nteligência artificial. Nessa data, há 5 anos exatos, ou seja no ano de 1997, quando a União Soviética já era uma ruína, um dos seus maiores orgulhos, dos poucos que restavam, era o campeão mundial de xadrez, Kasparov.
Pois os computadores da IBM, o mais pesado deles, o “Deep Blue”, ou o “Azul Profundo” como fora poeticamente batizado, bateu o campeão mundial.
Pela primeira vez ficou demonstrado que a inteligência artificial seria capaz de, em certas condições especiais, vencer ao ser humano. Foi arrasador para nosso orgulho como espécie. Afinal, criamos o computador, o “Deep Blue” tinha atrás de si os programadores da IBM, mas no comando também havia homens, é óbvio, mas o indiscutível é que o campeão foi à lona.
Kasparov esperneou, os demais mestres internacionais se indignaram, no entanto tudo isso foi inútil.
O “Deep Blue” dera uma demonstração prática do ponto que chegamos e do que ainda poderemos alcançar.
Bem, dali para cá já houve de tudo, mais meia dúzia de guerras, o Afeganistão, Israel versus palestinos mais uma vez, a derrubada das Torres Gêmeas, não encontraram a cura do câncer, da aids, do mal de parkinson, o Papa piorou muito mas continua o mesmo Wojtila, os chineses são cada vez mais numerosos, a IBM dispensou milhares de funcionários pelo mundo afora, não sei o que é feito do “Deep Blue” deve ser hoje uma montanha de “chips” inutilizados, mas o feito lá está.
Particularmente eu gostaria de que não houvesse acontecido. Queria que o Homem continuasse preponderando sobre os outros animais e sobretudo sobre as máquinas. Mas, não sei não... Com a aceleração do crescimento da inteligência dos cães (que daqui a pouco estarão falando, já que “comunicar-se” com os humanos já o fazem), com o que se sabe sobre os orangotangos e os chimpanzés, daqui a pouco o cetro máximo do xadrez vai para outras mãos...
Não é um dia para comemorar. Porque o desenvolvimento de tais máquinas para o bem, também pode servir para o mal. Conhecemos a Humanidade. Não é de hoje. Eu, pelo menos, há mais de seis décadas... Então já sei que podemos esperar sempre o pior.
Vejam o que ocorre no Oriente Médio. Será que os símios seriam capazes de guerrear-se daquele modo ?
Vamos lembrar bem então este dia 10 de abril em que o homem conseguiu perder para a máquina. Não é uma data para festejar. Mas é bom tomar nota, recordar os fatos, e botar nossas hipotéticas barbas, devidamente de molho...
postado por em 09/04/02
postado por em 09/04/02
É preciso verificar profundamente o que é de fato uma tradição válida e saber se aquilo engrandece uma comunidade. Tenho ouvido falar muito em "Farra do Boi". Como nas "touradas" espanholas, a pergunta é: constrói alguma coisa ? Vale a pena ? É alguma coisa "civilizada"? Não me importa que Hemingway tenha produzido belas páginas inspiradas na corrida de touros. postado por walter em 09/04/02
O BAILE DA RAMAGEM
Walter Galvani
Estando em Florianópolis, partilhei durante estes últimos dias da acirrada discussão em torno à chamada “Farra do Boi”, uma “festa (?) popular” que opõe durante dois ou três dias, nos feriados de Páscoa, alguns animais propositadamente adquiridos para tal finalidade e soltos para serem perseguidos pela população. Até à morte. Dois bois naturalmente. Apesar de proibido por lei, decisão do STF, a prática continua em ação em Florianópolis e em algumas cidades do litoral catarinense, nomeadamente Governador Celso Ramos.
Por falar em governador, Espiridão Amin manifestou-se a propósito do assunto dizendo que o seu governo protege os animais e em publicidade disse que “respeita a vida”. Mais claramente, o cartaz dizia: “Sou catarinense. Respeito os animais porque respeito a vida. Sou da paz.” Em carta ao jornal Diário Catarinense o governador mandou que uma senhora, representante da Associação Nacional de Proteção aos Animais, fosse cuidar da violência das ruas cariocas...
Isso me faz lembrar o “Baile da Ramada”, uma antiga canção popular rio-grandense que falava em tiros, coices, bofetadas e outras elevadas manifestações “culturais” da “grossura” que nada tem a ver, na verdade, com as caras tradições gaúchas que os CTGs se encarregaram de espalhar e representar pelo país afora. E agora até pelo mundo, porque sei da e4xist6encia de CTG até na Califórnia.
Quanto à “Farra do Boi” acho bom pensar duas vezes. É verdade que existe a “Tourada” na Espanha, mas lida-se com touros e não com bois, em primeiro lugar... Em segundo lugar, há a tal “Corrida do dia de San Fermín”, em Pamplona, que muito se assemelha à “farra do boi” catarinense, sem que uma coisa legitime a outra. No caso, também se trata de touro e não de boi...
Vamos mais longe: se é para imitar ou seguir tradições, então é melhor pôr de lado esta de touradas, porque hoje no mundo inteiro se levanta a opinião pública contra a “fiesta” espanhola. Lá também o touro é submetido aos maiores vexames e crueldades. Só é entregue ao toureiro para a girada final, depois de haver sido enfraquecido e ridicularizado pelos banderilheiros e outros “valentes” que já o fizeram perder sangue e forças.
Não sei se de fato os Açores ainda preservam este selvagem costume de perseguir um animal indefeso, levando-o ao sofrimento, a dor e à morte. É de ver-se. Prometo investigá-lo.
Quanto à “Farra” catarinense posso informar que 3 foram presos. Três bois, naturalmente...
Pincei na data de hoje, Mozart, Pedro I de Portugal, o Justo e a descoberta da Florida que os americanos pronunciam "Flórida"... postado por walter em 08/04/02
COSI FAN TUTTE
Walter Galvani
Assim fazem todos. Ou seja: “Cosi fan tutte”. E assim se tem desculpas para tudo e para todos. A ópera mais difícil de Mozart e aquela que tem o mais claro recado psico-social teve uma estréia de gala em Lisboa em 1985, quando foi pela primeira vez representada por um elenco de profissionais locais, duzentos anos depois de haver sido criada. Viviam-se os primeiros anos pós revolução dos Cravos Vermelhos, já existias ambiente e a censura fora abolida. Não fora isso, o revolucionário recado de Mozart não poderia ser levado à cena.
A força de um artista está aí bem explicitada. Duvido que se representasse hoje esta ópera no Brasil, em primeiro lugar porque o gênero está um pouco abalado em sua popularidade: as pessoas preferem “A Casa dos Artistas” e o “Big Brother”, ou as lágrimas de crocodilo do Romário. Mas, bem que este país merecia uma reposição do “Assim fazem todos”, basta percorrer a nossa área política para colecionar impressões de que é assim mesmo.
Mas a data de hoje nos remete também para outros dois fatos da História, capazes de demonstrar que nem sempre foi assim.
O primeiro se refere ao ano de 1357. Nascia um menino, batizado logo como Pedro e com este nome ele viria a ser Dom Pedro I, de Portugal. Sabem o que fez o jovem Pedro ? Apaixonou-se pela dama de companhia de sua esposa. Numa ausência ela foi morta a mando de políticos, com a anuência do seu próprio pai, pois, em sendo espanhola poderia contribuir para uma incômoda aproximação do seu país com a Espanha, quando o jovem chegasse a rei. Pedro voltou de viagem e, vocês todos sabem a continuação da história, “era tarde, Inês é morta!”
Só que ele não estava disposto a lavar as mãos, esquecer, fazer como todos. Quando chegou a Rei, buscou a vingança.
Desenterrou-a, fê-la sentar-se no trono e ordenou a seus nobres que, em fila, beijassem-lhe as mãos. “Depois de morta foi rainha! “- escreveu Luís Vaz de Camões.
Levou sua vingança adiante: arrancou o coração dos matadores de Inês e comemorou seu feito em Coimbra.
“Cosi fan tutte”? Não, a maioria deixa por isso mesmo. Não era o caso do jovem nascido a 8 de abril, há 645 anos e cuja memória, por isto mesmo, jamais foi esquecida. Nem a de Inês.
Como Mozart não será nunca olvidado e por outros motivos, também aquele aventureiro espanhol, Ponce de Leon que ocupou a península da Florida em nome do seu rei, num 8 de abril. Ano: 1513. Para sorte dele não viveu para verem mudar o nome de sua terra “descoberta” de Florida, como ele batizou-a por ser cheia de flores, para “Flórida” como pronunciam os americanos.
Os mesmos que estão pensando à esta altura que são os xerifes do mundo. Pena que suas próprias criaturas não os obedeçam... Vide estado de Israel que está surdo aos apelos do cow-boy...
Continua a matança, a pobreza endêmica, a desnutrição, a guerra, no dia em que a Organização Mundial de Saúde completa 54 anos postado por walter em 07/04/02
SAÚDE. SAÚDE ?
Walter Galvani
Parece mentira que o Dia Mundial da Saúde esteja sendo comemorado hoje, mais uma vez, com mais da metade do mundo padecendo justamente de problemas dessa área. E isso porque os governos, teimosamente, seguem considerando outras áreas prioritárias (construção de estradas, viadutos, pontes ou remunerando regiamente seus parlamentos ou, o que é muito pior, equipando seus exércitos, matando) enquanto sua população padece.
O exemplo de Cuba deve ser lembrado nessa hora, ainda mais quando se sabe que no dia 16, portanto daqui a nove dias, haverá a votação de uma moção que a condena por causa dos “direitos humanos”, que estaria sendo apresentada pela Argentina, Uruguai ou a Costa Rica. Nenhum deles parece muito disposto a assumir esta missão que lhes teria sido designada, ao que dizem os cubanos pelos Estados Unidos. Mas o fato é que a tal moção tem este prazo para aparecer e ser votada.
Enquanto isto os direitos humanos são desrespeitados para valer no território palestino, onde cada dia morrem cinqüenta, sacrificados pela questão territorial que opõe o país nascente e o estado de Israel.
Direitos humanos que são vitimados todos os dias nas ruas brasileiras – e não vejo razão para os cariocas se oporem à historieta dos Simpsons, que está programada para ir ao ar em junho e que conta a visita deles ao Rio de Janeiro com as conseqüências que, sabemos, afeta estrangeiros e... brasileiros que caem na louca loteria da insegurança da antiga capital.
Eu sei porque o Rio ficou assim. Agora, não permitir que os de fora falem do assunto é o mesmo que leva o governador de Santa Catarina, Espiridião Amim a se pronunciar contra uma senhora carioca que preside a Associação Protetora dos Animais e que ousou reclamar da “Farra do Boi”.
A propósito: atenção Açores! Ainda existe aí a “Farra do Boi” ? Ou seja, ainda matam animais em plena rua numa euforia generalizada de gente a persegui-los ?
Em vez da “Farra do Boi” então eu gostaria de ver a “farra do touro”... Pequena diferença, não é mesmo ?
Mas este assunto já é com os “direitos dos animais”. Voltemos aos direitos das gentes. Então vamos comemorar outro Dia Mundial da Saúde com gente morrendo de fome, de dengue, de guerras, de desnutrição. Há gente que sobrevive, 2 bilhões, com menos de 2 reais e 30 centavos por dia. Façam a conta.
Enquanto isto Israel gasta o dinheiro que recebe dos judeus de todo o mundo em canhões, bombas, tanques, aviões. Será que é para isto que sde remetem fundos do mundo todo para o Oriente Médio ?
Ariel não merece o nome que tem. Não é espírito dos ares. Ao contrário, me parece muito mais Caliban do que Ariel...
Shalon! meu caro Sharon...
