaishakunin, que portava uma espada. Era uma espécie de assistente do ritual; se o samurai demonstrava não estar mais suportando a dor, o kaishakunin dava-lhe o golpe de misericórdia, decepando sua cabeça.
Seria considerada imensa falta de respeito se a cabeça do samurai rolasse diante de seus parentes, que geralmente também assistiam à execução. Por causa disso o kaishakunin devia acertar o pescoço do samurai de modo a deixar a sua cabeça pendendo, para que esta não fosse degolada. Assim, o kaishakunin devia ser um exímio espadachim, pois não poderia falhar em sua atuação. Era uma função considerada honrosa.
Tornou-se costume entre as famílias de samurais ensinar o filho homem, na véspera de ingressar na vida adulta, o modo exato de se praticar o seppuku.
Nem sempre o ritual era seguido à risca com todos os seus detalhes. Em alguns casos extremos como em campos de batalha, onde não havia tempo para tais preparos, o samurai abandonava a vida apenas enfiando a espada em sua barriga.
O primeiro harakiri registrado na história data de 1170, quando Minamoto Tametomo, figura quase lendária do clã Minamoto, suicida-se após perder uma batalha contra o também famoso clã dos Taira.
O suicídio ritual tinha grande significado para o povo japonês. Vencendo o medo da morte, o samurai vencia também esse grande enigma da humanidade e destacava-se então das outras classes existentes na época. É esse mesmo espírito do samurai que levaram os pilotos suicidas (kamikases) a explodirem junto aos seus aviões durante a Segunda Guerra Mundial.
Infelizmente, ainda hoje o suicídio é visto por alguns japoneses como a melhor forma de se recuperar a honra perdida. Daí se explica o constante suicídio de empresários falidos, estudantes que não conseguiram bons resultados, etc...
Harakiri é um dos mais intrigantes e fascinantes aspectos do código de honra do samurai: consiste na obrigação ou dever do samurai de suicidar-se em determinadas situações, ou quando julga ter perdido a sua honra. Significa literalmente "corte estomacal". Esse suicídio ritual também é chamado de seppuku.
Várias circunstâncias podiam levar o samurai a praticar o harakiri.
Entre elas:
- Como castigo e forma de recuperar a sua honra pessoal, uma vez que esta foi perdida em alguma atitude indigna do nome de sua família e de seus ancestrais;
- A fim de evitar ser prisioneiro em campos de batalha, pois era considerado imensa desonra entre os samurais se render ao adversário; assim, eles preferiam renunciar à vida do que entregar-se a mãos inimigas. Além disso, a rendição também não era uma boa escolha, pois os presos eram quase sempre torturados e maltratados;
- Em um ato de pura lealdade, o samurai chega a se matar para chamar a atenção de seu senhor (daimiô) a algo de errado que ele venha fazendo, advertendo-o. Alguns samurais também se suicidavam ao ver o declínio dos seus senhores, ou mesmo quando estes morriam, como forma de acompanhá-los eternamente e seguir o preceito de que um samurai não serve a mais de um daimiô em sua vida.
O ritual do harakiri era praticado da seguinte forma:
O samurai banhava-se, de forma a purificar o seu corpo e a sua alma e dirigia-se ao local de execução, onde se sentava à maneira oriental. Pegava então sua espada curta (wakizashi), ou um punhal afiado e enfiava a arma no lado esquerdo do abdômen, cortando a região central do corpo e terminava por puxar a lâmina para cima. Era importante o corte ser no abdômen, pois era considerado o centro do corpo, das emoções e do espírito para o povo japonês.
Assim, o samurai estaria literalmente cortando a sua "alma".
Importante também era para o samurai escrever um poema de morte, que era uma pequena composição poética onde o guerreiro deixava registradas as suas últimas impressões do mundo, algum desejo oculto ou simplesmente uma despedida formal.
A morte por evisceração era lenta e dolorosa, e podia levar horas. Apesar disso, o samurai devia mostrar absoluto controle de si mesmo, não podendo dar sinais de dor ou medo.
Ao lado do suicida ficava um amigo ou parente, o kaishakunin, que portava uma espada. Era uma espécie de assistente do ritual; se o samurai demonstrava não estar mais suportando a dor, o kaishakunin dava-lhe o golpe de misericórdia, decepando sua cabeça.
Seria considerada imensa falta de respeito se a cabeça do samurai rolasse diante de seus parentes, que geralmente também assistiam à execução. Por causa disso o kaishakunin devia acertar o pescoço do samurai de modo a deixar a sua cabeça pendendo, para que esta não fosse degolada. Assim, o kaishakunin devia ser um exímio espadachim, pois não poderia falhar em sua atuação. Era uma função considerada honrosa.
Tornou-se costume entre as famílias de samurais ensinar o filho homem, na véspera de ingressar na vida adulta, o modo exato de se praticar o seppuku.
Nem sempre o ritual era seguido à risca com todos os seus detalhes. Em alguns casos extremos como em campos de batalha, onde não havia tempo para tais preparos, o samurai abandonava a vida apenas enfiando a espada em sua barriga.
O primeiro harakiri registrado na história data de 1170, quando Minamoto Tametomo, figura quase lendária do clã Minamoto, suicida-se após perder uma batalha contra o também famoso clã dos Taira.
O suicídio ritual tinha grande significado para o povo japonês. Vencendo o medo da morte, o samurai vencia também esse grande enigma da humanidade e destacava-se então das outras classes existentes na época. É esse mesmo espírito do samurai que levaram os pilotos suicidas (kamikases) a explodirem junto aos seus aviões durante a Segunda Guerra Mundial.
Infelizmente, ainda hoje o suicídio é visto por alguns japoneses como a melhor forma de se recuperar a honra perdida. Daí se explica o constante suicídio de empresários falidos, estudantes que não conseguiram bons resultados, etc...
Harakiri é um dos mais intrigantes e fascinantes aspectos do código de honra do samurai: consiste na obrigação ou dever do samurai de suicidar-se em determinadas situações, ou quando julga ter perdido a sua honra. Significa literalmente "corte estomacal". Esse suicídio ritual também é chamado de seppuku.
Várias circunstâncias podiam levar o samurai a praticar o harakiri.
Entre elas:
- Como castigo e forma de recuperar a sua honra pessoal, uma vez que esta foi perdida em alguma atitude indigna do nome de sua família e de seus ancestrais;
- A fim de evitar ser prisioneiro em campos de batalha, pois era considerado imensa desonra entre os samurais se render ao adversário; assim, eles preferiam renunciar à vida do que entregar-se a mãos inimigas. Além disso, a rendição também não era uma boa escolha, pois os presos eram quase sempre torturados e maltratados;
- Em um ato de pura lealdade, o samurai chega a se matar para chamar a atenção de seu senhor (daimiô) a algo de errado que ele venha fazendo, advertendo-o. Alguns samurais também se suicidavam ao ver o declínio dos seus senhores, ou mesmo quando estes morriam, como forma de acompanhá-los eternamente e seguir o preceito de que um samurai não serve a mais de um daimiô em sua vida.
O ritual do harakiri era praticado da seguinte forma:
O samurai banhava-se, de forma a purificar o seu corpo e a sua alma e dirigia-se ao local de execução, onde se sentava à maneira oriental. Pegava então sua espada curta (wakizashi), ou um punhal afiado e enfiava a arma no lado esquerdo do abdômen, cortando a região central do corpo e terminava por puxar a lâmina para cima. Era importante o corte ser no abdômen, pois era considerado o centro do corpo, das emoções e do espírito para o povo japonês.
Assim, o samurai estaria literalmente cortando a sua "alma".
Importante também era para o samurai escrever um poema de morte, que era uma pequena composição poética onde o guerreiro deixava registradas as suas últimas impressões do mundo, algum desejo oculto ou simplesmente uma despedida formal.
A morte por evisceração era lenta e dolorosa, e podia levar horas. Apesar disso, o samurai devia mostrar absoluto controle de si mesmo, não podendo dar sinais de dor ou medo.
Ao lado do suicida ficava um amigo ou parente, o kaishakunin, que portava uma espada. Era uma espécie de assistente do ritual; se o samurai demonstrava não estar mais suportando a dor, o kaishakunin dava-lhe o golpe de misericórdia, decepando sua cabeça.
Seria considerada imensa falta de respeito se a cabeça do samurai rolasse diante de seus parentes, que geralmente também assistiam à execução. Por causa disso o kaishakunin devia acertar o pescoço do samurai de modo a deixar a sua cabeça pendendo, para que esta não fosse degolada. Assim, o kaishakunin devia ser um exímio espadachim, pois não poderia falhar em sua atuação. Era uma função considerada honrosa.
Tornou-se costume entre as famílias de samurais ensinar o filho homem, na véspera de ingressar na vida adulta, o modo exato de se praticar o seppuku.
Nem sempre o ritual era seguido à risca com todos os seus detalhes. Em alguns casos extremos como em campos de batalha, onde não havia tempo para tais preparos, o samurai abandonava a vida apenas enfiando a espada em sua barriga.
O primeiro harakiri registrado na história data de 1170, quando Minamoto Tametomo, figura quase lendária do clã Minamoto, suicida-se após perder uma batalha contra o também famoso clã dos Taira.
O suicídio ritual tinha grande significado para o povo japonês. Vencendo o medo da morte, o samurai vencia também esse grande enigma da humanidade e destacava-se então das outras classes existentes na época. É esse mesmo espírito do samurai que levaram os pilotos suicidas (kamikases) a explodirem junto aos seus aviões durante a Segunda Guerra Mundial.
Infelizmente, ainda hoje o suicídio é visto por alguns japoneses como a melhor forma de se recuperar a honra perdida. Daí se explica o constante suicídio de empresários falidos, estudantes que não conseguiram bons resultados, etc...
UM VÔO QUE NÃO TERMINA
Walter Galvani, em 29/07/2007
Ainda não aterrissamos
QUESTÃO DE HONRA
Walter Galvani
Há muito tempo que não se vê um alto dirigente da nação anunciar publicamente que o erro foi seu, que já nem nos surpreende mais saber que ninguém assumirá oficialmente os erros que levaram ao sucateamento da aviação comercial brasileira, a crise dos controladores de vôo e os sucessivos acidentes que mostram a deficiência da infra-estrutura dos nossos aeroportos. Brasileiramente, adotamos a melhor solução: viajar de avião, quanto menos, melhor. Isso que o transporte aéreo nesse país, já foi o símbolo da segurança e da cuidadosa manutenção. Sou do tempo em que vinham de longe os aviões para serem cuidados no pátio da antiga Varig, aliás, companhia tão estimada pelos rio-grandenses que se dizia que “o sonho de todo gaúcho é ser cavalo ou avião da Varig”... para situar com precisão o cuidado com a conservação, a qualidade da manutenção dispensada, junto com um amor inexcedível ao “pingo” e ao avião daquela empresa. Depois disso, o gaúcho desembarcou dos dois veículos... tornou-se “o gaúcho a pé” e a Varig foi sucateada e vendida a preço de banana, apesar do governo dever-lhe uma nota federal que a tiraria do chão a qualquer momento.
Agora é a vez da TAM, na verdade é a vez dos passageiros, é a nossa vez. Somos os culpados prováveis pelo caos da aviação civil brasileira, fazendo exigências absurdas como segurança de vôo, melhor infra-estrutura de aeroportos, pistas mais compridas, já que os aviões também cresceram, controladores em número maior, tudo é culpa dos passageiros que agora fugirão dos vôos, e então diminuirão os vôos e baixarão as tarifas.
As questões de honra saíram de moda, estão premiando a traição, eufemisticamente denominada “delação premiada” e a culpa pelas três derrapagens seguidas de aviões até que se produzisse a tragédia mais anunciada da nossa história, será provavelmente das aeronaves, dos pilotos, dos controladores, mas nunca das autoridades que liberam pistas sem condições, tumultuam o próprio sistema ou não fiscalizam. Ninguém vai praticar o harakiri, isso não pega no Brasil.
Estão voando demais, a população faz exigências absurdas, os pilotos querem ganhar muito, a Varig cresceu demais durante a ditadura militar, “engoliu” a Panair, gaúcho é muito presunçoso e controlador de vôo pensa que pode controlar os céus brasileiros e as cidades não tinham nada que crescer e sufocar os aeroportos. Portanto, esperem que vem aí o salvador desta pátria falida. Adeus Redecker, Souza, Waldemarina, Rebeca, Taís e os outros todos. Vocês é que erraram.
UMA FRATURA HISTÓRICA
Walter Galvani, em 02/08/2007
Crônica publicada
no jornal
Diário de Canoas
vUM ACIDENTE E UMA LEMBRANÇA
Walter Galvani
O ano era 1940 e eu, menino de seis anos, destilava meu suor e minhas energias
debaixo do caramanchão (quem sabe o que é isto, hoje?) dos meus pais, na rua Cel.Vicente, 376, ali, naquela rua que desce ao lado da igreja São Luiz..
De repente, dei um salto e apoiei meu pé direito sobre uma lata de querosene Jacaré. O resultado foi o que o leitor imagina: a lata virou, deu no meu pulso direito e o braço quebrou-se. Hoje sei que o osso quebrado havia sido o “radio”, que faz dupla com o cúbito. Sei hoje por que o médico que me atendeu por outro acidente doméstico, agora em Florianópolis, e me garantiu um prognóstico otimista, o fato de haver quebrado aquele ossinho há 67 anos atrás, me encaminhou para a difícil luxação na Una que apresento hoje. E, disse-me ele, fui premiado por que não fumo desde os 29 anos. Há 64, portanto.
Coisa boa, corro pelas ladeiras da memória, lembrando que o acidente de 1940 me levou ao consultório do Dr. Victor Ludwig, onde descobri a bondade humana e graças à uma trama que ele e eu fizemos, abriu-me o caminho para a leitura (que me estava proibida) de histórias em quadrinhos. Grande conquista na época e que hoje em dia seria vista como uma trivialidade e um absurdo. Mas, que vitória!
Abriu-se o caminho para a imaginação, para a leitura, para a criatividade.
Hoje, lembro com saudade que foi a minha combinação com o Dr. Victor que me propiciou o convencimento sobre meu pai que entendia como um desperdício a busca de leituras marginais ao invés de me encaminhar logo pelo estreito caminho do dever. Valeu, no entanto, e como.
Já a fratura me liga ao acidente de hoje. Fico com o braço engessado por mais uns quinze dias, mas só a lembrança daquela tarde gris de 1940 já chega para me devolver a vontade de viver e de enfrentar os desafios. (Quem disse que não sei digitar com a mão esquerda, usando a direita para dois ou três toques? Pois é...)
Acho que foi então que perdi um pedaço da minha inocência, mas isso me valeu também para começar a entender o vasto mundo com todos seus descaminhos. Eu tinha aprendido a enganar meus pais...
Pena que não dei com os burros na água logo de saída...
Hoje, 67 anos mais tarde, estou pagando o preço do castigo com este gesso incômodo que me adverte e pune. E é isso que pensarei nos subseqüentes doze dias de pena que me restam.
É um mandamento da lei de Deus ou dos deuses que os verdadeiros homens precisam respeitar, honrar pai e mãe.
O GAÚCHO É MELHOR
DO QUE OS DEMAIS?
Walter Galvani, em 06/08/2007
Crônica publicada no
ABC DOMINGO
SOMOS EXIGENTES DEMAIS?
Walter Galvani
Todos estes fatos que se agigantam e atropelam a tímida monotonia destes dias de frio e chuva, quando procuramos, se possível, não colocar o nariz para fora de casa, lembrando a agitação e a preocupação gerada pelos desastres nas rodovias e nos aeroportos dos tempos recentes, nos permitem fazer uma parabólica reflexão: nós, os gaúchos, somos exigentes. Seríamos “exigentes demais”?
Assim é que nos vêem e não é de hoje. Nos anos vinte, o poeta pernambucano Ascenso Ferreira já nos enviara um poema para análise, que dizia:
“Lá vai o gaúcho
Em louca arrancada!
Pra quê?
Pra nada...”
O fato é que somos intolerantes com o erro, com a demora, com o atraso na remessa de verbas federais, na falta de seriedade de determinados homens e partidos, no relaxamento e na incúria. Não temos paciência com a excessiva tolerância, com a barganha, com os arranjos políticos, com a propina institucionalizada, com a falta de rigor na apuração dos fatos delituosos.
Tudo isso nos gera uma expectativa de altivez e dureza e uma imagem de superioridade que se torna intolerável para outros estados da mesma federação.
Lembram nosso hino? E nele que se fala em “sirvam nossas façanhas de modelo à toda a Terra”... Portanto, como uma luva, nos aplicam, a forma do exagero e da megalomania.
É assim que nos vêem.
Estados que mantém conosco alguma rivalidade histórica, pela proximidade ou por alguma divergência política e econômica, são ainda mais ressentidos com o nosso sucesso, com a nossa “mania” de trabalho, com a nossa constante profissão de fé na honestidade.
Arrogantes, é o que somos. Pagamos um preço alto pelo desenvolvimento constante e pelo fato de havermos demarcado estas fronteiras do sul à base da espada e da pata de cavalo, como todos sabemos aqui.
É difícil ser gaúcho e mais ainda pagar com a vida, com o sangue dos nossos filhos, pela incompetência e pela inveja de coirmãos e isso vale do futebol, até às companhias aéreas...
Assim sendo, nosso discurso de hoje, é pela tolerância, pela compreensão, pela superioridade que se conquista através do aperfeiçoamento e da dedicação ao estudo e ao trabalho. É por isso que não dá para aceitar esta proposta de diminuição de categoria do nosso ensino estadual. É só apostando nele que manteremos para os próximos séculos o patamar de desenvolvimento moral do rio-grandense, um patrimônio sem igual, realmente invejável e admirável. Esta semana perdemos Hugo Ramirez, ex-presidente da Academia Rio-Grandense de Letras, poeta e cantor desta grandeza.
SE AS BOLSAS BALANÇAM...
Walter Galvani, em 12/08/2007
E balança tudo nesse país sem ética...
VENDEREI MINHAS AÇÕES
(Crônica publicada no jornal ABC DOMINGO,
do Grúpo Editorial Sinos)
Walter Galvani
Não sou especialista em mercados, não entendo nada de ações, altas e baixas, dólares e euros. Procuro acumular estas moedas, sem preferências, mas ultimamente não tenho conseguido entesourá-las. Tesouros, só meus livros e minhas moedinhas e para estas, conto com a decisiva colaboração da minha netinha Isabella, que requisita todas as que chegam em casa, atulhando meus bolsos. Ela logo faz um eficiente trabalho de coleta, com o qual espero estimular um espírito de economia que faltou ao “vô”. Se eu tivesse tido esta iniciativa, melhor seria a situação minha e dos demais netos, Luiz Felipe e Lucas e das filhas também. Não guardei o suficiente, do que me arrependo muito. Mas, nesta época tardia comecei a colecionar as cédulas, logicamente deixadas nos bancos na medida das possibilidades, e assim prevendo para prover. Mas, com o olho acompanho a marcha das ações na Bolsa e este sobe e desce fantástico hoje é facilitado pela atenção dos meios de comunicação social. O circo está armado e esta atração é até maior do que muitas das anunciadas pelos programas de televisão, em geral mais pobres, menos criativos. Até porque a realidade brasileira é bem mais surpreendente do que a ficção!
Há aviões que caem, outros que não conseguem parar sua louca carreira na aterrissagem, a distância entre os bancos não comporta homens de 1,90 e há sim, homens com esta estatura e alguns são até ministros neste país de anões... Tem mais: venda de selos não é mais exclusividade dos Correios, desvio de recursos públicos é tão corriqueiro que não precisa mais explicações e há até venda de segurança, salvo-conduto, suspensão temporária de ataques ao tráfico, enfim, a criatividade brasileira não tem limites.
O assombro deixaria qualquer cidadão de outras nações com os olhos arregalados, mas a única coisa que ainda espanta os brasileiros é saber que apesar de tudo ainda é possível sobreviver aqui. Não sei como. Cada vez que vou ao exterior (ou o fazem meus amigos) a surpresa é saber que é possível caminhar nas ruas das grandes cidades sem cuidar as costas. Não, você não vai ser assaltado, não. Incrível e ainda acham isso normal aqui no Brasil!
E então, pode ser que no meio desta alienação geral em que vivemos, sejamos surpreendidos pelas bolsas asiáticas em queda, ou porque Londres ou Nova Iorque decidiram quebrar-se ou abalar o mundo e recordar 1929. Vamos, pois, tentar dormir em paz nossa sesta de domingo. É a trégua. Amanhã, segunda, a semana pode começar com um abalo. Vou vender, bem cedo, se ainda der tempo, minhas ações... Guardarei somente os trocados dos netos.
UM 16 DE AGOSTO
NA HISTÓRIA
DA HUMANIDADE
Walter Galvani, em 16/08/2007
The point of no return
Crônica publicada
hoje no
Diário de Canoas (terceira cidade do estado do RGS) -
órgão do Grupo Editorial Sinos
QUEIMEM OS NAVIOS
Walter Galvani
Foi em 1519, portanto há 488 anos. Uma data dessas, precisa ser relembrada, para que não fiquemos nos alimentando somente de crimes, ratos mortos e odiosos textos de políticos incompetentes. Por exemplo: os que aprovaram, é verdade que em primeira instância, mas aprovaram, a prorrogação da CPMF até 2011.
Fazemos caretas de nojo, mas a matéria segue em frente. Terá que ser aprovada mais duas vezes ou três até, mas a gente se esquece e, tocando a vida dentro daquilo que o professor Pierre Levy chama de “cultura virtual”, e vamos nos esquecendo. É um mail de um amigo distante hoje, uma vitória do Real Madrid, uma ponte que cai nos Estados Unidos, alguma confusão de trânsito, uma nova “batida” da Brigada Militar, cumprindo ordens naturalmente, alguma declaração folclórica do presidente Lula, tipo “meu avião tem bom espaço entre as poltronas” e, no entanto, esquecemos o essencial para nos ocuparmos com o acessório. Perdão, Monsieur Levy, mas preferiria os tempos em que se lia mais e se digitava menos e também sou do tempo em que as palavras deslizavam inteiras para dentro das frases. E do papel, naturalmente.
Mas, Hernán Cortez bem que deu uma lição aos que o acompanhavam na conquista do México, quando lhes ordenou, num dia 16 de agosto, em 1519, que queimassem os navios. Houve um instante de hesitação, mas ele cobrou a execução de sua ordem, imediatamente, e em pouco tempo ardiam as belas naves de Suas Majestades Católicas, Fernando e Isabel, e estava definida para um sempre que acabou mais adiante, a ocupação das terras mexicanas pelos espanhóis.
Ficou a lição, para que todos aprendessem, de que existem empresas sem volta e que é preciso, quando se toma uma decisão, voltar as costas aos acontecimentos e nunca mais hesitar.
(A propósito senhores leitores modernos: hesitar significa o mesmo que titubear, ficar indeciso, e não, alcançar “êxitos” sucessivos... É bom explicar, porque com a onda de ignorância oficializada e até consagrada pelos modernos espíritos criativos, é um perigo deixar a interpretação à vontade, livre.)
Então, para realizar alguma coisa, é preciso determinação. E quando alcançado determinado ponto, aquilo que os americanos chamam de “point of no return”, queimar os navios... Só assim é possível fazer alguma coisa pela terra natal, mesmo que a decisão implique em nunca mais voltar a ela, pelo menos para chorar sobre o leite derramado. Vamos adiante e ponto final.
CYRO MARTINS,
CENTENÁRIO
Walter Galvani, em 17/08/2007
Falando na sessão desta
quinta-feira na
Academia Rio-Grandense
de Letras, enfoquei
a grande figura de Cyro Martins
partindo de uma bela
frase que nos abre
as portas da sua alma:
CYRO MARTINS
“A FELICIDADE É FEITA DAS MIUDEZAS DA VIDA...”
Dita por mim, pela nossa vizinha, pelo porteiro do edifício, a frase soaria como uma destas pérolas populares que acabam se transformando em provérbios ao longo dos tempos, ou caindo no esquecimento, para ser trazida de volta à tona, por um antigo avô, atencioso com seus netinhos. Mas, saindo da mão de um dos mais preciosos escritores produzidos pelo nosso estado, como o é Cyro Martins, nos faz imediatamente pensar que a verdadeira sabedoria é uma destas coisas preciosas, que vivem esquecidas no baú dos pensamentos e, afinal de contas, é construída pelas miudezas da vida...
Assim é que, entregar-se à leitura de “Porteira Fechada”, “Campo Fora” ou “A Curva do Arco-Íris”, para ficar apenas nestes exemplos, ou seguir adiante pela obra de Cyro, é começar a remexer naquelas coisas valiosas que se guardam no sótão, junto com as fotografias da infância, para um dia nelas remexer e reencontrar o guri perdido que assentava o pé no pneu de um avião, ou a garotinha que segurava o telefone como se fosse o caminho secreto para o campo da felicidade. É isso que é, amigo Cyro, agora que você chega ao seu Centenário e nos delegou a tarefa de lembrá-lo. E vou explicar como foi que Cyro me nomeou posteiro para este encargo:
Vivi muitos anos bastante próximo da família dele, mais especificamente do “Seu” Arlindo de Deus Martins, que era de fato um escolhido “por Deus” e possuía uma biblioteca maravilhosa, de onde extraí para minha primeira leitura, “Porteira Fechada” que reli na semana passada, encharcado de emoção. Seu Arlindo era de Quaraí, e os descendentes de Cyro ou os estudiosos de sua obra, sabem o que significa aquele recanto da geografia rio-grandense em sua obra. Mais: foi na casa de Arlindo em Quaraí, que mais adiante conheci em Canoas, (para onde transportara sua imensa biblioteca), que se produziram as tentativas de salvar da morte, o pai, o seu Bilo. Já em Canoas, tornei-me íntimo do “seu” Arlindo e de dona. Dalila, pois meus colegas Túlio, Lineu e Léo e mais tarde o Paulininho, os filhos do “Seu” Arlindo, me franquearam o mundo maravilhoso da sua biblioteca. Ali comecei a ler os clássicos, ali descobri os grandes russos Dostoiewski, Tolstoi, Gogol, Gorki, Turguenev, ali tomei-me de intimidades com Eça de Queiroz, e conheci os primeiros livros de Cyro Martins.
Cresci, pois, no respeito a esse nome que mais adiante vim a conhecer pessoalmente, quando já trabalhando no “Correio do Povo” e na “Folha da Tarde” fui designado ou me auto-indiquei para entrevistá-lo. Foi quando conheci também a Maria Helena, incorporando-a ao meu crescente estoque de relações com o mestre.
Tenho alguns livros autografados por Cyro, pois a minha aproximação a isso me levava, o saldo de longos bate-papos, os encontros na Feira do Livro, embora nenhum tão eficiente e instrutivo quanto o “Para início de conversa”, de Abraão Slavutsky, que se era um “início”, ficou nos devendo a valiosa continuação.
É lá que está, busquei e encontrei à página 113, a explicação para a epígrafe deste pequeno trabalho: “A felicidade – disse Cyro – é feita das miudezas da vida... Cada vida tem seus grandes acontecimentos, proporcionais ao tipo de pessoa que se é. Mas, entre essa meia-dúzia, digamos, de fatos importantes, há intervalos de anos. Nesses intervalos transcorre o banal do quotidiano. E se esse quotidiano é ruim, até os picos existenciais se apagam, porque eles são constituídos pelo corriqueiro do dia-a-dia.”
E quanta riqueza no quotidiano de Cyro!
Imaginem, alguém que nasceu ao pé do mítico Cerro do Jarau! Só isso já o habilitaria para uma longa obra, cheia de mistérios e curvas, com a Teiniaguá Encantada refulgindo com o seu anel de pedra moura.
Cyro, em sua modéstia, só falava nesta sua “vizinhança” para lembrar que o armazém do Seu Bilo ficava por ali, junto ao arroio Garupá.
“... a velha venda, de chão batido – diria ele – paredes de ladrilho e coberta de zinco. (...) me lembro muito bem do fogo no chão, e do aro enorme da roda de carreta, que circunscrevia a lenha, as trempes, as brasas, a cinza e, naturalmente, as panelas e chaleiras bem no meio, tisnadas de fumaça. (...) a panela maior era a do feijão”.
E por aí segue a modesta lembrança do velho Cyro, indiscutivelmente ligada à riqueza das pequenas coisas, do dia-a-dia que o formou e o fez entender, muito antes que qualquer político, qualquer economista, o drama que vivia o campo gaúcho, a decadência da peonada que depois da gloriosa vida errante do ciclo do gado, encontrava agora a “porteira fechada”.
Depois que ele se manifestou, combatido e contestado, o velho pampa foi se esvaziando cada vez mais, transformando-se num enorme espaço, na maioria dos casos mal aproveitado e agora ameaçado de virar deserto pelo plantio de peças exóticas e daninhas, cujo benefício único será encher os bolsos de meia dúzia e beneficiar algumas multinacionais distantes, que preferem concentrar seu lucro nas terras altas do norte da Europa e exportar a parte suja da produção para os semi-desenvolvidos que acolhem os capitais com os olhos abertos da cobiça.
Historicamente, o romance, o conto, a ficção digamos assim, tem se adiantado aos compêndios políticos e econômicos. Não há como negar, o poeta, o escritor, este sim carrega no semblante as virtudes, os sensores que lhe permitem “ver” o futuro. Quando escreve, com simplicidade e firmeza, com estilo e conteúdo, acaba sendo o primeiro a ser atingido pelos petardos da reação. Os que não querem ouvir as verdades, perseguem costumeiramente quem tem a coragem de dizê-las.
Esta foi a grandeza de Cyro Martins.
Um homem capaz de construir no silêncio do seu consultório, na intimidade da sua casa, um mundo que precisava ser mostrado, para ser discutido, compreendido ou talvez revirado.
E com que simplicidade agia! Ainda esta semana, me dizia o escritor Luis Antônio de Assis Brasil, como foi difícil “arrancar” de Cyro sessenta linhas para o Instituto Estadual do Livro que decidira publicar algo remexendo no baú dos escritores, para um programa de divulgação que levava o autor ao interior do estado.
Esta simplicidade quase quixotesca não impediu contudo, que Cyro Martins fosse um dos mais sofisticados integrantes da escola de psicanálise, onde sua formação em Buenos Aires funcionou de maneira claramente didática e provocadora para os rio-grandenses.
Cyro escritor, Cyro médico, Cyro psicanalista, Cyro observador da vida econômica e social do estado, Cyro amigo, muitas facetas de uma só figura que hoje nos espanta e encanta e nos faz pensar no tempo perdido: por que não “exploramos” melhor o Cyro? Pois é...
No respeito a um grande amigo, por vezes deixamos passar a chance de conhecer melhor nossa própria vida e destino, ou o lugar onde se habita. Generoso, porém, Cyro Martins deixou o legado de sua obra.
Basta aproximar-se dela, agora ou sempre, aproveitando o centenário que se começa a comemorar, a existência de uma boa coleção de seus livros em disponibilidade em livrarias ou bibliotecas, ou na editora Movimento, que obedecendo à cabeça privilegiada e a mão operosa de Carlos Appel, consegue manter este elo entre o que se produz industrialmente ou se comercializa, com a qualidade e a cultura que se quer e deve preservar.
Cyro nasceu em Quarai em 1908, filho de Apolinário e Felícia dos Santos Martins. Freqüentou o Colégio Municipal, onde foi aluno do professor Caravaca, seu personagem futuro em “Rodeio” e “O Professor”. Em 1920, deixou a região da “Campanha” e veio para Porto Alegre, estudar no internato do Colégio Anchieta. Este período pode ser relembrado em “Um menino vai para o colégio”. Exemplar.
Aos 15 anos, portanto, em torno de 1923, escreveu seus primeiros contos e cinco anos mais tarde ingressa na Faculdade de Medicina.
Seu primeiro livro de contos, “Campo Fora”, é de 1934, ano em que morre seu pai. No ano seguinte, numa conferência, utiliza pela primeira vez a expressão “gaúcho a pé”.
No ano de 1937 vai estudar neurologia no Rio de Janeiro e em 38, já em Porto Alegre, presta concurso para Psiquiatria do Hospital São Pedro. Participa da fundação da Sociedade de Neurologia, Psiquiatria e Medicina Legal e vê publicado seu primeiro romance, “Enquanto as águas correm”, pela Globo, nossa grande editora, então dirigida por Erico Veríssimo.
“Porteira Fechada”, seu segundo romance e para muitos o maior deles, sai em 1944.
Em 49 faz sua formação psicanalítica em Buenos Aires.
O terceiro romance da chamada “Trilogia do gaúcho a pé” sai em 1954: “Estrada Nova”.
Escreve até o “Páginas Soltas”, de 94, seu último livro.
Falece a 15 de dezembro de 1995 em Porto Alegre.
E agora, para encerrar, ouçam o capitulo XXII, que, aliás, poderia se chamar “Paz nos campos”, final de “Porteira Fechada”, livro que li e reli, emocionado, para lembrar bem de Cyro. E atentemos para a paisagem linda, mas desprovida de humanos. Como ficaram os campos do sul...
“A tarde desse dia, nos campos, caiu serena, sem um frêmito. O sol descambava devagar, refletindo-se nas sanguinhas cheias, cantantes, irisando as espumas de sapo, reluzindo nos capinzais crescidos, nos fios de aramado, na chapa das lagoas. Pendia sobre a campanha uma claridade tênue de céu lavado. Os animais saíam para os altos a sorver o frescor das passagens úmidas. Perdizes assobiavam contentes entre as moitas, bandos de avestruzes vagavam, catando bichinho à flor da terra.
