Quinta, 09 de Setembro de 2010

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bem o monarca lusitano da existência de terras a ocidente e para que seguramente estivessem incluídas nos limites do seu país, exigia a extensão por mais aquelas 7 0 léguas. Estava certo, dentro dos princípios que norteavam o plano de expansão português e confirmavam o que só mais tarde se soube: o pleno conhecimento da existência de tais terras. Onde para felicidade portuguesa e salvação das finanças da coroa por várias gerações situava-se o futuro Brasil.
Não tivesse acontecido a mudança em Tordesilhas, esta data de hoje assinalaria nossa integração no mundo hispânico. “Hablariamos español” e não praticaríamos o divertido “portunhol” que hoje nos liga nos contatos com os platinos.
Foi melhor ou pior ser um Brasil português, ingressarmos no mundo da cultura lusitana e falar sua língua?
Não há juízo de valor sobre acontecimentos históricos e preferências se aceitam apenas no plano das opções individuais. Somos hoje brasileiros e pronto. Se o território foi ocupado, conquistado, arrancado ou negociado, cedido ou invadido, a História não costuma questionar, bem como não se trabalha a não ser em cima do fato consumado. Os muitos “se” de nada valem.
Construímos, com os erros e acertos portugueses, um imenso país que foi ampliado muito além da linha de Tordesilhas que, como se sabe, passava no Nordeste e junto à cidade catarinense de Laguna. O restante foi conquistado, negociado (Missões, por exemplo) ou arrancado aos nativos e aos espanhóis que avançavam desde as suas ricas colônias de Lima, Assunção e Buenos Aires.
O panorama é o que se conhece hoje. Somos vizinhos e deveríamos ser amigos. Durante largo tempo fomos inimigos, reproduzindo aqui na América as lutas das coroas européias. Hoje queremos as vantagens da proximidade e das possibilidades de uma ampliação de mercado, mas não queremos a contaminação com os problemas e as dificuldades.
A Argentina e sua crise, por exemplo, nos assustam e com toda a razão.O próprio presidente da FIERGS, Francisco Renan Proença, ajuizadamente refere que as dificuldades vividas pelo Rio Grande do Sul, especialmente, se devem ao fato da Argentina ser nossa parceira comercial número 1 e por isto, a produção industrial e agrícola é naturalmente afetada, bem como pelo comportamento do câmbio que, sem dúvida, reflete a problemática do vizinho.





É dia de lembrar a vitória da democracia sobre o nazismo. Por aí afora, na França, como em outros países e até no Brasil, os fascistas estão botando a cabeça para fora postado por walter em 02/05/02

A RENDIÇÃO

Walter Galvani


Dia 2 de maio de 1945, completando hoje, portanto 57 anos, a Alemanha nazista assinava sua rendição. Seis dias mais tarde era a capitulação completa com as nações aliadas, lideradas pela França, Inglaterra, Estados Unidos e URSS, firmavam o armistício, depois da completa derrota do Eixo (Roma-Berlim-Tóquio).
Mas, hoje ninguém mais se lembra disso e é bom refrescar a memória dos povos...
O que significava o fim da II Guerra Mundial? Quem eram os derrotados, quem eram os vitoriosos?
E o que mudou desde então?
Neste dia dois de maio a Alemanha assinava sua derrota, unilateral porque a Itália já se havia rendido e trocado o primeiro ministro, Mussolini já fora derrubado e enforcado pelos “partigiani” e a guerra no Pacífico (Estados Unidos e seus aliados contra o Japão) prosseguiria ainda até que a Bomba Atômica sobre Hiroshima e Nagasaki dia oito de outubro, a encerrasse.
Pois acontecera neste segundo dia do mês de maio a capitulação do regime direitista da Alemanha, o nazismo assinava sua sentença de morte. Hitler já se fora, suicídio ou seja lá o que tenha sido, no seu “bunker” junto com sua amante Eva Braun.
O fascismo fora abatido com Mussolini dois anos antes. Esperava-se que nunca mais tais regimes direitistas estariam de volta.
No entanto, a chama do nazi-fascismo nunca morreu. Agora mesmo temos um hitlerista convicto disputando domingo próximo o segundo turno das eleições presidenciais na França, com Jean Le Pen. Vocês verão, provavelmente Chirac se reelege, mas a quantidade de votos que Le Pen fará, como já o fez no primeiro turno, mostrará que o pensamento direitista ainda está de pé.
O sacrifício de milhares no altar das convicções políticas, na defesa da democracia, parece ter sido pequeno. Os milhões de judeus, ciganos, homossexuais, mortos em mãos de nazistas nos campos de concentração, tudo isto parece pouco.
A Humanidade, que aprende mas devagar, continua elegendo governos de ideologia nazista. No caso de Le Pen, com a confissão pública da sua admiração pelo “Fuehrer” e com sua demonstração de repúdio aos imigrantes, seu nacionalismo xenófobo, mesmo quando vivemos uma época de construção de uma composição globalizada.
Esses, querem globalização só para a venda dos seus produtos. Nada de união, de quebra de preconceitos e barreiras.
O dia dois de maio é oportuno, pois, para lembrar que houve também a derrota militar do nazismo, porque o então chamado “mundo livre” aliou-se contra ele.



Visite o site www.diegocasagrande.com.br e clique no item Entrevistas, buscando o Perfil que me foi dedicado e está na web desde o dia 10 de abril de 2002 postado por walter em 01/05/02



A comemoração(?) de hoje oferece material para muita reflexão... postado por walter em 01/05/02