Continuemos com os olhos e o coração postos no Oriente Médio. Parece que Bush deu um pouco mais de ênfase à sua cobrança de Israel, uma tentativa de conter o ímpeto belicista de Ariel Sharon. Metade mais um dos judeus de todo o mundo discorda das posições do primeiro ministro de Israel. Vamos ver o que nos reserva a sexta, dia sagrado dos muçulmanos e o sábado, dia sagrado dos judeus. Queremos a paz. Não só no Oriente, mas principalmente no Oriente, hoje. Lembrando que ali nasceram as perigosas religiões monoteistas, com suas exigências e o seu fanatismo, ao lado dos seus notáveis códigos de ética. Que nem sempre são cumpridos. postado por walter em 05/04/02
Quando se entenderão no Oriente Médio ? Reuniões e mais reuniões, enquanto os tanques avançam e troam os canhões... postado por walter em 04/04/02
TARDE DEMAIS
Walter Galvani
Os vinte e dois ministros de Relações Exteriores das nações árabes pretendem realizar uma reunião depois de amanhã no Cairo, capital do Egito, para decidir o que farão no caso do ataque de Israel aos palestinos em resposta aos atos terroristas cometidos por defensores da causa de Yasser Arafat. Ontem, 57 membros da chamada Conferência Islâmica, reunidos na Malásia, emitiram uma forte declaração que, no entanto, não põe fim ao conflito e sequer define o que é terrorismo.
Na verdade esta é uma questão que está na base de toda a discussão e pode inviabilizar tanto o que sucede no Oriente Médio como em qualquer parte do mundo. Os defensores dos direitos das minorias alegam que há um “terrorismo de estado” e este é caracterizadamente desenvolvido por Israel e pelos Estados Unidos e contra eles é lícito realizar ações de defesa, neste caso aquelas praticadas por pessoas que lançando artefatos mortais ou se auto-transformando em bombas, atuam em nome de princípios, doutrinas ou postulados regionais ou nacionais. O campo para discussão é vasto e não foi resolvido em Jakarta como não o será no Cairo. E, suspeito, quando acontecer a reunião na capital egípcia será tarde demais para Arafat e o projeto de estado palestino.
Israel tem um conceito de segurança desenvolvido pela prática ao longo do tempo, desde que Bem Gurion desembarcou com as tropas judaicas para estabelecer o estado sionista na região. De nada adianta o debate sobre direitos históricos, a lei do mais forte é que há de se impor, sejamos realistas. Neste sentido, pareceria simples imaginar que todos os estados árabes unidos, somando uma população centenas de vezes maior do que Israel, simplesmente imporiam um bloqueio e uma ação bélica que os levaria à vitória. Até poderia ser, mas não à paz. E nem tampouco ao aniquilamento dos seguidores de Ariel Sharon.
A União Européia, tanto como a própria ONU, enviaram observadores, hoje e amanhã estarão “visitando” o “front”, que aliás é tão móvel quanto se possa imaginar numa guerra moderna, mas acho que todos acabarão se refugiando na Basílica da Natividade, onde depondo as armas pessoais estarão protegidos segundo o arcebispo local, de cuja palavra duvido porque acho que não tem como sustentá-la. Nem a “a bandeira do MST” e o colono gaúcho salvam Arafat...
A menos que os Estados Unidos, principal apoio de Israel, corte imediatamente qualquer tipo de ajuda e apoio militar. Que de repente, George Bush se transforme num grande estadista e intervenha.
Esses são os fatos, “alea jacta est” – os dados estão lançados.
O Egito fornece anualmente 15 milhões de toneladas de petróleo aos israelenses – não de graça, naturalmente, é uma operação comercial de venda, mas estrategicamente muito importante neste momento. Se na seqüência do corte de relações, for suspenso o fornecimento de combustível, os tanques pararão de mover-se.
É toda uma conjuntura, mas numa guerra, segundo Júlio César, “os acontecimentos importantes resultam de causas triviais”. Nada mudou nestes últimos dois mil anos. Prefiro escutar a sabedoria de César e ver no que vai dar.
Mas, acabo de recusar um convite para viajar com todas as despesas pagas até Jerusalém e Belém.
Se Cristo nascesse agora na certa não atingiria a maioridade... Morreria muito antes da idade útil de ser levado a uma cruz pelos romanos...
Jogamos fora nossas vidas, sem sequer perceber que erramos e poderíamos acertar. Basta mudar nossas perquenas vidas. Falo nas notícias sobre violência e crime, guerra e mais guerra postado por walter em 03/04/02
Tempo desperdiçado
Walter Galvani
Teofrasto, filósofo grego que morreu em Atenas no ano 387 A . C. e sucedeu a Aristóteles na direção do Liceu, escreveu com imensa propriedade que “o nosso gasto mais dispendioso é o tempo”. O único bem perecível e que não tem reposição. Até o petróleo, energia que move nossas máquinas, embora suba de preço com a instabilidade do Oriente Médio, quando estiver esgotado será substituído por outra fonte, outro combustível.
Mas e o nosso precioso tempo que gastamos inutilmente, sentados diante de um aparelho de televisão ou lendo jornais e escutando rádios, para saber que o mundo gira sem parar e que os homens continuam se matando ?
Não há nenhuma reposição para este precioso bem.
Tomamos conhecimento dos horrores diários e isto não nos torna melhores. Os bandidos ganham espaço na “mídia”, mais espaço que qualquer médico, cientista, escritor ou artista. Nenhum nome da Música, das Artes ou da Literatura a não ser que morra em circunstâncias trágicas, ganha primeira página dos jornais ou mais do que quinze segundos de tevê.
Porque ? Ora porque o homem não sabe administrar o seu tempo pessoal e o dos outros. Porque não lhe interessa, na verdade, porque estamos cada vez mais pobres e mais pobres ficaremos. Porque somos liderados por gente de baixa extração e porque não há nem perspectiva de mudança. E porque os interesses econômicos se sobrepõem às reais necessidades populares.
Fazer o quê ?
No mínimos demonstrar nossa inconformidade. E é o que começo a fazer aqui. Aliás, é o que venho fazendo há muito tempo. E se o leitor concorda com meu ponto de vista (ou dele discorda) mande dizer. Escreva para walter@cpovo.net
Vamos discutir o tema. E ver a que chegaremos.
Dia Internacional do Livro Infantil, eis o que comemorar hoje. Se acreditarmos em futuro, eis o caminho postado por walter em 02/04/02
LER E APRENDER A VIDA
Walter Galvani
Hans Chrstian Andersen talvez seja o caso mais bem acabado de sucesso como escritor de histórias para crianças do mundo e por isto me parece muito bem escolhida a data de hoje, 2 de abril, para celebrá-lo instituindo o “Dia Internacional do Livro Infantil”. São poucos os que não conhecem por haverem lhes contado as narrações deste dinamarquês genial que hoje seria um J.K.Rowling de muito maior porte ainda. Para isto bastariam “O Patinho Feio”, “A pequena sereia” e sobretudo o fantástico “Pequeno Polegar”, entre outros. Andersen nasceu em 1805 em Odense e morreu em Copenhague, capital da Dinamarca, setenta anos depois.
Imaginação, graça, criatividade e uma certa melancolia, foram suas marcas principais, que fizeram a delícia de quase duzentos anos de leitura e portanto, de quinze gerações.
Hoje há o “Harry Potter” (Rowling) e por certo “O Senhor dos Anéis” (J.R.R. Tolkiens) , por vezes nem tanto para crianças, mas à elas dirigindo seu apelo básico e como fenômenos engajados no sistema moderno, beneficiados pela “mídia” global, explodiram no imaginário e nas estantes do mundo ocidental. Principalmente onde sobra algum dinheiro para comprar livros e onde exista o hábito.
Em Porto Alegre temos batalhado neste sentido nos últimos anos e graças aos autores que tem se dedicado à literatura infantil, como Antônio Hohlfeldt, Carlos Urbim, Jane Tutikian (esta mais para o público adolescente) e sobretudo Maria Dinorah, à cada Feira do Livro se comemora o crescimento das vendas.
O pioneiro em nosso país foi Monteiro Lobato e por isto o mês de abril dedica duas datas ao livro infantil: hoje, por causa de Andersen e o dia 18, nascimento de Lobato, que neste ano completaria 180, naturalmente se vivo fosse. E quem não conhece, ao menos de ver na televisão, o “Sítio do Picapau Amarelo”?
Entendo que há aí benefícios que vem se produzindo e multiplicando nestes anos todos, fazendo crescer o círculo dos futuros leitores. Não canso de dizer o quanto o livro pode ter significado no aprimoramento das pessoas, tanto como criaturas humanas quanto como profissionais que entram no mercado onde, cada vez mais, a diferenciação pessoal é o toque fundamental para assegurar uma carreira. Leiam pois, é o único conselho que sei dar. Mas leiam tudo o que lhes cair nas mãos.
Podem ler até jornais... – cuidando para não se deixar envenenar pelos enganos dos políticos e os excessos das páginas de polícia – sempre se encontra uma crônica, uma notícia positiva, um fato que precisa ser conhecido e compreendido.
Além disso, é preciso também aceitar que o jornalismo moderno também tem contribuído para a difusão da leitura, com a cobertura dada a escritores, prêmios e concursos literários, reuniões de academias, palestras, discussões e congressos.
Pensem por exemplo no que representa a Jornada Nacional de Literatura que se realiza a cada dois anos em Passo Fundo, Rio Grande do Sul, quando 4.000 pessoas discutem livros sob uma lona de circo durante uma semana ?
E as feiras do livro, de Porto Alegre, de Lisboa, de Buenos Aires, de Guadalajara, de Frankfurt, de São Paulo e do Rio de Janeiro ? E também as mais modestas, desde as pequenas cidades como Tapera, no interior gaúcho até Camaquã ou Canoas, Gravataí, enfim são tantas.
Como diria Castro Alves, viva o livro “este audaz guerreiro, que conquista o mundo inteiro, sem nunca ter Waterloo!” – mas já é preciso que se leia algo para entender o que significa “waterloo”...
Boa leitura, crianças e jovens! O mundo vos espera.
Que bom que as manchetes de hoje fossem apenas ingênuas brincadeiras de Primeiro de Abril ... postado por walter em 01/04/02
DIA DA MENTIRA
Walter Galvani
Nos meus tempos de criança, meio século ou mais atrás, eram tradicionais as brincadeiras no pátio do colégio ou nas salas de aula, neste primeiro dia de abril. O Dia dos Bobos conservava um espaço especial em nosso coração. Mudaram-lhe o nome, agora é o “Dia da Mentira”, nos Estados Unidos é o “Dia dos Loucos” como em outros lugares tem outros títulos, sempre com o mesmo propósito de brincar com a seriedade e desconstruir uma realidade incômoda ou pesada.
Uma escola em Florianópolis, adequadamente partiu para a idéia de analisar e discutir em aula o significado desta brincadeira universal que diverte e ao mesmo tempo faz pensar.
O tema é encarado com tal seriedade que eventualmente ocorre até a troca de sopapos ou até desentendimentos mais sérios por causa da brincadeira ingênua que está por trás.
Evidentemente que gostaríamos que as manchetes de hoje fizessem parte, todas, do esquema do dia 1º de Abril e que não tivessem a seriedade que infelizmente tem. Que não fosse verdade, mas que apenas divertimentos do dia a informação de que tantos ainda morrem de fome ou que homens e mulheres-bomba fazem vítimas por motivos políticos ou que tanques arrasam aldeias inteiras ou destroem cidades. Ou então que os homens continuem a se matar, a destruir, por território, por dinheiro e por poder.
Brincadeiras também seriam as notícias sobre os seqüestros, assaltos, acidentes, assassinatos no Brasil. A morte de crianças por falta de alimentos, as vítimas da dengue, a pobreza e a ignorância.
Perdeu a graça o Dia dos Bobos, mas já foi tão forte no Brasil que até um movimento revolucionário que acabou em golpe de estado em 1964 foi antecipado para o dia 31 de março para não coincidir com o primeiro de abril e assim receber uma pecha da qual jamais se teria livrado. E olhem, aquilo não foi brincadeira, não...
Para a América Latina toda, o “Dia dos Bobos” ou “Dia da Mentira” é de uma espantosa realidade. Algo que o “realismo mágico” de Gabriel Garcia Marquez ou Julio Cortazar não conseguiria explicar.
É um bom momento de reflexão.