Longe de Boa Ventura, lá no fundo duma estância, numa invernada de dez quadras de sesmaria, lotada de bois, defrontavam-se três taperas: a do Bentinho, a do João Guedes e a da Gertrudes. Sobravam algumas árvores, algumas pedras e os sinais de moradia humana no chão. Nada mais. Os bois gostavam de lamber aquela terra.
Aquilo agora era um rincão despovoado. Não se avistava um vulto de campeiro, não se ouvia um latido de cachorro numa porta de toca, não tremulava um pala endomingado, não chiava uma carreta, os arados não rompiam a terra.
Mas, que engorde dava aquela invernada! Para um fim de safra, então, já com caídas para o inverno, não havia campo que se lhe igualasse. Seiscentos novilhos pastavam folgadamente entre as altas cercas de sete fios e madeirama de lei que a tapavam.
O sol entrou sem grandes esplendores. A noitinha caiu suavemente.
Que paz naqueles campos!”
Obrigado
Walter Galvani
Em 16 de agosto de 2007
TAMBÉM ESTOU CANSADO
DE TANTA MEDIOCRIDADE
Walter Galvani, em 19/08/2007
Crônica publicada
neste domingo, no jornal
ABC DOMINGO, do Grupo Editorial Sinos
JOBIM, CHÁVEZ, CANSEI...
Walter Galvani
Se me dêem licença, também me incorporo ao movimento “Cansei”, eis que não agüento mais certo tipo de notícias e procedimentos. Cansei, por exemplo, de ouvir dizer que “desta vez vamos”, que a “corrupção não é tão grande assim”, que o governo vai adotar esta e aquela medida, e no contornar a esquina já mudou de procedimento. Cansei.
Cansei da crise dos aeroportos. Estou cansado de ouvir dizer que será feito um “grooving”, que eu nem sabia o que era, na pista de Congonhas, que os vôos serão desviados para Guarulhos e São José dos Pinhais, que o Salgado Filho terá um sistema antineblina, que 7 controladores de vôo foram presos (por causa do RDA...) que as vilas Dique e Nazaré chegaram depois do aeroporto estar instalado e serão removidas, que o governo desenvolverá um plano de habitação e não haverá mais vilas. Cansei.
Cansei de ouvir dizer que o Chávez não é ditador, que o seu projeto de “reeleição contínua” é um engenhoso sistema democrático. Cansei.
Cansei de ler que um projeto que cobra ingressos não pode receber apoio publicitário com subsídios do governo e que um membro do Conselho Estadual de Cultura foi nomeado para seguir as normas do governo, mas também cansei de ver um conselheiro insurgir-se contra o governo que o nomeou. Faltou clareza e orientação. É cansativo e difícil de entender.
Cansei mais ainda de ver os nomes dos mortos no acidente da TAM, que agora já são mais de 200, até porque acabou de morrer uma mãe que perdeu um filho naquele fatídico dia 17 de julho, só que ela morreu agora, quinze ou mais dias depois, porque também cansou.
Todos cansaremos um dia e será difícil impedir que invadam a Assembléia Legislativa (aliás cansei de ouvir falar no Macalão...) ou que interrompam uma estrada. Cansei.
Em verdade, cansei de ler, ouvir e ver bobagens, de saber de estudantes que não estudam, de mão-de-obra cada vez pior, da falta de educação crescente, da ignorância generalizada, do desperdício dos meios técnicos cada vez mais sofisticados à disposição de incompetentes. Chega. Cansei.
E tanto é verdade que comecei a aderir aos movimentos mais extravagantes por que me parecem os mais inteligentes. Por isso aderi ao “Movimento Slow-Food”, nascido na Suécia (pelo menos tem boa origem) que prega o tempo de tranqüilidade ao menos para almoçar. E por isso me incorporo também ao Movimento Cansei. Pois, cansei. E chega. Não dou mais explicações, mas me reservo o direito de dispensar os chatos e não atender aos incômodos. Cansei.
PASSO FUNDO, CAPITAL
NACIONAL DA CULTURA
Walter Galvani, em 26/08/2007
De 27 a 31 de agosto,
o endereço da cultura
é um só,
no Rio Grande do Sul
Crônica de Walter Galvani para o ABC DOMINGO
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JORNADA DE LITERATURA
Walter Galvani
Passo Fundo goza de um status especial que lhe foi brindado pelo reconhecimento público: será a Capital Nacional da Literatura, de 27 a 31 de agosto. É o coroamento de um trabalho de Tânia Rösing que iniciou a Jornada há 24 anos, a quem se somaram ao longo do tempo, escritores, jornalistas, professores, administradores públicos e privados.
Esta atraente realidade atravessou todo este tempo, sempre acrescentando adesões significativas, que afinal seguiam o caminho traçado por Josué Guimarães, naqueles tempos já distantes da arrancada inicial.
Isso não significa, no entanto, uma blindagem definitiva à Jornada de Literatura, nem a exime de se submeter às regras do jogo, que, no caso estão consolidadas na Lei de Incentivo à Cultura do estado do RGS e na Lei Rouanet, do Ministério da Cultura. Entretanto, a existência de um Conselho Estadual de Cultura que faz só metade de sua tarefa, porque não consegue poder político e influência para moldar um Plano Estadual de Cultura, também não pode ser esquecida. É preciso que, apesar das diferenças e divergências, o Conselho seja respeitado e se o órgão de estado, e não de governo, como o próprio organismo frisou em sua nota oficial sobre o episódio de Passo Fundo, não seguiu abertamente as linhas que talvez a Secretaria de Cultura gostasse de traçar é que faltou, talvez, contato e entendimento, sobretudo, um Plano básico que poderia simplesmente ser respeitado, até pela palavra de ilustres conselheiros, como Luis Paulo Faccioli, relator do processo, presidente da Associação Gaúcha de Escritores, que acabou se desgastando e perdendo o cargo precioso para toda a cultura do estado.
Não importam os fatos secundários que podem haver cercado esta decisão, mas aparentemente o conselheiro quis apenas se assegurar de que os recursos do estado seriam corretamente aplicados. Se faltou comunicação entre as diversas partes envolvidas, é óbvio que isso é corrigível. Mas corrijam depressa porque a 12ª. Jornada de Literatura começa amanhã, dia 27 e ocupa toda a semana, até 31de agosto.
Erros, podem acontecer, como em tudo o que é humano. Mas, não pretendia o Conselho negar a importância do acontecimento que, aliás, não é apenas um evento, como diz Tânia Rösing, mas uma longa seqüência de trabalhos que envolvem toda a cidade e a região e desembocam na Jornada.
Logo ficaremos sabendo do sentido do debate que obedece ao slogan “a leitura da arte e a arte da leitura”. Tudo é instigante.
MAIS DE UM SÉCULO
DO "DIÁRIO POPULAR"
DE PELOTAS
Walter Galvani, em 27/08/2007
Estou publicando hoje, esta crônica para assinalar o aniversário do grande jornal da Região Sul do
Rio Grande do Sul:
117 ANOS
DO
JORNALZÃO
Walter Galvani
O final do século XIX foi pródigo na geração de grandes jornais. Estava-se em pleno domínio da palavra impressa que transmitia a sensação de perpetuidade, não havia suporte mais adequado para colocar o leitor diante deste prodígio de técnica que já durava então quatro séculos. Hoje pode-se acrescentar mais um século e tanto sobre aquelas conquistas. É impressionante imaginar que os tipos móveis e a prensa de Guttenberg tenham produzido tais milagres de permanência e de efetividade.
Quando o “Diário Popular” nasceu, vivia-se esta fase de euforia da comunicação, em que os órgãos impressos sucediam-se como estrelas brilhantes de uma civilização do papel, do livro, da palavra e do jornal. Poucos, pouquíssimos sobreviveram. No Brasil contam-se nos dedos, tais como o “Estado de São Paulo”, o “Jornal do Brasil”. Aqui mesmo, no Rio Grande do Sul, nenhum veículo impresso tem seu currículo os 117 anos de circulação ininterrupta que distinguem o nosso jornal.
Digo “nosso” porque, embora simpatizante antigo e leitor assíduo, desde que cheguei à redação do “Correio do Povo” de Porto Alegre em 1955, tenho procurado me aproximar do “Diário Popular” e só agora me transformo em colaborador permanente. (Eu costumava brincar com Clayr Lobo Rochefort dizendo-lhe que, quando desejo me promover pessoalmente, profissionalmente, informo que sou colaborador do Diário.)
Neste século e tanto a importância deste jornal só cresceu. Ele que começou a acompanhar Pelotas quando recém se instalara a república e mesmo que não seja ela a república dos nossos sonhos, por certo era a conseqüência de um sonho grande de muitos brasileiros. A cidade já era então um expressivo núcleo populacional, um pólo industrial respeitável e um símbolo de cultura, pois, as famílias locais souberam sempre transformar os excedentes financeiros que resultavam da sua intensa atividade no campo e na cidade em instrução, educação e aperfeiçoamento para seus filhos.
Não foram poucos os pelotenses que levaram bem longe e bem alto o renome dela. Poderia citar, por exemplo, João Simões Lopes Neto ou Mozart Victor Russomano, mas na certa são tantos os nomes que brilharam e brilham e não poderiam ficar de fora de qualquer listagem.
Ora, o “Diário Popular” desde os tempos em que era impresso em formato maior do que os “standard” tradicionais, até hoje quando somou-se à opção pelo tablóide, característica do Rio Grande do Sul, com sua edição na “web” como todos os que pensam no presente e no futuro, foi, é e será um legítimo porta-voz da cidade onde nasceu. E não é por nada que traz o “popular” em seu título.
PARAR
OLHAR
ESCUTAR
Walter Galvani, em 30/08/2007
Antigamente, nos cruzamentos de ferrovias,
havia uma placa trianguylar
com esta inscrição, ao mesmo temoi misteriosa e instigante:
PARAR
OLHAR ESCUTAR
É o que recomendo
para a área da saúde.
Esta é uma crônica publicada
hoje no jornal
DIÁRIO DE CANOAS,
do Grupo Editorial Sinos:
SALVANDO A SAÚDE
Walter Galvani
Passamos por um momento de dificuldade com a saúde e, no Brasil, não se trata nunca, nesse caso, de instantes, mas de um processo. Sabemos, pois já aprendemos isso, que para sobreviver com boa saúde é preciso ter um bom plano privado. Só com o SUS ou qualquer que seja o nome que venha a tomar, estaremos sujeitos à filas imensas, à marcações de exames, por vezes com meses (e até anos) de antecedência. Morrer na fila é uma realidade brasileira. Por isso é preciso valorizar todas as pequenas (e grandes) conquistas nesta área.
Eu próprio venho de uma bela eexperiência. Nunca deixo de recomendar que se tenha um bom Plano de Saúde, eu o tenho e não cito aqui o nome para não ser acusado de fazer mera propaganda. Mas, o que quero relatar tem a ver com a qualidade dos médicos que aliás não muda, tendo ou não o tal plano privado. A dificuldade reside no atendimento.
Já lhes contei da minha primeira e longínqua fratura do braço direito e a conquista da amizade e de uma sadia cumplicidade com o Dr. Victor Hugo Ludwig, que me curou e me deu uma lição de vida. A partir daquele instante, quando eu não passava muito dos seis ou sete anos (a precisão se perdeu nestes sessenta e tantos anos de distância dos fatos, a precisão, mas não a certeza dos valores então conquistados) passei a confiar nos médicos que agindo com humanidade, carinho e compreensão nos ajudam mais do que os mais sofisticados exames que de lá para cá tanto se desenvolveram.
Foi assim que, num episódio traumático de acidente doméstico, perdi a luta com uma “bombona” de água e fui cair, literalmente, em mãos do Dr. Cristiano, um jovem traumatologista que, por seu turno, tem como colega de formação e de amizade, o Dr. Gustavo Verzoni. Ambos, Cristiano e Gustavo, foram exemplares: educados, atentos, cuidadosos, um lá na clínica no centro de Florianópolis, outro, o Dr. Gustavo em Porto Alegre, na tradicional Ortopedia Santo Antônio e assim, em tempo ainda menor do que levou o Dr. Victor, com o auxílio do “Seu” Porcello da farmácia, na distante Canoas da primeira metade do século passado... – me recuperaram. O mal havia atingido o mesmo braço, e a luxação de hoje tinha sua origem na fratura de antigamente. Os três, o velho amigo Victor Hugo Ludwig e os modernos Cristiano e Gustavo, agora ficam ligados, moram no meu coração. E eu saí ganhando de uma avenida de perigosos cruzamentos: a saúde e os acidentes, os inesperados acontecimentos da vida. Recomendo sempre: parar, olhar, escutar...
SEMANA DA PÁTRIA
Walter Galvani, em 02/09/2007
Que o som nostálgico das velhas bandas escolares e militares
traga de volta o
espírito de prestar
serviços à pátria.
Crônica publicada hoje
no ABC DOMINGO.
SEMANA DA QUALIDADE
Walter Galvani
Até que ponto somos patriotas? Eis o que convinha analisar. Um levantamento de opinião, respondendo a três ou quatro questões básicas, a isso nos levaria, permitindo-nos fazer uma boa análise do significado desta “Semana da Pátria” que vem aí, com o velho ribombar dos tambores das bandas escolares trazendo sons nostálgicos que nos ligam à uma infância perdida e sem complicações metafísicas. Éramos jovens “soldados” e pronto! Marchávamos pelas ruas das nossas cidades, exibindo nossos uniformes, carregando nossas bandeiras e disputando a honra de portar o pavilhão nacional. Hoje? Bem, a maioria das escolas não tem mais uniforme e os jovens aproveitam, junto com os pais ou sem eles, o “feriadão” que se arma e vão todos para onde der. Alguns para a praia, outros para a montanha, para a casa dos parentes, para hotéis ou aproveitam a interrupção para refrescar a cabeça. E quem não pode sair, por um motivo ou outro, se gruda na televisão ou na internet.
Mas, e se tentássemos responder aquelas questõezinhas que citei lá no início? Por exemplo, se você dá, mesmo, tudo de si no cumprimento das tarefas diárias, seja trabalho ou estudo? Se você procura se ultrapassar, produzir mais e melhor? Se você se orgulha de ser “um brasileiro” ou, o que mais o faz sentir-se orgulhoso por ter nascido aqui? É o futebol? A produção literária? O espírito de integração sem preconceitos? A produção agrícola? A industrial? Todos estes fatores somados? Ou você acha o nacionalismo uma babaquice e pensa que não há motivos de se orgulhar?
Numa semana como esta que se inicía e que vai desembocar no dia 7 de Setembro, vale bem uma criteriosa reflexão que poderá nos dizer até que ponto amadurecemos desde os verdes anos até este momento em que os tambores da banda marcial da escola não soam mais em nossos ouvidos.
Sem nenhuma “babaquice”, em que medida temos contribuído para a consolidação desta pátria imensa, que está chegando aos 190 milhões de habitantes, cuja renda per capita está muito abaixo do necessário e onde o salário mínimo é ridiculamente inferior ao que se pode exigir para a sobrevivência? Onde há crianças exploradas, crianças com fome, crianças sem pais e sem moradia, nas ruas de grandes cidades onde o luxo impera nas butiques e grandes lojas? Onde a corrupção está de tal forma instalada que deixou de ser notícia?
O que temos feito, em nossa vida particular ou pública? Onde é que falhamos? Onde estão as promessas de antigamente e as crenças dos velhos tempos?
EXPANSÃO DE INTERESSES
E DE VIRTUDES
Walter Galvani, em 05/09/2007
"Nossa pátria é nossa
língua" - dizia
Fernando Pessoa
ACORDO ORTOGRÁFICO DA LÍNGUA PORTUGUESA
Walter Galvani
O tempo passa e se é verdade que não escrevemos mais “ortográphico” também é certo que a grafia varía do Brasil para Portugal, o que aqui é fato, lá é “facto” porque o que lá é “fato” aqui é terno e assim por diante.
Faltam assinaturas dos oito países da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa). Espalhados por quatro continentes: Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Brasil, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, e o TImor Leste, representados os continentes: África, América do Sul, Europa e Ásia. Alinhei-os todos em ordem alfabética para evitar ciumeiras e competições inúteis.
Em verdade, todos são resultantes da colonização portuguesa que se produziu nos séculos XIV, XV e XVI e que levou a nossa língua comum a se transformar em “língua franca” de certo instante da evolução mundial, alcançada pelas navegações portuguesas e pela sua capacidade comercial. Nunca militar, porque as ocupações que necessitaram de apoio militar, foram se desfazendo, não sem dor e custos altos, até 1975, quando, com a Revolução dos Cravos se deu a penúltima liberação. A última foi a do Timor-Leste por auto-escolha, diga-se de passagem. Libertado da metrópole, o Timor tentou a aventura da independência, sozinho, mas foi obstado pela invasão imperialista da Indonésia, por seu turno uma sucessora do império holandês na região. Mas, o povo timorense, sob a liderança sobretudo de Xanana Gusmão, proclamou sua independência, baseando-, entre outras valiosas escolhas, o uso da língua portuguesa que estivera proibida durante a ocupação inimiga.
Tudo isso me faz olhar com os melhores olhos esta marcha da língua portuguesa para unificar-se pela escrita e tornar-se de fato a quinta língua mais falada do mundo. À sua frente estão o Mandarim, que se pratica na China onde os habitantes se contam por bilhões. A língua indiana, se é que existe uma língua que possa se classificar assim, como fruto também de um país bilionário... O inglês e o espanhol, praticados pelos conquistadores (e piratas) dos séculos XVII e XVIII e por isso mesmo presentes nos cinco continentes.
E aqui entra o Português.
Nossa língua é hoje falada por uma população potencial de 220 milhões de pessoas. Mas não muito. E bastante maltratada, especialmente em certos círculos onde o analfabetismo predomina e a miséria se encarrega do resto.
Mas, nossa pátria é a nossa língua, como dizia o poeta Fernando Pessoa e por isso deixamos a admiração espantada pela sua cadeira no café “Martinho da Arcada” para os turistas e trabalhemos.
O Brasil pode ser um líder legítimo da CPLP. Mas, parece que não o deseja, ou pelo menos não está na ordem de prioridades dos políticos.
O que é uma lástima.
Mas, também podemos “jogar sem eles”...
Um movimento que nasça de dentro para fora acaba alcançando algum resultado, como esta indiscutível vitória na Comissão de Ética do Congresso, onde, já se sabe, o processo dos ”mensaleiros” vai caminhar...
O HORROR DAS RUAS
Walter Galvani, em 08/09/2007
Nas estradas, centenas de mortos.
No recesso dos lares, crimes.
No trânsito,
a má educação.
Para onde vamos?
Crônica publicada
hoje no jornal "A Razão"
de Santa Maria (RS)
NA MINHA JAULA
Walter Galvani
Estou aqui, na minha jaula, imaginando o que de pior ainda pode nos acontecer e como reagir contra isso. Vejo que os bons procedimentos parecem ter sido expulsos da comunidade brasileira e hoje exista no imaginário popular uma figura de “esperteza”, que não tem nada a ver com a competência e com a seriedade de objetivos na vida. Penso, o quão inúteis devem se sentir os que trabalham o dia inteiro e ainda seguem a estudar à noite, ou hoje pelos métodos de ensino à distância, estudos que os possam elevar a uma situação melhor no futuro próximo. Digo próximo, porque no “distante”... bem... fica mais difícil, não é mesmo?
Escrevo, “na minha jaula”, porque estou tentando me proteger da ignorância generalizada, a hostilidade nos atendimentos públicos, dos pit-bulls soltos nas ruas e da violência do trânsito.
Dia desses, antes de entrar para esta jaula protetora, pensei assim: “que tal uma campanha de trânsito baseada no amor e respeito ao próximo, contendo frases como “dê passagem”, “seja gentil”, ou mais egoisticamente falando, “trate os demais volantes como gostaria de ser tratado” – que tal, hein?
Pois é. Mostrei a alguns amigos e eles me disseram: “vais perder teu tempo e gastar tuas expectativas”. Ninguém quer sabe dos outros.
De posse do noticiário do dia-a-dia, vejo que infelizmente têm razão estes descrentes da humanidade. Volto para minha jaula, para me proteger. Da próxima vez que sair às ruas, farei como todos. Ou seja: não darei passagem a quem vem de uma rua transversal à minha, não permitirei que me ultrapassem, não cederei um milímetro aos “competidores”.
Vocês, leitores amigos de um jornal que tem “A Razão” como título, já pararam para pensar o quanto há de atraso, de selvageria, de despreparo, de falta de educação nestas atitudes que fazem do gaúcho um ser arrogante e pretensioso, a ponto de merecer os célebres versos do pernambucano Ascenso Ferreira? Que versos? Estes: “Lá vai o gaúcho em louca arrancada! Pra quê? Pra nada...”
Mas, não desisto. Penso, logo existo, diria Descartes, o problema é que a maioria não pensa e segue seus instintos primitivos, verdadeiros pit-bulls soltos nas ruas da cidades e nas estradas que atravessam os campos, hoje semi-desertos, e que vivem “a paz anunciada” por Cyro Martins em seu livro “Porteira Fechada”.
“Que paz naqueles campos...” As reticências da morte, da decadência, da expulsão dos humanos em troca do barulho das máquinas ou da plantação de árvores onde nem passarinho pousa...
Voltemos para nossas jaulas.
Crônica de hoje
no Diário Popular
de PELOTAS
Walter Galvani, em 08/09/2007
O jornal mais antigo do
Rio Grande do Sul.
UMA QUESTÃO ÉTICA
Walter Galvani
Não, não se assustem, não vou falar de Renan Calheiros ou dos “mensaleiros” e tanta coisa mais que nos enoja e perturba em plena Semana da Pátria ou pouco depois dela, como neste domingo, afinal tivemos um “feriadão” para colocar a casa em ordem e os pensamentos também. Sou adepto de velho adágio lusitano que diz assim: “Boa jornada faz, quem em casa fica em paz!” Além da rima inesperada, o justo conselho. Ao invés de sair por aí, enfrentar estradas cada vez mais saturadas e em mau estado, como é o caso desta BR-116 abandonada pelos poderes públicos, mas não esquecida a ponto de estar recheada de pedágios, teoricamente arrecadando para confortar os cofres das concessionárias e dos governos. O último favorecido, como se pode verificar pelo estado geral delas, é o usuário. Aquele que já contribui com impostos na hora de emplacar o seu carro, com todos os penduricalhos que embolotam o seu salário, passando por esta miserável CPMF que serve tudo menos à saúde... – pois é, chega de queixas. Vamos derrubar o governo? Sim, pelo voto. Este e outros. Podemos até pensar na agradável solução anarquista que povoou o imaginário do século XIX, mas que deu em nada na Europa ou no Brasil. Foi naqueles anos, contudo, que nasceram os mais exacerbados nacionalismos. Antes disso, era-se mais pelo regionalismo do que propriamente se tinha a noção de pátria e de governos nacionais. E isso, era válido tanto para a velha Europa como para a jovem América.
Algumas das melhores experiências democráticas tiveram lugar aqui neste continente, como foi o caso das colônias inglesas que se emanciparam e se transformaram em 1776, nos Estados Unidos da América. Supremo exemplo de democracia durante muitos anos, tanto que a nação daí resultante se empenhou na gloriosa guerra mundial contra o fascismo e o nazismo e que reduziu a cacos o regime de Hitler, Mussolini e Hiroito, (do célebre Eixo Roma-Berlim-Tóquio, 1939-1945) . Depois, este mesmo país liderou com o chamado “Plano Marshall” a reconstrução da Europa. Vamos ver o que este império, agora decadente, fará com o Iraque, quando acabar de se retirar, não antes que aquilo lá se converta num novo Vietnã, como disse Immanuel Walerstein, analista norte-americano, que esteve participando esta semana em Porto Alegre, da série de palestras e debates do “Fronteiras do Pensamento Contemporâneo”. Aproveitemos, pois, o final do feriadão e vamos consertar nossas disponibilidades. Daqui a pouco estará aí a Feira do Livro, e a de Pelotas ocupa a posição tradicional de segunda em idade relativa à de Porto Alegre e, nos preparar para o final de ano, que é o que já sinaliza o último trimestre.
EM DIA COM A ACADEMIA
Walter Galvani, em 09/09/2007
Alguns dados pesquisados por mim, sobre
o patrono da minha cadeira (a de número 25) na Academia Rio-Grandense de Letras:
ALBERTO DA COSTA CORREA LEITE
Por Walter Galvani
Não era saudável ser poeta romântico no século XIX, mas de certo modo era assim que se afrontava o “establishment” e se atingia a sociedade através da sensibilização e da comoção: morria-se moço, como Castro Alves, mas sabia-se muito e se alcançava rapidamente uma grande cultura e se conquistavam as ferramentas para brilhar.
Alberto da Costa Correa Leite não fugiu à essa regra de ouro. Nasceu numa família dedicada à literatura e ao jornalismo, como poderia ser o título desta breve nota sobre o patrono da Cadeira 25, onde cheguei em 1999, por obra e graça dos meus fraternos colegas. Como foi redator do “Correio do Povo” logo nos primeiros anos do jornal, senti-me ainda mais ligado a ele. Também eu tive este começo.
O meu patrono nasceu em Rio Grande, no dia 4 de setembro de 1871 e depois veio para Porto Alegre aonde veio a falecer na idade típica dos poetas e escritores do romantismo, no dia 2 de fevereiro de 1898. Com 27 anos.
Isso não impediu que deixasse uma obra apreciável e que fosse levado à nossa academia em sua fundação.
Seu irmão, Antônio da Costa Correa Leite Filho, um pouco mais velho, nascido em 1866, também fundador da Academia, tornou-se conhecido sob o pseudônimo de Mário de Artagão. Este se formou em filosofia na Alemanha onde aliás fez também os estudos primários; o secundário foi em Portugal e mais tarde tornou-se diplomata.
Alberto teve uma carreira mais modesta e regional, mas igualmente brilhante.
Primeiro foi empregado no comércio de Porto Alegre, silenciosamente. Depois entrou para o “Correio do Povo”. Era poeta e cronista. Pertenceu também ao Centro Literário de Porto Alegre e estreou, justamente no ano de fundação do grande jornal por Caldas Júnior (1895), com um livro de poemas, “Sarças Ardentes”, impresso na tipografia do grande matutino. Publicou, aliás, no “Correio”, durante dois anos, crônicas sob o pseudônimo de Quasímodo. Em 1897, publicou um segundo livro de poemas, com o título inspirado em Castro Alves: “Espumas do Mar”.
Em Rio Grande, sua terra natal, publicou valioso levantamento sob o título curioso de “Anuário Estatístico e Literário do RS”, em 1897.
Ainda no século XIX, em 1898, lançou “Na paz dos sonhos”, um livro de sonetos, estilo em grande voga na época. No ano seguinte, em Pelotas, terra de grande tradição e cultura, “Almanaque Popular Brasileiro” que é classificado como “Psicologia e Poesia”. Eis um bom casamento... Ele porém, já nos deixara. O poeta não veria suas publicações seguintes, uma vez que faleceu em fevereiro de 1898. Os livros continuaram saindo por obra dos amigos: “Voz Dolente”, também de sonetos em sua terra natal, 1901, já no novo século, (que ele não alcançou em vida), bem como o “Almanaque Literário e Estatístico do RGS”, no mesmo ano.
Como se vê, os almanaques estavam em moda.
A curta carreira de Alberto Correa Leite encerrou-se com “Flor de Neve”, também editado em Rio Grande, em 1901.
Até hoje é reverenciado como poeta de rara sensibilidade, mas seus livros somente são encontráveis nos valiosos acervos das bibliotecas públicas, de Pelotas e Rio Grande, ou, por muita sorte dos pesquisadores em algum “sebo”.
UMA HISTÓRIA EXEMPLAR
Walter Galvani, em 13/09/2007
Neste momento de comemoração
farroupilha, sempre
é bom lembrar casos
inesquecíveis e significativos
para as comunidades.Cr~
Crônica de hoje no
Diário de Canoas,
do Grupo Editorial Sinos
RANCHO CRIOULO
Walter Galvani
Mergulho no passado, já nem sei quantos anos lá se vão, mas lembro da figura de João Palma da Silva, fronte crispada pela emoção, montado em seu cavalo, troteando pelas ruas da cidade de Canoas, quando acabara de fundar/criar o Rancho Crioulo. Ele foi dos primeiros, logo trouxe à Canoas os jovens Barbosa Lessa e Paixão Cortes que então lideravam o movimento tradicionalista, recém saído da casca. Lembro bem da inveja, da incompreensão, da ignorância dos políticos da época que, salvo honrosas exceções, como o prefeito Sezefredo Azambuja Vieira, nem sabiam do que se tratava e procuravam “derrubar” o líder tradicionalista, com medo de que sua criatividade pudesse se transmudar milagrosamente em votos.
João Palma da Silva foi por longos anos correspondente do Correio do Povo e de outros órgãos de imprensa, tendo multiplicado a produção da sua velha “Remington” em cujo teclado batucava esplendorosamente, como se fazia naquela época, hoje substituído pelo suave toque da digitação.
E deixou, nas paredes do “Rancho Crioulo”, nas apresentações que realizou, nos inúmeros prêmios que conquistou e na valiosa conquista da importância cultural para a sua cidade de adoção, sua marca indiscutível. Felizmente ainda hoje se cultua seu nome, na biblioteca pública do município, mas é pena que ele não esteja conosco.
Hoje, em plena Semana Farroupilha, se pode notar que aquela primavera de idéias felizmente floresceu e frutificou.
Parece que estou a ver ali, a dobrar a esquina da avenida Vitor Barreto, o piquete do “Rancho Crioulo” com o “seu” Palma a frente, com a meninas Regina e Maria Helena Vargas carregando as bandeiras, com os espíritos todos voltados para o grande baile que, na certa se realizaria no próximo sábado.
Era uma pequena cidade, o trensurb ainda não corria fechado, o transporte para a capital se fazia dentro das limitações que o ônibus e o próprio “trenzinho” ainda impunham, mas João Palma da Silva andava aí, cercado pela admiração e o carinho dos mais jovens como o poeta Antonio Canabarro Trois Filho, o Antonio de Jesus Pfeil e outros mais ou menos votados, ou o respeito dos grandes moradores do município, respeitáveis intelectuais que haviam escolhido nossa terra, como o Lenine Nequete, “seu” Arlindo Martins, o dr.David Bonder ou os irmãos Conter da “Casa BBC” e depois da “Dick”. Saudosos e produtivos tempos. Quem sabe o “Rancho Crioulo” estaria na raiz do amor, da dedicação ao próximo e da boa vontade? Ou pelo menos dos frutos que geraram agora uma verba de 429 mil reais para a “Semana Farroupilha” com mais de trinta entidades beneficiadas? Vou procurar o espírito do seu Palma nesses dias.
MOSTREMOS VALOR,
CONSTÂNCIA
Walter Galvani, em 15/09/2007
Crônica publicada hoje
no jornal "A Razão"
de Santa Maria (RS)
AURORA PRECURSORA
Walter Galvani
Construímos, vagarosamente, o conceito de nação para os rio-grandenses. Julgando a luz dos fatos históricos, ninguém pode dizer que não fomos derrotados em 1845, mas, em compensação, de lá para cá, tantas são as lições que demos no “império brasileiro” e em seu sucessor, a república, que desapareceu como peça de ficção a versão da derrota. Vencemos e não só vencemos como impomos aos demais, a imagem do que foi o vinte de setembro real.
Todos os dias renovo esta impressão porque vivo há dez anos na cidade onde nasceu a idéia farroupilha, (Guaíba), passo pelo local de onde partiram os primeiros revolucionários para a tomada de Porto Alegre e contemplo o rio, calmo e translúcido, por onde atravessaram aqueles heróis numa madrugada clara de primavera que apenas começava de 19 para 20 de setembro de 1835. Desembarcaram do outro lado, marcharam para o centro da capital, trocaram tiros com os “imperiais” na Ponte da Azenha e ocuparam Porto Alegre. Logo foram embora, pois perderam o segundo “round”, mas isso é insignificante, porque permanecemos em luta por dez anos e o império teve que dobrar-se às nossas exigências. Tudo mentira? Tudo ficção? Parte sim, parte não, o fato é que somente nós, rio-grandenses, temos um hino que cantamos em coro e que todo mundo sabe. Letra mudada por conveniência...
Por isso pregamos a cada 20 de setembro que “mostremos valor, constância, nessa ímpia e injusta guerra e que sirvam nossas façanhas de modelo à toda a terra.” Com o lema incorporado da Revolução Francesa, que então ainda não completara nem cinqüenta anos, tentamos impor uma república, com a constituição, a moeda, o arquivo, as armas e os barões assinalados que nos tocaram por herança, dispostos a defender os interesses que se mesclavam nos bolsos e corações de proprietários rurais, empregados, índios, escravos e apaniguados: Liberdade, Igualdade e Humanidade. Éramos uma democracia? Somos, hoje, uma democracia? São verdadeiros os ensinamentos que passamos de geração em geração? Ganhamos, perdemos, ou isso não interessa?
O fato é que a construção da República Rio-Grandense, tarefa a que nos temos dedicado desde então, é uma verdadeira missão. Nós, gaúchos, colhendo os ensinamentos de então e cultivando nossas tradições, procuramos, dia após dia, transmitir as velhas lições. Um pouco mais de educação, não nos faria mal. É preciso que os gaúchos se dêem conta de que já desembarcamos de nossos cavalos. Somos, como disse Cyro Martins, “gaúchos a pé”. Mas, educação e saber não ocupam lugar.
Vamos aproveitar, pois, a Semana Farroupilha e tratar de aperfeiçoar nosso comportamento, para honrar o legado. E que sirvam nossas façanhas, de modelo à toda a terra.