O PRIMEIRO DE MAIO

Walter Galvani


Trabalhadores, somos todos. Uns mais, outros menos, alguns apenas batalhadores, outros carregadores de mesa, enfim, há de tudo, mas o objetivo é o mesmo: produzir o “vil metal” com o qual supriremos nossas necessidades e alimentaremos nossos sonhos.
Hoje o Políbio Braga, jornalista brasileiro, (gaúcho, quer dizer, natural do Rio Grande do Sul – explico, estou escrevendo para leitura no mundo todo, pelo menos onde haja lusófonos e hispanohablantes...) propõe em seu site na Web, a questão: “ainda está em vigor a lei comunista que separava patrões de empregados e dizia que o mundo marcharia para uma sociedade sem classes?”.
As respostas podem ser encaminhadas diretamente para o Polibio...
Acho eu que o mundo moderno mostrou que estamos muito distantes de uma sociedade sem classes e que mesmo nos países onde foi implantado o comunismo, onde ele ainda vigora como China, Cuba e Coréia do Norte, depois do fracasso da URSS, há problemas sérios e mesmo, um lento restaurar da propriedade individual.
É difícil separar o homem deste conceito de “isto é meu”, “esta terra é minha”, por exemplo. No Brasil a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos) gerou este ano uma campanha de ajuda aos indígenas que fez retornar o velho conceito de que “a terra é de todos”. Difícil, ainda mais num país onde o fenômeno da posse de grandes extensões originou-se nas capitanias hereditárias e estas nas glebas cedidas aos amigos do Rei, aos comandantes militares e aos seus descendentes.
Ora, em Roma também, no Império Romano quero dizer, ou seja por todo o mundo conhecido na metade do primeiro milênio fora justamente destinado aos soldados, aos legionários, a terra conquistada e esta é a origem dos bens de inúmeras famílias na França, na Alemanha, na Inglaterra, na Espanha, em Portugal, na Itália, etc.etc.etc.
Reformas agrárias foram sendo feitas em muitos desses países e alguns nem a realizaram com a amplitude adequada, ou pelo menos com os efeitos alcançando democraticamente todas as classes sociais.
Mas, a leitura que faço é que a terra continuou com propriedade privada, com limitações legais aqui ou ali e é pelo menos isto que se espera do Brasil.
Difícil aplicação.
Reconheço.
O MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra) que o diga, pois, com todas as suas imperfeições, é natural que as tenha, pelo menos representa uma idéia e uma reivindicação.
Até aonde vai isto?
Eleições gerais no Brasil resolverão a questão? Duvido, mas acho que seria muito bom que Lula ganhasse as eleições, para ver como o seu governo se veria com a difícil questão agrária.
Tomem nota: este Dia do Trabalho deve ser uma data de muita reflexão e se lembro que a Reforma Agrária está na base da discussão, é justamente porque o produto do trabalho está mais do que desmoralizado num país que paga salário mínimo inferior a 100 dólares mensais.
Quem ganha menos do que isto não pode suprir suas necessidades básicas. Esta é a realidade dos que trabalham no Brasil. E os que não tem sequer emprego?


É lamentável que se continue desperdiçando tempo e espaço com a didática da violência e a promoção dos criminosos postado por walter em 29/04/02

CHACINAS E MATANÇAS

Walter Galvani


Há opções para todos os gostos. Há matanças reduzidas, níveis particulares, locais, regionais. Há chacinas ao amanhecer, de noite, de madrugada, de dia claro. Há liquidações de vidas, ajustes de contas, assassinatos por encomenda ou assaltos e até ataques de paixões. Existem também mortes eventuais ou acidentais e até liquidações por motivos políticos, divergências entre nações ou guerra. Há combates por território ou por motivos étnicos ou religiosos.
Portanto no vasto menu da destruição de vidas, basta clicar sobre o botão que mais lhe atrai e pronto! Ali está a repetição enfadonha de crimes.
Pergunto: fazer a didática e de certa forma a apologia da violência ajuda em alguma coisa?
Não há santo dia que não nos traga a desgraça em primeiro plano, não há jornal, rádio ou emissora de televisão, ou melhor, não há meio de comunicação social em mãos privadas que não dedique vastos espaços à cobertura dos seqüestros, guerras, sangueira.
Mesmo as estações de teve oficiais de vez em quando dedicam parte do seu noticiário à cobertura de tais fatos.
Por outro lado, difícil é encontrar um programa sério ou um espaço por mais medíocre que seja, para a promoção da arte, da literatura, da música, da dança, do teatro ou do cinema. Os antigos cadernos de cultura hoje estão reduzidos e não são todos os veículos que o possuem. Alguns resistem, gloriosamente, e eu citaria aqui, no caso brasileiro, o jornal independente “Rascunho”, que se edita no Paraná, as revistas “Cartaz”, de Florianópolis, “Bravo” de São Paulo, e naturalmente “Aplauso” de Porto Alegre e “Caros Amigos”.
Mas na grande “mídia” o que há? Sim, cadernos “Anexo” em “A Notícia”, de Joinville, “Cultura” com a edição de sábado da “Zero Hora” e “Viver”, com o “Jornal do Comércio”, ambos de Porto Alegre, os cadernos de “Cultura”, do “O Estado de São Paulo”, aos sábados e o “Mais” com a “Folha de São Paulo, aos domingos, “Idéias” com o Jornal do Brasil de sábado e o caderno cultural de “O Globo”, também aos sábados.
Além da TV Cultura de São Paulo e a Educativa do Rio, alguma coisa como a “Estação Cultura” da TVE Piratini de Porto Alegre.
Mas, se formos somar centímetros quadrados e tempo de rádio e tv, se vê que é pouco, muito pouco.
Ah sim, o “Gaúcha Entrevista” com o Ruy Carlos Ostermann, na rádio Gaúcha em P. Alegre e também aquele ao que estou ligado como apresentador, o “Guaíba Revista”, de segunda á sexta, das 15h30min às 16h30 na Rádio Guaíba AM, 720 no seu dial.
Mas reclamo não do que há, mas do que se faz com o espaço imenso que sobra.
Não vejo páginas e páginas e nem horário nobre de grandes redes de tv com artistas e escritores. Só “casas de artistas” (?) ou “Big Brothers” inúteis enchendo e desperdiçando o tempo das pessoas.
E crimes. Matanças. Chacinas. Morte.
Para treinar as novas gerações na prática da delinqüência?
Quando é que Erico Veríssimo ou Carlos Heitor Cony receberam a cobertura que o Fernandinho “Beira-mar” recebe?


Todos os dias, novas notícias de violência abalam o mundo triste e infeliz em que vivemos. E o pior, que é preciso reconhecer que fazemos a promoção do crime e dos criminosos. E divulgamos, em meios de comunicação de massa, a didática da maldade postado por walter em 27/04/02