Todos temos responsabilidades no Oriente Médio. Em especial o Brasil que presidiu a sessão da ONU em que foi criado o estado de Israel, a Inglaterra que repartiu as terras quando se retirou e os Estados Unidos, que afinal, atribuem-se a liderança do mundo ocidental. postado por walter em 28/03/02
O ORIENTE PRÓXIMO
Walter Galvani
Num dia morrem 19, porque um guerrilheiro-suicida explodiu-se levando todos para o inferno ou para o céu, como queiram. No outro, os tanques arrasam um acampamento, porque dali pode ter partido o atacante. No dia seguinte mata-se alguém num bar do centro da capital e no outro um ônibus vai pelos ares, e então morrem trinta ou trinta e seis. A contabilidade é variável, há dias que são comemorados porque foram apenas quatro mortes e nas fileiras “inimigas”.
Esta é a vida no Oriente a que nos acostumamos a chamar de Médio, porque também há o Próximo e naturalmente todos nos parecem “distantes” o suficiente da nossa “civilização” e portanto de tais problemas estamos livres, isentos.
Pois não estamos. Quando nos servem diariamente ao café da manhã esta dose de horror, estamos ficando menores, diminuindo nossa importância humana. Impotentes individualmente continuamos a suportar o que nos toca, na esperança inútil de que no dia seguinte a Humanidade terá criado juízo.
Abrimos o jornal, assistimos à televisão, e a monótona repetição das desgraças já banalizou a tragédia. Não há o que dizer.
Há talvez o que fazer.
A responsabilidade é geral. De todos os povos envolvidos, das suas religiões, dos que dividem o poder nos corredores e gabinetes da ONU. Dos que se atribuem missões internacionais e responsabilidades. Dos que ajudaram a criar a situação.
A questão árabe-judaica não é apenas uma troca de terrenos ou localização de populações, não é de apelar para uma convivência pacífica entre desiguais, nem de uma aceitação dos diferentes, do fim de discriminações.
José Saramago tocou no ponto na sua segunda manifestação, quando afirmou: “Ter 100 mil palestinos obrigados a se espremer em três quilômetros quadrados em Gaza, enquanto nas colônias israelenses ao redor, tudo é iluminação, amplitude e conforto, ao lado de extensões relativamente grandes de aldeias arrasadas pela estratégia da expansão e domínio israelense.” Completou dizendo que a “dominação israelense é a forma mais perversa de apartheid”.
Vamos por partes: há uma diferença enorme, quilométrica, entre a ciência e a tecnologia de Israel e a de seus vizinhos. De um modo geral a demora cultural entre aquelas comunidades é da Idade Média para o Mundo moderno, centenas de anos. Nem todo o dinheiro acumulado pelo petróleo pelas nações árabes mudou esta proporção, porque os direitos do ouro negro serviram para enriquecer algumas famílias, mas tarda em chegar ao povão.
Só a demonstração de poderio e riqueza, portanto, já choca e agride. Nem era preciso reagir ou atacar, agredir ou responder aos ataques. Nenhuma bomba é mais destruidora do que a simples comparação entre a riqueza extrema e a pobreza absoluta.
Deus, Jeová e Alá não são a mesma pessoa, nem o mesmo deus. Cada um nasceu à sua maneira, e exclusivistas como são, afinal comandam as três maiores religiões monoteistas, querem tudo para seus seguidores e procuram “converter” os “infieis”. Aceitação, compreensão, tolerância ? Palavras difíceis aqui no Ocidente, porque iriam ser palatáveis no Oriente Médio, Próximo ou Extremo ?
Não vejo solução, não sou otimista. Para onde olho enxergo muita falta de vergonha e interesses comerciais apenas. Não creio que os homens se entendam, pois nunca se entenderam, sempre lutaram entre si como feras. Como aliás as feras só o fazem por territórios. Ou seja: não há muitas diferenças.
O escritor Alcy Cheuiche e a Reforma Agrária, uma oitava edição de livro, um milagre no Brasil e uma questão irresolvida por falta de ação e vontade. postado por walter em 27/03/02
ANAS E JOÕES SEM TERRA
Walter Galvani
Em outubro de 1990, na Feira do Livro de Porto Alegre, o escritor Alcy Cheuiche apresentava ao público o seu romance “Ana Sem Terra”. Uma visão política e sociológica, além do sentido de oportunidade, haviam levado o grande escritor gaúcho a apresentar seu trabalho, baseado no problema dos colonos sem terra, mais claro e identificável no Rio Grande do Sul, por ser este estado o mais atingido pela questão agrária, apesar da sua antiga posição (hoje contestada pelos concorrentes diretos Paraná, Goiás, Mato Grosso do Sul), de celeiro do Brasil.
O escritor Alcy, apesar de toda a sua ligação familiar e pessoal com o campo e a atividade pecuária e agrícola, teve a sensibilidade e a coragem para identificar a questão e apresentá-la à discussão do público, quando ainda estava bem ardente na memória da população a intervenção dos chamados “revolucionários” de 64, o que tornava qualquer questão social um perigoso caso de polícia.
O livro recebeu a consagração popular pela sua oportunidade e no próximo dia 22 de abril será alvo de homenagem e debate no Instituto Estadual do Livro por ocasião do lançamento da sua oitava edição.
Ora, se é uma raridade no Brasil um livro chegar à segunda edição, imagine-se, como no caso, à oitava.
Ganha mais do que nunca importância quando o debate deixa de ser literário ou de fortuna crítica do escritor para que se retome a questão das anas e dos joões sem terra deste país imenso que não sabe ou não quer fazer uma reforma agrária. Poderia fazê-la, sem dúvida, com a simples utilização das terras devolutas e o mesmo que se prometeu – e em muitos casos não se cumpriu – no século XIX aos colonos europeus, vindos da Alemanha e da Itália. Terras, sementes, ferramentas e no caso do século XXI, máquinas agrícolas, sejam elas de uma cooperativa estimulada ou do próprio governo, eis tudo o que se necessita, mas junto a isto uma imensa vontade política e capacidade técnica.
Não sei o que falta ao governo. Sei o que falta à Ana, a sem terra, a do Alcy Cheuiche que, contou-me o escritor gaúcho, pediu permissão à dona Mafalda, viúva de Erico Verissimo, para utilizar o trocadilho com a Ana de “O Tempo e o Vento”, aquela sim uma mulher com alguma terra, e uma das nossas ancestrais, formadoras da gente e da mentalidade do estado mais meridional do Brasil. Como sou lido – graças à Deus e a Internet – pelo mundo todo, neste caso felizmente globalizado, preciso dar esta explicação.
No caso da invasão da fazenda dos “parentes do presidente da república”, que tanto agitou a “mídia” e a opinião pública brasileira nesta semana pré-Páscoa, houve pronunciamento de autoridades que não se verificaram em casos semelhantes ocorridos, por exemplo no Rio Grande do Sul e é isto que espanta.
Condena-se, e com razão, a invasão da propriedade produtiva, o uso das instalações e o consumo indevido de alimentos e bebidas. Além disso, reprovável sem dúvida a exibição de uma ocupação ostensivamente política.
O ministro Marco Aurélio Mello, presidente do Superior Tribunal Federal, disse que “os manifestantes não respeitaram sequer a intimidade da residência”. E no caso das “invasões” de Bagé, São Gabriel e tantas outras no Rio Grande do Sul ? Porque não se manifestou com tanta presteza e eficácia o ministro ?
Por falar nisto, Aloysio Nunes Ferreira justificou a ação policial: “A polícia é obrigada a agir, prender, senão estaria cometendo crime de prevaricação.” E o presidente da república, “Manifestações radicais como esta agridem o Estado de direito e a democracia, e ferem a cidadania no seu sentido mais amplo.”
Pena que o presidente e os seus ministros não tenham feito tais declarações quando outros cidadãos, mais comuns por certo, foram atingidos, tiveram suas fazendas ocupadas.
É claro que os integrantes do MST querem o filé mignon das terras brasileiras. Mas, aí entra a cidadania, o estado de direito e a democracia, os direitos de todos, a ordem. Ao Estado cabe zelar pela aplicação da lei igual para todos. E promover a justiça, a distribuição eqüitativa de oportunidades.
O sucesso do livro de Alcy Cheuiche em oitava edição e os novos fatos que mexem com a opinião pública do país, mostram o quanto ele estava certo e a importância do nosso voto em outubro, única arma para lutar pela igualdade de todos os cidadãos do país. E também para demonstrar a necessidade, urgência e conveniência de uma reforma agrária reclamada há tantos anos e causa de tantos conflitos.
Alcy dedicou seu livro de 1990 a Marco Rodrigo Toledo (nove meses), Alexandre Batistella (cinco meses), Jaime Rohden (cinco anos) e Marisa Garcia da Rocha (quatro meses), que, “num dia ensolarado do mês de fevereiro de 1989” morreram envenenados quando “um avião agrícola sobrevoou o acampamento dos colonos sem-terra no Rincão do Ivaí, abrindo sobre eles seus esguichos de pesticidas”.
O escritor encerra assim sua comovente dedicatória: “à memória dos quatro pequenos ex-combatentes”.
Nestes 12 anos o que foi que mudou ?
Os leitores do Brasil bem o sabem: nada. Só piorou.
Para os de fora: 2.000 anos depois da primeira reforma agrária dos romanos, aqui ainda nada foi feito...
Enquanto vivemos aqui este lindo e alegre outono, o mundo pega fogo lá fora... Prestem atenção nas palavras de José Saramago, o único escritor de língua portuguesa a conquistar o Prêmio Nobel de Literatura postado por walter em 26/03/02
O SAL AMARGO
Walter Galvani
Não é por nada que em Portugal, na intimidade dos círculos jornalísticos e literários, chamam o Nobel José Saramago de “sal amargo”. E não será por acaso também, que ele fará jus a tal apelido. Os portugueses, para quem não os conhece na intimidade, dizem “lá as suas coisinhas” e são extremamente práticos, objetivos e claros ao externarem seu pensamento.
Quando vi que Saramago integrava o grupo de intelectuais que visitaria a Cisjordânia, imaginei que ele e todo o grupo, onde pontificava outro Nobel, Woyle Sinke, abalariam o mundo com a sua presença. Não deu outra, mas sobretudo pela declaração do único escritor da língua portuguesa distinguido com o prêmio máximo da literatura mundial.
Saramago desceu do muro e disse que os israelenses, no caso da ocupação de Ramalah, da prisão domiciliar que impuseram a Yasser Arafat, estão agindo tal como os alemães fizeram com os judeus na guerra 39-45.
Pode-se imaginar o abalo que tal declaração causou no Oriente Médio e no mundo todo. Aliás, a começar pela entrevista coletiva onde o grande escritor fez tal declaração, que foi abalada pela retirada de uma jornalista israelense e protestos de outros.
Os intelectuais ocidentais estavam realizando uma visita de apoio ao escritor Ahmud Darwish, um grande nome da etnia árabe, também ele reduzido – como seu povo – à uma situação difícil em meio à guerra.
Ora, ninguém quer guerra, ainda mais à porta de sua casa. Ou na casa ao lado.
A visita tinha o sentido e o objetivo de mexer com a opinião pública mundial e podem estar certos de que isto foi alcançado. A menos que se tapem os olhos e se imagine que ainda pode ser pior. Pode mesmo. E para o mundo todo, se continuarem a buscar solução radical para questões que o diálogo – e penso em gente civilizada – deveria presidir.
Saramago fez o mundo pensar. Honrou, mais uma vez, seu apelido nacional.
Uma grande festa do cinema, mas e as injustiças ? postado por walter em 25/03/02
POLITICAMENTE CORRETO
Walter Galvani
O “Oscar”, sempre se soube, é um prêmio político e comercial que visa beneficiar o cinema como indústria e apenas roçar com suas pesadas asas do interesse, a chamada Sétima Arte como tal.
Assim sendo, é redundância dizer que os “Oscar” deste ano foram tentativas de correção, a busca do chamado “politicamente correto” pelos americanos. Dar o prêmio a Denzel Washington e a Halle Berry, com isto destacando de uma vez só dois atores negros, justamente no dia em que também se lembravam de chamar Sidney Poitier para um “Oscar” especial, por ter sido até então o único negro premiado, é uma forma um pouco descarada de mostrar publicamente o quanto o cinema é agradecido aos negros. Mentira. O cinema americano é uma arte de brancos, de preferência wasps (ou seja White, Americans, Protestants) e até aqui sempre foi o mundo das loiras, com raras exceções para uma que outra “brazilian bombshell” como era chamada a luso-brasileira Carmen Miranda ou a Jeniffer Jones atual ou qualquer outra beldade latina.
