Quinta, 09 de Setembro de 2010

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ESCRITOR E PROFESSOR ANTÔNIO HOHLFELDT É O NOVO PATRONO DA FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE
Walter Galvani, em 27/09/2007

A mais importante e
maior feira de livros
a céu aberto da
América Latina, que
inaugura a 26 de outubro
já tem seu Patrono.
Uma figura tutelar que
reina sobre a feira na
Praça da Alfândega,
centro de Porto Alegre
até o dia 11 de novembro.
Crônica publicada
hoje no jornal
"Diário de Canoas"
do Grupo Editorial Sinos


HOHLFELDT, PATRONO

Walter Galvani


Anualmente a expectativa de todo o estado gira em torno da escolha do patrono da Feira do Livro de Porto Alegre, chegando agora à sua 53ª. Edição, sem desconsiderar as feiras que cada município (Canoas inclusive) realiza todos os anos. A da capital foi a pioneira em nosso estado, tendo iniciado em 1955, e com o seu sucesso, aos poucos foram se incorporando diversas cidades do interior. Daí que a figura do patrono da feira porto-alegrense ganha uma característica especial e o seu carisma se projeta muito além fronteiras. Este ano é a vez do jornalista, escritor e professor Antonio Hohlfeldt.

Um grande padrinho, um patrono excepcional que abarca diversas linhas de atividade, inclusive pensando em termos de política, carreira em que resolveu investir a partir de 1983, quando a empresa Caldas Júnior, onde atuava como jornalista desde 1967, entrou em grave crise econômica. Antonio continuou, pelos caminhos do jornalismo (atua presentemente no Jornal do Comércio da capital), mas é como professor e atual vice-coordenador do programa de Pós Graduação da Famecos/PUC que alcançou destaque nos meios acadêmicos.

Ele se elegeu entre os patronáveis que se alinharam na lista dos “dez mais lembrados”. Logicamente esta primeira lembrança trouxe o seu nome para o proscênio, aliás, lembrando sua atuação como crítico teatral, o único permanente em nosso meio e que assiste rigorosamente todos os espetáculos estreados na capital.

Hohlfeldt seguiu sua carreira política também, tendo sido eleito vice-governador na chapa com Germano Rigotto e exercendo o cargo com brilho, e eficiência e imparcialidade consagradoras.

De volta aos livros, onde já passou das trinta publicações, estará lançando novas edições e reedições na 53ª. Feira do Livro de Porto Alegre, elegendo-se como um digno sucessor do patronato que será exercido até o dia 26 de outubro por Alcy Cheuiche, a quem sucederá até à feira do ano que vem.

Trata-se da consolidação de uma autoridade literária inconteste e a reafirmação de uma carreira que seguirá muito além da trajetória política.

Todos estamos de parabéns com a justa escolha que distingue o escolhido, a PUCRS, a feira porto-alegrense e a cultura do estado. Ah, no dia 22 de dezembro ele completará 57 anos. Muito campo pela frente e conhecendo a capacidade de produção do Antonio como eu conheço, como ex-colega de redação e agora companheiro na universidade, mais uns tantos títulos que chegarão ao devido tempo.




QUANDO IREMOS RESPIRAR COM ALÍVIO?
Walter Galvani, em 29/09/2007

Crônica publicada hoje
no jornal "A Razão"
de Santa Maria


QUANTO HORROR PERANTE OS CÉUS

Walter Galvani


Tivemos mais uma semana terrível, dessas que a gente imagina que nunca mais se poderá viver, afinal de contas, já se viu de tudo! Mas, assim é. No Supremo temos agora dias de Senado, no Senado temos dias de vila e nas vilas temos dias e noites de horrores, com execuções, roubos, assaltos, igualzinho como nas ruas centrais das grandes cidades, onde também se vive este clima.

Como diria Castro Alves, “quanto horror perante os céus”. Mas, se não fosse o poeta nos socorrer, como iríamos escapar desta miséria em que se transformou a vida diária! As pessoas ficam a se perguntar quem matou um personagem de telenovela ao invés de ler, estudar, preparar-se com afinco, mas afinal isso é perdoável. Imaginem se não tivéssemos a saída pelo imaginário!

Dia desses me dei ao trabalho de ouvir, anotar e gravar depoimentos pessoais e por telefone, de pessoas que compõem o tecido social da comunidade, sem dar-me conta de que a miséria em que se chafurda foi semeada pelos erros absurdos cometidos e esquecidos, nunca revisados e amontoados pela pá do desprezo e do desencanto.

Li atentamente o que nos veio da Europa e descobri que, descaradamente, os países escandinavos são apresentados como os campeões da limpeza e da preservação do meio ambiente. Claro: eles nos exportam a parte suja da sua atividade. Assim fica fácil para que Noruega e Finlândia, Suécia e Dinamarca ocupem as primeiras posições, para que Oslo e Estocolmo se situem nos primeiros lugares na luta pelo “verde”.

Para sujar, para plantar espécies exóticas que produzirão o mau cheiro e a lixívia dos seus empreendimentos, existe o sul do Brasil. O sul do mundo. É isso mesmo, é lá, no sul do mundo que eles enfiam a sua sujeira. Levam embora o filé mignon e deixam em mãos dos nossos ricos estancieiros, os dólares (ou euros, conforme o caso), o ouro da maldição pelo uso dos campos outrora povoados de gado.

Onde hoje estão aquelas árvores, nem passarinho pousa!

Em compensação, o lucro do empreendimento é certo. Para quem vende, para quem aluga, para quem se livra da ocupação e do cuidado, em troca do ouro.

Até quando? Até quando as terras estiverem exauridas, as pessoas haverem emigrado porque aqui não há nem emprego, nem comida.

O que fazem os políticos? Discutem, batem boca no Congresso. Pois agora se bate boca até no Supremo... Pena, mas dizem que “Deus não joga, mas fiscaliza”. Vamos tentar sobreviver para assistir à retaliação divina...







'HOW GREEN WAS MY VALLEY"
Walter Galvani, em 30/09/2007

Crônica publicada hoje no jornalABC DOMINGO, do Grupo
Editorial Sinos


COMO ERA VERDE O MEU VALE


Walter Galvani

Livro e filme dele extraído, famosos nos anos quarenta e cinqüenta, celebravam a doce vida da campanha no País de Gales. Escrito por Richard Llewellyn, (que, aliás, ficou por aí...) continham o chamamento à vida romântica que a idílica convivência com a terra podia propiciar. Era a narrativa da vida num vale onde viviam mineiros, feita sessenta anos depois dos fatos por um personagem central que concluía sua narrativa, exatamente com a frase que deu título ao livro, mais tarde transformada em filme por John Ford, grande diretor americano.

Tudo bem que o livro tenha originado um grande filme, o que é muito comum, mais significativo ainda pelo fato da vida vista assim, do ângulo romântico que o passado propicia pareça melhor do que era, mas vamos falar de fatos atuais e notórios.

Continuam aprovando a utilização do pampa gaúcho para o plantio de imensidões de árvores cujo único fruto é, através da sua própria morte, o papel. Ou melhor: a celulose que produzirá, no futuro o papel.

Isso me faz lembrar que foi nesta semana que passou que a Organização Mundial da Saúde divulgou os números que aclamam os países escandinavos como os que melhor cuidam do meio ambiente. A classificação coloca em primeiro lugar a Finlândia e seguem-se Noruega e Suécia. As capitais destes últimos, Oslo e Estocolomo, por seu turno se qualificam nos dois primeiros lugares do mundo.

É claro que nesta classificação o Brasil vai da metade para a rabeira, assim como muitos outros subdesenvolvidos por lá se colocam. E, num primeiro momento, vê-se muita gente medianamente informada, aclamando aquela preocupação com o verde, enquanto nosso país nem se liga nisto aí.

Pois é, que bonito! Como “era verde o meu vale!” Ou, como diria Justino Martins, “quanta paz naqueles campos”... Árvores alienígenas, exóticas, onde “nem passarinho pousa”, espalham-se agora, multiplicadas pela ambição e pela... digamos, conveniência. Mais vale cultivar um bosque de eucaliptos do que criar uma ponta de gado. E, aos poucos, vamos dizendo adeus ao velho pampa. “Adiós, pampa mia!”

Como fica fácil viver na Finlândia ou morar nas sadias e civilizadas capitais escandinavas, se o papel sujo é exportado para os subdesenvolvidos da América do Sul. Para que o Brasil, o Uruguai e a Argentina briguem pelos seus investimentos, mandam-nos máquinas, dólares e interesses. Em troca, entregamos a alma dos nossos campos. Como fica fácil ser um campeão do verde, recebendo só o filé mignon e poluindo com a sua sujeira toda a Metade Sul.









CONSULTE-SE O "MANUAL DO PERFEITO IDIOTA LATINO-AMERICANO" do Llosa Filho e do Carlos Alberto Montaner (que,aliás, participará da série "Fronteiras do Pensamento" em Porto Alegre, ainda este mês.
Walter Galvani, em 04/10/2007

A DEMISSÃO DO
GERÚNDIO

No Brasil,

tudo é possível...



A demagogia não tem limites e por isso, o governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, acaba de invadir o domínio da lingüística, com o objetivo de impressionar o povo, emitindo um decreto que estabelece que “fica demitido o gerúndio de todos os órgãos do Distrito Federal”. Em tempos de renovação de linguagem e acordo ortográfico, aliás aguardando assinatura de mais algum dos integrantes da entidade que reúne os “países de língua oficial portuguesa” para que se torne uma norma oficial, chama a atenção esta condenação pública do uso do gerúndio.
Ora, a língua não reflete apenas as questões formais de comunicação, mas o próprio espírito de quem a pratica. Usos, costumes, tradição, enfim, aquilo que se chama a “cultura” de um povo, estão embutidos no seio das orações, de suas composições e das palavras escolhidas. O uso do gerúndio é tipicamente brasileiro. Aqui se diz: estou TRABALHANDO. Ou estou CONCLUINDO esta crônica para ser publicada. Já em Portugal se usa, estou “a trabalhar” ou “estou a concluir”. Ora, se “a trabalhar” quer dizer mais ou menos o mesmo que “trabalhando”, pois estabelece que se está em plena operação, já o “estou a concluir” é mais promissor do que “concluindo”, pois deixa ao interlocutor a esperança de que logo logo o trabalho estará terminado. Se é verdade ou não, só os fatos posteriores o dirão.
Transformar esta questão semântica em ordenação jurídica é apenas uma boa demagogia, ou seja o “ato de um lider político ou administrador”, segundo o dicionário Caldas Aulete, “que procura obter apoio manipulando sentimentos e paixões populares.” José Roberto Arruda conseguiu alguns dos seus objetivos. Por exemplo, passou a ser citado em outros círculos que não os especificamente políticos onde era conhecido. Seu ato, transformado em decreto, está sendo discutido em todo o país e até mesmo nos demais integrantes da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), além do Brasil, naturalmente, Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste.
Temos muitas diferenças, inclusive de comportamento, que resultam até no uso ou não do gerúndio, mas muitas semelhanças, inclusive pela língua comum que é perfeitamente compreensível pelo menos na norma culta, apesar das variações locais e que busca agora um acordo ortográfico. Aliás é bom que se lembre o que é o gerúndio, que reflete um estado de espírito e não apenas “uma forma nominal do verbo”.
Quanto ao demagogo em questão, acho que ele pode IR PREPARANDO (forma bem rio-grandense de expressão, juntando o infinitivo e o gerúndio) suas justificativas.





ALERTA À AREA CULTUIRAL
Walter Galvani, em 06/10/2007

Crônica publicada hoje
no jornal "A Razão"
de Santa Maria:


PACOTES E PACOTÕES

Walter Galvani

O nome do novo jogo é Oscips. Você decifra o que é isto? Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público. Transforme-se você museu, você orquestra, você feira do livro, você teatro, enquanto é tempo. Há uma lei federal (5.790) que disciplina o chamado “terceiro setor” e se não escolher este caminho, você acabará condenado ao ostracismo, ao impaludismo, e à morte por inanição.

É isso mesmo, é o que se planeja, certo ou errado, nos subterrâneos do governo e, hoje em dia qualquer medida de saneamento será bem-vinda, tal a rejeição que se criou pelo apadrinhamento estatal. Uma certa demonização se espalhou pela sociedade que passou a considerar toda e qualquer aplicação de recursos sem retorno aparente imediato, como uma ação condenável. Não se mede se determinada atitude significará o atendimento de necessidades, cujo suprimento cabe ao estado. É deficitário? Corte.

Este “super-realismo” administrativo pode levar a cultura a viver a tranqüila “paz dos cemitérios”...

Quando não houver mais nada a fazer, quando a atividade cultural que hoje distingue o Rio Grande do Sul houver esmaecido ou for definitivamente riscada do primeiro plano das preocupações da sociedade, então estarão os “economicistas” satisfeitos. Morreu e pronto. Sustentar-se-ão exclusivamente aquelas produções eventualmente apoiadas por grandes interesses comerciais.

Pode ser que a saída de transformar uma associação de amigos em Oscip venha a ter algum êxito. Mas, isso valerá para tudo e todos?

Lembro-me bem que, durante a II Guerra Mundial, um figurão do regime nazista costumava dizer: “Quando ouço falar em cultura me dá vontade de sacar o revólver!” Não foi preciso tanto e o regime em que ele se incorporava ajudou a humilhar a Alemanha e submetê-la ao vexame da derrota mundial. Talvez por isso, fico eu preocupado, pois já tivemos tentativas de redução da atividade cultural e já vimos o setor de joelhos, mendigando. Finalmente, com as chamadas leis de incentivo que implicam em alguma renúncia fiscal, reestruturou-se a atividade e temos aí o Projeto Monumenta, a Lei Rouanet e a LIC para semear alguma reação organizada da sociedade com inegáveis resultados positivos.

Mas, e agora, diante da penúria da máquina estatal rio-grandense, não estaremos uma vez mais ameaçados de retrocesso? A ameaça está no ar. Transforme-se em Oscip ou saia do caminho. Parem a música, suspendam-se os acordes, calem-se os violinos! Risquem-se as peças teatrais, a conservação e recuperação do patrimônio, o estado tem outras coisas a fazer.




PRODUTORES CULTURAIS, UNAM-SE...
Walter Galvani, em 07/10/2007

LIC ameaçada.
Crônica publicada
no ABC DOMINGO, órgão
de circulação dominical
do Grupo Editorial Sinos:


PACOTE ATIRA NA CULTURA
Walter Galvani

Entendo: quem deve, não faz festa. Quem está em déficit, não pode se pavonear promovendo exposições, concertos, teatro, cinema, edição de livros ou feiras. Tampouco pode realizar duvidosos desfiles para projetar identidades construídas ao longo do tempo e que precisam de uma injeção financeira para sua manutenção. Patriotismo tem que ser manifestação espontânea e não marchas subsidiadas pelo estado.

O pacote de Yeda, aparentemente irretocável sob o ponto de vista administrativo, embora se possa duvidar da sua eficácia (o “cigarro” que o diga...) disparou um tiro de canhão na linha de flutuação da atividade cultural no estado do Rio Grande do Sul.

E tem mais: haverá novos disparos.

Pode parecer uma medida saneadora, a longo prazo, mas, no primeiro momento, soará como uma bomba demolidora. Não sem razão, já ocorrem manifestações de desagrado e expectativa.

Já se sabe que serão excluídos da lista dos projetos a serem beneficiados pela LIC (Lei de Incentivo à Cultura), aqueles que se beneficiarem da lei federal (Lei Rouanet ou outros dispositivos que venham a existir). Ou seja: Feira do Livro de Porto Alegre, Jornada de Literatura de Passo Fundo, Concertos e apresentações de orquestras, enfim, será fácil identificar quem pode ou não, basta examinar quem são os promotores ou patrocinadores.

Em segundo lugar, o que sobrar da atividade cultural terá que se movimentar através das OSCIPS (organizações da sociedade civil de interesse público), ou seja sociedades civis, sem fins lucrativos, de direito privado e de interesse público.

Aí estarão, simplificando, os órgãos que atuam na promoção da cultura, defesa e conservação do patrimônio histórico e artístico. Consta que já foram listados 33 órgãos que poderão surgir do repasse de atividades para as tais sociedades civis.

Até pode ser uma saída para um estado falido, como é o caso, mas a pergunta é: terá a sociedade condições de arcar, sem subsídios ou renúncia fiscal, com entidades do porte do Museu de Arte do RGS, Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, Casa de Cultura Mario Quintana, e outras constantes da listinha de 33 ?

O setor das Oscips é organizado através da lei 9790/99. Há toda uma legislação já codificada, onde se identifica como ponto frágil a quantidade e diversidade de dispositivos federais, estaduais e municipais que por vezes colidem ou se superpõem. Nada que não se possa organizar. O problema maior talvez seja convencer a sociedade de que a atividade cultural agora passa para sua exclusiva responsabilidade, eximindo-se o estado de conceder isenções.






A MORTE DE UM GRANDE JORNALISTA GAÚCHO
Walter Galvani, em 08/10/2007

Aos 79 anos, faleceu na manhã deste dia 8 de outubro, um
dos mais estimados
homens de imprensa do
sul do país


AMIR DOMINGUES
DEIXOU ESTE
ESTÁGIO FÍSICO

Walter Galvani

Trabalho há 52 anos e meio na imprensa da capital do Rio Grande do Sul, tendo começado apenas alguns meses antes em Canoas, num jornal que ajudei a fundar, o “Expressão”, que pouco durou. Neste meio século de atuação, sempre contei com a presença do Amir Domingues perto de mim.
Hoje ele nos deixou. Escolheu uma data relevante, 8 de outubro, que assinala a morte de Che Guevara, um dos ícones do século XX, há quarenta anos atrás.
Amir tem estado comigo – e acredito que continuará – todo este tempo. Quando cheguei ao esporte do “Correio do Povo”, em 1955, ele já estava na capital (à época na Rádio Gaúcha) e pouco tempo depois, em 1956, veio somar-se à equipe que se juntava na “Folha da Tarde” – outro órgão da Cia. Caldas Jr., para preparar o lançamento da Rádio Guaíba, o que aconteceu em 57. Mesmo antes da data de estréia da rádio (30 de abril de 1957) já estávamos juntos, pois ele atuava no mesmo prédio que eu, do outro lado de um imenso corredor.
E foi assim que comecei na prática minha carreira na capital. Aos poucos fui me aproximando do Amir e com ele tive uma longa amizade que só foi interrompida nesta manhã de segunda-feira, quando ele deixou o estágio físico atual. (Era nisso que ele acreditava e é preciso fazer-lhe justiça.)
Aos poucos fui engatinhando na nova profissão e o Amir sempre estava por perto. Foi assim que, ao iniciar meus comentários culturais e sociais na rádio Guaíba no início de 1958, lá estava ele. Também lá estava o grande amigo quando fiz minha primeira incursão internacional, em março e abril de 1959, pois o Amir Domingues também fora para Buenos Aires, onde fui passar quase quarenta dias para a cobertura do Sul-Americano de Futebol.
Grandes trabalhos, muita cerveja com “bife de lomo e papas fritas” nos Palácios de Las Papas Fritas na Calle Maipú, muito acompanhamento com o Mendes Ribeiro, o Celso Costa, o Alcides Krebs, o Edison Pires, o Pedrinho Pereira (que também já foi) em Buenos Aires e outros tantos na retaguarda em Porto Alegre.
Na volta, o destino nos juntou na mesma redação. Mesmíssima redação onde ocupei o primeiro posto de chefia em outubro de 1967, quando transformei o Amir Domingues em nosso primeiro grande repórter investigativo, com vários dias para trabalhar (bem) profundas e extensas matérias, como o levantamento completo que ele fez da Região Metropolitana.
E assim fomos caminhando juntos.
Juntos uma vez mais estivemos em 1975, quando o governador Guazelli e o chefe da Casa Civil, Carlos Alberto Allgayer, foram nos recrutar, a mim e ao Amir, para sermos chefe e subchefe da Comunicação Social do Palácio Piratini. Deixei-o sozinho no posto para voltar para a Caldas Jr. e assumir a chefia de redação da “Folha da Manhã”, mas daqui a pouco eu estava outra vez ao lado do Amir, na velha “Folha da Tarde”. Já em 67, havíamos construído juntos uma grande redação na “Folha”, mas o melhor ainda estava por vir.
Amir “arrebentou” com as suas grandes matérias na área policial, quando revelou os segredos que haviam levado aos grandes crimes, tipo Margit Kliemann e o “Mãos amarradas”.
Mas, ainda nos reuniríamos outra vez, agora na nova arrancada da “Folha da Tarde” em 1983 e mais adiante na Rádio Guaíba, onde comecei a apresentar programas e onde fiquei até 2002. Agora, em 2007, mais uma vez retornei à “Guaíba” e lá estava o Amir, firme, paciente e mesmo quando contrariado, com um sorriso nos lábios e muita paciência.
Durante muito tempo privei da sua companhia para um cafezinho no final da manhã, quando se dedicava à redação dos editoriais do “Correio do Povo”.
Juntos vivemos, profissionalmente próximos, deglutimos as maldades alheias, digerimos as grandes mentiras e a hipocrisia de tanta gente e freqüentamos, quando podíamos, os bons lugares da cidade.
Juntos também recebemos eu e ele as homenagens da Maçonaria e da Câmara Municipal, de onde saímos, jornalistas do ano e cidadãos honorários de Porto Alegre.
O que estaria faltando?
Amir – que nunca escreveu livros porque não quis – esteve em todos os meus lançamentos de livros, que até aqui já foram dez.
E quando não saía mais à noite, porque se recolhia às seis da tarde, apoiava de longe com um telefonema amigo e com um sorriso simpático no dia seguinte.
Como vai ser, para mim, freqüentar a Caldas Júnior, e não o encontrar nos corredores, no estúdio ou no segundo andar, onde já utilizava o computador, mas se reservava o direito de bater na velha máquina de escrever o editorial do “Correio”?
Onde Amir, aonde irás a partir de hoje?
Onde repousará tua palavra sábia, teu espírito crítico e tua atitude de conciliação?
Vamos procurar, enquanto nos restar uma caminhada sobre a Terra, representar com humildade tua atenção para com o próximo e tua imensa capacidade de enfrentar os poderosos. Estaremos mais sozinhos, mas procuraremos honrar o teu legado.




A VEZ DO LUPI
Walter Galvani, em 10/10/2007

Falei ontem sobre um grande jornalista que faleceu: Amir Domingues
Agora foi a vez do
Lupi Martins


Nem me senti habilitado
a escrever sobre o passamento
de outro grande nome
do jornalismo gaúcho.
Modesto, eficiente,
honrado e capaz,
Lupi Martins partiu no dia seguinte ao Amir.
Curiosamente, embora
atingido por mal terrível
há quatorze anos,
não emitia uma só queixa.
Agora, Lupi partiu.
Fico pensando porque
se fazem estas
escolhas e que nos deixa
sempre na situação de
dizer:
Fulano? Porque ele?
Por que era a hora?
Onde está escrito isso?
Lupi Martins, um homem
cheio de grandes amigos
uma dedicação familiar
inigualável, tinha
de sair de cena
como entrou.
Modestamente, mas
com muita honra.
Adeus Lupi, aliás,
para mim outra grande
perda por si e por
ser irmão de Lasier Martins,
outro grande amigo.
Sem revolta, adeus Lupi!
O jornalismo gaúcho
perdeu, em dois dias,
dois grandes exemplos.



DORIS LESSING, UMA VITÓRIA DAS MULHERES
Walter Galvani, em 12/10/2007

Prêmio Nobel para uma
mulher de combate.
Crônica para o jornal
"A Razão" de Santa Marua


UMA MULHER DE COMBATE



Walter Galvani





Não se iludam: a força combativa de Doris Lessing, que completará 88 anos no próximo dia 22, não esmoreceu e só crescerá com a medalha de ouro, o diploma e o anúncio através do rei da Suécia, de que é a escolhida do ano com o Prêmio Nobel de Literatura. Prêmios aliás, não lhe faltam, ao longo de uma carreira iniciada em 1949, quando foi morar na Inglaterra, depois de haver atravessado experiências incríveis, como nascer em Kermanshah, no Irã (antiga Pérsia) e viver alguns anos na Rodésia do Sul, (hoje Zimbábue), na África. Juntou-se aos movimentos feministas e deles nunca se afastou enquanto ia publicando sua vasta obra que ultrapassa as duas dezenas de publicações, desde o primeiro livro, de 1949, “A grama cresce”.

No Brasil tem sido editada pela Nova Fronteira, pela Cia. Das Letras e pela Record. Seu livro de maior repercussão, lançado em 1962, “The golden notebook” (em língua portuguesa tomou o título de “Caderno Dourado”, é uma espécie de acompanhamento de sua atividade diária, onde despontam as atitudes a favor das mulheres que continuam a sofrer discriminações, em especial no país onde nasceu e no país em que viveu. A situação é mais tranqüila na Grã Bretanha, mas isso lhe propicia um camarote especial para ver a vida, mas não sem a experiência anterior dos seus primeiros e difíceis trinta anos.

Na certa o cheque que acompanha a estatueta do Nobel, mais de um milhão de euros, portanto mais de 3 milhões de reais (para entender-se o valor financeiro), ajudará Doris a enfrentar com mais tranqüilidade os desafios da idade, mas não para acomodá-la, coisa que nem os prêmios anteriores (como o “Astúrias” da Espanha) ou os rendimentos dos direitos autorais, enormes ao longo de uma vida de sucesso e muitos livros editados, conseguiram. É uma lutadora e como tal foi definida pelo Comitê do Nobel que ao fazer o anúncio da escolha disse que ela é “uma autora de contos épicos sobre a experiência feminina “que defende com fervor e uma força visionária que escrutina a sociedade” mas também com o “realismo do seu ceticismo”.

Seus títulos como “A boa terrorista”, “O quinto filho”, “O verão antes das trevas”, “Gatos e gatas” estarão sendo procurados nas feiras do livro em andamento por todo o estado neste momento e logicamente na 53ª. Feira do Livro de Porto Alegre que inaugura no dia 26 de outubro.

Doris Lessing nasceu Doris May Tayler, em 1919, na Pérsia, filha de pais ingleses.







12 DE OUTUBRO, DESCOBERTA DA AMÉRICA Houve uma época em que se comemorava a Descoberta da América. Aliás, hoje, "Dia de la Hispanidad"...
Walter Galvani, em 12/10/2007

E também é o
"Dia da Criança" no Brasil.
Esta crônica foi publicada hoje
no Diário de Canoas.
Depois dela, leiam aqui no meu sítio,
minha opinião sobre
a escolha de Doris ing para o
Prêmio Nobel de Literatura 2007


TODO DIA É DA CRIANÇA
Walter Galvani


Estabeleceu-se no Brasil que o dia 12 de outubro será o “Dia da Criança”. Sou contra. Não sou contra para “fazer gênero” ou porque imagine que me manifestando contrário, vá acontecer alguma coisa. Não sucederá nada. Mas, acho que todo dia é dia da criança e não apenas um miserável diazinho. Nem como símbolo, me serve a escolha.

Acho que as crianças merecem toda a nossa atenção, completa e indivisível. Sobre elas é que se constrói o futuro do país, das famílias, das comunidades. E dos pais, naturalmente. O Brasil será aquilo que forem nossas crianças.

O que é preciso é que os adultos aprendam a se comportar.

É preciso, de saída, anular a “babá eletrônica”. Com as monstruosidades que aparecem na telinha, não se construirá nada digno. Colocar as crianças diante de um aparelho barulhento (já experimentaram desligar a televisão e saborear o “silêncio”?) – não, não sou contra a instituição tevê, só acho que é preciso aprender a utilizar-se dela. Não cabe expor uma criança aos absurdos que se montam nos cérebros adultos, com o objetivo primeiro de obter lucro, para que “fique quieta”. É melhor pagar uma babá humana ou, ao menos, dividir o tempo livre entre os adultos da casa para que “tomem conta” das crianças. Vejam, crescemos com brinquedos simples, com cabra-cega, pião, bolinhas de gude, pega-pega e estamos aqui.

Então, ao invés de presentear as crianças amanhã com mais jogos eletrônicos e sementes de violência, experimentem, senhores pais e mães, a doarem-se integralmente, passar ao menos este dia inteiro com elas. Sim, já sei, há os compromissos de trabalho. Pois, dividam-se, façam como quiserem, mas pensem nos demais dias, quando as crianças ficam jogadas a um canto, abandonadas, tendo que encontrar o próprio entretenimento.

Não sou contra o progresso, não sou contra o uso do computador, tanto que estou aqui agora batucando nestas teclas, mas também não acho que isso seja a salvação da humanidade. Aliás não é, nem nunca será. O computador é apenas uma ferramenta, um instrumento eletrônico para produzir mais e melhor. Nem sequer significa que o seu trabalho vá ficar melhor. Dentro da cabeça é que está o segredo e é isso que é preciso passar para estas crianças que amanhã terão o seu dia. É preciso que elas aprendam a lidar com o tempo livre, a usar o feriado, o dia sem aula para uma atividade construtiva.

E comece hoje. Faça de conta que hoje também é o Dia da Criança. Dê atenção aos seus filhos, aos conhecidos, aos parentes, aos meninos de rua, caso contrário estaremos construindo a elite da tropa e a tropa da elite, aumentando o mercado das drogas e ajudando a torturar, segregar, matar.







O PALCO VAZIO Walter Galvani Aos 85 de idade, depois de uma carreira de 58 anos em que se incluíram mais de 90 peças e até um programa de rádio (em São Paulo, na BandFM) em que interpretava textos poéticos em língua portuguesa, enriquecendo-os com a sua magistral compreensão, morreu o ator Paulo Autran. É o único ator moderno que se equivale a João Caetano, hoje nome de teatro no Rio de Janeiro, o que Paulo será muito em breve, pois não faltará quem queira homenageá-lo. Nós, que aprendemos teatro acompanhando suas atuações, perdemos um mestre inigualável. Lembro quando ao início de minha carreira jornalística, me aproximei do setor de Arte e Cultura e fui convidado a escrever sobre teatro, quantas vezes colhi de suas lições fecundas o verdadeiro caminho, o entendimento de uma peça, a correta visão de um texto como “Depois da Queda”, por exemplo, o magnífico trabalho de Arthur Miller, “After the fall” no original, que ele fez ao lado da gaúcha Maria Della Costa, e que o Jofre Miguel trouxe para Porto Alegre, no Teatro Leopoldina (hoje Teatro da OSPA). Estreou como amador universitário (estudou Direito) com a peça “Esquina Perigosa”, mas considerava o seu real primeiro passo, ao lado de Tonia Carreiro em “Um deus dormiu lá em casa”, de Guilherme de Figueiredo. A maior lição que dele poderia receber, que repito toda a vez que se abre uma oportunidade: “Deve-se representar com a mesma flama, para um teatro cheio ou para três pessoas. Os que foram te ver atuar não tem culpa se teu nome não atrai um grande público... Seja digno deles. Entregue-se totalmente ao desempenho!” Isso me disse numa entrevista à “Folha da Tarde”, vespertino de Porto Alegre, que tratava os assuntos culturais com a mesma ênfase dos esportivos. Com 58 anos de carreira, tornou-se o símbolo maior dos palcos brasileiros, um dos melhores intérpretes de todos os tempos. Fez de tudo. Deu cursos, apresentou-se em peças de menor expressão para valorizar o trabalho de grupos, ou fez “Otelo”, fez “Rei Lear”. Seu último espetáculo, “Quadrante”. Nasceu a 7 de setembro de 1922. Dia em que o Brasil completava cem anos de independência. Ele disse no ano passado: “Deveria ter parado de fumar há 61 anos. No dia em que comecei.” Matou-o, sexta-feira, um enfizema e um câncer no pulmão. Na televisão fez o personagem (entre outros) “Baldaracci”, na novela “Pai Herói” de Janete Clair que o tornara conhecido do “povão” até os últimos dias, apesar de que aquela atuação fora em 1979. Aliás sobre televisão, disse: “Meu próximo projeto para televisão é nunca mais fazer televisão. É muito chato...” Quem se atreveria a apontar um sucessor? É pena, mas, pelo menos por enquanto, o palco parece vazio...
Walter Galvani, em 13/10/2007





MUITA ÁGUA POR DEBAIXO DA PONTE
Walter Galvani, em 16/10/2007

Muitos mortos ilustres,
muitos acidentes no feriadão,
mas ainda é tempo de registrar
esta crônica publicada
no Diário Popular de Pelotas,
o mais antigo diário
em circulação no
Rio Grande do Sul


O CHARME DA HISTÓRIA

Walter Galvani


O que nos dizem, leitores, de nascer no Irã (antiga Pérsia), crescer na Rodésia (hoje Zimbabue) e viver os últimos 57 anos na Inglaterra? Assistir durante a vida as tensões sociais revolucionárias de países em desenvolvimento, passar para o camarote especial da Grã Bretanha e testemunhar a Segunda Guerra Mundial, o crescimento dos movimentos feministas, sempre com a capacidade de transplantar isso para o papel?

Não é por nada que “The golden notebook”, lançado antes que “notebook” se tornasse sinônimo de computador portátil, (1962), significando então seu “Caderno Dourado” (como foi batizado na edição portuguesa) se tornou uma das suas obras de maior repercussão. Doris Lessing esperou 87 anos, onze meses e 21 dias para ganhar o Prêmio Nobel, mas na certa não foi por falta de reconhecimento anterior. Agora, se já tinha uma velhice confortável com os direitos autorais que arrecadou ao longo da vida, terá de encontrar um lugar em sua estante e em sua conta bancária para acrescentar a estatueta do Nobel e os 10 milhões de coroas suecas, que equivalem a 3 milhões de euros.

Quanto ao reconhecimento pelo Prêmio Nobel, há cinco anos ela perguntou a um jornalista se ele já havia ouvido falar no “Prêmio Astúrias”, que naquele ano recebera na Espanha (igualmente valioso e significativo numa carreira literária), pois o profissional de imprensa a provocara, perguntando se não se achava candidata à distinção sueca que tem 106 anos e uma longa lista que inclui 34 mulheres.

Mas, a autora recebe este prêmio agora por transmitir “a experiência épica feminina” e por descrever “com ceticismo, paixão e força visionária” as divisões da civilização, discutindo tensões inter-raciais, violência contra crianças e movimentos feministas.

“Debaixo da minha pele” e “Andando na sombra” e “O sonho mais doce” todos pela Companhia das Letras, “As experiências de Sírius” pela Nova Fronteira, “O quinto filho” pela Record, são os seus livros editados no Brasil, mas também há disponíveis em língua portuguesa, outros livros seus, lançados por editoras de Portugal, como “O caderno dourado”, “Shikasta” seu primeiro trabalho “A erva cresce” e uma peça teatral “Canopus em Argos”.

Doris Lessing, um nome de grande repercussão internacional, especialmente nos meios dos movimentos feministas, resultado das posições que adotou ao longo de uma vida extensa já, mas ainda produtiva (como o atesta seu novo livro recém lançado na Inglaterra, “The cleft”) nasceu a 22 de outubro de 1919 em Kermanshah, antiga Pérsia, atual Irã, onde viveu por cinco anos, indo para a Rodésia do Sul, atual Zimbabue, (onde morou por vários anos) e vive desde 1949 na Inglaterra.








LEVARAM O LIVRO DO POETA...
Walter Galvani, em 17/10/2007

No recinto sagrado da Feira do Livr
de Porto Alegre,
um furto assombroso...


O ROUBO DA MEMÓRIA

Walter Galvani

Os ladrões perpetraram o maior roubo da história gaúcha. Muito pior do que qualquer assalto a banco, seqüestro ou atentado a caminhão de transporte de valores, eles, atentaram contra a memória do porto-alegrense: levaram o livro que estava nas mãos do poeta Carlos Drummond de Andrade, na estátua que a Câmara Rio-Grandense implantou na Praça da Alfândega, para assinalar o local sagrado da Feira do Livro. Ninguém viu, o que é característico da maioria dos crimes similares, mas o pior é que ninguém notou. Ou seja: deram-se conta ontem, quando chegaram ao local para a montagem das bancas, pois antes ninguém havia percebido o que acontecera. E se sabe que tem “mais de 25 dias” o roubo, porque no dia 25 de setembro, quando Antônio Hohlfeldt foi anunciado como o patrono da nova feira que inaugura no dia 26 de outubro, o livro não estava mais lá. As fotos o documentam.
Mas, só as fotos. Ninguém lembrou naquele momento, ninguém comentou, não houve nenhuma notícia daí resultante, em suma, ninguém sentiu a falta do livro.
E ele lá estava desde 2001, quando foi inaugurada a 47ª. Feira do Livro de Porto Alegre, (hoje chegando à 53ª. Edição), criada por Xico Stockinger e Eloísa Tregnano representando o encontro entre os poetas Mario Quintana e Carlos Drummond de Andrade. Simbolicamente é tudo o que se pode imaginar, inclusive o feliz encontro entre a literatura que se produz no sul e o resto do país, o que é uma ficção na maioria dos escritores gaúchos, pois se acham segregados e também é simbolicamente, o significado maior da feira que leva à praça gente de todos os lados, literatura de todos os gêneros e muita poesia e imaginação. O pior de tudo foi, portanto, o roubo da memória.
Levaram o livro de Drummond e ninguém viu!
Ou melhor: ninguém notou.
Todos nós temos responsabilidade nisso, se é verdade que não temos obrigação de olhar para todos os lados, também é certo que é preciso prestar atenção ao que realmente tem algum significado. Qualquer dia, levam a Fonte da Talavera, o monumento ao Julio de Castilhos ou um pedaço da catedral.
Pichação já é coisa comum e tem até gente que acha que aquilo é manifestação artística. Prefiro considerar sujeira e concitar os juizes (se é possível impressionar algum juiz) a punir os pichadores com balde, vassoura e sabão. Para que limpem o que fizeram e mais uns cem metros ao redor...
O pior é a limpeza da memória, a anulação das lembranças... Como ninguém sabe e ninguém viu e como o livro do Drummond era feito de bronze, resta apenas a esperança de que seus livros de papel tenham mais duração, como se imagina. E que sirva apenas de alerta para a ousadia dos ladrões que não perdoam a Feira do Livro. Aliás, numa súbita valorização da literatura eles estarão em ação durante os dezessete dias da feira. Perguntem aos responsáveis pelas barracas, sobre a atuação dos ladrões. A diferença é que praticam seus atos diante dos olhos de todos, sob as luzes e as bênçãos do maior público que comparece a uma feira ao ar livre na América Latina.




NO BRASIL, HOJE COMEMORA-SE O DIA DO MÉDICO
Walter Galvani, em 18/10/2007

Mas, em minha opinião,
todo dia deveria ser
"O" Dia do Médico.
Saiba porque:


DIA DO MÉDICO, DIA DO PACIENTE
E DO IMPACIENTE, TAMBÉM

Walter Galvani


Aos poucos, em meio ao intenso e extenso calendário promocional brasileiro, instituído a partir do momento em que alguém se lembrou de fazer um levantamento geral de datas e decretos comemorativos, surgiram algumas celebrações que adotamos por considerá-las justas, adequadas, oportunas. Nesse caso se inclui, por exemplo, o “Dia do Médico”, dia 18 de outubro.
Não interessa investigar as razões, nesse momento, pois quero apenas propor que se festeje o Dia do Médico... todos os dias!
Sou contra estas histórias de “dia disso, dia daquilo”, mas compreendo que, dentro da simbologia que talvez as religiões nos tenham transmitido, tornou-se quase obrigatório manifestar-se a propósito dos contemplados.
Hoje, 18 de outubro, é pois a hora de pegar o telefone ou ao menos o computador e mandar um mail (correio eletrônico, como sabiamente se diz em Portugal, onde se fala a língua portuguesa, ainda...) – e cumprimentar aquele sujeito de espírito cordial e compreensão escuta nossas mazelas e conserta um pé quebrado aqui, um coração partido ali, ouvindo-nos pacientemente.
Já fiz minha ronda de hoje, mas quero deixar registrado aqui, aproveitando esta oportunidade que compreendo e admiro o trabalho do médico e quando digo que o professor deve ser o profissional mais bem remunerado do reino ideal, também classifico o médico, como professor. É que ele nos ensina tudo, desde o be-a-bá higiênico, até os cuidados com o coração, esta bomba aspirante-premente capaz das maiores proezas e também das maiores certezas e incertezas da nossa vida. De tanto ser pressionado, o pobre coração às vezes dá de si e se entrega antes do tempo. Hora, na base de 60 ou 70 batidas por minuto, multipliquem para ver o quando funciona a prodigiosa invenção da natureza (ou do Criador, conforme a ideologia de cada um) durante 50, 60, 70, 80 anos de vida (ou até mais, pois descobriram uma senhora brasileira com 128 anos e pensionista do INSS).
Pois é preciso que um “mestre” de vida e de comportamento cuide desta preciosa “máquina”.
Mas, não esqueça que também é um médico que cuida dos seus “faróis” , dos seus aparelhos de audição, da sua locomoção. Lembre-se deles, todos os dias. E telefone, hoje ao menos.





A GUERA DOS CAMELÔS
Walter Galvani, em 21/10/2007

Crônica publicada hoje
no jornal ABC DOMINGO
do Grupo Editorial Sinos


COPIANDO O QUE HÁ DE PIOR
Walter Galvani


O filme “Tropa de elite” serve para várias coisas além da sua possível qualidade cinematográfica. A principal delas é alertar a sociedade de que o câncer da violência não será tão facilmente extirpável, porque os interesses entrecruzados são tão grandes que se interpenetram e acabam alimentando a fera que, por seu turno, consome os próprios filhos. Ou seja: o torturador e o traficante, o executor e o ladrão, o policial e o bandido, acabam se entredevorando, filhos que são do mesmo monstro.

Para saber se o monstro é indestrutível ou se podemos vencê-lo, só o tempo poderá responder.

Mas, enquanto isso, o filme mais vendido em todos os camelôs do país, ajudou a criar o ambiente que desaguou na ação violenta da própria polícia que resolveu, depois de anos de inação contemplativa, apreender mercadorias, prender camelôs e tentar varrer o centro da capital do estado desta verdadeira praga que é o comércio que não é mais ambulante há muito tempo.

Todos têm razão. Polícia, camelôs e até bandidos e cineastas.

No entanto, o que há para lamentar é que a capital do civilizado estado do Rio Grande do Sul está simplesmente copiando o que há de pior na antiga capital federal e que, justamente quando deixou de sê-lo, passou a inchar e se tornar no lugar da desesperança e da infelicidade.

Ninguém quer condenar o Rio de Janeiro como cidade, aliás, um dos lugares mais lindos do mundo e onde qualquer estrangeiro gostaria de fixar-se.

Mas, porque não se criaram ações (depois de 1961) para transformar a vida no Rio de Janeiro e promover seu saneamento e recuperação, logo que surgiram os primeiros sintomas desta doença terrível que a atingiu?

Pois é, tomem nota, ninguém fará nada por Porto Alegre agora e muito menos pela Região Metropolitana, ou pelo Vale do Rio dos Sinos, ou pela Encosta da Serra, ou por Novo Hamburgo, São Leopoldo, Sapucaia, Esteio, Canoas, etc e tal.