MATANÇA SEM FIM

Walter Galvani


É pura falta de ação, é a impunidade, é a didática dos meios de comunicação irresponsáveis que promovem os criminosos, é a fraude, drogas e a venda de armas. É tudo isto e mais uma imensa crise de educação e mais ainda de cultura da violência. É tudo isto, esta é a razão que está por trás desta matança indiscriminada de inocentes, ou seja, lá do que for. São pessoas, não são animais e não se mata por fome ou ocupação de espaço, naturalmente.
Mata-se por nada.
Nesta sexta-feira foi por ter sido expulso da escola. Outro dia será por que você “está me olhando feio” e segunda-feira porque uma garota estava vestindo uma blusa cor-de-rosa.
Um absurdo, mas que não tem tido limites e parece que só nos damos conta quando acontece.
Passado este fim-de-semana, o episódio terrível das 18 mortes na Alemanha, em Erfurth, na Saxônia, numa escola que além de tudo tem um nome ilustre, na cidade onde outrora Napoleão entrevistou-se com o Tzar Alexandre, enfim numa terra aparentemente aburguesada da poderosa terra germânica. Como há três anos foi nos Estados Unidos, como amanhã será em Porto Alegre ou Novo Hamburgo.
Infelizmente não há outro remédio a não ser partir para uma rigorosa revista na entrada das aulas.
E vejam que o problema é mais antigo do que se pensa.
No século XV, em Portugal dos bons tempos de Cabral e Vasco da Gama, os alunos eram rigorosamente examinados pelo bedel da Universidade ou da escola, mesmo junto á porta. E não poucos eram desarmados porque, já se viu por isto, muitos lá chegavam com facas, punhais, espadas ou mosquetões.
As armas eram então vendidas em benefício da escola.
Que bela idéia, não é mesmo?
Desarmar os valentões que não sabem se expressar a não ser por intermédio de tais artifícios e torrar suas prendas!
Hoje choramos a morte destes 14 professores, das meninas colegas, e de policiais. Um país como a Alemanha (leia-se um país como o Brasil) gasta seus recursos, dedica-se a preparar seus professores, para que acabem assim, trucidados por um bandido que se houvesse se suicidado (ou terá sido executado?) acabaria recebendo ainda as atenções da sociedade, dos defensores dos direitos humanos, dos médicos, dos psiquiatras.
A permissividade em que vivemos, infelizmente, gerou estas possibilidades e a tranqüila confiança que preside nossos atos concede ao mal que se aloja nestas pessoas a possibilidade para tudo.
Se eu fosse diretor de escola introduziria segunda-feira, bem cedo, o sistema de controle inevitável. Como eu faria o mesmo nos ônibus, (agora virou moda assaltar transportes coletivos), como eu mandaria – se fosse secretário de segurança – todos os policiais para as ruas. Como eu instalaria câmaras de vídeo pelas ruas e levando adiante a histeria, lutaria por um código mais rígido.
Nada de ampliar prisões, mas prevenir, evitar o crime, tanto quanto possível.
Acho que está na hora de darmos um basta a tanta selvageria, tanta barbárie. Hoje que é domingo, olhe nos olhos seus filhos, veja seus netos. Anime-se com a alegria deles, com a felicidade. Mas comece a lutar já pelos direitos que você tem. E o primeiro deles, já que pagamos tantos impostos, é segurança para que eles possam crescer em paz.
O dia hoje é de recordar o Nazismo que nos ameaça outra vez postado por walter em 26/04/02

GUERNICA, PICASSO, O NAZISMO

Walter Galvani

Foi no dia 26 de abril de 1937. Há 55 anos portanto. De repente, os céus da pequena Guernica, na Espanha, ficaram obscurecidos por uma estranha nuvem que chegava com ruído. Eram os aviões alemães, representantes do governo nazista de Adolf Hitler que chegavam para mostrar ao mundo do que seriam capazes.
E assim foi. Durante algumas horas eles semearam a morte e a destruição, deixando praticamente reduzida a pó a parte central da vila que ao longo do restante do século vinte passou a símbolo heróico da resistência.
Mas, antes disso passou por um calvário. Com a ajuda nazista o ditador Francisco Franco chegou ao poder, venceu a Guerra Civil Espanhola e permaneceu até sua morte.
Pablo Picasso, o genial pintor espanhol, recordou Guernica num dos seus principais quadros e hoje, basta citar este nome e a humanidade recorda o significado daquele 26 de abril.
É para não esquecer mesmo, ainda mais quando outras guernicas estão pintando no horizonte, não pela mão privilegiada do artista, mas pela loucura, a intransigência, a falta de memória e a demência política dos homens.
Hoje, 55 anos depois, o melhor que podemos fazer pela nossa espécie é lembrar o significado daquele terrífico episódio e dele retirar as lições.
Nazismo nunca mais!
Esperamos que o recado seja bem compreendido.
Aproveitamos para lembrar que as cinzas dos seis milhões de judeus sacrificados no Holocausto clamam pela justiça social e pela democracia.
E naturalmente são contrários aos canhões, aos tanques, as “panzer-divisionnen”.


Ontem foi o Dia Internacional do Livro e participei do lançamento da 8a. edição de "Ana Sem Terra", de Alcy Cheuiche, editora Sulina, o que já é um feito no Brasil. O livro é bom, leia agora a seguir a opinião que emiti na sede do Instituto Estadual do Livro, mas também demonstra a oportunidade da Reforma Agrária ainda não realizada no Brasil postado por walter em 24/04/02