Os seus grandes diretores, John Ford, Henry Hathaway, Cecil B. de Mille, Steve Spielberg ou importados como Fritz Lang ou Ernest Lubitsch, sempre foram brancos, caucasianos, europeus ou descendentes. E seus astros e estrelas, desde Cary Grant até Russel Crowe, passando por Tyrone Power ou Humphrey Bogart, brancos, branquíssimos.
De vez em quando aparece um negro para provar que eles são democratas. Portanto, nada de mais, nada de importante.
Sidney Poitier é um grande astro do passado e tanto em “Ao mestre com carinho” quanto em “Adivinhem quem vem para jantar”, prestou-se generosamente para uma abertura que não chegou.
Premiar agora dois negros é uma iniciativa política, não que os premiados não tenham valor. Não se trata disso, mas uma vez mais de hipocrisia apenas.
Amanhã ou depois os negros serão tão discriminados como até agora o foram. A única diferença, que não sei se é vantajosa para a raça negra é que agora não podem ser chamados de “blacks” ou “negros”, são tratados de “afro-descendents”. Foi isto que mudou.
Continuam também a fazer papéis como os negros brasileiros em nossas novelas de televisão: são motoristas, empregados domésticos, lixeiros, varredores. Os papéis que os brancos não querem desempenhar na vida real e que repassam para os pretos, também não são cumpridos na tevê.
Assim vai a vida e os “politicamente corretos” que cumpram a parte que lhes toca. Hollywood continua sendo Hollywood.
Não é por acaso que alguns dos maiores diretores de todos os tempos, Orson Welles, autor de “Cidadão Kane”, este um dos 10 melhores da história do cinema, só por exemplo, jamais levou uma estatueta do “Tio Oscar” para casa...
Salim Miguel, hoje talvez o maior nome das letras catarinenses, perfila-se ao lado de Cruz e Souza e recebe aos 50 anos de carreira nosso preito de admiração. E assim festejamos os 276 anos de Florianópolis postado por walter em 24/03/02
A LUZ, FLORIANÓPOLIS
Walter Galvani
Comemorei o aniversário de 276 anos de Florianópolis, a bela capital que esqueceu porque foi ofensivamente batizada com o nome do seu opressor, almoçando com o notável escritor e melhor criatura humana, Salim Miguel. Eu, a Carla Irigaray, minha companheira de todas as horas e Eglê, a esposa do Salim, ambas nossas primeiras e duras críticas literárias. Pois merecem a nossa confiança, não é mesmo Salim ?
Mas o momento mais emocionante da nossa visita ao Salim foi a permissão que nos deu Eglê para que penetrássemos no recinto sagrado da sua biblioteca em Cachoeira do Bom Jesus.
Saí de lá carregando o livro “Salim na claridade”, editado pela FCC com 24 depoimentos comemorando os 50 anos de atividade literária do grande escritor catarinense, aliás libanês e florianopolitano por adoção.
Deslumbrei-me enquanto isso com o seu carinho pelos livros, com a metódica organização da sua biblioteca, com as preciosidades que lá reune, lamentando é claro as edições princeps que se perderam nas garras do cupim selvagem, o mesmo bicho daninho que já me atormentou em Canasvieiras e continua a me preocupar com sua presença ou ausência – pode estar devorando nossos bens no silêncio devastador de sua ação secreta – e no entanto, Salim resiste.
Pena que ele se obriga a transitar para outros lados e não permanece o tempo todo ali, ao lado de suas preciosidades. Mas, lá estavam Dumas, Anatole France, Roger Martin du Gard, Assis Brasil, Erico Veríssimo, Dostoiewski, Andre Gide, enfim, lado a lado os grandes monumentos da literatura regional, nacional e universal.
Foi uma belíssima forma de festejar Flops.
Espero estar com meus amigos catarinenses nos 277, 278 e assim por diante. Novos e velhos amigos, como o Mário Pereira, Rossana e Cláudio Thomas, Euclides Lisboa e tantos outros. Sem dúvida tendo o privilégio de ler o grande cronista Sérgio da Costa Ramos , que estilo, que força, que talento!
Felicidades Florianópolis!
Mas felicidades também à cidade por ter Salim Miguel entre os seus. Escritor, jornalista, ex-diretor da Editora da Universidade, autor de tantos textos diversos desde o seu “Velhice e outros contos” de cinqüenta anos atrás e atualíssimo como tudo o que fez, está fazendo e continuará a fazer.
Estive diante do mitológico Salim Miguel que aprendi a incorporar aos meus afetos e recebendo dele, como demonstração inicial, o mesmo apoio que sempre deu a todos os que dele se aproximaram, e os depoimentos coletados neste belo livro que me preencheu o Domingo, “Salim na claridade”, título que é uma bela citação ao seu “Nur” e a claridade desta Flops, hoje ocasionalmente chuvosa neste início de outono.
Para resumir os sentimentos que Salim provoca transcrevo as primeiras palavras de Cícero Sandroni, no artigo “Nossa parceria na “Ficção” – querendo referir-se aqui à revista desaparecida depois da heroicidade dos seus 43 números e que tanto marcou o país (ainda hoje insubstituída):
“Lealdade, gen4erosidade, honestidade, bondade e outras virtudes terminadas em ade, além da capacidade de doar-se com entusiasmo à uma causa – e o talento de um escritor”- eis a descrição de Salim Miguel.
Assino embaixo e boto na Internet para que se propague. Amém.
O que faz a grandeza de uma cidade ? A concentração de iniciativas, prestação de serviços, poder e sua conseqüente atração sobre uma região, um país ou o mundo, como Paris por exemplo... postado por walter em 23/03/02
MIGRAÇÃO INTERNA
Walter Galvani
Ilha do Desterro. Assim era o nome oficial e objetivo da ilha de Santa Catarina, onde se situa parte da cidade de Florianópolis, hoje com mais de 340 mil habitantes e capital do estado. Durante os 276 anos de sua existência, comemorados hoje, dia 23 de março, recebeu sempre contingentes populacionais da própria colônia, da metrópole e mais adiante do exterior, ou depois da independência (1822), dos irmãos nacionais.
Durante um breve período no século XIX, foi invadida pelos espanhóis que, subindo do rio da Prata vieram conquistando pontos na costa brasileira. Diz-se em Florianópolis que os seus descendentes gostaram tanto que ainda hoje repetem anualmente a invasão, embora adocicada pela paixão por Canasvieiras e outras praias da ilha.
Mas, o fato é que a pequena cidade deixou de ser o lugar de desterro e embora batizada cruelmente com o nome de quem a subjugou e mandou pôr a ferros e executar alguns dos seus mais ilustres filhos, refiro-me ao ditador Marechal Floriano, tornou-se, pelas suas belezas naturais logo descobertas e cada vez mais encontradas, lugar de encontro, de migração e não de punição.
Hoje é um dos principais locais de migração de brasileiros de todos os estados que aqui acorrem para curtir sua aposentadoria ou ganhar a vida com a atividade que o cosmopolitismo da cidade passou a permitir.
Tudo muito interessante, mas não se pode admitir xenofobia em território do mesmo país, que aí já é estresse em demasia... Pois há pessoas que acham que esta atração de “estrangeiros” é prejudicial à Florianópolis. Lembro-me do caso de Canoas, minha terra natal e no entanto pólo de atração de riograndenses de todos os quadrantes. Pois aqueles que se julgam “donos da terra” ficam irritados quando alguém de fora assume um cargo, prospera ou se elege prefeito. “Isto aqui é dos canoenses! “ – dizem eles. Mas, quem são os canoenses ?
Somos todos brasileiros, não é mesmo e não cabe limitações. Além disso, não aceito que se imponham limites, além dos legais, aceitos pelas leis do país, mesmo assim já os considero excessivos, na entrada dos estrangeiros.
Tanto no caso da bela capital catarinense como da hoje enfeada pela poluição, pobreza e despejos poluidores, cidade de Canoas e tantas outras na mesma situação, é preciso aceitar a bela contribuição dos que vem de fora.
Trazem capitais e seu talento. Seu dinheiro para investir no local e seu amor pela cidade.
Não podem ser criticados ou rejeitados.
Há certos momentos na vida que é preciso respirar fundo ou relaxar para aproveitar... postado por walter em 22/03/02
PAUSA QUE REFRESCA
Walter Galvani
Quando foram procurar os deputados para votar a CPMF descobriram que, talvez motivados pela novela da Globo, “O Clone”, muitos haviam seguido para o Marrocos, novo endereço turístico, onde curtirão uma semana e tanto de Páscoa e assim teremos todos a “pausa que refresca” como nos prometia a Coca Cola em seus velhos comerciais da metade do século passado.
Todos terão tempo agora de visitar as suas bases e rebobinar suas atividades, preencher os tanques, preparar-se para a dureza dos embates que nos reserva o segundo segmento do ano: da Páscoa até às eleições, naturalmente, como ninguém é de ferro e estamos no Brasil, com umas férias de inverno incrustadas aí pelo meio.
Então aos poucos, decidir-se-á em nossa cabeça, se votaremos pelo segundo turno, empurrando a decisão ou escolheremos logo no primeiro turno, para não perder mais tempo.
Portugal já voltou para a Direita, Durão Barroso está constituindo o novo governo, eleito que foi pela maioria da população e o presidente socialista vai ter que optar pela convivência pacífica com a sua própria oposição. É bom aprender com eles, nossos pais e compadres. Se queremos no futuro um regime parlamentarista, para o qual não parecemos maduros, assim é que teremos ser. E olhem que uma “coabitação” no poder não deve ser fácil.
Ainda mais aqui, onde estamos habituados a destruir tudo o que o antecessor fez. Mesmo quando ele é do mesmo partido. Ainda mais se for da oposição.
Que o “coelho” da Páscoa nos traga pois, bons presentes... Quanto aos senhores deputados que foram conhecer o Marrocos que voltem inspirados pela sabedoria do Alcorão, mas não contaminados pelos séculos de atraso que empedraram o norte da África.
Sempre será preciso separar o joio do trigo. Está na Bíblia. E no Alcorão também.
Fraude, roubo, propina, tudo isto se sabe. Mas quem será responsabilizado no futuro pelo crescimento da violência ? A "mídia" tem parte nisso pela promoção, divulgação e ensino da prática do crime postado por walter em 21/03/02
INSPEÇÃO DA ONU
Walter Galvani
O pai ferido José Sarney e político atingido em seus interesses regionais e nacionais, levantou uma questão que, se prosperar pode valer para o Brasil alguns pontos negativos imediatos.
Falando em defesa de sua filha Roseana lançou a suspeição sobre o processo eletivo brasileiro e provocou um inesperado interesse que ainda poderá trazer efeitos ao longo do tempo, pelo processo que se realiza aqui no Brasil para a sucessão de Fernando Henrique.
Mas, não haverá, nem pai atingido em sua honra, nem político, nordestino ou gaúcho que seja, capaz de ofuscar efetivamente o fato de que acima de quaisquer mecanismos de votação, urnas eletrônicas ou velhos livros de assentamento, o que foge ao controle popular é o tipo de acerto que podem fazer os partidos.
Joga-se a ideologia no cesto do lixo e implanta-se o velho sistema do “é dando que se recebe”, muito bem conhecido dos brasileiros. Quando se libera o apoio econômico à qualquer candidatura, já se sabe que nenhum empresário fará doações a quem quer que seja, sem assegurar-se de que poderá cobrar um retorno. Ninguém faz investimentos em vão.
Qualquer candidato que for investigado terá telhado de vidro, e nem é preciso que a prospeção seja feita pela Organização das Nações Unidas. Assanhados como estão com as novas leis brasileiras, os procuradores gerais da república, farão como seus homônimos italianos da extraordinária campanha das “Mane puliti” – as mãos limpas... Preparem-se para o festival que irá suceder ao próximo pleito eleitoral.