Por favor: já que importamos o pior e a capital já começa a aplicar, não copiem. Sei que, dito assim, não tem nenhum favor. Mas, no instante em que esta atitude de violência no cumprimento do que deveria ser norma (o que quer dizer, normal, habitual), gera a violência da resposta, é preciso muita cabeça fria e intervenção de quem ocupa posições de responsabilidade. Mas, não com ameaças. Sim com ações equilibradas e justas. Não defendo o comércio ilegal, a pirataria. No entanto, a fiscalização, o policiamento, o rigor, devem ser permanentes. E para todos os delitos. Como o fez o prefeito Juliani, de Nova York, que transformou a grande cidade num local seguro em dois anos de atuação.









FEIRA DO LIVRO
Walter Galvani, em 22/10/2007

É a época de feiras de livros.
Em Porto Alegre, começa
na sexta-feira, dia 26, a
53a. edição.
Antônio Hohlfeldt será o patrono.
Em Pelotas, vem aí
a 35a. edição. Já tem
também o seu patrono.
Leiam a seguir na
crônica que publiquei
no Diário Popular da
maior cidade da metade sul
do Rio Grande:


UM APAIXONADO

PELA CULTURA

Walter Galvani



Todas as quartas-feiras, exatamente das 13 às 13h30min, a Orquestra Filarmônica da PUCRS propicía aos alunos, professores, convidados e visitantes da universidade em Porto Alegre, no campus do Partenon, uma denominada “Sobremesa Musical”. Durante trinta minutos a gente esquece dos problemas e aflições e participa do doce convívio musical. Assim tem sido. E nessas quartas-feiras, quase sempre tenho desfrutado do prazer da visita do pelotense José Antonio Mazza Leite que, quando está na capital procura partilhar aqueles agradáveis momentos na universidade.

Já sei que não contarei com a presença dele nos próximos dias, pois estará voltado à questões que o prendem à sua terra. Foi escolhido como o Patrono da 35ª. Feira do Livro de Pelotas.

Afinal, como é bom saber que lhe fazem justiça! Não só por ser um intelectual de mérito, mas sobretudo pela sua dedicação ao Livro e às coisas da cultura de um modo geral. Ainda recentemente, recebi das mãos dele, numa dessas visitas, o valioso “Xarqueadas – de Danúbio Gonçalves um resgate para História”.

Modesto no título e no texto, o resgate não é só do excelente Danúbio, mas do valoroso empenho e da mão amiga do José Antonio Mazza Leite que aqui nos brinda com sua eficiência de pesquisador e sua paciência de reconstrutor da memória da sua cidade e da região.

Como o é também o Museu do Charque, ou seja a Pousada do Charme, ali no Areal, e que ajudou a erguer com a participação da arquiteta e urbanista Ediolanva Liedke. Quem conhece se deslumbra.

Saiu bom, o neto mais velho do comendador Raphael Mazza que veio da Itália para dar a sua contribuição à esta cidade tão cheia de encanto e de espiritualidade, de cultura e pensamento! Eu próprio, quando escrevi meu primeiro romance, “Anacoluto do princípio ao fim”, achei que os personagens se sentiriam bem se a trama fosse inserida no contexto pelotense. Foi o que fiz, e hoje me sinto orgulhoso quando ouço ou leio referências elogiosas ou simples comentários, pois não ouvi até agora nenhuma contestação à minha decisão de enquadrar o romance em Pelotas.

Acho que tudo isso nos aproxima, mais as tardes musicais na PUCRS, a situação de Patrono de Feira do Livro, a preocupação com o passado histórico e a certeza de que se pode colaborar, e muito, para o resgate da Metade Sul do estado, relegado por questões políticas e por competição privada, quando deveria ser entronizada como uma das matrizes do nosso desenvolvimento. Tudo isso virá, com a participação de tantos valiosos intelectuais como José Antonio Mazza Leite, que aqui tomo como exemplo, se ele, em sua modéstia, me permitir.




DA LEITURA À CRÕNICA
Walter Galvani, em 24/10/2007

O resgate através
do letramento.
Os caminhos da
escrita criativa


OFICINA DE CRÕNICA
DE WALTER GALVANI
NA 53ª. FEIRA DO LIVRO


Walter Galvani, veterano jornalista com 53 anos de carreira e escritor consagrado, com dez livros editados, estará ministrando oficina de criação literária, na área de Crônica, nos primeiros dias da 53ª. Feira do Livro de Porto Alegre.
Sob o título “Leitura, o desafio da interpretação” ele abre o caminho para o resgate da arte da crônica, na biblioteca (2º andar) do Centro Cultural “Erico Veríssimo”, (Rua dos Andradas, 1223, Porto Alegre), das 15h30 às 17h30min, nos dias 27 de outubro (sábado), 28 (domingo) e 29 (segunda-feira).
“Quando se pára de ler, desaprende-se” – escreveu Gabriel Garcia Márquez, um dos grandes cronistas citados por Galvani em sua oficina de três dias, na qual aborda a história do gênero, sua constante oscilação entre o eterno e o efêmero, a perenidade e a mortalidade infantil, sempre a um passo da eternidade.
Inscrições ainda podem ser feitas na sede da Câmara Rio-Grandense do Livro, obtendo-se maiores informações pelos telefones (51) 32.25.50.96 ou 81.01.24.55.




ATÉ O AMARGO FIM...
Walter Galvani, em 29/10/2007

Crônica publicada no jornal ABC DOMINGO
do Grupo Editorial Sinos


PETRÓLEO A NOVENTA



Walter Galvani





Estamos brincando com os fatos. O petróleo ultrapassa a barreira dos 90 dólares por barril e isso é minimizado, ou, na prática, ignorado por todo o mundo, e... segue o baile! Não vai haver uma queda no consumo dos combustíveis chamados fósseis (óleo, gás, querosene e gasolina) por conscientização mundial diante da poluição ambiental. O problema será o custo.

Para que se tenha uma idéia pálida de como isto começou: no auge da primeira crise do petróleo, nos anos setenta, o petróleo custava 20 dólares o barril. Agora, quatro vezes e meia mais caro.

Você sabe o que pode significar isso na sua passagem de ônibus, no pedágio, no deslocamento do seu automóvel particular?

Por muito menos o império americano invadiu o Iraque, fez alianças com os mais inesperados governos do Oriente Médio, ou entrou em guerra fria ou aberta. Por muito menos, a estrutura de comércio, serviços, transportes, indústria, enfim todo o edifício da economia mundial já se abalou. Resta imaginar que pode ruir como as torres gêmeas de Nova York, só que desta vez o impacto não será por um avião maluco ou dirigido por suicidas.

O suicídio da economia ocidental pode ocorrer por soberba e ou prepotência. Ninguém imagina que o petróleo bruto pode subir ainda mais. Mas pode. E se isso ocorrer, teremos num par de anos, uma alta absolutamente insuportável.

Quais são as saídas?

Primeiro economizar enlouquecidamente. Mas isso não será suficiente.

Abandonar o consumo dos combustíveis que tenham essa origem. Eis uma boa medida. Mas, como fazê-lo?

Ora, criando um motor que não seja à explosão, ou que consuma eletricidade produzida por superbaterias. Enfim, o desafio está lançado às indústrias de automóveis e caminhões, para que desenvolvam numa velocidade nunca vista, uma saída à altura, para escapar a esse impasse.

Que faremos então?

Encostar o automóvel?

Se providenciarmos um dia sem carro por mês no mundo, já estaremos contribuindo, mas, vejam bem, não estaremos solucionando.

Os que lêem estas linhas, ponham-se a pensar. Como nunca o mundo precisará da contribuição de cada um, para tirar o planeta do desgoverno em que cairá, não pelo abalo ao meio ambiente, mas pelo abalo ao bolso... Como este é o “órgão mais sensível” do corpo humano, pode-se imaginar que logo surgirão medidas para evitar a catástrofe. Agora, tomem nota: será mesmo uma catástrofe. Quando metade da frota mundial de carros virar sucata, talvez a humanidade comece a pensar seriamente a questão...

Desta vez não dá para “pegar leve”... como manda a “sabedoria” de vila, típica do Brasil.




QUE HORROR!
Walter Galvani, em 07/11/2007

Crônica publicada neste fim-de-semana

“PRA QUÊ? PRA NADA...”



Walter Galvani





Costumo lembrar versos de Aderbal Tavares, grande poeta pernambucano que, certa vez, para assinalar a inutilidade da reação violenta e precipitada do gaúcho, nos retratou assim; “Lá vai o gaúcho em louca arrancada! Pra quê? Pra nada...”

Foi o que fez o presidente desta louca república do Brasil, o senhor torneiro-mecânico Lula da Silva, ao anunciar-se o nosso país como o organizador da Copa do Mundo de 2014. Disse ele: “Organizaremos uma Copa do Mundo para argentino nenhum botar defeito!”

Pergunto: pra quê ele disse isso? Pra nada. Em verdade, só para irritar nossos vizinhos, como se isso adiantasse alguma coisa.

Sob o ponto de vista esportivo, futebolístico, pior ainda. A sua declaração desastrada só servirá para mobilizar nossos tradicionais adversários, irritá-los e prepará-los para um surto de raiva, revanche ou inveja. Pra quê? Pra nada...

É conhecida a rivalidade histórica entre o Brasil e Argentina no campo de jogo e que não raras vezes extravasa os limites dos estádios, transformando um jogo amistoso numa batalha e uma partida oficial numa questão de princípios. Ora, se os dois se encontram no elevado patamar dos melhores do mundo, junto com a Itália, Alemanha, Inglaterra e poucos mais, de que serve esta “cutucada” do Lula? Só para discussão inútil em mesas de bar e para transformar o confronto entre os dois em batalhas como a “mídia” gosta de denominar, as memoráveis e muitas vezes lamentáveis, “batalhas do Rio da Prata” ou combates do Morumbi e do Maracanã onde por certo se jogará uma finalíssima, se houver e justamente entre esses dois cultores excepcionais do esporte inventado pelos ingleses e difundido pelo mundo afora.

É pena. Pior do que isso, só a burrice astronômica do Paulo Coelho, que, talvez pensando em fazer gênero, disse que os brasileiros gostam mais de futebol do que de sexo, pois o sexo termina em pouco mais de meia hora ou quarenta minutos e o futebol é discutido horas a fio depois do término da partida.

Boa ocasião perderam ambos, Lula e Paulo Coelho, para ficarem devidamente calados.

Graças a Deus que não é a maioria do povo brasileiro que pensa como eles. Tenho certeza que nossos leitores nses ficaram arrepiados com tal demonstração de grossura, ignorância e mau gosto.

Certamente não contribuíram em nada para a realização da Copa de 2014, competição poderá ajudar alguns problemas de infra-estrutura e transportes, pois, como se sabe, transformada em questão de honra, qualquer governante de hoje até lá, fará tudo para colocar em ordem sua região e ou o país.












PETRÓLEO, LULA SONHA COM VIRAR SCHEIK
Walter Galvani, em 11/11/2007

Crônica publicada no jornal ABC DOMINGO

PROFISSÃO ESPERANÇA



Walter Galvani





A seis metros de profundidade, debaixo de uma grande camada de sal, jaz uma reserva de petróleo que poderá transformar Lula no mais requisitado sheik do próximo carnaval, disfarce, aliás, que já foi muito popular nos velhos bailes tradicionais, do tempo em que o carnaval era uma alegre e amistosa festa de clubes.

Antônio Maria, um dos nossos maiores cronistas, um jornalista gordo e boêmio, aos tempos em que isso era permitido sem cobranças públicas, costumava classificar-se e o fez numa crônica famosa, como “brasileiro, profissão esperança”.

É isso que nos alimenta e sustenta, mesmo em meio a todas essas denúncias e suspeições, acusações e delações premiadas, junto com aplausos a traficantes que deixam as vilas onde mataram policiais, como heróis. Já sei, será explicado que é a ausência do estado que os torna representantes de uma certa “legalidade”, que garante o ir e vir na vila, saída e entrada com segurança, enquanto ninguém se intrometa no ritmo dos seus “negócios”.

Se é isso que sobrou para os cidadãos que cumprem seus deveres, pagam (ou devem) suas contas, trabalham de sol a sol e ganham salário mínimo, paciência haja, o Brasil foi construído pelos brasileiros, um povo tão paciente que só se levanta de cinqüenta em cinqüenta anos e só faz uma revolução por século...

Ver um traficante deixar a vila sob aplausos, sob as luzes da televisão, depois de haver enfrentado a maior concentração de policiais dos últimos tempos, mesmo depois de haver matado um e ferido dois brigadianos, outrora a força símbolo da confiança gaúcha, é um sinal lamentável dos tempos que vivemos e que, provavelmente, iremos viver, daqui para o pior nos próximos anos.

O acontecido na vila Areia, aliás uma das que receberam a maior atenção dos poderes públicos com a construção de pequenas casas, bem pintadas pelo menos, antes que cheguem os pichadores, é um retrato do desconforto moral em que vivem os habitantes desta cidade como de outras grandes capitais do país. A exportação do “know how” carioca, com requintes tecnológicos de câmaras para filmar quem ousa penetrar nas ruas da vila, é também outro pequeno toque da verdade do que ocorre no país.

Mas, eis que explode a notícia de que o Brasil poderá se tornar exportador de petróleo, algo no gênero da Arábia Saudita, na posição da Venezuela ou da Nigéria e já se pode imaginar o sorriso e o tamanho da esperança que se aloja nos corações brasileiros. Esquece-se tudo. Brasileiro, profissão esperança.




A FEIRA DA GENTE
Walter Galvani, em 13/11/2007

Sob este título, publiquei em 2004, um livro editado pela
Câmara Rio-Grandense do Livro
abordando os 50 anos
da Feira do Livro
de Porto Alegre.
Eis o primeiro capítulo:



Este é um livro de História. E de histórias. Por isso, ele começa com "Era uma vez..." E como tudo é verdade perante os céus, embora seja preciso enxergar "sob o manto diáfano da fantasia, a nudez forte da verdade" e embora, muitas vezes, se possa imaginar que se cria ou que se voa, é preciso estar atento, pois os sonhos podem ser mais reais do que se pensa.
Por isso tudo, o início está na foz do rio Mekong com Luís de Camões e na Praça da Alfândega em Porto Alegre, antigo Largo da Quitanda, e junto ao Tejo, em Lisboa, e também na redação do antigo Diário de Notícias na rua Sete de Setembro, ou na Editora e Livraria do Globo junto à Galeria Chaves e ainda na avenida Borges, todos endereços no centro de Porto Alegre. Entre os livros, onde estão e estarão sempre, todas as histórias. E na cabeça dos homens, amigos dos livros.
Ali vai o poeta, nadando e, loucamente, conduzindo o texto que lhe há de dar "doces lembranças de passada glória que me tirou Fortuna roubadora". Aqui, os homens discutem no café da esquina como hão de mudar o mundo. A alavanca para movê-lo? O livro. Portanto... "Era uma vez, na foz do Mekong, aí por 1557, ou ainda e também em Porto Alegre, por volta de 1955...". São fatos que se somaram e, hoje, envoltos pelo "manto diáfano da fantasia", já não se distinguem mais os limites entre a verdade dos homens e a certeza dos sonhos.
Até que ponto um naufrágio na Ásia, o professor Guilhermino César, os livros na praça principal de Porto Alegre e Camões estarão interligados? Pois, num destes lances de mistério que só um pouco de magia nos faria compreender, veremos que o dedicado professor mineiro, que escolheu o Rio Grande do Sul para viver, e o poeta do século XVI, um dos "pais fundadores" da cultura e da língua portuguesa, têm o seu ponto de encontro na feira de cinqüenta anos, preparada para viver outro tanto. Ou muito mais. É o nosso sonho.
Magia não seria bem o termo, melhor seria referir a seriedade de Guilhermino César e sua erudição, virtudes que o aparentavam diretamente com Luís Vaz de Camões, e o casamento destas duas personalidades com a Feira do Livro de Porto Alegre, cuja idéia básica transita de um para outro, e busca seu sentido simbólico no salvamento do texto de "Os Lusíadas". Imaginá-lo rumo à praia com a ação de apenas um braço, enquanto com o outro elevava "Os Lusíadas" para que não se perdesse no mar revolto, é um desafio ao ceticismo moderno. Mas, a metáfora permanece ao longo dos séculos e chega à Praça da Alfândega, onde o livro vive e nos faz lembrar, mais modestamente, que a luta com as águas da chuva assumiu contornos de epopéia vivida e, de certa forma, vencida.
No dia 16 de novembro de 1955, às 18 horas, quando se inaugurava a I Feira do Livro do Rio Grande do Sul, Guilhermino César era o porta-voz na entrevista coletiva, depois, no encerramento, dando o balanço nos resultados e anunciando a nova feira. Dezessete anos depois, Camões seria o Patrono da Feira, na comemoração dos 400 anos de publicação de "Os Lusíadas". Quem o saudaria lembrando o episódio homérico de 1557? Ora, Guilhermino. E trinta e cinco anos adiante quem seria o Patrono da Feira? Guilhermino César.
Por essas e outras, fica mais fácil identificar a idéia, vitoriosa, e como tal dividir sua paternidade entre os muitos candidatos, do que encontrar em seu genoma criador o gene paterno.
Envolvendo a Feira que nascia não eram apenas Camões e Guilhermino, é lógico. Havia Maurício Rosenblatt, Henrique e José Bertaso, Leopoldo e Nelson Boeck, Augusto da Cunha Carneiro, Ernani Nerva, Egon Poetter, os lusitanos Ruy Diniz Netto e Edgardo Xavier e Say Marques, o maior candidato a pai/padrinho/patrono.
Como no início era apenas "uma idéia trêmula, frágil, bruxuleante", foi quase totalmente creditada ao entusiasmo do jornalista Say Marques, um dos diretores do Diário de Notícias, que regressara do Rio de Janeiro onde vira a II Feira do Livro carioca e tentava transmitir a sugestão aos porto-alegrenses. Ele foi enfático em seu jornal. Ocupou o alto da última página com uma manchete em duas linhas em que prometia: "A Praça da Alfândega converter-se-á em uma autêntica biblioteca a céu aberto".

Para ajudar a explicar aos leitores de que se tratava, ele incluía, na edição do dia 13 de novembro de 1955, uma crônica de Rachel de Queiroz sobre a feira do Rio e explicava o nascimento da congênere gaúcha:
"O Diário de Notícias e as Emissoras Associadas bem como os livreiros e editores, com o apoio da Secretaria de Educação e da Prefeitura, levarão ao povo gaúcho 30 mil livros em quinze dias, em um comício de cultura na Praça da Alfândega."
Lançada a idéia, formou-se a primeira comissão organizadora a cargo da Câmara Brasileira do Livro, Seção RGS, presidida por Henrique Bertaso (Editora e Livraria do Globo) e integrada por Leopoldo Boeck (Livraria Sulina, Egon Poetter (Livraria Americana e Cia. Melhoramentos de São Paulo), Augusto Cunha Carneiro (Livraria Farroupilha), Maurício Rosenblatt, (Editora José Olympio do Rio de Janeiro) e o jornalista Say Marques. Escolhidos o local, o dia e a hora, só faltaria o discurso. O encarregado foi o Secretário de Estado da Educação e Cultura, Liberato Salzano Vieira da Cunha, que procurou atribuir a iniciativa à "imaginação cascateante de Say Marques, fecunda em iniciativas em prol do bem público" e não esquecendo a importância dos agentes concretos do acontecimento, "à Câmara do Livro, aos editores e livreiros de Porto Alegre".
O entusiasmo levou o secretário a uma visionária declaração de compromisso democrático: "Lendo a história dos homens e dos povos, eles sabem que os ditadores pertencem ao pó do passado, são figuras efêmeras de um dia, e que só permanecem os autênticos democratas, aqueles que consagraram sua vida ao serviço do povo".
Mal sabia ele que todos nós, e a própria Feira, enfrentaríamos dias difíceis com outros ditadores que estavam por vir. Mas o dia não se prestava a pessimismos. Inaugurava-se uma feira de livros em Porto Alegre, no local onde a sua vocação de porto e comércio nasceu, no antigo Largo da Quitanda, e era justo, pois, que o homem responsável pelo setor cultural do governo encerrasse com a mensagem mais animadora possível. Foi o que ele fez:
"Dizia o velho Sêneca que dar um livro a alguém não é apenas fazer-lhe um presente, é também dirigir-lhe um elogio."
Maurício Rosenblatt, integrante da comissão e representante da Livraria José Olympio, ouviu bem e o discurso do secretário Salzano marcou-o de tal maneira que sempre o apresentou como ideal e "das melhores coisas que se disseram na praça". Em 1984, ano em que foi o patrono, o primeiro a ser escolhido em vida, Maurício lembrou-se do ato de trinta anos antes:
"Fomos para a praça como guris para um piquenique, loucos de contentes, mas sem saber o que iríamos encontrar."
Outro que lá estava era o jornalista Alberto André, na época deputado pelo Partido Libertador, e logo na sessão do dia 18 de novembro, requereu um "voto de congratulações" à "Câmara Brasileira do Livro e ao Diário de Notícias na pessoa do seu diretor, Say Marques, pela realização da Feira do Livro". Era o reconhecimento público, oficial.
Naquele bom começo, o grande ausente fora o escritor mais conhecido do Rio Grande do Sul. Os jornais do dia 25 de novembro noticiavam, com grande destaque, que Erico Verissimo, "depois de três anos e meio servindo na OEA, chegaria ao Brasil pela primeira vez depois desta longa ausência e seria homenageado pelos colegas e amigos". Mas isso se deu depois do encerramento da Feira, no dia 30 de outubro. Depois, sempre que esteve em Porto Alegre, Erico prestigiou a Feira. A fatalidade e o costume da época, no entanto, só lhe dariam o título de Patrono em 1976, depois de falecido. Naqueles tempos, ainda se escolhia o patrono entre os mortos. Mas, ao longo de sua carreira, sempre procurou apresentar seus livros na Praça em sessões de autógrafos bastante concorridas.
No dia 16 de novembro de 1955, Cícero Soares, presidente da ARI (Associação Rio-grandense de Imprensa), estava no palanque, bem como o deputado-jornalista Alberto André, e Say Marques, além de Henrique Bertaso e o seu assessor, o jornalista Ruy Diniz Netto.
Esses todos e o próprio Erico Verissimo, um dos fundadores e primeiro presidente da ARI, como secretário de redação da Revista do Globo, estabeleceram o elo inoxidável com a Imprensa. Acrescente-se que tanto a seção gaúcha da Câmara Brasileira do Livro, quanto a futura Câmara Rio-grandense do Livro abrigaram-se no edifício da ARI, na av. Borges de Medeiros, 915, até que se tornasse possível a sede própria.
Entre os selecionados apóstolos dos livros, estava também o professor Guilhermino César, que vivia em Porto Alegre desde 1943, e aqui solidificara seu conceito de homem erudito, que vinha desde Cataguazes. Lá, estudara e participara da modernista revista Verde. Seu porte intelectual o havia transformado numa espécie de porta-voz do grupo fundador. Por isso, lhe eram encaminhadas as primeiras entrevistas, resultantes da suave curiosidade da imprensa de então.
Ao longo dos anos, o lusitanista emérito tornara-se também professor em Coimbra e Lisboa, enquanto o seu sólido casamento com a cultura portuguesa produzia lógicos afloramentos locais. Em 1972, quando Camões foi escolhido como o Patrono da Feira, ele seria o orador. Dezoito anos depois, em 1990, chegou a sua própria oportunidade, na 36a. edição. Ao final da feira de 55, o prof. Guilhermino voltara ao palanque para fazer a palestra de encerramento, costume substituído mais adiante por uma festa. Naquele ano, ele apresentou os resultados, sublinhou os objetivos alcançados e anunciou a repetição no ano seguinte, no mesmo local. E foi com ele de Orador oficial que se inaugurou a II Feira do Livro no ano seguinte, adiada de 24 para 27 de outubro por causa da chuva. Lá estava o estimado professor mineiro-gaúcho falando sobre "o pão do espírito"...
Os jornais porto-alegrenses, em sua discreta cobertura da I Feira, (com exceção do Diário de Notícias, co-promotor entusiasta), encontraram espaço para abrigar as palavras impetuosas de Guilhermino:
"Vejo diariamente centenas de homens do povo diante das barracas, abastecendo-se de romances, poesias, livros técnicos, livros didáticos. É um espetáculo comovedor. Pessoas que normalmente não freqüentam livrarias, em grande parte porque trabalham de sol a sol, passam à noite pela Praça da Alfândega e saem carregados de livros. Meninos pobres reviram os caixotes em que se empilham livros em liquidação, compêndios escolares fora de moda, e saem triunfantes com a sua modesta-grande compra. O movimento da Feira do Livro, o interesse que despertou, o entusiasmo com que o povo correspondeu à expectativa, quer dizer, em linguagem de governo, o seguinte: ‘É preciso inaugurar em Porto Alegre um serviço de bibliotecas ambulantes!’. Toda essa gente que não pode ler, pelo alto preço da mercadoria, ou porque lhe falta tempo para procurar o livro do seu agrado, deve também ser contada no panorama da cultura rio-grandense. Não se pode esquecer que existem estas pessoas. Sobretudo, não se pode esquecer que a escola primária tem na biblioteca pública a sua mais alta e bela complementação.
Aproveitemo-nos da Feira para abrir uma campanha em favor das bibliotecas circulantes. Não proponho uma utopia. Em São Paulo, criadas pelo Departamento Municipal de Cultura, são elas uma realidade há muitos anos. Porto Alegre, com o auxílio do Estado e do município, poderá atender facilmente a esses altos objetivos. Sei que tudo isto custa dinheiro. É verdade. Mas não é preciso muito dinheiro para começar. Ademais, o Estado possui uma Divisão de Cultura e de um belo orçamento e, entre os fins de sua criação, encontra-se esse de organizar na capital as bibliotecas circulantes. Vamos começar? Nunca é tarde para que se dê ao povo o mínimo de que precisa."
Say Marques, diretor do Diário de Notícias e que era apontado, mesmo pelos jornais concorrentes, como "o idealizador da Feira do Livro", fez também o seu discurso. O Diário de Notícias, por motivos óbvios o jornal porto-alegrense que melhor registrou a inauguração da primeira edição, disse que Say Marques, "em uma palestra cordial com o povo, explicou como nasceu e como vingou a iniciativa da Feira, que naquele instante representava uma extraordinária vitória de todos os livreiros, editores, intelectuais, educadores, governantes e do próprio povo gaúcho – tão sensível foi este ao convite que lhe fizemos para esse encontro na Praça da Alfândega".
O próprio governador do Estado, Ildo Meneghetti, estabeleceu um procedimento dos ocupantes do Palácio Piratini, de estar presente no ato, mas com um requinte que se perdeu nos tempos: comprou o primeiro livro, "Problemas da Liberdade", do americano Fulton Sheen (que foi arcebispo de Nova York), e, ao retirar-se da praça, adquiriu um álbum para seu netinho, conforme explicou.
Para Ruy Diniz Netto, o jornalista Say Marques foi importante, mas acima de todos o editor Henrique Bertaso, este sim poderia ser considerado o "pai da idéia", pois há muito a defendia e já fizera, inclusive, uma experiência em sua própria livraria. Nesse caso, havia uma antiga cumplicidade entre o "patrão" e o funcionário: Ruy conhecera o editor Henrique na viagem de vinda de Portugal em 1950 e haviam falado sobre a Feira de Lisboa, com muito entusiasmo. Ele a conhecia desde os tempos em que se realizava na Praça Camões, no bairro do Chiado, depois veio para a avenida da Liberdade e, posteriormente, para o parque Eduardo VII.
O que a Editora Globo fizera na loja tradicional da Rua dos Andradas, 1416, a tradicional Rua da Praia, em 1952, para ele, contudo, não fora propriamente uma Feira do Livro, embora o Correio do Povo, de 18 de novembro de 1952, assim a saudasse e houvesse, inclusive, um cartaz numa das barracas com a inscrição "1a. Grande Feira de Livros". Ruy Diniz explicou:
"Aquilo foi apenas uma liquidação, não havia participação de outras empresas, não era uma feira de livros na acepção do termo, como já se conhecia há anos na Europa".
A notícia do Correio, embora sem o número da fatura que a caracterizasse como "comercial" como se usava na época, tem todo o perfil de "matéria paga". Abria com uma cartola acima do título cumprimentando a empresa:
"Feliz iniciativa da Livraria do Globo".
E o título geral em duas linhas de cinco colunas do jornal, então impresso em formato "standard", dizia:
"Livros aos milhares, de todos os gêneros, com descontos reais desde vinte até oitenta por cento!"
E começava a matéria de forma ainda mais comprometida:
"Certos planos de venda assumem, às vezes, caráter de verdadeira benemerência pública, tais as vantagens e o interesse que encerram para a massa do povo.
É o caso da 1a. Grande Feira de Livros, inspirada iniciativa comercial da Livraria do Globo e que foi inaugurada anteontem na moderníssima loja Royal Fridden da rua dos Andradas, 1416".
E prosseguia:
"Nesta época em que tudo custa caríssimo – e o livro por certo não escapa às duras contingências do momento econômico que vivemos – é um verdadeiro tour-de-force pelo enriquecimento cultural do nosso povo, o que a Livraria do Globo realiza com a sua 1a. Grande Feira de Livros".
Comercial ou não, claramente a empresa defendia os mesmos interesses mais adiante ampliados através da seção do Rio Grande do Sul da Câmara Brasileira do Livro. A notícia do jornal se estendia, como se estivesse analisando uma das modernas edições da Feira do Livro, embora, sob o ponto de vista técnico, a razão estivesse com Ruy Diniz: "Era uma grande liqüidação, apenas".
E vejam a conclusão da nota:
"Encontram-se também ali variados livros didáticos, preciosas publicações dedicadas à arte em todas as suas manifestações, inclusive obras ilustradas sobre as artes plásticas em todo o mundo. Há ainda toda a imensa coleção de romances policiais e de aventuras, de narrativas de viagens, de almanaques manuais de ensino profissional ou de utilidade caseira, livros de crônicas e de humorismo, etc.etc. Tudo, enfim, que se edita (...) é um empreendimento destinado a marcar época e que credita à Livraria do Globo mais um expressivo laurel em sua bem orientada e superior orientação comercial."
Tudo isso acontecia três anos antes da primeira feira oficial e também antes da tal inspiradora feira carioca. Havia sido um bom aperitivo. Ao incorporar-se à Editora Globo no final daquele ano, Ruy Diniz Netto, o lisboeta, trouxera a sua contribuição com a lembrança do que então se realizava em Lisboa.
Segundo lembrou Edgardo Xavier, outro cidadão português com os pés bem assentados na atividade livreira porto-alegrense e participante da primeira comissão, também o pai de Ruy, Seu Henrique Netto, foi chamado a dar sua opinião e contribuir com o seu conhecimento da Feira de Lisboa. Assim, lembrou Ruy:
"A pedido do Seu Henrique Bertaso, mandamos buscar em Lisboa o regulamento da feira de lá, junto ao Grêmio dos Editores. Pedi a meu primo, João Diniz, que presidia a Empresa Nacional de Publicidade. Mais tarde, com a concretização da I Feira, em 1955, o Seu Henrique Bertaso me disse: ‘O Maurício, que é todo maneiroso, está envolvido com o Say. Mas, deixa ele pensar que foi ele. O importante é que saia a Feira’ ".
E a Feira, como se sabe, saiu.
Edgardo Xavier, que completou exatos 50 anos de trabalho com o livro, justamente junto com a Feira de Porto Alegre, também lembra do assunto:
"O primeiro a me falar na Feira foi o Mário de Almeida Lima. Mas, o grande impulsionador da idéia era o Seu Bertaso, sim. Ele me falou, a mim, ao Ruy e ao pai do Ruy, o Seu Henrique Netto, que era o gerente do ‘Cotillon Club’, que ficava ali na Salgado Filho."
O apoio foi geral no início. Ruy Diniz Netto lembra que o chefe de reportagem do Correio do Povo, jornalista Antônio Carlos Ribeiro, era também assessor de imprensa da CEEE (então Comissão, mais tarde Companhia de Energia Elétrica), e este laço serviu de ponte para que a empresa contribuísse ao melhorar consideravelmente a iluminação da Praça da Alfândega, dando começo assim a uma relação que se tem mantido.
Anos depois, exatamente no difícil 1964, Say Marques foi mais uma vez convidado para ser o Orador da Feira, que então chegava à sua décima edição, e os jornalistas creditaram-lhe cavalheirescamente a paternidade da idéia, ou, pelo menos, preferiram manter assim, sem contestação, esta parte já envolta em brumas da História. Para ele, havia sido uma honra renovada pois falara na primeira edição da Feira e tornava a falar no significativo décimo aniversário.
Isso, de certa forma, arquivava, pelo menos provisoriamente, uma antiga disputa, dentro da competição entre as empresas jornalísticas, tão acirrada quanto em qualquer momento da nossa história, tanto que fez algumas vítimas. Uma delas foi a divulgação da II Feira do Livro, em 1956.
No Correio do Povo e na Folha da Tarde, os dois jornais da Cia. Jornalística Caldas Júnior, então a empresa líder no mercado, que sempre se notabilizou pelo apreço à cultura, aquela segunda edição da Feira passou quase despercebida. A Folha da Tarde divulgou uma única nota durante todo o seu transcurso. Já o Correio, apesar de todo o espaço de que dispunha então em formato "standard", fez um pequeno, mínimo registro, mas nem sempre diário. Ora, não se tratava de uma promoção do concorrente, Diário de Notícias? Competição era assim mesmo, nem adiantaria recordar que no episódio da morte de Getúlio Vargas, a 24 de agosto de 1954, o diretor do Correio, Breno Caldas, havia socorrido o Diário que fora depredado, com o empréstimo de uma máquina impressora. O momento de fraternidade estava esquecido. E a Feira pagava o pato.
Aos poucos, essa competição foi se esvaindo e a idéia da Feira foi batendo as resistências e as ciumeiras. Em 1957 foi melhor, em 1958 melhor ainda e também com o surgimento de novas empresas, a circulação de novos jornais como A Hora, depois a Última Hora, e em 1964, a Zero Hora, sem falar na velha e prestigiosa Revista do Globo, que sempre manteve seu compromisso até deixar de circular em 1967, até a integração das rádios e o surgimento das televisões.
Mas naqueles anos iniciais, o orador personificava a idéia mais adiante desenvolvida, da escolha de um patrono oficial, o que veio a ocorrer em 1965. O primeiro a ser contemplado, ainda escolhido no panteão dos grandes nomes já falecidos, foi Alcides Maya, o criador de "Ruínas Vivas", um romance gaúcho editado em Portugal pela Lello & Irmãos, da cidade do Porto, o primeiro gaúcho a integrar a Academia Brasileira de Letras. Ele era apresentado então como o "Patrono do Dia do Livro no Rio Grande do Sul". Fora deputado estadual e federal, ensaísta, romancista, contista e conferencista, membro também da Academia Rio-grandense de Letras e jornalista, diretor de três jornais em Porto Alegre: A República, Jornal da Manhã, e A Federação. E com o patrono já falecido, é claro que a homenagem precisava se completar com a figura do orador. Naquele ano, a honra tocou a Rubens Maciel, escritor e médico cardiologista.
Em 1972, a responsabilidade retornaria para Guilhermino César, aumentada então pela dimensão do Patrono, nada menos do que Luís Vaz de Camões, e pela oportunidade da escolha: festejavam-se os 400 anos da publicação de "Os Lusíadas", junto com o Sesquicentenário da Independência do Brasil. Quer dizer: um preito de homenagem ao poema fundador da língua portuguesa e uma alusão ao emblemático, embora verdadeiro – ou falso – grito de Independência ou Morte em 1822.
Com toda a sua "mineirice", o professor saiu-se bem da incumbência, tratando mais do livro e da leitura, evitando o desgaste com os possíveis anti-lusitanistas, mas concluiu citando o exemplo histórico de Camões com a narrativa do naufrágio e a salvação dos originais de "Os Lusíadas":
"Este forte e perene simbolismo deve servir de exemplo e estímulo a todos os que convivemos diariamente com o livro, de maneira que defendemos a necessidade básica da existência do lugar para a leitura e para a compreensão conseqüente do material lido e refletido".
Não seria a última presença de Guilhermino César no palanque, que agora era reforçado de ano para ano, pois todos queriam ocupar um lugar entre os eleitos. Até hoje é assim. Há algum tempo, passou-se a adotar o costume de separar uma área para privilegiar os que poderiam estar no palanque, mas por falta absoluta de espaço físico não podiam ser contemplados. Não era o caso do professor Guilhermino. Qualquer direção da Câmara Rio-grandense do Livro se sentiria obrigada a cavar um lugar para ele. E assim foi, até que chegou a sua vez mesmo, em 1990, na 36a. edição da Feira do Livro, quando, finalmente, seria ele o patrono do evento. E em vida!
Poucos conheceriam o assunto "livros" melhor do que ele. Roque Jacoby, presidente da Câmara, fez-lhe a saudação, recordando sua participação desde 1955, e o homenageado tratou de agradecer à população de Porto Alegre "pelo carinho que dispensa à Feira, num gesto de fraterna amizade". Fez blague dizendo que "só aos domingos utilizo adjetivos" e marcou mais uma vez sua passagem pelos jacarandás em flor (figura batida, habitual, mas característica da velha praça e inseparável da Feira). Falou de improviso, foi o mais curto dos seus pronunciamentos ao longo dos tempos, cheio de emoção.
Naquele ano, o patrono Guilhermino César, usando óculos de grossas lentes, mas impotentes para resolver seu problema, optou pelo improviso. Por isso, seu curto pronunciamento não foi publicado. Registraram os jornalistas algumas frases. Chovera na hora da abertura. Carlos Alberto Silveira, coordenador-geral da Feira, lembrou que os livreiros já estavam habituados com isso e "guardaram os livros bem no alto".
A Feira do Livro é, pois, a vitória de uma idéia. Dito assim, parece o óbvio. Mas, se decompusermos os fatos, veremos que é mesmo um triunfo sobre os convencionalismos, sobre o mercantilismo, sobre as tradições e sobre a própria e institucionalizada ignorância e até sobre as águas da chuva, que começou a vencer com a cobertura das alamedas da praça.
Como diz o jornalista português Manuel António Pina, "alguma grande razão tem de haver para essa atração, para a força obscura que move tanta gente, que na sua imensa maioria não lê, ao encontro dos livros. Quando soubermos o quê, conheceremos decerto algo essencial acerca de nós mesmos." E acrescenta: "As Feiras do Livro são hoje, mais do que meras oportunidades de negócio livreiro, singulares momentos de esperança e de cidadania. Por algum motivo se mantêm (apesar de tudo) à margem dos roteiros mediáticos dos clowns da política e do entretenimento. E talvez por isso ainda sejam lugares respiráveis, quando as próprias livrarias, antes territórios vagarosos de tranqüilidade e de descoberta, crescentemente asfixiam sob o peso insuportável dos best-sellers e das novidades".




QUEM FALA DEMAIS MERECE OUVIR REPRIMENDAS
Walter Galvani, em 17/11/2007

Eis o resultado de ser um falastrão...
Estamos falando de Chávez...


REGRAS DO JOGO



Walter Galvani





Quem aceitar comparecer à uma conferência cujo título é “Ibero-americana” precisa, por uma questão de conhecimento histórico, ajustar-se ao que uma pauta ali nascida, automaticamente disciplina os participantes. Não será um instante de molecagem e tampouco o fórum adequado para fazer piruetas ideológicas que levem a desmerecer ou irritar os demais participantes. Há de ser necessário um mínimo de polidez e compreensão do momento que se vive, para poder conviver com os co-irmãos. Aliás, se não fosse esta regra mínima de conduta, como seria possível suportar os momentos a que somos obrigados a tolerar para levar adiante nossas respeitáveis diferenças democráticas? Não podemos pretender uma convivência ditada nem pela submissão, nem pelo desrespeito.

Falo de Hugo Chávez e falo também do Rei da Espanha que, como humano, como bem acentuou o jornal francês “Le Figaro”, que ressaltou a ira de Juan Carlos de Bourbon quando mandou Chávez calar-se, como um desabafo pois “os monarcas também são seres humanos”. Depois do episódio, demagogicamente, o presidente venezuelano acusou o rei de exercitar sua ira conferindo-lhe a pecha de prepotência: “Quando o rei explode diante das expressões de um índio, estão explodindo quinhentos anos de prepotência imperial, quinhentos anos de sentimento de superioridade.”

Não sei se Chávez é tão ameríndio quanto o diz, mas o certo é que está muito distante daquele que elegeu para seu ícone, Don Simon Jose de la Santíssima Trinidad Bolívar Palácios y Blanco que, aliás, morreu só, tuberculoso e abandonado pelos amigos. Mas digno e forte. Tanto que hoje, cento e setenta e sete anos depois, ainda é lembrado, sobretudo pela obra que deixou e acabou desvirtuada pelos que ficaram com a tarefa de levar adiante seus ideais, aqui na América.

Quanto ao rei espanhol, é oportuno lembrar que o único apoio político e econômico que encontra a Cuba de Fidel Castro na Europa, é justamente a do velho, correto e indômito Bourbon. Vamos ser realistas e fazer justiça. E ele o faz, em nome da democracia que jurou preservar, independente das naturais oscilações de direita, centro ou esquerda dos governos que empossou, a partir do voto do povo espanhol. Assim, fica difícil para um candidato a ditador, a aceitação da defesa de um direitista feita por esquerdista. É muito, é demais para as cabecinhas de minhoca de nosso continente. Com a prepotência do dinheiro do petróleo fica difícil enxergar certas coisas. Que as descobertas da Petrobrás não perturbem nosso rico sheik metalúrgico.




"POR QUE NO TE CALLAS?"
Walter Galvani, em 19/11/2007

Crônica publicada nos jornais
Diário Popular (Pelotas)
e "A Razão" (Santa Maria)


“POR QUE NO TE CALLAS?”

Walter Galvani

O espaço para os imitadores baratos é franqueado quando os personagens que ocupam a cena não possuem a dimensão dos ícones. Simón Bolívar, morto há 177 anos, ou mais propriamente Simón Jose de la Santíssima Trinidad Bolívar Palácios y Blanco, líder da idéia do panamericanismo, tem sido aproveitado por falsos profetas e líderes de si mesmos, para a projeção pessoal. Bolívar morreu só, aos 43 anos, tuberculoso e abandonado pelos políticos tanto da Venezuela quanto da Colômbia. Mas, o rei de Espanha, Juan Carlos I, ao “enquadrar” Hugo Chávez conseguiu com uma simples frase, derrubá-lo da sua empáfia a que ascendeu montado no jorro do petróleo que o sustenta no ar. Não sei por quanto tempo.

A justiça e a inteireza do gesto de Zapatero, ao defender seu adversário político e antecessor, Jose Maria Aznar, a quem Chávez acusara de “fascista”, absolve a interferência do rei e dá-lhe grandeza, e é por isso que a Espanha é o país que é, atravessando com os solavancos e sobressaltos da História, o que há de bom e o que há de ruim.