ANA CONTINUA SEM TERRA. MAS TEM LIVRO

Walter Galvani

Desde que me asseguraram o direito de falar durante alguns minutos sobre este livro de Alcy Cheuiche, que atinge à assombrosa cifra de 8ª edição, num país onde as obras literárias costumam perecer no esquecimento ou de mortalidade infantil, tentei convencer-me de que não era demagógico o título que eu havia escolhido. Não consegui convencer nem a mim mesmo e tenho certeza de que também não convencerei os demais, mas ao mesmo tempo não me sai da cabeça e não creio que possa haver algo mais verdadeiro: “Ana continua sem terra. Pelo menos tem livro. E como!”
Li a primeira vez esta obra de Cheuiche no verão de 91, se estou bem lembrado – tenho a primeira edição – mas decidi fazer uma releitura agora, em 2002. Desde então transcorreram quase doze anos completos do seu lançamento e é impressionante como pouco ou nada mudou nesse país. Ao mesmo tempo, chamo em meu socorro Álvaro Mutis, o grande escritor colombiano - aliás ganhador do Prêmio Cervantes desse ano e que bem que deveria ser mais conhecido aqui - aconselhando febrilmente a releitura:
“Dá surpresas extraordinárias. Podem se passar duas coisas: o livro que nos chamou a atenção e que nos acompanhou durante um tempo, de repente não nos diz nada. Mas pode suceder o contrário. A vida te vai carregando de experiências através das quais estás vendo coisas que o autor colocou em seu livro e tu não podias ver nem perceber e que agora te esmagam.”
E eis o que sucedeu comigo neste mês de abril lá em Canasvieiras. Primeiro peguei o livro do Cheuiche e disse para mim mesmo: “Tens que lê-lo outra vez. Mas será que resiste ? O que o Alcy falou já não terá mudado ?”
Fiz uma ficha e pacientemente comecei a fazer anotações. Sei aonde está a primeira citação direta aos “sem terras” – página 34 - quando o deputado Camargo pergunta aos fazendeiros na Exposição de Animais, “Por falar nisso, como anda a movimentação dos sem-terra lá ma fronteira ?” – sei quando o autor cita o chargista Sampaulo, meu saudoso companheiro de redação da Folha da Tarde (também de saudosa memória...) na história de um touro que não podia reproduzir, e como encontro uma lição de vida no campo, com a cena da doma, que está na página 67 e assim por diante.
Aos poucos mergulhando na releitura descobri que Cheuiche entende e examina com precisão não só a vida no campo, como também passa pelo Exército como corporação, uma entidade “sem divisão de classes”, pelo menos então, de repente a politização desta mesma instituição, a Reforma Agrária, palavra proibida desde 64 e daqui a pouco, Ana salta para a vida, pela altura da página 92.
Surpreendo-me como o autor sabe tanto, aqueles detalhes da tortura, e me pergunto se ele “é” o Rafael, tenente mais adiante no livro, já que foi para Paris, viveu na rue de Broca, estudou veterinária.
E é então que bate uma brisa na praia de Canasvieiras e espalha meus papéis e minhas anotações. Que pena! Escapou-me tanta coisa para ajudar a orientar os leitores. Em que página está a magistral citação a Joaquim Francisco de Assis Brasil ? Onde é que se fala no incrível “povoamento” do campo rio-grandense com l boi por hectare ? Onde reencontrar esta frase do mesmo Assis Brasil, uma jóia: “O homem que se apresenta com uma novidade torna-se logo um ser odioso a todos os rotineiros. Infelizmente, isso é humano. É que o inovador vem quebrar a corrente do sentimento geral, e essa quebra não se faz sem dor ou irritação.” E aonde é que ele diz que “com 87 hectares bem aproveitados, um agropecuarista poderia produzir o mesmo do que numa área mal aproveitada cinqüenta vezes maior”.
Era a condenação do latifúndio – exclama o autor-narrador Alcy Cheuiche que não se contem e intervem diretamente para ajudar a difundir a lição do grande mestre esquecido como tantos inovadores no longínquo passado rio-grandense.
E a Ana que de sem terra acaba escritora, contando a própria experiência, na esperança de contribuir com alguma coisa para a “grande estância de São Pedro”, Ana na televisão promovendo seu livro que é a história de sua vida, dizendo “não adianta fazer discursos, pregar ideologias para quem não pode tomar banho. Para quem não dorme em lençóis limpos.”
E por aí vai Alcy Cheuiche: “A morte, o sofrimento dos miseráveis não escandaliza ninguém. Por mim podem tirar a palavra Ordem da bandeira”- diz a sua Ana. Daqui a pouco ela fala sobre “os trombadinhas de hoje e os assaltantes de amanhã” e enfim o livro vai até ao epílogo incrível, que naturalmente não vou contar, para não estragar a leitura, releitura ou... “tri-leitura” para ser bem porto-alegrense.
Então quem é esta Ana que continua sem terra, mas que pelo menos tem o seu livro, quem é o Rafael, o fazendeiro Silvestre Bandeira, o padre Willy, quem são todos esses personagens reais e ficcionais que permeiam este livro que tão notavelmente se perpetuou, não apenas pelos fatos reais em que alicerça, mas também pela análise sociológica, histórica, de um escritor que tem olhos para ver o passado e pressentir o futuro ?
Eu próprio respondo, não com minha voz, mas com a palavra de Miguel de Unamuno, em “Como se faz um romance”:
“Disse eu que nós, os autores, os poetas, nos colocamos, nos criamos em todas as personagens ficcionais ou apenas poéticas que criamos, mesmo quando fazemos história, quando poetizamos, quando criamos pessoas que julgamos que existem em carne e osso fora de nós.”
Para ir mais longe:
“Dom Quixote é para nós tão real e efetivo como Cervantes, ou melhor, tanto o é este quanto aquele”.
E para concluir:
“Todas as criaturas são o seu criador.”
Ah, menti quando eu disse que o vento da praia havia dispersado minhas anotações. Ele fez trotear meu pensamento, isto sim. Vaguei por aí, pensando quanto tempo as Anas continuarão sem terra, num país imenso como esse, com milhões de hectares em terras devolutas, por quanto tempo continuarão perseguidos e injustiçados os que lutam por um pouco de igualdade, por quanto tempo desmandos, invasões, reações armadas serão o panorama do que deveria significar harmonia, produção, bons negócios porque não ? – paz, entendimento, e até um pouco daquilo que aprendemos como “cristianismo”?




Vamos pensar um pouco, aproveitando que é o Dia Internacional do Livro, o supremo invento da Humanidade postado por walter em 23/04/02

O DIA DO LIVRO.
SHAKESPEARE, CERVANTES E
AS ELEIÇÕES FRANCESAS

Walter Galvani

No dia em que se fica sabendo quais foram os números finais da eleição na França, na verdade um empate técnico entre o centro-conservador e a direita de Le Pen, partindo agora para um segundo turno de vida e morte, caracterizando ainda mais o avanço dos fascistas e neo-nazistas mas também dos inconformados e dos “ameaçados” é mais do que nunca oportuno falar do Livro. Só ele pode fornecer suficiente dose de raciocínio e autonomia, para fazer com que os homens reflitam sobre o seu destino e tomem as decisões apropriadas.
É muito bom pois que seja hoje o Dia Internacional do Livro, escolhido por ser a data de falecimento de dois dos maiores escritores de todos os tempos, ambos casualmente no mesmo dia e mesmo ano, embora distantes em suas pátrias: William Shakespeare e Miguel de Cervantes. Foi num 23 de abril em 1616 que ambos morriam para se tornar imortais naturalmente, esses dois sim, sem sombra de dúvida e sem a pretensão vaidosa de pobres acadêmicos.
No caso de Shakespeare a coincidência é ainda maior porque esta é também a data do seu nascimento em 1564. São produtos ambos daquele período histórico incrível e inigualável da humanidade, os anos produtivos que se seguiram à Renascença, quando os homens estavam habituados a pensar, a debater as questões, a estudar a história, a refletir sobre o que viam, viviam ou participavam diretamente como o criador de “Dom Quixote” que foi ferido na batalha de Lepanto.
Shakespeare fundou além de toda a sua imensa obra, o Globe Theater, hoje funcionando em versão renovada no mesmo local à margem do Tâmisa, em Londres. Cervantes criou um monumento vivo com seu personagem principal. Quixote virou substantivo comum e adjetivo. Quem não sabe hoje, mesmo não tendo lido Cervantes, o que é Quixotesco ? Em todos os seus sentidos, aliás.
Quantas vezes não somos nós divinamente quixotescos ?
E sobre Shakespeare, sim, qual o tema que não foi abordado por ele, qual o sentimento humano que não foi por ele examinado ?
Preste-se pois uma pequena homenagem à inteligência e leia-se hoje um pouco de um, um pouco do outro. Ou qualquer livro que estiver em nossas mãos, em homenagem a este invento incomparável da humanidade: um pequeno objeto que abriga e transporta o pensamento.