AOS POUCOS,
ESTAMOS FICANDO
"CHEIOS"...
Walter Galvani, em 16/09/2007
Crônica publicada
hoje no jornal
ABC DOMINGO
do Grupo Editorial
Sinos, com
circulação em toda a
região metropolitana
de Porto Alegre,
Encosta da Serra e
Vale do Rio dos Sinos
A SAGA DOS MENTIROSOS
Walter Galvani
Durante largo tempo ainda repercutirá sobre o Senado Populusque Brasiliensis o anátema de refúgio dos mentirosos, uma vez que, ouvidos pela imprensa, onze mentiram dizendo que não votariam pela absolvição de Renan Calheiros e, no entanto, votaram. O placar eletrônico registrou, implacavelmente, 35 votos apenas pela cassação. Até que ponto isso será verdade, não saberemos nunca, talvez, pois se mentiram agora, mentirão sempre. O perigoso nisso é que foi acrescentada assim mais uma pedra ao desprestígio parlamentar. Pena que, cada vez mais, ao invés de se trabalhar na construção de uma imagem que estimule o voto, tenhamos que manter nossos índices de abstenção, variáveis entre 10 e 20 por cento dependendo apenas da chuva, baseados na obrigatoriedade do comparecimento às urnas, ou justificativa da ausência, uma vez que os atos civis estão condicionados à apresentação do título eleitoral com o protocolo do comparecimento às eleições. Se não fora por este pequeno estratagema para manter a votação dos próprios políticos e teríamos o dia das eleições transformado em grande feriado e uma ausência maciça, invertendo os valores: 80 por cento de abstenção, andaria perto do que pensam os brasileiros dos políticos. Não sou político, mas poderia sê-lo.É atraente sim, poder prestar serviços à comunidade comparecer aos atos importantes da vida política. Mas, de vez em quando soa a campainha do ridículo e você se distancía e mergulha nos compromissos particulares.
Mas, bem que eu gostaria de acompanhando o orçamento da Yeda Crusius para 2008, por exemplo. Tomem nota: 1.278.000.000,00 de déficit previsto. Como zerar esta conta em 12 meses?
Melhor situação seria a do “serial killer” russo, cujo nome nos remete aos grandes romances do século XIX e conseqüentemente à imaginação de Dostoiewski ou Puskin. Pois o senhor Alexander Pichushkin, simplesmente pensava em preencher com cadáveres as 64 casas do seu imaginário tabuleiro de xadrez. Já tinha passado dos sessenta. Ou o perdão fabuloso de uma dívida lendária que Lula, vivendo seu conto de fadas, conseguiu na Dinamarca: o Brasil foi absolvido de uma dívida que datava do ano de 1800, portanto anterior à nossa própria independência como nação, de 20 milhões de dólares, por passar diante do palácio real no Guldborgsund, sem permissão. Quem sabe a Yeda vai à Brasília, circular em torno da Granja do Torto e volta com as verbas para zerar nosso buracão?
COMO PILATOS
(Terá sido mesmo assim?)
Walter Galvani, em 17/09/2007
No grande Diário Popular
de Pelotas, o mais
antigo diário em circulação
no Rio Grande do Sul,
apareceu na edição
de domingo, esta minha crônica:
LAVANDO AS MÃOS
Walter Galvani
Ocupado em cumprir bibliografia para um curso de formação literária que abriga uma disciplina chamada “Biografia e autobiografia” acabei mergulhando na leitura de um “Pôncio Pilatos”, cuja figura histórica se confunde com a lenda, a verdade com a idealização, a falta de documentação com a inundação de textos históricos, a criatividade com a razão. É uma biografia de Ann Wroe, premiada nos Estados Unidos, e considerada pelo “Washington Post” como “definitiva”.
Leio e não estranho a coincidência – porque nada é inventado e o destino não se cria, se cumpre – com este momento em que o Senado mergulha na densa escuridão de mentir publicamente, por conveniência de seus membros e do governo, dos partidos da situação e dos partidos da oposição.
Recapitulando apenas para nos situar: 41 votos serviriam para cassar o mandato de Renan Calheiros, mas ele “venceu” por 40 a 35 e mais seis abstenções. Justamente estes, que lavaram suas mãos, cumpriram o édito histórico de não tomar posição pública, aliás, o que mais esteve em discussão, pois a sessão deveria ter sido secreta, foi aberta a força pela chave da Justiça e contra essa decisão se rebelaram até “seguranças”, esta abstrusa criação das nações modernas, que desejam que se cumpra pela força o que decidem no conchavo e no segredo.
Um “segurança” chegou ao ponto de exibir uma pistola que “dispara” 50 mil volts, com a intenção de impor sua posição e impedir a entrada de deputados que pretendiam presenciar, ouvir e talvez tornar pública a ruinosa discussão no seio do senado. Ora, sabemos, desde alguns anos antes da chamada Era Cristã, que teve justamente Pôncio Pilatos como testemunha, que este supremo recinto da democracia, sofre em nossos países de uma síndrome histórica que o transforma em palco e picadeiro.
Todo mundo sabe, não é preciso apregoar à porta do senado como fazia a Roma antiga, que o preço pago foi a liderança da própria casa, que logo estará em mãos de um governista e nos cofres do “viajante” Lula, que foi à terra do Papai Noel encomendar a manutenção da CPMF, supremo presente de Natal. Assim, quando ele voltar, debaixo do seu presépio estará a manutenção do mecanismo criado para proteger a saúde pública e jamais usado em sua proposição original, junto com a bicicleta e o computador. Feliz Natal, Lula. Volto à leitura do meu “Pôncio Pilatos”, onde aprendo tudo sobre Brasília e arredores, século XXI. Como dizem os portugueses, continua “tudo como dantes no quartel de Abrantes”.
RIO GRANDE DO SUL
PERDEU O
IRMÃO ELVO CLEMENTE
Walter Galvani, em 23/09/2007
Mestre da PUCRS, presidente
da Academia Rio-Grandense
de Letras, abre um
vácuo de bondade e
inteligência.
Irmão Elvo faleceu
quarta-feira, dia 19
de setembro de 2007.
Crônica publicada
hoje nos meios de
comunicação impressos
UMA ENORME PERDA
Walter Galvani
Quando falece alguém, habitualmente desaparecem os defeitos e exaltam-se suas virtudes. Assim tem sido. Mas, no caso do Irmão Elvo Clemente, o grande professor da PUCRS, assessor especial do reitor Joaquim Clotet, presidente da Academia Riograndense de Letras, autor de trinta livros, cronista, ensaísta, e o indiscutível amigo dos seus amigos, não há defeitos para esconder, mas somente muita capacidade, dedicação e amor pelo que fazia, para recordar.
O Irmão Elvo Clemente, da ordem marista, há mais de cinqüenta anos ajudando a formar gerações e gerações de profissionais, tendo conduzido jovens desde os verdes anos no Colégio Rosário, até o patamar mais alto nos cursos universitários, atuando em várias unidades acadêmicas, deixando sua contribuição sobretudo na Faculdade de Letras e nos cursos de jornalismo da Famecos. Ou na Academia Riograndense de Letras onde teve destacada atuação com seu espírito de conciliação e mediação, ajudou a manter o alto nível de suas sessões. E produzindo sempre, ora escrevendo crônicas, ora se aprofundando em ensaios, intervindo no andamento da sociedade e na compreensão dos fenômenos culturais e em sua difusão. Na Academia, não por acaso ocupava a cadeira nº 6, cujo patrono era Apolinário Porto Alegre, antigo e conceituado mestre porto-alegrense do século XIX.
Nascido em Maróstica, região do Vêneto, Itália, a poucos quilômetros de Veneza, terra conhecida pela sua criatividade em espetáculos populares, sendo a sede mundial e pioneira do Xadrez com figuras humanas, terra de onde a espada foi banida do uso desde 1454, Antonio João Silvestre Mottin, viria a tornar-se o “Irmão Elvo Clemente”, amado pelos seus alunos aqui no Brasil, com mais de meio século de carreira no magistério.
Aos poucos a sociedade foi lhe reconhecendo os méritos e prestando o tributo à sua inteligência e à sua bondade. Virtudes que muito bem se refletem, por exemplo, no discurso que preparou para a comemoração do centenário de Erico Veríssimo, que concluía assim: “Percorrer uma vida é ver a mão misteriosa da Providência conduzindo os dias e os anos das pessoas para levá-las ao momento sublime de sua perfeição. Ponto final de uma aventura terrena e começo da nova caminhada para a outra vida, onde a bondade e a misericórdia infinitas de Deusa se aproximam para o amplexo de amor e eternidade”. Pois, é à “aventura terrena” de Elvo Clemente que aplicamos neste momento em que ela se encerra e em que começa “uma nova caminhada”, seu próprio pensamento e assinalamos que tudo o que pregou, defendeu e fez, sirva de ponto de reflexão e exemplo para os que o irão suceder.
ESCRITOR E PROFESSOR
ANTÔNIO HOHLFELDT É
O NOVO PATRONO DA
FEIRA DO LIVRO
DE PORTO ALEGRE
Walter Galvani, em 27/09/2007
A mais importante e
maior feira de livros
a céu aberto da
América Latina, que
inaugura a 26 de outubro
já tem seu Patrono.
Uma figura tutelar que
reina sobre a feira na
Praça da Alfândega,
centro de Porto Alegre
até o dia 11 de novembro.
Crônica publicada
hoje no jornal
"Diário de Canoas"
do Grupo Editorial Sinos
HOHLFELDT, PATRONO
Walter Galvani
Anualmente a expectativa de todo o estado gira em torno da escolha do patrono da Feira do Livro de Porto Alegre, chegando agora à sua 53ª. Edição, sem desconsiderar as feiras que cada município (Canoas inclusive) realiza todos os anos. A da capital foi a pioneira em nosso estado, tendo iniciado em 1955, e com o seu sucesso, aos poucos foram se incorporando diversas cidades do interior. Daí que a figura do patrono da feira porto-alegrense ganha uma característica especial e o seu carisma se projeta muito além fronteiras. Este ano é a vez do jornalista, escritor e professor Antonio Hohlfeldt.
Um grande padrinho, um patrono excepcional que abarca diversas linhas de atividade, inclusive pensando em termos de política, carreira em que resolveu investir a partir de 1983, quando a empresa Caldas Júnior, onde atuava como jornalista desde 1967, entrou em grave crise econômica. Antonio continuou, pelos caminhos do jornalismo (atua presentemente no Jornal do Comércio da capital), mas é como professor e atual vice-coordenador do programa de Pós Graduação da Famecos/PUC que alcançou destaque nos meios acadêmicos.
Ele se elegeu entre os patronáveis que se alinharam na lista dos “dez mais lembrados”. Logicamente esta primeira lembrança trouxe o seu nome para o proscênio, aliás, lembrando sua atuação como crítico teatral, o único permanente em nosso meio e que assiste rigorosamente todos os espetáculos estreados na capital.
Hohlfeldt seguiu sua carreira política também, tendo sido eleito vice-governador na chapa com Germano Rigotto e exercendo o cargo com brilho, e eficiência e imparcialidade consagradoras.
De volta aos livros, onde já passou das trinta publicações, estará lançando novas edições e reedições na 53ª. Feira do Livro de Porto Alegre, elegendo-se como um digno sucessor do patronato que será exercido até o dia 26 de outubro por Alcy Cheuiche, a quem sucederá até à feira do ano que vem.
Trata-se da consolidação de uma autoridade literária inconteste e a reafirmação de uma carreira que seguirá muito além da trajetória política.
Todos estamos de parabéns com a justa escolha que distingue o escolhido, a PUCRS, a feira porto-alegrense e a cultura do estado. Ah, no dia 22 de dezembro ele completará 57 anos. Muito campo pela frente e conhecendo a capacidade de produção do Antonio como eu conheço, como ex-colega de redação e agora companheiro na universidade, mais uns tantos títulos que chegarão ao devido tempo.
QUANDO IREMOS
RESPIRAR COM ALÍVIO?
Walter Galvani, em 29/09/2007
Crônica publicada hoje
no jornal "A Razão"
de Santa Maria
QUANTO HORROR PERANTE OS CÉUS
Walter Galvani
Tivemos mais uma semana terrível, dessas que a gente imagina que nunca mais se poderá viver, afinal de contas, já se viu de tudo! Mas, assim é. No Supremo temos agora dias de Senado, no Senado temos dias de vila e nas vilas temos dias e noites de horrores, com execuções, roubos, assaltos, igualzinho como nas ruas centrais das grandes cidades, onde também se vive este clima.
Como diria Castro Alves, “quanto horror perante os céus”. Mas, se não fosse o poeta nos socorrer, como iríamos escapar desta miséria em que se transformou a vida diária! As pessoas ficam a se perguntar quem matou um personagem de telenovela ao invés de ler, estudar, preparar-se com afinco, mas afinal isso é perdoável. Imaginem se não tivéssemos a saída pelo imaginário!
Dia desses me dei ao trabalho de ouvir, anotar e gravar depoimentos pessoais e por telefone, de pessoas que compõem o tecido social da comunidade, sem dar-me conta de que a miséria em que se chafurda foi semeada pelos erros absurdos cometidos e esquecidos, nunca revisados e amontoados pela pá do desprezo e do desencanto.
Li atentamente o que nos veio da Europa e descobri que, descaradamente, os países escandinavos são apresentados como os campeões da limpeza e da preservação do meio ambiente. Claro: eles nos exportam a parte suja da sua atividade. Assim fica fácil para que Noruega e Finlândia, Suécia e Dinamarca ocupem as primeiras posições, para que Oslo e Estocolmo se situem nos primeiros lugares na luta pelo “verde”.
Para sujar, para plantar espécies exóticas que produzirão o mau cheiro e a lixívia dos seus empreendimentos, existe o sul do Brasil. O sul do mundo. É isso mesmo, é lá, no sul do mundo que eles enfiam a sua sujeira. Levam embora o filé mignon e deixam em mãos dos nossos ricos estancieiros, os dólares (ou euros, conforme o caso), o ouro da maldição pelo uso dos campos outrora povoados de gado.
Onde hoje estão aquelas árvores, nem passarinho pousa!
Em compensação, o lucro do empreendimento é certo. Para quem vende, para quem aluga, para quem se livra da ocupação e do cuidado, em troca do ouro.
Até quando? Até quando as terras estiverem exauridas, as pessoas haverem emigrado porque aqui não há nem emprego, nem comida.
O que fazem os políticos? Discutem, batem boca no Congresso. Pois agora se bate boca até no Supremo... Pena, mas dizem que “Deus não joga, mas fiscaliza”. Vamos tentar sobreviver para assistir à retaliação divina...
'HOW GREEN
WAS MY VALLEY"
Walter Galvani, em 30/09/2007
Crônica publicada hoje no jornalABC DOMINGO, do Grupo
Editorial Sinos
COMO ERA VERDE O MEU VALE
Walter Galvani
Livro e filme dele extraído, famosos nos anos quarenta e cinqüenta, celebravam a doce vida da campanha no País de Gales. Escrito por Richard Llewellyn, (que, aliás, ficou por aí...) continham o chamamento à vida romântica que a idílica convivência com a terra podia propiciar. Era a narrativa da vida num vale onde viviam mineiros, feita sessenta anos depois dos fatos por um personagem central que concluía sua narrativa, exatamente com a frase que deu título ao livro, mais tarde transformada em filme por John Ford, grande diretor americano.
Tudo bem que o livro tenha originado um grande filme, o que é muito comum, mais significativo ainda pelo fato da vida vista assim, do ângulo romântico que o passado propicia pareça melhor do que era, mas vamos falar de fatos atuais e notórios.
Continuam aprovando a utilização do pampa gaúcho para o plantio de imensidões de árvores cujo único fruto é, através da sua própria morte, o papel. Ou melhor: a celulose que produzirá, no futuro o papel.
Isso me faz lembrar que foi nesta semana que passou que a Organização Mundial da Saúde divulgou os números que aclamam os países escandinavos como os que melhor cuidam do meio ambiente. A classificação coloca em primeiro lugar a Finlândia e seguem-se Noruega e Suécia. As capitais destes últimos, Oslo e Estocolomo, por seu turno se qualificam nos dois primeiros lugares do mundo.
É claro que nesta classificação o Brasil vai da metade para a rabeira, assim como muitos outros subdesenvolvidos por lá se colocam. E, num primeiro momento, vê-se muita gente medianamente informada, aclamando aquela preocupação com o verde, enquanto nosso país nem se liga nisto aí.
Pois é, que bonito! Como “era verde o meu vale!” Ou, como diria Justino Martins, “quanta paz naqueles campos”... Árvores alienígenas, exóticas, onde “nem passarinho pousa”, espalham-se agora, multiplicadas pela ambição e pela... digamos, conveniência. Mais vale cultivar um bosque de eucaliptos do que criar uma ponta de gado. E, aos poucos, vamos dizendo adeus ao velho pampa. “Adiós, pampa mia!”
Como fica fácil viver na Finlândia ou morar nas sadias e civilizadas capitais escandinavas, se o papel sujo é exportado para os subdesenvolvidos da América do Sul. Para que o Brasil, o Uruguai e a Argentina briguem pelos seus investimentos, mandam-nos máquinas, dólares e interesses. Em troca, entregamos a alma dos nossos campos. Como fica fácil ser um campeão do verde, recebendo só o filé mignon e poluindo com a sua sujeira toda a Metade Sul.
CONSULTE-SE O "MANUAL
DO PERFEITO IDIOTA
LATINO-AMERICANO"
do Llosa Filho e do
Carlos Alberto Montaner
(que,aliás, participará
da série "Fronteiras
do Pensamento" em Porto Alegre,
ainda este mês.
Walter Galvani, em 04/10/2007
A DEMISSÃO DO
GERÚNDIO
No Brasil,
tudo é possível...
A demagogia não tem limites e por isso, o governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, acaba de invadir o domínio da lingüística, com o objetivo de impressionar o povo, emitindo um decreto que estabelece que “fica demitido o gerúndio de todos os órgãos do Distrito Federal”. Em tempos de renovação de linguagem e acordo ortográfico, aliás aguardando assinatura de mais algum dos integrantes da entidade que reúne os “países de língua oficial portuguesa” para que se torne uma norma oficial, chama a atenção esta condenação pública do uso do gerúndio.
Ora, a língua não reflete apenas as questões formais de comunicação, mas o próprio espírito de quem a pratica. Usos, costumes, tradição, enfim, aquilo que se chama a “cultura” de um povo, estão embutidos no seio das orações, de suas composições e das palavras escolhidas. O uso do gerúndio é tipicamente brasileiro. Aqui se diz: estou TRABALHANDO. Ou estou CONCLUINDO esta crônica para ser publicada. Já em Portugal se usa, estou “a trabalhar” ou “estou a concluir”. Ora, se “a trabalhar” quer dizer mais ou menos o mesmo que “trabalhando”, pois estabelece que se está em plena operação, já o “estou a concluir” é mais promissor do que “concluindo”, pois deixa ao interlocutor a esperança de que logo logo o trabalho estará terminado. Se é verdade ou não, só os fatos posteriores o dirão.
Transformar esta questão semântica em ordenação jurídica é apenas uma boa demagogia, ou seja o “ato de um lider político ou administrador”, segundo o dicionário Caldas Aulete, “que procura obter apoio manipulando sentimentos e paixões populares.” José Roberto Arruda conseguiu alguns dos seus objetivos. Por exemplo, passou a ser citado em outros círculos que não os especificamente políticos onde era conhecido. Seu ato, transformado em decreto, está sendo discutido em todo o país e até mesmo nos demais integrantes da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), além do Brasil, naturalmente, Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste.
Temos muitas diferenças, inclusive de comportamento, que resultam até no uso ou não do gerúndio, mas muitas semelhanças, inclusive pela língua comum que é perfeitamente compreensível pelo menos na norma culta, apesar das variações locais e que busca agora um acordo ortográfico. Aliás é bom que se lembre o que é o gerúndio, que reflete um estado de espírito e não apenas “uma forma nominal do verbo”.
Quanto ao demagogo em questão, acho que ele pode IR PREPARANDO (forma bem rio-grandense de expressão, juntando o infinitivo e o gerúndio) suas justificativas.
ALERTA À AREA CULTUIRAL
Walter Galvani, em 06/10/2007
Crônica publicada hoje
no jornal "A Razão"
de Santa Maria:
PACOTES E PACOTÕES
Walter Galvani
O nome do novo jogo é Oscips. Você decifra o que é isto? Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público. Transforme-se você museu, você orquestra, você feira do livro, você teatro, enquanto é tempo. Há uma lei federal (5.790) que disciplina o chamado “terceiro setor” e se não escolher este caminho, você acabará condenado ao ostracismo, ao impaludismo, e à morte por inanição.
É isso mesmo, é o que se planeja, certo ou errado, nos subterrâneos do governo e, hoje em dia qualquer medida de saneamento será bem-vinda, tal a rejeição que se criou pelo apadrinhamento estatal. Uma certa demonização se espalhou pela sociedade que passou a considerar toda e qualquer aplicação de recursos sem retorno aparente imediato, como uma ação condenável. Não se mede se determinada atitude significará o atendimento de necessidades, cujo suprimento cabe ao estado. É deficitário? Corte.
Este “super-realismo” administrativo pode levar a cultura a viver a tranqüila “paz dos cemitérios”...
Quando não houver mais nada a fazer, quando a atividade cultural que hoje distingue o Rio Grande do Sul houver esmaecido ou for definitivamente riscada do primeiro plano das preocupações da sociedade, então estarão os “economicistas” satisfeitos. Morreu e pronto. Sustentar-se-ão exclusivamente aquelas produções eventualmente apoiadas por grandes interesses comerciais.
Pode ser que a saída de transformar uma associação de amigos em Oscip venha a ter algum êxito. Mas, isso valerá para tudo e todos?
Lembro-me bem que, durante a II Guerra Mundial, um figurão do regime nazista costumava dizer: “Quando ouço falar em cultura me dá vontade de sacar o revólver!” Não foi preciso tanto e o regime em que ele se incorporava ajudou a humilhar a Alemanha e submetê-la ao vexame da derrota mundial. Talvez por isso, fico eu preocupado, pois já tivemos tentativas de redução da atividade cultural e já vimos o setor de joelhos, mendigando. Finalmente, com as chamadas leis de incentivo que implicam em alguma renúncia fiscal, reestruturou-se a atividade e temos aí o Projeto Monumenta, a Lei Rouanet e a LIC para semear alguma reação organizada da sociedade com inegáveis resultados positivos.
Mas, e agora, diante da penúria da máquina estatal rio-grandense, não estaremos uma vez mais ameaçados de retrocesso? A ameaça está no ar. Transforme-se em Oscip ou saia do caminho. Parem a música, suspendam-se os acordes, calem-se os violinos! Risquem-se as peças teatrais, a conservação e recuperação do patrimônio, o estado tem outras coisas a fazer.
PRODUTORES CULTURAIS,
UNAM-SE...
Walter Galvani, em 07/10/2007
LIC ameaçada.
Crônica publicada
no ABC DOMINGO, órgão
de circulação dominical
do Grupo Editorial Sinos:
PACOTE ATIRA NA CULTURA
Walter Galvani
Entendo: quem deve, não faz festa. Quem está em déficit, não pode se pavonear promovendo exposições, concertos, teatro, cinema, edição de livros ou feiras. Tampouco pode realizar duvidosos desfiles para projetar identidades construídas ao longo do tempo e que precisam de uma injeção financeira para sua manutenção. Patriotismo tem que ser manifestação espontânea e não marchas subsidiadas pelo estado.
O pacote de Yeda, aparentemente irretocável sob o ponto de vista administrativo, embora se possa duvidar da sua eficácia (o “cigarro” que o diga...) disparou um tiro de canhão na linha de flutuação da atividade cultural no estado do Rio Grande do Sul.
E tem mais: haverá novos disparos.
Pode parecer uma medida saneadora, a longo prazo, mas, no primeiro momento, soará como uma bomba demolidora. Não sem razão, já ocorrem manifestações de desagrado e expectativa.
Já se sabe que serão excluídos da lista dos projetos a serem beneficiados pela LIC (Lei de Incentivo à Cultura), aqueles que se beneficiarem da lei federal (Lei Rouanet ou outros dispositivos que venham a existir). Ou seja: Feira do Livro de Porto Alegre, Jornada de Literatura de Passo Fundo, Concertos e apresentações de orquestras, enfim, será fácil identificar quem pode ou não, basta examinar quem são os promotores ou patrocinadores.
Em segundo lugar, o que sobrar da atividade cultural terá que se movimentar através das OSCIPS (organizações da sociedade civil de interesse público), ou seja sociedades civis, sem fins lucrativos, de direito privado e de interesse público.
Aí estarão, simplificando, os órgãos que atuam na promoção da cultura, defesa e conservação do patrimônio histórico e artístico. Consta que já foram listados 33 órgãos que poderão surgir do repasse de atividades para as tais sociedades civis.
Até pode ser uma saída para um estado falido, como é o caso, mas a pergunta é: terá a sociedade condições de arcar, sem subsídios ou renúncia fiscal, com entidades do porte do Museu de Arte do RGS, Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, Casa de Cultura Mario Quintana, e outras constantes da listinha de 33 ?
O setor das Oscips é organizado através da lei 9790/99. Há toda uma legislação já codificada, onde se identifica como ponto frágil a quantidade e diversidade de dispositivos federais, estaduais e municipais que por vezes colidem ou se superpõem. Nada que não se possa organizar. O problema maior talvez seja convencer a sociedade de que a atividade cultural agora passa para sua exclusiva responsabilidade, eximindo-se o estado de conceder isenções.
A MORTE DE UM GRANDE
JORNALISTA GAÚCHO
Walter Galvani, em 08/10/2007
Aos 79 anos, faleceu na manhã deste dia 8 de outubro, um
dos mais estimados
homens de imprensa do
sul do país
AMIR DOMINGUES
DEIXOU ESTE
ESTÁGIO FÍSICO
Walter Galvani
Trabalho há 52 anos e meio na imprensa da capital do Rio Grande do Sul, tendo começado apenas alguns meses antes em Canoas, num jornal que ajudei a fundar, o “Expressão”, que pouco durou. Neste meio século de atuação, sempre contei com a presença do Amir Domingues perto de mim.
Hoje ele nos deixou. Escolheu uma data relevante, 8 de outubro, que assinala a morte de Che Guevara, um dos ícones do século XX, há quarenta anos atrás.
Amir tem estado comigo – e acredito que continuará – todo este tempo. Quando cheguei ao esporte do “Correio do Povo”, em 1955, ele já estava na capital (à época na Rádio Gaúcha) e pouco tempo depois, em 1956, veio somar-se à equipe que se juntava na “Folha da Tarde” – outro órgão da Cia. Caldas Jr., para preparar o lançamento da Rádio Guaíba, o que aconteceu em 57. Mesmo antes da data de estréia da rádio (30 de abril de 1957) já estávamos juntos, pois ele atuava no mesmo prédio que eu, do outro lado de um imenso corredor.
E foi assim que comecei na prática minha carreira na capital. Aos poucos fui me aproximando do Amir e com ele tive uma longa amizade que só foi interrompida nesta manhã de segunda-feira, quando ele deixou o estágio físico atual. (Era nisso que ele acreditava e é preciso fazer-lhe justiça.)
Aos poucos fui engatinhando na nova profissão e o Amir sempre estava por perto. Foi assim que, ao iniciar meus comentários culturais e sociais na rádio Guaíba no início de 1958, lá estava ele. Também lá estava o grande amigo quando fiz minha primeira incursão internacional, em março e abril de 1959, pois o Amir Domingues também fora para Buenos Aires, onde fui passar quase quarenta dias para a cobertura do Sul-Americano de Futebol.
Grandes trabalhos, muita cerveja com “bife de lomo e papas fritas” nos Palácios de Las Papas Fritas na Calle Maipú, muito acompanhamento com o Mendes Ribeiro, o Celso Costa, o Alcides Krebs, o Edison Pires, o Pedrinho Pereira (que também já foi) em Buenos Aires e outros tantos na retaguarda em Porto Alegre.
Na volta, o destino nos juntou na mesma redação. Mesmíssima redação onde ocupei o primeiro posto de chefia em outubro de 1967, quando transformei o Amir Domingues em nosso primeiro grande repórter investigativo, com vários dias para trabalhar (bem) profundas e extensas matérias, como o levantamento completo que ele fez da Região Metropolitana.
E assim fomos caminhando juntos.
Juntos uma vez mais estivemos em 1975, quando o governador Guazelli e o chefe da Casa Civil, Carlos Alberto Allgayer, foram nos recrutar, a mim e ao Amir, para sermos chefe e subchefe da Comunicação Social do Palácio Piratini. Deixei-o sozinho no posto para voltar para a Caldas Jr. e assumir a chefia de redação da “Folha da Manhã”, mas daqui a pouco eu estava outra vez ao lado do Amir, na velha “Folha da Tarde”. Já em 67, havíamos construído juntos uma grande redação na “Folha”, mas o melhor ainda estava por vir.
Amir “arrebentou” com as suas grandes matérias na área policial, quando revelou os segredos que haviam levado aos grandes crimes, tipo Margit Kliemann e o “Mãos amarradas”.
Mas, ainda nos reuniríamos outra vez, agora na nova arrancada da “Folha da Tarde” em 1983 e mais adiante na Rádio Guaíba, onde comecei a apresentar programas e onde fiquei até 2002. Agora, em 2007, mais uma vez retornei à “Guaíba” e lá estava o Amir, firme, paciente e mesmo quando contrariado, com um sorriso nos lábios e muita paciência.
Durante muito tempo privei da sua companhia para um cafezinho no final da manhã, quando se dedicava à redação dos editoriais do “Correio do Povo”.
Juntos vivemos, profissionalmente próximos, deglutimos as maldades alheias, digerimos as grandes mentiras e a hipocrisia de tanta gente e freqüentamos, quando podíamos, os bons lugares da cidade.
Juntos também recebemos eu e ele as homenagens da Maçonaria e da Câmara Municipal, de onde saímos, jornalistas do ano e cidadãos honorários de Porto Alegre.
O que estaria faltando?
Amir – que nunca escreveu livros porque não quis – esteve em todos os meus lançamentos de livros, que até aqui já foram dez.
E quando não saía mais à noite, porque se recolhia às seis da tarde, apoiava de longe com um telefonema amigo e com um sorriso simpático no dia seguinte.
Como vai ser, para mim, freqüentar a Caldas Júnior, e não o encontrar nos corredores, no estúdio ou no segundo andar, onde já utilizava o computador, mas se reservava o direito de bater na velha máquina de escrever o editorial do “Correio”?
Onde Amir, aonde irás a partir de hoje?
Onde repousará tua palavra sábia, teu espírito crítico e tua atitude de conciliação?
Vamos procurar, enquanto nos restar uma caminhada sobre a Terra, representar com humildade tua atenção para com o próximo e tua imensa capacidade de enfrentar os poderosos. Estaremos mais sozinhos, mas procuraremos honrar o teu legado.
A VEZ DO LUPI
Walter Galvani, em 10/10/2007
Falei ontem sobre um grande jornalista que faleceu: Amir Domingues
Agora foi a vez do
Lupi Martins
Nem me senti habilitado
a escrever sobre o passamento
de outro grande nome
do jornalismo gaúcho.
Modesto, eficiente,
honrado e capaz,
Lupi Martins partiu no dia seguinte ao Amir.
Curiosamente, embora
atingido por mal terrível
há quatorze anos,
não emitia uma só queixa.
Agora, Lupi partiu.
Fico pensando porque
se fazem estas
escolhas e que nos deixa
sempre na situação de
dizer:
Fulano? Porque ele?
Por que era a hora?
Onde está escrito isso?
Lupi Martins, um homem
cheio de grandes amigos
uma dedicação familiar
inigualável, tinha
de sair de cena
como entrou.
Modestamente, mas
com muita honra.
Adeus Lupi, aliás,
para mim outra grande
perda por si e por
ser irmão de Lasier Martins,
outro grande amigo.
Sem revolta, adeus Lupi!
O jornalismo gaúcho
perdeu, em dois dias,
dois grandes exemplos.
DORIS LESSING,
UMA VITÓRIA
DAS MULHERES
Walter Galvani, em 12/10/2007
Prêmio Nobel para uma
mulher de combate.
Crônica para o jornal
"A Razão" de Santa Marua
UMA MULHER DE COMBATE
Walter Galvani
Não se iludam: a força combativa de Doris Lessing, que completará 88 anos no próximo dia 22, não esmoreceu e só crescerá com a medalha de ouro, o diploma e o anúncio através do rei da Suécia, de que é a escolhida do ano com o Prêmio Nobel de Literatura. Prêmios aliás, não lhe faltam, ao longo de uma carreira iniciada em 1949, quando foi morar na Inglaterra, depois de haver atravessado experiências incríveis, como nascer em Kermanshah, no Irã (antiga Pérsia) e viver alguns anos na Rodésia do Sul, (hoje Zimbábue), na África. Juntou-se aos movimentos feministas e deles nunca se afastou enquanto ia publicando sua vasta obra que ultrapassa as duas dezenas de publicações, desde o primeiro livro, de 1949, “A grama cresce”.
No Brasil tem sido editada pela Nova Fronteira, pela Cia. Das Letras e pela Record. Seu livro de maior repercussão, lançado em 1962, “The golden notebook” (em língua portuguesa tomou o título de “Caderno Dourado”, é uma espécie de acompanhamento de sua atividade diária, onde despontam as atitudes a favor das mulheres que continuam a sofrer discriminações, em especial no país onde nasceu e no país em que viveu. A situação é mais tranqüila na Grã Bretanha, mas isso lhe propicia um camarote especial para ver a vida, mas não sem a experiência anterior dos seus primeiros e difíceis trinta anos.