Ao mentir publicamente dizendo que não ouviu o rei mandar que se calasse, Chávez subscreve a opinião que dele está se formando. Lula, transmudado em futuro sheik do petróleo vai acabar perdendo a paciência com ele, e não me chamem de falso profeta. Se é o dinheiro que lhe concede autoridade, então em breve o Brasil poderá estar na competição.

Este atual presidente da Venezuela, dizendo-se descendente de índios “que foram martirizados” pelos invasores espanhóis, bem que poderia aproveitar a ocasião para juntar-se a outros personagens que calados, aliás, seguindo a sugestão do rei da Espanha, melhor serviriam seus países.

Não sei se é verdade que no DNA de Chávez só corra sangue ameríndio. Se isso for verdade, lembremos que não era o caso de Bolívar, cuja generosidade portanto, era muito maior e cuja cultura, conhecimento do mundo e capacidade de ação o tornaram depois de tantos anos, num exemplo a ser seguido e lembrado.

Juan Carlos de Bourbon mostrou estar à altura do trono que ocupa, defendendo a palavra livre e a expressão política distinta de seus dois primeiros ministro, do que se foi e é agora acusado de fascista e do atual, cuja lisura o faz defender com elegância o antecessor. Isso não se compra em botequins baratos, nem bolichos de vila. É por estas e por outras que existe a velha fábula das rãs pedindo um rei.












SHAME
Walter Galvani, em 26/11/2007

Nós também...
Crônica publicada no ABC DOMINGO


VERGONHA DAS VERGONHAS

Walter Galvani

Todos conhecem a letra do hino rio-grandense, que cantamos com tanto fervor patriótico quanto o hino nacional brasileiro, nas cerimônias cívicas. Sim, com destaque para aquele trecho que proclama que “sirvam as nossas façanhas, de modelo à toda a Terra”. Imagine-se então, para os que tem consciência do que se afirma, a vergonha das vergonhas que de nós toma conta, quando verificamos que entramos com os dois pés e de rijo no campeonato nacional da corrupção.

Até aqui parecíamos maravilhosamente imunes à promiscuidade do roubo e do lucro fácil, com uma indiscutível ausência da lista dos envolvidos. Era uma ausência gritante, uma espécie de anúncio público de que os gaúchos estão acima e de fora dessas questões, desse compromentimento moral e de fato, são “melhores do que os outros”.

Basta examinar os escândalos recentes que perpassam a vida do país, desde os “mensalões” até corrupções localizadas ou histórias de “dinheiro carregado nas cuecas”, ou seja, outros escândalos maiores ou menores.

E eis que a Polícia Federal chega ao Rio Grande. Então, prestadores de serviço ao DETRAN aparecem algemados, segundo a própria PF, em cinco anos são 40 milhões desviados, se anuncia. Ficamos pensando assim: “Pô! Até eu ajudei quando paguei a renovação da minha carteira de motorista!”

Tínhamos antigo e forte orgulho de ficar fora deste mar de lama que infesta o país, muito mais extenso e profundo do que o lodaçal que atingiu o Palácio do Catete em 1954, expressão usada pelo próprio Getúlio Vargas, aliás gaúcho também. Então, foi de tal monta o estrago que levou o presidente ao suicídio. Tomamos aquele gesto extremo, como mais uma demonstração do nosso caráter, da retidão e do orgulho gaúcho.

E agora? E agora que a lama avança pelos canais do Rio Grande?

Pena que tenhamos que usar este espaço semanal para fazer uma reflexão dessas, mas estamos, sim, envergonhados. E, pela primeira vez nos tempos contemporâneos, temos vergonha, verdadeira vergonha de nosso estado e por nossos concidadãos.

O que fazer agora? Insistir para que a devassa seja completa e em todos os setores da atividade pública e, se for o caso, privada, ou pelo menos atinja todos os envolvidos. Ainda agora se viu que nem ministros e, muito menos, presidentes do Senado estão imunes ao vírus da corrupção que corróe e compromete as atividades democráticas.

Então, vamos até o fim, até o amargo fim, se for o caso. Caso contrário, não estaremos mais autorizados a cantar o inigualável hino rio-grandense.








GRUPO EDITORIAL SINOS, 50 ANOS
Walter Galvani, em 02/12/2007

Crônica publicada neste domingo no jornal ABC DOMINGO

UM PRÊMIO E UMA SAUDADE

Walter Galvani

Nada mais oportuno e significativo do que recordar o nome de Paulo Sérgio Gusmão, ainda mais num prêmio que leva o seu nome e uma realização do “NH”, tão presente em meu passado e presente, pela sigla e pelas figuras envolvidas, pelo próprio Paulo Sergio e pelo Mário Alberto Gusmão. Lembro quando os dois irmãos iniciaram a sua saga que resultou nesta potência onde militamos hoje – eu morava em Canoas, embora já exercitasse minha profissão no Correio do Povo em Porto Alegre – mas não poucas vezes estive em Novo Hamburgo, pequena viagem que se tornou missão obrigatória ao longo deste meio século.

Foi assim que vi crescer a obra de Paulo Sérgio e Mário Alberto, assim que fiz amigos nas fileiras do NH, mais tarde nos demais veículos, mais recentemente neste ABC DOMINGO onde estou desde o número dois. Sim, desde o segundo número.

Agora, vejo que o Prêmio Paulo Sérgio Gusmão procura fazer justiça à sua lembrança, acentuando que em vida ele lutou pelos interesses da educação e com isso se unifica um ciclo de projetos e ações voltado às escolas, alunos e comunidade da região do vale do Rio dos Sinos o verdejante (ainda) e produtivo (sempre mais) vale que abarca já uma boa parcela dos milhões de habitantes do Rio Grande do Sul.

E nunca é demais uma ação na área da Educação Infantil, do Ensino Fundamental, do Ensino Médio, do Técnico e da educação de um modo geral, de jovens e adultos, em especial quando o Brasil colhe resultados tão disparatados como se colocar bem no Índice de Desenvolvimento Humano, ao mesmo tempo em que se classifica mal na tabela da OCDE e perde pontos na oferta de empregos e nos negócios internacionais.

Assisti nestes cinqüenta anos do Grupo Editorial Sinos, onde tenho a honra de servir com modéstia neste espaço e em outros que me são gentilmente cedidos, todo o desenrolar do progresso no vale, com seus altos e baixos, com seus sucessos, com sua aprendizagem, com os enganos e acertos, com as oscilações da política e da economia, com a concretização de ideais que, afinal, para quem nasceu em Canoas, são os mesmos. E aqui vamos nós. Na certa não teremos fôlego para outros cinqüenta anos, mas o que aprendemos já nos vale muito e na hora de registrar este prêmio e lembrar os verdes anos com tanta saudade, também nos orgulhamos de estarmos juntos neste combate que não cessa nunca, pois os que nos sucederem haverão de levar adiante, assim como foi feito com o Paulo Sérgio. E transmito ao Mário Alberto Gusmão meu abraço e meus cumprimentos públicos pelo grande trabalho. E, só para encerrar, lembremos que as inscrições ao prêmio podem ser feitas a partir de amanhã.







BRASIL, PAÍS DO FUTURO
Walter Galvani, em 02/12/2007

Lembram o que Stefan Zweig escreveu quando, em 1939, fugindo nazismo em sua terra, refugiou-se em Petrópolis, estado do Rio?
Pois é...
O futuro parece que ainda não chegou...
Até quando escreveremos isso, como fiz
neste fim-de-semana nos jornais
A Razão de Santa Maria e Diário Popular
de Pelotas?


EIS O FUTURO...

Walter Galvani

Vamos festejar: estamos a frente da Colômbia, da Tunísia, do Azerbaijão, do Qatar e do Quirguistão! Não chega? Ah, não? Pensei que poderíamos comemorar... É que o Brasil se classificou em 52º lugar sobre 57 países selecionados pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento e Econômico), na disciplina Ciências, num teste aplicado sobre alunos da 7ª. e 8ª. séries do ensino fundamental.

Pois estes jovens, futuro do “país do futuro” ajudaram a classificar o Brasil nesta magnífica posição. Na certa, os que me lerem, hão de se lembrar que se a disciplina fosse Futebol, o Brasil estaria nos primeiros lugares, ou pelo menos misturado com os integrantes do bloco vanguardeiro. Mas, em Ciências, os “classificados” são Finlândia, Hong Kong, Canadá, Taiwan, Estônia e Japão que no futebol também não apareceriam nas primeiras posições.

Lembremos que nos vestibulares normalmente surgem 35 candidatos por vaga para o curso de Medicina. Mas, os jovens esportistas devem prestar bem atenção que o “vestibular” do futebol é na base de 100.000 por vaga e ainda se multiplica este dado por outro fator para encontrar os que encontram algum encaminhamento internacional, onde os festejados dólares acenam para os felizardos Kaká ou Ronaldinhos ou Gilbertos Silvas da vida.

O melhor mesmo é acreditar no estudo e tratar de aprender Ciências, alfabetizar-se convenientemente e chegar a alguma coisa na vida aqui dentro. Ah, se quiserem jogar futebol, muito bem, podem fazê-lo. Mas, façam-no paralelamente, pensando primeiro na carreira garantida e depois na eventual.

Passando os olhos pela América Latina vemos que aqui mesmo em nossas barbas, outras se saíram melhor do que nós no tal exame e entre esses, Argentina, México, Uruguai e Chile. Pior mesmo do que nós, aqui só a Colômbia... Os países foram selecionados e no momento em que ficamos comemorando a entrada do Brasil no grupo dos países com alto índice de desenvolvimento humano, é bom que se olhem estes números desastrosos. Ao menos para raciocinar um pouco. Na certa o governo não festejará esta classificação ridícula. Talvez acuse os exames, condenando-os. Sabem aquela história do marido traído no sofá da sala, e que decidiu trocar o sofá? Agora mesmo querem demolir a cadeia onde uma menina de 15 anos foi, várias vezes, estuprada por estar misturada com detentos homens. Fomos mal no exame? Desvalorize-se o exame...

E viva o Brasil, aquele país que Stefan Zweig batizou em 1939 como “o país do futuro”...







CORÍNTIANS E HUGO CHAVEZ
Walter Galvani, em 03/12/2007

Caíram os dois...

Sem crônica. Só para lembrar
que quem abusa do poder cai do
cavalo.
O presidente corintiano é que
informou que o campeonato
de 2005 foi roubado do
Internacional de Porto Alegre.
E o diretor de futebol, disse que]
o Grêmio ficou devendo 2003...
O que terá havido?
E Chávez? Mudou o que?




NOTICIAR O PIOR, PARA QUE?
Walter Galvani, em 07/12/2007

Estamos nos distorcendo...

NOTÍCIAS RUINS

Walter Galvani

É difícil para uma corporação receber uma crítica e assimilá-la, aproveitando o suco de bons efeitos que se deve extrair de uma manifestação dessas. No caso, estamos nós, jornalistas, diante da crítica feita pela governadora do estado, Yeda Rorato Crusius que é, além disso, oriunda das nossas próprias fileiras. “Roupa suja se lava em casa”. Sim, se lava, mas, muitas peças, é preciso mandar à lavanderia, até porque o tipo de sujeira não sai na primeira água.

Yeda sabe o que diz, na verdade ela não quer afirmar que “os jornais só dão notícias ruins”. Ela está usando politicamente esta frase e sua condição de governadora, sua ligação com o jornalismo que exerceu ao lado do magistério durante tantos anos, com o mesmo conhecimento de causa que os políticos de sucesso sabem usar em benefício próprio.

Há uma distorção presente na Imprensa, não resta dúvida e depois que os jovens aprendem nos bancos da faculdade que notícia é “quando o homem morde o cão e não quando o cão morde o homem”, saem todos com o canudo debaixo do braço a procurar as falhas humanas e não as reações naturais e instintivas dos animais. A não ser quando estas causam danos maiores como os “pit-bulls” da vida.

A maioria quer saber o que há por trás dos fatos, os meandros das negociações, o uso indevido das verbas públicas, os subornos, as ameaças, os crimes, até porque é difícil e exige bem mais do que simples talento para trabalhar em cima da notícia positiva. Yeda sabe disso, mas jogou com as palavras, como é adequado para quem exerce o poder e precisa se valer do efeito do que diz ou faz.

Com o pomposo empréstimo de “1 bilhão” para zerar suas contas, ela se dará o direito agora de afirmar que é muito bonito, mas não será possível zerar as contas com este valor. É sempre assim, e ela aprendeu depressa o que é preciso fazer com as palavras que são como peixes que fogem ao contato e quando apertadas se espalham e somem pelas águas, deixando a lembrança de um colorido cambiante atingido por um raio de luz. Peixe não se pega com a mão.

Quem quiser ler jornais, precisa aprender a lê-los, bem como é preciso saber interpretar o que se diz ou o que se mostra no rádio e na televisão. A confiabilidade de outros meios, como o mundo “web”, por exemplo, é discutível e nunca se deixa de aprender o que estão tentando nos dizer. Assim é, historicamente, desde quando se praticava democracia direta com as reuniões nas ágoras de Atenas, até quando se passou a praticar as eleições e as votações na república romana que precisava ouvir mais de cem mil pessoas.







O PÓLO SE DESMANCHA OU NÃO?
Walter Galvani, em 09/12/2007

O que haverá por trás das denúncias
sobre o aquecimento global - ou
agora desconfiamos de tudo, por que
a ética se desmanchou no meio
dos interesseiros humanos...
Crônica publicada hoje no jornal
ABC DOMINGO, do cinqüentenário
Grupo Editorial Sinos


O CLIMA E O NOSSO GURU

Walter Galvani

As Nações Unidas estão reunidas em Bali, na Indonésia, onde a beleza natural mais aparece como uma lembrança ostensiva, de quanto pode ser bela a vida e atraente o mundo. O objetivo é extrair dos duzentos cientistas que representam mais de 190 países uma “Declaração de Bali sobre o clima por cientistas” que em princípio defendem a redução da emissão de gases que causam o chamado “efeito estufa” em cinqüenta por cento para que, em dez ou quinze anos, o pico do aquecimento global comece a cair. Mantido nos ritmos atuais, dizem eles, teremos uma elevação de 2 graus (não dizem em que período) e isso significará a continuidade das “ondas de calor, secas, enchentes e tormentas”, mesmo em localidades nunca antes atingidas ou sequer ameaçadas.

Tudo bem, assino embaixo como todo mundo, mas fico me perguntando se esta reunião da ONU é mesmo a última palavra sobre o assunto ou se existem outras teses em jogo que precisam ser consideradas. Há por exemplo um livro chegando às livrarias, “Uma breve História do Mundo” de autoria do professor Geoffrey Blainey, que é professor em Melbourne, Austrália e catedrático em Harvard nos Estados Unidos, em que ele se reporta a eventos de aquecimento e de resfriamento da Terra, ocorridos ao longo destes milhares de ano com registro de vida humana.

Ainda esta semana ouvi o professor Eugênio Hackbarth, diretor do Instituto de Meteorologia de São Leopoldo e renomado mestre no ramo, afirmar que o Pólo Sul, ao contrário do seu homônimo nortista, está com sua sólida camada de gelo intacta e até, em certos pontos, ampliada. Tranqüilizado pelos dados de que dispõe aquele ilustre meteorologista, dormi em paz.

Apesar de saber que, psicologicamente é interessante que se divulguem as conclusões dos cientistas reunidos em Bali ou não, e assim se ampliem os temores das populações e se gerem medidas das administrações, também é verdade que seria antiético ignorar posições diferentes ou omitir informações significativas, como é o caso das que dispõe o nosso guru, professor Hackbarth, ou para ser mais pontual, o que podem essas significar com relação ao panorama global.

Não é o caso de abaixar as armas e desmobilizar-se, talvez, mas, pelo menos eis um adequado desvio da histeria coletiva para impedir medidas extremas e radicais, que poderiam, por seu turno, contribuir para um descalabro ambiental.

Como diria o povo de antigamente, “cautela e caldo de galinha” nunca fizeram mal a ninguém...











AÇORES, AÇORES NOSSO!
Walter Galvani, em 11/12/2007

O Rio Grande do Sul tem agora a sua
Casa dos Açores
Crônica publicada hoje no jornal
Correio do Povo, o mais antigo em
circulação no estado mais meridional
do Brasil


CORDÃO UMBILICAL

Walter Galvani


Claro que uma visita de nove dias, embora extensa para comitivas oficiais não é o suficiente para apertar laços históricos de dois séculos e meio. Mas, serve para instalar afetos, reiniciar contatos e institucionalizar relações. Falo da visita providencial dos açorianos à esta região que nasceu, em parte, pela generosidade do sangue que eles nos legaram. Basta andar por aí e ver os sobrenomes e a dedicação de gente como Luis António de Assis Brasil ou Ivo Ladislau, Vera Barroso ou Ana Lúcia Morisson, Sandra Braga de Medeiros, Neiva Costa, enfim tantos, que se unem ao presidente do Governo Regional dos Açores, Carlos Manuel Martins do Vale César e seus auxiliares diretos, políticos importantes da região que nos transmitiu a doçura e o encanto de suas tradições, suas danças, sua poesia, seu coração..

Tomem nota: Casa dos Açores do Estado do Rio Grande do Sul, Rua Adolfo Inácio Barcelos, 938, Gravataí, RS. Este é o novo endereço do encontro de cultura, que marca a partir de agora o recanto onde nossos irmãos do arquipélago em meio ao Atlântico encontram o resultado do que aqui semearam seus antepassados. Não há cidade gaúcha do período histórico que começa no século XVIII e vai até quase o final do XIX, que não esteja definitivamente marcada pelas suas nascentes açorianas. Basta atravessar o oceano e fechar os olhos e imaginar-se no Rio Grande, assim como bastaria visitar Piratini, Santo Amaro, Triunfo, Gravataí e tantas outras brilhantes comunidades gaúchas e sonhar com os Açores.

Não está apenas nos genes formadores, mas na paisagem, na arquitetura, no material empregado, nas cores, e, sobretudo, na singeleza e simplicidade, no doce carinho dos contatos humanos, para saber que isto aqui é Açores.

Então, o que se quer é que haja mais viagens como esta, mais visitas, mesmo que não surjam imediatamente resultados econômicos, que prometam trocar mercadorias daqui para os Açores ou de lá para cá.

É assim mesmo que se constroem os laços mais fortes, que se consolidam as relações sólidas e, no caso de Porto Alegre, que teve em seu povoamento básico tantos casais açorianos que até seu nome inaugural teve esta conotação, ou das cidades que compõem nossa região metropolitana, como Gravataí, Viamão, Canoas e outras mais, é bom saber que a velha fonte é respeitada e honrada num acontecimento como este da inauguração de uma casa específica. Parabéns, Régis Gomes, parabéns Rio Grande.




O QUE FALTA AO BRASIL?
Walter Galvani, em 13/12/2007

Crônica para marcar o tempo presente em nosso país.
A crônica, como se sabe,é filha]
do deus Chronos.


SÓ FALTA
O VULCÃO

Walter Galvani

Antigamente se dizia que o Brasil, estranhamente, parece que em obediência ao dito popular que afiança que “Deus é brasileiro”, pois fora contemplado com imensidão de terras, matas insondáveis, rios fantásticos, cachoeiras maravilhosas, praias infindas, temperaturas tropicais na maioria da extensão territorial, não tinha tufões, corrupção, tremores de terra e vulcões.

Esta terra abençoada – dizia-se – tinha, portanto, tudo para progredir, independentemente até da ação dos seus políticos e há quem jure que o próprio Getúlio Vargas, o grande político gaúcho que chegou à presidência da república, comentava: “O Brasil é tão grande e tão poderoso, que mesmo os que roubam o tesouro nacional, à noite dormem. E então o país cresce!” garantia-se: “O Brasil não tem terremotos, nem vulcões.”

Pois é. Até à semana passada não tinha “tremores de terra”. Apenas alguns estremecimentos, ao que se afirma provenientes da Bolívia e da Venezuela, portanto, nada para assustar. Um terremoto mesmo, como aquele que destruiu todo o centro de Lisboa em 1755, jamais.

Dormíamos tranqüilos até à semana passada, quando o sul de Minas Gerais foi abalado e até a morte de uma criança tivemos. Portanto, chegou aqui o terremoto. Os especialistas dizem que teremos outros tremores nos próximos tempos. Já tivemos todos os graus de corrupção possíveis e imagináveis, já tivemos o nascimento de religiões, inundações, poluição à vontade, nossas praias maravilhosas de vez em quando amanhecem sob o martírio da morte de peixes e crustáceos, acabou a CPMF, portanto já nos aconteceu tudo o que se poderia imaginar e até o inimaginável. Só falta o que? Um vulcão.

A famosa “terra abençoada por Deus e bonita por natureza” já passou por provas inacreditáveis, já se viu que é possível sim, sob o céu deste lindo país, a ocorrência das maiores atrocidades, continuamos não tendo pena de morte o que demonstra por si a índole pacífica e tolerante do povo brasileiro e só não fomos premiados ainda com um vulcão. Acho que não se perde por esperar. É só o que nos falta.

Temos tudo e num estalar de dedos se providencía o que está faltando. Menos o vulcão. O Chile tem, a Venezuela também (e não é o Hugo Chávez...), até a Itália tem.

Com tanta terra, com tanta gente “sem terra” que, aliás, parece que só deseja terra urbana... – com tanta riqueza sobrando, já tendo incorporado ventos, tempestades, furacões, continuamos sem o vulcão. É só isso, mesmo, o que nos falta...




O BRASIL É SÉRIO?
Walter Galvani, em 16/12/2007

Crônica sobre a CPMF publicada no ABC DOMINGO

A COMÉDIA DO PODER

Walter Galvani

Está entrando em cartaz nos cinemas gaúchos, um novo filme do extraordinário diretor francês Claude Chabrol que leva o título oportuníssimo de “A comédia do poder”. É mais oportuno ainda porque logo nas primeiras cenas, mostra o terno caro de um empresário ser amarrotado pelas algemas que a polícia lhe aplica à saída do trabalho. Nada que não estejamos acostumados a ver aqui, em especial em nossos noticiários de televisão, ultimamente dedicados a este tipo de cobertura.

O Brasil é o palco ideal, aliás, para este tipo de filme e o título se aplica a tudo o que ocorre aqui. Veja-se por exemplo o assunto da CPMF. Bastou que o governo sofresse uma derrota que vai tirar dos seus cofres a expectativa de 40 bilhões de reais e surgiram os defensores dela de todos os recantos. E eu que, iludido, lendo, vendo e ouvindo, imaginava que não ia um só tostão da tal de CPMF para a Saúde, seu supremo objetivo e em razão do que fora aprovada, sob a fiança de um homem digno como o ex-ministro Adib Jatene?

Pois é... agora todos choram o fim da CPMF e tem gente que tem a cara e a coragem de dizer que sem ela não será possível levar adiante o atendimento à saúde pública em nosso país! Para esse arremedo de atendimento que tem a saúde da população, acho que não é necessária nenhuma arrecadação especial. O ideal é acabar mesmo com a Contribuição sobre os movimentos financeiros, que penaliza quem não deve penalizar, chegando até o ponto de cinismo geral, de se afirmar que atinge em 1,7% o preço final dos produtos. Quanto descaramento! Maior ainda ao afirmar-se que do montante de 40 bilhões, 52% seguiam diretamente para a Saúde. Ah é? Como é então que se dizia que não ia nada, que o imposto estava completamente desvirtuado?

É a tal “comédia do poder”, não percam o filme de Claude Chabrol que sem os efeitos especiais idiotas do cinema americano, fala a verdade sobre a vida em sociedade no mundo do século 21.

O governo, acostumado com este dinheiro que caía do céu há quatorze anos, pretende enfrentar a crise com “corte de gastos, aumento de impostos e represálias políticas”. Tudo bem ao estilo da “comédia do poder” que vivemos no Brasil. Não se iludam, o governo sairá dessa, não se apertará, até porque o cinismo e a hipocrisia são as moedas de troca vigentes em nosso país do Real. Do Real real e não do imaginário.

Daqui a pouco, com o leilão de cargos e influências, tudo voltará a ser como sempre foi.

Em tempo: uma espécie de CPMF existia e foi extinta no Peru, Argentina, Venezuela e Equador, numa onda sucessiva que vem desde 1992.






SENSIBILIDADE EXCEPCIONAL
Walter Galvani, em 18/12/2007

Todos os dias, quando chego à PUCRS depois do almoço, passo pela Sílvia.
Trocamos rápidas palavras, em geral sobre o calor que está fazendo
(ou o frio)e comentamos sobre a
beleza do dia.
Claro, fica no sub-texto, mas
estamos nos desejando felicidades
no dia de trabalho.
Dia desses ela me mandou este
belíssimo poema que quero
compartilhar com meus possíveis
visitantes do site.


ILUSÕES DO AMANHÃ

"Por que eu vivo procurando
Um motivo de viver,
Se a vida às vezes parece de mim esquecer?
Procuro em todas, mas todas não são você
Eu quero apenas viver
Se não for para mim que seja pra você.

Mas às vezes você parece me ignorar
Sem nem ao menos me olhar
Me machucando pra valer.

Atrás dos meus sonhos eu vou correr
Eu vou me achar, pra mais tarde em você me perder.

Se a vida dá presente pra cada um
O meu, cadê?
Será que esse mundo tem jeito?
Esse mundo cheio de preconceito.

Quando estou só, preso na minha solidão
Juntando pedaços de mim que caíam ao chão
Juro que às vezes nem ao menos sei, quem sou.

Talvez eu seja um tolo,
Que acredita num sonho
Na procura de te esquecer
Eu fiz brotar a flor
Para carregar junto ao peito
E crer que esse mundo ainda tem jeito
E como príncipe sonhador
Sou um tolo que acredita ainda no amor."

PRÍNCIPE POETA (Alexandre Lemos - APAE)
Este poema foi escrito por um aluno da APAE,
chamado, pela sociedade, de excepcional.
Excepcional é a sua sensibilidade!
Ele tem 28 anos, com idade mental de 15
peço que divulguem para prestigiá-lo.
Se uma pessoa assim acredita tanto
porque as que se dizem normais não acreditam?





Silvia Gama

PUCRS VIRTUAL - EAD





O BRASIL CONTINUA NOS ÚLTIMOS LUGARES
Walter Galvani, em 20/12/2007

Crônica publicada hoje no Diário de Canoas, lembrando, como diz a Bíblia, que "os últimos - em nosso caso, NÃO
- serão os primeiros".
O Brasil, por enquanto,
só está na fente no futebol...


ÚLTIMOS, NÃO OS PRIMEIROS

Walter Galvani


Com Káká e Marta, o Brasil ganhou os primeiros lugares mundo em futebol de campo, outros prêmios também se acumularam durante o ano de 2007 em outras modalidades esportivas e com isso, julgamos que o nosso país é o “Bambambam”, pelo menos nisso.

Pois, não é.

Somos os últimos, é duro admitir isso, mas é a verdade. Em pesquisa conduzida pela ONU, por exemplo, descobre-se que o Brasil está entre os últimos colocados em escolaridade e educação. Entre os 15 e os 24 anos, nossos jovens não passam mais de 8 anos e 4 meses em média, na escola. Essa média diminui, em proporção à idade, pois as gerações anteriores, menos tempo ainda passavam estudando. Vamos adiante e descobrimos que entre os 101 piores em negócios, esta é a colocação do nosso país: 101º... Apenas, assim como em outras atividades econômicas, pontuamos entre os últimos.

A pesquisa vai adiante e demonstra que 27% dos nossos jovens entre os 20 e 24 anos, não estudam, nem trabalham... Sem fazer ironia, os demais estão morrendo em acidentes automobilísticos, como o demonstram os números absurdos de falecimento de rapazes e muitas vezes de quem os acompanha (amigas, namoradas...)

Pois é fácil concluir que 78% são do sexo masculino, os que morrem em acidentes de carro, e 48% dos acidentes, são colisões.

Mas, estamos também mal colocados com alfabetização, em letramento, em estudos universitários, em dinamismo e operosidade, naquilo que se costuma denominar hoje “proatividade”, enfim, só aparecemos mesmo nos primeiros lugares, nos esportes e de um modo especial, no futebol.

Basta? Será suficiente isso para construir um futuro para o Brasil?

Todo mundo sabe que não.

À cada dia se somam pesquisas e estatísticas que demonstram que estamos atrás até do Peru, do Chile e da Argentina, que vizinhamos com o Paquistão, Bangladesh ou Etiópia.

Quem sabe uma CPMF para a educação?

Quem nasceu ou sempre viveu em Canoas, ou para cá se transferiu, conhece a importância das nossas instituições. O La Salle que vai comemorar o centenário da chegada dos Irmãos Lassalistas à Canoas no ano que vem, o Pestalozzi, que andou tão mal que a comunidade teve que acordar (acordou?) e o Auxiliadora. Mas, esses são particulares, colégios privados, que sempre tiveram o apoio de quem tem alguma coisa dentro da cabeça.

É preciso transformar o ano de 2008, definitivamente, no Ano da Educação. Cada um precisa fazer a sua parte para arrancar a nação deste atoleiro. Os números são de matar a pau, de vergonha.









UM PRÊMIO ARI DE JORNALISMO
Walter Galvani, em 21/12/2007

Tive a honra de contar com
Mário Marcos de Souza, no início
de sua brilhante carreira, como
meu repórter (antes um estagiário
ativo e criativo) na Folha da Tarde
o grande jornal vespertino de
Porto Alegre (o último).
Hoje,Mário é nome consagrado.
Atua em Zero Hora, onde conquistou
mais um Prêmio ARI de Jornalismo
neste 2007.
Com a seguinte crônica, exemplar,
comovente e bem escrita:


O OLHAR E O SILÊNCIO
DE PUSKAS

Mário Marcos de Souza


Nunca houvee doce como aquele. Os figos, comprados ainda verdes em bancas do mercado público, saíam daquela imensa panela na medida exata de consistência e açúcar, banhados numa suave calda. Ficava irresistível. Um dia, estranhamente, eles ganharam um pouco mais de açúcar, ficaram mais doces pouco depois e a dosagem continuou subindo. Quem reclamava, ouvia de dona Adiles, parada na cozinha do chalé do Guarujá, em Porto Alegre, uma resposta entre risos, mas firme, a um passo da irritação:

_ Doce é para ser doce.

Aquele não era, como ficou claro depois. Quem convivia com ela percebeu tempos depois que a dose a mais de açúcar era o primeiro sinal de uma doença silenciosa chamada Mal de

Alzheimer _ a mesma que levou à morte ontem o húngaro Ferenc Puskas, um dos maiores jogadores da história do futebol. Ele tinha 79 anos, os últimos cinco internados no hospital de Budapeste em que morreu no início da madrugada, vítima de complicações respiratórias.

***

Puskas foi parando devagar, como se estivesse sendo desligado, desde os sintomas iniciais da doença, em junho de 2001. Foi assim com a doce criatura do Guarujá. Aos poucos, os primeiros sinais foram acrescidos de outros, as lembranças pareciam ter sido apagadas, os caminhos no bairro viraram labirintos, os rostos amigos passaram a ser estranhos, as

colheres de paus que mexiam os doces foram encostadas em algum canto, longe das panelas. Mas o mais chocante era o olhar _ como ocorre com todas as vítimas da doença. Ele parece cruzar por quem está à frente, à procura de algum ponto. É o olhar que Puskas começava a mostrar já em agosto de 2002 (foto), ao participar da cerimônia que deu seu nome ao

Nepstadion de Budapeste. O homem que um dia fora capaz de jogadas mágicas em campo já não sabia em que mundo circulava. O olhar inexpressivo _ esta é uma das duras faces da doença.

***

Houve tempo em que o olhar de Puskas nunca se desviava do objetivo, como naquele dia 25 de novembro de 1953, em Londres. A seleção inglesa jamais perdera em casa e estava certa de que os húngaros, quase todos saídos do Honved, o clube do exército, não seriam capazes de mudar a história _ e levaram apenas 50 segundos, o tempo do primeiro gol da Hungria, para descobrir o erro. Sofreram quatro gols só no primeiro tempo de um jogo que terminou em 6 a 3, mas ninguém esqueceu mesmo foi do terceiro, marcado por Puskas. Foi o gol do olhar. Puskas viu Czibor pela direita, viu que estava de costas para o gol e viu que o marcador Billy Wright estava por perto. A exemplo de todos, o zagueiro esperava que o húngaro dominasse, ajeitasse para a direita e chutasse. Puskas fez tudo diferente. Dominou com a sola de seu pé preferido, o esquerdo, arrastou a bola para trás, no mesmo movimento tocou

um pouco para a frente, já pelo outro lado do atordoado Wright e chutou rasteiro.

_ Nove em 10 vezes, eu ganharia a jogada, mas aquela era a 10ª e na minha frente estava Puskas _ conta Wright no livro Puskas, uma lenda do futebol. _ Minha perna só chutou o ar.

***

Um ano depois, os ingleses foram a Budapeste para a revanche, no mesmo estádio que hoje tem o nome Ferenc Puskas. Foi pior. Levaram 7 a 1. "Em toda minha vida, nunca fui buscar a bola sete vezes no fundo da rede", lamentou um dia o goleiro Merrick, o mesmo dos outros seis em Wembley. Eram assim os confrontos com os húngaros liderados por Puskas, o Major Galopante, por causa de sua patente militar. Ele e seus amigos faziam sempre dois gols nos primeiros 10 minutos dos jogos, foram campeões olímpicos em 1952, mas esbarraram na

surpreendente Alemanha em 1954. Puskas nunca teve seu título mundial. Não importa, ele entrou para a história. Fez 83 gols em 84 jogos por sua seleção e, ao mudar-se para o Real Madrid fugindo da repressão de 1956 na Hungria, ganhou três Ligas dos Campeões. Até sua aposentadoria, em 1967, fez 180 partidas pelo Real, nas quais marcou 154 gols. Virou mito também na Espanha.

***

Antes do sucesso no Real, Puskas teve de vencer um desafio lançado pelo antigo presidente do clube espanhol, Santiago Bernabéu. Quando foi procurado pelo dirigente para ser contratado, Puskas estava 18 quilos mais gordo por causa dos 13 meses de suspensão pela fuga da Hungria. Surpreso, foi franco:

_ O senhor me olhou? Estou gordo.

_ Este não é problema meu, é seu _ respondeu Bernabéu.

Puskas só deixaria o Real aos 40 anos, depois de 23 de carreira.

***

Na manhã de ontem, os sinos tocaram nas igrejas de Budapeste e o Parlamento húngaro ficou em silêncio, bem como foram os últimos anos de solidão de Puskas no quarto do hospital. O homem que, a exemplo da alegre senhora do Guarujá, perdera a capacidade de olhar e de falar, tinha virado imortal. Como todos os gênios, nunca será esquecido.




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ZORIONAK ETA MERRY CHRISTMAS
Walter Galvani, em 22/12/2007

Crônica publicada neste fim-de-semana
nos jornais A Razão, de Santa Maria
e Diário Popular, de Pelotas


O PODER DA PALAVRA

Walter Galvani

Feliz Natal, “Merry Christmas”, “Buon Natale”, “Feliz Navidad”, “Fröhliche Weihnachten”, “Zorionak Eta” (esta última expressão em língua basca) ou qualquer que seja a língua utilizada, a força ainda existe por que é latente, mora no seio das palavras, adormecida ou não. Despertará ao primeiro abraço, ao primeiro sorriso, ao primeiro cartão.

Cultura ocidental, cristianismo, amem-se uns aos outros, tenham fé, caridade, esperança, Cristo, o filho de Deus, esteve na Terra para resgatar os humanos, a vida não acaba após a morte, “fazei isso em memória de mim”, quer dizer, há todo um sistema de crenças e atitudes, construído sobre o edifício que nos foi legado nestes últimos dois mil anos.

E então, é a Palavra. Aliás, na própria Bíblia se diz: “No princípio era o Verbo (a Palavra) e o Verbo se fez carne e habitou entre nós!” – Quem não conhece estas linhas tão cheias de significado?

Durante a II Guerra Mundial, em certo ponto da frente de batalha entre franceses/ingleses e alemães, interromperam-se as hostilidades no dia 24 de dezembro, aproximava-se a meia noite. De ambas as trincheiras rivais, levantaram-se vozes, como que integrassem treinados corais e ouviu-se a canção “Noite Feliz”, aquela mesma que se consagrou e hoje se ouve pelos quatro cantos da terra.

Então, você carrega isso em seu coração e, mesmo que não seja mais católico, ou nunca tenha sido, sabe o conteúdo e o significado, sabe, enfim, a força destas palavras.

E é nisso que é preciso pensar nas próximas horas, mas não inutilmente, nada de tentar um habeas-corpus preventivo para soltar-se depois do primeiro dia do ano novo a praticar todas as idiotices que se fez até agora. O sentido é purificar-se, recomeçar, tornar-se outra vez um menino. Isso é possível, diante das barbaridades do nosso dia-a-dia?

Ora, porque não?

Este é o único sentido que ficou desta religião que se criou, nascendo no Oriente Médio, o mesmo que hoje se arrasta em meio a crise, dividindo o futuro entre a esperança e a desesperança.

E então esqueceremos a CPMF, os 20% por cento que o governo pode gastar como quiser, de suas receitas, os acordos parlamentares, a corrupção, a mentira, a hipocrisia, o cinismo, a violência.

Respeitando a palavra, esta força incomensurável que se aloja no verdadeiro segredo (sabem, “The secret”?) do nascimento e do amadurecimento da humanidade. Porque até em matemática já perdemos para os chimpanzés. Vamos nos agarrar no que nos resta: a força da palavra.







E ENTÃO É NATAL...
Walter Galvani, em 23/12/2007

Crônica publicada hoje no
ABC DOMINGO


CULTURA E PACOTES

Walter Galvani

A força das palavras é algo tão respeitável que, às vezes, quem as usa nem sequer sonha com o alcance do dardo de aço que estão expelindo e no entanto... soltam o verbo. O presidente Lula, por exemplo, disse esta semana que tem “ojeriza” – ou seja, aversão ou repulsa – enfim, ele detesta, odeia, a palavra “pacote”. Eu não, se for um pacote colorido que me for dado pelo Papai Noel. Outros tem ojeriza à expressão CPMF, Lula também não gosta de ouvir falar em “greve-de-fome”, prefere outros tipos de greve que fez muito no passado, nos tempos do sindicato de São Bernardo do Campo. E garante que vão continuar tocando adiante a idéia estapafúrdia de inverter o curso do Rio São Francisco, para, segundo ele, beneficiar 12 milhões de nordestinos e que não liga para a “greve-de-fome” do Frei Cappio. Odeio a palavra quando ela é mal empregada. Por exemplo: Transposição ao invés de informar corretamente o que se quer que é “inverter o curso”.

Mas não se pode pedir que todos sejam tão informados e cultos quanto os ladrões que entraram no Museu de Arte de São Paulo, pela porta da frente, e em três minutos levaram duas das mais valiosas telas ali abrigadas, o “Retrato de Suzanne Bloch” de Pablo Picasso, tela de 1904, final da sua famosa “fase azul” e “O lavrador de café”, de Portinari, que em 1939 retratava um negro que vendia sua força como se fosse um escravo, que evidentemente não era mais. Valor dos roubos, telas sem seguro e alarme desligado, 100 milhões de dólares.

Vejam só quanta mentira e desfaçatez se encerra em simples notícias e reações oficiais, que mais disfarçam a realidade do que a explicam aos concidadãos.

Realmente é de criar “ojeriza” à certas coisas, sem falar na crise aérea (já passou?) , no campeonato roubado pelo Coríntians, nas negociações no Senado da República, enfim, tudo isso que sofremos este ano que se aproxima do final.

E como é Natal, vamos imaginar que as pessoas redescobriram o efetivo significado da mensagem de Jesus e, acreditando no cristianismo ou não, passem a praticar aquilo que assombrou os romanos e acabou conquistando o coração da imperatriz Helena e, posteriormente, do imperador Constantino: “eles, os cristãos, se amam!”

Isso não salvou a vida dos pioneiros, mas construiu uma imagem que resiste há 20 séculos. Pena que a imagem inicial, de humildade e doçura, de tranqüilidade e misericórdia foi transtornada pelo bicho-homem, aquele que destrói tudo, inclusive o ambiente onde vive.

Para encerrar: todos os problemas têm origem na imprevidência e na imprudência. Desde as corridas no tráfego, até as questões financeiras. E o roubo, e a CPMF, e a ojeriza à certas atitudes e palav
acreditando no cristianismo ou não, passem a praticar aquilo que assombrou os romanos e acabou conquistando o coração da imperatriz Helena e, posteriormente, do imperador Constantino: “eles, os cristãos, se amam!”

Isso não salvou a vida dos pioneiros, mas construiu uma imagem que resiste há 20 séculos. Pena que a imagem inicial, de humildade e doçura, de tranqüilidade e misericórdia foi transtornada pelo bicho-homem, aquele que destrói tudo, inclusive o ambiente onde vive.

Para encerrar: todos os problemas têm origem na imprevidência e na imprudência. Desde as corridas no tráfego, até as questões financeiras. E o roubo, e a CPMF, e a ojeriza à certas atitudes e palavras.




A HORA DO BALANÇO
Walter Galvani, em 29/12/2007

Crônica publicada neste fim-de-semana nos jornais Diário Popular,
de Pelotas e A Razão, de
Santa Maria


ADEUS, ANO VELHO...
Walter Galvani


Já sabemos que a inflação passou dos 7%, que o salário mínimo, no ano que vem, valerá 408,90 (a partir de abril), que teremos eleições municipais e, portanto, as administrações serão muito mais boazinhas nos próximos meses do que se possa sonhar, que os políticos que este ano nos enviaram os últimos cartões impressos em circulação no planeta e congestionaram nossa caixa postal eletrônica com as mais engenhosas e simpáticas mensagens, estarão ainda mais risonhos e afáveis e que, finalmente, chegou a hora de dizer, “Adeus, Ano Velho”, pois não há mais remédio e em poucas horas estaremos em 2008.

Feliz do Laurentino Gomes que assinalou e muito bem o ano que vai entrar com o seu excelente (e muito bem vendido) livro “1808”, com o qual assinala a vinda da família real para o Brasil e o início da construção do Brasil independente, quatorze anos depois. De quebra ele resgatou a figura de Dom João VI, a esta altura guindado à grande estadista, “o único que me enganou”, segundo Napoleão. Era tempo: depois do filme canalha e da literatice de segunda que se praticou por aí, a imagem do Príncipe Regente estava periclitante.

Assim, o “ano velho” pelo menos fez este resgate histórico e projetou para “o ano que vai entrar” uma esperança a mais para os incorrigíveis brasileiros que sempre imaginam que “tudo vai melhorar”. É um espírito benéfico, não se pode negar. Noventa por cento das entrevistas de virada do ano, sejam elas feitas nas areias de Copacabana ou no sertão mineiro, às margens do Xingu ou no pampa gaúcho, são otimistas e apontam para a perspectiva de melhores dias. Tais como no ano passado. Esquecemos apenas de revisar, porque de 2006 para 2007, deu-se coisa parecida, tal como de 2005 parta 2006 e assim por diante. Ou para trás.