Voltando às eleições francesas que tanto nos fazem pensar:
Claro que o tema do crescimento da Direita, também trouxe ao primeiro plano, a análise dos fracassos da Esquerda que o produziram.
E duas questões ressaltam:
A falta de união das Esquerdas
A incompetência administrativa
Para esses dois pecados, não há perdão. Você tem que ser sempre o melhor, aperfeiçoar-se diariamente é sua obrigação. Produzir sempre com mais qualidade. Independente de prêmios ou exames.
Por falar nisso, Flávio Alcaraz Gomes nos dá uma mostra da sua acuidade e eficiência jornalística, escrevendo hoje no “Correio do Povo” com o seu costumeiro e quixotiano desassombro, sobre o fenômeno do retorno da Direita na França, país que conhece bem:
“A RESPOSTA
Por que Le Pen obteve tão consagradora votação ? Vamos tentar nos colocar no pêlo de um francês da classe média. Paris, por exemplo, que depois de anos de obras caríssimas brilha ao sol desta primavera como a mais bonita cidade do mundo, deixou de ser pacífica e ordeira. Há bairros intransitáveis, devido à presença de delinqüentes africanos do Norte e de árabes. No centro, inclusive nas imediações da Ópera Garnier, as esquinas estão tomadas por ciganas com um bando de filhos em volta, pedindo esmolas. Os parquímetros são sistematicamente arrombados por quadrilhas de jovens chegados da Europa Oriental. Em Marselha, a colônia árabe constitui um mundo intocável, a ponto de importar parteiras para mutilarem sexualmente as meninas. Como o francês da classe média encara tudo isto ? A resposta foi dada domingo.”
--
Aí está a análise de, diria eu um perito em França, Flávio Alcaraz Gomes. Concordam ? Discordam ? Reflitam e tenham humildade de aceitar o pensamento diferente do seu.
Sim, eu sei, muitos de vocês perderam o hábito de debater. Acostumaram-se a receber o pensamento pronto para consumir como “hamburguer” do McDonalds.
E vamos aos números:
Foi um empate técnico, mas que produziu o desastre eleitoral da Esquerda, vejam:
Jacques Chirac (Centro-Direita) com 19,88% dos votos;
Jean Le Pen (Direita) com 16,86% dos votos e
Lionel Jospin (Esquerda, que estará no poder até a posse do vencedor no segundo turno, de que está fora) com 16,18% dos votos.



Os resultados de ontem na França mostram que a Direita continua a avançar, como ocorre ciclicamente. Atenção pois, Sharon, Durão Barroso, Aznar, Berlusconi podem ganhar mais um aliado no poder postado por walter em 22/04/02

O AVANÇO DA DIREITA

Walter Galvani

Os números da eleição francesa, apontando para o extraordinário desempenho do candidato Jean Le Pen que vai para o segundo turno com a sua plataforma de xenofobia, nacionalismo econômico e outras posições inegavelmente direitistas, não se constituem num fenômeno isolado no panorama político deste 2002.
A Espanha já está à direita com Aznar, em Portugal o Partido Socialista acaba de ser alijado pela direita, com Durão Barroso. A Itália, com Berlusconi, está mais próxima de Mussolini do que nunca... Na Venezuela, o cel. Hugo Chávez passou por um mau tempo, chegou a estar fora do poder por 24 horas, e em Israel, as posições fascistas de Ariel (aliás, Caliban) Sharon continuam garantindo-lhe a posição de primeiro ministro.
No ano passado tivemos nos Estados Unidos a ascensão de Bush, ou seja dos republicanos que, no discreto panorama ideológico americano constituem-se sim, na Direita.
O Brasil que se cuide.
Embora todas as pesquisas de opinião apontem para Lula no segundo turno, o que nos parece que queira dizer Esquerda, é indiscutível que ele significa “a direita do seu partido”. Mas ninguém parece mais a Direita no Brasil que o PFL e é no entanto o seu apoio que todos buscam, mesmo os candidatos que possuem retrospecto esquerdista (como José Serra, que foi líder estudantil cassado durante a revolução dos militares), e o que teremos em outubro parece encaminhar-se no mesmo rumo do que ocorre neste mundo globalizado.
A favor da Direita e suas teses trabalham o preconceito e o nacionalismo, mas também é indiscutível que o fracasso administrativo dos governos esquerdistas contribuem decisivamente. É o que se diz de Jospin, na França, que está se aposentando aliás e de Guterres em Portugal, que não se aposentou, mas foi alijado do poder.
Outubro vem aí. Não digo que seja o caso de começar a enterrar os livros no quintal da vó no interior, mas uma caça às bruxas na área profissional, costuma ser o primeiro resultado de uma virada radical como a que se pode produzir no Brasil.
Os cínicos diriam que aqui não haveria esta mudança tão radical assim. Afinal, Fernando Henrique governou até aqui com o apoio da Direita. Mas, a moda pode levar o seu sucessor mais para a Direita ainda. O perigo é sair da estrada e contar com o apoio dos setores mais conservadores, solidamente nacionalistas, mas retrógrados, que é a característica de tais posições.
Israel que o diga. Aliás, a Palestina que o diga...




A Comissão dos Direitos Humanos decidiu-se por uma "Exortação" à Cuba. Saiba como e porquê postado por walter em 20/04/02

NEM TANTO AO MAR...