Ou melhor: precavenham-se ao máximo, não deixando o rabo à mostra... De novembro em diante veremos um festival de denúncias que talvez venha a substituir a lamentável opção da maioria dos departamentos de jornalismo das redes nacionais de televisão que hoje ocupam noventa por cento do espaço de noticiário com prisões, bandidos, crimes, assaltos, seqüestros. Trata-se de um erro de avaliação e um desperdício. Uma participação na divulgação, promoção e didática do crime e é claro, da violência, pelo qual já estamos pagando caro e pagaremos cada vez mais.
Ponham a mão na consciência e reflitam por favor, antes de encaminhar-se todos para o mesmo abismo. Já dizia Baudelaire que uma besteira não deixa de ser uma besteira só por ser dita ou praticada por 500 mil...
Mas, voltando à nossas eleições: o povo, embora enganado pelas redes que dominam o mercado, enxerga em meio ao nevoeiro e faz cobranças inimagináveis para quem o menospreza.
A Política não supreende aos políticos. Mas a nós sim, gente do povo, que mal pode crer nas alianças que se produzem em busca do Poder postado por walter em 20/03/02
UNIÃO DE IGUAIS E DESIGUAIS
Walter Galvani
Os partidos brasileiros não possuem entranhas, já o sabemos. Melhor dito, nem entranhas nem matéria cinzenta. Aliam-se por questões que o PT chamaria “pontuais”, o que, nada a ver com a definição gramatical, ocasionalmente, pela conjuntura política, aproximam entidades e provocam alianças que servirão para proporcionar um passaporte para o poder.
É natural que os partidos pretendam um dia chegar à presidência da república, assim como conquistar os palácios municipais e estaduais. Sem isto não teria sentido atuar. O fim maior de todos será sempre, logicamente, a conquista dos postos máximos, para poder exercitar a sua capacidade administrativa, de acordo com os postulados e a ideologia que defendem.
O que surpreende, sobretudo aos ingênuos como nós, é a capacidade de unirem-se os desiguais. Pelo menos aqueles que julgamos nós, diferentes, alternativos aos que se eternizam nas posições. Vai daí que descobrimos então que todas as alianças são possíveis.
Mesmo que isto queira dizer, como propunha o Lula, que uma vez mais será o candidato do PT à presidência, do seu partido, tido e havido como de esquerda, com o PL, sigla que não representa o antigo e glorioso Partido Libertador do Rio Grande do Sul, mas quer dizer mais ou menos a mesma coisa em matéria de conservadorismo ideológico.
Ora a união entre o PMDB e o PSDB, assinada hoje, não deveria pois nos surpreender.
Afinal de contas, eles são capazes de tudo. O certo é que estes dois e mais possivelmente o PFL – que depois de 39 anos como governo não resistiu a três dias de Oposição – serão imbatíveis, mesmo que tenham que ir para um segundo turno.
E então temos aí o que se chama uma boa “base governista”. Aposto como as ações da Bolsa estarão em alta. Nenhum empreendimento conservador precisa temer. Deste lado não sairá nenhum reformismo social, nada de planos trabalhistas ou altas do salário mínimo. O trabalhador brasileiro que se dê por contente com o que alcançou.
Estão distantes os tempos de Getulio Vargas, a CLT pode ser reformada a qualquer momento, a propósito lembre-se que CLT quer dizer Consolidação das Leis do Trabalho e não se trata de um só estatuto renovador, mas decretos e normas consolidadas, como o próprio nome e sigla definem.
O governo que sairá deste ovo será o mesmo que vem sendo chocado ao longo destes últimos oito anos e não difere dos que o precederam e nem tampouco diverge muito dos que havia antes.
Os dados estão lançados e com um candidato que não aglutina as esquerdas, pouco se espera do pleito de outubro. Aliás, o que se pode esperar é mesmo e apenas a continuidade do que aí está. Se você está satisfeito assim, basta votar. Ou até não votar. Ficará tudo como dantes no quartel de Abrantes...
A menos que um fato novo sacuda as paredes do templo antes da data fatal.
Foram 10 dias de férias, mas estou de volta. Ao mesmo tempo em que redijo um novo texto literário, não posso de omitir dos fatos que envolvem nosso país, nossa vida, nossa sociedade. Prestem atenção no círculo de ferro que os americanos estão fechando em torno ao nosso pescoço postado por walter em 19/03/02
CONFRONTO À VISTA
Walter Galvani
Os Estados Unidos estabeleceram salvaguardas para o aço e isto prejudica o Brasil, terceiro maior exportador do produto para eles. Os americanos querem a condenação de Cuba no Conselho dos Direitos Humanos da ONU que está iniciando reunião em Genebra e subordinam o atendimento aos problemas econômicos da Argentina, a apresentação pelo nosso vizinho, de uma moção de censura ao regime de Fidel Castro. Os cubanos estão chamando o governo argentino de :”lambe-botas”, mas nutrem a esperança de que, com a mudança de De La Rua para Duhalde, a “lambida” seja desviada... Mas, o relator da reunião do Conselho será o brasileiro Frederico Meyer e isto nos coloca no meio da fogueira.
Existe uma Organização para a Proscrição de Armas Químicas, órgão da ONU, cujo secretário geral é o brasileiro José Maurício Bustani e corre pelos corredores de Genebra, a informação de que o brasileiro entende que também as fábricas de produtos químicos americanas precisam ser inspecionadas, e não apenas os chamados “inimigos”, ou seja., Irã e Iraque e outros países fora da área de influência de Washington.
E os Estados Unidos querem, também, apoio incondicional à suas ameaças de ataque aos países árabes que não rezam pela sua cartilha.
Ora, o Brasil está no centro disso tudo, pela sua importância como nação, pelo seu envolvimento político, pela participação de seus funcionários, pela sua dimensão populacional e territorial e pelos seus interesses comerciais.
Não tenho muitas esperanças de que consigamos sair ilesos de todos estes problemas do xadrez internacional. Na certa seremos chamuscados e então será preciso ver até que ponto somos soberanos, de fato.
E tudo isto num momento eleitoral em que, para defender seu candidato presidencial, o governo precisa valorizar sua independência perante o eleitorado.
Há também a possibilidade de esconder ao máximo tais fatos internacionais. Neste caso nos cabe alertar a população para que se preste atenção às questões e os interesses em jogo, para compreender e até ajudar o país.
É esta a hora.
O Brasil perdeu um dos seus grandes intelectuais, o pesquisador e folclorista gaúcho Barbosa Lessa. No início de sua carreira foi publicitário e também atuou na área política, porém no setor cultural, em São Paulo postado por walter em 11/03/02
BARBOSA LESSA E O FIM
DA SUA BIBLIOTECA
Ontem o Rio Grande do Sul ficou mais pobre, como se costuma dizer demagogicamente, com a morte de Luís Carlos Barbosa Lessa. Patrono da 42A Feira do Livro de Porto Alegre, ano 2000, escritor com mais de cinqüenta anos de carreira e que dizia, dentro de sua modéstia característica – “meu grande triunfo este ano foi ter sido considerado um escritor” – como se não o fora, com os seus quase sessenta títulos e tanto trabalho na construção da imagem e do imaginário rio-grandense, este estado do extremo sul do Brasil.
Mas, o que mais me choca na morte de Barbosa Lessa é o fato que avilta a atividade intelectual no Brasil, de que ele necessitou se desfazer da sua biblioteca, abrir mão daquilo que mais amava, seu instrumento para o trabalho e seus alicerces culturais, para “fazer um pouco de dinheiro” e com isto enfrentar a compra de alguns medicamentos, na fase final de sua vida.
Um homem que teve a projeção natural que ele teve e ainda tem, abrir mão da sua biblioteca – este fato é em si uma condenação do tipo de vida que estruturamos a partir da nossa globalização falsa que tudo destrói e derrete.
Talvez hoje e amanhã a sociedade acorra a prestar homenagens, mais do que justas, diga-se de passagem, à figura do grande escritor e pesquisador, do investigador histórico e do folclorista, que, junto com J.C.Paixão Cortes ajudou a estruturar a figura do gaúcho e a fixar a sua representação em nosso imaginário coletivo.
O gaúcho não é apenas a estátua do Laçador na entrada de Porto Alegre, mas é uma imagem que nasce no coração dos homens do pampa e da cidade e que se estende pelos versos, pela música, pelos ensaios e pelos romances de tantos escritores e, entre eles, figura ímpar, de Barbosa Lessa.
Vamos nos lembrar então nessa hora em que o acompanhamos à última morada, que ele perdeu a vida e a batalha, mas antes disso teve que ver o fim da sua biblioteca, porque a atividade intelectual não recebe o suficiente reconhecimento em nosso meio.
Foi um preço caro, amigo Lessa, mas fica o teu inesquecível exemplo!
Não se iludam: a crise na base do governo, tem tudo a ver com as eleições presidenciais. Além da investigação de Murad, transita a corrida pelos cargos num futuro governo... postado por walter em 06/03/02
OS INTOCÁVEIS
Walter Galvani
Empresário bissexto e secretário de governo, assim é que se referem os adversários políticos de Roseana Sarney a seu marido, Jorge Murat. De qualquer forma, pelo país inteiro, há uma expectativa para saber se o PFL, acostumado ao Poder desde que foi fundado, realmente deixará seus postos na esteira da crise nascida com a investigação planejada e executada sem aviso, no escritório do companheiro da candidata.
No começo, quando Roseana era apenas uma “abelha de fogo”, ninguém com ela se preocupava. Mas, de repente ela começou a voar e voar cada vez mais alto, afastando-se da colmeia e chegou à condição de líder das pesquisas, única capaz de enfrentar a Esquerda no segundo turno.
E então, descobriram o que todos sabiam: Jorge Murat é que era o verdadeiro candidato.
Num instante montaram uma operação “pega ratão” e pegaram-no. Mesmo que Roseana continue candidata e isto passa por um recuo do governo ou o “desembarque” do PFL de todos os seus cargos ministeriais e os milhares de postos esparramados pelas autarquias, entidades governamentais, institutos, enfim todas as “bocas”, boas, que passam inclusive pelas embaixadas e consulados brasileiros no exterior, terá que haver explicações inclusive com o fisco.
Ora, ninguém está imune à uma investigação e gente muito melhor já o foi. Claro que até prova em contrário, houve uma oportunidade política aproveitada. A meta principal era Roseana. O pênalti, que na opinião de Nelson Rodrigues é tão importante que tem que ser cobrado pelo presidente do clube, vai ser agora executado por Fernando Henrique.
Nestes dias decisivos todo mundo corre. Há protestos da “torcida”, o capitão do time mete os peitos (no caso, os dois) no juiz, soltam foguetes de raiva ou júbilo, conforme o caso, nas arquibancadas.
É decisivo. E decisivo para o pleito deste ano.
Tem mais: aproveitadores já dizem que crescem as candidaturas contrárias, Ciro Gomes e naturalmente, o eterno Lula que não desistiu ainda.
Portanto, as eleições realizam-se a partir de agora. E o primeiro e no entanto decisivo “round” passa por uma queda de braço.
O governo FHC está colocando em ação todo o seu poder de barganha, por enquanto é quem tem doces para dar... – e o PFL vai botar (ou não, dependendo do tamanho da “bola” de Roseana) toda a sua força tarefa na rua.
Agora, investigação pode ser feita em qualquer um a qualquer hora. É do jogo. Jorge Murat não é melhor do que os outros e ingenuidade dele, da Roseana e de José Sarney, achar que o crescimento de uma candidatura própria do PFL, um foguete como Roseana acabou sendo, não viesse a gerar uma reação. Afinal de contas, pelo menos para uma negociação de cargos e propostas...
Fiquem atentos aos próximos capítulos.
O Rio Grande do Sul perdeu ontem um dos seus maiores jornalistas, ontem, por insuficiência cardíaca, durante uma operação nos intestinos postado por walter em 04/03/02
EDMUNDO SOARES – 1934 – 2002
Walter Galvani
Um dos melhores jornalistas produzidos no Rio Grande do Sul na segunda metade do século XX e como a maioria deles, conhecido apenas em nosso estado por haver limitado sua atuação somente aos veículos locais.