O que se torna necessário agora é equilíbrio suficiente para estimar até que ponto precisamos ter ponderação, prudência, sabedoria, para aquilatar o que muda ou não, além da cabeça, com a passagem do calendário. Antigamente usava-se uma “folhinha” na parede e pacientemente arrancava-se, todos os dias, uma página, para saber com exatidão, onde se andava.

Parar a marcha do tempo não interessa, antecipar-se a ele, não é o caminho, retroceder, impossível. É apenas aceitar-se e compreender que, em verdade, nada muda, a não ser dentro de si mesmo. E é lá que é preciso valer seus propósitos a serem cumpridos e não apenas prometidos a si e aos outros, na hora da passagem inexorável para o 2008. Com mais de duzentos mortos em acidentes, com tantos crimes e balas perdidas, já é alguma coisa.









PASSAGEM 2007-2008
Walter Galvani, em 30/12/2007

Crônica publicada hoje no jornal
ABC DOMINGO, do Grupo Editorial Sinos


O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA

Walter Galvani


Peço licença, embasado pelas boas intenções, para furtar o belo título do livro de Gabriel Garcia Márquez, que faz o encanto dos bons leitores no mundo todo desde 1985, e, ao mesmo tempo ajudar na escolha de um bom programa de fim-de-ano, que o momento da virada está chegando aí, de forma inexorável, dentro de poucas horas. Agora, de nada servirão bons propósitos ou belas promessas. A não ser para o 2008. Mas desfrutar com o que há de melhor os últimos instantes deste ano que se vai, é algo justo e prazeroso. Faça como fiz e curta a cerimônia do cinema, algo também insubstituível e se você não tem condições de possuir em casa um “home theater” saia, vá mesmo à uma sala de cinema e viva em toda a intensidade a história que o próprio Garcia Márquez diz que escreveu “com as entranhas”.

O que você, leitor amigo, acha de uma paixão devoradora que Florentino Ariza viveu por Fermina Daza durante toda a sua vida e que lhe rendeu uma espera de 53 anos, 9 meses e 11 dias?

Vejam o filme, leiam o livro, e bom 2008. É que a suprema lição da obra de Gabriel Garcia Márquez e que dá para aproveitar em nossa vida é justamente a capacidade da espera, a extensão da esperança e a crença ilimitada em que um dia as coisas que queremos, chegarão. Sem isso talvez fosse impossível viver.

Tecnicamente, é justo que se diga que nem todos os indivíduos possuem a resistência suficiente para suportar. Mas, também é verdade que se aprende, não é mesmo, “Florentino Ariza”?

O brasileiro é um exemplo disso. Com sua teimosia, sua sabedoria cabocla que o ensina e orienta na hora de enfrentar as dificuldades, vai atravessando o mar, sem afogar-se. Como se diz no Rio de Janeiro, enfrentando “uma onda de cada vez”.

E assim se chega à outra margem, ao outro lado, ao fim do mês, ao novo ano, ao fim da vida, à nova vida (oxalá que exista...) ou ao simples e obscuro esquecimento.

Já sabemos que a inflação deverá fechar acima dos 7% por cento (a oficial), que o salário mínimo subirá como sempre (desde que foi criado por Getúlio Vargas) em abril (ou maio), que o mundo continua apesar do assassinato de tantos inocentes, da morte de Benazir Bhutto, uma esperança para o pobre Paquistão, longínquo, mas não tão distante, tão próximo do Brasil nos números negativos, e do dinheiro posto fora em nosso país, do fim da CPMF, “acidente” em que, como se sabe, não morreu ninguém e serviu para muita coisa. E assim é e somos e assim será 2008. Só muda a folhinha do calendário.




















VOCÊ É A FAVOR DAS CORUJAS OU DO FOGUETÓRIO POLÍTICO?
Walter Galvani, em 03/01/2008

Crônica publicada n esta quinta, no jornal Diário de Canoas:

A FAVOR DAS CORUJAS

Walter Galvani



Todos conhecem aquela passagem bíblica do “atire a primeira pedra”, quem não tiver nenhuma culpa. Eu também a tive. Já soltei foguetes, montei linhas de rojões, fiz tudo errado. Eram bons e velhos tempos e chegava a hora do Ano Novo, a gente fazia explodir todas as preocupações com aquela bateria de fogos. Lindo! Inesquecível. Mas, errado. Saudosa memória, meu pai sempre levantava a voz (uma das raras vezes em que a levantava, normalmente preocupado em ser polido e bem educado) mas, nas duas vezes em que tradicionalmente gritava “Lá vem ele!”, queria dizer, o Ano Novo, à zero hora do primeiro dia do novo ano ou na Semana da Pátria, quando, do centro da Praça da Bandeira, parecia ser o dono exclusivo da notícia de que estava chegando o “Fogo Simbólico”, em mãos de um atleta do Oriente, do Brasil ou do F.C.Canoense.

Quando parti para outros rumos levei na cabeça a idéia de comemorar o Ano Novo e, confesso, muitas vezes participei de foguetórios que hoje vejo como irresponsáveis. E tanto os vejo como irresponsáveis que aplaudi e aplaudo a atitude da Brigada Militar, que, através do seu Batalhão Ambiental, para que se protegessem os filhotes de coruja, suspenderam a promoção de fogos de artifício da prefeitura de Capão da Canoa. Salvaram-se os filhotes, o casal, o Brasil inteiro ficou feliz.

Hoje, passado o Ano Novo, me pergunto se não teria sido mais proficiente e eticamente correto, a prefeitura de Capão (e tantas outras) aplicar a verba que seria “queimada” na meia noite do dia 31, em melhorar as condições de habitação, saúde, saneamento, daquela vila que a gente atravessa olhando com o olho esquerdo, ao dirigir na Estrada do Mar, enquanto o olho direito contempla o luxo e o egoísmo daquelas edificações todas em sistema de condomínio fechado.

O dinheiro posto fora pelo país inteiro para fazer esta comemoração poderia ter sido representado simbolicamente pela distribuição de bolsas de estudo para os filhos do povo, este imenso povão que se diverte vendo as bobagens (a violência e a ignorância) de redes de televisão e passando fome, comendo abaixo das necessidades básicas para sua alimentação. Pergunto se os exageros, os absurdos, os crimes não poderiam ser poupados, como um acidente de trânsito em Panambí, minutos antes da meia noite, quando o condutor de um carro matou o motorista que lhe ia a frente, um foguete que explodiu na cabeça de uma dona de casa numa “comemoração” de Ano Novo em Santa Terezinha, ou a bala perdida que matou uma jovem de 18 anos em São Luiz Gonzaga.






BICENTENÁRIO DA IMPRENSA E OS CENTENÁRIOS DE CYRO MARTINS E MACHADO DE ASSIS
Walter Galvani, em 05/01/2008

Crônica publicada no jornal
Diário Popular de Pelotas


AS BOAS DATAS

REDONDAS



Walter Galvani





O ano de 2008 será pródigo em agradáveis datas redondas. Não, não se assustem, nenhuma delas é o aniversário de algum bandido ou a celebração de um atentado. Afinal de contas, com os últimos acontecimentos, tipo assassinato de Benazir Bhutto ou comemoração de um apenado que, romanticamente, promete “não mais fugir” do regime de prisão a que foi condenado, pode-se pensar que o país só quer cantar glórias duvidosas ou conquistadas com os pés. Nada contra os feitos esportivos, mas vamos recordar que a Maratona tem esse nome, não pela prova atlética, mas pelo prodígio de comunicação que representou a corrida de mais de quarenta quilômetros para contar uma vitória dos gregos.

Temos um Bicentenário digno de ser festejado: o da Imprensa Brasileira, com este nome e este objetivo. A primeiro de junho de 1808, circulava em Londres o “Correio Braziliense”, (assim mesmo pois à época se grafava “Brazil” com Z), editado pelo “gaúcho” adotivo Hipólito José da Costa. Ele nascera na Colônia do Sacramento que, numa das oscilações político/guerreiras do sul do continente, perdemos para o vice-reinado da Espanha e conseqüentemente para a futura República Oriental del Uruguay.

Hipólito educou-se em Pelotas, com um tio sacerdote e depois seguiu o caminho de Coimbra (Portugal) e Inglaterra, onde fundou o jornal que ajudou a criar as condições para a independência do Brasil. A ARI (Associação Riograndense de Imprensa) vai comandar as comemorações.

Machado de Assis. Centenário da morte do maior escritor brasileiro de todos os tempos, ocorrida no dia 29 de setembro de 1908. Muitas edições comemorativas se terá, e já começaram. O lançamento agora do trabalho do poeta e publicitário Luiz Coronel, “Dicionário Machado de Assis – Ontem, hoje e amanhã”, (patrocinado pelo Grupo Zaffari, eis um bom exemplo de sabedoria promocional) abre uma longa série de expressão nacional e internacional.

Cyro Martins. No dia 5 de agosto de 1908 nascia o grande romancista, médico, psicanalista, contista e profundo conhecedor da vida rio-grandense, autor da famosa Trilogia do Gaúcho a Pé, em que antecipava com precisão sábia, a crise da vida no Pampa. Já no ano passado, abrindo a comemoração realizou-se um seminário na Feira do Livro de Porto Alegre e também algumas instituições, como a PUCRS, trabalham em cima deste acontecimento enorme na área cultural. Preparem-se, pois 2008 será pródigo de grandes momentos para reflexão e elevação. Não será preciso festejar nenhum pássaro exótico ou ficar esperando por explosões de bombas.







O QUE NOS FOI IMPOSTO AO VIRAR O ANO...
Walter Galvani, em 06/01/2008

Crônica publicada no jornal
ABC DOMINGO


FACADA NA MADRUGADA

Walter Galvani

Nem me dei conta. E o pior é que ainda não começou a sangrar. Mas, ao começar a ler a verdade, depois dos prognósticos falhados de Ano Novo e da costumeira choradeira do presidente Lula e de vários ministros, por causa da CPMF que o pobre Adib Jatene criou com as melhores intenções, descobri que havia sido atingido na ilharga e que não teria como fugir ao sangramento. Revistas do exterior que assino, livros que compro, enfim, tudo o que o celebrado cartão de crédito nos facilita, agora virá mais salgado para compensar a perda do governo federal com a eliminação de um tributo que, na verdade, não servia mais e nunca serviu às suas finalidades.

Assim será, como sempre foi. Nada mudará no Brasil de 2008, bem como nada mudou em 2007, como não havia mudado nada quando o PT chegou ao poder, o que demonstra que não importa qual o partido que chega lá em cima, pois não somos nós que mudamos, é o Natal que muda... Parafraseando a pergunta do velho e insubstituível Machado de Assis, “Mudaria o Natal ou mudei eu?...”, podemos afirmar que agora já temos a resposta. (O sempre oportuno Machado será o mote de muitos trabalhos, pesquisas e discussões neste ano em que se comemora o primeiro centenário de sua morte que seu a 29 de setembro de 1908. O cortejo do seu sepultamento foi, se disse na época, “uma apoteose nacional”. Não é sem tempo que o relembremos diante dos fatos mínimos do dia-a-dia.)

Todos os dias, aliás, precisamos aprender com o que nos reserva o cotidiano. Quando menos esperamos desaba sobre nós, pobres rãs a pedir um rei, um novo edito presidencial, um novo decreto que nos derruba, sem contemplação. E, depois de respirar fundo, nós os brasileiros, dedicados e competentes, bons cidadãos e acomodados pagadores de tributos, seguimos em frente. Estes primeiros dias do ano, enquanto a maioria se diverte, é a hora de aumentar os custos e repassá-los ao consumidor. E isso vale para as grandes redes e para o botequim da esquina, para os estacionamentos pagos e para os pedágios, tudo enfim recebe a sua percentagem, em cima de um cálculo mais ou menos fictício que gira em torno de 7 por cento. Mas, e se você quiser fazer os cálculos, porque lhe parece “pouco” e descobre que algo que teve uma alta de 3,50 para 5,00, em verdade subiu 30 por cento?

Acordem, brasileiros, acordem. Pagaremos mais imposto sobre a renda, mais caro pelos estacionamentos, pelos pedágios, pelo preço da gasolina e a desculpa será a contribuição provisória que, de fato, queriam permanente.




O GRANDE PERIGO DA FEBRE AMARELA
Walter Galvani, em 09/01/2008

Não é uma brincadeira e por maiores que
possam ser os prejuízos para o turismo
brasileiro, é preciso divulgar, as duas
mortes suspeitas.


FEBRE AMARELA

Walter Galvani

Não se trata de entrar na psicose coletiva, mas num país de 188 milhões de habitantes, sem boas condições de saúde pública para a maioria, um surto de Febre Amarela é de tirar o sono e... as férias dos responsáveis pelos setores em níveis municipais, estaduais e federais. Não adianta dizer que é “muito cedo”, que é um problema só de Goiás e Brasília, onde morreu Graco Abubakir e nas proximidades, no tempo e no espaço, de um problema com macacos. Ora, problema com macacos, afirma-se, com certeza foi onde nasceu a AIDS. E por transmissão via contato sexual.
Sem esconder ou tentar esconder as barbaridades que o ser humano pratica, o problema é o fantasma da febre amarela.
Há quinze dias morrera em Goiânia, o lavrador João Batista Gonçalvez, com “suspeita” de febre amarela.
Mas, a transmissão da febre amarela se dá pela picada do mosquito transmissor do vetor, que é o “Haemagogus”. Direto ao sangue como o nome diz. Não é contagioso de indivíduo para indivíduo, mas as mesmas providências que se tomam contra o mosquito transmissor da dengue, devem ser adotadas contra o transmissor da febre amarela.
Como enfrentar?
O governo federal precisa deixar de lado a fantasia e atacar para valer, esquecendo o problemão que isso vai representar para o turismo, o que é indiscutível. Hoje, os turistas europeus e norte-americanos precisam temer, além das questões de insegurança, por causa da violência brasileira (ainda esta semana houve um tiroteio com mais de 30 disparos na frente do Hospital Mãe de Deus em Porto Alegre) o perigo da febre amarela.
Problema para o turismo, porque terá de ser divulgado o assunto, com muita intensidade. E isso sim, é preciso ser tratado na televisão e no rádio, nos jornais e em out-doors das empresas estatais, nas ruas das cidades.
Porque só há um jeito de se prevenir: vacinar-se.
Todos os viajantes que chegam ou saem do país, precisam vacinar-se contra a febre amarela e isso é preciso fazer, porque não existe outra maneira de prevenir-se.
Um mosquito chega, na calada da noite ou ao entardecer, de manhã cedo ou ao meio dia, ele não tem hora de circulação...




O GRANDE SUSTO DA FEBRE AMARELA
Walter Galvani, em 10/01/2008

Crônica publicada no jornal
"Diário de Canoas", que circula
na maior cidade da região metropolitana
de Porto Alegre, editado pelo
Grupo Editorial Sinos.
Canoas é minha terra natal.


FEBRE AMARELA

Walter Galvani

Não se trata de entrar na psicose coletiva, mas num país de 188 milhões de habitantes, sem boas condições de saúde pública para a maioria, um surto de Febre Amarela é de tirar o sono e... as férias dos responsáveis pelos setores em níveis municipais, estaduais e federais. Não adianta dizer que é “muito cedo”, que é um problema só de Goiás e Brasília, onde morreu Graco Abubakir e nas proximidades, no tempo e no espaço, de um problema com macacos. Ora, problema com macacos, afirma-se, com certeza foi onde nasceu a AIDS. E por transmissão via contato sexual.
Sem esconder ou tentar esconder as barbaridades que o ser humano pratica, o problema é o fantasma da febre amarela.
Há quinze dias morrera em Goiânia, o lavrador João Batista Gonçalvez, com “suspeita” de febre amarela.
Mas, a transmissão da febre amarela se dá pela picada do mosquito transmissor do vetor, que é o “Haemagogus”. Direto ao sangue como o nome diz. Não é contagioso de indivíduo para indivíduo, mas as mesmas providências que se tomam contra o mosquito transmissor da dengue, devem ser adotadas contra o transmissor da febre amarela.
Como enfrentar?
O governo federal precisa deixar de lado a fantasia e atacar para valer, esquecendo o problemão que isso vai representar para o turismo, o que é indiscutível. Hoje, os turistas europeus e norte-americanos precisam temer, além das questões de insegurança, por causa da violência brasileira (ainda esta semana houve um tiroteio com mais de 30 disparos na frente do Hospital Mãe de Deus em Porto Alegre) o perigo da febre amarela.
Problema para o turismo, porque terá de ser divulgado o assunto, com muita intensidade. E isso sim, é preciso ser tratado na televisão e no rádio, nos jornais e em out-doors das empresas estatais, nas ruas das cidades.
Porque só há um jeito de se prevenir: vacinar-se.
Todos os viajantes que chegam ou saem do país, precisam vacinar-se contra a febre amarela e isso é preciso fazer, porque não existe outra maneira de prevenir-se.
Um mosquito chega, na calada da noite ou ao entardecer, de manhã cedo ou ao meio dia, ele não tem hora de circulação...
Só para lembrar: antigamente comemorava-se o dia 9 de Janeiro, como uma grande data da nacionalidade. Foi em 1822, o Dia do Fico. Lembram da frase de Dom Pedro I: “Se é para o bem de todos e felicidade geral da nação, digam ao povo que eu fico!” E ficou. Foi o introdutor da ideologia do “Fico”, no Brasil. Depois os políticos trataram de aperfeiçoá-la para o “Fico no Poder. Enquanto der...”







CHÁVEZ DIZ QUE AS FARC TEM PROJETO POLÍTICO. VOCÊ, O QUE ACHA?
Walter Galvani, em 13/01/2008

Crônica publicada hoje no jornal
ABC DOMINGO,
publicado pelo Grupo Editorial Sinos


NEGOCIANDO VIDAS...

Walter Galvani


Hugo Chaves, Álvaro Uribe, o envelhecido líder das FARC, os políticos interessados e nesse grupo entram até Sarkozy e Lula, ou seja, França e Brasil, com a devolução das duas reféns, Clara Rojas e Consuelo Gonzalez, seqüestradas em 2002 e 2001, e o menino Emannuel, nascido em cativeiro, parece que o humanismo se impôs, ao menos neste “round” da luta. Mas, não se iludam. Eu gostaria de lhes dar este abono no café da manhã (ou almoço) neste domingo para o qual nos haviam prometido temperatura amena na Região Metropolitana (e olhem que, “promessa” do Prof. Eugênio Hackbarth, da Metsul Meteorologia, é para agarrar com as duas mãos), mas, infelizmente, não é o que ocorre.

São 500 os guerrilheiros em mãos do governo colombiano, conforme as FARC e, por outro lado, a contabilidade aponta além de Ingrid Betancourt, a ex-candidata à presidência do país, 33 soldados/policiais, 3 americanos e 8 políticos, entre os quais a senadora, que é o “bem” mais valioso, se é que se pode tratar assim, em mãos dos “revolucionários”, se é que se pode chamá-los por este termo.

Respeito, em toda a linha, a posição dos revoltosos na história da humanidade, caso contrário não estaríamos, hoje, reverenciando Tiradentes, Che Guevara ou Jesus Cristo entre outros. Mas, faz tanto tempo que as FARC se notabilizaram, pelo bem ou pelo mal, que já nem lembramos o que, de fato, desejam e se os seus métodos são apropriados ou precisariam de uma revisão.

Vejam que, só estas duas reféns libertadas esta semana, estavam na posse deles há sete ou oito anos. Dizem que, além de Ingrid, que é da “mesma safra”, há outros tão ou mais antigos.

Já se chatearam todos, os reféns de viverem em condições adversas no meio da floresta e os guerrilheiros que, toda a vez que se deslocam e procuram não deixar vestígios de onde andaram, ainda tem que arrastar os reféns, com seus livros, idiossincrasias, cigarros, charutos, velas e religiões. É over-dose para todos.

O bom mesmo, para a guerrilha colombiana e para o governo de Álvaro Uribe, para o país e para o mundo, seria uma revisão geral, e, zero a zero e bola no centro do campo para começar o outra vez.

Talvez então se tornasse possível o reexame da questão toda, a análise das motivações revolucionárias, até para saber se cabem no mundo de hoje. Dizem que há guerrilheiros com “laptop” e, em compensação, gente que nem sabe que existe Internet.






CONTRA A LUTA ARMADA E CONTRA O CONDENÁVEL HÁBITO DE FAZER REFÉNS
Walter Galvani, em 14/01/2008

Hugo Chávez começou a semana com uma
surpreendente profissão
de fé democrática:


CONTRA LUTA ARMADA
E FAZER REFÉNS

Walter Galvani


Afinal, tenho o primeiro nome a subscrever a lista que sonhava percorrer os diversos países do mundo, sejam da subdesenvolvida África, ou da explosiva região do Oriente Médio ou da úmida e arborizada (ainda) América Latina, onde em alguns países (exemplo, Colômbia) há imensos territórios “de ninguém”, dominados por movimentos que se situam entre “guerrilha pelo pão de cada dia” e “revolta armada contra as instituições”.
Pois a adesão fundamental que acabo de receber é do presidente da Venezuela, pasmem, ele mesmo, Hugo Chávez. Talvez para auto-vacinar-se contra aventureiros, acaba de declarar que “é contra a luta armada e contra o hábito de fazer reféns”.
Esta declaração democrática se produz na seqüência dos acontecimentos em que fortaleceu sua posição de líder do seu país e seu renome internacional, ao interferir vitoriosamente na libertação de duas reféns pelas FARC: Clara Rojas e Consuelo González.
O filho de Clara, Emmanuel, ao que se informa, “fruto de uma relação consentida” com um guerrilheiro, e nascido no cativeiro, já estava, desde os 8 meses de idade (hoje tem 3 anos) num orfanato do governo, com identidade falsa, o que, afinal, o salvou da morte nas difíceis condições na floresta.
Diz-se que há ainda 700 reféns, aproximadamente, em mãos das FARC e Chávez fez hoje um apelo para que cessem os guerrilheiros de praticar o hábito de fazer reféns. Está certo ele e se é sincero – quem garante? – em suas posições de defesa da democracia, contra a luta armada e contra este mau costume de forçar as pessoas privando-as da liberdade, então, estamos todos no bom caminho. Duvidoso nesta estrada cimentada com tantas mentiras e enganos, mas vale a pena acentuar.
Também acho que o mais justo seria negociar um desarmamento geral de corpos e espíritos, eleições fiscalizadas pela ONU, constituição de uma assembléia nacional com votação universal, libertação de todos os detidos, devolução dos reféns estrangeiros aos seus países de origem e, depois disso tudo, teríamos então uma nova Colômbia.
É um perigoso exemplo de democracia. Será que viveremos o suficiente para testemunhá-lo em ação?




INSURGENTE OU TERRORISTA, NÃO É UMA SIMPLES QUESTÃO SEMÂNTICA
Walter Galvani, em 15/01/2008

O que são as Farc?
Terroristas? Insurgentes?
Onde se situam?
O presidente Álvaro Uribe, da Colômbia, cederá e iniciar-se-ão conversações?


TERRORISTA OU INSURGENTE

Walter Galvani


“Palavras, ah palavras”, como diria Cecília Meirelles, mas o quanto elas são perigosas, qualquer um de nós pode ser testemunha, eis que a palavra fere, faz sangrar, mata, explode, subverte, provoca rompimentos, irreconciliáveis muitas vezes e liqüida com relações, parentescos, amizades, amores e vidas. Talvez seja a mais letal de todas as armas, por isso que uma discussão sobre palavras não deve ser tomada como algo pueril ou dispensável.
Agora mesmo assistimos à um debate internacional. As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as chamadas “Farc”, não querem ser classificadas como “terroristas” e contam com o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, como seu advogado principal, que conseguiu, após longa e tortuosa ação diplomática, a liberdade de pelo menos dois reféns importantes, Clara Rojas e Consuelo Gonzalez. Eles querem ser chamados de “insurgentes”, declaram-se revolucionários e não simples terroristas. O próprio presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, abriu hoje a possibilidade de mudar esta denominação e iniciar negociações políticas. Clara Rojas, ex-deputada e que foi refém durante seis anos, disse saber que eles “são receptivos à uma discussão inteligente”.
Mas, afinal o que é terrorismo e o que é insurgente?
Ora, o significado muda de acordo com os tempos, nem sempre uma palavra permanece com a mesma acepção indefinidamente, como uma “mesa”, uma andorinha ou um verão. Mesmo assim, no sentido figurado estas palavras também evoluem, mudam, tornam-se mais fortes, mais fracas, conforme a inserção no discurso alcançam outros significados e isso sem apelar para a moda da terminologia do texto e do subtexto.
Objetivamente, para um leitor (ou ouvinte) comum da língua portuguesa, desde o século XIX, “terrorista” quer dizer o que usa de violência para conseguir a desorganização do sistema político vigente e assim conquistar o poder.
É comum opor à esta denominação que caracteriza uma ação doutrinária e prática, a conquista do poder pelas urnas. Todo mundo sabe o que se quer dizer: através de eleições.
As Farc, aparentemente, não acreditam em eleições pois nelas não confiam, ou preferem o caminho, que julgam mais curto, dos métodos violentos, lançando mão de seqüestros, desapropriações, roubos a bancos, formação de quadrilhas, tomada de reféns.
O que são insurgentes? São os que se rebelam contra algo, se amotinam, se revoltam.
Aparentemente há uma gradação neste significado, embora alguns dicionários prefiram classificar os dois termos no mesmo estágio de sinonímia. Você pode ser insurgente por meios pacíficos, deixando de comer, de falar, de dialogar com o governo, apresentando publicamente seus protestos. Já pelo terrorismo está implícito o uso de armas, bombas, modernamente pelos exemplos enfáticos do Oriente Médio (generalizando) até o pé das montanhas do Afeganistão ou do Paquistão, do Iraque invadido, esta invenção dos ingleses que implantaram uma nação onde outrora conviviam pacificamente (ou não) vários povos distintos, (como a incrustação do estado de Israel pelas Nações Unidas em 1948, quando 800 mil palestinos perderam seus bens e sua terra), suicidas, carros-bomba, tudo isso no mesmo pacote de destruição e, muitas vezes, auto-imolação.
A palavra, contudo, insurgente é parente próxima do terrorista, embora nem todo o insurgente seja terrorista e nem todo o terrorista seja, de fato, um insurgente. O terrorismo também pode ser “de Estado” que age politicamente prendendo, expulsando, torturando ou matando inimigos ou adversários.
Muito diálogo e concessões de parte a parte, parece ser o único caminho para a guerrilha colombiana e o governo do seu país. E um entendimento que vá além da semântica...




NAS CADEIRAS DE VIME, COM FIDEL
Walter Galvani, em 16/01/2008

Lula foi conhecer como funciona a
"suite" Havana...


Eu também sentei nas cadeiras de vime. Só não falei com o Homem. Para vê-lo, tive que deslocar-me até o Estádio da Revolução, cheio de fotos imensas de Che Guevara, bem próximo ao simpático e modesto prédio da “Casa de Las Américas”, onde Fidel Castro falaria ao povo.
Lula sentou-se nas tais cadeiras de vime, de “mimbre”, e também desfrutei de alguns momentos de descanso em móveis semelhantes, para conversar com Luis Felipe Rocca, o chanceler, que, pelo que vejo está prestigiado.
Isso foi em 2002. Mais tarde voltei à Cuba, em janeiro de 2004, para participar do júri que escolheu o Prêmio Casa de las Américas daquele ano. Eu fora premiado em 2002, referente ao ano de 2001.
Uma das coisas que me chamou a atenção foi justamente a simplicidade que representavam os móveis de vime, onde todo mundo se sentava com a maior naturalidade.
Por isso, não me surpreende que neles Fidel tenha recebido Lula e tenha tratado de assuntos tão importantes como um possível convênio para a Petrobrás pesquisar petróleo no golfo do México, em águas cubanas. É um achado. Tomara que os Estados Unidos não tomem isso como uma provocação.
Sabe-se como é difícil o xadrez político das Américas e sabemos todos o valor da pedra Cuba para os Estados Unidos. Um regime socialista ali, na cara da pátria do neo-liberalismo capitalista não deve ser nada palatável para nenhum candidato, mesmo que a mudança esteja chegando. Ao contrário: Cuba pode ser tomada até como aposta de quem quer conquistar o poder, tipo assim: “Bem, já que o Bush não conseguiu varrer Fidel dali, eu conseguirei....”
Foi um gesto valente por parte de Lula sentar-se nas tais cadeiras de vime. Para mim, foi mais fácil e mais cômodo. Afinal lá estive para trazer uma estatueta para casa (e mais 3.000 dólares que me foram creditados numa agência de um banco espanhol) e mais tarde, vivi a oportunidade de conhecer o interior cubano.
Sei o quanto a vida lá é dura, todos sabemos que a dificuldade maior vem do bloqueio econômico exercido pelos americanos, com o que eles querem demonstrar que um regime comunista é impraticável, mas também sabemos ler nas linhas e nas entrelinhas. E tem mais: há censura sim, mas foi em Cuba que assisti ao documentário “Suíte Havana”, uma das visões mais cruas e duras sobre a vida naquele país.
Ah sim, e antes que seja tarde, foi nas ruas de Havana que vi, ao lado dos velhos carros americanos com manutenção difícil por causa da dificuldade de peças, flamantes automóveis franceses (Renault acima de todos) e espanhóis.
Alguém fala sobre isso?
E também o transporte coletivo em carroças no interior.
Difícil, sacrificante e sacrificado, mas parece que se sabe bem porque.
E ia me esquecendo: há muitos ônibus e micro-ônibus, sim, com as carrocerias muito conhecidas nossas, feitas em Caxias do Sul, da Marcopolo.




FUNDAÇÃO CULTURAL DE CANOAS É EXEMPLO A PROMOVER
Walter Galvani, em 17/01/2008

Crônica publicada hoje no Diário de Canoas

SÓ FALTOU O BITTER ETGES...

Walter Galvani


Esta semana estive na velha estação do trem no centro de Canoas, ali na av. Vitor Barreto (nome em homenagem ao antigo proprietário da Chácara Barreto), diante do prédio onde funcionava o ginásio São Luiz. É bom não esquecer que em março completa-se o Centenário da criação do La Salle, hoje Centro Universitário, em março de 1908 apenas um colégio destinado à educação básica, com ênfase na área agrícola, nada mais adequado para um distrito de Gravataí, dedicado à criação de gado e plantação de arroz. Mas, a minha visita prendeu-se à posse de Francisco Trois (nunca esquecendo sua condição de Mestre Internacional de Xadrez) e um dos intelectuais canoenses de maior destaque e intensa dedicação à Cultura nestes últimos anos. Não é por nada que se trata de uma reeleição.

Lá estava ele, recebendo os cumprimentos junto com os demais membros do Conselho Diretor da entidade, João Amarante de Oliveira e Silva, Antonio Carlos Escobar e Valmyr Fernandes.

O ato foi enriquecido com a homenagem que a Fundação prestou à própria prefeitura da cidade, pois a data não poderia ser mais significativa: 15 de janeiro, completando-se pois, desde 1940, justos 68 anos da existência oficial do município de Canoas. A instalação se deu nos altos da rua Santos Ferreira, conforme crônicas da época. A referência ao ato histórico e a leitura de registros da imprensa em 1940, foi feita pelo poeta Tonito Canabarro Trois, meu colega dos tempos de estudos no Externato São Luiz dos saudosos Irmãos Lassalistas.

Foi um instante inesquecível e jovens e “antigos” confraternizaram por alguns momentos num verão que nos lembrava sim, o verão de 1940, que parecia prever as grandes chuvas e as inesquecíveis enchentes do ano seguinte, quando a esquina das ruas Cel. Vicente com Av . Brasil se transformou em porto para as “gasolinas” (assim se chamavam as lanchas) que faziam o transporte para o centro de Porto Alegre. Relembrou Tonito Trois que, se houvesse sido seguida a inspiração do primeiro prefeito então nomeado (a 5 de janeiro) e que assumia no dia 15 com a instalação oficial do município, Edgar Braga da Fontoura, a povoação teria se situado muito mais acima, à altura do atual hospital Na.Sa. das Graças e não teriam ocorrido os prejuízos enormes das enchentes que se sucederam deste então.

Hoje não há como corrigir os erros do passado e oxalá que não se produzam novos. Foi uma bela comemoração. Senti falta apenas do “Bitter Etges”...




DOM JOÃO VI VAI SAIR NO CARNAVAL...
Walter Galvani, em 21/01/2008

Crônica publicada na edição de 20 de janeiro do jornal ABC DOMINGO,
do Grupo Editorial Sinos


OS DUZENTOS ANOS

Walter Galvani


Para começar seria conveniente alterar o título desta crônica para dizer que nem tudo mudou nestes “últimos duzentos anos”. Estamos começando com uma homenagem ao príncipe Dom João de Orleans e Bragança que, há dois séculos atrás, fugindo das tropas de Napoleão (que mais tarde reconheceu, “este foi o único que me enganou”), atravessou o oceano Atlântico com toda sua corte, mulher, filhos, irmãs, cunhados, tios e serviçais, nobres e também esforçados marinheiros e chegou ao Brasil, aportando na Bahia de Todos os Santos no dia 22 de janeiro de 1808.

Nunca será demais registrar que foi com a vinda do príncipe regente que se alterou a vida brasileira, abrindo-se os portos “para as nações amigas” (leia-se aqui Inglaterra), criando mais adiante o Banco do Brasil, o Museu Histórico, a Biblioteca Nacional, e, em 1816, quando já proclamado Rei, a união no mesmo nível dos reinos de Portugal, Brasil e Algarves.

Este passo gigantesco que representou para nosso país, (até 1808 uma humilde colônia distante da Europa e portanto, do centro dos acontecimentos políticos mundiais), um encaminhamento para a independência que veio em 1822, proclamada por Pedro, filho de Dom João VI, foi dado pelo príncipe até então tido como pusilânime e indeciso.

Nem preciso recomendar o excelente livro de Laurentino Gomes, fruto de exaustiva e criteriosa pesquisa, editado pela Planeta, e que tem como título conciso e correto, “1808” e como subtítulo não mais do que demagógico e comercial, “Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a história de Portugal e do Brasil”, mas que funciona publicitariamente, que o digam os dados das listas de “best-sellers” há seis meses. Não é necessário recomendar porque esta presença nas listagens assegura que o povo o descobriu. Leiam. É ótimo. E leiam-no mais agora que estamos chegando ao período, que começa exatamente com o dia 22 de janeiro de 1808, onde Dom João aportou a bordo da nau “Príncipe Real”, às 11 horas de uma luminosa manhã. Ancorou ali pelas proximidades onde são hoje o Mercado Modelo e o Elevador Lacerda. Salvador não passava então dos 40 mil habitantes e já havia perdido sua condição de capital do Brasil colônia. A sede do vice-reinado já estava no Rio de Janeiro, para onde Dom João seguiu mais adiante, e de onde governava o Conde dos Arcos.

Desde então passamos a adorar a Corte, o rei, depois o imperador, seus esplendores e naturalmente, seus escândalos. Tanto que Dom João VI sairá em 17 escolas de samba no carnaval carioca deste ano. Precisa mais?








DUZENTOS ANOS DA CHEGADA DA FAMÍLIA REAL PORTUGUESA AO BRASIL
Walter Galvani, em 21/01/2008

A chegada do Príncipe Regente, sua mãe,
a "Rainha Louca" e sua esposa (muito mais
esperta, politicamente falando, do que louca...)ajudou a preparar o caminho
da independência brasileira.


Leiam, a seguir, a crônica publicada no
jornal ABC DOMINGO que é, o jornal que
circula aos domingos em toda a região
metropolitana de Porto Alegre (cerca de
4 milhões de habitantes concentrados junto
à capital do Rio Grande do Sul)



O "TSUNAMI" MUNDIAL NAS BOLSAS
Walter Galvani, em 22/01/2008

Foi assim que o "Correio do Povo" de Porto Alegre, jornal onde comecei meu trabalho jornalístico na capital gaúcha em 1955, "mancheteou" a crise que nos lembra automaticamente 1929

A GRANDE DEPRESSÃO

Walter Galvani


Não há como não se reportar à famosa “Quinta-feira Negra”, 29 de outubro de 1929. Talvez hoje, movimentos negros se rebelassem contra o uso do adjetivo, mas foi assim mesmo que ela ficou conhecida, historicamente, e já se passaram 78 anos. Por aí ainda existem contemporâneos daquela data e pelo menos a sua repercussão ficou marcada e transmitida de geração a geração. Os efeitos dela duraram no mínimo seis anos e durante este período, que aliás antecedeu a II Guerra Mundial que viria logo depois (1939), foram inúmeros os que se suicidaram, abandonaram os negócios, emigraram ou passaram numa hora para outra de ricos e remediados a dependentes dos serviços sociais do governo americano, o principal país afetado.
O efeito daquela quinta-feira em que os 16 milhões de títulos apresentados à venda na Bolsa de Nova York literalmente “desabaram” e perderam um terço do seu valor, prolongou-se por muitos anos e estendeu-se a inúmeros outros países. Alterou a composição do poder mundial (os Estados Unidos detinham 22% do PIB mundial na oportunidade, a Alemanha, que protagonizou a guerra dez anos depois, 9%) e o desmoronamento de Wall Street virou livro, filme, epopéia histórica sempre relembrada.
Por isso, e não poderia ser de outra maneira, o “Tsunami” – como foi batizado – que varreu as bolsas de valores neste início de semana, foi apontado como o possível início de uma quebradeira geral.
Aliás, já fora precedido pelas notícias sobre o mercado imobiliário americano e alguns dos seus principais bancos, em dificuldades.
Para quem não entende ou nunca entendeu como se compõe o mercado financeira mundial – que não para, pois quando cessa o expediente nos estabelecimentos ocidentais, está apenas começando no Extremo Oriente – é hoje uma autêntica mesa de jogo, diante da qual os “bingos” laboriosamente fechados pela polícia brasileira, são “fichinhas”...
A ópera está apenas na abertura. Ainda vamos ouvir muitas árias, intermezzos e duetos, antes do “gran finale”. O pior é que o retrospecto não é nada animador. Relembre-se, se não quiserem ir até 29, o “11 de setembro de 2001” e os dias subseqüentes, quando o atentado às Torres Gêmeas demonstrou que os Estados Unidos não estavam imunes ao fracasso, aos atentados, enfim, aos percalços do dia-a-dia que afligem os demais países que trotam em sua esteira.
Quanto ao Brasil, o presidente Lula diz que está tranqüilo, o presidente Henrique Meirelles do BC, informa que “estamos preparados” e Guido Mantega avisa que a nossa economia está blindada e podemos todos, dormir em paz. O que é o mais perigoso de tudo.
O pior é que não adianta não ser jogador, apostador ou contribuinte da Bolsa. O jogo de cartas, o castelo que desmorona é conhecido de todos desde a infância.




DE CABEÇA, NA HISTÓRIA...
Walter Galvani, em 23/01/2008

Um dia para ninguém botar defeito...
Especialmente as FARC e os anti-Fidel.
Ou melhor: anti-Cuba "Libre"...


QUE DIA!...
Walter Galvani


Começo minha jornada olhando o que se passa no mundo, depois da leitura dos jornais que me encaminharam à oscilação das bolsas, à prostituição de meninas nas ruas de Porto Alegre (que a Polícia não encontrou..., claro não tripulava carros último tipo) e à convocação da nova seleção brasileira, com Renan, Pato e outros notáveis recém saídos das fileiras do Internacional de Porto Alegre (ou do Milan ou da Inter de Milão. Aliás só três jogam no Brasil, além do goleiro do Internacional, Renan).
Mergulho na História em busca de dias para santificar o dia. E o que encontro eu? A ironia amotinada nos recantos dos bons velhos tempos.
Vejo, por exemplo, que no dia 23 de janeiro de 1994, as FARC invadiram uma festa do partido que, também ironicamente, se denominava “Esperança, Paz e Liberdade” e jogaram para cima os “slogans” partidários em meio à intensa fuzilaria. Foi “paz e liberdade” para 35 mortos no ato. Assassinados em nome da “Esperança”...
Quatro anos depois, o papa João Paulo II, o mesmo que encheu o mundo de esperança, paz e liberdade, levou o diploma de restauração do catolicismo de Fidel Castro, aliás ex-aluno lassalista, (nossos colegas ex-alunos costumam ir longe...) e disse que era hora dos jovens cubanos pararem de fugir para os Estados Unidos: “Não busquem um mundo falso, baseado na alienação e no desenraizamento!”
Tinha razão o Papa, mas é difícil resistir às luzes de Miami que se avistam da costa ocidental cubana. Ainda mais com os apelos de “esperança, paz e liberdade”...
De ironia em ironia chegamos assim ao 2008.
E então, mergulho em meu próprio arquivo “Calendas” e redescubro que este é um dia em que a Humanidade ficou mais rica, porque nasceu em 1783, Stendhal, aliás Henri Marie Beyle, em 1832, o pintor impressionista Manet, em 1898 o maior cineasta russo de todos os tempos, Sergei Eisenstein.
Em compensação, ficamos mais pobres porque em 1989 perdemos Salvador Dali, e recuando um pouco, 1931, o mito dos mitos da dança, a bailarina Ana Pavlova.
Não há dia que não contribua para a renovação das esperanças de paz e liberdade e não traga alguma luz para entender, através da recordação destes fatos marcantes, o que tem sido a trajetória do mundo. Aliás, começa em Davos o Fórum Mundial, com a possível recessão americana como pano de fundo.




VAMOS SAIR CHEIRANDO POR AÍ...
Walter Galvani, em 24/01/2008

"Cheirando" no bom sentido. Ainda bem que o piloto tem sentido de olfato...
E é o dia de recordar o bravo soldado japonês Shoichi. Bota fidelidade estapafúrdia nisso.


DEPENDEMOS DO NARIZ...
E A HISTÓRIA DO
BRAVO SOLDADO SCHOICHI


Walter Galvani


Pode parecer piada ou cronista sem assunto que resolve enveredar por aí, pelo noticiário e catar o que houver de mais insólito, mas, confesso, não resistí.
Não é que um piloto da United Airlines sentiu “cheiro de fumaça” dentro do avião que pilotava e por isso cancelou o vôo de São Paulo com destino Chicago, na quarta-feira à noite? (Isso em pleno 2008!) Ora, não seria surpreendente se outro avião da mesma companhia não houvesse retornado depois que o piloto denunciou falha mecânica e se outro ainda, também da mesma companhia, não tenha feito uma aterrissagem meio forçada no Rio de Janeiro, tendo estourado dois pneus. Tudo nesta semana que ainda não passou.
O pior é depender do nariz do piloto...
Mas, como!
Não existem equipamentos sofisticados, produzidos pelas grandes fabricantes de aeronaves que detectem uma irregularidade que pode ser fatal a 142 ou 154 passageiros, mais tripulantes, conforme informações da Folha on-line, o jornal mais antigo na Internet no Brasil e de plena confiança? Não, não se trata de nenhum “blog” irresponsável ou aventureiro...
É um mundo incrível. Eu preferia os bons tempos da Varig.
Pelo menos, o que se dizia era força de lei,sua revisão era fantástica e aprovada com distinção por todas as companhias aéreas do mundo, que mandavam aqui seus aviões para serem inspecionados.
xxxxx
Confiança assim, só no soldado japonês que num dia 24 de janeiro, esteem 1972, vinte e dois anos depois do fim da II Guerra Mundial, que foi encontrado nas selvas (bota selva nisso, hein!) de Guam, uma ilha no Pacífico, onde continuava refugiado e disposto a resistir em nome do império japonês.
O bravo soldado Schoichi Yokoi, símbolo do fanatismo e da desinformação, ou quem sabe do medo ou da valentia, ou de um brilhante coquetel de todas estas virtudes e defeitos, escondido no meio do mato, estava pronto a receber o inimigo a balaço. Guardara uma última carga de munição e se alimentava de frutas e raízes silvestres.
Ainda bem que tinha um bom nariz, caso contrário teria sido aprisionado antes...