Na certa o cheque que acompanha a estatueta do Nobel, mais de um milhão de euros, portanto mais de 3 milhões de reais (para entender-se o valor financeiro), ajudará Doris a enfrentar com mais tranqüilidade os desafios da idade, mas não para acomodá-la, coisa que nem os prêmios anteriores (como o “Astúrias” da Espanha) ou os rendimentos dos direitos autorais, enormes ao longo de uma vida de sucesso e muitos livros editados, conseguiram. É uma lutadora e como tal foi definida pelo Comitê do Nobel que ao fazer o anúncio da escolha disse que ela é “uma autora de contos épicos sobre a experiência feminina “que defende com fervor e uma força visionária que escrutina a sociedade” mas também com o “realismo do seu ceticismo”.
Seus títulos como “A boa terrorista”, “O quinto filho”, “O verão antes das trevas”, “Gatos e gatas” estarão sendo procurados nas feiras do livro em andamento por todo o estado neste momento e logicamente na 53ª. Feira do Livro de Porto Alegre que inaugura no dia 26 de outubro.
Doris Lessing nasceu Doris May Tayler, em 1919, na Pérsia, filha de pais ingleses.
12 DE OUTUBRO,
DESCOBERTA DA AMÉRICA
Houve uma época em que
se comemorava a Descoberta da América.
Aliás, hoje, "Dia de la
Hispanidad"...
Walter Galvani, em 12/10/2007
E também é o
"Dia da Criança" no Brasil.
Esta crônica foi publicada hoje
no Diário de Canoas.
Depois dela, leiam aqui no meu sítio,
minha opinião sobre
a escolha de Doris ing para o
Prêmio Nobel de Literatura 2007
TODO DIA É DA CRIANÇA
Walter Galvani
Estabeleceu-se no Brasil que o dia 12 de outubro será o “Dia da Criança”. Sou contra. Não sou contra para “fazer gênero” ou porque imagine que me manifestando contrário, vá acontecer alguma coisa. Não sucederá nada. Mas, acho que todo dia é dia da criança e não apenas um miserável diazinho. Nem como símbolo, me serve a escolha.
Acho que as crianças merecem toda a nossa atenção, completa e indivisível. Sobre elas é que se constrói o futuro do país, das famílias, das comunidades. E dos pais, naturalmente. O Brasil será aquilo que forem nossas crianças.
O que é preciso é que os adultos aprendam a se comportar.
É preciso, de saída, anular a “babá eletrônica”. Com as monstruosidades que aparecem na telinha, não se construirá nada digno. Colocar as crianças diante de um aparelho barulhento (já experimentaram desligar a televisão e saborear o “silêncio”?) – não, não sou contra a instituição tevê, só acho que é preciso aprender a utilizar-se dela. Não cabe expor uma criança aos absurdos que se montam nos cérebros adultos, com o objetivo primeiro de obter lucro, para que “fique quieta”. É melhor pagar uma babá humana ou, ao menos, dividir o tempo livre entre os adultos da casa para que “tomem conta” das crianças. Vejam, crescemos com brinquedos simples, com cabra-cega, pião, bolinhas de gude, pega-pega e estamos aqui.
Então, ao invés de presentear as crianças amanhã com mais jogos eletrônicos e sementes de violência, experimentem, senhores pais e mães, a doarem-se integralmente, passar ao menos este dia inteiro com elas. Sim, já sei, há os compromissos de trabalho. Pois, dividam-se, façam como quiserem, mas pensem nos demais dias, quando as crianças ficam jogadas a um canto, abandonadas, tendo que encontrar o próprio entretenimento.
Não sou contra o progresso, não sou contra o uso do computador, tanto que estou aqui agora batucando nestas teclas, mas também não acho que isso seja a salvação da humanidade. Aliás não é, nem nunca será. O computador é apenas uma ferramenta, um instrumento eletrônico para produzir mais e melhor. Nem sequer significa que o seu trabalho vá ficar melhor. Dentro da cabeça é que está o segredo e é isso que é preciso passar para estas crianças que amanhã terão o seu dia. É preciso que elas aprendam a lidar com o tempo livre, a usar o feriado, o dia sem aula para uma atividade construtiva.
E comece hoje. Faça de conta que hoje também é o Dia da Criança. Dê atenção aos seus filhos, aos conhecidos, aos parentes, aos meninos de rua, caso contrário estaremos construindo a elite da tropa e a tropa da elite, aumentando o mercado das drogas e ajudando a torturar, segregar, matar.
O PALCO VAZIO
Walter Galvani
Aos 85 de idade, depois de uma carreira de 58 anos em que se incluíram mais de 90 peças e até um programa de rádio (em São Paulo, na BandFM) em que interpretava textos poéticos em língua portuguesa, enriquecendo-os com a sua magistral compreensão, morreu o ator Paulo Autran. É o único ator moderno que se equivale a João Caetano, hoje nome de teatro no Rio de Janeiro, o que Paulo será muito em breve, pois não faltará quem queira homenageá-lo.
Nós, que aprendemos teatro acompanhando suas atuações, perdemos um mestre inigualável. Lembro quando ao início de minha carreira jornalística, me aproximei do setor de Arte e Cultura e fui convidado a escrever sobre teatro, quantas vezes colhi de suas lições fecundas o verdadeiro caminho, o entendimento de uma peça, a correta visão de um texto como “Depois da Queda”, por exemplo, o magnífico trabalho de Arthur Miller, “After the fall” no original, que ele fez ao lado da gaúcha Maria Della Costa, e que o Jofre Miguel trouxe para Porto Alegre, no Teatro Leopoldina (hoje Teatro da OSPA). Estreou como amador universitário (estudou Direito) com a peça “Esquina Perigosa”, mas considerava o seu real primeiro passo, ao lado de Tonia Carreiro em “Um deus dormiu lá em casa”, de Guilherme de Figueiredo.
A maior lição que dele poderia receber, que repito toda a vez que se abre uma oportunidade: “Deve-se representar com a mesma flama, para um teatro cheio ou para três pessoas. Os que foram te ver atuar não tem culpa se teu nome não atrai um grande público... Seja digno deles. Entregue-se totalmente ao desempenho!” Isso me disse numa entrevista à “Folha da Tarde”, vespertino de Porto Alegre, que tratava os assuntos culturais com a mesma ênfase dos esportivos.
Com 58 anos de carreira, tornou-se o símbolo maior dos palcos brasileiros, um dos melhores intérpretes de todos os tempos. Fez de tudo. Deu cursos, apresentou-se em peças de menor expressão para valorizar o trabalho de grupos, ou fez “Otelo”, fez “Rei Lear”. Seu último espetáculo, “Quadrante”.
Nasceu a 7 de setembro de 1922. Dia em que o Brasil completava cem anos de independência. Ele disse no ano passado: “Deveria ter parado de fumar há 61 anos. No dia em que comecei.” Matou-o, sexta-feira, um enfizema e um câncer no pulmão.
Na televisão fez o personagem (entre outros) “Baldaracci”, na novela “Pai Herói” de Janete Clair que o tornara conhecido do “povão” até os últimos dias, apesar de que aquela atuação fora em 1979. Aliás sobre televisão, disse: “Meu próximo projeto para televisão é nunca mais fazer televisão. É muito chato...”
Quem se atreveria a apontar um sucessor? É pena, mas, pelo menos por enquanto, o palco parece vazio...
Walter Galvani, em 13/10/2007
MUITA ÁGUA POR DEBAIXO DA PONTE
Walter Galvani, em 16/10/2007
Muitos mortos ilustres,
muitos acidentes no feriadão,
mas ainda é tempo de registrar
esta crônica publicada
no Diário Popular de Pelotas,
o mais antigo diário
em circulação no
Rio Grande do Sul
O CHARME DA HISTÓRIA
Walter Galvani
O que nos dizem, leitores, de nascer no Irã (antiga Pérsia), crescer na Rodésia (hoje Zimbabue) e viver os últimos 57 anos na Inglaterra? Assistir durante a vida as tensões sociais revolucionárias de países em desenvolvimento, passar para o camarote especial da Grã Bretanha e testemunhar a Segunda Guerra Mundial, o crescimento dos movimentos feministas, sempre com a capacidade de transplantar isso para o papel?
Não é por nada que “The golden notebook”, lançado antes que “notebook” se tornasse sinônimo de computador portátil, (1962), significando então seu “Caderno Dourado” (como foi batizado na edição portuguesa) se tornou uma das suas obras de maior repercussão. Doris Lessing esperou 87 anos, onze meses e 21 dias para ganhar o Prêmio Nobel, mas na certa não foi por falta de reconhecimento anterior. Agora, se já tinha uma velhice confortável com os direitos autorais que arrecadou ao longo da vida, terá de encontrar um lugar em sua estante e em sua conta bancária para acrescentar a estatueta do Nobel e os 10 milhões de coroas suecas, que equivalem a 3 milhões de euros.
Quanto ao reconhecimento pelo Prêmio Nobel, há cinco anos ela perguntou a um jornalista se ele já havia ouvido falar no “Prêmio Astúrias”, que naquele ano recebera na Espanha (igualmente valioso e significativo numa carreira literária), pois o profissional de imprensa a provocara, perguntando se não se achava candidata à distinção sueca que tem 106 anos e uma longa lista que inclui 34 mulheres.
Mas, a autora recebe este prêmio agora por transmitir “a experiência épica feminina” e por descrever “com ceticismo, paixão e força visionária” as divisões da civilização, discutindo tensões inter-raciais, violência contra crianças e movimentos feministas.
“Debaixo da minha pele” e “Andando na sombra” e “O sonho mais doce” todos pela Companhia das Letras, “As experiências de Sírius” pela Nova Fronteira, “O quinto filho” pela Record, são os seus livros editados no Brasil, mas também há disponíveis em língua portuguesa, outros livros seus, lançados por editoras de Portugal, como “O caderno dourado”, “Shikasta” seu primeiro trabalho “A erva cresce” e uma peça teatral “Canopus em Argos”.
Doris Lessing, um nome de grande repercussão internacional, especialmente nos meios dos movimentos feministas, resultado das posições que adotou ao longo de uma vida extensa já, mas ainda produtiva (como o atesta seu novo livro recém lançado na Inglaterra, “The cleft”) nasceu a 22 de outubro de 1919 em Kermanshah, antiga Pérsia, atual Irã, onde viveu por cinco anos, indo para a Rodésia do Sul, atual Zimbabue, (onde morou por vários anos) e vive desde 1949 na Inglaterra.
LEVARAM O LIVRO DO POETA...
Walter Galvani, em 17/10/2007
No recinto sagrado da Feira do Livr
de Porto Alegre,
um furto assombroso...
O ROUBO DA MEMÓRIA
Walter Galvani
Os ladrões perpetraram o maior roubo da história gaúcha. Muito pior do que qualquer assalto a banco, seqüestro ou atentado a caminhão de transporte de valores, eles, atentaram contra a memória do porto-alegrense: levaram o livro que estava nas mãos do poeta Carlos Drummond de Andrade, na estátua que a Câmara Rio-Grandense implantou na Praça da Alfândega, para assinalar o local sagrado da Feira do Livro. Ninguém viu, o que é característico da maioria dos crimes similares, mas o pior é que ninguém notou. Ou seja: deram-se conta ontem, quando chegaram ao local para a montagem das bancas, pois antes ninguém havia percebido o que acontecera. E se sabe que tem “mais de 25 dias” o roubo, porque no dia 25 de setembro, quando Antônio Hohlfeldt foi anunciado como o patrono da nova feira que inaugura no dia 26 de outubro, o livro não estava mais lá. As fotos o documentam.
Mas, só as fotos. Ninguém lembrou naquele momento, ninguém comentou, não houve nenhuma notícia daí resultante, em suma, ninguém sentiu a falta do livro.
E ele lá estava desde 2001, quando foi inaugurada a 47ª. Feira do Livro de Porto Alegre, (hoje chegando à 53ª. Edição), criada por Xico Stockinger e Eloísa Tregnano representando o encontro entre os poetas Mario Quintana e Carlos Drummond de Andrade. Simbolicamente é tudo o que se pode imaginar, inclusive o feliz encontro entre a literatura que se produz no sul e o resto do país, o que é uma ficção na maioria dos escritores gaúchos, pois se acham segregados e também é simbolicamente, o significado maior da feira que leva à praça gente de todos os lados, literatura de todos os gêneros e muita poesia e imaginação. O pior de tudo foi, portanto, o roubo da memória.
Levaram o livro de Drummond e ninguém viu!
Ou melhor: ninguém notou.
Todos nós temos responsabilidade nisso, se é verdade que não temos obrigação de olhar para todos os lados, também é certo que é preciso prestar atenção ao que realmente tem algum significado. Qualquer dia, levam a Fonte da Talavera, o monumento ao Julio de Castilhos ou um pedaço da catedral.
Pichação já é coisa comum e tem até gente que acha que aquilo é manifestação artística. Prefiro considerar sujeira e concitar os juizes (se é possível impressionar algum juiz) a punir os pichadores com balde, vassoura e sabão. Para que limpem o que fizeram e mais uns cem metros ao redor...
O pior é a limpeza da memória, a anulação das lembranças... Como ninguém sabe e ninguém viu e como o livro do Drummond era feito de bronze, resta apenas a esperança de que seus livros de papel tenham mais duração, como se imagina. E que sirva apenas de alerta para a ousadia dos ladrões que não perdoam a Feira do Livro. Aliás, numa súbita valorização da literatura eles estarão em ação durante os dezessete dias da feira. Perguntem aos responsáveis pelas barracas, sobre a atuação dos ladrões. A diferença é que praticam seus atos diante dos olhos de todos, sob as luzes e as bênçãos do maior público que comparece a uma feira ao ar livre na América Latina.
NO BRASIL, HOJE
COMEMORA-SE O
DIA DO MÉDICO
Walter Galvani, em 18/10/2007
Mas, em minha opinião,
todo dia deveria ser
"O" Dia do Médico.
Saiba porque:
DIA DO MÉDICO, DIA DO PACIENTE
E DO IMPACIENTE, TAMBÉM
Walter Galvani
Aos poucos, em meio ao intenso e extenso calendário promocional brasileiro, instituído a partir do momento em que alguém se lembrou de fazer um levantamento geral de datas e decretos comemorativos, surgiram algumas celebrações que adotamos por considerá-las justas, adequadas, oportunas. Nesse caso se inclui, por exemplo, o “Dia do Médico”, dia 18 de outubro.
Não interessa investigar as razões, nesse momento, pois quero apenas propor que se festeje o Dia do Médico... todos os dias!
Sou contra estas histórias de “dia disso, dia daquilo”, mas compreendo que, dentro da simbologia que talvez as religiões nos tenham transmitido, tornou-se quase obrigatório manifestar-se a propósito dos contemplados.
Hoje, 18 de outubro, é pois a hora de pegar o telefone ou ao menos o computador e mandar um mail (correio eletrônico, como sabiamente se diz em Portugal, onde se fala a língua portuguesa, ainda...) – e cumprimentar aquele sujeito de espírito cordial e compreensão escuta nossas mazelas e conserta um pé quebrado aqui, um coração partido ali, ouvindo-nos pacientemente.
Já fiz minha ronda de hoje, mas quero deixar registrado aqui, aproveitando esta oportunidade que compreendo e admiro o trabalho do médico e quando digo que o professor deve ser o profissional mais bem remunerado do reino ideal, também classifico o médico, como professor. É que ele nos ensina tudo, desde o be-a-bá higiênico, até os cuidados com o coração, esta bomba aspirante-premente capaz das maiores proezas e também das maiores certezas e incertezas da nossa vida. De tanto ser pressionado, o pobre coração às vezes dá de si e se entrega antes do tempo. Hora, na base de 60 ou 70 batidas por minuto, multipliquem para ver o quando funciona a prodigiosa invenção da natureza (ou do Criador, conforme a ideologia de cada um) durante 50, 60, 70, 80 anos de vida (ou até mais, pois descobriram uma senhora brasileira com 128 anos e pensionista do INSS).
Pois é preciso que um “mestre” de vida e de comportamento cuide desta preciosa “máquina”.
Mas, não esqueça que também é um médico que cuida dos seus “faróis” , dos seus aparelhos de audição, da sua locomoção. Lembre-se deles, todos os dias. E telefone, hoje ao menos.
A GUERA DOS CAMELÔS
Walter Galvani, em 21/10/2007
Crônica publicada hoje
no jornal ABC DOMINGO
do Grupo Editorial Sinos
COPIANDO O QUE HÁ DE PIOR
Walter Galvani
O filme “Tropa de elite” serve para várias coisas além da sua possível qualidade cinematográfica. A principal delas é alertar a sociedade de que o câncer da violência não será tão facilmente extirpável, porque os interesses entrecruzados são tão grandes que se interpenetram e acabam alimentando a fera que, por seu turno, consome os próprios filhos. Ou seja: o torturador e o traficante, o executor e o ladrão, o policial e o bandido, acabam se entredevorando, filhos que são do mesmo monstro.
Para saber se o monstro é indestrutível ou se podemos vencê-lo, só o tempo poderá responder.
Mas, enquanto isso, o filme mais vendido em todos os camelôs do país, ajudou a criar o ambiente que desaguou na ação violenta da própria polícia que resolveu, depois de anos de inação contemplativa, apreender mercadorias, prender camelôs e tentar varrer o centro da capital do estado desta verdadeira praga que é o comércio que não é mais ambulante há muito tempo.
Todos têm razão. Polícia, camelôs e até bandidos e cineastas.
No entanto, o que há para lamentar é que a capital do civilizado estado do Rio Grande do Sul está simplesmente copiando o que há de pior na antiga capital federal e que, justamente quando deixou de sê-lo, passou a inchar e se tornar no lugar da desesperança e da infelicidade.
Ninguém quer condenar o Rio de Janeiro como cidade, aliás, um dos lugares mais lindos do mundo e onde qualquer estrangeiro gostaria de fixar-se.
Mas, porque não se criaram ações (depois de 1961) para transformar a vida no Rio de Janeiro e promover seu saneamento e recuperação, logo que surgiram os primeiros sintomas desta doença terrível que a atingiu?
Pois é, tomem nota, ninguém fará nada por Porto Alegre agora e muito menos pela Região Metropolitana, ou pelo Vale do Rio dos Sinos, ou pela Encosta da Serra, ou por Novo Hamburgo, São Leopoldo, Sapucaia, Esteio, Canoas, etc e tal.
Por favor: já que importamos o pior e a capital já começa a aplicar, não copiem. Sei que, dito assim, não tem nenhum favor. Mas, no instante em que esta atitude de violência no cumprimento do que deveria ser norma (o que quer dizer, normal, habitual), gera a violência da resposta, é preciso muita cabeça fria e intervenção de quem ocupa posições de responsabilidade. Mas, não com ameaças. Sim com ações equilibradas e justas. Não defendo o comércio ilegal, a pirataria. No entanto, a fiscalização, o policiamento, o rigor, devem ser permanentes. E para todos os delitos. Como o fez o prefeito Juliani, de Nova York, que transformou a grande cidade num local seguro em dois anos de atuação.
FEIRA DO LIVRO
Walter Galvani, em 22/10/2007
É a época de feiras de livros.
Em Porto Alegre, começa
na sexta-feira, dia 26, a
53a. edição.
Antônio Hohlfeldt será o patrono.
Em Pelotas, vem aí
a 35a. edição. Já tem
também o seu patrono.
Leiam a seguir na
crônica que publiquei
no Diário Popular da
maior cidade da metade sul
do Rio Grande:
UM APAIXONADO
PELA CULTURA
Walter Galvani
Todas as quartas-feiras, exatamente das 13 às 13h30min, a Orquestra Filarmônica da PUCRS propicía aos alunos, professores, convidados e visitantes da universidade em Porto Alegre, no campus do Partenon, uma denominada “Sobremesa Musical”. Durante trinta minutos a gente esquece dos problemas e aflições e participa do doce convívio musical. Assim tem sido. E nessas quartas-feiras, quase sempre tenho desfrutado do prazer da visita do pelotense José Antonio Mazza Leite que, quando está na capital procura partilhar aqueles agradáveis momentos na universidade.
Já sei que não contarei com a presença dele nos próximos dias, pois estará voltado à questões que o prendem à sua terra. Foi escolhido como o Patrono da 35ª. Feira do Livro de Pelotas.
Afinal, como é bom saber que lhe fazem justiça! Não só por ser um intelectual de mérito, mas sobretudo pela sua dedicação ao Livro e às coisas da cultura de um modo geral. Ainda recentemente, recebi das mãos dele, numa dessas visitas, o valioso “Xarqueadas – de Danúbio Gonçalves um resgate para História”.
Modesto no título e no texto, o resgate não é só do excelente Danúbio, mas do valoroso empenho e da mão amiga do José Antonio Mazza Leite que aqui nos brinda com sua eficiência de pesquisador e sua paciência de reconstrutor da memória da sua cidade e da região.
Como o é também o Museu do Charque, ou seja a Pousada do Charme, ali no Areal, e que ajudou a erguer com a participação da arquiteta e urbanista Ediolanva Liedke. Quem conhece se deslumbra.
Saiu bom, o neto mais velho do comendador Raphael Mazza que veio da Itália para dar a sua contribuição à esta cidade tão cheia de encanto e de espiritualidade, de cultura e pensamento! Eu próprio, quando escrevi meu primeiro romance, “Anacoluto do princípio ao fim”, achei que os personagens se sentiriam bem se a trama fosse inserida no contexto pelotense. Foi o que fiz, e hoje me sinto orgulhoso quando ouço ou leio referências elogiosas ou simples comentários, pois não ouvi até agora nenhuma contestação à minha decisão de enquadrar o romance em Pelotas.
Acho que tudo isso nos aproxima, mais as tardes musicais na PUCRS, a situação de Patrono de Feira do Livro, a preocupação com o passado histórico e a certeza de que se pode colaborar, e muito, para o resgate da Metade Sul do estado, relegado por questões políticas e por competição privada, quando deveria ser entronizada como uma das matrizes do nosso desenvolvimento. Tudo isso virá, com a participação de tantos valiosos intelectuais como José Antonio Mazza Leite, que aqui tomo como exemplo, se ele, em sua modéstia, me permitir.
DA LEITURA À CRÕNICA
Walter Galvani, em 24/10/2007
O resgate através
do letramento.
Os caminhos da
escrita criativa
OFICINA DE CRÕNICA
DE WALTER GALVANI
NA 53ª. FEIRA DO LIVRO
Walter Galvani, veterano jornalista com 53 anos de carreira e escritor consagrado, com dez livros editados, estará ministrando oficina de criação literária, na área de Crônica, nos primeiros dias da 53ª. Feira do Livro de Porto Alegre.
Sob o título “Leitura, o desafio da interpretação” ele abre o caminho para o resgate da arte da crônica, na biblioteca (2º andar) do Centro Cultural “Erico Veríssimo”, (Rua dos Andradas, 1223, Porto Alegre), das 15h30 às 17h30min, nos dias 27 de outubro (sábado), 28 (domingo) e 29 (segunda-feira).
“Quando se pára de ler, desaprende-se” – escreveu Gabriel Garcia Márquez, um dos grandes cronistas citados por Galvani em sua oficina de três dias, na qual aborda a história do gênero, sua constante oscilação entre o eterno e o efêmero, a perenidade e a mortalidade infantil, sempre a um passo da eternidade.
Inscrições ainda podem ser feitas na sede da Câmara Rio-Grandense do Livro, obtendo-se maiores informações pelos telefones (51) 32.25.50.96 ou 81.01.24.55.
ATÉ O AMARGO FIM...
Walter Galvani, em 29/10/2007
Crônica publicada no jornal ABC DOMINGO
do Grupo Editorial Sinos
PETRÓLEO A NOVENTA
Walter Galvani
Estamos brincando com os fatos. O petróleo ultrapassa a barreira dos 90 dólares por barril e isso é minimizado, ou, na prática, ignorado por todo o mundo, e... segue o baile! Não vai haver uma queda no consumo dos combustíveis chamados fósseis (óleo, gás, querosene e gasolina) por conscientização mundial diante da poluição ambiental. O problema será o custo.
Para que se tenha uma idéia pálida de como isto começou: no auge da primeira crise do petróleo, nos anos setenta, o petróleo custava 20 dólares o barril. Agora, quatro vezes e meia mais caro.
Você sabe o que pode significar isso na sua passagem de ônibus, no pedágio, no deslocamento do seu automóvel particular?
Por muito menos o império americano invadiu o Iraque, fez alianças com os mais inesperados governos do Oriente Médio, ou entrou em guerra fria ou aberta. Por muito menos, a estrutura de comércio, serviços, transportes, indústria, enfim todo o edifício da economia mundial já se abalou. Resta imaginar que pode ruir como as torres gêmeas de Nova York, só que desta vez o impacto não será por um avião maluco ou dirigido por suicidas.
O suicídio da economia ocidental pode ocorrer por soberba e ou prepotência. Ninguém imagina que o petróleo bruto pode subir ainda mais. Mas pode. E se isso ocorrer, teremos num par de anos, uma alta absolutamente insuportável.
Quais são as saídas?
Primeiro economizar enlouquecidamente. Mas isso não será suficiente.
Abandonar o consumo dos combustíveis que tenham essa origem. Eis uma boa medida. Mas, como fazê-lo?
Ora, criando um motor que não seja à explosão, ou que consuma eletricidade produzida por superbaterias. Enfim, o desafio está lançado às indústrias de automóveis e caminhões, para que desenvolvam numa velocidade nunca vista, uma saída à altura, para escapar a esse impasse.
Que faremos então?
Encostar o automóvel?
Se providenciarmos um dia sem carro por mês no mundo, já estaremos contribuindo, mas, vejam bem, não estaremos solucionando.
Os que lêem estas linhas, ponham-se a pensar. Como nunca o mundo precisará da contribuição de cada um, para tirar o planeta do desgoverno em que cairá, não pelo abalo ao meio ambiente, mas pelo abalo ao bolso... Como este é o “órgão mais sensível” do corpo humano, pode-se imaginar que logo surgirão medidas para evitar a catástrofe. Agora, tomem nota: será mesmo uma catástrofe. Quando metade da frota mundial de carros virar sucata, talvez a humanidade comece a pensar seriamente a questão...
Desta vez não dá para “pegar leve”... como manda a “sabedoria” de vila, típica do Brasil.
QUE HORROR!
Walter Galvani, em 07/11/2007
Crônica publicada neste fim-de-semana
“PRA QUÊ? PRA NADA...”
Walter Galvani
Costumo lembrar versos de Aderbal Tavares, grande poeta pernambucano que, certa vez, para assinalar a inutilidade da reação violenta e precipitada do gaúcho, nos retratou assim; “Lá vai o gaúcho em louca arrancada! Pra quê? Pra nada...”
Foi o que fez o presidente desta louca república do Brasil, o senhor torneiro-mecânico Lula da Silva, ao anunciar-se o nosso país como o organizador da Copa do Mundo de 2014. Disse ele: “Organizaremos uma Copa do Mundo para argentino nenhum botar defeito!”
Pergunto: pra quê ele disse isso? Pra nada. Em verdade, só para irritar nossos vizinhos, como se isso adiantasse alguma coisa.
Sob o ponto de vista esportivo, futebolístico, pior ainda. A sua declaração desastrada só servirá para mobilizar nossos tradicionais adversários, irritá-los e prepará-los para um surto de raiva, revanche ou inveja. Pra quê? Pra nada...
É conhecida a rivalidade histórica entre o Brasil e Argentina no campo de jogo e que não raras vezes extravasa os limites dos estádios, transformando um jogo amistoso numa batalha e uma partida oficial numa questão de princípios. Ora, se os dois se encontram no elevado patamar dos melhores do mundo, junto com a Itália, Alemanha, Inglaterra e poucos mais, de que serve esta “cutucada” do Lula? Só para discussão inútil em mesas de bar e para transformar o confronto entre os dois em batalhas como a “mídia” gosta de denominar, as memoráveis e muitas vezes lamentáveis, “batalhas do Rio da Prata” ou combates do Morumbi e do Maracanã onde por certo se jogará uma finalíssima, se houver e justamente entre esses dois cultores excepcionais do esporte inventado pelos ingleses e difundido pelo mundo afora.
É pena. Pior do que isso, só a burrice astronômica do Paulo Coelho, que, talvez pensando em fazer gênero, disse que os brasileiros gostam mais de futebol do que de sexo, pois o sexo termina em pouco mais de meia hora ou quarenta minutos e o futebol é discutido horas a fio depois do término da partida.
Boa ocasião perderam ambos, Lula e Paulo Coelho, para ficarem devidamente calados.
Graças a Deus que não é a maioria do povo brasileiro que pensa como eles. Tenho certeza que nossos leitores nses ficaram arrepiados com tal demonstração de grossura, ignorância e mau gosto.
Certamente não contribuíram em nada para a realização da Copa de 2014, competição poderá ajudar alguns problemas de infra-estrutura e transportes, pois, como se sabe, transformada em questão de honra, qualquer governante de hoje até lá, fará tudo para colocar em ordem sua região e ou o país.
PETRÓLEO, LULA SONHA COM VIRAR SCHEIK
Walter Galvani, em 11/11/2007
Crônica publicada no jornal ABC DOMINGO
PROFISSÃO ESPERANÇA
Walter Galvani
A seis metros de profundidade, debaixo de uma grande camada de sal, jaz uma reserva de petróleo que poderá transformar Lula no mais requisitado sheik do próximo carnaval, disfarce, aliás, que já foi muito popular nos velhos bailes tradicionais, do tempo em que o carnaval era uma alegre e amistosa festa de clubes.
Antônio Maria, um dos nossos maiores cronistas, um jornalista gordo e boêmio, aos tempos em que isso era permitido sem cobranças públicas, costumava classificar-se e o fez numa crônica famosa, como “brasileiro, profissão esperança”.
É isso que nos alimenta e sustenta, mesmo em meio a todas essas denúncias e suspeições, acusações e delações premiadas, junto com aplausos a traficantes que deixam as vilas onde mataram policiais, como heróis. Já sei, será explicado que é a ausência do estado que os torna representantes de uma certa “legalidade”, que garante o ir e vir na vila, saída e entrada com segurança, enquanto ninguém se intrometa no ritmo dos seus “negócios”.
Se é isso que sobrou para os cidadãos que cumprem seus deveres, pagam (ou devem) suas contas, trabalham de sol a sol e ganham salário mínimo, paciência haja, o Brasil foi construído pelos brasileiros, um povo tão paciente que só se levanta de cinqüenta em cinqüenta anos e só faz uma revolução por século...
Ver um traficante deixar a vila sob aplausos, sob as luzes da televisão, depois de haver enfrentado a maior concentração de policiais dos últimos tempos, mesmo depois de haver matado um e ferido dois brigadianos, outrora a força símbolo da confiança gaúcha, é um sinal lamentável dos tempos que vivemos e que, provavelmente, iremos viver, daqui para o pior nos próximos anos.
O acontecido na vila Areia, aliás uma das que receberam a maior atenção dos poderes públicos com a construção de pequenas casas, bem pintadas pelo menos, antes que cheguem os pichadores, é um retrato do desconforto moral em que vivem os habitantes desta cidade como de outras grandes capitais do país. A exportação do “know how” carioca, com requintes tecnológicos de câmaras para filmar quem ousa penetrar nas ruas da vila, é também outro pequeno toque da verdade do que ocorre no país.
Mas, eis que explode a notícia de que o Brasil poderá se tornar exportador de petróleo, algo no gênero da Arábia Saudita, na posição da Venezuela ou da Nigéria e já se pode imaginar o sorriso e o tamanho da esperança que se aloja nos corações brasileiros. Esquece-se tudo. Brasileiro, profissão esperança.
A FEIRA DA GENTE
Walter Galvani, em 13/11/2007
Sob este título, publiquei em 2004, um livro editado pela
Câmara Rio-Grandense do Livro
abordando os 50 anos
da Feira do Livro
de Porto Alegre.
Eis o primeiro capítulo:
Este é um livro de História. E de histórias. Por isso, ele começa com "Era uma vez..." E como tudo é verdade perante os céus, embora seja preciso enxergar "sob o manto diáfano da fantasia, a nudez forte da verdade" e embora, muitas vezes, se possa imaginar que se cria ou que se voa, é preciso estar atento, pois os sonhos podem ser mais reais do que se pensa.
Por isso tudo, o início está na foz do rio Mekong com Luís de Camões e na Praça da Alfândega em Porto Alegre, antigo Largo da Quitanda, e junto ao Tejo, em Lisboa, e também na redação do antigo Diário de Notícias na rua Sete de Setembro, ou na Editora e Livraria do Globo junto à Galeria Chaves e ainda na avenida Borges, todos endereços no centro de Porto Alegre. Entre os livros, onde estão e estarão sempre, todas as histórias. E na cabeça dos homens, amigos dos livros.
Ali vai o poeta, nadando e, loucamente, conduzindo o texto que lhe há de dar "doces lembranças de passada glória que me tirou Fortuna roubadora". Aqui, os homens discutem no café da esquina como hão de mudar o mundo. A alavanca para movê-lo? O livro. Portanto... "Era uma vez, na foz do Mekong, aí por 1557, ou ainda e também em Porto Alegre, por volta de 1955...". São fatos que se somaram e, hoje, envoltos pelo "manto diáfano da fantasia", já não se distinguem mais os limites entre a verdade dos homens e a certeza dos sonhos.