Walter Galvani

Nem tanto à terra. A expressão serve para ganhar l.000 reais no “Show do Milhão” do apresentador Sílvio Santos no canal 5 brasileiro, o SBT. É o mesmo que andou sendo cogitado (mais uma vez) para ser o candidato do PFL à presidência. Mas, a expressão uso aqui para definir a decisão da Comissão dos Direitos Humanos da ONU reunida em Genebra, Suíça, e que resultou numa “Exortação” à Cuba para que “cuide melhor dos direitos humanos” em seu território e permita a visita de uma comissão de inspeção.
Em Cuba houve uma reação indignada mas não sei se foram ao dicionário. Se o fizeram, devem saber que há diferença entre condenação e exortação.
Condenar implica numa decisão, uma sentença final, uma opinião crítica ou censura contundente. Já uma exortação é um convite à uma revisão de atitude ou comportamento, um apelo que o julgador faz ao possível culpado ou aos jurados, um estímulo à reação, uma incitação. Vem de um verbo latino que significa animar, induzir, estimular.
Logo, Cuba foi “estimulada” a olhar melhor a questão dos direitos humanos. Aliás, a resolução pede que o regime de Fidel Castro realize “esforços nos campos dos direitos humanos, civis e políticos”. Só não fala se isto é válido também para a Base Aérea de Guantanamo onde estão os prisioneiros talibans dos Estados Unidos, e que ali estão, sabidamente para que não desfrutem dos direitos conferidos pelas leis americanas. Quer dizer: não existe nem aquela história tão difundida pelo cinema americano, “só falarei na presença do meu advogado”. Os tais “prisioneiros de guerra” não tem direito à nada.
A moção foi apresentada pelo Uruguai, tal como escrevi aqui mesmo há dias, único que se submeteu a exigência americana para fazê-lo e recorde-se foi premiado com um acordo comercial bilateral que muito o beneficia. Embora seja uma traição ao Mercosul. Já a Argentina havia se proposto a fazer este papel mas desmoralizada pela situação econômica, achou mais prudente omitir-se, embora tenha votado a favor, é claro. O placar foi de 23 votos pela moção de exortação à Cuba e 21, contrários. O Brasil, como tradicionalmente o faz neste caso, omitiu-se.
Pela primeira vez os Estados Unidos estão fora desta comissão, excluídos que foram pelos demais países, na base do voto.
Sinal dos tempos. Na próxima sessão deverão talvez sentar no banco dos réus ao lado de Israel ou pelo que fazem na citada Guantanamo que é território físico da ilha de Cuba, mas sob administração de Washington.
Comentaristas de televisão do Brasil citaram o fato de que “até a Internet é proibida em Cuba.” Mentira ou...engano. Estive lá, recentemente, e deixei muitos amigos cubanos com os quais me correspondo, com uma liberdade igual a meus correspondentes americanos. E posso dar o endereço de vários sites cubanos, para quem se interessar. Começo pelo interessante “La Jiribilla” Em dialeto local, jiribilla é um animalzinho que incomoda muito...
O endereço “dele” é www.lajiribilla.cubaweb.cu
Bom proveito.


O TSE brasileiro oferece uma boa oportunidade para que os partidos políticos criem um pouco de vergonha na cara postado por walter em 19/04/02

VERTICALIZAÇÃO

Walter Galvani

Como escrevo para o mundo todo, ainda ontem soube que a escritora portorriquenha radicada nos Estados Unidos, Esmeralda Santiago, que conheci em Havana na premiação da Casa de Las Américas, explico: Verticalização não quer dizer apenas pôr-se de pé no sentido vertical, ou aprofundar uma pesquisa rumo ao âmago do assunto. Mas quer dizer tudo isto também, ao mesmo tempo que convida os partidos brasileiros a permanecerem de pé e não fazer alianças espúrias, pelo simples objetivo de conquistar o poder.
Bem, mas isso também não é válido para os que decidirem não fazer alianças para a presidência ou não apresentar candidato próprio.
Pelo menos é um primeiro passo dado ontem pelo Tribunal Superior Eleitoral, para moralizar a atividade política e partidária do Brasil.
Os grandes e os pequenos partidos poderão aproveitar este puxão de orelhas para mostrarem mais coerência, um pouco mais de unidade ideológica. Assim se poderá votar com mais propriedade, pensando em termos de alinhamento político e não por questões, como diríamos ? “pontuais” no novo sentido posto em curso pelos nossos partidos. Não pontual no horário, mas pontual por ser um ponto, uma questão a discutir. A língua portuguesa se renova...
Mas, vamos renovar também o espírito público e a educação política.
Sejam verticais! Ponham-se de pé!


Quando não havia transmissão ao vivo por televisão, os locutores brasileiros mentiam a respeito dos lances e diziam que o Brasil era sempre injustiçado pelos árbitros. Agora mudou... mas continuam comunicando mal, não analisam corretamente e esquecem o adversário. postado por walter em 18/04/02

CRIANDO EQUÍVOCOS

Walter Galvani

A “mídia” presta um grande desserviço ao público, quando age “patrioticamente” ao invés de se escravizar à verdade, como deveria sê-lo sempre. Assisti pela televisão como o fizeram ontem mais de cinqüenta por cento dos brasileiros provavelmente, o jogo em que Brasil e Portugal empataram em 1 x 1. Ouvi o que disseram os locutores e comentaristas, alguns deles nomes consagrados do jornalismo ou do futebol brasileiro. E vi e ouvi, estarrecido, que na maioria dos casos, o que eu via na tela do meu aparelho não correspondia ao que diziam os “luminares” contratados por alto salário para dizerem a verdade...
Então o que sucederá ?
Ocorrerá que na hora da Copa do Mundo, quando a competição for decisiva e estiver valendo pontos, ficaremos surpresos, espantados e decepcionados, quando ocorrer um fracasso brasileiro. Se isto, infelizmente para nós esportistas e brasileiros, acontecer, ficaremos mandando “mísseis” verbais contra os adversários, iguais aos pontapés que foram distribuídos à vontade no jogo de ontem e pouco assinalados pelos locutores.
Ora, acontece que é preciso dizer “quem é o adversário”, até para que se possa aquilatar com exatidão, a eficiência, a dimensão da atuação da seleção, ou deste ou aquele jogador.
Dou como exemplo um jornal de Porto Alegre, a cidade do “Fórum Social Mundial” que compulsei esta manhã. Pois só há uma citação a um jogador da seleção de Portugal: Sérgio Conceição, pelo gol que marcou. Nada mais, nenhuma análise, nenhuma citação sequer ao melhor jogador do mundo, o português Luís Figo, que detém este título que lhe foi concedido pela FIFA, resultado da manifestação de mais de 300 especialistas do mundo inteiro.
Nada. Nem sobre o notável goleiro Ricardo que salvou três vezes o arco português, a força e velocidade de Sérgio Conceição que também esteve à beira de abrir o placar e, salvou o Brasil, o goleiro Marcos.
Mas também nada registrou o referido jornal, como não o fizeram os comentaristas, sobre o emprego da violência de que fizeram uso os dois times.
Lamentável.
Remeto os leitores ao site do jornal português “Público”, referencial em Lisboa, cujo endereço de Internet é www.publico.pt – e que diz, por exemplo, sobre FIGO e RONALDINHO GAÚCHO: “Os melhores momentos das duas equipas passaram pela classe destes dois senhores. Técnica, inteligência e visão de jogo trouxeram a esta partida momentos de grande espectáculo e arrebataram as bancadas de Alvalade.”
Sobre Ronaldo, diz o jornal português que o jogo de ontem no estádio da Luz em Lisboa, dissipou as dúvidas de Felipão.
E por aí vai. Mas, acho que é preciso que se diga que o Brasil enfrentou e igualou-se ontem com uma das seleções favoritas à Copa do Mundo, e que passou por este teste. O que vem pela frente, Catalunha e Malásia, é “jogo-treino”. Quando despertarmos estaremos diante dos jogos da Copa. E não se iludam: hoje todo mundo sabe jogar, todos tem dois um três craques que podem desequilibrar uma competição.
Não durmam para despertar na madrugada copeira diante de uma realidade inesperada. Vamos acreditar na seleção do Brasil, mas confiar desconfiando e sabendo que os adversários não são bobos e por mais insignificantes que pareçam no “ranking” da FIFA, podem surpreender quem não está preparado e acha, como nos velhos anos cinqüenta que o Brasil não tem rivais...
Seriedade e informação, estes são os segredos. Trabalho e muita preparação.