UMA VIDA NOVA E FELIZ...
Walter Galvani, em 27/01/2008

"... sem poder, sem cargo, sem carteira assinada, sem crachá, sem secretária e
sem sair do Brasil"
e... "Não acordem os chineses" (Napoleão)
O grande livro de Ricardo Kotscho e a
crônica que publiquei neste fim-de-semana
no jornal ABC DOMINGO, do Grupo Editorial Sinos


NÃO ACORDEM OS CHINESES
Walter Galvani

A frase que serve de título à esta crônica não é minha, mas de Napoleão Bonaparte, o imperador dos franceses, que, sempre preocupado com o “grandeur” do seu país e até aonde poderia levar as fronteiras do seu império, costumava usá-la para acalmar seus assessores. Enquanto ele mandou no mundo, ou seja dos anos finais do século XVIII até 1815, batalha de Waterloo, seus comandados obedeceram piamente ao que ele determinava. O Ocidente como um todo porém, volta e meia esquece a lição napoleônica e se põe a fazer cócegas no dragão adormecido que, quando acorda, bufa línguas de fogo por suas ventas. Depois, ele reflui, pelo menos tem sido assim e torna a dormir o sono histórico em que, segundo o imperador francês, deveria ser mantido para sempre.

Sabem qual foi o crescimento chinês neste ano em que todos “comemoraram” ter andado pelos 3 ou 4 por cento, como o Brasil e os Estados Unidos? Pois foi de 11,5%... Segundo cálculos das autoridades monetárias da China o seu país poderá crescer ainda mais e em 12 anos terá multiplicado por quatro o seu PIB.

Enquanto o dragão vomita estas labaredas, todos os que podem se atiram ao mercado chinês, imaginando que lá está o segredo das vendas infindáveis.

É, o tema do dia-a-dia, tem ido do dragão chinês ao terror e imprudência nas rodovias, passando pelos assaltos, requintes de crueldade e falta geral de vergonha na cara.

Prefiro seguir a lição de Ricardo Kotscho, autor do mais recente “best-seller” brasileiro, “Uma vida nova e feliz – sem poder, sem cargo, sem carteira assinada, sem crachá, sem secretária e sem sair do Brasil” que diz que o assunto das crônicas deve ficar livre e permitir que o autor fale de outros temas ou sobre quase nada, preciosidades como as que reencontrou, ao deixar as grandes redações depois de quarenta anos de combate e refluir para a vida de uma pequena cidade. “Descobri – diz ele – que o grande barato é aprender a viver com menos. A gente passa a dar valor às coisas mais simples como preparar o próprio jantar ou levar um papo com a síndica sobre a reforma do jardim do prédio”.

E por aí segue ele, achando que a comunhão destes pequenos e ternos assuntos vale mais a pena do que buscar o assunto do dia e acabar falando sempre em violência, corrupção política, competição e morte no trânsito.

Sim, todos já enchemos destes assuntos. Onde anda a imaginação? É o que diz Kotscho e assino embaixo.




QUEM FOI MESMO DOM JOÃO VI?
Walter Galvani, em 28/01/2008

O dia 28 de janeiro assinala a assinatura do decreto de abertura dos portos brasileiros às "nações amigas".
Leia-se aqui, "Inglaterra"


A ABERTURA DOS PORTOS BRASILEIROS

Walter Galvani

Foi há duzentos anos, num 28 de janeiro, em 1808 naturalmente, poucos dias depois de chegar a Salvador na Bahia de Todos os Santos, que o príncipe regente, Dom João de Orleans e Bragança, dentro de sua estratégia política de apoio total à Inglaterra, contra o bloqueio da Europa Continental por Napoleão Bonaparte, assinou o decreto de “abertura dos portos brasileiros ao comércio com as nações amigas”.
Aqui, onde se lê “Nações amigas”, leia-se Inglaterra, a única potência que tinha condições de visitar, comerciar, fazer trocas ou simplesmente aportar em locais proibidos pela força incrível do exército do imperador dos franceses.
O exemplo frutificou. Quando já como João VI, rei de Portugal, o antigo “príncipe regente” se retirou daqui, deixou seu filho, aconselhou-o a colocar a coroa em sua própria cabeça “antes que algum aventureiro o faça” e tornou-se assim o grande propulsor da independência brasileira.
Sua imagem, manchada pelo filme de Carla Camurati, “Carlota Joaquina”, que o apresentava como um pobre monarca vítima de adultério e comedor compulsivo de frangos, está sendo higienizada agora e mostrada aos brasileiros com outras visões.
Depois do sucesso espetacular de “1808”, do jornalista e escritor Laurentino Gomes, que vive 19 semanas como um dos mais vendidos no Brasil, vai chegar a vez do livro dos portugueses Jorge Pedreira e Fernando Dores Costa, “Dom João VI”, ao mesmo tempo em que a “mídia” adversária de Laurentino, talvez por concorrência empresarial, anuncia que vem aí o livro da professora Lúcia Bastos, que, com todo o respeito que nos mereça, ainda não o escreveu. É um livro portanto ainda promessa. Pode sair ou não. Mas, competição é competição e o simples anúncio do futuro trabalho, funciona como anti-publicidade para o Laurentino.
Meu conselho é no sentido contrário: comprem o livro “1808”.
Mas, se Dom João VI foi tão combatido assim e ainda o é depois de duzentos anos, é porque fez alguma coisa de importante. Como dizem os árabes, “ninguém atira pedra em árvores que não dão frutos”.




HOMO HOMINI LUPUS
Walter Galvani, em 31/01/2008

De nada adianta cercar a fortaleza, se a violência está dentro dela.
Crônica publicada hoje no Diário de Canoas


O INIMIGO DO HOMEM

Walter Galvani


Foram os romanos que cunharam esta frase que, desde então acompanha a Humanidade: “Homo homini lupus”. Para os que gazearam a aula de latim no velho La Salle ou no Auxiliadora, “O homem é o lobo do homem”. Aliás, desde que você “não perca o seu latim”, nada mais óbvio para tradução. Não pede nenhum esforço extra.

O que também não pede esforço extra é a atualidade desta frase, presente nas manchetes dos nossos jornais e é claro, aqui no “Diário de Canoas” pois não há como fugir à esta certeza... Só o homem é capaz de matar por pura maldade e até com requintes de ferocidade que acabrunhariam qualquer lobo. O próprio Lobo Mau das historinhas infantis se abalaria com as monstruosidades que estão sendo cometidas pelos membros da espécie humana contra outros membros da própria espécie. Matam por nada. Para roubar os tênis às vezes, os automóveis, a mulher, o homem, incendeiam, transformam o corpo em um monte de brasas fumegantes.

John Kennedy uma vez escreveu que de nada adianta cercar de guardas o castelo, se o inimigo vive em seu interior.

É exatamente o que se passa no mundo de hoje. Aliás em nossa terra, em nossa cidade. Aqui estamos expostos e como não há policiamento possível, como diria Kennedy, ou como nos garantem os membros da Brigada Militar ou da Polícia Civil, não há como enfrentar as forças do mal.

Só há um caminho e temo que me tomem por pastor de alguma religião, católica ou qualquer outra que propague o reino de Deus, mas a minha pregação, digo, crônica, não poderia ter outra orientação: vamos tentar instilar nas pessoas o velho espírito que orientava os primeiros cristãos.

Retornando ao império romano, é lá que surgiu a idéia e a primeira imagem daqueles “que se amavam” e se protegiam. Enfrentavam feras e adversários dispostos a massacrá-los, afrontavam um império até que converteram o líder deste tal império, o imperador Constantino. Uma vez convertido por Helena, sua esposa, transformou a religião cristã em oficial. Era a vitória do espírito sobre a matéria, dos mais fracos sobre os mais fortes, dos pequenos sobre os grandes.

Dois mil anos depois, o que fazer para restaurar o predomínio dos bons? Como dormir em paz numa humilde habitação feita de táboas e plásticos, restos de papelão e latas, que um pé na porta pode botar abaixo o sossego da madrugada? Rezar? Já que o poder público é incapaz de garantir a paz nas ruas e vielas, nos palacetes e nos casebres, só nos resta mesmo rezar. Ou não votar neles...




DIRIGIR BÊBADO É UM PROBLEMA DE CONSCIÊNCIA
Walter Galvani, em 03/02/2008

Crônica publicada hoje no jornal
ABC DOMINGO, órgão do Grupo Editorial Sinos


UM CRIME: DIRIGIR BÊBADO

Walter Galvani



Dois copos de cerveja. É o limite. Melhor seria até que fosse uma conscientização e pronto, nem seriam necessárias medidas de fiscalização. Quanto à droga, nem se fala. Dirigir com mais de 3 decigramas de álcool por litro de sangue, a partir de agora será crime. E como tal, o motorista, seja ele membro da feliz classe média brasileira, a que não tem limites, ou das classes mais altas, que não tem limites em lugar algum, será preso, julgado e condenado em questão de minutos, se funcionarem, é claro, fiscalização e vigilância dos poderes públicos.

Para mim, uma longa história e experiência por causa da idade, já tendo passado por tudo o que é possível e testemunhado o que há de mais incrível, uma boa lição antes de encerrar a minha participação nesta peça da vida e sair pelos fundos do palco. De costas, como recomendava Paulo Autran, pois nunca se deve dar as costas ao público, a não ser que esteja prescrito na ação dramática e por isso se torne necessário. Certa vez, lá pelos anos setenta, visitei um amigo que militava na embaixada do Brasil em Estocolmo. Fomos ao centro da cidade jantar e depois deveríamos nos dirigir para a região conhecida como “Jardins do Rei”, onde ele morava, vizinhando com o Gustavo Adolfo ou a Rainha Cristina da época. Pois bem: comemos sanduíches, lembrando-nos do “Prinz Bar” em Porto Alegre, tomamos duas cervejas e na hora de ir embora, meu amigo chamou um táxi. “Como? – lembrei-lhe – estamos de carro.” “Não – respondeu-me – bebi. Bebestes. Vamos de táxi.”

Se existisse esta mentalidade não seria necessário que o Ministério da Justiça tomasse a providência que a sociedade pediu, exigiu: a partir de agora, quem dirigir bêbado estará cometendo crime.

Este sim é o verdadeiro basta nos exageros no trânsito e os jornais aqui da casa tem alertado sobre isso, inclusive através do poderoso “NH”, hoje o décimo jornal em circulação no país, mais de 40 mil exemplares por dia, e que sempre fez da defesa da comunidade, o seu forte, como base, ponto de partida e posição de impacto.

Mesmo não havendo bebida, é preciso que o motorista esteja preparado, descansado, sem problemas de estresse, pois adrenalina é o mesmo que álcool no sangue. A qualquer momento há uma “pechada” na esquina da casa da gente. É o barulho da desgraça, da infelicidade e, muitas vezes, da irresponsabilidade.




MAS É CARNAVAL...
Walter Galvani, em 04/02/2008

Crônica publicada neste final de semana no jornal Diário Popular, de Pelotas

MÁSCARAS E FANTASIAS

Walter Galvani

Não irei para nenhuma “avenida”, não estarei em algum “sambódromo”, não vestirei uma fantasia e nem usarei máscara. Mas, é pena. Deveria fazê-lo, como já o fiz no passado. São quatro dias (modernamente ampliados para uma semana ou mais...) em que o país não pensa em outra coisa, por osmose, não por participação total. Aliás, a grande vantagem é da tevê que transmite ao vivo, de Pelotas ao Rio de Janeiro e nos mostra escolas de samba, blocos e cordões (cordões?... velhos tempos!) e gente indo atrás do Trio Elétrico (“atrás do Trio Elétrico, só não vai quem já morreu!”). É isso mesmo: às vezes a gente já morreu e não se dá conta... Mas, é este o momento em que o Brasil mergulha naquilo que antigamente se chamava “folia” e esquece os problemas, a verdadeira identidade, transformam-se os mais humildes em reis, rainhas e princesas, e o Rei Momo recebe as chaves da cidade, realizando mais pela alegria do povo que muito prefeito que anda por aí.

Infelizmente, na Quarta-feira de Cinzas, tudo volta a ser como dantes e podemos arquivar ilusões, sonhos e guardar as fantasias. Tudo recomeça a girar e, por um ano inteiro estaremos outra vez presos à máquina, ao computador, ao expediente, ao cartão-ponto, ao sistema.

Todo ano eu lembro disso quando chega esta época em que as coisas passam a acontecer no terreno do sonho e por alguns dias a população se desliga dos problemas e dos desencantos proporcionados pelos políticos que sujam a própria atividade com a sua em geral valiosa e volumosa contribuição.

Esquecidos de todos, durante alguns dias somos “rei, poeta ou marinheiro”. No entanto, tudo vai acabar na quarta-feira...

Depois deste intervalo, o ano vai começar para valer. Neste 2008, mais cedo do que de costume, pois, pelo cálculo misterioso que preside nossos calendários e nossas vidas, o Carnaval é o mais cedo desde 1923. Logo logo, portanto, voltaremos à vida normal das cidades, acabar-se-ão as férias e recomeçaremos as atividades. Iemanjá e Nossa Senhora dos Navegantes no feliz sincretismo que viceja no Brasil estarão também dando o seu adeus, pois estão irmanadas nestes mesmos dias de Carnaval e, sobrará pouco para novas paralisações.

Infelizmente, e os números já apontam para isso, haverá mortos e feridos no trânsito, assassinatos, execuções, traições, vinditas. E então, estará chegando o ano verdadeiro. Aquele que não permitirá mais hesitações, será preciso pensar nas realizações e que chegou a hora delas. Ao trabalho, portanto, a partir de quarta, que ninguém é de ferro.




"OPERAZIONE BISCHA"
Walter Galvani, em 09/02/2008

Eis como os travestís brasileiros presos pela Polícia Italiana neste fim-de-semana, estão ajudando a imagem do Brasil no exterior...
Enquanto isso, continuamos "jogando futebol"...
Ou participando do Carnaval, ou não fazendo nada, que "ninguém é de ferro".
A crônica a seguir foi publicada hoje no jornal A Razão de Santa Maria


VAMOS TRABALHAR

QUE NINGUÉM É DE FERRO



Walter Galvani





“Foi um rio que passou em minha vida...” ou “foi mais um carnaval que passou”, deixando a fantasia “de rei, de pirata ou de marinheiro” e tudo se acabou na quarta-feira. A grande vantagem do carnaval moderno é que ele não acaba mais na quarta-feira de cinzas, mas desliza até ao sábado, às vezes domingo e até segunda-feira. A vantagem extra do carnaval deste ano é que ele ocorreu tão cedo que vai dar para começar o ano na segunda-feira, 11 de fevereiro.

Este início tão precoce poderá fazer com que se trabalhe algumas horas a mais do que em 2007, mas a pergunta que deve ser feita a cada um, na concha do ouvido, é se isso será, de fato, útil. O que você produzirá a mais neste 2008? Mais trabalho? Mais consumo? Mais leitura? Mais escrita? Mais amor e carinho? As contas são absolutamente individuais.

A necessidade desta parada imperativa do Carnaval, assim como das festas de fim-de-ano, assim como dos “feriadões” (escassos no segundo semestre deste ano), é pauta estabelecida pelos psicólogos, psiquiatras e psicanalistas, pelos analistas de plantão. Sem estas interrupções salutares, dificilmente se suportam as tensões da vida moderna, que, aliás, são profundamente estressantes de per si e portanto, provocadoras da necessidade que as projeta. Não sei se fui suficientemente confuso (ou complexo) para ser/não ser entendido, mas é o que é.

Não é difícil, ninguém precisa ser Jung ou Freud, Melanie Klein, para compreender que é preciso, por vezes, mergulhar no fundo do subconsciente e de lá reaparecer com a resposta na ponta da língua.

Assim raciocinando, até os “feriadões” são, de fato, produtivos. E nem sequer se justifica a idéia de que a economia sofre abalos. Não, não sofre, porque a produção industrial é planejada, em tempos modernos quem vai montar 5.000 automóveis num determinado período, completará a quota independente do número de dias, mais dois, menos dois não alteram nada. O consumo caseiro, este que se direciona a supermercados, mercearias e farmácias, migra com o consumidor e se ele gasta na capital ou na praia, nas pequenas e nas grandes cidades ou nas vilas distantes, acompanha o consumidor. Resumindo: quem vai para a praia ou para a serra, para o campo ou para os pontos que tocará numa viagem de deslocamento, arrastará consigo a sua necessidade de gastos. E o investimento, se houver, ficará dormindo nos estabelecimentos bancários.




AS ELEIÇÕES AMERICANAS SÃO IMPORTANTES PARA O MUNDO INTEIRO
Walter Galvani, em 10/02/2008

Crônica publicada hoje no ABC DOMINGO
ór~gão do Grupo Editorial Sinos


CARNAVAL DE DINHEIRO

Walter Galvani

O senado americano já aprovou, na semana que entra será a vez da câmara de deputados. Um pacote assombroso de dinheiro será distribuído pela presidente Bush antes que se vá e que espera, com esta formidável jogada de papai Noel, ganhar a eleição.

Naturalmente o seu partido teme que o adversário Democrata, com a impaciência de Hillary Clinton praticamente indicada, tenha os votos necessários, e conquiste a Casa Branca. Vocês ainda devem estar lembrados da sujeira que foi a reta final da eleição de Bush. Pois, com este vendaval de dinheiro prometido aos americanos, 600 dólares de restituição por pessoa, com 300 dólares por cada filho, com 1.200 para o casal, com cheques de 300 para os que não pagam impostos e não tem restituição a perceber, esperam os republicanos mudar a sorte das eleições.

Pobres políticos brasileiros, amadores sem cacife que ficam por aí desviando dinheiro de selos ou participando de mensalões! Nada se compara à esta monumental pernada americana que pode traduzir tudo o que pensam e fazem nossos amigos do norte.

Vendo este “carnaval de dinheiro” fico pensando o quanto somos toscos e ingênuos.Quem diria, não é mesmo? Nunca vimos nada igual.

Agora mesmo, assistiu-se ao desperdiçar de milhões de reais em nome das atrações turísticas que deveriam derramar importância igual ou superior nas ruas brasileiras. Pagou-se a “alegria do povo”, indenizou-se o tempo dedicado à preparação dos carros alegóricos, à feitura das fantasias, aos ensaios e às composições. Remunerou-se a falta de inspiração e até o menor tapa-sexo do país, como se isso fosse uma grande conquista.

O dinheiro gasto para gratificar escolas de samba que tratassem da vinda da família real portuguesa para o Brasil há duzentos anos, deveria ter sido investido na premiação dos estudiosos do assunto. Presentear escolas de samba é o mesmo que pagar o jantar de caridade, ao invés de distribuir sacolas de comida aos necessitados.

Para fugir ao buraco negro da recessão, os americanos fazem agora o carrossel do esbanjamento, contemplando a todos, indiferentemente, na convicção de que o dinheiro voltará milagrosamente transformado em voto que garantirá o poder. Então, continuaremos na corrida belicista, teremos tanques, canhões, armas fantásticas, soldados, petróleo e a manutenção do status atual: manda quem pode, obedece quem precisa.

Não sei porque mas sinto um cheiro incrível de corrupção neste abraço nacional de falsa caridade.






NOSSA PREOCUPAÇÃO, O TIMOR LESTE
Walter Galvani, em 11/02/2008

José Ramos Horta, o presidente do país que optou pela língua portuguesa para marcar sua independência política, econômica, moral, foi atingido por duas balas num atentado que visava também o primeiro ministro Xanana Gusmão


Uma segunda-feira sangrenta com atentados contra a vida e a liberdade, contra o estado do Timor Leste e contra o desenvolvimento econômico e social daquela antiga colônia portuguesa na Ásia.
Sempre nos orgulhamos de que se fale a língua portuguesa nos cinco continentes e que mais de 200 milhões o façam.
Por isso, temos um carinho especial pelo Timor Leste, bem como os enclaves de Goa e Macau, pontos onde se mantém aceso o cultivo da nossa maravilhosa língua, aquela que serviu de mote para a afirmativa de Fernando Pessoa: "Nossa pátria é a nossa língua!"
Com muita atenção e apreensão acompanhamos o desenrolar dos acontecimentos que atingiram o próprio cerne daquele jovem democracia.
José Ramos Horta, Prêmio Nobel da Paz de 1996, está internado num hospital de Darwin, na Austrália, lutando por sua vida.





O QUE É O TIMOR LESTE?
Walter Galvani, em 11/02/2008

Nesse momento em que os líderes e as próprias instituições democráticas sofrem atentado conduzido por contra-revolucionários, vamos revisar: afinal o que é o Timor Leste?

Trata-se de um artigo publicado originalmente no "Caderno de Literatura" da AJURIS, em dezembro de 2000:

A PENÚLTIMA FLOR DO LÁCIO

Walter Galvani



Estamos próximos. Tão próximos que nos espanta saber os milhares e milhares de quilômetros que na verdade medeiam entre o Brasil e esta pequena ilha do arquipélago da Indonésia, lá mesmo onde encontramos Java, Sumatra e Bornéu, com tantas recordações de Emilio Salgari e outros fantásticos escritores que povoaram o imaginário infantil e adolescente de várias gerações. E de repente, lá do fundo deste imensurável estoque de recordações, emerge a ilha do Timor com suas incríveis divisões, e uma remota ligação com a língua portuguesa.

Renascem com seus sonoros nomes lusitanos os reflexos da aventura dos descobrimentos, aquela mesma que trouxe Cabral ao Brasil e o levou, bem como conduziu Vasco da Gama, Bartolomeu Dias, Luís Vaz de Camões ou Afonso de Albuquerque, ao Oriente.

E assim, desfilam diante de nós Xanana Gusmão, José Ramos-Horta, o arcebispo Ximenes Belo ou Manuel Carrascalão.

Mas, quem são estes Manuéis, Joaquins, Josés, Pedros, que povoam o distante país que nasceu de uma colônia antiga e abandonada e no entanto até hoje disputada, onde talvez o único reflexo e desbotado vínculo com a antiga metrópole seja o estropiado português lá praticado, invadido, repartido e conspurcado pelos dialetos locais, rivalizado pelo "tétum", que poderia ter mais significado patriótico e nacionalista, até porque fora adotado pela Igreja Católica como a língua oficial de suas cerimônias ?

E porque a escolha do português como língua oficial, porque esta decisão, já que é sabida e conhecida a influência e a importância do inglês como moderno "latim" ou esperanto, como queiram, o sonho da língua universal a um passo de concretizar-se ?

Bem, mas ali estão eles a falar em Camões e Pessoa, a citar Eça de Queiroz e Machado de Assis, a lembrar Guimarães Rosa, o Brasil e Portugal. A invocar a irmandade com Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Guiné Bissau e de certa forma o enclave de Macau, que também este, incrustado em plena China, serve de ponte com a Europa, com os quinhentistas e seiscentistas, com Gil Vicente e com os "homens de grandes narizes", os navegadores cristãos.

Descobrimos que a nossa língua portuguesa, esta mesma que acutilamos e atropelamos diariamente, é uma arma poderosa da cultura e da comunicação que nos integra, sim, e nos carrega até o coração, até à emoção de gente que tenta construir seu pequeno país, com liberdade de escolha religiosa, política e racial, com direitos e deveres e com expectativas.

Sim, com diferenças. Assim como falamos hoje aqui, com nossa contribuição original e inequívoca e com nossa pronúncia inegavelmente vinculada à língua do tempo de Pero Vaz de Caminha e seus contemporâneos.

Também eles, lá no Timor Leste, o que lhes sobrou da derrocada de 1975, quando os indonésios arrasaram o que encontraram pela frente na ânsia da sua incorporação num grande projeto de expansão, tentam com tijolos, areia e sonhos construir o seu país, usando o cimento da língua portuguesa.

É uma obra e tanto.

E uma lição para nós.

Mas não foi fácil, não, desde o início, até porque o Timor Leste não tem muito a agradecer aos colonizadores portugueses, a não ser talvez a sorte de que o cristianismo proporcionou-lhe um traço de unidade nacional que acabou servindo notavelmente na hora da independência.

Os padres sempre lá estiveram muito presentes, com as missões que começaram a chegar logo depois da primeira visita dos navegadores, isto em 1520. Foi quando lá arribaram, na esteira dos comerciantes em busca de sândalo. E, os missionários, de futuros cristãos.

Ao longo dos 450 anos de ocupação não fizeram muito pela promoção dos nativos. Abrigaram imigrantes chineses ricos, receberam mesmo indonésios de outros setores do arquipélago ainda não constituído na grande nação de hoje, e nem sequer tiveram tempo de consolidar seu domínio e permanência, sem lutas contra inimigo europeu poderoso e perigoso: a Holanda.

Durante três anos, durante a Segunda Guerra Mundial, sustentaram uma resistência contra os invasores japoneses. E desde o dia 7 de dezembro de 1975, a Indonésia com seu exército, suas armas mortíferas, seu napalm e seus foguetes terra-terra e terra-ar, aliás fornecidos pelo Brasil.

Mesmo assim, todas estas guerras desestruturadoras e destroçantes não acabaram com as belas escolas católicas de Saibada, Maliana, Ossu e o seminário de Dare. Ramos-Horta diz que ao papel da Igreja se deve "o pouco que o Timor Leste teve de riqueza intelectual, espiritual, moral e religiosa."

Afinal, o que é o Timor ?

Uma ilha situada entre o sudoeste asiático e o Pacífico Sul, que ficou dentro das posses de Portugal pela continuidade do traçado (nunca demarcado) de Tordesilhas. Está dividida em Timor-Oeste (geralmente considerado como a "parte legítima" da Indonésia) e o Timor-Leste (Timor Lorosae) , ocupado desde 1975 pelo regime vizinho, com 18.899 quilômetros quadrados, constituído pelo enclave de Oe-Cusse (na costa norte da parte ocidental), pela ilha de Ataúro (a 23 km de Díli, a capital), o ilhéu de Jaco (separado por um canal da ponta leste) e a metade oriental da ilha de Timor.

Tem uma agricultura rica, mas tem também, e esta é a razão de tanto interesse indonésio e internacional pelo território, importantes reservas petrolíferas. Aliás, a Austrália, que hoje posa de "protetora dos direitos timorenses" assinou um acordo em dezembro de 1989 para dividir com a Indonésia o direito de explorar o petróleo do Timor. Em 1991, Portugal iniciou um procedimento legal contra este tal acordo junto ao Tribunal de Haia. Vamos ver se os timorenses acabam se beneficiando com o que é seu.

Mas, é sempre difícil a história das minorias. A denominação Timor Leste e Oeste nasceu de uma simples linha riscada a lápis no célebre mapa-mundi de Mercator , o grande geógrafo e matemático flamengo que criou no século XVI a representação em mapas do mundo com paralelos e meridianos. Curioso que tal linha virtual acabou aceita e predominando durante séculos, até permitir esta eclosão de nacionalismo, justo quando parecia que os nacionalismos entravam em agonia para quem sabe começarem a expirar no século XXI...

Já não sei se isto sucederá, muito menos com o Timor.

Conta a lenda que "em tempos que já lá vão, vivia na ilha Celebes um crocodilo muito velho, tão velho que já não conseguia caçar peixes no rio. Certo dia, apertado pela fome, decidiu arriscar-se nas margens atrás de algum porco distraído. Tanto se arrastou que perdeu as forças e caiu, exausto em meio à vegetação. Um rapaz simpático e forte, dele teve pena e levou-o de volta à água.

Em retribuição pelo salvamento, o crocodilo ofereceu-se a transportar o jovem às suas costas, sempre que quisesse navegar. Isto não impediu no entanto, que sentindo fome outra vez, não se lembrasse de comer o companheiro que o salvara. Antes porém, quis ouvir a opinião de outros animais e todos se mostraram indignadíssimos: "devorar quem o salvara ? Que ingratidão!"

Envergonhado e cheio de remorsos o crocodilo partiu para bem longe, para recomeçar a vida onde ninguém o conhecesse. Como o rapaz, afinal de contas era o único amigo que tinha, convidou-o para viajar uma vez mais, dizendo: Vem comigo à procura de um disco de ouro que flutua nas ondas perto do sol nascente. Quando o encontrarmos seremos felizes para sempre!

Mais uma vez viajaram juntos e tanto nadaram que à certa altura o crocodilo percebeu que suas forças não lhe permitiam continuar. Deteve-se um instante e logo seu grande corpo cresceu e se transformou numa ilha magnífica.

O jovem, transformou-se imediatamente num adulto e verificou, encantado, que trazia ao peito o disco de ouro com que sonhara o crocodilo. Percorreu então lentamente as praias, subiu às colinas, andou pelas matas e resolveu que ali ficaria para sempre. Deu à ilha o nome de Timor, que significa Oriente."

Toda a beleza da lenda que esconde em seu sub-texto a certeza dos valiosos recursos que o Timor abriga, ajuda a contar seja em dialeto maubere, tétum ou em português, o porquê de tanto apego à tão pouca terra.

Nos episódios de 1999, os timorenses mostraram do que são capazes, morrer aos milhares por sua ilha encantada e escolheram o português neste ano 2000 para ser o meio de comunicação e acesso ao mundo desenvolvido, porque só aí encontraram os resquícios daquela riqueza intelectual de que nos fala Ramos-Horta, ele e Ximenes Belo alçados à situação de reconhecimento internacional com o Prêmio Nobel.

Trata-se do mais alto e político certificado, no bom sentido, que a comunidade universal sabe conceder. Por ironia com o que sobrou da fortuna do homem que inventou a dinamite e até para resgatar o nome de Alfred Nobel desta culpa eterna.

E foi assim que a FRETILIN (Frente Revolucionária para um Timor Leste Independente) , assim mesmo com estas consagradoras iniciais em língua portuguesa, enfrentou a APODETI (propugnava a união com a Indonésia) e a UDT (União Democrática Timorense) que advogava a reintegração com Portugal.

Por isto tudo, a última floração do Lácio, a "inculta e bela" língua portuguesa acabou ganhando uma oportunidade a mais para mostrar sua força, sua respeitabilidade e seu poder revolucionário.

É uma ótima lição, para que seja muito bem aprendida em especial em Portugal, mas muito mais no Brasil e nos demais irmãos que deploram muitas vezes, com lamentável indignidade, o fato de não estarmos "colonizados" (ainda...) pelo inglês.





AMAZÔNIA SANTUÁRIO
Walter Galvani, em 13/02/2008

Para uma aproximação com o presidente da França, Nicolas Sarkozy, o presidente Lula, do Brasil, disse que a França é o único país europeu que pode falar sobre a Amazônia, de maneira pró-ativa, pois é o único que mantém fronteiras e reparte alguma coisa da região. É pela chamada Guiana Francesa, capital Cayenna, que durante muitos anos foi presídio francês para bandidos e para subversivos. Uma espécie de Guantanamo.

Em compensação, Lula quer dizer que é preciso analisar com muito cuidado o que desejam da Amazônia, pois lá vivem 30 milhões de brasileiros que desejam consumir. Ou seja, disse ele: "Querem ter automóveis, comprar, ter casas, andar para lá e para cá."
Cuida-te Amazônia!



CANOAS E O TREM
Walter Galvani, em 14/02/2008

Crônica publicada hoje no jornal Diário de Canoas, órgão do Grupo Editorial Sinos

1871/2008

Walter Galvani

Foi no verão de 1871 que foi inaugurada a estrada de ferro ligando Porto Alegre a São Leopoldo, mais tarde estendida até Hamburger Berg, hoje Novo Hamburgo, estabelecendo-se assim o primeiro caminho ferroviário para transporte de cargas e passageiros no Rio Grande do Sul. Mais tarde, durante aquele século XIX e até mais ou menos a metade do século seguinte, continuou sendo ampliada a malha e chegamos a ter, no estado, um adequado serviço de transporte por trens. Depois, ainda no século vinte, a partir dos anos cinqüenta, destruiu-se tudo.

Canoas ficou marcada por este propósito inicial, pois foi a partir da estação dos trens, (onde hoje está instalada a Fundação Cultural), que se espalhou a primeira leva de população que se fixou nos lotes postos à venda pelo Sr. Vicente Ferrer da Silva Freire. Nascia uma estação de veraneio.

(Meu avô, Enrico Galvani, foi contratado para trabalhar nas roças e pomares dos ricos porto-alegrenses que ali se instalavam. Mais tarde, os netos daqueles proprietários tornaram-se meus amigos. Meu outro avô, Felisbino Ignácio da Silveira, junto com o sr. Henrique Witrock, foi o primeiro industrial canoense, pois começou a produzir as famosas cadeiras Silveira, na sua fábrica, na hoje rua Domingos Martins.)

Mais adiante, quando veio a emancipação política em 1939 e a instalação do município em 15 de janeiro de 1940, o primeiro prefeito Edgar Braga da Fontoura e seu sucessor Aluízio Palmeiro Escobar, tentaram em vão transferir o núcleo populacional para a zona chamada Estância Velha, local alto e arejado, atingível pela rua Santos Ferreira (que até hoje figura em nosso mapa) para assim fugir das inundações. Não acreditaram e em 1941 veio a maior enchente de todos os tempos, quando inúmeros canoenses foram desalojados e ficaram flagelados, como se costuma dizer.

Desde então, de tempos em tempos, se tem a repetição do flagelo. Correm então cidadãos e administradores, igrejas e bispos, amigos e parentes, para resgatar quem ficou invadido pelas águas.

Mudar hoje uma cidade de 300 mil habitantes não é apenas difícil, é impossível, até porque ela foi se estendendo e ocupando terras de antigos arrozais.

Os flagelados tornaram-se uma marca da nossa cidade. De tempos em tempos eles se refugiavam nos pavilhões da igreja São Luiz, mesmo lugar das saudosas quermesses. Vamos ter que nos habituar com as enchentes, mesmo porque ninguém parece interessado em resolver o problema. As águas baixam e todos voltam para suas casas.














TIMOR, LÍNGUA PORTUGUESA E A IMPORTÃNCIA DO BRASIL
Walter Galvani, em 15/02/2008

Claro que nos preocupa o que se passa no distante, mas tão próximo do coração e do cérebro, Timor Leste.
Crônica publicada no jornal A Razão de Santa Maria


SAÚDE AO TIMOR LESTE
Walter Galvani

Não pensem na distância geográfica, mas lembrem da proximidade com o coração. O Timor Leste escolheu para solidificar a sua independência, a língua portuguesa. Neste mês de fevereiro, mais especialmente a 16, a ONU, em 1983, emitiu a sua aprovação pela independência daquele jovem país que, depois de colônia portuguesa durante século e tanto, fora invadida pela Indonésia. Dali até à proclamação da independência em si foi um tapa, mas o pior é que os indonésios, daquele regime corrupto e ditatorial de Sukharno, haviam invadido em 7 de dezembro de 1975, a parte leste da ilha, justamente o Timor Leste que tanto prezamos e lá prenderam, seqüestraram, mataram, incendiaram, em nome de uma anexação que lhes interessa muito, porque no mar, dentro da limitação territorial de milhas internacionalmente reconhecida, tem petróleo. Compreenderam porque o Timor, tão pequeno, é tão importante?

Nesta semana que passou, liderados por um soldado rebelde, Reinaldo Monteiro, ex-militares demitidos por corrupção tentaram matar o presidente José Ramos-Horta, aquele que é Prêmio Nobel da Paz junto com o bispo Ximenes Belo e o primeiro ministro Xanana Gusmão.

Dá para perceber os interesses indonésios, holandeses (que antigamente dominavam a região), apátridas, que se unem numa hora dessas para tentar dobrar o regime democraticamente eleito, mas ainda em seus verdes anos.

O Brasil, por simpatia e aproximação motivada pelo cultivo da língua portuguesa, prometeu (e está atuando assim) o maior apoio à Ramos-Horta e ao Timor Leste. Aliás, o presidente timorense fez sua última viagem internacional ao nosso país, onde foi recebido por Lula.

Desde 1520, quando navegadores portugueses visitaram o arquipélago de que faz parte o Timor Leste, a região ficou como um dos pontos de contato lusitanos na Ásia, junto com Macau, Goa, Calicute e vários outros territórios no Japão, na Índia, na China e na chamada Indonésia. Muitos anos e dezenas de guerras mais tarde, o Timor sentiu-se libertado pela Revolução dos Cravos Vermelhos (1975) em Portugal e optou pela sua liberdade.

Frágil flor da independência, optou pela fortaleza da expressão lingüística diferente dos opressores indonésios e desfraldou a bandeira da língua portuguesa.

Por tudo isso, por esta opção que nos aproxima, por esta decisão máscula, estóica e perturbadora, é que o Timor Leste vive hoje em nosso coração.








"TROPA DE ELITE" GANHOU O "URSO DE OURO"
Walter Galvani, em 17/02/2008

O Festival de Berlim é sempre muito generoso ao procurar contemplar produções de países subdesenvolvidos ou em vias de desenvolvimento. Agora, premiou o Brasil (quem ganhara o "Urso de Ouro" há dez anos com "Central do Brasil" de Walter Salles Jr., e com isso
o filme "Tropa de Elite" ganha um impulso internacional.
Embora já tenha estado três vezes em Berlim, como jornalista e radialista, nunca participei do júri do festival.
A crônica a seguir, publicada hoje no jornal ABC DOMINGO, mostra porque eu não votaria neste filme.


FRENÉTICO E EPILÉPTICO

Walter Galvani


A escolha do assunto? Os “caras” de uniforme lembrando policiais fascistas? Tropas SS? Nazismo? Tortura? Assassinatos? Nem sei bem o que mais contou para me afastar de “Tropa de Elite”, mas indiscutivelmente eis um filme que não faz o meu gênero. Mas, talvez seja por isso que ele ganhou o “Urso de Ouro”, ontem em Berlim. Pelo chocante, pelo inusitado e até pela violência. Ou por simpatia com subdesenvolvidos e é assim que o Brasil é visto na Europa. Nem adiantou a revista “Variety” tocar num ponto que identifico não apenas neste, mas em vários filmes modernos e que, indiscutivelmente deles me afasta: “câmera frenética, montagem epiléptica”.

Sou um cara antigo. Continuo preferindo “No tempo das diligências”, do velho mestre John Ford ou “Casablanca”, que imortalizou Michael Curtiz e outros, mais ou menos votados, ao longo de todos estes sessenta e tantos anos de convivência com o cinema.

Vejo que a chamada “Sétima Arte” é capaz de surpresas à cada curva do tempo. Um dos filmes mais assistidos no Brasil e no mundo é “Desejo e Reparação” (título escolhido no Brasil para “Atonement”, que em verdade quer dizer “Expiação”, baseado no livro de Ian McEwan) e não vi, em nenhum momento, cenas de violência gratuitas ou provocadoras dos piores instintos racistas, fascistas, adormecidos no seio da população e trazidos à tela e à consciência.

Efeitos especiais? Quem precisa disso? A não ser em filme de ficção científica, nada disso interessa. Ou quem sabe em especialíssimos desenhos animados.

Trabalho com o cinema, com C maiúsculo, desde 1949, quando me associei ao Clube de Cinema de Porto Alegre e ajudei a fundar o “Clube de Cinema Alberto Cavalcanti” em Canoas. Jamais esqueci o “Hamlet” de Lawrence Olivier, ou o “Cidadão Kane”, de Orson Welles. Nem tampouco os já citados “Casablanca” e “No tempo das diligências”, ou mesmo os grandes filmes do neo-realismo italiano, quando a tela se povoava de idéias, sentimentos e emoções. “Dolce vita”, “La Strada”, “Perdidos na tormenta”, por exemplo.

Quem precisa de movimentos frenéticos de câmera ou andamentos epilépticos destinados a mexer com a lama que dormita no fundo dos corações solitários? Acho que o Brasil poderia muito bem escolher outras temáticas. Não sou contra a exteriorização dos problemas, mas será que é só morro/favela/tóxicos/policia/tortura/assassinatos que constituem a tessitura da vida brasileira? Não se produz nada, ninguém faz nada de bom neste país? Será que vivemos mesmo só de roubos, corrupção e falcatruas?




EIS UM EXEMPLO DE TRABALHO EM CULTURA
Walter Galvani, em 18/02/2008

O jornal VS, de São Leopoldo, publica interessante matéria que demonstra como
os pequenos, médios e grandes municípios
podem fomentar a atividade cultural:


Último dia para entrega de projetos culturais em SL

São Leopoldo - A Secretaria Municipal da Cultura (SMC) de São Leopoldo recebe até esta segunda, às 18 horas, propostas de candidatos ao processo seletivo de oficineiros e ativistas comunitários. Os interessados devem inscrever seus projetos na SMC (rua Lindolfo Collor, 439, 5º andar) contendo apresentação, objetivo, justificativa, etapas de trabalho (para nove meses), metodologia, público, currículo e clipagem que comprove as experiências relatadas. A decisão foi tomada em virtude do não preenchimento da totalidade de vagas das variadas linguagens culturais.

Os oficineiros trabalharão nos projetos Descentralização da Cultura e Pontos de Cultura, podendo desenvolver aulas de dança, vídeo e fotografia, música, artes plásticas, teatro, capoeira, literatura, canto e voz, inclusão digital, customização de roupas e invernada gaúcha. Por carga horária de 20 horas mensais, os oficineiros recebem salário líquido de R$ 534,00. Os ativistas comunitários serão contratados para formar comissões de cultura nos bairros, além de coordenar, organizar e divulgar as oficinas. A remuneração líquida é de R$ 1.174,80 para 160 horas de trabalho ao mês.


Jornal VS






FIDEL RENUNCIOU
Walter Galvani, em 19/02/2008

A grande notícia do dia. Para muitos, a grande notícia deste princípio de século.
Como ficará Cuba?
E o socialismo, resistirá em Cuba?
Fidel anunciou sua renúncia na manhã desta terça-feira.
Eis o que foi divulgado em Havana:



Fidel anuncia renúncia em Cuba


Fidel: 'Desejo apenas combater como soldado das idéias'
O líder cubano Fidel Castro anunciou nesta terça-feira que não voltará a governar o país, lançando dúvidas sobre o futuro do regime que se prepara para escolher um sucessor dentro de apenas uma semana.
Em uma mensagem publicada pelo jornal oficial do Partido Comunista Cubano, o Granma, Fidel disse que não aceitará o cargo de Presidente do Conselho de Estado, para o qual vinha sendo eleito e ratificado desde 1976.

“Trairia minha consciência ocupar uma responsabilidade que requer mobilidade e entrega total que não estou em condições físicas de oferecer. Digo-o sem dramatismo”, escreveu Fidel, afastado do cargo há um ano e meio para tratamento de saúde.