Até que ponto um naufrágio na Ásia, o professor Guilhermino César, os livros na praça principal de Porto Alegre e Camões estarão interligados? Pois, num destes lances de mistério que só um pouco de magia nos faria compreender, veremos que o dedicado professor mineiro, que escolheu o Rio Grande do Sul para viver, e o poeta do século XVI, um dos "pais fundadores" da cultura e da língua portuguesa, têm o seu ponto de encontro na feira de cinqüenta anos, preparada para viver outro tanto. Ou muito mais. É o nosso sonho.
Magia não seria bem o termo, melhor seria referir a seriedade de Guilhermino César e sua erudição, virtudes que o aparentavam diretamente com Luís Vaz de Camões, e o casamento destas duas personalidades com a Feira do Livro de Porto Alegre, cuja idéia básica transita de um para outro, e busca seu sentido simbólico no salvamento do texto de "Os Lusíadas". Imaginá-lo rumo à praia com a ação de apenas um braço, enquanto com o outro elevava "Os Lusíadas" para que não se perdesse no mar revolto, é um desafio ao ceticismo moderno. Mas, a metáfora permanece ao longo dos séculos e chega à Praça da Alfândega, onde o livro vive e nos faz lembrar, mais modestamente, que a luta com as águas da chuva assumiu contornos de epopéia vivida e, de certa forma, vencida.
No dia 16 de novembro de 1955, às 18 horas, quando se inaugurava a I Feira do Livro do Rio Grande do Sul, Guilhermino César era o porta-voz na entrevista coletiva, depois, no encerramento, dando o balanço nos resultados e anunciando a nova feira. Dezessete anos depois, Camões seria o Patrono da Feira, na comemoração dos 400 anos de publicação de "Os Lusíadas". Quem o saudaria lembrando o episódio homérico de 1557? Ora, Guilhermino. E trinta e cinco anos adiante quem seria o Patrono da Feira? Guilhermino César.
Por essas e outras, fica mais fácil identificar a idéia, vitoriosa, e como tal dividir sua paternidade entre os muitos candidatos, do que encontrar em seu genoma criador o gene paterno.
Envolvendo a Feira que nascia não eram apenas Camões e Guilhermino, é lógico. Havia Maurício Rosenblatt, Henrique e José Bertaso, Leopoldo e Nelson Boeck, Augusto da Cunha Carneiro, Ernani Nerva, Egon Poetter, os lusitanos Ruy Diniz Netto e Edgardo Xavier e Say Marques, o maior candidato a pai/padrinho/patrono.
Como no início era apenas "uma idéia trêmula, frágil, bruxuleante", foi quase totalmente creditada ao entusiasmo do jornalista Say Marques, um dos diretores do Diário de Notícias, que regressara do Rio de Janeiro onde vira a II Feira do Livro carioca e tentava transmitir a sugestão aos porto-alegrenses. Ele foi enfático em seu jornal. Ocupou o alto da última página com uma manchete em duas linhas em que prometia: "A Praça da Alfândega converter-se-á em uma autêntica biblioteca a céu aberto".
Para ajudar a explicar aos leitores de que se tratava, ele incluía, na edição do dia 13 de novembro de 1955, uma crônica de Rachel de Queiroz sobre a feira do Rio e explicava o nascimento da congênere gaúcha:
"O Diário de Notícias e as Emissoras Associadas bem como os livreiros e editores, com o apoio da Secretaria de Educação e da Prefeitura, levarão ao povo gaúcho 30 mil livros em quinze dias, em um comício de cultura na Praça da Alfândega."
Lançada a idéia, formou-se a primeira comissão organizadora a cargo da Câmara Brasileira do Livro, Seção RGS, presidida por Henrique Bertaso (Editora e Livraria do Globo) e integrada por Leopoldo Boeck (Livraria Sulina, Egon Poetter (Livraria Americana e Cia. Melhoramentos de São Paulo), Augusto Cunha Carneiro (Livraria Farroupilha), Maurício Rosenblatt, (Editora José Olympio do Rio de Janeiro) e o jornalista Say Marques. Escolhidos o local, o dia e a hora, só faltaria o discurso. O encarregado foi o Secretário de Estado da Educação e Cultura, Liberato Salzano Vieira da Cunha, que procurou atribuir a iniciativa à "imaginação cascateante de Say Marques, fecunda em iniciativas em prol do bem público" e não esquecendo a importância dos agentes concretos do acontecimento, "à Câmara do Livro, aos editores e livreiros de Porto Alegre".
O entusiasmo levou o secretário a uma visionária declaração de compromisso democrático: "Lendo a história dos homens e dos povos, eles sabem que os ditadores pertencem ao pó do passado, são figuras efêmeras de um dia, e que só permanecem os autênticos democratas, aqueles que consagraram sua vida ao serviço do povo".
Mal sabia ele que todos nós, e a própria Feira, enfrentaríamos dias difíceis com outros ditadores que estavam por vir. Mas o dia não se prestava a pessimismos. Inaugurava-se uma feira de livros em Porto Alegre, no local onde a sua vocação de porto e comércio nasceu, no antigo Largo da Quitanda, e era justo, pois, que o homem responsável pelo setor cultural do governo encerrasse com a mensagem mais animadora possível. Foi o que ele fez:
"Dizia o velho Sêneca que dar um livro a alguém não é apenas fazer-lhe um presente, é também dirigir-lhe um elogio."
Maurício Rosenblatt, integrante da comissão e representante da Livraria José Olympio, ouviu bem e o discurso do secretário Salzano marcou-o de tal maneira que sempre o apresentou como ideal e "das melhores coisas que se disseram na praça". Em 1984, ano em que foi o patrono, o primeiro a ser escolhido em vida, Maurício lembrou-se do ato de trinta anos antes:
"Fomos para a praça como guris para um piquenique, loucos de contentes, mas sem saber o que iríamos encontrar."
Outro que lá estava era o jornalista Alberto André, na época deputado pelo Partido Libertador, e logo na sessão do dia 18 de novembro, requereu um "voto de congratulações" à "Câmara Brasileira do Livro e ao Diário de Notícias na pessoa do seu diretor, Say Marques, pela realização da Feira do Livro". Era o reconhecimento público, oficial.
Naquele bom começo, o grande ausente fora o escritor mais conhecido do Rio Grande do Sul. Os jornais do dia 25 de novembro noticiavam, com grande destaque, que Erico Verissimo, "depois de três anos e meio servindo na OEA, chegaria ao Brasil pela primeira vez depois desta longa ausência e seria homenageado pelos colegas e amigos". Mas isso se deu depois do encerramento da Feira, no dia 30 de outubro. Depois, sempre que esteve em Porto Alegre, Erico prestigiou a Feira. A fatalidade e o costume da época, no entanto, só lhe dariam o título de Patrono em 1976, depois de falecido. Naqueles tempos, ainda se escolhia o patrono entre os mortos. Mas, ao longo de sua carreira, sempre procurou apresentar seus livros na Praça em sessões de autógrafos bastante concorridas.
No dia 16 de novembro de 1955, Cícero Soares, presidente da ARI (Associação Rio-grandense de Imprensa), estava no palanque, bem como o deputado-jornalista Alberto André, e Say Marques, além de Henrique Bertaso e o seu assessor, o jornalista Ruy Diniz Netto.
Esses todos e o próprio Erico Verissimo, um dos fundadores e primeiro presidente da ARI, como secretário de redação da Revista do Globo, estabeleceram o elo inoxidável com a Imprensa. Acrescente-se que tanto a seção gaúcha da Câmara Brasileira do Livro, quanto a futura Câmara Rio-grandense do Livro abrigaram-se no edifício da ARI, na av. Borges de Medeiros, 915, até que se tornasse possível a sede própria.
Entre os selecionados apóstolos dos livros, estava também o professor Guilhermino César, que vivia em Porto Alegre desde 1943, e aqui solidificara seu conceito de homem erudito, que vinha desde Cataguazes. Lá, estudara e participara da modernista revista Verde. Seu porte intelectual o havia transformado numa espécie de porta-voz do grupo fundador. Por isso, lhe eram encaminhadas as primeiras entrevistas, resultantes da suave curiosidade da imprensa de então.
Ao longo dos anos, o lusitanista emérito tornara-se também professor em Coimbra e Lisboa, enquanto o seu sólido casamento com a cultura portuguesa produzia lógicos afloramentos locais. Em 1972, quando Camões foi escolhido como o Patrono da Feira, ele seria o orador. Dezoito anos depois, em 1990, chegou a sua própria oportunidade, na 36a. edição. Ao final da feira de 55, o prof. Guilhermino voltara ao palanque para fazer a palestra de encerramento, costume substituído mais adiante por uma festa. Naquele ano, ele apresentou os resultados, sublinhou os objetivos alcançados e anunciou a repetição no ano seguinte, no mesmo local. E foi com ele de Orador oficial que se inaugurou a II Feira do Livro no ano seguinte, adiada de 24 para 27 de outubro por causa da chuva. Lá estava o estimado professor mineiro-gaúcho falando sobre "o pão do espírito"...
Os jornais porto-alegrenses, em sua discreta cobertura da I Feira, (com exceção do Diário de Notícias, co-promotor entusiasta), encontraram espaço para abrigar as palavras impetuosas de Guilhermino:
"Vejo diariamente centenas de homens do povo diante das barracas, abastecendo-se de romances, poesias, livros técnicos, livros didáticos. É um espetáculo comovedor. Pessoas que normalmente não freqüentam livrarias, em grande parte porque trabalham de sol a sol, passam à noite pela Praça da Alfândega e saem carregados de livros. Meninos pobres reviram os caixotes em que se empilham livros em liquidação, compêndios escolares fora de moda, e saem triunfantes com a sua modesta-grande compra. O movimento da Feira do Livro, o interesse que despertou, o entusiasmo com que o povo correspondeu à expectativa, quer dizer, em linguagem de governo, o seguinte: ‘É preciso inaugurar em Porto Alegre um serviço de bibliotecas ambulantes!’. Toda essa gente que não pode ler, pelo alto preço da mercadoria, ou porque lhe falta tempo para procurar o livro do seu agrado, deve também ser contada no panorama da cultura rio-grandense. Não se pode esquecer que existem estas pessoas. Sobretudo, não se pode esquecer que a escola primária tem na biblioteca pública a sua mais alta e bela complementação.
Aproveitemo-nos da Feira para abrir uma campanha em favor das bibliotecas circulantes. Não proponho uma utopia. Em São Paulo, criadas pelo Departamento Municipal de Cultura, são elas uma realidade há muitos anos. Porto Alegre, com o auxílio do Estado e do município, poderá atender facilmente a esses altos objetivos. Sei que tudo isto custa dinheiro. É verdade. Mas não é preciso muito dinheiro para começar. Ademais, o Estado possui uma Divisão de Cultura e de um belo orçamento e, entre os fins de sua criação, encontra-se esse de organizar na capital as bibliotecas circulantes. Vamos começar? Nunca é tarde para que se dê ao povo o mínimo de que precisa."
Say Marques, diretor do Diário de Notícias e que era apontado, mesmo pelos jornais concorrentes, como "o idealizador da Feira do Livro", fez também o seu discurso. O Diário de Notícias, por motivos óbvios o jornal porto-alegrense que melhor registrou a inauguração da primeira edição, disse que Say Marques, "em uma palestra cordial com o povo, explicou como nasceu e como vingou a iniciativa da Feira, que naquele instante representava uma extraordinária vitória de todos os livreiros, editores, intelectuais, educadores, governantes e do próprio povo gaúcho – tão sensível foi este ao convite que lhe fizemos para esse encontro na Praça da Alfândega".
O próprio governador do Estado, Ildo Meneghetti, estabeleceu um procedimento dos ocupantes do Palácio Piratini, de estar presente no ato, mas com um requinte que se perdeu nos tempos: comprou o primeiro livro, "Problemas da Liberdade", do americano Fulton Sheen (que foi arcebispo de Nova York), e, ao retirar-se da praça, adquiriu um álbum para seu netinho, conforme explicou.
Para Ruy Diniz Netto, o jornalista Say Marques foi importante, mas acima de todos o editor Henrique Bertaso, este sim poderia ser considerado o "pai da idéia", pois há muito a defendia e já fizera, inclusive, uma experiência em sua própria livraria. Nesse caso, havia uma antiga cumplicidade entre o "patrão" e o funcionário: Ruy conhecera o editor Henrique na viagem de vinda de Portugal em 1950 e haviam falado sobre a Feira de Lisboa, com muito entusiasmo. Ele a conhecia desde os tempos em que se realizava na Praça Camões, no bairro do Chiado, depois veio para a avenida da Liberdade e, posteriormente, para o parque Eduardo VII.
O que a Editora Globo fizera na loja tradicional da Rua dos Andradas, 1416, a tradicional Rua da Praia, em 1952, para ele, contudo, não fora propriamente uma Feira do Livro, embora o Correio do Povo, de 18 de novembro de 1952, assim a saudasse e houvesse, inclusive, um cartaz numa das barracas com a inscrição "1a. Grande Feira de Livros". Ruy Diniz explicou:
"Aquilo foi apenas uma liquidação, não havia participação de outras empresas, não era uma feira de livros na acepção do termo, como já se conhecia há anos na Europa".
A notícia do Correio, embora sem o número da fatura que a caracterizasse como "comercial" como se usava na época, tem todo o perfil de "matéria paga". Abria com uma cartola acima do título cumprimentando a empresa:
"Feliz iniciativa da Livraria do Globo".
E o título geral em duas linhas de cinco colunas do jornal, então impresso em formato "standard", dizia:
"Livros aos milhares, de todos os gêneros, com descontos reais desde vinte até oitenta por cento!"
E começava a matéria de forma ainda mais comprometida:
"Certos planos de venda assumem, às vezes, caráter de verdadeira benemerência pública, tais as vantagens e o interesse que encerram para a massa do povo.
É o caso da 1a. Grande Feira de Livros, inspirada iniciativa comercial da Livraria do Globo e que foi inaugurada anteontem na moderníssima loja Royal Fridden da rua dos Andradas, 1416".
E prosseguia:
"Nesta época em que tudo custa caríssimo – e o livro por certo não escapa às duras contingências do momento econômico que vivemos – é um verdadeiro tour-de-force pelo enriquecimento cultural do nosso povo, o que a Livraria do Globo realiza com a sua 1a. Grande Feira de Livros".
Comercial ou não, claramente a empresa defendia os mesmos interesses mais adiante ampliados através da seção do Rio Grande do Sul da Câmara Brasileira do Livro. A notícia do jornal se estendia, como se estivesse analisando uma das modernas edições da Feira do Livro, embora, sob o ponto de vista técnico, a razão estivesse com Ruy Diniz: "Era uma grande liqüidação, apenas".
E vejam a conclusão da nota:
"Encontram-se também ali variados livros didáticos, preciosas publicações dedicadas à arte em todas as suas manifestações, inclusive obras ilustradas sobre as artes plásticas em todo o mundo. Há ainda toda a imensa coleção de romances policiais e de aventuras, de narrativas de viagens, de almanaques manuais de ensino profissional ou de utilidade caseira, livros de crônicas e de humorismo, etc.etc. Tudo, enfim, que se edita (...) é um empreendimento destinado a marcar época e que credita à Livraria do Globo mais um expressivo laurel em sua bem orientada e superior orientação comercial."
Tudo isso acontecia três anos antes da primeira feira oficial e também antes da tal inspiradora feira carioca. Havia sido um bom aperitivo. Ao incorporar-se à Editora Globo no final daquele ano, Ruy Diniz Netto, o lisboeta, trouxera a sua contribuição com a lembrança do que então se realizava em Lisboa.
Segundo lembrou Edgardo Xavier, outro cidadão português com os pés bem assentados na atividade livreira porto-alegrense e participante da primeira comissão, também o pai de Ruy, Seu Henrique Netto, foi chamado a dar sua opinião e contribuir com o seu conhecimento da Feira de Lisboa. Assim, lembrou Ruy:
"A pedido do Seu Henrique Bertaso, mandamos buscar em Lisboa o regulamento da feira de lá, junto ao Grêmio dos Editores. Pedi a meu primo, João Diniz, que presidia a Empresa Nacional de Publicidade. Mais tarde, com a concretização da I Feira, em 1955, o Seu Henrique Bertaso me disse: ‘O Maurício, que é todo maneiroso, está envolvido com o Say. Mas, deixa ele pensar que foi ele. O importante é que saia a Feira’ ".
E a Feira, como se sabe, saiu.
Edgardo Xavier, que completou exatos 50 anos de trabalho com o livro, justamente junto com a Feira de Porto Alegre, também lembra do assunto:
"O primeiro a me falar na Feira foi o Mário de Almeida Lima. Mas, o grande impulsionador da idéia era o Seu Bertaso, sim. Ele me falou, a mim, ao Ruy e ao pai do Ruy, o Seu Henrique Netto, que era o gerente do ‘Cotillon Club’, que ficava ali na Salgado Filho."
O apoio foi geral no início. Ruy Diniz Netto lembra que o chefe de reportagem do Correio do Povo, jornalista Antônio Carlos Ribeiro, era também assessor de imprensa da CEEE (então Comissão, mais tarde Companhia de Energia Elétrica), e este laço serviu de ponte para que a empresa contribuísse ao melhorar consideravelmente a iluminação da Praça da Alfândega, dando começo assim a uma relação que se tem mantido.
Anos depois, exatamente no difícil 1964, Say Marques foi mais uma vez convidado para ser o Orador da Feira, que então chegava à sua décima edição, e os jornalistas creditaram-lhe cavalheirescamente a paternidade da idéia, ou, pelo menos, preferiram manter assim, sem contestação, esta parte já envolta em brumas da História. Para ele, havia sido uma honra renovada pois falara na primeira edição da Feira e tornava a falar no significativo décimo aniversário.
Isso, de certa forma, arquivava, pelo menos provisoriamente, uma antiga disputa, dentro da competição entre as empresas jornalísticas, tão acirrada quanto em qualquer momento da nossa história, tanto que fez algumas vítimas. Uma delas foi a divulgação da II Feira do Livro, em 1956.
No Correio do Povo e na Folha da Tarde, os dois jornais da Cia. Jornalística Caldas Júnior, então a empresa líder no mercado, que sempre se notabilizou pelo apreço à cultura, aquela segunda edição da Feira passou quase despercebida. A Folha da Tarde divulgou uma única nota durante todo o seu transcurso. Já o Correio, apesar de todo o espaço de que dispunha então em formato "standard", fez um pequeno, mínimo registro, mas nem sempre diário. Ora, não se tratava de uma promoção do concorrente, Diário de Notícias? Competição era assim mesmo, nem adiantaria recordar que no episódio da morte de Getúlio Vargas, a 24 de agosto de 1954, o diretor do Correio, Breno Caldas, havia socorrido o Diário que fora depredado, com o empréstimo de uma máquina impressora. O momento de fraternidade estava esquecido. E a Feira pagava o pato.
Aos poucos, essa competição foi se esvaindo e a idéia da Feira foi batendo as resistências e as ciumeiras. Em 1957 foi melhor, em 1958 melhor ainda e também com o surgimento de novas empresas, a circulação de novos jornais como A Hora, depois a Última Hora, e em 1964, a Zero Hora, sem falar na velha e prestigiosa Revista do Globo, que sempre manteve seu compromisso até deixar de circular em 1967, até a integração das rádios e o surgimento das televisões.
Mas naqueles anos iniciais, o orador personificava a idéia mais adiante desenvolvida, da escolha de um patrono oficial, o que veio a ocorrer em 1965. O primeiro a ser contemplado, ainda escolhido no panteão dos grandes nomes já falecidos, foi Alcides Maya, o criador de "Ruínas Vivas", um romance gaúcho editado em Portugal pela Lello & Irmãos, da cidade do Porto, o primeiro gaúcho a integrar a Academia Brasileira de Letras. Ele era apresentado então como o "Patrono do Dia do Livro no Rio Grande do Sul". Fora deputado estadual e federal, ensaísta, romancista, contista e conferencista, membro também da Academia Rio-grandense de Letras e jornalista, diretor de três jornais em Porto Alegre: A República, Jornal da Manhã, e A Federação. E com o patrono já falecido, é claro que a homenagem precisava se completar com a figura do orador. Naquele ano, a honra tocou a Rubens Maciel, escritor e médico cardiologista.
Em 1972, a responsabilidade retornaria para Guilhermino César, aumentada então pela dimensão do Patrono, nada menos do que Luís Vaz de Camões, e pela oportunidade da escolha: festejavam-se os 400 anos da publicação de "Os Lusíadas", junto com o Sesquicentenário da Independência do Brasil. Quer dizer: um preito de homenagem ao poema fundador da língua portuguesa e uma alusão ao emblemático, embora verdadeiro – ou falso – grito de Independência ou Morte em 1822.
Com toda a sua "mineirice", o professor saiu-se bem da incumbência, tratando mais do livro e da leitura, evitando o desgaste com os possíveis anti-lusitanistas, mas concluiu citando o exemplo histórico de Camões com a narrativa do naufrágio e a salvação dos originais de "Os Lusíadas":
"Este forte e perene simbolismo deve servir de exemplo e estímulo a todos os que convivemos diariamente com o livro, de maneira que defendemos a necessidade básica da existência do lugar para a leitura e para a compreensão conseqüente do material lido e refletido".
Não seria a última presença de Guilhermino César no palanque, que agora era reforçado de ano para ano, pois todos queriam ocupar um lugar entre os eleitos. Até hoje é assim. Há algum tempo, passou-se a adotar o costume de separar uma área para privilegiar os que poderiam estar no palanque, mas por falta absoluta de espaço físico não podiam ser contemplados. Não era o caso do professor Guilhermino. Qualquer direção da Câmara Rio-grandense do Livro se sentiria obrigada a cavar um lugar para ele. E assim foi, até que chegou a sua vez mesmo, em 1990, na 36a. edição da Feira do Livro, quando, finalmente, seria ele o patrono do evento. E em vida!
Poucos conheceriam o assunto "livros" melhor do que ele. Roque Jacoby, presidente da Câmara, fez-lhe a saudação, recordando sua participação desde 1955, e o homenageado tratou de agradecer à população de Porto Alegre "pelo carinho que dispensa à Feira, num gesto de fraterna amizade". Fez blague dizendo que "só aos domingos utilizo adjetivos" e marcou mais uma vez sua passagem pelos jacarandás em flor (figura batida, habitual, mas característica da velha praça e inseparável da Feira). Falou de improviso, foi o mais curto dos seus pronunciamentos ao longo dos tempos, cheio de emoção.
Naquele ano, o patrono Guilhermino César, usando óculos de grossas lentes, mas impotentes para resolver seu problema, optou pelo improviso. Por isso, seu curto pronunciamento não foi publicado. Registraram os jornalistas algumas frases. Chovera na hora da abertura. Carlos Alberto Silveira, coordenador-geral da Feira, lembrou que os livreiros já estavam habituados com isso e "guardaram os livros bem no alto".
A Feira do Livro é, pois, a vitória de uma idéia. Dito assim, parece o óbvio. Mas, se decompusermos os fatos, veremos que é mesmo um triunfo sobre os convencionalismos, sobre o mercantilismo, sobre as tradições e sobre a própria e institucionalizada ignorância e até sobre as águas da chuva, que começou a vencer com a cobertura das alamedas da praça.
Como diz o jornalista português Manuel António Pina, "alguma grande razão tem de haver para essa atração, para a força obscura que move tanta gente, que na sua imensa maioria não lê, ao encontro dos livros. Quando soubermos o quê, conheceremos decerto algo essencial acerca de nós mesmos." E acrescenta: "As Feiras do Livro são hoje, mais do que meras oportunidades de negócio livreiro, singulares momentos de esperança e de cidadania. Por algum motivo se mantêm (apesar de tudo) à margem dos roteiros mediáticos dos clowns da política e do entretenimento. E talvez por isso ainda sejam lugares respiráveis, quando as próprias livrarias, antes territórios vagarosos de tranqüilidade e de descoberta, crescentemente asfixiam sob o peso insuportável dos best-sellers e das novidades".
QUEM FALA DEMAIS
MERECE OUVIR REPRIMENDAS
Walter Galvani, em 17/11/2007
Eis o resultado de ser um falastrão...
Estamos falando de Chávez...
REGRAS DO JOGO
Walter Galvani
Quem aceitar comparecer à uma conferência cujo título é “Ibero-americana” precisa, por uma questão de conhecimento histórico, ajustar-se ao que uma pauta ali nascida, automaticamente disciplina os participantes. Não será um instante de molecagem e tampouco o fórum adequado para fazer piruetas ideológicas que levem a desmerecer ou irritar os demais participantes. Há de ser necessário um mínimo de polidez e compreensão do momento que se vive, para poder conviver com os co-irmãos. Aliás, se não fosse esta regra mínima de conduta, como seria possível suportar os momentos a que somos obrigados a tolerar para levar adiante nossas respeitáveis diferenças democráticas? Não podemos pretender uma convivência ditada nem pela submissão, nem pelo desrespeito.
Falo de Hugo Chávez e falo também do Rei da Espanha que, como humano, como bem acentuou o jornal francês “Le Figaro”, que ressaltou a ira de Juan Carlos de Bourbon quando mandou Chávez calar-se, como um desabafo pois “os monarcas também são seres humanos”. Depois do episódio, demagogicamente, o presidente venezuelano acusou o rei de exercitar sua ira conferindo-lhe a pecha de prepotência: “Quando o rei explode diante das expressões de um índio, estão explodindo quinhentos anos de prepotência imperial, quinhentos anos de sentimento de superioridade.”
Não sei se Chávez é tão ameríndio quanto o diz, mas o certo é que está muito distante daquele que elegeu para seu ícone, Don Simon Jose de la Santíssima Trinidad Bolívar Palácios y Blanco que, aliás, morreu só, tuberculoso e abandonado pelos amigos. Mas digno e forte. Tanto que hoje, cento e setenta e sete anos depois, ainda é lembrado, sobretudo pela obra que deixou e acabou desvirtuada pelos que ficaram com a tarefa de levar adiante seus ideais, aqui na América.
Quanto ao rei espanhol, é oportuno lembrar que o único apoio político e econômico que encontra a Cuba de Fidel Castro na Europa, é justamente a do velho, correto e indômito Bourbon. Vamos ser realistas e fazer justiça. E ele o faz, em nome da democracia que jurou preservar, independente das naturais oscilações de direita, centro ou esquerda dos governos que empossou, a partir do voto do povo espanhol. Assim, fica difícil para um candidato a ditador, a aceitação da defesa de um direitista feita por esquerdista. É muito, é demais para as cabecinhas de minhoca de nosso continente. Com a prepotência do dinheiro do petróleo fica difícil enxergar certas coisas. Que as descobertas da Petrobrás não perturbem nosso rico sheik metalúrgico.
"POR QUE NO TE CALLAS?"
Walter Galvani, em 19/11/2007
Crônica publicada nos jornais
Diário Popular (Pelotas)
e "A Razão" (Santa Maria)
“POR QUE NO TE CALLAS?”
Walter Galvani
O espaço para os imitadores baratos é franqueado quando os personagens que ocupam a cena não possuem a dimensão dos ícones. Simón Bolívar, morto há 177 anos, ou mais propriamente Simón Jose de la Santíssima Trinidad Bolívar Palácios y Blanco, líder da idéia do panamericanismo, tem sido aproveitado por falsos profetas e líderes de si mesmos, para a projeção pessoal. Bolívar morreu só, aos 43 anos, tuberculoso e abandonado pelos políticos tanto da Venezuela quanto da Colômbia. Mas, o rei de Espanha, Juan Carlos I, ao “enquadrar” Hugo Chávez conseguiu com uma simples frase, derrubá-lo da sua empáfia a que ascendeu montado no jorro do petróleo que o sustenta no ar. Não sei por quanto tempo.
A justiça e a inteireza do gesto de Zapatero, ao defender seu adversário político e antecessor, Jose Maria Aznar, a quem Chávez acusara de “fascista”, absolve a interferência do rei e dá-lhe grandeza, e é por isso que a Espanha é o país que é, atravessando com os solavancos e sobressaltos da História, o que há de bom e o que há de ruim.
Ao mentir publicamente dizendo que não ouviu o rei mandar que se calasse, Chávez subscreve a opinião que dele está se formando. Lula, transmudado em futuro sheik do petróleo vai acabar perdendo a paciência com ele, e não me chamem de falso profeta. Se é o dinheiro que lhe concede autoridade, então em breve o Brasil poderá estar na competição.
Este atual presidente da Venezuela, dizendo-se descendente de índios “que foram martirizados” pelos invasores espanhóis, bem que poderia aproveitar a ocasião para juntar-se a outros personagens que calados, aliás, seguindo a sugestão do rei da Espanha, melhor serviriam seus países.
Não sei se é verdade que no DNA de Chávez só corra sangue ameríndio. Se isso for verdade, lembremos que não era o caso de Bolívar, cuja generosidade portanto, era muito maior e cuja cultura, conhecimento do mundo e capacidade de ação o tornaram depois de tantos anos, num exemplo a ser seguido e lembrado.
Juan Carlos de Bourbon mostrou estar à altura do trono que ocupa, defendendo a palavra livre e a expressão política distinta de seus dois primeiros ministro, do que se foi e é agora acusado de fascista e do atual, cuja lisura o faz defender com elegância o antecessor. Isso não se compra em botequins baratos, nem bolichos de vila. É por estas e por outras que existe a velha fábula das rãs pedindo um rei.
SHAME
Walter Galvani, em 26/11/2007
Nós também...
Crônica publicada no ABC DOMINGO
VERGONHA DAS VERGONHAS
Walter Galvani
Todos conhecem a letra do hino rio-grandense, que cantamos com tanto fervor patriótico quanto o hino nacional brasileiro, nas cerimônias cívicas. Sim, com destaque para aquele trecho que proclama que “sirvam as nossas façanhas, de modelo à toda a Terra”. Imagine-se então, para os que tem consciência do que se afirma, a vergonha das vergonhas que de nós toma conta, quando verificamos que entramos com os dois pés e de rijo no campeonato nacional da corrupção.
Até aqui parecíamos maravilhosamente imunes à promiscuidade do roubo e do lucro fácil, com uma indiscutível ausência da lista dos envolvidos. Era uma ausência gritante, uma espécie de anúncio público de que os gaúchos estão acima e de fora dessas questões, desse compromentimento moral e de fato, são “melhores do que os outros”.
Basta examinar os escândalos recentes que perpassam a vida do país, desde os “mensalões” até corrupções localizadas ou histórias de “dinheiro carregado nas cuecas”, ou seja, outros escândalos maiores ou menores.
E eis que a Polícia Federal chega ao Rio Grande. Então, prestadores de serviço ao DETRAN aparecem algemados, segundo a própria PF, em cinco anos são 40 milhões desviados, se anuncia. Ficamos pensando assim: “Pô! Até eu ajudei quando paguei a renovação da minha carteira de motorista!”
Tínhamos antigo e forte orgulho de ficar fora deste mar de lama que infesta o país, muito mais extenso e profundo do que o lodaçal que atingiu o Palácio do Catete em 1954, expressão usada pelo próprio Getúlio Vargas, aliás gaúcho também. Então, foi de tal monta o estrago que levou o presidente ao suicídio. Tomamos aquele gesto extremo, como mais uma demonstração do nosso caráter, da retidão e do orgulho gaúcho.
E agora? E agora que a lama avança pelos canais do Rio Grande?
Pena que tenhamos que usar este espaço semanal para fazer uma reflexão dessas, mas estamos, sim, envergonhados. E, pela primeira vez nos tempos contemporâneos, temos vergonha, verdadeira vergonha de nosso estado e por nossos concidadãos.
O que fazer agora? Insistir para que a devassa seja completa e em todos os setores da atividade pública e, se for o caso, privada, ou pelo menos atinja todos os envolvidos. Ainda agora se viu que nem ministros e, muito menos, presidentes do Senado estão imunes ao vírus da corrupção que corróe e compromete as atividades democráticas.
Então, vamos até o fim, até o amargo fim, se for o caso. Caso contrário, não estaremos mais autorizados a cantar o inigualável hino rio-grandense.
GRUPO EDITORIAL SINOS, 50 ANOS
Walter Galvani, em 02/12/2007
Crônica publicada neste domingo no jornal ABC DOMINGO
UM PRÊMIO E UMA SAUDADE
Walter Galvani
Nada mais oportuno e significativo do que recordar o nome de Paulo Sérgio Gusmão, ainda mais num prêmio que leva o seu nome e uma realização do “NH”, tão presente em meu passado e presente, pela sigla e pelas figuras envolvidas, pelo próprio Paulo Sergio e pelo Mário Alberto Gusmão. Lembro quando os dois irmãos iniciaram a sua saga que resultou nesta potência onde militamos hoje – eu morava em Canoas, embora já exercitasse minha profissão no Correio do Povo em Porto Alegre – mas não poucas vezes estive em Novo Hamburgo, pequena viagem que se tornou missão obrigatória ao longo deste meio século.
Foi assim que vi crescer a obra de Paulo Sérgio e Mário Alberto, assim que fiz amigos nas fileiras do NH, mais tarde nos demais veículos, mais recentemente neste ABC DOMINGO onde estou desde o número dois. Sim, desde o segundo número.
Agora, vejo que o Prêmio Paulo Sérgio Gusmão procura fazer justiça à sua lembrança, acentuando que em vida ele lutou pelos interesses da educação e com isso se unifica um ciclo de projetos e ações voltado às escolas, alunos e comunidade da região do vale do Rio dos Sinos o verdejante (ainda) e produtivo (sempre mais) vale que abarca já uma boa parcela dos milhões de habitantes do Rio Grande do Sul.