Vamos assinalar o dia das "Diretas Já" postado por walter em 16/04/02

DIRETAS JÁ

Walter Galvani

Hoje fazem 18 anos que o povo foi às ruas, 1.300.000 em São Paulo, para um comício desafiador ao regime militar que dava seus últimos suspiros, e exigiu “diretas já” para presidente da república. Lembro-me bem, a gente andava com uma bela camiseta com estes dizeres e só isso já era uma demonstração de valentia. Ulysses Guimarães era e acabou sendo o “Senhor Diretas Já” e a força era tão grande que os tanques não saíram às ruas, como haviam saído vinte anos antes para derrotar João Goulart e expulsá-lo do país.
O momento é oportuno e a Venezuela devolveu-nos esta visão. O presidente Hugo Chávez pode não ser o noivo ideal da democracia. Ele próprio já havia, tempos atrás, andando às turras com ela, tentado uma sublevação. Mas, rendeu-se aos seus encantos, candidatou-se a presidente e elegeu-se. E eis que agora, descontentes com as decisões que tem tomado alguns setores do exército do seu país e líderes empresariais e religiosos, liderados pelos mais extremados, tentaram o golpe, a dissolução do parlamento, a destituição dos juizes do Supremo, o fim da democracia. Não era o caminho.
É preciso aperfeiçoar a democracia, isto sim, mas não revogá-la. E a data de hoje nos remete uma vez mais para o tempo perdido, os vinte e tantos anos que este país apanhou no lodaçal da ditadura e que até hoje significa o atraso em que vivemos. Felizmente saímos e empurrados por aquela multidão de jovens, hoje quarentões, que foram às ruas da maior cidade da América Latina e sem temer os tanques, canhões e metralhadoras, sem temer as bombas de efeito moral e os bombeiros com seus jatos d’água, as balas de plástico e as verdadeiras, falaram alto para todo o país: “Queremos as diretas já!”
É por esta razão que entendo que o dia de hoje, 16 de abril, é um dia para ficar marcado na História do Brasil e lembrado sempre, sempre, para que não haja mais retrocessos.
Vamos aperfeiçoar a representatividade, as formas de eleger, de votar e o exame de questões pelo povo. Isso sim. Mas, sempre através do voto popular.



O exemplo da Venezuela deve nos valer. E hoje, 16 de abril, é dia de lembrar o heróico movimento popular brasileiro das "Diretas Já". Já l postado por walter em 16/04/02



Enquanto do Timor Leste vem a esperança com as eleições livres, a OEA põe ordem na casa e bota a Venezuela dentro das regras. A ONU, pelo Conselho de Direitos Humanos, condena Israel, mas Ariel Sharon não quer saber de paz ou de obediência às regras postado por walter em 15/04/02

FRÁGIL DEMOCRACIA
FORTES INTERESSES

Walter Galvani

O episódio da Venezuela serviu para demonstrar duas coisas fundamentais no mundo de hoje: o quão frágil continua sendo a democracia, diante da fortaleza dos interesses privados de indivíduos, empresas e países cujos regimes são respaldados por esta soma de conveniências e como hoje devemos prestar contas de todos os nossos atos à comunidade internacional.
Não há mais como restringir-se ao seu microcosmo. Vejam o que foi decisivo no caso da Venezuela: a OEA (Organização dos Estados Americanos) havia aprovado no dia 11 de setembro passado uma resolução pela qual o país que saísse do processo democrático seria imediatamente banido do seio da congregação. Bastou a derrubada de Hugo Chávez, o que não chegou a durar dois dias, com a intempestiva ação do empresário Pedro Carmona que nem bem tinha o posto o pé no palácio presidencial e já dissolvera a Assembléia e destituíra os juizes da Suprema Corte, botando portanto suas “unhinhas de fora” em tempo recorde.
Os países membros emitiram nota oficial e mandam hoje um observador à Caracas. A simples ameaça foi suficiente.
Quem não volta atrás é Israel e para isso de nada adianta a condenação coletiva, pela maioria mais do que absoluta de 40 membros do Conselho de Direitos Humanos da ONU.
Ariel (aliás Caliban) Sharon se faz de rogado e não quer “shalon”... Continua destruindo a Palestina e os palestinos e diz que o fará até o fim. Mas, fim do que e de quem ?
Esperamos que a ONU seja tão dura quanto a OTAN e mande logo uma força de paz como foi feito na Sérvia e acabe com esta sanha guerreira que compromete toda a raça israelense.
E, como Silveira, e provavelmente descendente de cristãos-novos da ilha do Faial, (Arquipélago dos Açores) me pronuncio contra, sem medo de ser tido como covarde ou “infiel”... Ah, e sou contra a “Farra do Boi” também...
Mas este é outro assunto que interessa também a todos nós e não apenas, como pensam alguns, somente aos ilhéus de Florianópolis. É bom que o Governador Espiridião Amin saiba disso.
Voltemos pois à Venezuela: Hugo Chávez complicou-se pelo seu amor a Fidel Castro e sua visita a Sadan Hussein no Iraque. Pela sua luta contra os interesses privados, concentrados nas grandes redes de televisão – que naturalmente defendem e representam as posições conhecidas como “neo-liberais”. Mas, não há santo que mude o que o povo quer. E para grande surpresa dos canais internacionais de televisão, os pobres foram mesmo para as ruas de Caracas e em menos de 48 horas fizeram retroceder o golpe.
Vamos ver o que nos vem do Oriente Médio. Lá está difícil o povão sair às ruas. A perseguição é pior do que a “farra do boi”...