“A meus queridos compatriotas, que me deram a imensa honra de me eleger recentemente como membro do Parlamento, em cujo seio devem ser adotados acordos importantes para nossa Revolução, comunico que não aspirarei e nem aceitarei – repito – não aspirarei e nem aceitarei o cargo de Presidente do Conselho de Estado e Comandante-chefe.”

"Não me despeço de vocês, desejo apenas combater como soldado das idéias".

Fidel disse que continuará escrevendo no Granma, mas sua coluna "Reflexões do comandante-chefe" passará a se chamar "Reflexões do companheiro Fidel".





CUBA E O MUNDO,CUBA E A EUROPA
Walter Galvani, em 26/02/2008

Um novo Castro no comando da ilha mostra que ela segue os rumos modernos, que todos estão a seguir?
China ainda é comunista?
Rússia é agora super-capitalista?
E o Brasil do PT?


CUBA E A EUROPA

Walter Galvani


O que estará mais próximo de Havana? A Europa ou a América? Os irmãos latino-americanos ou as matrizes européias agrupadas não Comunidade Econômica Européia? Os vizinhos americanos ou os cubanos exilados em Miami e arredores?
Parece que, neste momento, por mais distante fisicamente que pareça, quem mais se aproxima de Cuba e lhe estende a mão nesta hora de possível transição e conseqüente mudança, é o Velho Continente.
Dono de uma histórica plataforma de cultura, mas também de um pragmatismo produtivo e indiscutível é de lá, da Europa, do chamado “Velho Mundo” é que está chegando uma ponte, plataforma ou abraço.
França e Espanha já estão, aliás, há muitos anos, desde os tempos de Fidel, representados por suas empresas e bancos. Os serviços eletrônicos, as transferências de fundos, os acordos comerciais bilaterais, os automóveis novos de reluzentes marcas como Peugeot ou Seat que trafegam ao lado dos antigos automóveis americanos e dos Toyota que já chegam também, porque a chamada “sabedoria oriental” também passa pela possibilidade de vendas para qualquer parte do mundo, seja o regime comunista puro (se é que existe algum), socialista (será que ainda existe?) ou capitalista (a saída parece a mais provável).
Diz-se tudo, que a China não é mais comunista, no entanto, ainda mantém a dureza do regime, censura e emprego com salários ínfimos, que a Rússia agora é super-capitalista, que Lula agora acredita plenamente no capitalismo, enfim, todos são, em verdade, grandes e atentos aplicadores do pragmatismo.
Fazer o quê?
Mudar para sobreviver no mundo globalizado. É o que Cuba vai fazer agora, assim como os Estados Unidos... Não se iludam. Esta virada em favor de Barack Obama, o turbante e o traje caracteristicamente muçulmano estão sendo usados como arma para derrubar um candidato a candidato praticamente vencedor, assim como surgiu uma amante para o adversário republicano, enfim, tudo nos une, nada nos separa. Estamos todos no mesmo barco. Mudam os remadores mas os roteiros permanecem os mesmos.




LA SALLE DE CANOAS FAZ CEM ANOS
Walter Galvani, em 28/02/2008

Dia 4 de março o Centro Universitário La Salle, que nasceu de uma escola dos irmãos lassalistas, há cem anos, em Canoas, minha terra natal, completará o seu centenário.
Esta crônica foi publicada na edição do Diário de Canoas, deste dia 28 de fevereiro de 2008:


CEM ANOS DO LA SALLE

Walter Galvani

Palavra que eu ia começar este texto, escrevendo egoisticamente “Cem anos do meu colégio”! Claro, La Salle aqui em Canoas, desde o início do século XX, começando as aulas num dia 4 de março, é muito mais importante e significativo para a então pequena povoação, que virou vila, cidade e hoje é das maiores do estado, formando tantas turmas, aprimorando tanta gente, alfabetizando, aperfeiçoando e agora, a um passo de universidade.

Tudo isso é muito bom e dia 4 estarei presente à missa, com a devoção que eu tinha nos velhos tempos de 42 a 48 do século passado, quando segui o único curso regular de minha vida. Depois, estudei uma especialização técnica no próprio colégio lassalista: na velha tipografia, aprendi a compor nos tipos de Guttenberg, montar páginas e imprimir nas antigas prensas. Quando cheguei no “Correio do Povo” em 1955, já estava preparado para o difícil trabalho que desembocou na diagramação e na impressão eletrônica que se conhece hoje.

Citar todos os meus professores certamente provocaria enganos e esquecimentos, injustiças. Mas, como esquecer do primeiro professor de francês, Irmão Maurício Isaac, que veio direto de Paris para Canoas? Ou do Irmão Albano, do Irmão Amadeu, do Irmão Frederico, do Irmão Henrique Justo que modelou minha mente literária, me fazendo participar no pioneiro grêmio literário de 1947/1948 ?

Quem diria que eu poderia contemplar, emocionado, desde a sede da Fundação Cultural de Canoas, ou seja da antiga estação do trem, os prédios que hoje constituem o complexo dos irmãos lassalistas, do glorioso Centro Educacional La Salle, do antigo Externato São Luiz, do Colégio São José ? Onde encontrei o Irmão Francisco, o Armando, o Gilberto, o Bonifácio, enfim, tantos e inesquecíveis professores que me ensinaram o fundamental na vida?

Aqui estamos nesta janela do século XXI, a admirar cem anos de uma história inesquecível que começou com a própria intervenção dos canoenses que pediram a vinda dos lassalistas para cá, dos membros da Comissão de Emancipação, mais adiante, que lutaram pela transformação em cidade do antigo distrito de Gravataí.

Toda esta força, esta pujança de Canoas, se deve à presença pioneira que agora festejamos e eu me vejo menino, à distância, recebendo ensinamentos que jamais me abandonaram e que ainda sei, na ponta da língua. Mesmo o que esqueci eventualmente, por nervosismo, em algum exame oral. Estou apto para uma revisão. La Salle, o meu colégio.








TERRORISTAS OU INSURGENTES?
Walter Galvani, em 01/03/2008

Crônica publicada hoje no jornal "A Razão" de Santa Maria e no "Diário Popular" de Pelotas, neste fim-de-semana.

RELAÇÕES PÚBLICAS NA SELVA

Walter Galvani

Quem assistiu a entrega dos ex-reféns libertados pelas FARC, nesta última quarta-feira, ao governo da Venezuela representado pelo seu ministro do Interior, e o posterior regresso à Colômbia, não pode deixar de registrar que se produziu um acontecimento inédito na história da Imprensa: sob as câmaras da televisão, e, portanto, aos olhos de todos, desenrolou-se um procedimento que implicaria outrora numa improvável possibilidade. Talvez fossem necessários delegados, testemunhas, olheiros internacionais, a representação de uma possível Liga das Nações ou ONU para falar em termos mais atuais. Mesmo assim, só as manifestações posteriores dos presentes ao ato, poderiam transmitir para a comunidade internacional a impressão de saúde e boas condições físicas que os quatro libertados ostentavam.

Hoje eles falarão sobre as péssimas condições de vida na floresta, da tortura terrível que é estar privado da liberdade, das tentativas de fuga, da doença que aflige a mais, digamos, ilustre das prisioneiras, a ex-candidata à presidência da Colômbia, Ingrid Betancourt, mas ninguém poderá retirar da lembrança dos que assistiram as transmissões e que depois viram as fotos, que os quatro ex-reféns Gloria Polanco de Lozada, Orlando Beltran Cuellar, Luiz Eladio Perez Bonilla e Jorge Eduardo Gechen Turbay estavam gordos e aparentemente bem nutridos, alguns deles saltitantes, mas todos se despedindo com flores e beijos dos guerrilheiros que os escoltaram.

Quer dizer as FARC deram, ante os olhos atônitos ou distraídos da população mundial, uma demonstração de Relações Públicas de matar de inveja qualquer grande multinacional. Se eu presidisse uma empresa dessas, sairia correndo hoje e voando de helicóptero para a selva colombiana, de preferência para a região de 750 quilômetros quadrados que a guerrilha quer desmilitarizada, para trazer o responsável por este plano fantástico para gerir os meus negócios.

Como num grande jogo de xadrez, a iniciativa das jogadas agora está com o governo da Colômbia. O que fazer para “matar” esta brilhante demonstração de que as FARC estão profissionalizadas e aptas a jogar?

Só falta agora algum time de futebol guerrilheiro querer disputar o campeonato colombiano... Já vimos de tudo. E então, fica difícil provar de que se trata apenas de terroristas. Ah, sim, os métodos são terroristas: seqüestros, reféns.




SEREMOS O GRANDE MERCADO DA CHINA...
Walter Galvani, em 02/03/2008

Crônica publicada neste domingo no jornal ABC DOMINGO, do Grupo Editorial Sinos, presidido pelo grande jornalista Mário Alberto Gusmão, dono de uma história épica.
Falo sobre a expansão sem limites da China, que muitos sonhavam como seu futuro mercado. Do jeito que vai, o dragão vai nos abocanhar a todos...


A LEI DO FILHO ÚNICO

Walter Galvani

Aprendemos todos, pelo sentimento ou pelo ensino, que o fato mais interessante é o que se dá mais próximo, mas, aos poucos aprendemos também que há coisas que se rotinizam, nos chateiam, não atraem mais. Então, falar dos assaltos à mão armada com desprezo total pela vida, do tráfico de entorpecentes, das drogas, da tortura e do excesso de população... nas prisões, do regime semi-aberto, de quem não tem nenhum valor moral trazido de casa, da falta de educação, dos desmandos e da prepotência no trânsito, das pequenas às grandes infrações, do desrespeito às leis, da incompetência e da corrupção das autoridades e de nossos representantes, ficar falando disso tudo e muito mais, aqui, é o mesmo que pregar no deserto. Entra ano, sai ano, entra mês, sai mês, mesmo que seja bissexto como o fevereiro que recém acabou, e nada muda.

Vamos portanto falar da China, que nos afeta e de muito perto, muito mais próximo do que se possa imaginar.

Já ouviram falar da “Lei do filho único” e seus efeitos? Pois é. Foi a única maneira encontrada pelo governo chinês para frear o crescimento da população do país. Agora, pensam em aboli-la. Daqui a pouco, quantos serão eles? Durante muito tempo pensou-se que a China seria um mercado formidável para nossos produtos, dos automóveis aos calçados, passando pela música, dança, cinema, tudo enfim que não fossem os miseráveis produtos de plástico com que própria China inundou o mundo. Pois, aquilo era apenas a primeira onda. O sonho de que lá seria o nosso grande mercado, acabou. Agora nós é que somos o grande mercado da China.

Procurem e encontrarão camisas, cuecas, calçados, calcinhas, rádios, toca-fitas, dvds, enfim, o que quiserem, tudo com a marca “Made in China”. Preparem-se para os automóveis. Quando chegarem, no preço que chegarão, não sobrará espaço nenhum para as marcas tradicionais já estabelecidas com fábricas aqui no Brasil.

Vai ser um tsunami de produtos chineses invadindo o Brasil na segunda e na terceira onda, confirmando aliás o que Napoleão Bonaparte havia dito no início do século XIX: “Deixem dormir os chineses”. Pois, lamento informar que eles acordaram.






A CRISE DAS FARC
Walter Galvani, em 03/03/2008

Com a morte do "número 2" num acampamento em terras equatorianas, segundo a denúncia do próprio Equador, a situação sul-americana está sofrendo uma perigosa perturbação.



PREOCUPAÇÃO

Walter Galvani

É natural que haja preocupação no Brasil, no Chile, no Peru, no Equador, na Venezuela, na Colômbia, na França, no mundo civilizado todo e em especial nos vizinhos limítrofes, nos povos da Amazônia, com este incidente dentro das fronteiras equatorianas ou não, a poucos metros da Colômbia. Amanhã ou depois, novo incidente poderá ocorrer na Venezuela ou na própria Colômbia, ou, porque não? – no Brasil.
É natural pois sendo o nosso país o maior e mais populoso da América do Sul, tendo fronteiras naturais com todos os envolvidos, seja ouvido, ou seja o mediador, para evitar um conflito terrível, que teria alto custo em vidas e no meio ambiente que interessa a todos e claro, ao mundo inteiro. E na economia de um modo geral. Sem falar na infinita pobreza dos povos da floresta, os maiores prejudicados em qualquer choque. E que já sofrem sem guerra nenhuma.
A dificuldade séria do governo colombiano com uma guerrilha de tantos anos de atividade é de difícil solução, mas precisa ser enfrentada pelo povo do seu próprio país e dentro de suas fronteiras.
Mas, quem conhece a Amazônia sabe o quão difícil é uma linha demarcatória completamente perceptível. Quem seria capaz de botar a sua mão no fogo, para indicar deslizes ou apontar ultrapassagens? Perguntem a qualquer militar que opera ou tenha operado na região para compreender as reais dificuldades para uma questão desta natureza. Bem, o que importa mesmo é a boa vontade possível entre os povos da mata, o que já outra questão difícil.
Não é por nada, também que Lula quer trocar telefonemas com todos os envolvidos, que quer também a opinião da Argentina, outro parceiro importante neste xadrez político latino-americano.
Antes que os interesses pelo petróleo venezuelano atraiam outras cobiças e outras atenções...




FARC X COLÔMBIA X EQUADOR X VENEZUELA Hoje haverá reunião da OEA (Organização dos Estados Americanos)
Walter Galvani, em 04/03/2008

Extraio trecho do noticiário de hoje para que os que abordarem este site situem-se diante da gravidade da situação.
Dizem que o número do celular de Reyes, o número 2 das FARC, executado no ataque colombiano ao acampamento que estaria dentro dos limites do Equador, foi fornecido pela CIA, Estados Unidos da América, o que facilitou a localização como se fosse um GPS.
Será mesmo ou em tempo de guerra, mentiras na terra?


O Equador rompeu relações diplomáticas com a Colômbia e a Venezuela expulsou o embaixador colombiano. Ao mesmo tempo, os países da América Latina se mobilizam para conter a crise diplomática, iniciada após um ataque colombiano contra a guerrilha Farc (Forças Armadas revolucionárias da Colômbia) em território equatoriano, ocorrido no ultimo sábado (1º), e que levou à morte Raúl Reyes, um dos principais líderes da guerrilha, além de outros 16 membros das Farc.

As decisões de Caracas e Quito de romper relações diplomáticas com a Colômbia foram adotadas depois que Bogotá revelou a suposta existência de acordos das Farc com os governos de Equador e Venezuela.

Bogotá informou que as revelações serão apresentadas à OEA (Organização dos Estados Americanos), cujo conselho permanente se reunirá nesta terça-feira.

O presidente do Equador, Rafael Correa, que iniciou uma viagem por vários países latino-americanos para tentar obter apoio em meio à crise, pediu aos "governos da região que formem fileiras frente ao "nefasto e traidor" ato da Colômbia contra as Farc em seu território. Amanhã, ele estará no Brasil para encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.




ACADEMIA RIO-GRANDENSE DE LETRAS
Walter Galvani, em 05/03/2008

Vamos dar um intervalo a tantos problemas e preocupações que nos vem de todos os lados, inclusive da Colômbia, Equador e Venezuela. Ah, a propósito disso: Uribe, presidente colombiano, sabia que a França negociava com Reyes (o número 2 das FARC que foi morto no ataque em território equatoriano) a libertação de Ingrid Betancourt, ex-senadora e candidata a presidente da Colômbia... Chega, não é? Ou será preciso ser mais óbvio?
Não querendo dizer que os "imortais" se afastem das questões do dia-a-dia, é hora de pensar no doce convívio da academia.


Ocupo na Academia Rio-Grandense de Letras a Cadeira de número 25, cujo patrono é Alberto Correia Leite.
Por este motivo, meu compromisso semanal é participar das sessões em que se produz cultura e se discute assuntos administrativos da entidade.
Nesta quinta, dia de posse da nova diretoria que foi eleita no final do ano passado.
Em sua sede administrativa, rua dos Andradas, 1234, 10º andar, Porto Alegre, toma posse nesta quinta-feira, 6, às 16 horas, a nova diretoria da Academia Rio-Grandense de Letras, encabeçada pelo acadêmico Francisco Pereira Rodrigues, eleita nos primeiros dias de dezembro do ano passado.
A diretoria tem a seguinte constituição:
Presidente: Francisco Pereira Rodrigues
Vice-presidente: José Francelino de Araújo
Secretário geral: Avelino Alexandre Collet
Secretário: Heino Villy Kunde
Tesoureiro: Zélia Helena Dandena Sampaio
Diretor de patrimônio: Marília Beatriz Cibils Becker
Conselho Fiscal: Luiz Alberto Cibils, Altino Berthier Brasil e Amir Feijó Pereira.
A entidade realizará durante o ano reuniões administrativas semanalmente e desdobrará um largo programa de palestras sobre os mais importantes assuntos da área cultural abertas ao público, que será anunciado oportunamente.
O centenário de nascimento do escritor Cyro Martins, o centenário do falecimento de Machado de Assis, o Dia Internacional do Livro, entre outros temas estarão sendo apreciados pela academia.






O TERRORISMO DAS FARC E AS PALAVRAS
Walter Galvani, em 05/03/2008

Alberto Dines, mestre de tantas gerações de jornalistas, fala hoje sobre o sentido das palavras, a propósito das FARC, Colômbia, Venezuela, Equador, França, etc.etc.etc.

O terrorismo e o sentido das palavras

Por Alberto Dines em 29/2/2008

"A imprensa brasileira capitulou às exigências das Forças Armadas Revolucionários da Colômbia (Farc) e continua designando como "guerrilheiros" os terroristas que seqüestram inocentes e fazem chantagem com vidas humanas.

Os dramáticos relatos dos quatro parlamentares colombianos liberados pelas Farc na quarta-feira (27/2) sobre as condições de vida dos demais reféns na selva revelam barbaridades só comparáveis às cometidas pelos nazi-fascistas durante a Segunda Guerra Mundial. Mesmo assim, nossos editores não se comovem nem se indignam e insistem em classificar aqueles que perpetram tais as barbaridades como "guerrilheiros".

Conceitos enganosos

A guerrilha não é moralmente condenável, não é crime, é uma forma de guerra não-convencional. Os maquis franceses eram guerrilheiros, assim também os partisans da Europa oriental e os partigiani italianos. Seus alvos eram as forças inimigas, não atacavam nem seqüestravam civis.

As Farc há muito abandonaram a guerrilha, já não conseguem travar combates, fazem apenas terrorismo – e terrorismo, por definição, é o emprego sistemático da violência contra inocentes para fins políticos. A libertação dos reféns na quarta-feira não foi ato humanitário, mas chantagem.

Jornalistas não podem oferecer os seus leitores conceitos enganosos. Jornalistas não deveriam seqüestrar o sentido das palavras".

Vamos refletir, gente! Não é um principiante, não é um calouro, não é um "bixo" que está falando!





ESPANHA, ESPANHA
Walter Galvani, em 08/03/2008

O problema que se torna agudo, da imigração para os países da União Européia, coloca em destaque o problema das relações com o Terceiro (e o Quarto...) Mundo, usado nos séculos passados como estuário dos problemas europeus... A crônica a seguir está sendo publicada hoje no jornal "A Razão" de Santa Maria:

A LEI DO LEÃO

Walter Galvani

Os países da América, todos, foram construídos em cima de um processo de imigração contínuo de excedentes europeus, mais ou menos acentuados a partir dos séculos XVI e XVII, intensificados nesta ou naquela região, nos séculos subseqüentes, aliviando-se com isto a tensão da Europa, ora no sul, ora no centro, ora no leste. Todos conhecem a história da imigração alemã, italiana, espanhola, portuguesa, croata, grega, polonesa e até de etnias de menor expressão numérica como tcheca, romena, húngara, suíça ou eslovaca. No Brasil, tentativas de colonização por franceses, ingleses ou de outras origens foram rejeitadas pelos que já estavam aqui, ajudados pelos silvícolas ou escravos, trazidos por grandes traficantes ou seus próprios compatriotas do Benin, da Serra Leoa, de Uganda, Angola ou Moçambique, Guiné ou Argélia. Foi assim que se constituíram as colônias européias na América, bem como em países hoje independentes e importantes de outros continentes.

Pela necessidade de fornecer pleno emprego para os seus próprios cidadãos, os países europeus, modernamente concentrados na União Européia, assinaram tratados que permitem o livre trânsito entre si e que aqueles que chegam do “Terceiro” e do “Quarto” Mundo, leia-se Brasil, África e arredores... – ao ingressar na Espanha, por exemplo, possam deslocar-se para outros assinantes do Tratado de Schengen, ou seja para Alemanha, Áustria, Bélgica, Dinamarca, França, Finlândia, Grécia, Holanda, Itália, Islândia, Luxemburgo, Noruega, Portugal, Suíça, Suécia, Malta, República Tcheca, Estônia, Letônia, Lituânia, Polônia, Hungria, Eslováquia e Eslovênia. Mas, só podem “entrar” os que tenham passaporte válido por mínimo de 6 meses, comprovante de reserva de hotel ou carta de quem vai hospedá-lo se responsabilizando, confirmação de passagens do itinerário, bilhete de volta, no mínimo 57,06 euros por dia de permanência e um mínimo total de 513,54 euros, seguro médico internacional com garantia de repatriação em caso de acidente ou doença grave com cobertura de 30 mil euros, convite para eventuais feiras, reuniões, convenções, nome da empresa que o convida, duração da estadia e objetivos, ou matrícula em cursos e ainda não indicar perigo à saúde pública, à ordem pública ou à segurança nacional ou às relações internacionais e não haver esgotado o período de permanência de três meses em três meses, a contar da primeira data de entrada.

Consegui ler até aqui? Então, boa viagem... se puder!




IMIGRAÇÃO, FATOR ELEITOREIRO NA ESPANHA
Walter Galvani, em 09/03/2008

Minha crônica de hoje no jornal ABC DOMINGO, órgão do Grupo Editorial Sinos:

MOCHILAS E XENOFOBIA
Walter Galvani


Há duas ou três correntes de pensamento que se entrecruzam pelo mundo moderno, montadas nos interesses políticos e econômicos e impulsionadas pelos ventos de liberdade. Fala-se nos males da globalização, trombeteia-se sobre os benefícios da mundialização, as palavras se atropelam e esbarram nos diferentes conceitos que os homens lhes emprestam, traídas pela tradução ou pervertidas pelos interesses escusos da politização. Ou da própria política econômica. Dia desses, Alberto Dines, um dos papas da comunicação no Brasil, o homem que revolucionou a imprensa nos anos sessenta com a transformação implantada no Jornal do Brasil do Rio de Janeiro, que repercutiu (e continua) pelo país inteiro, levantava a questão das FARC, perguntando sobre a eficiência das palavras. Afinal, “terroristas ou insurgentes”? Para ele, quem seqüestra e faz reféns é terrorista e não simpático guerrilheiro lutando por sua causa política. “Os terroristas que seqüestram inocentes e fazem chantagem com vidas humanas” precisam ser tratados pelo que de fato o são.

Os brasileiros precisam levar no bolso 57 euros por dia, um mínimo de quinhentos e alguns, nunca terem lançado mão do esquema de ficar três meses num pais, sair, ganhar outro visto de entrada e ficar outros três meses, seguro saúde, seguro de vida em valor de no mínimo 30 mil euros, para entrarem na Espanha. Quem poderá viajar para lá então, sendo estudante ou tendo algum amigo que o convide? Onde ficou o velho espírito de aventura? Mochilas, nunca mais...

Isso tudo se faz em nome de que? Do medo de que os brasileiros desçam num aeroporto espanhol e tentem ficar como clandestinos no país.

É assim que se estimula o turismo? É assim que se pratica a democracia da convivência, sem xenofobismos nem ultra-nacionalismos?

“Palavras, palavras, palavras...” – diria Polônio e diria Hamlet, ambos falando sobre o sentido diverso que elas podem receber. É bom não esquecer que morreram os dois antes do fim da peça...

Governos e “gobiernos”, sejam da sofisticada Europa ou da subdesenvolvida América Latina, precisam fazer uma “oficina” de leitura e escrita criativa...








TUDO O QUE É SÓLIDO SE DESMANCHA NO AR...
Walter Galvani, em 12/03/2008

Pobre dólar... Será mesmo?
Ou pobres,nós?


ALTA VOLATILIDADE

Walter Galvani

Aprendemos que a volatilidade é uma condição de substâncias que se desfazem ao contato com a atmosfera, liquefazendo-se ou evaporando-se. Mais ou menos como o que estão dizendo agora a respeito do dólar. Cuidado! Isso é um aviso de utilidade pública: o governo americano está injetando 200 bilhões para impedir a morte ou o suicídio coletivo de dezenas de empresas do seu país. Por outro lado, o governo Bush, que acabou de vetar a emenda que proibia a tortura pelo sistema de “asfixia” dos investigados (expliquemos: mergulha-se o suspeito na água, informando-lhe que será “afogado” em segundos, se não confessar, e o sujeito confessa tudo, inclusive que incendiou Roma e destruiu Tróia), pois este mesmo governo pode pleitear agora, para ganhar para McCain a próxima eleição, a destinação de mais recursos para as guerras. Com o aumento destas verbas, mais empresas do país estarão fugindo da recessão interna. E finalmente, haverá felicidade no rosto dos americanos. Talvez alguns assassinatos em colégios e universidades para aliviar as tensões e muitos filmes idiotas exportados para o mundo todo, onde se treinam, desde manhã cedo (e do alvorecer da infância) mais e mais idiotas para apreciar o que aquelas mentes tramam na sua produção doentia. Esta é a súmula do que está ocorrendo. E mais e mais importamos procedimentos danosos.
Voltando à volatilidade, falemos das notícias que se tornam por seu turno voláteis, desfazendo-se ao menor contato com o tempo. Destroem-se, atropeladas que são por novas notícias que trazem o veneno químico da destruição. Algo assim. Nossa economia, avisam-nos, cresceu 5,4 por cento nos últimos doze meses, o Produto Interno Bruto chegou a 2,6 trilhões de dólares. Para os leigos, difícil de calcular porque é preciso incluir no cálculo a inflação, pouco mais de 4% no mesmo período e a inflação sobre o dólar, este mesmo que ameaça liquefazer-se. Enquanto isso, em uma semana, devolvemos 30 europeus que vinham para cá “fazer a América” em troca dos brasileiros que haviam tentado desembarcar na Espanha para “fazer a Europa”. Tanto de lá para cá, quanto daqui para lá, havia gente que levava todos os seus pertences numa mochila. Esqueceram da troca de imigrantes, a mesma que fez Canoas, por exemplo.





CANOAS PRECISA FALAR MAIS ALTO
Walter Galvani, em 13/03/2008

Crônica publicada hoje no jornal Diário de Canoas

FALTOU DINHEIRO

Walter Galvani

Ouve-se falar em obras atrasadas, em atraso de cronogramas, o que naturalmente é o mesmo em linguagem mais rebuscada, em remoção de mil famílias, o que significa o problema social oculto pelos desejos do governo e as exigências da economia (como se sabe o dinheiro “bom” expulsa o “ruim”), em volatilidade do dólar e em alta moderada da inflação, enfim, um “puzzle” daqueles gigantes, quando é preciso armar um quadro com 500 peças. E esta é a cabeça que o leitor/ouvinte/telespectador precisa ter todos os dias para entender o mundo onde desperta.

Quem sonha a noite inteira com desastres, inundações, tempestades na vida pública e na particular, acorda ou melhor, desembarca no dia com a pretensa ilusão de que os pesadelos passaram.

A nossa canoa (“canoas” aliás...) navega num mar de ameaças que vem desde o Tribunal de Contas até à consciência de alguns, a situação política e uma eleição que se desenha no horizonte e nela passamos a noite imersos, preocupados com a água que sobe como nos tempos de 1942. Aliás, repetidos por inundações semelhantes, mas nenhuma igual aquela que trouxe a água do rio dos Sinos até à rua Brasil. Sabem onde fica? Pois é, ali, depois da “lomba da igreja”, uma quadra, duas quadras, na antiga fábrica de vidros, perto da perdida sede do Clube Comercial. Sessenta e seis anos atrás. Muito numa história particular, mas pouco numa história geral.

De lá para cá chegou o trem metropolitano, chegaram os imigrantes em penca, vieram russos, poloneses, romenos, turcos, libaneses, iraquianos, para dar continuidade ao trabalho que já desenvolviam aqui portugueses, italianos e alemães.

A cada ano fomos perdendo gente e qualidade de vida. O velho Medeiros, o Dr. Vitor Ludwig, Sezefredo Vieira, o Hugo Lagranha, o velho João Palma da Silva, ganhamos de presente alguns alienígenas, desvios de verba, furtos de dinheiro, incêndios, seqüestros, algum colombiano ligado às Farcs (aliás o Comando Militar da Amazônia informa que por lá eles andam...) e muita “fumaça” nos locais e corredores mais incríveis.

Precisamos mais atenção do “governo central”, mais voz no Congresso, mais atuação na Assembléia. Mais rodovias, mais ação. Espernear não resolve, claro, mas ajuda!




DIA NACIONAL DA POESIA
Walter Galvani, em 14/03/2008

Castro Alves, Mário Quintana, Antonio Canabarro Trois Filho, Drummond, longa vida a todos.
Hoje é o Dia Nacional da Poesia.


DIA NACIONAL DA POESIA

Walter Galvani

O poeta tem por obrigação ser um ser, assim, transcendental, desligado dos fatos do dia a dia ou, como todo mundo, tem que comprar pão e leite, pagar suas contas, sobreviver?
Pois é, nos dias que correm, é difícil ser Poeta, no velho sentido do termo andar desligado, zanzar pelas ruas, perder-se nos desvãos da vida... Mas, quem disse que é preciso ser assim para ser poeta?
Alguns dos melhores poetas que conheço também “correm atrás da máquina”, buscam o seu sustento, tem família, mantém o seu emprego e seus compromissos com a coletividade.
Mário Quintana? Quem disse que era um alienado? Convivi de 54 a 84 com ele na redação do Correio do Povo e da Folha da Tarde em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. Além das suas exaustivas tarefas criativas, desenvolvia, sim, a atividade de tradutor de espanhol e inglês, do noticiário internacional que, na época chegava à redação nestas duas línguas, enviado pelas agências noticiosas Associated Press, France Presse e outras menos votadas.
Castro Alves, o grande homenageado de hoje porque a data foi escolhida em razão do seu aniversário, nascido que foi em 14 de março de 1871, poeta extraordinário, do inesquecível “Espumas Flutuantes”, foi como ninguém, extremamente ligado à comunidade, às batalhas pela abolição da escravatura no Brasil.
Leio poesia todos os dias.
Dos velhos autores consagrados aos modernos e aos moderníssimos contemporâneos. Tenho, graças a Deus, inúmeros amigos poetas.
Saúde a todos!




EMIGRAÇÃO X IMIGRAÇÃO
Walter Galvani, em 15/03/2008

Uma história para analisar de cabeça fria.
Crônica publicada hoje na edição do jornal "A Razão", de Santa Maria


ALTA VOLATILIDADE

Walter Galvani

Aprendemos que a volatilidade é uma condição de substâncias que se desfazem ao contato com a atmosfera, liquefazendo-se ou evaporando-se. Mais ou menos como o que estão dizendo agora a respeito do dólar. Cuidado! Isso é um aviso de utilidade pública: o governo americano está injetando 200 bilhões para impedir a morte ou o suicídio coletivo de dezenas de empresas do seu país. Por outro lado, o governo Bush, que acabou de vetar a emenda que proibia a tortura pelo sistema de “asfixia” dos investigados (expliquemos: mergulha-se o suspeito na água, informando-lhe que será “afogado” em segundos, se não confessar, e o sujeito confessa tudo, inclusive que incendiou Roma e destruiu Tróia), pois este mesmo governo pode pleitear agora, para ganhar para McCain a próxima eleição, a destinação de mais recursos para as guerras. Com o aumento destas verbas, mais empresas do país estarão fugindo da recessão interna. E finalmente, haverá felicidade no rosto dos americanos. Talvez alguns assassinatos em colégios e universidades para aliviar as tensões e muitos filmes idiotas exportados para o mundo todo, onde se treinam, desde manhã cedo (e do alvorecer da infância) mais e mais idiotas para apreciar o que aquelas mentes tramam na sua produção doentia. Esta é a súmula do que está ocorrendo. E mais e mais importamos procedimentos danosos.
Voltando à volatilidade, falemos das notícias que se tornam por seu turno voláteis, desfazendo-se ao menor contato com o tempo. Destroem-se, atropeladas que são por novas notícias que trazem o veneno químico da destruição. Algo assim. Nossa economia, avisam-nos, cresceu 5,4 por cento nos últimos doze meses, o Produto Interno Bruto chegou a 2,6 trilhões de dólares. Para os leigos, difícil de calcular porque é preciso incluir no cálculo a inflação, pouco mais de 4% no mesmo período e a inflação sobre o dólar, este mesmo que ameaça liquefazer-se. Enquanto isso, em uma semana, devolvemos 30 europeus que vinham para cá “fazer a América” em troca dos brasileiros que haviam tentado desembarcar na Espanha para “fazer a Europa”. Tanto de lá para cá, quanto daqui para lá, havia gente que levava todos os seus pertences numa mochila. Esqueceram da troca de imigrantes, a mesma que fez Santa Maria, por exemplo.





O ÚLTIMO DIA DE JUYLIO CESAR SOBRE A TERRA
Walter Galvani, em 15/03/2008

Há 2052 anos

TU QUOQUE, BRUTUS?

Walter Galvani

Até quem não sabe latim, quem menosprezou o estudo da nossa “língua-mãe” achando que ela seria dispensável, no futuro, mesmo quem passou voando pelos bancos ginasiais (quando se estudava latim da primeira à quarta série), mesmo os se deixaram dominar pela língua inglesa (digo, americana...) que predomina hoje pelos caminhos do mundo embora “mastigada” num dialeto de cow-boys, detetives e “monstros” de animação cinematográfica ou televisiva, conhece o sentido desta frase que titula esta crônica:: “Tu quoque, Brutus?”
Ela se completaria com a explicação “Filii mihi”, “meu filho”, segundo a maioria Brutus ou Bruto era apenas um “filho adotivo” ou quase isso do grande imperador Júlio César, o homem que alargou as fronteiras do Império Romano até o Reno e até à Inglaterra, responsável, portanto, pela “europeização” da Itália e da língua latina, pela nossa cultura que se seguiu ao grande momento clássico que nascera na Grécia.
Somos todos filhos de Roma, de César, sobrinhos de Cícero, descendentes de Rômulo e Remo, nós ocidentais, quero dizer. Nós, caucasianos.
O dia 15 de março assinala os inesquecíveis “Idos de Março” do calendário romano e foi nesse dia, há 2052 anos que os senadores, representando em sua maioria o pensamento e o poder dos patrícios romanos, se juntaram numa conspiração e mataram César;
Esperaram-no na entrada do Senado. Ele subiu as escadarias, encontrou um arúspice (adivinho) que lhe aconselhou a não ir ao recinto do senado. Mas, César foi. Enfrentou seus adversários políticos, transformados em inimigos porque o povo queria consagrá-lo como ditador e foi morto.
Lutou bravamente até que viu entre os conspiradores seu filho adotivo, Brutus, e ao vê-lo, exclamou as palavras célebres “Tu quoque, Brutus?”
Se até o filho o queria matar, nada mais tinha a fazer.
Quantos já se defrontaram com esta situação na vida?
Mesmo que figuradamente, ela está presente na vida de muitos e o exemplo de dignidade de Julio César completa hoje 2052 anos.




O ÚLTIMO DIA DE JUYLIO CESAR SOBRE A TERRA
Walter Galvani, em 15/03/2008

Há 2052 anos

TU QUOQUE, BRUTUS?

Walter Galvani

Até quem não sabe latim, quem menosprezou o estudo da nossa “língua-mãe” achando que ela seria dispensável, no futuro, mesmo quem passou voando pelos bancos ginasiais (quando se estudava latim da primeira à quarta série), mesmo os se deixaram dominar pela língua inglesa (digo, americana...) que predomina hoje pelos caminhos do mundo embora “mastigada” num dialeto de cow-boys, detetives e “monstros” de animação cinematográfica ou televisiva, conhece o sentido desta frase que titula esta crônica:: “Tu quoque, Brutus?”
Ela se completaria com a explicação “Filii mihi”, “meu filho”, segundo a maioria Brutus ou Bruto era apenas um “filho adotivo” ou quase isso do grande imperador Júlio César, o homem que alargou as fronteiras do Império Romano até o Reno e até à Inglaterra, responsável, portanto, pela “europeização” da Itália e da língua latina, pela nossa cultura que se seguiu ao grande momento clássico que nascera na Grécia.
Somos todos filhos de Roma, de César, sobrinhos de Cícero, descendentes de Rômulo e Remo, nós ocidentais, quero dizer. Nós, caucasianos.
O dia 15 de março assinala os inesquecíveis “Idos de Março” do calendário romano e foi nesse dia, há 2052 anos que os senadores, representando em sua maioria o pensamento e o poder dos patrícios romanos, se juntaram numa conspiração e mataram César;
Esperaram-no na entrada do Senado. Ele subiu as escadarias, encontrou um arúspice (adivinho) que lhe aconselhou a não ir ao recinto do senado. Mas, César foi. Enfrentou seus adversários políticos, transformados em inimigos porque o povo queria consagrá-lo como ditador e foi morto.
Lutou bravamente até que viu entre os conspiradores seu filho adotivo, Brutus, e ao vê-lo, exclamou as palavras célebres “Tu quoque, Brutus?”
Se até o filho o queria matar, nada mais tinha a fazer.
Quantos já se defrontaram com esta situação na vida?
Mesmo que figuradamente, ela está presente na vida de muitos e o exemplo de dignidade de Julio César completa hoje 2052 anos.




O SONHO DE UM MUNDO SEM FRONTEIRAS...
Walter Galvani, em 16/03/2008

Utopia? Para breve ou para nunca?
Crônica publicada hoje no jornal
ABC DOMINGO, do Grupo Editorial Sinos, que circula em toda a região metropolitana de Porto Alegre, com sede em Novo Hamburgo


AH, AS FRONTEIRAS...

Walter Galvani

Condoleeza Rice está numa viagem “de boa vontade” pelos países da América do Sul, num dos últimos arrancos diplomáticos do governo Bush, explicando o pensamento do seu país a respeito de “fronteiras”. Trata-se de uma política sem dúvida “sui generis” e muitos não saberiam dizer se é “adiantada” para o que se vive, ou, ao contrário, obsoleta. O certo é que ela defende, em nome de George Bush, que as fronteiras não devem ser interpretadas como irremovíveis ou impenetráveis e que é preciso aceitar esta flexibilidade para objetivos modernos. Entre esses se inclui, segundo ela, o combate ao narco-tráfico. Os que defendem uma sagrada inviolabilidade das fronteiras nacionais, neste momento que atravessamos, naturalmente recusam tais posicionamentos.

A “poderosa” secretária de estado dos Estados Unidos sabe o que diz. Entenda-se, por trás desta declaração, que quem pode pode, quem não pode se sacode, como diriam nossos antepassados.

Os Estados Unidos vão continuar “ajudando” a Colômbia na guerra contra as Farcs, as milícias continuarão a ser consideradas por eles como “terroristas” e não com a simpatia que reivindica o presidente Chavez, da Venezuela.

O mundo me parece cada vez mais distante da utopia que um dia terá de chegar (mas, quando meu Deus?) – de que todas as fronteiras serão abolidas e todos seremos irmãos, com igual acesso às riquezas materiais, acima e fora das linhas artificiais criadas pelo próprio homem para proteger seus interesses.

Vamos admitir que os brasileiros (os “brasucas” como são conhecidos em diversos pontos da Europa e dos Estados Unidos) dão sua valiosa contribuição para tal abolição. Agora mesmo ficou-se sabendo que há um pequeno povoado da Irlanda, situado na intersecção de duas estradas nacionais no condado de Galway, chamado Gort, onde um terço dos habitantes são brasileiros. É um terço sobre 2.756. A maioria é de Divinópolis, Minas Gerais e são especialistas em desossa de animais. Geraldo Silveira (deve ser meu parente distante) desempregado, está sentado permanentemente diante de um dos frigoríficos, onde atuam nossos compatriotas e já foi apelidado de “pedra”, porque não sai dali, esperando o chamado para trabalhar.






QUEREMOS IGUALDADE, MAJESTADE!
Walter Galvani, em 20/03/2008

Queremos o mesmo tratamento na entrada na Espanha que daremos aqui aos espanhóis.
Mas, queremos normas, claras.


NORMAS, QUEREMOS NORMAS

Walter Galvani


O ministro interino dos Negócios Estrangeiros da Espanha, que, aliás, está com o cargo a perigo, porque o novo governo do reeleito Zapatero assume segunda-feira, disse que é possível, sim, “que tenha havido algum excesso de policiais espanhóis no aeroporto de Barajas e que algum tenha cometido erros.” Também acho, é o que todos sabíamos, só quem não o sabia era o governo da Espanha. Bastou o Brasil endurecer também, para mostrar que isso aqui não é “a casa da mãe Joana” e já os orgulhosos e sempre inflexíveis espanhóis compreenderam que não estamos mais no século XIX e começaram a reconhecer o seu engano.
Um jornalista, amigo meu, que mora na Europa, diz que só há uma forma de tratar os espanhóis: com a mesma altivez que eles costumam tratar os demais, subdesenvolvidos ou não.
Admiramos recentemente o gesto do rei Juan Carlos que foi capaz de mandar Chavez, o presidente venezuelano, “calar-se”. Foi muito incisivo, foi muito procedente, mas muito pouco cortês. “Por que no te callas?” – perguntou ele, com os aplausos de todos os que acompanhavam a incontinência verbal do presidente da Venezuela.
Mas, a matriz do comportamento do rei, é a mesma dos policiais espanhóis que se “lavaram” no aeroporto de Barajas, vetando a entrada de brasileiros. Sabe-se muito bem que mulheres jovens, em idade fértil, sempre correm risco na entrada em países europeus e não só na Espanha. Mas, basta seguir as normas. É o que queremos. Que se estabeleçam normas e se por acaso os regulamentos estiverem defasados, que sejam atualizados. Mas, que se acerte, por via diplomática, a vigência das mesmas leis na entrada no Brasil. E então, quem aparecer aqui sem os documentos exigíveis, sem dinheiro ou carta de crédito, sem reservas de hotéis ou garantia de hospedagem, sem licença de trabalho ou passagem de volta, não entra. Um brasileiro, na mesma situação, não entrará lá. Mas, não será necessário barrar o passageiro no desembarque. Basta impedir a viagem, na origem.
E mulher jovem em idade fértil, pode até dar a luz na Espanha... Desde que cumpra todos os requisitos legais.




ESTÁ COMEÇANDO O ANO NOVO. MESMO.
Walter Galvani, em 22/03/2008

Dia 20, manda-me dizer a amiga e amada conhecedora da astrologia, Amanda Costa, começou o Ano Novo Solar.
Esta crônica foi publicada no jornal DIÁRIO POPULAR, de Pelotas, maior cidade da Metade Sul do Rio Grande.