E nunca é demais uma ação na área da Educação Infantil, do Ensino Fundamental, do Ensino Médio, do Técnico e da educação de um modo geral, de jovens e adultos, em especial quando o Brasil colhe resultados tão disparatados como se colocar bem no Índice de Desenvolvimento Humano, ao mesmo tempo em que se classifica mal na tabela da OCDE e perde pontos na oferta de empregos e nos negócios internacionais.
Assisti nestes cinqüenta anos do Grupo Editorial Sinos, onde tenho a honra de servir com modéstia neste espaço e em outros que me são gentilmente cedidos, todo o desenrolar do progresso no vale, com seus altos e baixos, com seus sucessos, com sua aprendizagem, com os enganos e acertos, com as oscilações da política e da economia, com a concretização de ideais que, afinal, para quem nasceu em Canoas, são os mesmos. E aqui vamos nós. Na certa não teremos fôlego para outros cinqüenta anos, mas o que aprendemos já nos vale muito e na hora de registrar este prêmio e lembrar os verdes anos com tanta saudade, também nos orgulhamos de estarmos juntos neste combate que não cessa nunca, pois os que nos sucederem haverão de levar adiante, assim como foi feito com o Paulo Sérgio. E transmito ao Mário Alberto Gusmão meu abraço e meus cumprimentos públicos pelo grande trabalho. E, só para encerrar, lembremos que as inscrições ao prêmio podem ser feitas a partir de amanhã.
BRASIL, PAÍS DO FUTURO
Walter Galvani, em 02/12/2007
Lembram o que Stefan Zweig escreveu quando, em 1939, fugindo nazismo em sua terra, refugiou-se em Petrópolis, estado do Rio?
Pois é...
O futuro parece que ainda não chegou...
Até quando escreveremos isso, como fiz
neste fim-de-semana nos jornais
A Razão de Santa Maria e Diário Popular
de Pelotas?
EIS O FUTURO...
Walter Galvani
Vamos festejar: estamos a frente da Colômbia, da Tunísia, do Azerbaijão, do Qatar e do Quirguistão! Não chega? Ah, não? Pensei que poderíamos comemorar... É que o Brasil se classificou em 52º lugar sobre 57 países selecionados pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento e Econômico), na disciplina Ciências, num teste aplicado sobre alunos da 7ª. e 8ª. séries do ensino fundamental.
Pois estes jovens, futuro do “país do futuro” ajudaram a classificar o Brasil nesta magnífica posição. Na certa, os que me lerem, hão de se lembrar que se a disciplina fosse Futebol, o Brasil estaria nos primeiros lugares, ou pelo menos misturado com os integrantes do bloco vanguardeiro. Mas, em Ciências, os “classificados” são Finlândia, Hong Kong, Canadá, Taiwan, Estônia e Japão que no futebol também não apareceriam nas primeiras posições.
Lembremos que nos vestibulares normalmente surgem 35 candidatos por vaga para o curso de Medicina. Mas, os jovens esportistas devem prestar bem atenção que o “vestibular” do futebol é na base de 100.000 por vaga e ainda se multiplica este dado por outro fator para encontrar os que encontram algum encaminhamento internacional, onde os festejados dólares acenam para os felizardos Kaká ou Ronaldinhos ou Gilbertos Silvas da vida.
O melhor mesmo é acreditar no estudo e tratar de aprender Ciências, alfabetizar-se convenientemente e chegar a alguma coisa na vida aqui dentro. Ah, se quiserem jogar futebol, muito bem, podem fazê-lo. Mas, façam-no paralelamente, pensando primeiro na carreira garantida e depois na eventual.
Passando os olhos pela América Latina vemos que aqui mesmo em nossas barbas, outras se saíram melhor do que nós no tal exame e entre esses, Argentina, México, Uruguai e Chile. Pior mesmo do que nós, aqui só a Colômbia... Os países foram selecionados e no momento em que ficamos comemorando a entrada do Brasil no grupo dos países com alto índice de desenvolvimento humano, é bom que se olhem estes números desastrosos. Ao menos para raciocinar um pouco. Na certa o governo não festejará esta classificação ridícula. Talvez acuse os exames, condenando-os. Sabem aquela história do marido traído no sofá da sala, e que decidiu trocar o sofá? Agora mesmo querem demolir a cadeia onde uma menina de 15 anos foi, várias vezes, estuprada por estar misturada com detentos homens. Fomos mal no exame? Desvalorize-se o exame...
E viva o Brasil, aquele país que Stefan Zweig batizou em 1939 como “o país do futuro”...
CORÍNTIANS E HUGO CHAVEZ
Walter Galvani, em 03/12/2007
Caíram os dois...
Sem crônica. Só para lembrar
que quem abusa do poder cai do
cavalo.
O presidente corintiano é que
informou que o campeonato
de 2005 foi roubado do
Internacional de Porto Alegre.
E o diretor de futebol, disse que]
o Grêmio ficou devendo 2003...
O que terá havido?
E Chávez? Mudou o que?
NOTICIAR O PIOR, PARA QUE?
Walter Galvani, em 07/12/2007
Estamos nos distorcendo...
NOTÍCIAS RUINS
Walter Galvani
É difícil para uma corporação receber uma crítica e assimilá-la, aproveitando o suco de bons efeitos que se deve extrair de uma manifestação dessas. No caso, estamos nós, jornalistas, diante da crítica feita pela governadora do estado, Yeda Rorato Crusius que é, além disso, oriunda das nossas próprias fileiras. “Roupa suja se lava em casa”. Sim, se lava, mas, muitas peças, é preciso mandar à lavanderia, até porque o tipo de sujeira não sai na primeira água.
Yeda sabe o que diz, na verdade ela não quer afirmar que “os jornais só dão notícias ruins”. Ela está usando politicamente esta frase e sua condição de governadora, sua ligação com o jornalismo que exerceu ao lado do magistério durante tantos anos, com o mesmo conhecimento de causa que os políticos de sucesso sabem usar em benefício próprio.
Há uma distorção presente na Imprensa, não resta dúvida e depois que os jovens aprendem nos bancos da faculdade que notícia é “quando o homem morde o cão e não quando o cão morde o homem”, saem todos com o canudo debaixo do braço a procurar as falhas humanas e não as reações naturais e instintivas dos animais. A não ser quando estas causam danos maiores como os “pit-bulls” da vida.
A maioria quer saber o que há por trás dos fatos, os meandros das negociações, o uso indevido das verbas públicas, os subornos, as ameaças, os crimes, até porque é difícil e exige bem mais do que simples talento para trabalhar em cima da notícia positiva. Yeda sabe disso, mas jogou com as palavras, como é adequado para quem exerce o poder e precisa se valer do efeito do que diz ou faz.
Com o pomposo empréstimo de “1 bilhão” para zerar suas contas, ela se dará o direito agora de afirmar que é muito bonito, mas não será possível zerar as contas com este valor. É sempre assim, e ela aprendeu depressa o que é preciso fazer com as palavras que são como peixes que fogem ao contato e quando apertadas se espalham e somem pelas águas, deixando a lembrança de um colorido cambiante atingido por um raio de luz. Peixe não se pega com a mão.
Quem quiser ler jornais, precisa aprender a lê-los, bem como é preciso saber interpretar o que se diz ou o que se mostra no rádio e na televisão. A confiabilidade de outros meios, como o mundo “web”, por exemplo, é discutível e nunca se deixa de aprender o que estão tentando nos dizer. Assim é, historicamente, desde quando se praticava democracia direta com as reuniões nas ágoras de Atenas, até quando se passou a praticar as eleições e as votações na república romana que precisava ouvir mais de cem mil pessoas.
O PÓLO SE DESMANCHA OU NÃO?
Walter Galvani, em 09/12/2007
O que haverá por trás das denúncias
sobre o aquecimento global - ou
agora desconfiamos de tudo, por que
a ética se desmanchou no meio
dos interesseiros humanos...
Crônica publicada hoje no jornal
ABC DOMINGO, do cinqüentenário
Grupo Editorial Sinos
O CLIMA E O NOSSO GURU
Walter Galvani
As Nações Unidas estão reunidas em Bali, na Indonésia, onde a beleza natural mais aparece como uma lembrança ostensiva, de quanto pode ser bela a vida e atraente o mundo. O objetivo é extrair dos duzentos cientistas que representam mais de 190 países uma “Declaração de Bali sobre o clima por cientistas” que em princípio defendem a redução da emissão de gases que causam o chamado “efeito estufa” em cinqüenta por cento para que, em dez ou quinze anos, o pico do aquecimento global comece a cair. Mantido nos ritmos atuais, dizem eles, teremos uma elevação de 2 graus (não dizem em que período) e isso significará a continuidade das “ondas de calor, secas, enchentes e tormentas”, mesmo em localidades nunca antes atingidas ou sequer ameaçadas.
Tudo bem, assino embaixo como todo mundo, mas fico me perguntando se esta reunião da ONU é mesmo a última palavra sobre o assunto ou se existem outras teses em jogo que precisam ser consideradas. Há por exemplo um livro chegando às livrarias, “Uma breve História do Mundo” de autoria do professor Geoffrey Blainey, que é professor em Melbourne, Austrália e catedrático em Harvard nos Estados Unidos, em que ele se reporta a eventos de aquecimento e de resfriamento da Terra, ocorridos ao longo destes milhares de ano com registro de vida humana.
Ainda esta semana ouvi o professor Eugênio Hackbarth, diretor do Instituto de Meteorologia de São Leopoldo e renomado mestre no ramo, afirmar que o Pólo Sul, ao contrário do seu homônimo nortista, está com sua sólida camada de gelo intacta e até, em certos pontos, ampliada. Tranqüilizado pelos dados de que dispõe aquele ilustre meteorologista, dormi em paz.
Apesar de saber que, psicologicamente é interessante que se divulguem as conclusões dos cientistas reunidos em Bali ou não, e assim se ampliem os temores das populações e se gerem medidas das administrações, também é verdade que seria antiético ignorar posições diferentes ou omitir informações significativas, como é o caso das que dispõe o nosso guru, professor Hackbarth, ou para ser mais pontual, o que podem essas significar com relação ao panorama global.
Não é o caso de abaixar as armas e desmobilizar-se, talvez, mas, pelo menos eis um adequado desvio da histeria coletiva para impedir medidas extremas e radicais, que poderiam, por seu turno, contribuir para um descalabro ambiental.
Como diria o povo de antigamente, “cautela e caldo de galinha” nunca fizeram mal a ninguém...
AÇORES, AÇORES NOSSO!
Walter Galvani, em 11/12/2007
O Rio Grande do Sul tem agora a sua
Casa dos Açores
Crônica publicada hoje no jornal
Correio do Povo, o mais antigo em
circulação no estado mais meridional
do Brasil
CORDÃO UMBILICAL
Walter Galvani
Claro que uma visita de nove dias, embora extensa para comitivas oficiais não é o suficiente para apertar laços históricos de dois séculos e meio. Mas, serve para instalar afetos, reiniciar contatos e institucionalizar relações. Falo da visita providencial dos açorianos à esta região que nasceu, em parte, pela generosidade do sangue que eles nos legaram. Basta andar por aí e ver os sobrenomes e a dedicação de gente como Luis António de Assis Brasil ou Ivo Ladislau, Vera Barroso ou Ana Lúcia Morisson, Sandra Braga de Medeiros, Neiva Costa, enfim tantos, que se unem ao presidente do Governo Regional dos Açores, Carlos Manuel Martins do Vale César e seus auxiliares diretos, políticos importantes da região que nos transmitiu a doçura e o encanto de suas tradições, suas danças, sua poesia, seu coração..
Tomem nota: Casa dos Açores do Estado do Rio Grande do Sul, Rua Adolfo Inácio Barcelos, 938, Gravataí, RS. Este é o novo endereço do encontro de cultura, que marca a partir de agora o recanto onde nossos irmãos do arquipélago em meio ao Atlântico encontram o resultado do que aqui semearam seus antepassados. Não há cidade gaúcha do período histórico que começa no século XVIII e vai até quase o final do XIX, que não esteja definitivamente marcada pelas suas nascentes açorianas. Basta atravessar o oceano e fechar os olhos e imaginar-se no Rio Grande, assim como bastaria visitar Piratini, Santo Amaro, Triunfo, Gravataí e tantas outras brilhantes comunidades gaúchas e sonhar com os Açores.
Não está apenas nos genes formadores, mas na paisagem, na arquitetura, no material empregado, nas cores, e, sobretudo, na singeleza e simplicidade, no doce carinho dos contatos humanos, para saber que isto aqui é Açores.
Então, o que se quer é que haja mais viagens como esta, mais visitas, mesmo que não surjam imediatamente resultados econômicos, que prometam trocar mercadorias daqui para os Açores ou de lá para cá.
É assim mesmo que se constroem os laços mais fortes, que se consolidam as relações sólidas e, no caso de Porto Alegre, que teve em seu povoamento básico tantos casais açorianos que até seu nome inaugural teve esta conotação, ou das cidades que compõem nossa região metropolitana, como Gravataí, Viamão, Canoas e outras mais, é bom saber que a velha fonte é respeitada e honrada num acontecimento como este da inauguração de uma casa específica. Parabéns, Régis Gomes, parabéns Rio Grande.
O QUE FALTA AO BRASIL?
Walter Galvani, em 13/12/2007
Crônica para marcar o tempo presente em nosso país.
A crônica, como se sabe,é filha]
do deus Chronos.
SÓ FALTA
O VULCÃO
Walter Galvani
Antigamente se dizia que o Brasil, estranhamente, parece que em obediência ao dito popular que afiança que “Deus é brasileiro”, pois fora contemplado com imensidão de terras, matas insondáveis, rios fantásticos, cachoeiras maravilhosas, praias infindas, temperaturas tropicais na maioria da extensão territorial, não tinha tufões, corrupção, tremores de terra e vulcões.
Esta terra abençoada – dizia-se – tinha, portanto, tudo para progredir, independentemente até da ação dos seus políticos e há quem jure que o próprio Getúlio Vargas, o grande político gaúcho que chegou à presidência da república, comentava: “O Brasil é tão grande e tão poderoso, que mesmo os que roubam o tesouro nacional, à noite dormem. E então o país cresce!” garantia-se: “O Brasil não tem terremotos, nem vulcões.”
Pois é. Até à semana passada não tinha “tremores de terra”. Apenas alguns estremecimentos, ao que se afirma provenientes da Bolívia e da Venezuela, portanto, nada para assustar. Um terremoto mesmo, como aquele que destruiu todo o centro de Lisboa em 1755, jamais.
Dormíamos tranqüilos até à semana passada, quando o sul de Minas Gerais foi abalado e até a morte de uma criança tivemos. Portanto, chegou aqui o terremoto. Os especialistas dizem que teremos outros tremores nos próximos tempos. Já tivemos todos os graus de corrupção possíveis e imagináveis, já tivemos o nascimento de religiões, inundações, poluição à vontade, nossas praias maravilhosas de vez em quando amanhecem sob o martírio da morte de peixes e crustáceos, acabou a CPMF, portanto já nos aconteceu tudo o que se poderia imaginar e até o inimaginável. Só falta o que? Um vulcão.
A famosa “terra abençoada por Deus e bonita por natureza” já passou por provas inacreditáveis, já se viu que é possível sim, sob o céu deste lindo país, a ocorrência das maiores atrocidades, continuamos não tendo pena de morte o que demonstra por si a índole pacífica e tolerante do povo brasileiro e só não fomos premiados ainda com um vulcão. Acho que não se perde por esperar. É só o que nos falta.
Temos tudo e num estalar de dedos se providencía o que está faltando. Menos o vulcão. O Chile tem, a Venezuela também (e não é o Hugo Chávez...), até a Itália tem.
Com tanta terra, com tanta gente “sem terra” que, aliás, parece que só deseja terra urbana... – com tanta riqueza sobrando, já tendo incorporado ventos, tempestades, furacões, continuamos sem o vulcão. É só isso, mesmo, o que nos falta...
O BRASIL É SÉRIO?
Walter Galvani, em 16/12/2007
Crônica sobre a CPMF publicada no ABC DOMINGO
A COMÉDIA DO PODER
Walter Galvani
Está entrando em cartaz nos cinemas gaúchos, um novo filme do extraordinário diretor francês Claude Chabrol que leva o título oportuníssimo de “A comédia do poder”. É mais oportuno ainda porque logo nas primeiras cenas, mostra o terno caro de um empresário ser amarrotado pelas algemas que a polícia lhe aplica à saída do trabalho. Nada que não estejamos acostumados a ver aqui, em especial em nossos noticiários de televisão, ultimamente dedicados a este tipo de cobertura.
O Brasil é o palco ideal, aliás, para este tipo de filme e o título se aplica a tudo o que ocorre aqui. Veja-se por exemplo o assunto da CPMF. Bastou que o governo sofresse uma derrota que vai tirar dos seus cofres a expectativa de 40 bilhões de reais e surgiram os defensores dela de todos os recantos. E eu que, iludido, lendo, vendo e ouvindo, imaginava que não ia um só tostão da tal de CPMF para a Saúde, seu supremo objetivo e em razão do que fora aprovada, sob a fiança de um homem digno como o ex-ministro Adib Jatene?
Pois é... agora todos choram o fim da CPMF e tem gente que tem a cara e a coragem de dizer que sem ela não será possível levar adiante o atendimento à saúde pública em nosso país! Para esse arremedo de atendimento que tem a saúde da população, acho que não é necessária nenhuma arrecadação especial. O ideal é acabar mesmo com a Contribuição sobre os movimentos financeiros, que penaliza quem não deve penalizar, chegando até o ponto de cinismo geral, de se afirmar que atinge em 1,7% o preço final dos produtos. Quanto descaramento! Maior ainda ao afirmar-se que do montante de 40 bilhões, 52% seguiam diretamente para a Saúde. Ah é? Como é então que se dizia que não ia nada, que o imposto estava completamente desvirtuado?
É a tal “comédia do poder”, não percam o filme de Claude Chabrol que sem os efeitos especiais idiotas do cinema americano, fala a verdade sobre a vida em sociedade no mundo do século 21.
O governo, acostumado com este dinheiro que caía do céu há quatorze anos, pretende enfrentar a crise com “corte de gastos, aumento de impostos e represálias políticas”. Tudo bem ao estilo da “comédia do poder” que vivemos no Brasil. Não se iludam, o governo sairá dessa, não se apertará, até porque o cinismo e a hipocrisia são as moedas de troca vigentes em nosso país do Real. Do Real real e não do imaginário.
Daqui a pouco, com o leilão de cargos e influências, tudo voltará a ser como sempre foi.
Em tempo: uma espécie de CPMF existia e foi extinta no Peru, Argentina, Venezuela e Equador, numa onda sucessiva que vem desde 1992.
SENSIBILIDADE EXCEPCIONAL
Walter Galvani, em 18/12/2007
Todos os dias, quando chego à PUCRS depois do almoço, passo pela Sílvia.
Trocamos rápidas palavras, em geral sobre o calor que está fazendo
(ou o frio)e comentamos sobre a
beleza do dia.
Claro, fica no sub-texto, mas
estamos nos desejando felicidades
no dia de trabalho.
Dia desses ela me mandou este
belíssimo poema que quero
compartilhar com meus possíveis
visitantes do site.
ILUSÕES DO AMANHÃ
"Por que eu vivo procurando
Um motivo de viver,
Se a vida às vezes parece de mim esquecer?
Procuro em todas, mas todas não são você
Eu quero apenas viver
Se não for para mim que seja pra você.
Mas às vezes você parece me ignorar
Sem nem ao menos me olhar
Me machucando pra valer.
Atrás dos meus sonhos eu vou correr
Eu vou me achar, pra mais tarde em você me perder.
Se a vida dá presente pra cada um
O meu, cadê?
Será que esse mundo tem jeito?
Esse mundo cheio de preconceito.
Quando estou só, preso na minha solidão
Juntando pedaços de mim que caíam ao chão
Juro que às vezes nem ao menos sei, quem sou.
Talvez eu seja um tolo,
Que acredita num sonho
Na procura de te esquecer
Eu fiz brotar a flor
Para carregar junto ao peito
E crer que esse mundo ainda tem jeito
E como príncipe sonhador
Sou um tolo que acredita ainda no amor."
PRÍNCIPE POETA (Alexandre Lemos - APAE)
Este poema foi escrito por um aluno da APAE,
chamado, pela sociedade, de excepcional.
Excepcional é a sua sensibilidade!
Ele tem 28 anos, com idade mental de 15
peço que divulguem para prestigiá-lo.
Se uma pessoa assim acredita tanto
porque as que se dizem normais não acreditam?
Silvia Gama
PUCRS VIRTUAL - EAD
O BRASIL CONTINUA NOS ÚLTIMOS LUGARES
Walter Galvani, em 20/12/2007
Crônica publicada hoje no Diário de Canoas, lembrando, como diz a Bíblia, que "os últimos - em nosso caso, NÃO
- serão os primeiros".
O Brasil, por enquanto,
só está na fente no futebol...
ÚLTIMOS, NÃO OS PRIMEIROS
Walter Galvani
Com Káká e Marta, o Brasil ganhou os primeiros lugares mundo em futebol de campo, outros prêmios também se acumularam durante o ano de 2007 em outras modalidades esportivas e com isso, julgamos que o nosso país é o “Bambambam”, pelo menos nisso.
Pois, não é.
Somos os últimos, é duro admitir isso, mas é a verdade. Em pesquisa conduzida pela ONU, por exemplo, descobre-se que o Brasil está entre os últimos colocados em escolaridade e educação. Entre os 15 e os 24 anos, nossos jovens não passam mais de 8 anos e 4 meses em média, na escola. Essa média diminui, em proporção à idade, pois as gerações anteriores, menos tempo ainda passavam estudando. Vamos adiante e descobrimos que entre os 101 piores em negócios, esta é a colocação do nosso país: 101º... Apenas, assim como em outras atividades econômicas, pontuamos entre os últimos.
A pesquisa vai adiante e demonstra que 27% dos nossos jovens entre os 20 e 24 anos, não estudam, nem trabalham... Sem fazer ironia, os demais estão morrendo em acidentes automobilísticos, como o demonstram os números absurdos de falecimento de rapazes e muitas vezes de quem os acompanha (amigas, namoradas...)
Pois é fácil concluir que 78% são do sexo masculino, os que morrem em acidentes de carro, e 48% dos acidentes, são colisões.
Mas, estamos também mal colocados com alfabetização, em letramento, em estudos universitários, em dinamismo e operosidade, naquilo que se costuma denominar hoje “proatividade”, enfim, só aparecemos mesmo nos primeiros lugares, nos esportes e de um modo especial, no futebol.
Basta? Será suficiente isso para construir um futuro para o Brasil?
Todo mundo sabe que não.
À cada dia se somam pesquisas e estatísticas que demonstram que estamos atrás até do Peru, do Chile e da Argentina, que vizinhamos com o Paquistão, Bangladesh ou Etiópia.
Quem sabe uma CPMF para a educação?
Quem nasceu ou sempre viveu em Canoas, ou para cá se transferiu, conhece a importância das nossas instituições. O La Salle que vai comemorar o centenário da chegada dos Irmãos Lassalistas à Canoas no ano que vem, o Pestalozzi, que andou tão mal que a comunidade teve que acordar (acordou?) e o Auxiliadora. Mas, esses são particulares, colégios privados, que sempre tiveram o apoio de quem tem alguma coisa dentro da cabeça.
É preciso transformar o ano de 2008, definitivamente, no Ano da Educação. Cada um precisa fazer a sua parte para arrancar a nação deste atoleiro. Os números são de matar a pau, de vergonha.
UM PRÊMIO ARI DE JORNALISMO
Walter Galvani, em 21/12/2007
Tive a honra de contar com
Mário Marcos de Souza, no início
de sua brilhante carreira, como
meu repórter (antes um estagiário
ativo e criativo) na Folha da Tarde
o grande jornal vespertino de
Porto Alegre (o último).
Hoje,Mário é nome consagrado.
Atua em Zero Hora, onde conquistou
mais um Prêmio ARI de Jornalismo
neste 2007.
Com a seguinte crônica, exemplar,
comovente e bem escrita:
O OLHAR E O SILÊNCIO
DE PUSKAS
Mário Marcos de Souza
Nunca houvee doce como aquele. Os figos, comprados ainda verdes em bancas do mercado público, saíam daquela imensa panela na medida exata de consistência e açúcar, banhados numa suave calda. Ficava irresistível. Um dia, estranhamente, eles ganharam um pouco mais de açúcar, ficaram mais doces pouco depois e a dosagem continuou subindo. Quem reclamava, ouvia de dona Adiles, parada na cozinha do chalé do Guarujá, em Porto Alegre, uma resposta entre risos, mas firme, a um passo da irritação:
_ Doce é para ser doce.
Aquele não era, como ficou claro depois. Quem convivia com ela percebeu tempos depois que a dose a mais de açúcar era o primeiro sinal de uma doença silenciosa chamada Mal de
Alzheimer _ a mesma que levou à morte ontem o húngaro Ferenc Puskas, um dos maiores jogadores da história do futebol. Ele tinha 79 anos, os últimos cinco internados no hospital de Budapeste em que morreu no início da madrugada, vítima de complicações respiratórias.
***
Puskas foi parando devagar, como se estivesse sendo desligado, desde os sintomas iniciais da doença, em junho de 2001. Foi assim com a doce criatura do Guarujá. Aos poucos, os primeiros sinais foram acrescidos de outros, as lembranças pareciam ter sido apagadas, os caminhos no bairro viraram labirintos, os rostos amigos passaram a ser estranhos, as
colheres de paus que mexiam os doces foram encostadas em algum canto, longe das panelas. Mas o mais chocante era o olhar _ como ocorre com todas as vítimas da doença. Ele parece cruzar por quem está à frente, à procura de algum ponto. É o olhar que Puskas começava a mostrar já em agosto de 2002 (foto), ao participar da cerimônia que deu seu nome ao
Nepstadion de Budapeste. O homem que um dia fora capaz de jogadas mágicas em campo já não sabia em que mundo circulava. O olhar inexpressivo _ esta é uma das duras faces da doença.
***
Houve tempo em que o olhar de Puskas nunca se desviava do objetivo, como naquele dia 25 de novembro de 1953, em Londres. A seleção inglesa jamais perdera em casa e estava certa de que os húngaros, quase todos saídos do Honved, o clube do exército, não seriam capazes de mudar a história _ e levaram apenas 50 segundos, o tempo do primeiro gol da Hungria, para descobrir o erro. Sofreram quatro gols só no primeiro tempo de um jogo que terminou em 6 a 3, mas ninguém esqueceu mesmo foi do terceiro, marcado por Puskas. Foi o gol do olhar. Puskas viu Czibor pela direita, viu que estava de costas para o gol e viu que o marcador Billy Wright estava por perto. A exemplo de todos, o zagueiro esperava que o húngaro dominasse, ajeitasse para a direita e chutasse. Puskas fez tudo diferente. Dominou com a sola de seu pé preferido, o esquerdo, arrastou a bola para trás, no mesmo movimento tocou
um pouco para a frente, já pelo outro lado do atordoado Wright e chutou rasteiro.
_ Nove em 10 vezes, eu ganharia a jogada, mas aquela era a 10ª e na minha frente estava Puskas _ conta Wright no livro Puskas, uma lenda do futebol. _ Minha perna só chutou o ar.
***
Um ano depois, os ingleses foram a Budapeste para a revanche, no mesmo estádio que hoje tem o nome Ferenc Puskas. Foi pior. Levaram 7 a 1. "Em toda minha vida, nunca fui buscar a bola sete vezes no fundo da rede", lamentou um dia o goleiro Merrick, o mesmo dos outros seis em Wembley. Eram assim os confrontos com os húngaros liderados por Puskas, o Major Galopante, por causa de sua patente militar. Ele e seus amigos faziam sempre dois gols nos primeiros 10 minutos dos jogos, foram campeões olímpicos em 1952, mas esbarraram na
surpreendente Alemanha em 1954. Puskas nunca teve seu título mundial. Não importa, ele entrou para a história. Fez 83 gols em 84 jogos por sua seleção e, ao mudar-se para o Real Madrid fugindo da repressão de 1956 na Hungria, ganhou três Ligas dos Campeões. Até sua aposentadoria, em 1967, fez 180 partidas pelo Real, nas quais marcou 154 gols. Virou mito também na Espanha.
***
Antes do sucesso no Real, Puskas teve de vencer um desafio lançado pelo antigo presidente do clube espanhol, Santiago Bernabéu. Quando foi procurado pelo dirigente para ser contratado, Puskas estava 18 quilos mais gordo por causa dos 13 meses de suspensão pela fuga da Hungria. Surpreso, foi franco:
_ O senhor me olhou? Estou gordo.
_ Este não é problema meu, é seu _ respondeu Bernabéu.
Puskas só deixaria o Real aos 40 anos, depois de 23 de carreira.
***
Na manhã de ontem, os sinos tocaram nas igrejas de Budapeste e o Parlamento húngaro ficou em silêncio, bem como foram os últimos anos de solidão de Puskas no quarto do hospital. O homem que, a exemplo da alegre senhora do Guarujá, perdera a capacidade de olhar e de falar, tinha virado imortal. Como todos os gênios, nunca será esquecido.
ZORIONAK ETA
MERRY CHRISTMAS
Walter Galvani, em 22/12/2007
Crônica publicada neste fim-de-semana
nos jornais A Razão, de Santa Maria
e Diário Popular, de Pelotas
O PODER DA PALAVRA
Walter Galvani
Feliz Natal, “Merry Christmas”, “Buon Natale”, “Feliz Navidad”, “Fröhliche Weihnachten”, “Zorionak Eta” (esta última expressão em língua basca) ou qualquer que seja a língua utilizada, a força ainda existe por que é latente, mora no seio das palavras, adormecida ou não. Despertará ao primeiro abraço, ao primeiro sorriso, ao primeiro cartão.
Cultura ocidental, cristianismo, amem-se uns aos outros, tenham fé, caridade, esperança, Cristo, o filho de Deus, esteve na Terra para resgatar os humanos, a vida não acaba após a morte, “fazei isso em memória de mim”, quer dizer, há todo um sistema de crenças e atitudes, construído sobre o edifício que nos foi legado nestes últimos dois mil anos.
E então, é a Palavra. Aliás, na própria Bíblia se diz: “No princípio era o Verbo (a Palavra) e o Verbo se fez carne e habitou entre nós!” – Quem não conhece estas linhas tão cheias de significado?
Durante a II Guerra Mundial, em certo ponto da frente de batalha entre franceses/ingleses e alemães, interromperam-se as hostilidades no dia 24 de dezembro, aproximava-se a meia noite. De ambas as trincheiras rivais, levantaram-se vozes, como que integrassem treinados corais e ouviu-se a canção “Noite Feliz”, aquela mesma que se consagrou e hoje se ouve pelos quatro cantos da terra.
Então, você carrega isso em seu coração e, mesmo que não seja mais católico, ou nunca tenha sido, sabe o conteúdo e o significado, sabe, enfim, a força destas palavras.
E é nisso que é preciso pensar nas próximas horas, mas não inutilmente, nada de tentar um habeas-corpus preventivo para soltar-se depois do primeiro dia do ano novo a praticar todas as idiotices que se fez até agora. O sentido é purificar-se, recomeçar, tornar-se outra vez um menino. Isso é possível, diante das barbaridades do nosso dia-a-dia?
Ora, porque não?
Este é o único sentido que ficou desta religião que se criou, nascendo no Oriente Médio, o mesmo que hoje se arrasta em meio a crise, dividindo o futuro entre a esperança e a desesperança.
E então esqueceremos a CPMF, os 20% por cento que o governo pode gastar como quiser, de suas receitas, os acordos parlamentares, a corrupção, a mentira, a hipocrisia, o cinismo, a violência.
Respeitando a palavra, esta força incomensurável que se aloja no verdadeiro segredo (sabem, “The secret”?) do nascimento e do amadurecimento da humanidade. Porque até em matemática já perdemos para os chimpanzés. Vamos nos agarrar no que nos resta: a força da palavra.
E ENTÃO É NATAL...
Walter Galvani, em 23/12/2007
Crônica publicada hoje no
ABC DOMINGO
CULTURA E PACOTES
Walter Galvani
A força das palavras é algo tão respeitável que, às vezes, quem as usa nem sequer sonha com o alcance do dardo de aço que estão expelindo e no entanto... soltam o verbo. O presidente Lula, por exemplo, disse esta semana que tem “ojeriza” – ou seja, aversão ou repulsa – enfim, ele detesta, odeia, a palavra “pacote”. Eu não, se for um pacote colorido que me for dado pelo Papai Noel. Outros tem ojeriza à expressão CPMF, Lula também não gosta de ouvir falar em “greve-de-fome”, prefere outros tipos de greve que fez muito no passado, nos tempos do sindicato de São Bernardo do Campo. E garante que vão continuar tocando adiante a idéia estapafúrdia de inverter o curso do Rio São Francisco, para, segundo ele, beneficiar 12 milhões de nordestinos e que não liga para a “greve-de-fome” do Frei Cappio. Odeio a palavra quando ela é mal empregada. Por exemplo: Transposição ao invés de informar corretamente o que se quer que é “inverter o curso”.
Mas não se pode pedir que todos sejam tão informados e cultos quanto os ladrões que entraram no Museu de Arte de São Paulo, pela porta da frente, e em três minutos levaram duas das mais valiosas telas ali abrigadas, o “Retrato de Suzanne Bloch” de Pablo Picasso, tela de 1904, final da sua famosa “fase azul” e “O lavrador de café”, de Portinari, que em 1939 retratava um negro que vendia sua força como se fosse um escravo, que evidentemente não era mais. Valor dos roubos, telas sem seguro e alarme desligado, 100 milhões de dólares.