Desde menino interessou-se pelo esporte da Vela –acabou comodoro do Clube dos Jangadeiros, mas foi graças a este interesse que abriu caminho no jornalismo. Formou-se pela PUC, mas antes de concluir o curso já estava trabalhando na profissão (na época não era exigido o diploma) e sua estréia se deu em fevereiro de 1955, na então “Folha Esportiva”. Aos poucos ultrapassou as limitações do esporte da Vela e passou a praticar em outros setores da redação, alcançando o patamar que levou à uma das mais fortes e entusiastas carreiras sempre nos jornais da Caldas Júnior.
Aos poucos galgou posições no próprio esporte, mais tarde nas Promoções e finalmente no Marketing e Produção, passando pela chefia de reportagem, pelas reportagens especiais, pela cobertura de Copas do Mundo (1966, 1970, 1974) e finalmente pela secretaria de redação da Folha da Tarde, de 71 a 76 e pela direção de redação, de 76 a 80.
Encerrou sua carreira nos jornais em 1984, quando da falência da empresa, mas ainda permaneceu por dois anos até sua reabertura, já sob novo comando, de Carlos e Renato Ribeiro.
Afastou-se para prestar uma assessoria na Câmara Municipal, onde ficou até os anos 90.
Nunca abandonou, apesar de sucessivas crises cardíacas que acabaram tirando-lhe a vida no dia 3 de março, a Vela e o Clube dos Jangadeiros.
Ajudou a implantar, em 1970 o sistema de estágio para alunos de jornalismo o que abriu caminho para inúmeros profissionais.
Generoso e amigo dos amigos, muitas vezes teve prejuízos pessoais para manter em seus postos colegas que ajudara a sair do anonimato e crescer na profissão, enfrentando competição profissional e dificuldades internas e externas.
Assumiu a secretaria de redação da Folha da Tarde no dia 21 de junho de 1971 e a direção do mesmo jornal a primeiro de junho de 1976. Em 1981 passou a coordenar o Departamento de Expansão da Caldas Júnior.
A Folha da Tarde deixou de circular no dia 16 de junho de 1984 mas, desde então os antigos colegas de redação passaram a reunir-se anualmente para festejar o aniversário do jornal.
A data escolhida é 27 de abril, data da fundação em 1936. Edmundo sempre era dos mais ativos e animados, organizando o “cerimonial” do encontro e conduzindo a festividade com alegria e seu característico poder de comunicação.
Sepultado neste dia 4 de março, fica seu exemplo de dedicação e carinho aos amigos.
Não haverá festa dia 27 de abril.
Os companheiros adiarão a comemoração que se torna impossível, pelo menos neste momento, sem a sua presença.
Se eu fosse eleito governador do estado do Rio Grande do Sul aqui no Brasil, ou fosse eleito presidente de Angola, começaria transformando os professores nos seres mais bem pagos do planeta... postado por walter em 03/03/02
LIBERDADE, IGUALDADE, FRATERNIDADE
Walter Galvani*
Este lema, ou “slogan”, como dizem os americanófilos, tem duzentos anos. Por causa dele, seu conteúdo e seus reflexos políticos e sociais, Napoleão, a frente das tropas francesas, invadiu a Europa e por causa dos seus resultados, Napoleão traiu a si próprio e aos ideais que representava. Por causa destes conceitos tão claros e simples, que estabelecem Liberdade como objetivo, Igualdade como norma de atuação e Fraternidade como padrão de conduta individual, os povos e nações continuam se digladiando, entendendo cada qual ter a sua receita particular para alcançar o êxito e implantar o regime ideal.
Nos mínimos detalhes de procedimento transparece a resistência de alguns indivíduos na aceitação destas linhas tão simples e, aparentemente, fáceis de incorporação.
Não são poucas as pessoas que se julgam acima e diferentes dos demais e nem tampouco raras as corporações que se acham “melhores”. Isto é até compreensível, dado a própria natureza humana e também ao baixo nível que se vê por aí, infelizmente, na sociedade.
Alguém que tenha formação acadêmica ou não, elementar, média, superior, com pós-graduações, títulos de doutoramento ou apenas com o diploma conferido pela escola da vida, pode eventualmente se achar incomparável. E até ofender-se ao se ver igualado numa exemplificação, a um carregador de malas, um vendedor de bilhetes ou um cantor de tangos e boleros.
Eventualmente todos nos achamos – e certas vezes, sob determinado ponto de vista, com muitas razões para isso – um pouco melhores do que os outros... Mas, sem soberba, por favor, aceitemos o fato de que somos todos iguais perante a lei e perante os deuses.
Recordando uma vez mais que a Revolução Francesa tornou-se eterna na memória e no respeito da Humanidade, justamente por haver consolidado estas três cláusulas pétreas de qualquer constituição. Aqui mesmo, no Rio Grande do Sul, fizemos uma revolução, desligamo-nos durante dez anos da comunidade imperial brasileira, estampando em nossa bandeira, os mesmos princípios, embora substituindo “Fraternidade” por “Humanidade” o que, na opinião dos farroupilhas, dava ainda maior abrangência.
Neste instante em que recomeçamos o ano letivo, comercial, jurídico, social, enfim que se retoma a vida em toda a sua plenitude aqui neste paralelo 30 do hemisfério austral, acho muito oportuno refletir sobre tais conceitos e procurar, no caso individual e no coletivo, pautar nossas ações.
Como pessoas humanas, por mais humilde que seja a origem social, por menor que seja a capacidade financeira, por menor que seja a inteligência, estamos todos no mesmo patamar, merecendo o mesmo respeito e consideração.
Quanto às profissões, também acho que os professores deveriam estar no topo do reconhecimento por parte de governos e governados... Mereceriam a melhor das remunerações, não a miséria que hoje a eles se paga.
Deveria ser a grande revolução e neste caso vai meu recado direto a`quem for para o Palácio Piratiní: comece mudando tudo, transforme os professores na classe mais bem paga do estado. Caro amigo, você estará iniciando uma revolução mundial.
* Jornalista e escritor – www.waltergalvani.com.br
Não é privilégio brasileiro discutir futebol como se fosse o próprio destino da pátria que estivesse em jogo. Itália, Argentina, França, Portugal, todos são iguais... Mas que provoca uma alienação dos assuntos fundamentais, isto não se pode negarROMÁRIO NA SELEÇÃO postado por walter em 28/02/02
ROMÁRIO NA SELEÇÃO
Walter Galvani
Parece mentira que a dengue, e anotem bem, a febre amarela cujo vetor é o mesmo mosquito Aedes Egiptii, estão aí, só no Rio de Janeiro há mais de duzentos mil “dengosos”, mas o país discute com ardor e paixão, se Romário deve ou não deve ser convocado por Luís Felipe Scolari para a seleção de futebol. Assim é o Brasil e isto espanta e diverte os outros povos, mas não pensem que ele desconheçam completamente fatos semelhantes. Experimentem a deixar Figo de fora da seleção de Portugal ou Zidani fora da França!
A discussão nacional em torno ao tema, se bem que interesse a quem governa para que se esqueçam as questões fundamentais, acaba sendo inevitável. O responsável por uma seleção, como é o caso de Filipão, quando o esporte nacional é de tal maneira emocionalmente cultivado, é muito delicada e ele precisa saber como equilibrar diferenças regionais, contemplar influências de grandes clubes e, além de tudo, formar um bom time.
Claro que no caso brasileiro, Romário é um grande nome e um jogador que, apesar da idade, 35 anos, é capaz de desequilibrar muitas partidas. Mas é também um mau exemplo, uma vez que detesta treinar e o diz publicamente.
Além do mais, incluí-lo numa partida com a Islândia, que além de muito fraca vem com 10 reservas, é expor todo um trabalho ao descrédito: na certa ele faria cinco gols, não seria teste para ele e nem para o time e Filipão ficaria na obrigada. Teria que escalá-lo até o primeiro fracasso causado por ele e na Copa, irremediável.
É muito risco e o técnico Scolari não é inexperiente e “tanzo”...
Será preciso chamá-lo para os treinamentos e então verificar se ele tem saúde, estado físico, paciência e condições técnicas. Um longo trabalho. Não adianta o presidente FHC dar palpite. Aliás nisso ele não difere dos seus antecessores militares. Em 70, Medici “escalou” o centro-avante Dario.
Durante todo este ano, lembraremos um gigante das letras francesas que pertence ao mundo todo postado por walter em 26/02/02
VITOR HUGO, 200 ANOS
Walter Galvani
Este dia 26 de fevereiro assinalava uma data que será comemorada todo o ano na França e em todo o mundo literário, por toda a comunidade cultural que acompanha com atenção muito especial o que se passa naquele país e em todos os círculos intelectuais: é o segundo centenário do nascimento de um gigante das letras, em todos os sentidos e que faz com que qualquer escritor se sinta lisonjeado quando a ele se compara ou refere, ou lembra que tem a mesma profissão: Victor Hugo.
Em 1802, levantava-se a grande estrela de Napoleão, a França mais do que nunca exportava sua revolução que tinha como lema “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”.
Hoje, quando se critica Cuba por querer propagar sua revolução socialista, é bom que se lembre este episódio histórico.
É anacronismo querer examinar hoje o mundo com os olhos de 1802 ou do século I ou Antes de Cristo. O tempo é o tempo, imutável e inexorável.
Pois Victor Hugo foi um monumental poeta e escritor, que foi capaz de realizar uma obra que só cresce com o passar dos anos. Hoje, duzentos anos, dois séculos do seu nascimento.
Baudelaire, outro grande poeta francês disse de Victor Hugo – como bem lembrou o escritor Moacyr Scliar no programa que apresentei dia 26 na rádio Guaíba de Porto Alegre, a cidade do “Fórum Social Mundial”:
“Victor Hugo é um gigante que pensa que é Victor Hugo!”
Alguns dos momentos mais sublimes da criação literária e da língua francesa, foram alcançados por ele, em textos como “Os Miseráveis”, a história de Jean Valjean ou o inigualável “Nossa Senhora de Paris”, a saga de Quasímodo, “o corcunda de Notre Dame”.
E se alguém cometeu o sacrilégio de não haver lido em sua juventude estes dois livros, que o faça agora. Ou que pelo menos veja o filme baseado no texto imortal de Hugo, com os atores Anthony Queen e Gina Lollobrigida, ele como o Corcunda injustiçado pelos poderosos, ela, a cigana Esmeralda.
Também participou do mesmo programa radiofônico o notável escritor gaúcho Alcy Cheuiche, que lembrou a visita que fez a Victor Hugo o imperador do Brasil, Dom Pedro II, e que do grande escritor arrancou a seguinte frase dirigida à sua filha predileta:
“Filha, venha conhecer um fato inédito na história da humanidade: um rei que sabe pensar!”
Quando entrei a primeira vez na Catedral de Notre Dame em Paris em 1967 e quando lá retornei em 1998, a impressão que me ficou foi a mesma Julguei ver o corcunda, criado pelo gênio de Hugo, abraçado à uma das estátuas, as gárgulas, que circundam a torre da enorme igreja parisiense. E julguei ver sua sombra na Place de Vosges, onde a residência do grande escritor se transformou em museu.
O tempo está bom no Rio Grande do Sul, extremo meridional do Brasil. Há muito sol e a previsão de calor neste final de férias generalizadas. Março está aí e com ele a volta plena ao trabalho, a revitalização dos megócios, novos empregos postado por walter em 26/02/02
Os gaúchos praticam o êxodo anual que realizavam os antigos habitantes da região, pré-colombianos, pré-cabralinos. Os guaraní, assim mesmo sem S no plural, costumavam (a prova são os sambaquis que se estendem pelo litoral) acampar na beira da praia durante os períodos de maior calor.
Depois subiam a Serra, de volta.
O alimento estava ali mesmo. Camarão, peixes e frutos do mar.
E com isto fugiam ao calor.
É bem assim que os gaúchos fazem: fogem ao calor e aos problemas...
Em seguida estarão de volta, com seus automóveis, e... seus problemas irresolvidos.
Mas, pelo menos refrescaram a cabeça e deram uma irrigada financeira no Litoral do estado.