ANO NOVO SOLAR



Walter Galvani



Feliz Ano Novo! Não se surpreendam. Começou, no dia 20 de março, esta semana portanto, junto com o Outono aqui no sul, o novo ano solar. A Terra está de aniversário, o sistema solar comemora o ingresso em nova etapa, o nosso planeta inicia mais uma circunvolução ao redor da grande estrela que nos transmite a luz e o calor e propicía a existência da vida vegetal e animal aqui.

Talvez seja por isso que só agora, à esta altura do hemisfério sul, próximo ao paralelo 30, se comece a pensar em dar início à vida, como todos os anos dentro do calendário que Júlio César instituiu há mais de 2.000 e o papa Gregório VII alterou para grande surpresa dos povos do mundo. A Inglaterra, por exemplo, “correu atrás da máquina” um bom tempo, não acreditando na mudança que, ao final, teve de engolir.

Os índios, os silvícolas brasileiros, também não conheciam o calendário europeu e tiveram que se adaptar para sobreviverem depois que foram “descobertos” em 1500... Hoje já temos até índia estudando medicina! quero dizer, medicina ocidental, sem plantas, a não ser aquelas que já foram sintetizadas e transformadas em produtos químicos. Pois eles, índios, também hibernavam na Serra e veraneavam na beira do Atlântico, do Mampituba até o Chuy.

Estamos apenas repetindo o desempenho dos guarani, charruas, bugres e minuanos. E assim, depois da Páscoa dos cristãos, teremos o novo ano. Portanto, seguir o que nos diz o velho planeta Terra é apenas um caminho natural e adequado historicamente. Temos apenas três dias do novo ano solar, nem sabemos o que ele nos trará. Provavelmente muitas tentativas dos humanos em destruir o equilíbrio terrestre, mudar o clima, abater as aves e perseguir os outros animais, pescar os peixes e matar os bois. Não por necessidade, mas por cobiça.

Você, leitor amigo, já parou para pensar?

Teve tempo para isso?

Ou rolou nesta roda viva, nesta armadilha montada pelos próprios humanos?

Com o início do Outono aqui no Sul, começou o Ano Novo. Contado em milhões, provavelmente 75 milhões de anos e não apenas os 2008 da Era Cristã ou os sete mil e pouco registrados pela História.








BEM, AGORA O ANO TEM QUE COMEÇAR...
Walter Galvani, em 23/03/2008

Não há mais desculpas. Passou o Carnaval, passaram as férias de verão, hoje é domingo de Páscoa,não dá mais para ficar esperando... O ano de 2008, no Rio Grande do Sul começa amanhã de manhã.
Vai bombar, como dizem os jovens, na Internet e fora dela.
Crônica publicada hoje no jornal ABC DOMINGO, do Grupo Editorial Sinos:


O ANO VAI COMEÇAR...

Walter Galvani

Março já vai quase ao final, mas, para o Rio Grande, o ano vai apenas começar. É verdade que melhorou um pouco, mas com a Páscoa tão antecipada, com o verão oficial terminando na semana passada, é só agora, com o encantador outono do hemisfério sul, mais precisamente aqui pelas alturas do paralelo 30, é que vamos entrar mesmo nas atividades normais de novo ano. Uma equipe deslocada para o sul, vinda de São Paulo, Minas e Rio, ficou literalmente assombrada com a quantidade de adiamentos, decepções, desencontros e frustrações que caracterizaram este período.Tantas vezes ouviram “depois da Páscoa conversaremos”, que se convenceram que a cultura regional aponta mesmo neste sentido.

Aproveito para observar que até os índios procediam assim. É suficiente verificar a cultura de sambaquis no litoral, para ver nos meses quentes (pensando em termos do nosso calendário) os charruas, bugres, minuanos, guaranis se deslocavam para onde estão hoje situadas nossas estações de veraneio e por ali ficavam, junto às lagoas ou na foz dos rios que acabaram conhecidos como Mampituba ou Tramandai, ou nas proximidades das dunas e do mar. E ali permaneciam até que chegava o outono, com seus ventos agradáveis vindos do sul e do sudoeste.

Continuamos, portanto, praticando a mesma operação, em busca da comodidade, da calma e da tranqüilidade. E então, a partir de amanhã, segunda-feira, vão rugir os motores e estaremos todos de volta à esta selva de pedra em que se transformou o Rio Grande.

E como os políticos e administradores agem da mesma forma que todos os demais habitantes, agora é que se vai ouvir falar em novas estradas, em necessidade de ampliar os acessos às cidades e até melhorar o que existe. Ainda na semana passada, na reta da Páscoa, viam-se obras, por exemplo nas ruas de Porto Alegre, criando obstáculos enormes ao trânsito e que se espera que estejam concluídas para não coincidir com a volta ao trabalho pleno e retomada de todas as atividades.

No meio disso tivemos a oscilação das bolsas, os problemas da economia americana, a tomada de providências para as eleições (aqui e lá), a continuação da guerra do Iraque, que fez cinco anos, a briga com a Espanha e até as férias, o carnaval, o retorno às aulas.




TROFÉU IMORTAIS DA CULTURA
Walter Galvani, em 25/03/2008

Hoje é o dia de vestir fraque e cartola e ir receber este troféu...

TROFÉU IMORTAIS
O troféu IMORTAIS é um prêmio distinção instituído pela- Casa dos Açores do Estado do Rio Grande do Sul- CAERGS através do Festival " O Rio Grande Canta os Açores", para homenagear pessoas que se destacam na área cultural.Visa reconhecer e tornar de conhecimento público o que essas pessoas fizeram e fazem , em vida,pela cultura.
O Festival o Rio Grande Canta os Açores, neste ano fará a entrega do prêmio "IMORTAIS", em dia especial , homenageando os intérpretes masculino e feminino, compositor de festivais e parceiros culturais.A homenagem será no dia 25 de Março, 20h, esta terça-feira, no Galpão Jayme Caetano Braun, Centro Administrativo do Estado, em Porto Alegre.
Na primeira edição foram homenageados: Antonio Augusto Fagundes, João Carlos
Paixão Cortes,Luis Antonio de Assis Brasil e na segunda edição os "IMORTAIS" foram: Airton Pimentel, Lilian Argentina Braga Marques, Vera Lucia Maciel Barroso e o imortal de festivais de música, Victor Hugo.
Na EDIÇÃO presente estão sendo agraciados como "IMORTAIS" o jornalista Walter Galvani e Manoel dos Santos Martins "Martins Livreiro",como intérprete de Festivais os homenageados são: Cléia Gomes e Neto Fagundes e o compositor Vaine Darde.
Os agraciados como parceiros culturais são: AMBEV,LATINA DISTRIBUIDORA,SULGÁS E TVE.

SERVIÇO
O QUE:TROFÉU IMORTAL
QUANDO:25 DE MARÇO, ÁS 20H
ONDE:GALPÃO JAYME CAETANO BRAUN NO CENTRO ADMINISTRATIVO,RUA BORGES DE MEDEIROS,1501,CENTRO.
PROMOÇÃO:CASA DOS AÇORES DO RIO GRANDE DO SUL-CAERGS
INFORMAÇÕES:51-93284330 COM IVO LADISLAU







EM BUSCA DAS PEQUENAS E VALIOSAS NOTÍCIAS
Walter Galvani, em 27/03/2008

Crônica publicada hoje no Diário de Canoas, minha terra natal, município a 14 quilômetros do centro de Porto Alegre (capital que, aliás, ontem comemorou seus 236 anos)

O PRAZER DE LER (JORNAL)

Walter Galvani

Assino dois jornais e leio mais uns dois, em média, diariamente. Freqüento as páginas “on line” de várias instituições confiáveis, como a BBC de Londres, “El País” de Madri ou a “Folha de São Paulo”, o primeiro jornal brasileiro a desenvolver noticiário na Internet. Hoje, praticamente todos os grandes veículos, e os leitores do “Diário de Canoas” sabem muito bem, desenvolvem páginas na Internet. Hoje no “Virtual Paper”, assim como no futuro, com outros suportes ou técnicas. Já nos acenam com o celular “3G”, que significa “terceira geração” deste útil penduricalho que carregamos na cintura. E que já virou vício. Tudo isso é para dizer que ainda tenho o maior prazer em ler jornal.

Cumpro diariamente esta devoção com grande alegria e procuro, entre as páginas a notícia positiva como quem busca uma agulha num palheiro (leiam bem esta metáfora e imaginem a dificuldade que ela retrata) ou o ouro puro no fundo de um regato. Às vezes eu a encontro numa crônica ou num editorial, num comentário bem humorado a respeito da dureza da vida ou na interpretação de fatos por vezes difíceis de compreender que escorregam pelas páginas materiais ou virtuais dos grandes jornais.

Mas, o prazer de ler jornal persiste. Ainda esta semana, ao me levantar mais cedo do que todo o resto da família para buscar o jornal na caixa do correio, me dei conta disso, como me dou conta agora, quando estou escrevendo para o “Diário de Canoas” que concretizou um ideal (um jornal diário em minha terra natal) pelo qual lutei desde 1954.

E é tão simples encontrar este prazer! Uma noticiazinha de dez linhas faz a minha alegria, Mas quero cumprimentar o Diário, que foi o único a contar, (ah, com foto!, valeu DC!), que o Francisco Trois, mestre internacional de xadrez e presidente da Fundação Cultural Canoense, está na Bolívia defendendo o país numa grande competição. Como diria Fernando Pessoa, que cito para não perder o costume, “vale a pena, quando a alma não é pequena”. Tudo.




TIRANDO O CAVALINHO DA CHUVA
Walter Galvani, em 29/03/2008

Crônica publicada no jornal Diário Popular de Pelotas, maior cidade da Metade Sul do Rio Grande do Sul, sobre a política, o jogo das palavras e o senso comum:

TIRA O CAVALINHO DA CHUVA

Walter Galvani

O trânsito das palavras é empolgante, nunca é organizado como o dos veículos nas estradas, onde um acidente é sempre resultado de um desrespeito às leis, seja (quase sempre) por excesso de velocidade ou ultrapassagem onde é proibido e (raramente) por falha mecânica. Os conceitos emitidos pelas palavras e expressões idiomáticas refletem filosofia, ideologia e praxis da vida, são móveis, sujeitos às mudanças que se processam. Quando um dirigente de um país, como é o caso de Lula que preside a maior nação de falantes da língua portuguesa (183 milhões), se utiliza de expressão popular ou dá um sentido a um vocábulo, é preciso prestar muita atenção pois, acaba de ser colocado na oralidade e na escrita uma forma de ver a vida. Assim quando ele diz, dirigindo-se aos seus adversários políticos, que fará o seu sucessor e que, portanto “podem ir tirando o cavalinho da chuva”, ressuscita uma forma singela de dizer que eles podem abandonar seus intentos, pois será inútil tentar enfrentá-lo. A origem caipira de falar: quando o moço chegava para uma visita rápida, deixava o cavalo amarrado diante do portão. E então, alguém, desejando que sua presença se prolongasse, mandava que ele fosse amarrar o animal debaixo de uma árvore, protegido ou dentro de um galpão: “Pode ir tirando o seu cavalinho da chuva”.

A expressão evoluiu para este sentido negativo, imperativo de uma determinação do “dono da casa”, como Lula, que manda o recado aos seus opositores: “Podem ir tirando o cavalinho da chuva, porque farei o meu sucessor”.

Também serve este episódio para mostrar o quanto Lula está sintonizado com o povo. Será entendido de ponta à ponta do território. Só de escutar a expressão na televisão ou no rádio, ou vislumbrar de longe a manchete dos jornais populares, já o “eleitor” entenderá o recado.

Não se pode dizer o mesmo do que disseram de Dilma Roussef: para elogiá-la os políticos a classificaram como uma “mulher arretada, guerreira e comandante.” Comandante e guerreira tudo bem, mas no Rio Grande do Sul, mulher arretada é a que é capaz de facilmente excitar-se sexualmente. E em outros pontos do país, arretado é o que foi vendido e pode ser comprado de volta. Só na Bahia e no Nordeste é que arretado quer dizer bonito, gracioso. Bola fora, contra as regras de trânsito das palavras.










O CAVALINHO ESTÁ NA CHUVA
Walter Galvani, em 30/03/2008

Lula, Dilma Roussef, o "espírito" de Fernando Henrique em armas, tudo vai e volta na política brasileiro.
Vamos conversar sobre tudo isso e mais alguma coisa na crônica publicada neste domingo no ABC DOMINGO, veículo do Grupo Editorial Sinos.


CAVALINHO NA CHUVA

Walter Galvani

Estamos em plena campanha eleitoral, ninguém mais tem dúvidas e, todos os dias, há pronunciamentos fantásticos ou bombásticos, próprios e impróprios, espantando mesmo os que esperavam não se espantar com mais nada. Lula legalizou a expressão “tirando o cavalinho da chuva” e obrigando à uma pesquisa que nos leva à origem, digamos “caipira”, da expressão que conduz à uma transferência de significado: começou negativa e migrou para a acepção de hoje. Mas, “tirar o cavalinho da chuva” mantém o conselho (no caso ele dirigiu aos seus adversários políticos) para que desistam, pois, disse Lula, “eu vou eleger o meu sucessor”. O presidente brasileiro foi mais longe e criticou George Bush, dizendo, em sua linguagem tosca mas muito bem compreendida pelo povo brasileiro, “Ô Bush, é o seguinte meu filho: o Brasil está há 26 anos sem crescer. Agora que a gente está crescendo vocês vêm atrapalhar! Pô, resolve a tua crise!” E ironiza oferecendo “know how” para solucionar com o programa de socorro aos bancos.

A esperteza de Lula não está no que diz nem ao oferecer uma improvável ajuda ao governo americano, mas em “como” diz o que diz: lançando mão de antiga expressão, compreensível “de cara” para todo o povo brasileiro, de ponta à ponta do nosso território, que ao ouvir a frase no rádio e na tevê ou vendo-a na manchete dos jornais populares, apreende imediatamente o significado. Então, Lula está falando “urbi et orbe”, como se um Papa fosse... E tem mais: “falou e disse”, sem complicações, com o olho e o ouvido nas eleições, nas próximas e nas futuras, fazendo com que muita gente corra para aliar-se a ele, pois não duvidam de que ele “fará o seu sucessor”.

Insegurança, violência, emprego, dengue, tudo isso se resolve pelo caminho, no recado que ele deu, desde que não atrapalhem o desdobramento do seu governo, através de um sucessor que, por enquanto pelo menos, pode ser Dilma Roussef, desde que esta não “suba no salto alto”, mantenha-se a “moda das mulheres no poder” e não haja nenhum grande fato novo, como uma derrocada americana exportada para cá, como Lula não quer...Nem nós, é claro.




LER É MERGULHAR NO TEXTO
Walter Galvani, em 06/04/2008

Leia sobre a oficina de Leitura Pró- Ativa e Escrita Criativa que Walter Galvani vai apresentar ainda neste primeiro semestre.
Começará, como uma homenagem especial, em sua terra natal, Canoas, na Fundação Cultural:





LEITURA PRÓ-ATIVA
ESCRITA CRIATIVA


Esta será a denominação da nova oficina que o jornalista e escritor Walter Galvani estará ministrando este ano: “Leitura Pró-Ativa, Escrita Criativa”. Uma coisa é condicionante da outra. Só há uma possibilidade de começar a escrever de forma criativa e que possa trazer algum tipo de contribuição à literatura e à sociedade: é o resultado de intensas e constantes leituras. Mas, nunca a simples leitura epidérmica, como se olhando e movendo os lábios até, se for o caso, pudesse ser apreendida a essência do que está sendo transmitido. Não. “A leitura bem feita é uma coisa carnal”, afirma George Steiner, crítico literário do jornal “The New York Times” e da revista “The New Yorker”, nascido em Paris, de pais austríacos, e que viveu nos Estados Unidos e Inglaterra, professor de lingüística e de literatura comparada, hoje também professor na Universidade de Genebra.
O ensaísta e jornalista português Antônio Carlos Cortez pergunta, a partir das posições de Steiner: “Como podemos apreender o verdadeiro significado do corpo, da corporeidade da linguagem alicerçada na pele com que nos tocamos, nos rostos que entrecruzamos, senão através da carnalidade que todo o ato humano pressupõe?”
É sobre este tipo de leitura que Galvani quer trabalhar. Nestes tempos de tecnologia é preciso retroceder até convencer-se do ato sagrado da leitura, no âmago do silêncio e da introspecção.
O mesmo ensaísta Cortez coloca: “Não sei de nenhum aluno que, cometendo erros de sintaxe, desconhecendo história e geografia, menosprezando a literatura e os livros, aprenda a redigir um raciocínio coerente e coeso só porque possui, em sua casa ou na sua escola, um computador.”
Só com este tipo de leitura estaremos aptos a partir para a conquista de uma escrita criativa.
Leitura e muita leitura, não para livrar-se dos textos, nem para acabar depressa um volume. É voltando atrás, saboreando cada afirmação ou discordando dela, desafiando o que lê como um tradutor que enfrenta o imenso desafio da tradução. É assim que se lê. E é assim que se começa a escrever.
Sem esta compreensão, torna-se impossível o passo seguinte: a Escrita Criativa.
Ela é o próprio resultado da Leitura Pró-Ativa que precisa ser feita com a maior consciência e aceitação do tempo empregado, sem preocupações com a velocidade, as aparências da interpretação rápida e, muitas vezes, errônea.




LEITURA PRó-ATIVA ESCRITA CRIATIVA
Walter Galvani, em 07/04/2008

Na Fundação Cultural de Canoas, de 24 a 26 de abril
Inscrições no local
Ministrarei uma nova oficina, agora de Leitura Pró-Ativa e Escrita Criativa


Programa da Oficina

24/4/2008 - 19h às 22h 1 - MÓDULO A1:
Objetivos da leitura;
Tipos de leitura: rápida, dinâmica, carnal.

MÓDULO A2:
Exemplos levantados no contato com os alunos;
A interação.





25/4/2008 - 19h às 22h 2 - MÓDULO B1:
As conseqüências de cada escolha;
A memorização.

MÓDULO B2:
Resultados e exemplos no contato com os alunos





26/4/2008 - 15h às 18h 3 - MÓDULO C1:
A escrita;
Objetivos de cada aluno.

MÓDULO C2:
A escrita criativa;
A pesquisa bio-bibliográfica;
Resultados e exemplos decorrentes da oficina






BATALHÃO CONTRA A VIOLÊNCIA
Walter Galvani, em 11/04/2008

Estamos formando uma frente única contra a violência, a corrupção, as más notícias enfim.
Crônica publicada neste sábado, 12 de abril, nos jornais A Razão, de Santa Maria e Diário Popular, de Pelotas:


VIDA NOVA E FELIZ
O jornalista Ricardo Kotscho, que já foi, entre outras funções, porta-voz de um presidente da república, repórter, chefe de redação, escreveu um livro intitulado “Uma vida nova e feliz – sem secretária e sem crachá” – no qual defende, entre outras coisas esta opção que fez forçado, mas que, segundo ele, valeu a pena. Agora escreve para a Internet, colaborando com alguns sites e trata de escrever outro livro. Ele está defendendo a necessidade da Imprensa optar por outras pautas, esquecendo as “crises permanentes, violências, tragédias, escândalos”. Está difícil, não é Ricardo?

Em parte ele tem razão, pois as pessoas precisam encontrar nos jornais, nos noticiários de rádio e televisão, outras atrações. É lógico que uma notícia de assassinato ou um escândalo político, uma tragédia ou a violência, tudo isso chama a atenção das pessoas que acabam dedicando seu tempo a esmiuçar tais lamentáveis acontecimentos. Mas, é mais lamentável ainda que as pessoas estejam empregando seu tempo neste exercício de malignidade, quando podiam muito bem ouvir uma boa música ou assistir a um bom filme (que não tratasse também de violência...) É sim, a vida está difícil, comprimida entre o ódio e o rochedo, entre a impotência e a onipotência do mal.

Precisas, para uma vida nova e feliz, de leis mais rígidas. Precisamos que as autoridades (eleitas por nós...) mandem fazer uma varredura e tirem das ruas os menores, já que com os maiores não se pode fazer nada, se existirem crianças abandonadas que sejam recolhidas para asilos e instituições que delas tomem conta. Quando nos chocamos com a morte ou assassinato de uma criança da classe média, viramos os olhos para o mesmo crime que se comete diariamente contra outras pobres criaturas, estas da classe D e E.

Então, para dormir em paz, para ter “uma vida nova e feliz”, já temos a receita: basta estar em paz com a consciência e para isso, votar também é fundamental... Ou melhor: votar bem. Punir os que nos enganaram e tentar escolher certo desta vez. Eles são nossos representantes. E para isso os pagamos. E bem.




O MAIS ODIOSO DE TODOS OS CRIMES
Walter Galvani, em 13/04/2008

Crianças indefesas são vítimas inocentes de adultos covardes.
E há os pais que não se interessam pelo que pensam ou fazem ou aonde estão os filhos. E há pais (e mães) assassinos.
Crônica de hoje, domingo, dia 13 de abril, publicada no jornal ABC DOMINGO (o órgão dominical do Grupo Editorial Sinos), a seguir:


“ONDE ESTAVA VOCÊ, MAMÃE?”

Walter Galvani

Kate e Gerry, os pais da menina inglesa Madeleine, desaparecida na praia da Luz, no Algarve, Portugal, no ano passado e que pretendem agora se defender publicamente e promover o que fizeram e tem feito pelo resgate de sua filha, estão enfurecidos porque a polícia espanhola tornou público o que a sua correspondente portuguesa lhe transmitiu. E o que a polícia portuguesa tem em mãos é o conteúdo de uma ligação feita para o celular de Kate Mccan, a mãe, por Maggie, a menina. Disse ela: “Por que não veio ontem à noite, quando chorávamos?” – perguntava ela.

Esta pergunta há de martelar na cabeça dos pais e de todos os pais do mundo. Inclusive dos pais de Isabella, a menina jogada pela janela do edifício em São Paulo.

Como escreveria Ricardo Kotscho, autor de “Uma nova vida feliz – sem crachá e sem secretária”, que recomendo a todos os que ainda querem ter um pouco de tranqüilidade e, quem sabe, alguma dose de felicidade nesta vida, cada vez mais difícil – “há uma overdose de coisas ruins, crises permanentes, violências, tragédias, denúncias, escândalos, (...) que se sucedem num moto contínuo”. Ele propõe que se procurem outras pautas e tem razão, que a vida não é feita somente destes acontecimentos que resultam em notícias negativas.

Tem mais: tem toda a razão em dizer que o leitor, o telespectador e o ouvinte de rádio, estão cheios de desgraças e não querem mais saber de novidades deste tipo. O que também é verdade. Mas, infelizmente Maggie e Isabella, tão jovens e inocentes, nos cobram uma atitude desagradável e seguimos escrevendo sobre a desgraceira, na esperança de que a vergonha desça seu manto sobre a Terra.

Difícil, pois é aqui, em Portugal ou na Inglaterra, na Suíça ou na Etiópia, no Iraque ou nos Estados Unidos, que continua a covardia dos adultos a massacrar as pobres crianças que eles mesmos colocaram no mundo.

Um mundo, aliás, de egoísmo e horror. Um pesadelo.

Precisamos tomar uma atitude forte, passar a exigir leis mais rígidas, mais prisões para os assassinos e nada de liberdade. Ah, e uma boa pulseira eletrônica na perna dos que tiverem direito a sair da prisão para trabalhar. Não se pode é permitir que de concessão em concessão, se enfraqueçam as malhas da Justiça. Cadeia para os criminosos. É o que todos queremos.




DIA DE MUITAS MORTES, MAS TAMBÉM, DIA DE NASCIMENTO DE LEONARDO DA VINCI
Walter Galvani, em 15/04/2008

Que dia importante na história. Mas, afinal de contas, em 1452, há 556 anos, nascia um dos maiores gênios da Humanidade:Leonardo da Vinci!


1452 - Nasce Leonardo da Vinci, artista e engenheiro renascentista italiano.
1829 - O projeto de criação da Scotland Yard é apresentado à Câmara inglesa.
1856 - Uma sangrenta jornada no Panamá contra os mercenários do aventureiro norte-americano William Walker, causa 17 mortes e 28 pessoas feridas.
1865 - Morre Abraham Lincoln, presidente norte-americano.
1871 - Santiago González entra em São Salvador e constitui um governo liberal.
1912 - Nasce Kim Il Sung, presidente norte-coreano.
1901 - Nasce Ruhollah Jomeini, líder religioso e político iraniano.
1916 - Os Estados Unidos intervém militarmente na República Dominicana, com ocipação do território e anulação da soberania do país.
1918 - Um avião realiza o primeiro vôo sobre a Cordilheira dos Andes (desde Zapata, na Argentina, até Curicó, no Chile), tendo como tenente o argentino Candelaire.
1920 - Nasce Richard von Weizsaecker, político alemão.
1927 - Um grande terremoto atinge Santiago do Chile.
1939 - Nasce Jaime Paz Zamora, ex-presidente da Bolívia.
1940 - Segunda Guerra Mundial: Forças aliadas desembarcam em Narvik (norte da Noruega).
1948 - Um atentado com bomba feito pelo Partido comunista Brasileiro mata 34 pessoas e deixa mais de 100 feridas.
1950 - Iniciam os combates guerrilheiros liberais contra a ditadura civil do partido conservador.
1953 - Duas bombas explodem na Praça de Maio de Buenos Aires durante um discurso do presidente Perón: morrem 6 pessoas e centenas ficam feridas.
1959 - O ditador cubano Fidel Castro visita os Estados Unidos pela primeira vez depois da revolução.
1960 - Nasce Philippe Sajonia-Coburgo, príncipe herdeiro da Bélgica.
1961 - Aviões procedentes da Guatemala bombardeiam Cuba.
1968 - O secretário geral do Partido Comunista de Checoslováquia, Alexander Dubcek, e o novo presidente do país, Ludvik Svoboda, publicam um programa de medidas liberais.
1980 - Morre Jean-Paul Sartre, escritor e filósofo francês.
1982 - O Canadá adquire total independência da Grã Bretanha com a aprovação da nova Constituição do país.
1989 - Morrem 95 pessoas no estádio britânico de Sheffield, após a invasão violenta de 2 mil torcedores aos 6 minutos da partido Liverpool x Nottingham, pela semifinal do Campeonato Inglês.
1990 - Morre Greta Garbo, atriz sueca.
1997 - Morrem 343 peregrinos muçulmanos e 2 mil ficam feridos, em um incêndio em um acampamento em Meca, causado por uma bomba de gás de cozinha.
1999 - O candidato único, Abdelaziz Buteflika, ganha as eleições presidenciais da Argélia.





QUE DIA, HEIN...
Walter Galvani, em 17/04/2008

O 17 de abril coleciona horrores na história da Humanidade. Em meio à uma ou outra amenidade. Um dia difícil. Leia:




1535 - Antônio de Mendoza é nomeado o primeiro rei da Nova Espanha, no México.
1582 - Hernando de Lerma funda a cidade argentina de São Felipe de Lerma, atual Salta.
1797 - Uma frota inglesa, defendida pelo governador General Ramon de Castro, ataca São João de Porto Rico, com intenção de conquistar a ilha.
1897 - A Turquia declara guerra contra a Grécia.
1898 - Guerra de Cuba: o Senado dos Estados Unidos proclama a independência da ilha de Cuba por 67 votos contra 21.
1925 - O general Gerardo Machado é eleito presidente de Cuba pelo Parlamento.
1989 - Os uruguaios legitimam, com 57,22% de votos, a lei que perdoa os militares da ditadura.
1919 - A Assembléia Nacional Francesa aprova a jornada de trabalho de oito horas.
1923 - O XII Congreso do Paritdo Comunista da União Soviética é aberto. Stalin e a direção do partido são muito criticados.
1931 - O Partido Comunista Brasileiro convoca os trabalhadores a fazer a marcha da fome, no Rio de Janeiro. A polícia, chefiada por Batista Luzardo, proibe a manifestação e reprime grupos de operários.
1934 - Leon Tróstki é expulso da França.
1941 - Segunda Guerra Mundial: a Iugoslávia se rende perante os ataques da Alemanha.
1941 - As tropas britânicas entram no Iraque.
1943 - Hitler exige que a Hungria prenda todos os judeus do país.
1943 - Na cidade do México, Jacques Monard é sentenciado a 20 anos de prisão pelo assassinato de Trotsky, um dos líderes da Revolução Russa de 1917 que se exilou no México.
1956 - Os Estados Unidos apresentam o avião Lockheed F-104 Starfighter, que possui velocidade dobrada e pode transportar armas atômicas.
1958 - A Exposição Universal, inspirada nos acontecimentos científicos, é inaugurada em Bruxelas. Participam da exposição 51 nações e várias organizações internacionais.
1961 - Cerca de 1,4 mil exilados cubanos nos Estados Unidos desembarcam na baía de Cochinos (Cuba), em uma tentativa frustrada de derrotar Fidel Castro.
1965 - Numa das maiores manifestações contra a guerra do Vietnam, 15 mil jovens norte-americanos participam de um protesto em Washington.
- O ex-beatle Paul McCartney lança seu primeiro disco solo depois da separação do grupo.
1975 - As forças comunistas do Exército Vermelho entram em Pnom-Penh, a capital de Camboja.
1983 - Um incidente diplomático retém por 50 dias no Brasil 4 aviões líbios com armas para a Nicarágua.
1986 - Três reféns britânicos, seqüestrados no Líbano, são assassinados, como forma de represália pela utilização de bases aéreas britânicas pelas forças dos Estados Unidos que bombardearam a Líbia.
1987 - Após uma tentativa frustrada de golpe de Estado contra o governo das Filipinas, uma pessoa morreu e três ficaram feridas.
1996 - Em confronto com a polícia, 19 trabalhadores sem-terra foram mortos em Eldorado dos Carajás, no Pará.
1997 - A Marcha dos Sem-Terra chega à Brasília.





FESTEJANDO O LIVRO INFANTIL
Walter Galvani, em 18/04/2008

Que sirva o dia de hoje, como um bom aperitivo para o Dia Mundial do Livro que está chegando aí no dia 23 de abril.

DIA NACIONAL DO LIVRO INFANTIL

A sociedade brasileira só acredita no futuro. Talvez como um resquício daquela célebre frase do escritor austríaco Stefan Zweig, “Brasil, país do futuro” tenhamos ficado com o gérmen desta certeza metafísica e aos poucos tenhamos nos convencido que com estes que andam aí, nada seremos. Portanto, acreditemos nas crianças...
Certo ou errado meu raciocínio, vejo tantas ações culturais dirigidas às crianças que acabo me convencendo mesmo que esta gente que já amadureceu não trará as mudanças que queremos, ou desejamos, ou precisamos.
Enfim, hoje é o Dia do Livro Infantil e esta homenagem a Monteiro Lobato, o genial criador do “Sítio do Picapau Amarelo” merece. Estou falando do livro e não do subproduto televisivo que, afinal de contas também vale, pois preencheu o lazer de tantas crianças durante tanto tempo, sem apelar para a violência gratuita ou paga... dos desenhos americanos e japoneses, por exemplo, que nos chegam todos os dias através da telinha.
É pena. Preferia que as crianças lessem. Espero que continuem lendo, a despeito da pressão dos grandes meios de transmissão.




TEMPOS DIFÍCEIS (E NÃO SÓ PARA OS ÍNDIOS)
Walter Galvani, em 19/04/2008

Hoje, 19 de abril, é o Dia do Índio no Brasil. Tempos difíceis, mas também para os oriundos de caucasianos europeus como a população branca do país. Ou para os descendentes de pretos da África.
São tempos difíceis.
Crônica a ser publicada neste fim-de-semana do jornal "Diário Popular", de Pelotas, maior cidade da Região Sul do estado:


TEMPOS DIFÍCEIS
Walter Galvani

Por vezes se torna difícil ser ameno, pitoresco, amável, agradável, quando em volta tudo parece desmoronar. Falo em termos coletivos, é óbvio, pois em termos pessoais é preciso seguir a velha receita de Rudyard Kipling, o grande poeta do período máximo do “império britânico” (sim, antes do “império americano” houve o britânico... e muito antes disso o romano, como o otomano, o macedônio, o persa...). Voltemos à receita do poeta: o famoso poema “If”, o “Se”, que recomenda que, é preciso manter a calma, “mesmo quando todos em redor já a perderam” e enfim, opina ele, “serás um homem, meu filho!”

Vamos reconhecer que a famosa e imperturbável “fleugma britânica”, o histórico procedimento individual de estar acima de todas as perturbações e assim pautar o comportamento, também não resiste aos tempos modernos. Vejam, recordem o que tem acontecido na própria Inglaterra, nem vamos citar o caso “Jean Charles” pois, de deslizes policiais é feita a história desta difícil atividade, muitas vezes estes chamados “deslizes” são resultado de algum erro de avaliação. Fica fácil dizer isso quando não estoura no lombo da gente. Ou, acontece como no caso do brasileiro abatido a tiros em Londres, no metrô, uma simples suspeita, e não restou nenhuma possibilidade ou tempo para uma reação ou reabilitação.

É verdade que os tempos que correm são difíceis, mas se formos analisar a história da Humanidade, veremos que com maior ou menor complexidade, sempre foi assim. Naquele célebre dia 15 de março, célebre porque mudou o chamado “curso da História”, de que lado estaríamos se convivêssemos com Julio César? Ao lado do imperador que, dizia-se, pretendia transformar-se em Ditador? Ao lado dos conspiradores no Senado que pretendiam “livrar Roma” do perigo fascista?

E por aí vai. Com os desastres da sociedade no mundo moderno, somos obrigados a concluir, quem sabe, que as melhores intenções se perderam pelo caminho. E acrescentar com o velho provérbio de que, delas, as boas intenções, o inferno está cheio. Aliás, você acredita em Inferno? Paraíso? O bom mesmo – e o mais difícil – é acreditar sinceramente em alguma coisa. Religiões há para todos os gostos. Só a ética salva a alma humana? Todos sabemos. E será que isso basta? Eis a pergunta do momento. Dias difíceis, vivemos.




LEITURA PRÓ-ATIVA ESCRITA CRIATIVA
Walter Galvani, em 19/04/2008

Leia mais sobre a oficina que Walter Galvani vai realizar na Fundação Cultural de Canoas, no site da Fundacan, www.fundacan.com.br e no site do Galvani: www.waltergalvani.com.br
Em comemoração a Semana Internacional do Livro (de 22 a 26) e o Dia Mundial do Livro (23 de abril).
Ah, e dia 26 no Restaurante Copacabana, em Porto Alegre, almoço de lembrança do pessoal da Folha da Tarde, pelo aniversário (72 anos) do antigo e consagrado "vespertino da cidade" (de Porto Alegre, gloria do jornalismo gaúcho)


24/4/2008 - 19h às 22h 1 - MÓDULO A1:
Objetivos da leitura;
Tipos de leitura: rápida, dinâmica, carnal.

MÓDULO A2:
Exemplos levantados no contato com os alunos;
A interação.





25/4/2008 - 19h às 22h 2 - MÓDULO B1:
As conseqüências de cada escolha;
A memorização.

MÓDULO B2:
Resultados e exemplos no contato com os alunos





26/4/2008 - 15h às 18h 3 - MÓDULO C1:
A escrita;
Objetivos de cada aluno.

MÓDULO C2:
A escrita criativa;
A pesquisa bio-bibliográfica;
Resultados e exemplos decorrentes da oficina





Saiba mais sobre a Oficina pelo telefone da Fundação Cultural de Canoas: faça sua inscrição.
Telefone (51) 30.59.69.38
Sobre Walter Galvani e sobre a oficina: www.waltergalvani.com.br e
www.fundacan.com.br
presidida pelo Mestre Internacional de Xadrez, Francisco Terres Trois
Neste domingo, na coluna de Hiltor Mombach, no Correio do Povo de Porto Alegre



O LIVRO E A LEITURA DOMINARÃO A SEMANA
Walter Galvani, em 20/04/2008

Troquem livros. Dêem livros. 23 de abril é o Dia Mundial do Livro.
A próxima semana terá o Livro como assunto dominante.
Crônica publicada na edição deste domingo, do ABC DOMINGO,órgão do Grupo Editorial Sinos.
Circula a partir de Novo Hamburgo, sede do Grupo Sinos, por toda a Região Metropolitana de Porto Alegre, Encosta da Serra, Vale do rio dos Sinos (Rio Grande do Sul, Brasil)


O DIA DO LIVRO SERÁ MUNDIAL

Walter Galvani

Quarta-feira da semana que entra é Dia de São Jorge e o Dia Mundial do Livro. A nascente da data é romântica e inspiradora: na Catalunha, aproveitando este dia que assinala em 1616 a morte de Cervantes e Shakespeare, e também o falecimento de Garcilaso de La Veja, os homens costumavam presentear suas mulheres com uma rosa. E elas, lhes retribuíam, com um livro.

Este belo e motivador costume foi ampliado pela Unesco que, aos poucos foi fazendo chegar a praticamente todo o mundo, o cultivo deste hábito. E assim, as organizações encarregadas de promover o livro e a leitura foram se encarregando de promover a comemoração, como o faz aqui entre nós de uns anos para cá, a Câmara Rio-Grandense do Livro.

O resultado é que este ano pelo estado inteiro ocorrem festejos para assinalar a presença deste nosso infatigável e insubstituível amigo, o Livro, que afinal “é o abrigo predileto da sabedoria”, segundo Harold Bloom, por exemplo, um dos seus maiores defensores.

Durante toda esta semana, depois de Tiradentes, sem fazer ironia, aqueles que escaparem do massacre do “feriadão”, estarão reunidos diante de um altar que tem como santo, este volume impresso e colado, que sucedeu seu antepassado o papiro e outros menos votados, onde nos está prometido o paraíso, o inferno e outras atrações colaterais.

Não existe progresso individual ou coletivo, sem a presença do Livro. Em verdade, é ele que provocou ao longo do tempo, guerras e revoluções, a paz e a sapiência, a consagração e o progresso, nunca o esquecimento.

Hoje se fala muito em aperfeiçoamento individual, como instrumento da sociedade. Como chegar a operar esta arma? Só através do livro e da leitura. Está bem que a audiência de rádio, a assistência à televisão e o acesso a Internet, ajudam. Mas, sem a leitura dos jornais, aprofundada e eu diria, carnal, bem como o mergulho nas páginas dos livros, não se chegará à nada.

É preciso fugir à superficialidade, alcançar níveis mais profundos de conhecimento e o único atalho conhecido, é a Leitura, com L maiúsculo.

Então, feliz 23 de abril. Troquem flores e livros. Com as bênçãos de William Shakespeare ou Miguel de Cervantes ou Garcilaso de La Veja. Boa leitura.




ANTIGOS REDATORES DA FOLHA DA TARDE SE REÚNEM
Walter Galvani, em 23/04/2008

No Restaurante Copacabana, em Porto Alegre, neste sábado, 26 de abril, estarão reunidos os antigos redatores e repórteres do jornal "Folha da Tarde" que não circula mais desde 1984. É a "festa de aniversário". Desta vez, 72 anos, "se vivo fosse"...
Relembrando o encontro que se produz praticamente cada ano, transcrevo a bela crônica que o Vinícius Bossle escreveu em 2003, e então publicou no jornal
ABC Domingo:


REENCONTRO INESQUECÍVEL


Walter Galvani


Vinícius Bossle escreveu um texto primoroso, depois de participar, no ano passado, de um dos encontros anuais (agora bi-anuais) promovidos pelos antigos redatores e repórteres da Folha da Tarde, no restaurante “Copacabana” em Porto Alegre, que perenizou a homenagem ao grande jornal desaparecido há 19 anos, quando da terrível crise financeira que abateu os jornais da Caldas Jr., então dirigida pelo Dr. Breno Caldas, “em pleno vôo”, como costumava dizer um dos seus diretores, também já falecido, Edmundo Soares.
Neste fim-de-semana o “Copacabana” reuniu, outra vez, aquele grupo que se encontra só para matar a saudade e inaugurar na parede do Salão “Folha da Tarde”, uma reprodução da página inteira que o jornal ABC DOMINGO, do Grupo Editorial Sinos, publicou com o texto do Vinícius e as fotos de Alceu Feijó, uma “dupla histórica”, pois atuam juntos há mais de cinqüenta anos.
Sob o título geral de “Dezoito anos de muita saudade”, são vários textos, assinalando o hábito da reunião dos velhos companheiros, “a dor e a alegria” que marcam estes encontros, tornando-os “momentos inesquecíveis”. E finalmente, sob o título:
“A Folha não morrerá jamais”,
assim escreveu Vinícius Bossle:
“Não se falou na questão, mas ela existe. Não só nos nossos corações, mas no de todos que uma vez foram leitores da Folha da Tarde. Oficialmente ela existe. Mas não circula. Não seria tempo e hora de quem detém o título pensar no seu retorno? Nem seria para a maioria de nós, que já dependurou as chuteiras e está fora do jogo. Mas para as novas gerações de jornalistas e profissionais de outros setores, carentes de uma oportunidade de mostrar sua competência e talento. E também pela cultura e a grandeza do Rio Grande do Sul.
Quem sabe até volte o tempo de glória, e tudo acabe trazendo dividendos para os atuais proprietários do vespertino, que deixou tanta saudade. Benefícios não só materiais como morais. Nos dias correntes já não se faz mais um vespertino que talvez se defrontasse com problemas de distribuição e acesso ao seu público. Mas nem se tentou.
Com seus 100 mil exemplares de circulação às segundas-feiras, carregada de uma massa de publicidade, a Folha da Tarde reinou por quase meio-século. Estava sadia, plena de vida e vigor quando sua circulação foi suspensa. Envolvida pela grande crise da imprensa nacional, não sobreviveu. Mas sobreviveu, no coração do povo gaúcho. Nós, que durante tantos anos fomos os intérpretes dos sentimentos dos leitores da Folha, é que estamos afirmando isto, e é a grande e irrefutável verdade. A Folha está viva e não morrerá, jamais.”
Cada um dos participantes deste almoço que reúne em média de vinte a trinta antigos colegas, recebeu uma cópia impressa da matéria do ABC, que por outro lado foi para a parede do salão, onde os clientes do “Copacabana” podem apreciar agora, toda a história do jornal, várias fotografias de outros encontros, charges publicadas com a presença de companheiros de variadas épocas e outros documentos fantásticos.
O Salão “Folha da Tarde” tornou-se num pequeno, vivo e atuante “museu” do jornalismo riograndense.
Mais uma vez estiveram lá velhos companheiros de trabalho, deixando bem claro a falta que faz um jornal, além de tudo um jornal como a Folha da Tarde, cujo espaço não foi ocupado.
“Tal é o vazio que deixamos” – dizem eles com o conhecimento de causa que a própria cidade neste testemunho vivo lhes transmite.
“Folha da Tarde”, jornal vespertino e em formato tablóide, foi fundado a 27 de abril de 1936 e circulou até o dia 14 de junho de 1984. Nestes últimos dezoito anos, os antigos jornalistas se reúnem para reverenciar sua memória, marcar um reencontro inesquecível e examinar o jornalismo que se faz no dias que correm e lembrar o que se fazia. Chegou em seus melhores momentos à uma tiragem superior a 100 mil exemplares, quando a população de Porto Alegre e sua região metropolitana, onde circulava preferencialmente, era pelo mínimo três vezes menor do que hoje.
Consagrou o formato – hoje todos os jornais do Rio Grande do Sul são tablóides – e o estilo de jornalismo com grandes reportagens alternando com pequenos tópicos e colunas personalizadas




OLHO VIVO QUE A INFLAÇÃO DOS ALIMENTOS PODE CHEGAR AO BRASIL
Walter Galvani, em 27/04/2008

Crônica, publicada hoje no jornal ABC DOMINGO

INFLAÇÃO, ALIMENTOS, ELEIÇÕES



Walter Galvani





Há uma conjunção de fatores em nível mundial, que se une aos problemas nacionais, a perspectiva do segundo semestre, que já está na mira de todos os que precisam planejar minimamente, e o arroz! Ah, sim, o arroz, que está em setenta por cento das mesas de todos os países e que é, aliás, um dos fundamentos da alimentação global, já em alta na Ásia, logo logo o nosso seguirá o sinuoso caminho internacional. A própria FAO (a organização da ONU para a alimentação e a agricultura) já expediu o aviso de alerta. Olimpicamente nós o ignoramos no Brasil e, ao invés de ampliar as áreas agricultáveis, pensamos em outras soluções, mais capitalistas, mais voltadas para um “futuro” que pode estar ou não ali, ao alcance da mão.