Vejam só quanta mentira e desfaçatez se encerra em simples notícias e reações oficiais, que mais disfarçam a realidade do que a explicam aos concidadãos.
Realmente é de criar “ojeriza” à certas coisas, sem falar na crise aérea (já passou?) , no campeonato roubado pelo Coríntians, nas negociações no Senado da República, enfim, tudo isso que sofremos este ano que se aproxima do final.
E como é Natal, vamos imaginar que as pessoas redescobriram o efetivo significado da mensagem de Jesus e, acreditando no cristianismo ou não, passem a praticar aquilo que assombrou os romanos e acabou conquistando o coração da imperatriz Helena e, posteriormente, do imperador Constantino: “eles, os cristãos, se amam!”
Isso não salvou a vida dos pioneiros, mas construiu uma imagem que resiste há 20 séculos. Pena que a imagem inicial, de humildade e doçura, de tranqüilidade e misericórdia foi transtornada pelo bicho-homem, aquele que destrói tudo, inclusive o ambiente onde vive.
Para encerrar: todos os problemas têm origem na imprevidência e na imprudência. Desde as corridas no tráfego, até as questões financeiras. E o roubo, e a CPMF, e a ojeriza à certas atitudes e palav
acreditando no cristianismo ou não, passem a praticar aquilo que assombrou os romanos e acabou conquistando o coração da imperatriz Helena e, posteriormente, do imperador Constantino: “eles, os cristãos, se amam!”
Isso não salvou a vida dos pioneiros, mas construiu uma imagem que resiste há 20 séculos. Pena que a imagem inicial, de humildade e doçura, de tranqüilidade e misericórdia foi transtornada pelo bicho-homem, aquele que destrói tudo, inclusive o ambiente onde vive.
Para encerrar: todos os problemas têm origem na imprevidência e na imprudência. Desde as corridas no tráfego, até as questões financeiras. E o roubo, e a CPMF, e a ojeriza à certas atitudes e palavras.
A HORA DO BALANÇO
Walter Galvani, em 29/12/2007
Crônica publicada neste fim-de-semana nos jornais Diário Popular,
de Pelotas e A Razão, de
Santa Maria
ADEUS, ANO VELHO...
Walter Galvani
Já sabemos que a inflação passou dos 7%, que o salário mínimo, no ano que vem, valerá 408,90 (a partir de abril), que teremos eleições municipais e, portanto, as administrações serão muito mais boazinhas nos próximos meses do que se possa sonhar, que os políticos que este ano nos enviaram os últimos cartões impressos em circulação no planeta e congestionaram nossa caixa postal eletrônica com as mais engenhosas e simpáticas mensagens, estarão ainda mais risonhos e afáveis e que, finalmente, chegou a hora de dizer, “Adeus, Ano Velho”, pois não há mais remédio e em poucas horas estaremos em 2008.
Feliz do Laurentino Gomes que assinalou e muito bem o ano que vai entrar com o seu excelente (e muito bem vendido) livro “1808”, com o qual assinala a vinda da família real para o Brasil e o início da construção do Brasil independente, quatorze anos depois. De quebra ele resgatou a figura de Dom João VI, a esta altura guindado à grande estadista, “o único que me enganou”, segundo Napoleão. Era tempo: depois do filme canalha e da literatice de segunda que se praticou por aí, a imagem do Príncipe Regente estava periclitante.
Assim, o “ano velho” pelo menos fez este resgate histórico e projetou para “o ano que vai entrar” uma esperança a mais para os incorrigíveis brasileiros que sempre imaginam que “tudo vai melhorar”. É um espírito benéfico, não se pode negar. Noventa por cento das entrevistas de virada do ano, sejam elas feitas nas areias de Copacabana ou no sertão mineiro, às margens do Xingu ou no pampa gaúcho, são otimistas e apontam para a perspectiva de melhores dias. Tais como no ano passado. Esquecemos apenas de revisar, porque de 2006 para 2007, deu-se coisa parecida, tal como de 2005 parta 2006 e assim por diante. Ou para trás.
O que se torna necessário agora é equilíbrio suficiente para estimar até que ponto precisamos ter ponderação, prudência, sabedoria, para aquilatar o que muda ou não, além da cabeça, com a passagem do calendário. Antigamente usava-se uma “folhinha” na parede e pacientemente arrancava-se, todos os dias, uma página, para saber com exatidão, onde se andava.
Parar a marcha do tempo não interessa, antecipar-se a ele, não é o caminho, retroceder, impossível. É apenas aceitar-se e compreender que, em verdade, nada muda, a não ser dentro de si mesmo. E é lá que é preciso valer seus propósitos a serem cumpridos e não apenas prometidos a si e aos outros, na hora da passagem inexorável para o 2008. Com mais de duzentos mortos em acidentes, com tantos crimes e balas perdidas, já é alguma coisa.
PASSAGEM 2007-2008
Walter Galvani, em 30/12/2007
Crônica publicada hoje no jornal
ABC DOMINGO, do Grupo Editorial Sinos
O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA
Walter Galvani
Peço licença, embasado pelas boas intenções, para furtar o belo título do livro de Gabriel Garcia Márquez, que faz o encanto dos bons leitores no mundo todo desde 1985, e, ao mesmo tempo ajudar na escolha de um bom programa de fim-de-ano, que o momento da virada está chegando aí, de forma inexorável, dentro de poucas horas. Agora, de nada servirão bons propósitos ou belas promessas. A não ser para o 2008. Mas desfrutar com o que há de melhor os últimos instantes deste ano que se vai, é algo justo e prazeroso. Faça como fiz e curta a cerimônia do cinema, algo também insubstituível e se você não tem condições de possuir em casa um “home theater” saia, vá mesmo à uma sala de cinema e viva em toda a intensidade a história que o próprio Garcia Márquez diz que escreveu “com as entranhas”.
O que você, leitor amigo, acha de uma paixão devoradora que Florentino Ariza viveu por Fermina Daza durante toda a sua vida e que lhe rendeu uma espera de 53 anos, 9 meses e 11 dias?
Vejam o filme, leiam o livro, e bom 2008. É que a suprema lição da obra de Gabriel Garcia Márquez e que dá para aproveitar em nossa vida é justamente a capacidade da espera, a extensão da esperança e a crença ilimitada em que um dia as coisas que queremos, chegarão. Sem isso talvez fosse impossível viver.
Tecnicamente, é justo que se diga que nem todos os indivíduos possuem a resistência suficiente para suportar. Mas, também é verdade que se aprende, não é mesmo, “Florentino Ariza”?
O brasileiro é um exemplo disso. Com sua teimosia, sua sabedoria cabocla que o ensina e orienta na hora de enfrentar as dificuldades, vai atravessando o mar, sem afogar-se. Como se diz no Rio de Janeiro, enfrentando “uma onda de cada vez”.
E assim se chega à outra margem, ao outro lado, ao fim do mês, ao novo ano, ao fim da vida, à nova vida (oxalá que exista...) ou ao simples e obscuro esquecimento.
Já sabemos que a inflação deverá fechar acima dos 7% por cento (a oficial), que o salário mínimo subirá como sempre (desde que foi criado por Getúlio Vargas) em abril (ou maio), que o mundo continua apesar do assassinato de tantos inocentes, da morte de Benazir Bhutto, uma esperança para o pobre Paquistão, longínquo, mas não tão distante, tão próximo do Brasil nos números negativos, e do dinheiro posto fora em nosso país, do fim da CPMF, “acidente” em que, como se sabe, não morreu ninguém e serviu para muita coisa. E assim é e somos e assim será 2008. Só muda a folhinha do calendário.
VOCÊ É A FAVOR DAS CORUJAS
OU DO FOGUETÓRIO POLÍTICO?
Walter Galvani, em 03/01/2008
Crônica publicada n esta quinta, no jornal Diário de Canoas:
A FAVOR DAS CORUJAS
Walter Galvani
Todos conhecem aquela passagem bíblica do “atire a primeira pedra”, quem não tiver nenhuma culpa. Eu também a tive. Já soltei foguetes, montei linhas de rojões, fiz tudo errado. Eram bons e velhos tempos e chegava a hora do Ano Novo, a gente fazia explodir todas as preocupações com aquela bateria de fogos. Lindo! Inesquecível. Mas, errado. Saudosa memória, meu pai sempre levantava a voz (uma das raras vezes em que a levantava, normalmente preocupado em ser polido e bem educado) mas, nas duas vezes em que tradicionalmente gritava “Lá vem ele!”, queria dizer, o Ano Novo, à zero hora do primeiro dia do novo ano ou na Semana da Pátria, quando, do centro da Praça da Bandeira, parecia ser o dono exclusivo da notícia de que estava chegando o “Fogo Simbólico”, em mãos de um atleta do Oriente, do Brasil ou do F.C.Canoense.
Quando parti para outros rumos levei na cabeça a idéia de comemorar o Ano Novo e, confesso, muitas vezes participei de foguetórios que hoje vejo como irresponsáveis. E tanto os vejo como irresponsáveis que aplaudi e aplaudo a atitude da Brigada Militar, que, através do seu Batalhão Ambiental, para que se protegessem os filhotes de coruja, suspenderam a promoção de fogos de artifício da prefeitura de Capão da Canoa. Salvaram-se os filhotes, o casal, o Brasil inteiro ficou feliz.
Hoje, passado o Ano Novo, me pergunto se não teria sido mais proficiente e eticamente correto, a prefeitura de Capão (e tantas outras) aplicar a verba que seria “queimada” na meia noite do dia 31, em melhorar as condições de habitação, saúde, saneamento, daquela vila que a gente atravessa olhando com o olho esquerdo, ao dirigir na Estrada do Mar, enquanto o olho direito contempla o luxo e o egoísmo daquelas edificações todas em sistema de condomínio fechado.
O dinheiro posto fora pelo país inteiro para fazer esta comemoração poderia ter sido representado simbolicamente pela distribuição de bolsas de estudo para os filhos do povo, este imenso povão que se diverte vendo as bobagens (a violência e a ignorância) de redes de televisão e passando fome, comendo abaixo das necessidades básicas para sua alimentação. Pergunto se os exageros, os absurdos, os crimes não poderiam ser poupados, como um acidente de trânsito em Panambí, minutos antes da meia noite, quando o condutor de um carro matou o motorista que lhe ia a frente, um foguete que explodiu na cabeça de uma dona de casa numa “comemoração” de Ano Novo em Santa Terezinha, ou a bala perdida que matou uma jovem de 18 anos em São Luiz Gonzaga.
BICENTENÁRIO DA IMPRENSA
E OS CENTENÁRIOS DE
CYRO MARTINS E MACHADO DE ASSIS
Walter Galvani, em 05/01/2008
Crônica publicada no jornal
Diário Popular de Pelotas
AS BOAS DATAS
REDONDAS
Walter Galvani
O ano de 2008 será pródigo em agradáveis datas redondas. Não, não se assustem, nenhuma delas é o aniversário de algum bandido ou a celebração de um atentado. Afinal de contas, com os últimos acontecimentos, tipo assassinato de Benazir Bhutto ou comemoração de um apenado que, romanticamente, promete “não mais fugir” do regime de prisão a que foi condenado, pode-se pensar que o país só quer cantar glórias duvidosas ou conquistadas com os pés. Nada contra os feitos esportivos, mas vamos recordar que a Maratona tem esse nome, não pela prova atlética, mas pelo prodígio de comunicação que representou a corrida de mais de quarenta quilômetros para contar uma vitória dos gregos.
Temos um Bicentenário digno de ser festejado: o da Imprensa Brasileira, com este nome e este objetivo. A primeiro de junho de 1808, circulava em Londres o “Correio Braziliense”, (assim mesmo pois à época se grafava “Brazil” com Z), editado pelo “gaúcho” adotivo Hipólito José da Costa. Ele nascera na Colônia do Sacramento que, numa das oscilações político/guerreiras do sul do continente, perdemos para o vice-reinado da Espanha e conseqüentemente para a futura República Oriental del Uruguay.
Hipólito educou-se em Pelotas, com um tio sacerdote e depois seguiu o caminho de Coimbra (Portugal) e Inglaterra, onde fundou o jornal que ajudou a criar as condições para a independência do Brasil. A ARI (Associação Riograndense de Imprensa) vai comandar as comemorações.
Machado de Assis. Centenário da morte do maior escritor brasileiro de todos os tempos, ocorrida no dia 29 de setembro de 1908. Muitas edições comemorativas se terá, e já começaram. O lançamento agora do trabalho do poeta e publicitário Luiz Coronel, “Dicionário Machado de Assis – Ontem, hoje e amanhã”, (patrocinado pelo Grupo Zaffari, eis um bom exemplo de sabedoria promocional) abre uma longa série de expressão nacional e internacional.
Cyro Martins. No dia 5 de agosto de 1908 nascia o grande romancista, médico, psicanalista, contista e profundo conhecedor da vida rio-grandense, autor da famosa Trilogia do Gaúcho a Pé, em que antecipava com precisão sábia, a crise da vida no Pampa. Já no ano passado, abrindo a comemoração realizou-se um seminário na Feira do Livro de Porto Alegre e também algumas instituições, como a PUCRS, trabalham em cima deste acontecimento enorme na área cultural. Preparem-se, pois 2008 será pródigo de grandes momentos para reflexão e elevação. Não será preciso festejar nenhum pássaro exótico ou ficar esperando por explosões de bombas.
O QUE NOS FOI IMPOSTO
AO VIRAR O ANO...
Walter Galvani, em 06/01/2008
Crônica publicada no jornal
ABC DOMINGO
FACADA NA MADRUGADA
Walter Galvani
Nem me dei conta. E o pior é que ainda não começou a sangrar. Mas, ao começar a ler a verdade, depois dos prognósticos falhados de Ano Novo e da costumeira choradeira do presidente Lula e de vários ministros, por causa da CPMF que o pobre Adib Jatene criou com as melhores intenções, descobri que havia sido atingido na ilharga e que não teria como fugir ao sangramento. Revistas do exterior que assino, livros que compro, enfim, tudo o que o celebrado cartão de crédito nos facilita, agora virá mais salgado para compensar a perda do governo federal com a eliminação de um tributo que, na verdade, não servia mais e nunca serviu às suas finalidades.
Assim será, como sempre foi. Nada mudará no Brasil de 2008, bem como nada mudou em 2007, como não havia mudado nada quando o PT chegou ao poder, o que demonstra que não importa qual o partido que chega lá em cima, pois não somos nós que mudamos, é o Natal que muda... Parafraseando a pergunta do velho e insubstituível Machado de Assis, “Mudaria o Natal ou mudei eu?...”, podemos afirmar que agora já temos a resposta. (O sempre oportuno Machado será o mote de muitos trabalhos, pesquisas e discussões neste ano em que se comemora o primeiro centenário de sua morte que seu a 29 de setembro de 1908. O cortejo do seu sepultamento foi, se disse na época, “uma apoteose nacional”. Não é sem tempo que o relembremos diante dos fatos mínimos do dia-a-dia.)
Todos os dias, aliás, precisamos aprender com o que nos reserva o cotidiano. Quando menos esperamos desaba sobre nós, pobres rãs a pedir um rei, um novo edito presidencial, um novo decreto que nos derruba, sem contemplação. E, depois de respirar fundo, nós os brasileiros, dedicados e competentes, bons cidadãos e acomodados pagadores de tributos, seguimos em frente. Estes primeiros dias do ano, enquanto a maioria se diverte, é a hora de aumentar os custos e repassá-los ao consumidor. E isso vale para as grandes redes e para o botequim da esquina, para os estacionamentos pagos e para os pedágios, tudo enfim recebe a sua percentagem, em cima de um cálculo mais ou menos fictício que gira em torno de 7 por cento. Mas, e se você quiser fazer os cálculos, porque lhe parece “pouco” e descobre que algo que teve uma alta de 3,50 para 5,00, em verdade subiu 30 por cento?
Acordem, brasileiros, acordem. Pagaremos mais imposto sobre a renda, mais caro pelos estacionamentos, pelos pedágios, pelo preço da gasolina e a desculpa será a contribuição provisória que, de fato, queriam permanente.
O GRANDE PERIGO DA
FEBRE AMARELA
Walter Galvani, em 09/01/2008
Não é uma brincadeira e por maiores que
possam ser os prejuízos para o turismo
brasileiro, é preciso divulgar, as duas
mortes suspeitas.
FEBRE AMARELA
Walter Galvani
Não se trata de entrar na psicose coletiva, mas num país de 188 milhões de habitantes, sem boas condições de saúde pública para a maioria, um surto de Febre Amarela é de tirar o sono e... as férias dos responsáveis pelos setores em níveis municipais, estaduais e federais. Não adianta dizer que é “muito cedo”, que é um problema só de Goiás e Brasília, onde morreu Graco Abubakir e nas proximidades, no tempo e no espaço, de um problema com macacos. Ora, problema com macacos, afirma-se, com certeza foi onde nasceu a AIDS. E por transmissão via contato sexual.
Sem esconder ou tentar esconder as barbaridades que o ser humano pratica, o problema é o fantasma da febre amarela.
Há quinze dias morrera em Goiânia, o lavrador João Batista Gonçalvez, com “suspeita” de febre amarela.
Mas, a transmissão da febre amarela se dá pela picada do mosquito transmissor do vetor, que é o “Haemagogus”. Direto ao sangue como o nome diz. Não é contagioso de indivíduo para indivíduo, mas as mesmas providências que se tomam contra o mosquito transmissor da dengue, devem ser adotadas contra o transmissor da febre amarela.
Como enfrentar?
O governo federal precisa deixar de lado a fantasia e atacar para valer, esquecendo o problemão que isso vai representar para o turismo, o que é indiscutível. Hoje, os turistas europeus e norte-americanos precisam temer, além das questões de insegurança, por causa da violência brasileira (ainda esta semana houve um tiroteio com mais de 30 disparos na frente do Hospital Mãe de Deus em Porto Alegre) o perigo da febre amarela.
Problema para o turismo, porque terá de ser divulgado o assunto, com muita intensidade. E isso sim, é preciso ser tratado na televisão e no rádio, nos jornais e em out-doors das empresas estatais, nas ruas das cidades.
Porque só há um jeito de se prevenir: vacinar-se.
Todos os viajantes que chegam ou saem do país, precisam vacinar-se contra a febre amarela e isso é preciso fazer, porque não existe outra maneira de prevenir-se.
Um mosquito chega, na calada da noite ou ao entardecer, de manhã cedo ou ao meio dia, ele não tem hora de circulação...
O GRANDE SUSTO
DA FEBRE AMARELA
Walter Galvani, em 10/01/2008
Crônica publicada no jornal
"Diário de Canoas", que circula
na maior cidade da região metropolitana
de Porto Alegre, editado pelo
Grupo Editorial Sinos.
Canoas é minha terra natal.
FEBRE AMARELA
Walter Galvani
Não se trata de entrar na psicose coletiva, mas num país de 188 milhões de habitantes, sem boas condições de saúde pública para a maioria, um surto de Febre Amarela é de tirar o sono e... as férias dos responsáveis pelos setores em níveis municipais, estaduais e federais. Não adianta dizer que é “muito cedo”, que é um problema só de Goiás e Brasília, onde morreu Graco Abubakir e nas proximidades, no tempo e no espaço, de um problema com macacos. Ora, problema com macacos, afirma-se, com certeza foi onde nasceu a AIDS. E por transmissão via contato sexual.
Sem esconder ou tentar esconder as barbaridades que o ser humano pratica, o problema é o fantasma da febre amarela.
Há quinze dias morrera em Goiânia, o lavrador João Batista Gonçalvez, com “suspeita” de febre amarela.
Mas, a transmissão da febre amarela se dá pela picada do mosquito transmissor do vetor, que é o “Haemagogus”. Direto ao sangue como o nome diz. Não é contagioso de indivíduo para indivíduo, mas as mesmas providências que se tomam contra o mosquito transmissor da dengue, devem ser adotadas contra o transmissor da febre amarela.
Como enfrentar?
O governo federal precisa deixar de lado a fantasia e atacar para valer, esquecendo o problemão que isso vai representar para o turismo, o que é indiscutível. Hoje, os turistas europeus e norte-americanos precisam temer, além das questões de insegurança, por causa da violência brasileira (ainda esta semana houve um tiroteio com mais de 30 disparos na frente do Hospital Mãe de Deus em Porto Alegre) o perigo da febre amarela.
Problema para o turismo, porque terá de ser divulgado o assunto, com muita intensidade. E isso sim, é preciso ser tratado na televisão e no rádio, nos jornais e em out-doors das empresas estatais, nas ruas das cidades.
Porque só há um jeito de se prevenir: vacinar-se.
Todos os viajantes que chegam ou saem do país, precisam vacinar-se contra a febre amarela e isso é preciso fazer, porque não existe outra maneira de prevenir-se.
Um mosquito chega, na calada da noite ou ao entardecer, de manhã cedo ou ao meio dia, ele não tem hora de circulação...
Só para lembrar: antigamente comemorava-se o dia 9 de Janeiro, como uma grande data da nacionalidade. Foi em 1822, o Dia do Fico. Lembram da frase de Dom Pedro I: “Se é para o bem de todos e felicidade geral da nação, digam ao povo que eu fico!” E ficou. Foi o introdutor da ideologia do “Fico”, no Brasil. Depois os políticos trataram de aperfeiçoá-la para o “Fico no Poder. Enquanto der...”
CHÁVEZ DIZ QUE AS FARC
TEM PROJETO POLÍTICO.
VOCÊ, O QUE ACHA?
Walter Galvani, em 13/01/2008
Crônica publicada hoje no jornal
ABC DOMINGO,
publicado pelo Grupo Editorial Sinos
NEGOCIANDO VIDAS...
Walter Galvani
Hugo Chaves, Álvaro Uribe, o envelhecido líder das FARC, os políticos interessados e nesse grupo entram até Sarkozy e Lula, ou seja, França e Brasil, com a devolução das duas reféns, Clara Rojas e Consuelo Gonzalez, seqüestradas em 2002 e 2001, e o menino Emannuel, nascido em cativeiro, parece que o humanismo se impôs, ao menos neste “round” da luta. Mas, não se iludam. Eu gostaria de lhes dar este abono no café da manhã (ou almoço) neste domingo para o qual nos haviam prometido temperatura amena na Região Metropolitana (e olhem que, “promessa” do Prof. Eugênio Hackbarth, da Metsul Meteorologia, é para agarrar com as duas mãos), mas, infelizmente, não é o que ocorre.
São 500 os guerrilheiros em mãos do governo colombiano, conforme as FARC e, por outro lado, a contabilidade aponta além de Ingrid Betancourt, a ex-candidata à presidência do país, 33 soldados/policiais, 3 americanos e 8 políticos, entre os quais a senadora, que é o “bem” mais valioso, se é que se pode tratar assim, em mãos dos “revolucionários”, se é que se pode chamá-los por este termo.
Respeito, em toda a linha, a posição dos revoltosos na história da humanidade, caso contrário não estaríamos, hoje, reverenciando Tiradentes, Che Guevara ou Jesus Cristo entre outros. Mas, faz tanto tempo que as FARC se notabilizaram, pelo bem ou pelo mal, que já nem lembramos o que, de fato, desejam e se os seus métodos são apropriados ou precisariam de uma revisão.
Vejam que, só estas duas reféns libertadas esta semana, estavam na posse deles há sete ou oito anos. Dizem que, além de Ingrid, que é da “mesma safra”, há outros tão ou mais antigos.
Já se chatearam todos, os reféns de viverem em condições adversas no meio da floresta e os guerrilheiros que, toda a vez que se deslocam e procuram não deixar vestígios de onde andaram, ainda tem que arrastar os reféns, com seus livros, idiossincrasias, cigarros, charutos, velas e religiões. É over-dose para todos.
O bom mesmo, para a guerrilha colombiana e para o governo de Álvaro Uribe, para o país e para o mundo, seria uma revisão geral, e, zero a zero e bola no centro do campo para começar o outra vez.
Talvez então se tornasse possível o reexame da questão toda, a análise das motivações revolucionárias, até para saber se cabem no mundo de hoje. Dizem que há guerrilheiros com “laptop” e, em compensação, gente que nem sabe que existe Internet.
CONTRA A LUTA ARMADA
E CONTRA O
CONDENÁVEL HÁBITO
DE FAZER REFÉNS
Walter Galvani, em 14/01/2008
Hugo Chávez começou a semana com uma
surpreendente profissão
de fé democrática:
CONTRA LUTA ARMADA
E FAZER REFÉNS
Walter Galvani
Afinal, tenho o primeiro nome a subscrever a lista que sonhava percorrer os diversos países do mundo, sejam da subdesenvolvida África, ou da explosiva região do Oriente Médio ou da úmida e arborizada (ainda) América Latina, onde em alguns países (exemplo, Colômbia) há imensos territórios “de ninguém”, dominados por movimentos que se situam entre “guerrilha pelo pão de cada dia” e “revolta armada contra as instituições”.
Pois a adesão fundamental que acabo de receber é do presidente da Venezuela, pasmem, ele mesmo, Hugo Chávez. Talvez para auto-vacinar-se contra aventureiros, acaba de declarar que “é contra a luta armada e contra o hábito de fazer reféns”.
Esta declaração democrática se produz na seqüência dos acontecimentos em que fortaleceu sua posição de líder do seu país e seu renome internacional, ao interferir vitoriosamente na libertação de duas reféns pelas FARC: Clara Rojas e Consuelo González.
O filho de Clara, Emmanuel, ao que se informa, “fruto de uma relação consentida” com um guerrilheiro, e nascido no cativeiro, já estava, desde os 8 meses de idade (hoje tem 3 anos) num orfanato do governo, com identidade falsa, o que, afinal, o salvou da morte nas difíceis condições na floresta.
Diz-se que há ainda 700 reféns, aproximadamente, em mãos das FARC e Chávez fez hoje um apelo para que cessem os guerrilheiros de praticar o hábito de fazer reféns. Está certo ele e se é sincero – quem garante? – em suas posições de defesa da democracia, contra a luta armada e contra este mau costume de forçar as pessoas privando-as da liberdade, então, estamos todos no bom caminho. Duvidoso nesta estrada cimentada com tantas mentiras e enganos, mas vale a pena acentuar.
Também acho que o mais justo seria negociar um desarmamento geral de corpos e espíritos, eleições fiscalizadas pela ONU, constituição de uma assembléia nacional com votação universal, libertação de todos os detidos, devolução dos reféns estrangeiros aos seus países de origem e, depois disso tudo, teríamos então uma nova Colômbia.
É um perigoso exemplo de democracia. Será que viveremos o suficiente para testemunhá-lo em ação?
INSURGENTE OU TERRORISTA,
NÃO É UMA SIMPLES
QUESTÃO SEMÂNTICA
Walter Galvani, em 15/01/2008
O que são as Farc?
Terroristas? Insurgentes?
Onde se situam?
O presidente Álvaro Uribe, da Colômbia, cederá e iniciar-se-ão conversações?
TERRORISTA OU INSURGENTE
Walter Galvani
“Palavras, ah palavras”, como diria Cecília Meirelles, mas o quanto elas são perigosas, qualquer um de nós pode ser testemunha, eis que a palavra fere, faz sangrar, mata, explode, subverte, provoca rompimentos, irreconciliáveis muitas vezes e liqüida com relações, parentescos, amizades, amores e vidas. Talvez seja a mais letal de todas as armas, por isso que uma discussão sobre palavras não deve ser tomada como algo pueril ou dispensável.
Agora mesmo assistimos à um debate internacional. As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as chamadas “Farc”, não querem ser classificadas como “terroristas” e contam com o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, como seu advogado principal, que conseguiu, após longa e tortuosa ação diplomática, a liberdade de pelo menos dois reféns importantes, Clara Rojas e Consuelo Gonzalez. Eles querem ser chamados de “insurgentes”, declaram-se revolucionários e não simples terroristas. O próprio presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, abriu hoje a possibilidade de mudar esta denominação e iniciar negociações políticas. Clara Rojas, ex-deputada e que foi refém durante seis anos, disse saber que eles “são receptivos à uma discussão inteligente”.
Mas, afinal o que é terrorismo e o que é insurgente?
Ora, o significado muda de acordo com os tempos, nem sempre uma palavra permanece com a mesma acepção indefinidamente, como uma “mesa”, uma andorinha ou um verão. Mesmo assim, no sentido figurado estas palavras também evoluem, mudam, tornam-se mais fortes, mais fracas, conforme a inserção no discurso alcançam outros significados e isso sem apelar para a moda da terminologia do texto e do subtexto.
Objetivamente, para um leitor (ou ouvinte) comum da língua portuguesa, desde o século XIX, “terrorista” quer dizer o que usa de violência para conseguir a desorganização do sistema político vigente e assim conquistar o poder.
É comum opor à esta denominação que caracteriza uma ação doutrinária e prática, a conquista do poder pelas urnas. Todo mundo sabe o que se quer dizer: através de eleições.
As Farc, aparentemente, não acreditam em eleições pois nelas não confiam, ou preferem o caminho, que julgam mais curto, dos métodos violentos, lançando mão de seqüestros, desapropriações, roubos a bancos, formação de quadrilhas, tomada de reféns.
O que são insurgentes? São os que se rebelam contra algo, se amotinam, se revoltam.
Aparentemente há uma gradação neste significado, embora alguns dicionários prefiram classificar os dois termos no mesmo estágio de sinonímia. Você pode ser insurgente por meios pacíficos, deixando de comer, de falar, de dialogar com o governo, apresentando publicamente seus protestos. Já pelo terrorismo está implícito o uso de armas, bombas, modernamente pelos exemplos enfáticos do Oriente Médio (generalizando) até o pé das montanhas do Afeganistão ou do Paquistão, do Iraque invadido, esta invenção dos ingleses que implantaram uma nação onde outrora conviviam pacificamente (ou não) vários povos distintos, (como a incrustação do estado de Israel pelas Nações Unidas em 1948, quando 800 mil palestinos perderam seus bens e sua terra), suicidas, carros-bomba, tudo isso no mesmo pacote de destruição e, muitas vezes, auto-imolação.
A palavra, contudo, insurgente é parente próxima do terrorista, embora nem todo o insurgente seja terrorista e nem todo o terrorista seja, de fato, um insurgente. O terrorismo também pode ser “de Estado” que age politicamente prendendo, expulsando, torturando ou matando inimigos ou adversários.
Muito diálogo e concessões de parte a parte, parece ser o único caminho para a guerrilha colombiana e o governo do seu país. E um entendimento que vá além da semântica...
NAS CADEIRAS DE VIME, COM FIDEL
Walter Galvani, em 16/01/2008
Lula foi conhecer como funciona a
"suite" Havana...
Eu também sentei nas cadeiras de vime. Só não falei com o Homem. Para vê-lo, tive que deslocar-me até o Estádio da Revolução, cheio de fotos imensas de Che Guevara, bem próximo ao simpático e modesto prédio da “Casa de Las Américas”, onde Fidel Castro falaria ao povo.
Lula sentou-se nas tais cadeiras de vime, de “mimbre”, e também desfrutei de alguns momentos de descanso em móveis semelhantes, para conversar com Luis Felipe Rocca, o chanceler, que, pelo que vejo está prestigiado.
Isso foi em 2002. Mais tarde voltei à Cuba, em janeiro de 2004, para participar do júri que escolheu o Prêmio Casa de las Américas daquele ano. Eu fora premiado em 2002, referente ao ano de 2001.
Uma das coisas que me chamou a atenção foi justamente a simplicidade que representavam os móveis de vime, onde todo mundo se sentava com a maior naturalidade.
Por isso, não me surpreende que neles Fidel tenha recebido Lula e tenha tratado de assuntos tão importantes como um possível convênio para a Petrobrás pesquisar petróleo no golfo do México, em águas cubanas. É um achado. Tomara que os Estados Unidos não tomem isso como uma provocação.
Sabe-se como é difícil o xadrez político das Américas e sabemos todos o valor da pedra Cuba para os Estados Unidos. Um regime socialista ali, na cara da pátria do neo-liberalismo capitalista não deve ser nada palatável para nenhum candidato, mesmo que a mudança esteja chegando. Ao contrário: Cuba pode ser tomada até como aposta de quem quer conquistar o poder, tipo assim: “Bem, já que o Bush não conseguiu varrer Fidel dali, eu conseguirei....”
Foi um gesto valente por parte de Lula sentar-se nas tais cadeiras de vime. Para mim, foi mais fácil e mais cômodo. Afinal lá estive para trazer uma estatueta para casa (e mais 3.000 dólares que me foram creditados numa agência de um banco espanhol) e mais tarde, vivi a oportunidade de conhecer o interior cubano.
Sei o quanto a vida lá é dura, todos sabemos que a dificuldade maior vem do bloqueio econômico exercido pelos americanos, com o que eles querem demonstrar que um regime comunista é impraticável, mas também sabemos ler nas linhas e nas entrelinhas. E tem mais: há censura sim, mas foi em Cuba que assisti ao documentário “Suíte Havana”, uma das visões mais cruas e duras sobre a vida naquele país.
Ah sim, e antes que seja tarde, foi nas ruas de Havana que vi, ao lado dos velhos carros americanos com manutenção difícil por causa da dificuldade de peças, flamantes automóveis franceses (Renault acima de todos) e espanhóis.
Alguém fala sobre isso?
E também o transporte coletivo em carroças no interior.
Difícil, sacrificante e sacrificado, mas parece que se sabe bem porque.