Março está chegando e isto quer dizer, no sul do Brasil, que o Ano Novo afinal começa... postado por walter em 25/02/02
RECOMEÇANDO
Walter Galvani
Hoje é dia 25 de fevereiro, ainda faltam três dias para o final do mês, mas sem dúvidas temos sinais de que o ano vai começar aqui no Rio Grande do Sul Só se fala em volta das férias, em retomada, novos planos, investimentos. Ninguém teria sido capaz de marcar qualquer entendimento sério, entrevista de negócios, nada, nem casamento.
Muitos estabelecimentos de ensino recomeçam hoje e até empregos podem surgir – apesar de que a recessão, mal mundial, aí está. Só que não veio para ficar, indefinidamente. De jeito nenhum: aposto até que no mundo inteiro os negócios já estão retomando o ritmo e em nosso caso muito particular, a mudança está marcada para hoje. De vagar mais vai.
Conheço no mínimo dez bons escritores que estão dando andamento a seus novos textos que serão editados para sair antes da próxima Feira do Livro que, estará este ano em sua 44ª edição e inaugura no dia 1º de novembro.
Na FIERGS, a poderosa federação das indústrias, se planeja uma atitude ainda mais ofensiva na área da realização de negócios e sua promoção.
Nas administrações públicas, parte-se para a última arrancada visando convencer os eleitores de que os mais capazes ali estão e devem, portanto, serem o alvo de uma reeleição.
E há a luta interna nos partidos, idêntica em todos, para a definição de candidaturas. Como se sabe, cada um se acha melhor do que os outros, mas isto é mais antigo do que o império romano e característico da natureza humana.
Tudo pois, começa hoje mesmo. Não estranhe quando começar a receber inesperados telefonemas. Convença-se: você ainda é importante, ainda não chegou a hora de aposentar-se, reformar-se, deixar a vida ativa.
Há muito que fazer, ainda mais num país como o nosso.
E todos ainda têm muito a dar. Principalmente os privilegiados como nós, que temos acesso a Internet, somos alfabetizados, enfim, estamos entre os 10 milhões de “escolhidos”.
Embora muita gente se surpreenda, agora sim é que o ano está começando. Para todos ? Não, quem sabe na próxima segunda-feira ? postado por walter em 25/02/02
Alguns jornais do país surpreenderam seus leitores esta semana com a notícia de que o “Governo argentino prevê explosão social”, informe baseado num relatório secreto, elaborado pela “inteligência” daquele país, consultores políticos e sociólogos.
Ou a hipocrisia chegou aos seus limites máximos, ou a ironia ganhou as manchetes...
Seria necessário um “relatório secreto” e consulta a “sociólogos e consultores políticos” para descobrir a possibilidade de uma “explosão social” na Argentina ?
Qualquer motorista de táxi ou porteiro de hotel, livreiro ou garçom, professor ou carregador de malas poderia fornecer estes dados a um visitante à Argentina neste verão de 2002 . Também não se necessita de informes da “inteligentzia” para saber o que ocorre na Colômbia, na Venezuela, e... no Brasil.
A inconformidade do povo com as desigualdades sociais só muda pelas colorações nacionais e diferenças de comportamentos entre os povos. A guerra aberta entre as FARC e o governo, por exemplo, acaba de mergulhar em nova fase que deixa a velha guerrilha a parecer brincadeira de meninas de coleginho do interior... Os militares que se rebelam na Venezuela são apenas o prenúncio do que virá por aí e neste imenso Brasil, a revolta do povo contra a onda de corrupção entre os políticos e a violência sem limites, a breguice geral da televisão e a baixa de qualidade do ensino, as “gangs” que assaltam ônibus de turistas e os apedrejadores de veículos nas estradas, estes salteadores modernos, toda esta “copa franca” para a delinqüência, tudo isto reflete o que está no substrato da sociedade: uma explosão social.
Sorte nossa, por enquanto, que o Brasil é tão grande que a pressão vai se soltando aqui e ali, enquanto o “gigante” dorme e no escuro da noite progride “apesar” dos seus líderes.
Espero que não surja nenhum espertalhão “vendendo” um relatório secreto a ser revelado em reuniões de entidades para, regiamente pago, esclarecer aos narcotizados integrantes da platéia, sobre o que vai surgir ali adiante, fruto deste fermento de desintegração social.
Sorte nossa é que estamos num ano de eleições. As tensões serão assim encaminhadas para as prévias internas dos partidos, para as escolhas de candidatos, para a campanha política, que será a mais virulenta dos últimos anos e finalmente para a própria eleição. Em outubro decidiremos. Tudo se encaminhará então para mostrar uma nova fotografia do país em que veremos até que ponto os políticos foram capazes de negociar seu próprio futuro, de suas agremiações, de sua ideologia e do povo brasileiro.
Neste jogo de relações haverá a necessária fresta para as acomodações sociais. A cobrança se transferirá para os novos governantes. Nos estados onde a segurança é ruim, onde a violência cresce cada vez mais tornando insuportável a vida de todos, a resposta será dada nas urnas com a provável troca de partidos no poder, desde que, é claro, os que estão hoje na Oposição apresentem planos concretos e nomes capazes de sensibilizar o eleitor.
Além da violência, o que mais preocupa o cidadão brasileiro é o atendimento à Saúde, o Emprego e a Educação. Não é necessário nenhum relatório secreto. E os candidatos podem compor seus programas em cima destes quatro itens.
Uma vez eleitos, preparem-se para cumprir. Caso contrário estaremos nos encaminhando para uma situação análoga à argentina.
Perder o grande líder da publicidade, do jornalismo e dos movimentos comunitários, perder o fundador do poderoso sindicato das indústrias de Canoas, eis o que significou a morte de Ernani Behs postado por walter em 22/02/02
PERDEMOS “A VOZ DA ALEGRIA”
Walter Galvani
O Rio Grande do Sul viu ontem ao final da tarde reduzir-se à cinzas o corpo de Ernani Behs, testemunha de mais da metade de um século, jornalista, publicitário, e sobretudo “amigo e benfeitor” de entidades e empreendimentos positivos.
Nascido em Taquara, há 78 anos, iniciou sua carreira ainda menino atuando como locutor no serviço de alto-falantes local, a “Voz da Alegria”. Dali transferiu-se para a capital (em 1939) e depois de rápida experiência no Teatro do Estudante, grupo em que contracenou com Valmor Chagas entre outros astros do palco brasileiro, iniciou uma atividade radiofônica que o transformaria em ídolo dos anos cinqüenta.
Foi também o primeiro apresentador de televisão no sul, onde, até ontem militou ativamente, na publicidade, no rádio, na tv.
E na atividade empresarial. Atuando na Minuano S.A, empresa canoense que produziu os automóveis licenciados pela DKW alemã para a Vemag, brasileira, tornou-se o primeiro presidente do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Canoas, hoje conhecido como SIMECAN.
Deixou amigos por onde andou e foi sempre a mais legítima “voz da alegria”. Seu entusiasmo, companheiro permanente de sua vida ativa, nunca morreu. Só quando a falência múltipla de órgãos tirou-lhe a voz, nesta etapa final da vida que estava indo embora.
Para sempre restam seu exemplo e sua memória. Aos amigos que ficam compete cultivar a sua figura e seu nome fantástico, sua dedicação aos companheiros, apoio aos pequenos, compreensão com os iniciantes.
Ernani Behs fica entronizado agora na lembrança de todos os que o conheceram, que acompanharam sua carreira, ouviram sua voz, com ele conviveram.
De vez em quando cala-se uma grande voz da imprensa. Sampaulo era o mestre do traço. Freqüentemente me perguntam quem é o autor desta caricatura genial que acompanha meus textos de Hoje, atualização diária em meu site na Internet: Sampaulo é o nome do monstro.Paulo Sampaio, ganhador de dezenas de Prêmios ARI de Jornalismo, além de primeiro lugar no Salão Internacional de Desenho de Porto Alegre em 1992 e um 3. e um 4. lugares em salões internacionais de Humor no Canadá em 1966 e 1967. postado por walter em 22/02/02
Enquanto concluo um novo texto literário, peço aos freqüentadores deste "site" que leiam com atenção o artigo sobre Cuba, publicado no jornal ABC DOMINGO e também enviado para A Razão de Santa Maria (RGS) e acompanhem o que se passa em Cuba. Estarão assim com informações suficientes sobre os próximos passos que poderão se dar no Caribe. Portanto, permanece o artigo enviado neste domingo. A seguir postado por walter em 18/02/02
Cuba continua recebendo minha atenção. Aproveito a visita que fiz à ilha para receber o Prêmio Casa de Las Américas e assistir ao lançamento de "La nave capitana", meu livro "Nau Capitânia" em versão para o espanhol, e comento algumas particularidades e fatos sobre o povo cubano postado por walter em 17/02/02
A NOVA DANÇA DE CUBA
Walter Galvani
Tem surpreendido à muita gente e de um modo especial aos mais radicais, a mudança de tom do discurso cubano com relação aos temas internacionais e de um modo particular, o uso das instalações da base de Guantanamo, em poder dos Estados Unidos há mais de cem anos e os fatos do dia 11 de setembro.
A derrubada das Torres Gêmeas teve uma imediata reação do “comandante en jefe”, Fidel Castro, que foi um dos primeiros chefes de estado a condenar a ação terrorista. Alinhou imediatamente Cuba entre os países que tomariam medidas contra os responsáveis por aquele ou outros atos deste tipo.
Com isto, imunizou a ilha contra uma utilização possível como refúgio e negou seu apoio político à tais ações.
Com relação ao uso da base, território americano por força de acordo ainda vigente, ofereceu todo o apoio cubano em forma de atendimento médico e humanitário. E nada reclamou pelo possível abuso ou falta de ética. Ora, sabe-se que Cuba possui desenvolvida atividade em relação à saúde pública. O atendimento é universal à toda a população, os custos são absolutamente do governo, a não ser para cirurgias plásticas de embelezamento é claro. Então, do berço ao túmulo o cidadão cubano está garantido. Com isto a medicina na ilha desenvolveu-se e produz uma espécie de “turismo de saúde”, que consiste em receber para tratamento em especial de doenças de pele como psoríase e vitiligo. Portanto a oferta de tratamento humanitário e de saúde aos prisioneiros talebans vai além da gentileza. Significa a nova postura de Cuba com relação aos Estados Unidos que se materializa em outras medidas já evidentes: durante minha permanência por lá testemunhei a chegada de um navio provindo dos Estados Unidos, carregado de milho (e isto não é pouco, significa comércio bilateral) e um barco com o reitor, professores e seiscentos alunos da Universidade de Illinois para um projeto de intercâmbio. Depois da visita à ilha os jovens viajaram para Salvador da Bahia para conhecer o carnaval brasileiro. Aliás meta que gostariam de tomar todos os cubanos também e não só os americanos... Afinal, o Carnaval do Brasil bem que vale à pena.
Partilhei de uma entrevista com o secretário de Exterior de Cuba, o jovem Felipe Pérez Roque que foi assessor pessoal de Fidel Castro e agora é o chanceler, ministro do Exterior em outras palavras: Espero que em algum dia – disse ele – as relações em todos os assuntos oficiais possam ser manejados com o respeito e a colaboração que se está praticando em Guantanamo” – disse ele – “Assumimos uma clara posição de colaboração com os Estados Unidos”. Explicou que houve contatos assegurando o uso dos dois aeroportos do país em caso de necessidade americana, especialmente no período em que as pistas de pouso nos Estados Unidos estiveram interditadas.
Em troca, Bush não nomeou nenhum dos chamados “duros”, os “gaviões” para os postos mais importantes da sua política com relação à Cuba e países latino-americanos. O discurso duro do “xerife” não corresponde portanto à ação efetivamente adotada.
Graças à esta mudança de tom, acontece o começo de um degelo nas relações que poderão levar ao desbloqueio econômico, cedo ou tarde, antes ou depois de Fidel. E quem fala é um seu provável sucessor. Que copia o chefe: falou duas horas sem parar, é um treinamento, afinal “el comandante” fala 7, sem interrupções, e aos 75 anos não sofre problemas de próstata porque não suspende o discurso nem para ir ao banheiro...