Melhor, comeremos eucaliptos, mastigaremos celulose e todos seremos felizes. Se houver um governo capaz de transformar rapidamente as divisas que chegarão com o plantio destas árvores exóticas, aliás trazidas por um embaixador e ministro da Agricultura, Joaquim Francisco de Assis Brasil, não haverá “pardal” que obstaculize o nosso desenvolvimento.

Enquanto isso preparem seus corações e suas bolsas. E bolsos. A chegada da Inflação ao Brasil, depois de importarmos o fracasso americano no mundo dos negócios e da guerra de negócios sujos, será apenas um passo.

Quanto ao arroz, estocar não adianta, até porque ele tem um alto índice de precariedade. Trata-se de um alimento perecível, e não há como adiar seu cultivo, sua colheita. Chegou a época, chegou. É colher e comercializar. Comer. Ou perder a safra.

Não tenho lido muitas advertências, não tenho ouvido políticos e administradores brasileiros muito preocupados. Tenho mais ouvido falar em eleições, em apuração de crimes, aliás, gastam-se muitos eucaliptos na impressão de versões fantasiosas ou não, preparam-se espetáculos de televisão para esclarecer o que está na cara, fomenta-se a repetição de maldades, os criminosos passam ser “astros”. Não vejo ninguém arrancar a camisa com que estes bandidos, uma vez filmados ou fotografados, tapam o rosto para impedir a sua identificação, quando deveriam ser expostos a luz do dia ou dos refletores e “flashes” para que todos saibam quem são.








AH SE EU TIVESSE TEMPO!
Walter Galvani, em 02/05/2008

Ocuparia todas as quartas-feiras deste ano até 10 de dezembro com o curso do Ivo Bender

Curso de Extensão Universitária
Departamento de Arte Dramática - IA - UFRGS
OFICINA DE CRIAÇÃO DRAMATÚRGICA
com IVO BENDER
Todas as quartas-feiras,
das 19h30 às 21h30
De 07 de maio a 10 de dezembro de 2008
(recesso em julho)

Objetivo: Proporcionar o aprendizado prático e teórico da criação de textos para teatro
Público Alvo: comunidade em geral, acima de 18 anos
Seleção: encaminhamento de currículo resumido (máx. 10 linhas)
e carta de intenção, via e-mail, até o dia 04 de maio


Informe-se pelo telefone 8175.0960
ou pelo e-mail: oficinadrama@yahoo.com.br


Local das aulas: Departamento de Arte Dramática
Rua General Vitorino, 255 - Centro - Porto Alegre


IVO BENDER, doutor em letras, é um dos mais importantes dramaturgos do teatro gaúcho. Suas peças estão publicadas em antologias como Teatro Escolhido, Nove Textos Breves Para Teatro, Entrenós (também com textos de Carlos Carvalho) e Trilogia Perversa. Publicou, ainda, as peças O Cabaré de Maria Elefante, O Boi dos Chifres de Ouro, Surpresa de Verão, Mulheres Mix.






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DEPOIS DO VENDAVAL...
Walter Galvani, em 04/05/2008

O Rio Grande do Sul conheceu um anti-ciclone com ventos de até cem quilômetros e chuvas intensas, o equivalente a dois meses choveu em dois dias.
Enquanto isso, para celebrar a euforia brasileira, vejam o carnaval que fizeram com nossa melhor de classificação para investimentos.
Esta crônica foi publicada no jornal ABC DOMINGO


NOSSO NARIZ, GOLAÇO E CARNAVAL

Walter Galvani

Euforia, perigosa euforia. Eis o retrato do que aconteceu no meio desses feriados e que muitos que merecidamente se ausentaram das atividades nem tomaram conhecimento dos fatos, ou apenas de maneira superficial. Pois acontece que a agência “Standard and Poors” que classifica os países segundo o grau de periculosidade para investimentos estrangeiros, promoveu o Brasil. “Foi um golaço do Brasil que a Argentina assistiu de longe”, registrou o jornal “El Cronista Comercial”, de Buenos Aires. O britânico “The Independent” diz que a economia brasileira “vive tempo de carnaval”.

Aí temos nosso retrato no exterior, onde naturalmente as duas pinceladas que trazem o Carnaval e o Futebol para o primeiro plano identificam com precisão o que é o país, mesmo na hora de um sério ajuste de contas com a economia internacional que permite esta inusitada classificação.

Lula, como legítimo representante das massas, não teve a sisuda reação de um professor de sociologia. Ao contrário, “mandou ver” e no encontro de governadores em Maceió, disse: “Agora somos donos do nosso nariz”.

Isso cheira mal, é óbvio, porque não é assim que se trata a economia. Mas, também duvido que se pudesse esperar de Lula ou de qualquer outro político brasileiro, o comentário digno com que os jornais ingleses apreciaram a animadora classificação do Brasil “para as semifinais” assinalando que a recuperação começou nos anos 90. Ou seja, ao tempo do professor Fernando Henrique, queira-se ou não.

Num ano de eleições, se alguém tiver boa memória isso significa muitas coisas, mas também é bom não esquecer que Lula (e o seu partido, porque ninguém governa sozinho), com todos os percalços representados pela corrupção que anda por aí, aprendeu a lição. Fez o tema de casa, direitinho, e seria uma demonstração suprema de grandeza se mandasse chamar em casa “o professor” e lhe prestasse também uma homenagem pública. Está bem, que faça isso depois das eleições de outubro para não ser acusado de babaca e de “entregar a rapadura”.

Assim, ninguém fica triste em definitivo e a velha figura do “brasileiro cordial” vai se mostrar mais uma vez.




ATENÇÃO, ESTÁ CHEGANDO UM NOVO LIVRO DE VALESCA DE ASSIS
Walter Galvani, em 07/05/2008

Estou me incorporando à divulgação do novo livro da grande escritora Valesca de Assis. Lançamento dia 13 em Porto Alegre

Vão pensar que estamos fugindo !

A história de uma viagem quase impossível

Valesca de Assis



Palavras de Moacyr Scliar: “uma grande contribuição para a nossa literatura e para a nossa cultura”.

Neste ano de 2008 observa-se a edição de muitos livros [e de resto, de filmes, documentários e até comercias de TV] que tratam da vinda da Corte portuguesa para o Brasil. Com maior ou maior fidelidade e resultados estéticos, essas peças e documentos fazem chegar ao leitor um bastante completo quadro político, moral e social da época em que Napoleão e seus exércitos assolavam a Europa e, como num golpe de mágica, extinguiam dinastias e coroavam reis de opereta. O Brasil entra nesse quadro como a nova sede da monarquia de Portugal, resultado direto da vinda do príncipe Regente, sua família e toda a burocracia do Estado.

O livro Vão pensar que estamos fugindo ! – a história de uma viagem quase impossível não pretende ser mais um a tratar desse assunto, nem colaborar para a saturação do mercado, repetindo o que outros já disseram. Sua diferença está em dois níveis: em primeiro lugar, é um livro que se destina ao público jovem [embora as leituras prévias tenham demonstrado que podem ser acompanhadas, e com ganho e prazer, pelos adultos]; em segundo lugar, é um livro que fixa seu olhar exclusivamente sobre a longa viagem marítima de Lisboa à Bahia e depois ao Rio de Janeiro.

Foi, pode-se dizer, uma viagem épica, em que o motivo condutor tem como mote uma frase de Napoleão em Santa Helena, de que D. João foi o único príncipe que o havia enganado. Foi épica pela quantidade de circunstâncias enfrentadas – e vencidas. Foi épica pelas poderosas e dramáticas forças em jogo. Foi épica, enfim, pelo drama pessoal de D. João que nesta viagem, foi capaz de refletir não apenas sobre o destino da Casa de Bragança, mas sobre seu destino pessoal de homem fraco por natureza, mas forte quando os fatos assim o exigiam. E isso tudo ocorre entre as ondas do Atlântico, em meio a pragas de piolhos, enjôos, nobres esfarrapados, má comida, má bebida, ausência de privacidade e tramas familiares.

Escrito em linguagem límpida e cativante, a premiada autora Valesca de Assis vai construindo seu texto como se fosse uma longa história contada ao pé do ouvido, uma história em que o leitor tomará contato com questões ainda nunca declaradas. Pela mão de quem sabe escrever, é desvendado todo um universo de intrigas, contradições, amores e ódios. Um universo que conquista o leitor da primeira à última página e que, nas palavras de Moacyr Scliar, "a notável escritora Valesca de Assis narra ao público jovem, com vivacidade, com humor e conhecimento". A obra terá lançamento e sessão de autógrafos na próxima terça-feira, dia 13 de maio, às 18h, na Palavraria (Vasco da Gama, 165)

Valesca de Assis é licenciada em Filosofia. Professora, tem atuado em atividades culturais, chegando à função de Presidente do Conselho Estadual de Cultura do Rio Grande do Sul. Estreou como escritora com A valsa da medusa (1990) Publicou depois A colheita dos dias, O livro das generosidades, Harmonia das esferas (Prêmio Revelação de Autor da Associação Paulista de Críticos de Artes), na seqüência Diciodiário. Participa, ainda, de diversas antologias, entre elas: A cidade de perfil, Nós, os teuto-gaúchos, Crônica & Cidade, Receitas de criar e cozinhar, O livro das mulheres, O João Carlos, Meia encarnada, dura de sangue, Contos de Bolso e Contos de bolsa.

O QUÊ: Lançamento do livro “Vão pensar que estamos fugindo ! – a história de uma viagem quase impossível”, de Valesca de Assis (Editora Bestiário, 2008, 38 páginas, R$ 18,00).

QUANDO: Terça-feira, 13 de maio, às 18h.

ONDE: Palavraria (Vasco da Gama, 165)




OS ABSURDOS QUE ACONTECEM NA INTERNET
Walter Galvani, em 08/05/2008

Fora do nosso controle... É bom que os pais saibam o que ocorre no mundo virtual.
O alerta é do inteligente diretor da Delegacia de Assistência da Crianã e do Adolescente do RGS.
Crônica que publico hoje, dia 8, no Diário de Canoas, jornal do Grupo Editorial Sinos, em minha terra natal.
Leiam por favor. Ficarão estarrecidos.


O QUE OS PAIS NÃO SABEM
Walter Galvani

“Interesse-se mais pela vida social dos seus filhos!” – recomenda o dr. Anderson Spier, delegado titular do DECA (Delegacia da Criança e do Adolescente do RGS), portanto com ascendência sobre todo o estado. Felizmente estamos ouvindo de uma autoridade pública um “aviso aos navegantes” que não deve ser negligenciado, em especial por aqueles “navegantes” da Internet, porque é lá que mora o perigo. Freqüentemente se ouve e vê em festas e contatos sociais, dos problemas de filhos e netos adolescentes que nada mais fazem além de “navegar” durante toda a noite e a madrugada e dormir na manhã seguinte, prejudicando seu estado físico e sua freqüência às aulas. É pena. “Tudo está bem, quando termina bem” como diria o sábio Shakespeare no século XVII, mas quem nos garante?

O del. Anderson chama a atenção para a quantidade de ameaças que transita na web, as promessas de encontros chocantes, lutas, brigas, tiros, coices, bofetadas, tóxicos e os atentados à lei e à liberdade, caracterizados principalmente pela calúnia e a difamação. “Pior ainda” – diz ele – “quando jovens utilizam imagens de ex-namoradas para expô-las nuas em seus blogs.”

Tudo isso é crime. Mas, como se sabe, “hecha la ley, hecha la trampa”, é assim que se passam as coisas no Brasil. E no mundo. E em Canoas, não se iludam, que estamos perfeitamente integrados nesta falsa modernidade. Os nossos jovens também marcam encontros, namoram, prometem surras e aprontam na Internet, como todos os adolescentes que hoje se utilizam deste novo meio que lhes foi disponibilizado. Se fosse tudo para o bem, seria ótimo, mas não sabemos, não é mesmo? - ainda mais o que se passa nas madrugadas de um município que, além de tudo é o campeão da violência com 41 mortes nos primeiros quatro meses do ano.

A observação final do Anderson Spier é que me chamou mais a atenção, pela sua propriedade: “Aconselho aos pais que participem mais da vida social dos filhos.” Pena é que ele não está enganado. É difícil, todos sabemos, inclusive ele, que os pais comecem a participar mais “da vida social” dos filhos, pois o problema começaria na rejeição que a adolescência faz dos mais velhos, e além disso parentes. Mas, eis um caminho.




ARTUR DA TÁVOLA PARTIU PARA FICAR
Walter Galvani, em 09/05/2008

Morreu ontem no Rio de Janeiro, um dos maiores cronistas de um país de cronistas, este nosso Brasil: Artur da Távola, que escrevia para o jornal "O Dia", do Rio e mantinha um blog na Internet, como a maioria dos escribas está fazendo.
Paulo Alberto Monteiro de Barros, o Artur da Távola, faleceu por problemas cardíacos que já vinham desde o ano passado, ontem, aos 72 anos.
Deixou uma última nota na web. Ei-la:


"Embora enfermo desde agosto de 2007, com risco de vida, nas breves oportunidade em que não esteve internado, o titular deste blog nele não mais pôde escrever. Ele ficou aberto sujeito à interferência de internautas que se comprazem em entrar em domínios alheios.

Embora não mais internado em hospital prossigo em tratamento doméstico e assim será por algum tempo. Nessas circunstâncias, peço desculpas a quem o procure. Ele está momentaneamente congelado por seu titular. Espero voltar na plenitude de minhas possibilidades dentro de dois ou três meses. E conto com sua compreensão."





O DIA QUE VIROU MARCO EMOCIONAL...
Walter Galvani, em 10/05/2008

Crônica publicada neste fim-de-semana no jornal A Razão, de Santa Maria:

DIA DAS MÃES E DOS FILHOS

Walter Galvani

Foi, no início uma promoção comercial. Mas, agora se tornou uma obrigação sentimental. Não há como escapar. Neste domingo visite sua mãe e não esqueça de levar um presentinho. Faz parte. Incorporou-se ao nosso dia-a-dia. Não há mãe que não fique feliz, principalmente com a visita do filhinho ou do filhão, tenha ele 5 ou 50.

Então, este domingo não esqueça. Arme-se de um belo sorriso, para a “velha” não desconfiar que o amigo está apertado ou tem problemas e compareça. Poupe-a de dramas. Nada de comentar o assunto da menina paulista jogada pela janela. Nem das mães assassinadas por maridos desvairados.

Procure passar um domingo perfeito, falando sobre os tempos em que ela lhe dava feijão na boca, já que o amigo não tem memória para o tempo das mamadas...

Ah, e nada de trazer à tona questões irresolvidas ou mágoas que ficaram dependuradas. Faça de conta que tudo passou e nada restou para discutir e também, não esqueça, dê o exemplo na frente dos netinhos.

Como se dá e recebe, aqui se planta e então vem o retorno, é importante transformar esta data, sem dúvida comercial, num acontecimento inesquecível.

Se você não tem mamãe vá a um asilo e dê um reconfortador abraço numa daquelas senhoras que, possivelmente, não vá receber a visita de ninguém.

Nesse caso estará o amigo contando pontos para sua caminhada no lado de lá e, ninguém está livre disso.

Vamos aproveitar para comemorar uma porção de coisas, como o fim da crise do dossiê do FH, a promoção do Brasil pela agência americana que classifica os países onde se deve investir, enfim, são presentes que qualquer mãe aprecia.

O friozinho que aí está é sempre agradável, bem melhor do que a ameaça de enchentes, e nossos produtos, valorizados por este clima que nos deram aqui no Rio Grande, baterão recordes este ano, de produção e colocação no mercado. O momento é excepcional. Coisa para mãe, mesmo.

Não vamos deixar que assaltantes, criminosos, ladrões, papagaios ou pais amaldiçoados e madrastas de Cinderela continuem nos tirando o sono. Pelo menos um dia, vamos brincar de melhor dos mundos...




O DIA DOS FILHOS
Walter Galvani, em 11/05/2008

Uma comemoração que vem desde os tempos da Grécia clássica, popularizada no mundo moderno pelos Estados Unidos, o Dia das Mães acabou transformado numa data comercial. Mas, as mães do mundo ocidental comemoram o seu dia com muita devoção. Eu diria que é o Dia dos Filhos.Mexam-se.
Crônica publicada hoje no jornal ABC DOMINGO, do Grupo Editorial Sinos:


DIA DOS FILHOS

Walter Galvani


Gosto de recordar neste dia que acabou dedicado às mães, apesar dos protestos constantes, pois todos sabemos que “todos os dias são dias das mães”, que este é o dia dos filhos. Muitas senhoras fingem não lhe dar importância porque afinal de contas transformou-se numa promoção comercial, o que é verdade, mas espiam, quando chegam os filhos, se eles trazem algum pacotinho debaixo do braço. Não precisa ser grande coisa, não, muitas vezes há dificuldades financeiras o que com tanta deficiência de empregos é um fato corriqueiro. Minha mãe, por exemplo, que faleceu há quase vinte anos, sempre dizia: “Isso é bobagem, é só para vender, não precisava nada para mim”, mas precisava, sim.

Ela era das que espiavam e, se por acaso a gente fingia que não havia trazido nada, fazia um muxoxo de desprezo e ficava por ali, com um mau humor de cão que só se desfaria ao receber o presentinho até então escondido.

Cenas de uma vida familiar que não retornam mais e que, aqueles que ainda desfrutam da presença de suas mães, tratem de cultivar como uma pérola preciosa representativa do ser que mais amor tinha que lhe dar e só lhe dar amor.

Não vamos falar das mães ou madrastas que ignoram os filhos ou parecem conformados com o seu desaparecimento prematuro, nem daquelas que botam os filhos numa “roda dos expostos” ou, pior, atiram no lixo.

De minha parte, vou só me lembrar hoje que foi ela que me deu os maiores presentes que recebi: a vida, pois me abrigou no seu útero e me desenvolveu até que eu tive condições de desembarcar neste mundo e me alimentou durante os primeiros anos, direto da sua fonte que era a sua própria vida. Depois, me alfabetizou e me colocou em condições de enfrentar as classes escolares já em condições de enfrentar qualquer concorrência, naqueles velhos e difíceis tempos.

Dificuldades financeiras? Nas primeiras que tive, foi ela própria quem me ajudou. Vou parar por aqui, pois se fizer um levantamento decente do que tem sido minha vida, eu a encontrarei sempre na primeira linha. Até hoje, quando ela já partiu, pelo exemplo, pelas palavras, pelas demonstrações de amor. Não esqueçam: levem o presentinho. Não é nada, apenas uma lembrança.




UM VIOLINO STRADIVARIUS OU UM CONCERTO DE 4 MILHÕES
Walter Galvani, em 13/05/2008

Quatro milhões de dólares naturalmente. Esta terça-feira foi assinalada por este fato extraordinário: Philippe Quint esqueceu num táxi o seu violino Stradivarius do tipo Kiesewetter, que vale 4 milhões de dólares.
Trata-se de um instrumento de 1723 e o taxista, um imigrante egípcio, Mohamed Kahlil, procurou o dono e devolveu-lhe o instrumento. Ganhou 100 dólares de recompensa e uma medalha da prefeitura de Newark, Estados Unidos, onde atua, junto ao aeroporto Newark Liberty International.


Mas, o músico Quint não deixou por isso...
Nesta terça-feira ele faz uma apresentação especial para o taxista egípcio junto ao seu ponto de taxi e lhe entrega convites para o concerto que vai realizar no Carnegie Hall em setembro.
O violinoi foi feito pelo italiano Antonio Stradivarius, o mais famoso "luthier" de todos os tempos e o criador dos mais qualificados violinos e pertenceu a um compositor alemão do século XVIII, Kiesewetter.
Em reais, o valor hoje está em torno de seis milhões e seiscentos mil...
Pode ser que você não saia tocando bem ao ter um Stradivarius nas mãos, no entanto já é um caminho.
Paganini, claro, tinha um Stradivarius.
De vez em quando surgem falsificações do instrumento famoso, mas não é o caso deste, que pertence a Sociedade Stradivari e que organiza o empréstimo do violino que aliás pertence ao casal Clement e Karen Arrison).
Era nessa condição que estava em mãos de Philippe Quint.



NÃO PRIMA, ESPREMA!
Walter Galvani, em 15/05/2008

O que andam a fazer com a língua portuguesa e a culpa que não é de Paulo Coelho...
Uma visita a Feira do Livro de Guaíba e um passeio pela Internet


NÃO PRIMA...

Walter Galvani


Guaíba, a cidade onde moro, que fica do outro lado do magnífico lago que tem este mesmo nome, na frente de Porto Alegre, a capital dos gaúchos que é administrada por um professor e compositor, José Fogaça, ex-senador, está realizando a sua 19ª. Feira do Livro, com poucas barracas (porque evidentemente não tem muitas livrarias) mas com muito boas intenções e presença constante das crianças das escolas da cidade. Aos sábados e domingos, já me disse o secretário da Cultura e Turismo do município, Vinícius Polanczyc, espera-se lotação completa de adultos com bolsos e bolsas abertas para comprar alguma coisa e honrar a tradição de uma cidade que está na raiz da Revolução Farroupilha.
Sempre é bom lembrar que aqui morava Gomes Jardim, primeiro presidente da República Rio-Grandense, que aqui esteve inúmeras vezes o general Bento Gonçalves da Silva, aliás comandante em chefe, também presidente e o grande líder do movimento farrapo e daqui partiram os invasores de Porto Alegre a 20 de setembro de 1835.
Ah, o patrono é o Luiz Coronel.
Ontem, tocou-me a vez de falar para os guaibenses sobre a atividade literária e especialmente sobre leitura pró-ativa ou proficiente e escrita criativa ou criadora, que se constituem nos temas das minhas oficinas e palestras neste momento.
Os adolescentes fizeram as mais variadas perguntas, não tantas como eu gostaria, por causa da timidez natural dos jovens, mas algumas foram bem curiosas e interessantes, como uma menina que me pediu minha opinião sobre Paulo Coelho. Respondi com sinceridade que, embora não o considere nenhum Machado de Assis, acho que tem uma excelente contribuição a dar à literatura brasileira e é muito valiosa a sua atuação como um “best-seller” que atrai leitores do mundo todo e propaga o nome do Brasil pelo mundo afora. Vende milhões de exemplares e se dedica a dar asas à sua imaginação, o que já é alguma coisa neste mundo conturbado e difícil.
Ah, e vem aí uma biografia dele pelo Fernando Morais, grande escritor e jornalista, autor de um livro famoso sobre Chateaubriand, que denominou “Chato, o rei do Brasil”.
E então a garota respondeu-me:
“Graças a Deus que o senhor pensa assim, porque uma professora me deu zero numa redação e disse que era por eu ter citado Paulo Coelho, que, para ela não é ninguém na literatura.”
Pois é...
Outra pergunta curiosa foi de alguém que me perguntou o eu achava da linguagem que está sendo usada na Internet e se isso não é uma “diminuição”, uma redução para a língua portuguesa.
Respondi que não, que a língua não é estática e que historicamente as línguas, para não morrerem se renovam e no primeiro momento ninguém pode estabelecer se estão adequadas as mudanças que acontecem. Não se pode engessar uma língua, eu disse. Amanhã ou depois, certos procedimentos e determinados neologismos, estarão incorporados ao português que obedece a norma culta.
Pois não é que fui ligar para uma companhia aérea para saber preços e horários e levei uma pela cabeça para aprender a não me meter a lingüista?
Apareceu, bem nítido no meu monitor, um recado: “Não prima nenhuma tecla que estamos processando a informação.”
Bem, agora é demais... Não é nenhuma inovação, trata-se de ignorância mesmo. O criador do site da tal companhia quis mostrar uma erudição que não tem. Ora, não “prima”. Prima, pelo que eu sei, é a corda de certos instrumentos que acionada produz o som mais agudo...
Ele queria dizer provavelmente para o internauta não premer nenhuma tecla.
Espremer o autor do abuso é o que se deveria fazer, pois aqui não se trata de economizar tempo, ser expressivo, usar uma gíria limitada à idade dos freqüentadores da Internet e que, dessa forma fecham seu mundinho e se fazem entender por quem é da tribo, não é nada disso, não.
É ignorância mesmo.




TUDO COMO DANTES OU... UM DIA HÁ DE MUDAR?
Walter Galvani, em 17/05/2008

Crônica publicada neste fim-de-semana no Diário Popular, de Pelotas.
Amanhã trataremos aqui do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa


QUARTEL DE ABRANTES



Walter Galvani



À margem direita do rio Tejo, uns 90 quilômetros acima de Lisboa, fica uma pequena cidade portuguesa que resistiu mas caiu em mãos dos invasores franceses do general Junot, vanguarda das tropas napoleônicas, em 1807. Quando a situação se normalizou, para retratar a tranqüilidade que substituiu a presença dos franceses, expulsos pela reação lusitana, cunhou-se a expressão “Tudo como dantes no quartel de Abrantes”, para significar a calmaria, dir-se-ia até a mesmice que ali voltou a reinar. Desde então, nos países de língua portuguesa, a frase quer dizer que tudo continua igual, bom ou ruim, como antes e como sempre.

Não seria de estranhar pois que se utilizasse tal expressão, para dizer como vão as coisas no Brasil. Sim, porque a CPI do Detran descobriu 44 envolvidos, 1 milhão por mês manipulado, um certo senhor José Aparecido Nunes Pires que deixou vazar no ministério da Dilma, os gastos do senhor Fernando Henrique Cardoso, altos funcionários e familiares e os bandidos tentaram matar esta semana o repórter Edson Ferraz, da TV Diário de Mogi das Cruzes, porque ele denunciou propinas no seio de uma organização espelhada no tal de Bope, e que se chama Grupo de Repressão a Roubos e Assaltos, como se para isso precisasse um grupo especial e não fosse a função precípua da polícia. Da civil e da militar. E até dos cidadãos comuns. Tem mais: bandidos continuam ocultando o rosto sob capuzes na hora de agir e sob a camisa quando são presos, porque, em verdade eles andam por aí, com a cara mais feliz do mundo, despreocupados, como se fossem gente boa que acabou de fazer as compras da semana no supermercado.

Temos portanto um Brasil violento que mata, esfola e atira pela janela crianças de cinco anos, um Brasil de colarinho branco que assalta os cofres públicos e um Brasil noturno que assalta com uniformes da polícia militar, roubados também, naturalmente sem falar nos ladrões de documentos, de terras e até da esmola da missa dominical.

Procurando nos arquivos jornalísticos, vê-se que há cem anos é a mesma coisa. Pois muito bem, então, feitas as contas, dá para exclamar como em Portugal, há duzentos: “Tudo como dantes no quartel de Abrantes”...






UM ACORDO PARA 240 MILHÕES
Walter Galvani, em 18/05/2008

Crônica publicada hoje no jornal ABC DOMINGO, órgão do Grupo Editorial Sinos, que circula em Novo Hamburgo, sua sede, Porto Alegre e toda a região metropolitana

O ACORDO E O DESACORDO
Walter Galvani


A Assembléia Nacional Portuguesa aprovou sexta-feira o Acordo Ortográfico que, em verdade carecia disso para entrar em vigor, embora o Brasil já o houvesse ratificado desde 2007, junto com as repúblicas do Cabo Verde e de São Tomé e Príncipe. São 230 milhões de falantes da língua portuguesa no mundo e o Brasil contribui com 180 milhões, aproximadamente, talvez um pouco mais, porque as coisas são muito rápidas em nosso país e quando este texto estiver sendo lido, já estaremos mais a frente...

O acordo que estava sendo chamado de “desacordo” em Portugal, altera 0,43% do dicionário brasileiro e 1,42 do português europeu e da maioria das suas ex-colônias africanas que de um modo geral seguiram a norma lusa. A extinção do trema, que a maioria já não usava no Brasil é mudança para nós, junto com a queda dos acentos diferenciais e o retorno de três letras ao alfabeto, K, Y e W, que passa para 26 a partir da entrada em vigor, que o MEC estabeleceu para 2010. Desde a aprovação pelos deputados, publicação no diário oficial e sanção do presidente Cavaco Silva que disse de sua posição favorável, contar-se-ão mais seis anos, portanto, 2014 é o portal. Timor Leste que se tornou independente em 2002, deverá também assinar o acordo, mas a guerra lá, com a presença de muitos professores brasileiros aliás, é pela propagação da língua portuguesa, suplantada em muitas regiões pelo tétum, que predomina sobre cinco dialetos ou mais. Há problemas semelhantes também de choques com línguas locais, na Guiné Bissau e, é claro, nos enclaves coloniais que ainda geram o cultivo do português na Ásia, como Goa, Damão, Diu, Macau, ou na chamada “diáspora portuguesa”, os cerca de 2.500.000 de emigrados e seus descendentes, em especial na Europa, nos Estados Unidos e na Venezuela. E problemas a menos em Angola e a mais em Moçambique. É uma língua muito falada e predominante na maioria dos lugares aonde chegou, dada à superioridade tecnológica, militar e econômica dos descobridores e viajantes portugueses. No Brasil mais ainda, pois apenas resistem alguns focos históricos indígenas na Amazônia, cada vez em menor número, esmagados e conquistados pelo falar brasileiro, pelo cafezinho, o futebol, o carnaval e a televisão.







HOJE É O DIA DO ABRAÇO, MAS ONTEM FOI O DIA DO DESENVOLVIMENTO CULTURAL
Walter Galvani, em 22/05/2008

Crônica publicada hoje no Diário de Canoas, minha terra natal

DIA DO DESENVOLVIMENTO CULTURAL



Walter Galvani





O dia de ontem bem que poderia ter sido assinalado por diversas atividades, mas a UNESCO ao instituí-lo, deve ter imaginado que são tantas as datas criadas para isso ou aquilo, que é preciso dar um pouco de tempo às pessoas, para ver se as coisas “pegam”. O Brasil serve de exemplo: aqui há leis que “pegam” e as que “não pegam”, sinaleiras que “pegam” e que “não pegam”. Pois, ontem foi o Dia do Desenvolvimento Cultural.

Em Canoas, não tem sido descurado este aspecto da atividade no município, tanto que a direção do Departamento Cultural está entregue à uma pessoa que conhece o setor, que tem folha de serviços prestada e continua em intensa e entusiasmada atuação: Ivone Frare. Ela tem contribuído com sua experiência e conhecimento ao andamento da cidade que, curiosamente, parece ter nascido sob o signo da atenção para com a Cultura, tantas tem sido as promoções, eventos e atividades que, ao longo dos anos tem acontecido.

Pena que não está mais em nossa cidade a “Casa Arte” que se mudou para a rua Cel Bordini, em Porto Alegre, mas, pelo menos lá na capital, continua a projetar Canoas, pois foi aqui que ela nasceu, os que atuam no setor sabem muito bem disso e os que dela se aproximam, logo ficam sabendo, porque o seu proprietário jamais esconde dois fatos fundamentais em sua vida: a “Casa Arte” nasceu em Canoas; e ele também. Casualmente, Darwin Luiz Longoni, descendente de uma família prestigiosa de nossa terra, filho que é de Jacob Longoni, que foi inclusive vice-prefeito, por seu turno gerador de uma prole numerosa, como nos velhos tempos, também nasceu aqui, ali nos altos da rua Santos Ferreira, um dos núcleos iniciais de povoação local e nesta data de ontem esteve de aniversário.

O “Dia do Desenvolvimento Cultural” deve servir também para homenagear Francisco Trois, que, como presidente da Fundação Cultural Canoense, mestre internacional de xadrez e homem de cultura, integrante de uma família que por isso também se destaca, tem levado adiante intensa e valiosa atividade, por exemplo a comemoração do Dia Internacional do Livro, transcorrido a 23 de abril.




GAÚCHOS FAZENDO GOLS NAS LETRAS
Walter Galvani, em 23/05/2008

Crônica publicada neste final de semana no Diário Popular, de Pelotas, o mais antigo jornal diário em circulação no Rio Grande do Sul:

GOL DE LETRA

Walter Galvani

Os gaúchos andam por aí nas artes e nas letras e de vez em quando se converte um gol de letra, para sacudir as redes e mostrar que é possível, sim, fazer sucesso acima do Mampituba. É o caso de Cláudio Lovato Filho, nascido em Santa Maria, que se formou em jornalismo em Porto Alegre e hoje mora no Rio de Janeiro. Ele lançou, em 2002, “Na marca do pênalti”, e os seguidores do futebol sabem bem o que quer dizer a bola naquele pequeno círculo de cal, distante poucos metros, ou melhor, na cara dos goleiros e a responsabilidade do chutador. Dizem, aliás, nos subterrâneos do esporte, que o pênalti é uma coisa tão séria que quem deveria cobrar era o presidente do clube...

Depois daquele seu primeiro gol, Cláudio Lovato Filho seguiu adiante em sua carreira jornalística. Depois de atuar em Santa Catarina, hoje está fazendo gols no Rio de Janeiro e sua capacidade de goleador está sendo testada neste livro que apresenta agora pela editora Record, “O Batedor de Faltas”. Quem leu o primeiro já pode imaginar até onde Lovato pode ir. Aliás, costuma-se dizer que a literatura deve ao futebol um grande livro e o vice-versa. Quem sabe não se está diante do cumprimento deste desafio? Tomara e tomara que o gol seja de um gaúcho e jornalista.

Não são poucos os jornalistas que conhecem bem vestiários e gramados, que tratam a língua com intimidade e poderiam se aprofundar nos dramas e comédias deste esporte nacional. Mas, na maioria dos casos, a pressa e a necessidade de cumprir os compromissos profissionais, os deixa fora desta magnífica cancha com tantos leitores em potencial. E até poderiam ajudar e ampliar o número de leitores, promovendo a literatura no meio da multidão que acorre aos estádios ou que hoje, assiste pela televisão.

Poderiam, quem sabe, devolver a emoção que por vezes falta ao jogo em sim, resultado de certas tramas, arbitragens, leis e coisas piores que andam por aí... haja-se em conta aquele campeonato que o próprio juiz confessou que “deu” para o Coríntians sobre o Internacional de Porto Alegre. E outros que tais.

Pelotas tem uma grande tradição literária e esportiva. A palavra está com os craques da literatura e do esporte.




LIVROS, LIVROS ÀS MÃOS CHEIAS...
Walter Galvani, em 24/05/2008

Já dizia Castro Alves que o "livro caindo n'alma, é germem que faz a palma, é chuva que faz o mar". Crônica publicada hoje no jornal A Razão de Santa Maria:

HOJE NAS LIVRARIAS

Walter Galvani

A Editora Record colocou uma penca de lançamentos nas livrarias neste dia 23 de maio: desde “O batedor de faltas”, do gaúcho Cláudio Lovato Filho, jornalista, nascido em 1965 em Santa Maria, formado pela PUCRS em 88 e radicado no Rio de Janeiro, há 15 anos, até o best-seller máximo português José Rodrigues dos Santos, escritor e apresentador de televisão, que em “A fórmula de Deus” faz uma fantástica viagem às origens do tempo e reaparece com mais uma aventura do seu personagem já consagrado, o pesquisador Tomás Noronha, professor de história na Universidade Nova de Lisboa, que identifica uma conspiração para descobrir a prova científica da existência de Deus.

Este desafio rendeu-lhe um livro que já vendeu 125.000 exemplares numa população, a de Portugal, de 11 milhões de pessoas. É só fazer a conta: se fosse no Brasil, com 183 milhões, este feito dele poderia alcançar números de Paulo Coelho, tipo dois milhões de exemplares.

(O Sérgio Faraco, autor de alguns dos melhores contos rio-grandenses, contesta os números que apontam o gaúcho como o super-leitor, tanto que lê 5,8 livros por ano, muito acima da média nacional que é de 1,5. Não sei o que é verdade, às vezes também duvido das pesquisas, sei de uma, de grande instituto de pesquisa de opinião pública que pediu ao Breno Caldas, à época diretor do Correio do Povo de Porto Alegre, que dissesse o que pretendia provar que o instituto o faria. Não sei se fez, sei que o Breno Caldas jamais aceitou a idéia de contratar tais serviços, alegando justamente aquele oferecimento secreto, mas nem tanto.)

Pois bem, além da “Fórmula de Deus”, chega hoje às livrarias o livro de Márcia Tiburi que tem se notabilizado por sua atuação na mídia, “Filosofia em comum”, mas é muito bom que um livro desses seja lido. Nem tudo está perdido, parece.

Ah, e está chegando aí também, um Pablo Neruda especial para as crianças: o “Livro das Perguntas”. Parece que Neruda tem as respostas, o que é mais interessante.

Nosso conterrâneo Cláudio Lovato Filho, o santamariense, lança seu segundo livro sobre os bastidores do futebol transformados em matéria literária. O primeiro, “Na marca do pênalti” foi êxito de vendas. Agora ele vem com “O batedor de faltas”. É para conferir e aguardar depois o lançamento em Santa Maria para pegar o autógrafo dele.




VAMOS DEBATER? O PENSAMENTO NÃO DEVE TER FRONTEIRAS
Walter Galvani, em 25/05/2008

Crônica publicada hoje no jornal ABC DOMINGO, do Grupo Editorial Sinos

PENSAMENTO SEM FRONTEIRAS

Walter Galvani

Aproveitando a onda de sucesso internacional do cinema brasileiro, chegou a vez do debate sobre ele na série “Fronteiras do Pensamento”, sessão de amanhã à noite no Salão de Atos da UFRGS. Em momento privilegiado, estarão no palco dois brasileiros que sabem o que fazem nesta área: José Padilha, autor do incensado “Tropa de elite” (que não verei nunca) e Beto Brant que falará de “Filme livro, filmo livre”, um pequeno trocadilho que coloca em jogo questões bem mais importantes do que o fascismo explícito de outros filmes que andam por aí. Eis uma boa oportunidade, afinal o título da série é justamente “As fronteiras do pensamento” e é bom haver opiniões discordantes, por isso vou logo colocando a minha: não me interessa o assunto de que trata “tropa de elite”. Prefiro outras tropas e outras elites...

Neste fim-de-semana, por exemplo, festejou-se o “Dia Nacional do Café”, um tema curioso porque são ícones da inacreditável integração nacional de um país continental, o samba, o futebol, a caipirinha e o cafezinho. E ontem foi o dia também em que uma quantidade inacreditável de livros chegou às livrarias, essas que tem café e outras que não. Festas para a leitura e para o paladar. Mas, no meio destes lançamentos há de tudo: desde o livro em que José Roberto dos Santos, um portuguesinho “best-seller”, aborda “O enigma de Deus”, perseguindo a fórmula científica da existência do ser supremo. Eis um livro que vendeu 125.000 exemplares em Portugal, para uma população de 11 milhões. Feita uma equação, a lógica vai levá-lo ao erro: se fosse no Brasil, venderia 2 milhões e tanto do seu livro para nossos 183 milhões! Não é assim. Pena.

Tem mais para ler: o gaúcho Cláudio Lovato Filho, jornalista, nascido em Santa Maria, formado pela PUCRS, que atuou em Santa Catarina e hoje mora no Rio, está lançando “O batedor de faltas”, segundo livro na área das relações entre o futebol e a literatura. O primeiro, em 2002, foi “O batedor de faltas”. Aí estão bons assuntos que podem servir para o Beto Brant abordar e não para o José Padilha, é claro. Mais debates no “Fronteiras do pensamento” na certa provocará o livro coordenado por Nelson Boeira, ex-reitor da Uergs, sobre filosofia, comunicação, ciências sociais, literatura e suas relações com a História em onze ensaios de primeira grandeza e que podem “levar o povo a pensar”.




OS 200 ANOS DE JORNALISMO NO BRASIL OU PARA O BRASIL
Walter Galvani, em 01/06/2008

Começou antes. Lá fora, com o Correio Braziliense, em Londres.
A data é 1º de junho de 1808.
Crônica publicada hoje


OS 200 ANOS DA NOTÍCIA

Walter Galvani


Com que prazer estou redigindo esta crônica! Afinal, além de todo o gosto natural que me dá sempre, o escrever alguma coisa, estou fazendo neste momento, o exercício que comemora os 200 anos da imprensa brasileira! Ainda não da “imprensa no Brasil”, porque isto só viria mais tarde, em 1827, portanto de hoje a 171 anos, mas já vale, porque o dia lº de junho de 1808, foi quando circulou pela primeira vez o “Correio Braziliense”, dirigido pelo cidadão de Colônia do Sacramento, educado inicialmente no Rio Grande do Sul, em Pelotas, Hipólito José da Costa, que mais adiante estudou Direito em Coimbra e se tornou maçom, exilando-se na Inglaterra, por perseguição política do reinado português. E ali começa a nossa história de luta pela liberdade de imprensa, e, inicialmente, pela própria imprensa que aqui estava proibida.

Foi o príncipe regente, mais adiante Dom João VI, sagrado rei aqui no Brasil, que permitiu a primeira prensa tipográfica em nosso país. Mas, então, o “Correio Braziliense” já havia circulado em Londres e enviado por malas postais para o próprio Brasil e para Portugal também, defendendo medidas necessárias como abertura dos portos e a própria independência do Brasil.

Historicamente esta data era ignorada. Foi a ARI (Associação Riograndense de Imprensa) quem por ela combateu, e em 1999, medida encaminhada na Câmara dos Deputados por Nelson Marchezan, transformou o Dia da Imprensa, que se comemorava a 10 de setembro (data inicial da “Gazeta de Notícias”, um diário oficial da Corte no Rio de Janeiro) em 1º de Junho, o verdadeiro nascimento de uma imprensa legitimamente brasileira. Embora sendo impressa no exterior. Por isso, a ARI lança amanhã de manhã com seu programa “ComunicARI” uma integração com os cursos de comunicação social do Rio Grande do Sul e comemora no dia 4, no Museu Hipólito José da Costa em Porto Alegre, este segundo centenário de imprensa no Brasil.

É um instante de alegria e de reflexão portanto. Podemos começar imaginando quantas vezes, nestes duzentos anos, os poderosos de plantão tentaram calar a imprensa brasileira. Sem conseguí-lo.





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