E ia me esquecendo: há muitos ônibus e micro-ônibus, sim, com as carrocerias muito conhecidas nossas, feitas em Caxias do Sul, da Marcopolo.
FUNDAÇÃO CULTURAL DE CANOAS
É EXEMPLO A PROMOVER
Walter Galvani, em 17/01/2008
Crônica publicada hoje no Diário de Canoas
SÓ FALTOU O BITTER ETGES...
Walter Galvani
Esta semana estive na velha estação do trem no centro de Canoas, ali na av. Vitor Barreto (nome em homenagem ao antigo proprietário da Chácara Barreto), diante do prédio onde funcionava o ginásio São Luiz. É bom não esquecer que em março completa-se o Centenário da criação do La Salle, hoje Centro Universitário, em março de 1908 apenas um colégio destinado à educação básica, com ênfase na área agrícola, nada mais adequado para um distrito de Gravataí, dedicado à criação de gado e plantação de arroz. Mas, a minha visita prendeu-se à posse de Francisco Trois (nunca esquecendo sua condição de Mestre Internacional de Xadrez) e um dos intelectuais canoenses de maior destaque e intensa dedicação à Cultura nestes últimos anos. Não é por nada que se trata de uma reeleição.
Lá estava ele, recebendo os cumprimentos junto com os demais membros do Conselho Diretor da entidade, João Amarante de Oliveira e Silva, Antonio Carlos Escobar e Valmyr Fernandes.
O ato foi enriquecido com a homenagem que a Fundação prestou à própria prefeitura da cidade, pois a data não poderia ser mais significativa: 15 de janeiro, completando-se pois, desde 1940, justos 68 anos da existência oficial do município de Canoas. A instalação se deu nos altos da rua Santos Ferreira, conforme crônicas da época. A referência ao ato histórico e a leitura de registros da imprensa em 1940, foi feita pelo poeta Tonito Canabarro Trois, meu colega dos tempos de estudos no Externato São Luiz dos saudosos Irmãos Lassalistas.
Foi um instante inesquecível e jovens e “antigos” confraternizaram por alguns momentos num verão que nos lembrava sim, o verão de 1940, que parecia prever as grandes chuvas e as inesquecíveis enchentes do ano seguinte, quando a esquina das ruas Cel. Vicente com Av . Brasil se transformou em porto para as “gasolinas” (assim se chamavam as lanchas) que faziam o transporte para o centro de Porto Alegre. Relembrou Tonito Trois que, se houvesse sido seguida a inspiração do primeiro prefeito então nomeado (a 5 de janeiro) e que assumia no dia 15 com a instalação oficial do município, Edgar Braga da Fontoura, a povoação teria se situado muito mais acima, à altura do atual hospital Na.Sa. das Graças e não teriam ocorrido os prejuízos enormes das enchentes que se sucederam deste então.
Hoje não há como corrigir os erros do passado e oxalá que não se produzam novos. Foi uma bela comemoração. Senti falta apenas do “Bitter Etges”...
DOM JOÃO VI VAI SAIR NO CARNAVAL...
Walter Galvani, em 21/01/2008
Crônica publicada na edição de 20 de janeiro do jornal ABC DOMINGO,
do Grupo Editorial Sinos
OS DUZENTOS ANOS
Walter Galvani
Para começar seria conveniente alterar o título desta crônica para dizer que nem tudo mudou nestes “últimos duzentos anos”. Estamos começando com uma homenagem ao príncipe Dom João de Orleans e Bragança que, há dois séculos atrás, fugindo das tropas de Napoleão (que mais tarde reconheceu, “este foi o único que me enganou”), atravessou o oceano Atlântico com toda sua corte, mulher, filhos, irmãs, cunhados, tios e serviçais, nobres e também esforçados marinheiros e chegou ao Brasil, aportando na Bahia de Todos os Santos no dia 22 de janeiro de 1808.
Nunca será demais registrar que foi com a vinda do príncipe regente que se alterou a vida brasileira, abrindo-se os portos “para as nações amigas” (leia-se aqui Inglaterra), criando mais adiante o Banco do Brasil, o Museu Histórico, a Biblioteca Nacional, e, em 1816, quando já proclamado Rei, a união no mesmo nível dos reinos de Portugal, Brasil e Algarves.
Este passo gigantesco que representou para nosso país, (até 1808 uma humilde colônia distante da Europa e portanto, do centro dos acontecimentos políticos mundiais), um encaminhamento para a independência que veio em 1822, proclamada por Pedro, filho de Dom João VI, foi dado pelo príncipe até então tido como pusilânime e indeciso.
Nem preciso recomendar o excelente livro de Laurentino Gomes, fruto de exaustiva e criteriosa pesquisa, editado pela Planeta, e que tem como título conciso e correto, “1808” e como subtítulo não mais do que demagógico e comercial, “Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a história de Portugal e do Brasil”, mas que funciona publicitariamente, que o digam os dados das listas de “best-sellers” há seis meses. Não é necessário recomendar porque esta presença nas listagens assegura que o povo o descobriu. Leiam. É ótimo. E leiam-no mais agora que estamos chegando ao período, que começa exatamente com o dia 22 de janeiro de 1808, onde Dom João aportou a bordo da nau “Príncipe Real”, às 11 horas de uma luminosa manhã. Ancorou ali pelas proximidades onde são hoje o Mercado Modelo e o Elevador Lacerda. Salvador não passava então dos 40 mil habitantes e já havia perdido sua condição de capital do Brasil colônia. A sede do vice-reinado já estava no Rio de Janeiro, para onde Dom João seguiu mais adiante, e de onde governava o Conde dos Arcos.
Desde então passamos a adorar a Corte, o rei, depois o imperador, seus esplendores e naturalmente, seus escândalos. Tanto que Dom João VI sairá em 17 escolas de samba no carnaval carioca deste ano. Precisa mais?
DUZENTOS ANOS DA CHEGADA DA FAMÍLIA REAL
PORTUGUESA AO BRASIL
Walter Galvani, em 21/01/2008
A chegada do Príncipe Regente, sua mãe,
a "Rainha Louca" e sua esposa (muito mais
esperta, politicamente falando, do que louca...)ajudou a preparar o caminho
da independência brasileira.
Leiam, a seguir, a crônica publicada no
jornal ABC DOMINGO que é, o jornal que
circula aos domingos em toda a região
metropolitana de Porto Alegre (cerca de
4 milhões de habitantes concentrados junto
à capital do Rio Grande do Sul)
O "TSUNAMI" MUNDIAL NAS BOLSAS
Walter Galvani, em 22/01/2008
Foi assim que o "Correio do Povo" de Porto Alegre, jornal onde comecei meu trabalho jornalístico na capital gaúcha em 1955, "mancheteou" a crise que nos lembra automaticamente 1929
A GRANDE DEPRESSÃO
Walter Galvani
Não há como não se reportar à famosa “Quinta-feira Negra”, 29 de outubro de 1929. Talvez hoje, movimentos negros se rebelassem contra o uso do adjetivo, mas foi assim mesmo que ela ficou conhecida, historicamente, e já se passaram 78 anos. Por aí ainda existem contemporâneos daquela data e pelo menos a sua repercussão ficou marcada e transmitida de geração a geração. Os efeitos dela duraram no mínimo seis anos e durante este período, que aliás antecedeu a II Guerra Mundial que viria logo depois (1939), foram inúmeros os que se suicidaram, abandonaram os negócios, emigraram ou passaram numa hora para outra de ricos e remediados a dependentes dos serviços sociais do governo americano, o principal país afetado.
O efeito daquela quinta-feira em que os 16 milhões de títulos apresentados à venda na Bolsa de Nova York literalmente “desabaram” e perderam um terço do seu valor, prolongou-se por muitos anos e estendeu-se a inúmeros outros países. Alterou a composição do poder mundial (os Estados Unidos detinham 22% do PIB mundial na oportunidade, a Alemanha, que protagonizou a guerra dez anos depois, 9%) e o desmoronamento de Wall Street virou livro, filme, epopéia histórica sempre relembrada.
Por isso, e não poderia ser de outra maneira, o “Tsunami” – como foi batizado – que varreu as bolsas de valores neste início de semana, foi apontado como o possível início de uma quebradeira geral.
Aliás, já fora precedido pelas notícias sobre o mercado imobiliário americano e alguns dos seus principais bancos, em dificuldades.
Para quem não entende ou nunca entendeu como se compõe o mercado financeira mundial – que não para, pois quando cessa o expediente nos estabelecimentos ocidentais, está apenas começando no Extremo Oriente – é hoje uma autêntica mesa de jogo, diante da qual os “bingos” laboriosamente fechados pela polícia brasileira, são “fichinhas”...
A ópera está apenas na abertura. Ainda vamos ouvir muitas árias, intermezzos e duetos, antes do “gran finale”. O pior é que o retrospecto não é nada animador. Relembre-se, se não quiserem ir até 29, o “11 de setembro de 2001” e os dias subseqüentes, quando o atentado às Torres Gêmeas demonstrou que os Estados Unidos não estavam imunes ao fracasso, aos atentados, enfim, aos percalços do dia-a-dia que afligem os demais países que trotam em sua esteira.
Quanto ao Brasil, o presidente Lula diz que está tranqüilo, o presidente Henrique Meirelles do BC, informa que “estamos preparados” e Guido Mantega avisa que a nossa economia está blindada e podemos todos, dormir em paz. O que é o mais perigoso de tudo.
O pior é que não adianta não ser jogador, apostador ou contribuinte da Bolsa. O jogo de cartas, o castelo que desmorona é conhecido de todos desde a infância.
DE CABEÇA, NA HISTÓRIA...
Walter Galvani, em 23/01/2008
Um dia para ninguém botar defeito...
Especialmente as FARC e os anti-Fidel.
Ou melhor: anti-Cuba "Libre"...
QUE DIA!...
Walter Galvani
Começo minha jornada olhando o que se passa no mundo, depois da leitura dos jornais que me encaminharam à oscilação das bolsas, à prostituição de meninas nas ruas de Porto Alegre (que a Polícia não encontrou..., claro não tripulava carros último tipo) e à convocação da nova seleção brasileira, com Renan, Pato e outros notáveis recém saídos das fileiras do Internacional de Porto Alegre (ou do Milan ou da Inter de Milão. Aliás só três jogam no Brasil, além do goleiro do Internacional, Renan).
Mergulho na História em busca de dias para santificar o dia. E o que encontro eu? A ironia amotinada nos recantos dos bons velhos tempos.
Vejo, por exemplo, que no dia 23 de janeiro de 1994, as FARC invadiram uma festa do partido que, também ironicamente, se denominava “Esperança, Paz e Liberdade” e jogaram para cima os “slogans” partidários em meio à intensa fuzilaria. Foi “paz e liberdade” para 35 mortos no ato. Assassinados em nome da “Esperança”...
Quatro anos depois, o papa João Paulo II, o mesmo que encheu o mundo de esperança, paz e liberdade, levou o diploma de restauração do catolicismo de Fidel Castro, aliás ex-aluno lassalista, (nossos colegas ex-alunos costumam ir longe...) e disse que era hora dos jovens cubanos pararem de fugir para os Estados Unidos: “Não busquem um mundo falso, baseado na alienação e no desenraizamento!”
Tinha razão o Papa, mas é difícil resistir às luzes de Miami que se avistam da costa ocidental cubana. Ainda mais com os apelos de “esperança, paz e liberdade”...
De ironia em ironia chegamos assim ao 2008.
E então, mergulho em meu próprio arquivo “Calendas” e redescubro que este é um dia em que a Humanidade ficou mais rica, porque nasceu em 1783, Stendhal, aliás Henri Marie Beyle, em 1832, o pintor impressionista Manet, em 1898 o maior cineasta russo de todos os tempos, Sergei Eisenstein.
Em compensação, ficamos mais pobres porque em 1989 perdemos Salvador Dali, e recuando um pouco, 1931, o mito dos mitos da dança, a bailarina Ana Pavlova.
Não há dia que não contribua para a renovação das esperanças de paz e liberdade e não traga alguma luz para entender, através da recordação destes fatos marcantes, o que tem sido a trajetória do mundo. Aliás, começa em Davos o Fórum Mundial, com a possível recessão americana como pano de fundo.
VAMOS SAIR CHEIRANDO POR AÍ...
Walter Galvani, em 24/01/2008
"Cheirando" no bom sentido. Ainda bem que o piloto tem sentido de olfato...
E é o dia de recordar o bravo soldado japonês Shoichi. Bota fidelidade estapafúrdia nisso.
DEPENDEMOS DO NARIZ...
E A HISTÓRIA DO
BRAVO SOLDADO SCHOICHI
Walter Galvani
Pode parecer piada ou cronista sem assunto que resolve enveredar por aí, pelo noticiário e catar o que houver de mais insólito, mas, confesso, não resistí.
Não é que um piloto da United Airlines sentiu “cheiro de fumaça” dentro do avião que pilotava e por isso cancelou o vôo de São Paulo com destino Chicago, na quarta-feira à noite? (Isso em pleno 2008!) Ora, não seria surpreendente se outro avião da mesma companhia não houvesse retornado depois que o piloto denunciou falha mecânica e se outro ainda, também da mesma companhia, não tenha feito uma aterrissagem meio forçada no Rio de Janeiro, tendo estourado dois pneus. Tudo nesta semana que ainda não passou.
O pior é depender do nariz do piloto...
Mas, como!
Não existem equipamentos sofisticados, produzidos pelas grandes fabricantes de aeronaves que detectem uma irregularidade que pode ser fatal a 142 ou 154 passageiros, mais tripulantes, conforme informações da Folha on-line, o jornal mais antigo na Internet no Brasil e de plena confiança? Não, não se trata de nenhum “blog” irresponsável ou aventureiro...
É um mundo incrível. Eu preferia os bons tempos da Varig.
Pelo menos, o que se dizia era força de lei,sua revisão era fantástica e aprovada com distinção por todas as companhias aéreas do mundo, que mandavam aqui seus aviões para serem inspecionados.
xxxxx
Confiança assim, só no soldado japonês que num dia 24 de janeiro, esteem 1972, vinte e dois anos depois do fim da II Guerra Mundial, que foi encontrado nas selvas (bota selva nisso, hein!) de Guam, uma ilha no Pacífico, onde continuava refugiado e disposto a resistir em nome do império japonês.
O bravo soldado Schoichi Yokoi, símbolo do fanatismo e da desinformação, ou quem sabe do medo ou da valentia, ou de um brilhante coquetel de todas estas virtudes e defeitos, escondido no meio do mato, estava pronto a receber o inimigo a balaço. Guardara uma última carga de munição e se alimentava de frutas e raízes silvestres.
Ainda bem que tinha um bom nariz, caso contrário teria sido aprisionado antes...
UMA VIDA NOVA E FELIZ...
Walter Galvani, em 27/01/2008
"... sem poder, sem cargo, sem carteira assinada, sem crachá, sem secretária e
sem sair do Brasil"
e... "Não acordem os chineses" (Napoleão)
O grande livro de Ricardo Kotscho e a
crônica que publiquei neste fim-de-semana
no jornal ABC DOMINGO, do Grupo Editorial Sinos
NÃO ACORDEM OS CHINESES
Walter Galvani
A frase que serve de título à esta crônica não é minha, mas de Napoleão Bonaparte, o imperador dos franceses, que, sempre preocupado com o “grandeur” do seu país e até aonde poderia levar as fronteiras do seu império, costumava usá-la para acalmar seus assessores. Enquanto ele mandou no mundo, ou seja dos anos finais do século XVIII até 1815, batalha de Waterloo, seus comandados obedeceram piamente ao que ele determinava. O Ocidente como um todo porém, volta e meia esquece a lição napoleônica e se põe a fazer cócegas no dragão adormecido que, quando acorda, bufa línguas de fogo por suas ventas. Depois, ele reflui, pelo menos tem sido assim e torna a dormir o sono histórico em que, segundo o imperador francês, deveria ser mantido para sempre.
Sabem qual foi o crescimento chinês neste ano em que todos “comemoraram” ter andado pelos 3 ou 4 por cento, como o Brasil e os Estados Unidos? Pois foi de 11,5%... Segundo cálculos das autoridades monetárias da China o seu país poderá crescer ainda mais e em 12 anos terá multiplicado por quatro o seu PIB.
Enquanto o dragão vomita estas labaredas, todos os que podem se atiram ao mercado chinês, imaginando que lá está o segredo das vendas infindáveis.
É, o tema do dia-a-dia, tem ido do dragão chinês ao terror e imprudência nas rodovias, passando pelos assaltos, requintes de crueldade e falta geral de vergonha na cara.
Prefiro seguir a lição de Ricardo Kotscho, autor do mais recente “best-seller” brasileiro, “Uma vida nova e feliz – sem poder, sem cargo, sem carteira assinada, sem crachá, sem secretária e sem sair do Brasil” que diz que o assunto das crônicas deve ficar livre e permitir que o autor fale de outros temas ou sobre quase nada, preciosidades como as que reencontrou, ao deixar as grandes redações depois de quarenta anos de combate e refluir para a vida de uma pequena cidade. “Descobri – diz ele – que o grande barato é aprender a viver com menos. A gente passa a dar valor às coisas mais simples como preparar o próprio jantar ou levar um papo com a síndica sobre a reforma do jardim do prédio”.
E por aí segue ele, achando que a comunhão destes pequenos e ternos assuntos vale mais a pena do que buscar o assunto do dia e acabar falando sempre em violência, corrupção política, competição e morte no trânsito.
Sim, todos já enchemos destes assuntos. Onde anda a imaginação? É o que diz Kotscho e assino embaixo.
QUEM FOI MESMO DOM JOÃO VI?
Walter Galvani, em 28/01/2008
O dia 28 de janeiro assinala a assinatura do decreto de abertura dos portos brasileiros às "nações amigas".
Leia-se aqui, "Inglaterra"
A ABERTURA DOS PORTOS BRASILEIROS
Walter Galvani
Foi há duzentos anos, num 28 de janeiro, em 1808 naturalmente, poucos dias depois de chegar a Salvador na Bahia de Todos os Santos, que o príncipe regente, Dom João de Orleans e Bragança, dentro de sua estratégia política de apoio total à Inglaterra, contra o bloqueio da Europa Continental por Napoleão Bonaparte, assinou o decreto de “abertura dos portos brasileiros ao comércio com as nações amigas”.
Aqui, onde se lê “Nações amigas”, leia-se Inglaterra, a única potência que tinha condições de visitar, comerciar, fazer trocas ou simplesmente aportar em locais proibidos pela força incrível do exército do imperador dos franceses.
O exemplo frutificou. Quando já como João VI, rei de Portugal, o antigo “príncipe regente” se retirou daqui, deixou seu filho, aconselhou-o a colocar a coroa em sua própria cabeça “antes que algum aventureiro o faça” e tornou-se assim o grande propulsor da independência brasileira.
Sua imagem, manchada pelo filme de Carla Camurati, “Carlota Joaquina”, que o apresentava como um pobre monarca vítima de adultério e comedor compulsivo de frangos, está sendo higienizada agora e mostrada aos brasileiros com outras visões.
Depois do sucesso espetacular de “1808”, do jornalista e escritor Laurentino Gomes, que vive 19 semanas como um dos mais vendidos no Brasil, vai chegar a vez do livro dos portugueses Jorge Pedreira e Fernando Dores Costa, “Dom João VI”, ao mesmo tempo em que a “mídia” adversária de Laurentino, talvez por concorrência empresarial, anuncia que vem aí o livro da professora Lúcia Bastos, que, com todo o respeito que nos mereça, ainda não o escreveu. É um livro portanto ainda promessa. Pode sair ou não. Mas, competição é competição e o simples anúncio do futuro trabalho, funciona como anti-publicidade para o Laurentino.
Meu conselho é no sentido contrário: comprem o livro “1808”.
Mas, se Dom João VI foi tão combatido assim e ainda o é depois de duzentos anos, é porque fez alguma coisa de importante. Como dizem os árabes, “ninguém atira pedra em árvores que não dão frutos”.
HOMO HOMINI LUPUS
Walter Galvani, em 31/01/2008
De nada adianta cercar a fortaleza, se a violência está dentro dela.
Crônica publicada hoje no Diário de Canoas
O INIMIGO DO HOMEM
Walter Galvani
Foram os romanos que cunharam esta frase que, desde então acompanha a Humanidade: “Homo homini lupus”. Para os que gazearam a aula de latim no velho La Salle ou no Auxiliadora, “O homem é o lobo do homem”. Aliás, desde que você “não perca o seu latim”, nada mais óbvio para tradução. Não pede nenhum esforço extra.
O que também não pede esforço extra é a atualidade desta frase, presente nas manchetes dos nossos jornais e é claro, aqui no “Diário de Canoas” pois não há como fugir à esta certeza... Só o homem é capaz de matar por pura maldade e até com requintes de ferocidade que acabrunhariam qualquer lobo. O próprio Lobo Mau das historinhas infantis se abalaria com as monstruosidades que estão sendo cometidas pelos membros da espécie humana contra outros membros da própria espécie. Matam por nada. Para roubar os tênis às vezes, os automóveis, a mulher, o homem, incendeiam, transformam o corpo em um monte de brasas fumegantes.
John Kennedy uma vez escreveu que de nada adianta cercar de guardas o castelo, se o inimigo vive em seu interior.
É exatamente o que se passa no mundo de hoje. Aliás em nossa terra, em nossa cidade. Aqui estamos expostos e como não há policiamento possível, como diria Kennedy, ou como nos garantem os membros da Brigada Militar ou da Polícia Civil, não há como enfrentar as forças do mal.
Só há um caminho e temo que me tomem por pastor de alguma religião, católica ou qualquer outra que propague o reino de Deus, mas a minha pregação, digo, crônica, não poderia ter outra orientação: vamos tentar instilar nas pessoas o velho espírito que orientava os primeiros cristãos.
Retornando ao império romano, é lá que surgiu a idéia e a primeira imagem daqueles “que se amavam” e se protegiam. Enfrentavam feras e adversários dispostos a massacrá-los, afrontavam um império até que converteram o líder deste tal império, o imperador Constantino. Uma vez convertido por Helena, sua esposa, transformou a religião cristã em oficial. Era a vitória do espírito sobre a matéria, dos mais fracos sobre os mais fortes, dos pequenos sobre os grandes.
Dois mil anos depois, o que fazer para restaurar o predomínio dos bons? Como dormir em paz numa humilde habitação feita de táboas e plásticos, restos de papelão e latas, que um pé na porta pode botar abaixo o sossego da madrugada? Rezar? Já que o poder público é incapaz de garantir a paz nas ruas e vielas, nos palacetes e nos casebres, só nos resta mesmo rezar. Ou não votar neles...
DIRIGIR BÊBADO
É UM PROBLEMA
DE CONSCIÊNCIA
Walter Galvani, em 03/02/2008
Crônica publicada hoje no jornal
ABC DOMINGO, órgão do Grupo Editorial Sinos
UM CRIME: DIRIGIR BÊBADO
Walter Galvani
Dois copos de cerveja. É o limite. Melhor seria até que fosse uma conscientização e pronto, nem seriam necessárias medidas de fiscalização. Quanto à droga, nem se fala. Dirigir com mais de 3 decigramas de álcool por litro de sangue, a partir de agora será crime. E como tal, o motorista, seja ele membro da feliz classe média brasileira, a que não tem limites, ou das classes mais altas, que não tem limites em lugar algum, será preso, julgado e condenado em questão de minutos, se funcionarem, é claro, fiscalização e vigilância dos poderes públicos.
Para mim, uma longa história e experiência por causa da idade, já tendo passado por tudo o que é possível e testemunhado o que há de mais incrível, uma boa lição antes de encerrar a minha participação nesta peça da vida e sair pelos fundos do palco. De costas, como recomendava Paulo Autran, pois nunca se deve dar as costas ao público, a não ser que esteja prescrito na ação dramática e por isso se torne necessário. Certa vez, lá pelos anos setenta, visitei um amigo que militava na embaixada do Brasil em Estocolmo. Fomos ao centro da cidade jantar e depois deveríamos nos dirigir para a região conhecida como “Jardins do Rei”, onde ele morava, vizinhando com o Gustavo Adolfo ou a Rainha Cristina da época. Pois bem: comemos sanduíches, lembrando-nos do “Prinz Bar” em Porto Alegre, tomamos duas cervejas e na hora de ir embora, meu amigo chamou um táxi. “Como? – lembrei-lhe – estamos de carro.” “Não – respondeu-me – bebi. Bebestes. Vamos de táxi.”
Se existisse esta mentalidade não seria necessário que o Ministério da Justiça tomasse a providência que a sociedade pediu, exigiu: a partir de agora, quem dirigir bêbado estará cometendo crime.
Este sim é o verdadeiro basta nos exageros no trânsito e os jornais aqui da casa tem alertado sobre isso, inclusive através do poderoso “NH”, hoje o décimo jornal em circulação no país, mais de 40 mil exemplares por dia, e que sempre fez da defesa da comunidade, o seu forte, como base, ponto de partida e posição de impacto.
Mesmo não havendo bebida, é preciso que o motorista esteja preparado, descansado, sem problemas de estresse, pois adrenalina é o mesmo que álcool no sangue. A qualquer momento há uma “pechada” na esquina da casa da gente. É o barulho da desgraça, da infelicidade e, muitas vezes, da irresponsabilidade.
MAS É CARNAVAL...
Walter Galvani, em 04/02/2008
Crônica publicada neste final de semana no jornal Diário Popular, de Pelotas
MÁSCARAS E FANTASIAS
Walter Galvani
Não irei para nenhuma “avenida”, não estarei em algum “sambódromo”, não vestirei uma fantasia e nem usarei máscara. Mas, é pena. Deveria fazê-lo, como já o fiz no passado. São quatro dias (modernamente ampliados para uma semana ou mais...) em que o país não pensa em outra coisa, por osmose, não por participação total. Aliás, a grande vantagem é da tevê que transmite ao vivo, de Pelotas ao Rio de Janeiro e nos mostra escolas de samba, blocos e cordões (cordões?... velhos tempos!) e gente indo atrás do Trio Elétrico (“atrás do Trio Elétrico, só não vai quem já morreu!”). É isso mesmo: às vezes a gente já morreu e não se dá conta... Mas, é este o momento em que o Brasil mergulha naquilo que antigamente se chamava “folia” e esquece os problemas, a verdadeira identidade, transformam-se os mais humildes em reis, rainhas e princesas, e o Rei Momo recebe as chaves da cidade, realizando mais pela alegria do povo que muito prefeito que anda por aí.
Infelizmente, na Quarta-feira de Cinzas, tudo volta a ser como dantes e podemos arquivar ilusões, sonhos e guardar as fantasias. Tudo recomeça a girar e, por um ano inteiro estaremos outra vez presos à máquina, ao computador, ao expediente, ao cartão-ponto, ao sistema.
Todo ano eu lembro disso quando chega esta época em que as coisas passam a acontecer no terreno do sonho e por alguns dias a população se desliga dos problemas e dos desencantos proporcionados pelos políticos que sujam a própria atividade com a sua em geral valiosa e volumosa contribuição.
Esquecidos de todos, durante alguns dias somos “rei, poeta ou marinheiro”. No entanto, tudo vai acabar na quarta-feira...
Depois deste intervalo, o ano vai começar para valer. Neste 2008, mais cedo do que de costume, pois, pelo cálculo misterioso que preside nossos calendários e nossas vidas, o Carnaval é o mais cedo desde 1923. Logo logo, portanto, voltaremos à vida normal das cidades, acabar-se-ão as férias e recomeçaremos as atividades. Iemanjá e Nossa Senhora dos Navegantes no feliz sincretismo que viceja no Brasil estarão também dando o seu adeus, pois estão irmanadas nestes mesmos dias de Carnaval e, sobrará pouco para novas paralisações.
Infelizmente, e os números já apontam para isso, haverá mortos e feridos no trânsito, assassinatos, execuções, traições, vinditas. E então, estará chegando o ano verdadeiro. Aquele que não permitirá mais hesitações, será preciso pensar nas realizações e que chegou a hora delas. Ao trabalho, portanto, a partir de quarta, que ninguém é de ferro.
"OPERAZIONE BISCHA"
Walter Galvani, em 09/02/2008
Eis como os travestís brasileiros presos pela Polícia Italiana neste fim-de-semana, estão ajudando a imagem do Brasil no exterior...
Enquanto isso, continuamos "jogando futebol"...
Ou participando do Carnaval, ou não fazendo nada, que "ninguém é de ferro".
A crônica a seguir foi publicada hoje no jornal A Razão de Santa Maria
VAMOS TRABALHAR
QUE NINGUÉM É DE FERRO
Walter Galvani
“Foi um rio que passou em minha vida...” ou “foi mais um carnaval que passou”, deixando a fantasia “de rei, de pirata ou de marinheiro” e tudo se acabou na quarta-feira. A grande vantagem do carnaval moderno é que ele não acaba mais na quarta-feira de cinzas, mas desliza até ao sábado, às vezes domingo e até segunda-feira. A vantagem extra do carnaval deste ano é que ele ocorreu tão cedo que vai dar para começar o ano na segunda-feira, 11 de fevereiro.
Este início tão precoce poderá fazer com que se trabalhe algumas horas a mais do que em 2007, mas a pergunta que deve ser feita a cada um, na concha do ouvido, é se isso será, de fato, útil. O que você produzirá a mais neste 2008? Mais trabalho? Mais consumo? Mais leitura? Mais escrita? Mais amor e carinho? As contas são absolutamente individuais.
A necessidade desta parada imperativa do Carnaval, assim como das festas de fim-de-ano, assim como dos “feriadões” (escassos no segundo semestre deste ano), é pauta estabelecida pelos psicólogos, psiquiatras e psicanalistas, pelos analistas de plantão. Sem estas interrupções salutares, dificilmente se suportam as tensões da vida moderna, que, aliás, são profundamente estressantes de per si e portanto, provocadoras da necessidade que as projeta. Não sei se fui suficientemente confuso (ou complexo) para ser/não ser entendido, mas é o que é.
Não é difícil, ninguém precisa ser Jung ou Freud, Melanie Klein, para compreender que é preciso, por vezes, mergulhar no fundo do subconsciente e de lá reaparecer com a resposta na ponta da língua.
Assim raciocinando, até os “feriadões” são, de fato, produtivos. E nem sequer se justifica a idéia de que a economia sofre abalos. Não, não sofre, porque a produção industrial é planejada, em tempos modernos quem vai montar 5.000 automóveis num determinado período, completará a quota independente do número de dias, mais dois, menos dois não alteram nada. O consumo caseiro, este que se direciona a supermercados, mercearias e farmácias, migra com o consumidor e se ele gasta na capital ou na praia, nas pequenas e nas grandes cidades ou nas vilas distantes, acompanha o consumidor. Resumindo: quem vai para a praia ou para a serra, para o campo ou para os pontos que tocará numa viagem de deslocamento, arrastará consigo a sua necessidade de gastos. E o investimento, se houver, ficará dormindo nos estabelecimentos bancários.
AS ELEIÇÕES AMERICANAS
SÃO IMPORTANTES PARA
O MUNDO INTEIRO
Walter Galvani, em 10/02/2008
Crônica publicada hoje no ABC DOMINGO
ór~gão do Grupo Editorial Sinos
CARNAVAL DE DINHEIRO
Walter Galvani
O senado americano já aprovou, na semana que entra será a vez da câmara de deputados. Um pacote assombroso de dinheiro será distribuído pela presidente Bush antes que se vá e que espera, com esta formidável jogada de papai Noel, ganhar a eleição.
Naturalmente o seu partido teme que o adversário Democrata, com a impaciência de Hillary Clinton praticamente indicada, tenha os votos necessários, e conquiste a Casa Branca. Vocês ainda devem estar lembrados da sujeira que foi a reta final da eleição de Bush. Pois, com este vendaval de dinheiro prometido aos americanos, 600 dólares de restituição por pessoa, com 300 dólares por cada filho, com 1.200 para o casal, com cheques de 300 para os que não pagam impostos e não tem restituição a perceber, esperam os republicanos mudar a sorte das eleições.
Pobres políticos brasileiros, amadores sem cacife que ficam por aí desviando dinheiro de selos ou participando de mensalões! Nada se compara à esta monumental pernada americana que pode traduzir tudo o que pensam e fazem nossos amigos do norte.
Vendo este “carnaval de dinheiro” fico pensando o quanto somos toscos e ingênuos.Quem diria, não é mesmo? Nunca vimos nada igual.
Agora mesmo, assistiu-se ao desperdiçar de milhões de reais em nome das atrações turísticas que deveriam derramar importância igual ou superior nas ruas brasileiras. Pagou-se a “alegria do povo”, indenizou-se o tempo dedicado à preparação dos carros alegóricos, à feitura das fantasias, aos ensaios e às composições. Remunerou-se a falta de inspiração e até o menor tapa-sexo do país, como se isso fosse uma grande conquista.
O dinheiro gasto para gratificar escolas de samba que tratassem da vinda da família real portuguesa para o Brasil há duzentos anos, deveria ter sido investido na premiação dos estudiosos do assunto. Presentear escolas de samba é o mesmo que pagar o jantar de caridade, ao invés de distribuir sacolas de comida aos necessitados.
Para fugir ao buraco negro da recessão, os americanos fazem agora o carrossel do esbanjamento, contemplando a todos, indiferentemente, na convicção de que o dinheiro voltará milagrosamente transformado em voto que garantirá o poder. Então, continuaremos na corrida belicista, teremos tanques, canhões, armas fantásticas, soldados, petróleo e a manutenção do status atual: manda quem pode, obedece quem precisa.
Não sei porque mas sinto um cheiro incrível de corrupção neste abraço nacional de falsa caridade.