(Originalmente publicado no ABC DOMINGO de 17-02-2002 e em A RAZÃO, de Santa Maria)
Se usarem o Carnaval com objetivos políticos estaremos chegando ao cúmulo. Mas é possível sim... postado por walter em 15/02/02
O CARNAVAL DE PORTO ALEGRE
Walter Galvani
Este site é visitado por gente de todo o mundo. Ainda esta semana foi acessado por alguém da Holanda, um internauta dos Estados Unidos e um da Áustria, fora os amigos de Cuba, que desde a semana passada me visitam diariamente. Portanto, sabem o que é Porto Alegre e a eles devo explicações sobre o desastre do Carnaval.
Mas, será que as tenho ?
Pelo menos quero repartir com quem me acessa a preocupação maior: estes “carnavalescos” que apresentam os carros na avenida, na mesma avenida há anos e anos, não sabem quais são as dimensões da rua, a espessura e a consistência dos postes, a altura da iluminação pública e o tamanho dos passeios ? Como podem então alegar que os carros trancaram ao entrar nela ?
Desculpa de mau pagador, como diziam nossos pais.
Na verdade, devem ter ocorrido outros interesses que acabaram prejudicando o desfile.
Tomara que não seja verdade o que se assopra de ouvido em ouvido pelas ruas de Porto Alegre, a mesma cidade que foi capaz de sediar o Fórum Social Mundial e se destaca pelas suas iniciativas como o orçamento participativo e uma câmara de vereadores aberta e atuante.
Mas dizem que houve motivos políticos.
Duvido.
Mas... e se for ?
O Carnaval é uma festa popular, mas não é inofensiva como se imagina. Quando alguém vai para a avenida é porque há motivos e nem sempre é o desejo de sambar, apenas.
Se não for tudo devidamente investigado, quem vai acabar dançando nesta, seremos nós mesmos... Que já pagamos uma vez e vamos pagar de novo pela vaidade de alguns.
Imaginem só: cortaram calçadas, removeram calçamento, fizeram horrores, tudo para destrancar os carros alegóricos que em verdade tinham dimensões maiores do que as convenientes.
Ah, e tem mais:
Nos outros anos deixaram semanas, meses a fio, os carros atirados pelos cantos, pelos parques e acostamentos de avenidas. Espero que tenham já rebocado de volta para suas sedes, ou que o façam logo. Que os desmanchem e retirem, sem ônus para a prefeitura, naturalmente. Era só o que faltava!
Hoje a efeméride é minha: há 47 anos, num 14 de fevereiro, 1955, às 3 horas da tarde, eu pisava pela primeira vez a redação do CORREIO DO POVO, de Porto Alegre, no mesmo endereço onde se encontra até hoje, Rua Caldas Júnior, 219, 1. andar, para começar um trabalho como jornalista, como repórter esportivo. Marco inicial de uma carreira de quase meio século postado por walter em 14/02/02
47 ANOS DE EMPRESA CALDAS JÚNIOR
Foi num 14 de fevereiro, em 1955. Recém metade do século passado...
Numa tarde de verão, também naquele ano logo depois do Carnaval, pisei pela primeira vez na redação do Correio do Povo.
Vinte anos de idade, vindo de uma primeira experiência de jornalismo em Canoas, onde ajudara a fundar o jornal "Expressão", sob a direção de Tulio Medina Martins, pai do magistrado Tulio de Oliveira Martins que hoje responde pela Imprensa da AJURIS em Porto Alegre, estreei na capital do Rio Grande do Sul.
Imagine-se a emoção do jovem canoense que pisava o assoalho reverenciado onde atuavam aqueles monstros sagrados de então: Mário Quintana, Osvaldo Goidanich, P.F.Gastal, Adail Borges Fortes da Silva, Antônio Carlos Ribeiro, Paulo de Gouvea, Isaias Valiatti, Wilson Zin, S. D. Ramayana, Heitor Berutti, e tantos outros.
E Cid Pinheiro Cabral, chefe de Esportes, meu primeiro editor, José Domingos Varela, Luiz Miranda e Tulio de Rose, meus primeiros companheiros de trabalho.
Com o coração apertado subi pelo mesmo elevador que até hoje funciona no prédio da Caldas Júnior, no mesmo endereço, e apresentei-me no final do corredor à esquerda, onde ainda hoje é a redação do Correio.
Designaram-me uma mesa com uma máquina de escrever e me mostraram as laudas. E toca a trabalhar.
Mas, escrever o quê ?
Não sabia nada e não conhecia ninguém.
Reescrever os outros ?
Mas, com que preparação ?
Fui ficando por ali.
Até que me surgiu Lourival Viana e Silva que atuava em outros jornais da companhia e me socorreu com algumas informações esportivas.
Comecei a batucar na máquina e produzir meus primeiros textos.
Que foram reprovados, naturalmente.
Como eu próprio que, ao cabo de uma semana, recebi o constrangido aviso do Cid Pinheiro Cabral, de que "não havia correspondido".
Apavorado, imaginando como seria o meu retorno, desastrado e derrotado à minha terra natal, e vendo fugir da minha mão o futuro que imaginar, nas letras e no jornalismo, tendo convivido uma semana com aqueles consagrados nomes do Rio Grande, pedi uma nova chance.
Fiz um apelo: "Dê-me mais uma semana e então sim, se eu não corresponder, bastará me apontarem o caminho da saída."
Bem, passaram-se já 47 anos, desconfio que pelo menos em parte deu certo... já que continuo na mesma empresa, embora tenha atuado e continue a fazê-lo, concomitantemente em outros veículos.
Atualmente participo dos jornais do Grupo Editorial Sinos, como o ABC DOMINGO, o Diário de Canoas e tenho colaborado ao longo do tempo com A Razão de Santa Maria, diversas revistas, e jornais daqui, do país e do exterior como o "Clarín" de Buenos Aires e a revista "Tópicos" de Berlim.
Mas sigo batucando meus textos, agora no computador e apresentando neste momento um programa cultural diário na Rádio Guaíba que é do mesmo grupo Caldas Júnior, desde 1986 sob o comando de Renato e Carlos Ribeiro.
Obrigado pela confiança.
O Carnaval está quase ultrapassado, faltando apenas o tradicional Enterro dos Ossos... postado por walter em 13/02/02
COMEÇA O ANO DE 2002...
Walter Galvani
Canela será a cidade da fotografia de 15 a 24 de fevereiro. Participe do Canela Fotoworkshop.
Porto Alegre e o Rio Grande do Sul seguem a discussão em torno à duas alas, cujas diferenças se aprofundaram, separando o Palácio Piratiní do Paço Municipal da capital gaúcha, ou seja, Olívio Dutra e Tarso Genro e muito mais do que isto, grupos renovadores e ou conservadores dentro do próprio partido.
Deve acabar em consenso na escolha do novo candidato ao governo gaúcho ou numa prévia, cujos riscos e seqüelas são bastante conhecidos deste e de outros partidos.
Mais de 30 mortos e dezenas de feridos nos acidentes de trânsito dos feriados de Carnaval, demonstraram na prática que as campanhas não surtiram o efeito desejado. Diminuiu o número de mortes em anos passados, mas neste 2002 ocorreu uma autêntica explosão.
A dengue. Já está esparramada pelo Brasil inteiro. Deve estar chegando às fronteiras de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. Lembre-se que o mosquito vetor da doença, o aedes egyptii, é o mesmo transmissor da FEBRE AMARELA .
Em Cuba, de um modo especial em Havana, há neste momento um sério trabalho de combate a ele. Rua por rua, casa por casa, os agentes da saúde percorrem de Habana La Vieja até à periferia de uma capital, hoje com 2 milhões de habitantes.
E o cinema ? Ah, vem aí o Oscar, prêmio americano mas que mexe com o mundo inteiro. Quem já assistiu, torce por “O destino fabuloso de Amelie Poulain” – e quem não viu, deve fazê-lo – entre os cinco concorrentes ao Oscar, mas os adversários são de porte, em especial o filme da Bósnia, “Terra de ninguém”.
E os negócios, ah, os negócios ?
No Brasil recomeçam... segunda-feira. Explica-se. O ano ainda não começou. Deveria começar hoje, mas como ainda é Quarta-feira de Cinzas, é ressaca de Carnaval.
Reuniões, só a partir de terça-feira próxima. Consultas, entrevistas, portanto, preparem-se que 2002 vem aí...
Hoje reabrem os bancos, mas em horário diferenciado. A maioria, ao meio dia. Outros, às 11 da manhã.
Os cheques-voadores, característicos desta época no Brasil, ou seja, cheques que “voaram” sem fundos durante os quatro dias de Carnaval, começam a aterrissar nas agências, para iniciar logo a revoada às mãos dos apresentadores. É a primeira vez. Reapresentados, representarão problemas para os seus emitentes.
Mas, até lá vai toda uma negociação. Coisas de Carnaval...
Enfim, o país volta aos trilhos, se é que consegue se “encarrilhar” para a retomada.
Bem, amanhã os bancos já abrirão suas agências às 9 da manhã, e aos poucos, chegará o fim-de-semana, que afinal de contas ninguém é de ferro...
O Brasil perdeu um exemplo de homem público: Nelson Marchezan, concordando ou discordando de suas posições políticas, todos reconhecem sua lisura, respeito ao pensamento dos demais, tolerância e sobretudo, seu empenho na defesa dos fracos e oprimidos postado por walter em 12/02/02
MARCHEZAN, O BOM CORAÇÃO
Walter Galvani
Eu o conheci de perto. Quase um garoto, líder estudantil em Santa Maria e em Porto Alegre, um dos primeiros integrantes do PDC (Partido Democrata Cristão) que mais adiante sumiu na voragem discricionária dos idos de março de 1964. Marchezan, no entanto, não submergiu, nem na clandestinidade da guerrilha, nem na ausência da arena política. Ao contrário, conseguiu transformar uma atuação indigna de pura adesão, no exercício da mais alta solidariedade.
Formou ao lado de Antônio Gonzalez (mais tarde presidente da ARI) e de Alberto André (o então presidente da entidade dos jornalistas gaúchos) como o resgatador de companheiros detidos e quem sabe ? – destinados ao desaparecimento como ocorreu com tantos pelo país afora naquele período que nem se adivinhava tão longo como o foi.
Sua atuação independente e soberana deu-lhe uma primeira grande votação como lhe garantiria outras quatro subseqüentes, embora na última reeleito quase numa carona. A memória do povo é curta e para avivá-la escrevo aqui, lembrando quem foi Nelson Marchezan, este jovem político, desaparecido aos 63 anos e alguns meses, nascido no então distrito de Silveira Martins, a 4 de maio de 1938, primeiro vereador em sua terra natal (Santa Maria) aos 22 anos, já deputado estadual pelo PDC em 62, depois convertido em ARENA em 64.
Mas nunca foi um esbirro da ditadura, um colaboracionista dos serviços de segurança dos governos de força dos anos 64-86. Antes, foi um sincero defensor dos direitos humanos, ocupou-se em percorrer quartéis e presídios em busca de melhora de condições para presos políticos e ou sua libertação.
Cresceu politicamente e transformou-se num homem de proa, defendendo com sinceridade seus ideais de uma democracia cristã. Esteve por cinco mandatos na Câmara Federal, antes e depois da “Revolução de Março” e em 82 chegou a líder do governo Ernesto Geisel, cabendo-lhe negociar a abertura política “lenta e gradual” que trouxe a normalização democrática, brasileiramente, sem sangue e maiores traumas, apenas com o ex-presidente Figueiredo saindo pela porta de trás do Palácio...
Como bom gaúcho da Metade Sul, tinha seu pedaço de campo. Ficava no município de Rio Pardo, na localidade de Capivarita, e um incêndio levou-o sozinho até o local do problema, onde foi encontrado desmaiado. Um acidente provoca outro, conduzido com uma possível parada cardíaca, chegou sem vida ao hospital.
Perdeu a batalha. Perdemos nós.
Deixou seu exemplo, muitos projetos aprovados, a preocupação permanente com a educação, a bolsa-escola que está em vigor beneficiando tantos filhos de t