Pedro Carmona Estanga, o lider empresarial venezuelano, reacionário e "carola" governou menos de um dia... Hugo Chávez Frias volta ao poder. Por quanto tempo não se sabe ? Pobre Venezuela, como todos os infelizes países terceiro-mundistas que não sabem para onde se virar para resistir à pressão dos interesses internacionais postado por walter em 14/04/02

Há outro 11 de setembro

Walter Galvani


Quem acompanhou de perto a crise da Venezuela, que ainda não está resolvida, deve estar estupefato ao descobrir que o presidente Hugo Chávez foi deposto e preso e já retornou ao posto. Que agora a lei vai atrás é do tal empresário (Pedro Carmona Estanga) que assumiu o poder e governou por algumas horas, até ser por sua vez deposto para que Chávez voltasse ao posto. E dos militares que tentaram dar um golpe de estado em tudo muito parecido com o de 64 no Brasil. A Igreja Católica inclusive apoiava a mudança. Agora, a Igreja corre para garantir a vida de Carmona assim como o fez, aliás, com Chávez, mas no caso desse, a pedido dele.
Fizeram-se logo piadas porque Hugo Chávez sempre combatia o cardeal venezuelano Porras e dizia que ele tinha “o diabo debaixo da batina”... Pediu perdão, confessou-se e ... salvou-se...
Mas o que a maioria não sabe é que há outro 11 de Setembro e isto deve ter influído de maneira vital sobre o golpe venezuelano.
No dia 11 de setembro do ano passado, no mesmo momento em que as Torres Gêmeas eram derrubadas em Nova York, a Organização dos Estados Americanos (OEA) decidia em sua reunião em Lima, Peru, que qualquer país membro que deixasse o processo democrático seria imediatamente expulso.
O alerta valeu. Casualmente a OEA estava de reunião outra vez, agora, neste fim-de-semana, quando do golpe na Venezuela e os países membros se manifestaram com o maior desagrado diante do que se passava em Caracas onde as primeiras medidas do “presidente” por menos de um dia foram dissolver o Congresso e destituir a mais alta corte de Justiça do país.
Voltou tudo atrás. Valeu o lembrete da OEA.
Só os Estados Unidos acharam interessante a queda de Hugo Chávez. Parece que, entre outras coisas, por ser amigo de Fidel Castro e por haver visitado Sadan Hussein no ano passado. Ser tão “diferente” era demais para Bush.
Apesar da nota ambígua do Brasil, a OEA em peso estranhou a mudança. Pronto: Hugo Chávez está de volta ao poder, depois de 35 mortos e mais de 100 feridos, resultados das manifestações montadas contra seu governo. Os milicos que se assanharam serão agora punidos, a Igreja vai ter que cantar noutra freguesia e o povo que custou a sair das vilas pobres para se manifestar, saiu ganhando.
Vamos ver até quando.



Vamos ficar de olho na Venezuela. É um dos maiores produtores de petróleo do mundo e o coronel Hugo Chávez já foi deposto postado por walter em 12/04/02

BRASIL, VENEZUELA, URUGUAI, ETC
Walter Galvani


Às vezes me pergunto o que nos faz tão idiotas, a ponto de acharmos que estamos isolados, somos independentes, não sofremos influências, pressões, não temos que conviver com todas as dificuldades que isto acarreta com os diferentes, vender nossos produtos, enfim manter nossa economia saudável.
Hoje falo da Venezuela, como amanhã falarei do Uruguai, como ontem falei da Argentina e como sempre falarei do Brasil.
No xadrez internacional há um jogo em andamento que só difere do tradicional e inteligente jogo de peças sobre um tabuleiro quadriculado porque diferente dele “peça tocada” não quer dizer “peça que tenha que ser jogada”. Por vezes se ocupa um território, só para demonstrar força e não por necessidade vital.
A derrubada de Hugo Chávez é o desenlace de uma campanha internacional que contou com a participação das trapalhadas internas e que culminaram com o desafio à “mídia” e portanto aos interesses econômicos privados: o governo venezuelano fechou cinco empresas privadas de televisão.
Seu namoro com Fidel Castro, muito mal visto pelos demais regimes latino-americanos, todos defensores do neo-liberalismo ou de alguma, digamos “liberdade econômica” com o apoio dos Estados Unidos, só poderia dar no que deu...
Já o Uruguai acaba de assinar um “protocolo de intenções” com o governo americano para a assinatura de um acordo bilateral, fora do Mercosul. O mesmo com que acenam para a Argentina e sobre o qual o Brasil não quer nem ouvir falar.
Some-se a isto o problema da Comissão dos Direitos Humanos da ONU que se reunirá em Genebra a partir do dia 16 e poderá ter na pauta uma denúncia contra Cuba, que teria como apresentantes os “quebrados” Argentina e o próprio Uruguai (ou Costa Rica) e já se terá o panorama completo.
O Brasil – lutando contra as restrições americanas na importação do aço brasileiro – mas incapaz de assinar a moção que 25 países apresentaram na Organização Mundial de Comércio, fica em cima do muro, também sem apoiar ou condenar Hugo Chávez, e lutando anda para recompor o esfarrapado Mercosul.
Não dou um centavo por nada disso. Mas, a ONU parece o único caminho. É preciso nesta hora, muita lucidez, um pouco de cinismo, e acima de tudo estar em dia com os compromissos.
Quem não deve não precisa obedecer patrões. Porém no mundo moderno, não dever também é milagre




Quem escolherá os réus para o julgamento e quem os julgará ? postado por walter em 11/04/02

TRIBUNAL INTERNACIONAL

Walter Galvani

Hoje em Roma, nasce uma esperança. Será oficializada pela ONU, a criação de uma Corte Penal Internacional que funcionará em Haia, na Holanda, aliás um endereço tradicional da justiça, lembremos que nosso herói brasileiro Ruy Barbosa era chamado “A águia de Haia” – e isso nos inspira bons pensamentos e os melhores propósitos no dia de hoje. Se bem que é verdade que deles o inferno está atulhado. Não deixa de ser entusiasmante, em especial para os inveterados otimistas, que surja uma corte capaz de punir criminosos internacionais.
A nova corte se propõe a julgar qualquer pessoa, independente do cargo, posição ou nacionalidade, caso os tribunais nacionais não queiram ou não possam fazê-lo ou não tenham condições para abrir processos com autonomia.
Quer dizer: estamos arrumando também uma fantástica fonte de incomodações e esta é para quem quer e não para quem pode...
Qualquer ditador, primeiro ministro, presidente ou general pode ser levado a este tribunal. O problema será deitar a mão nele. Mas se todos os países membros da ONU assinarem um tratado de extradição, o caminho começará a ser pavimentado.
Mas a corte não será um órgão da ONU e terá de prestar conta de seus atos unicamente aos países que ratificarem seu estatuto e à opinião pública internacional, é óbvio. A primeira oposição é dos Estados Unidos da América que temem julgamento para seus militares por causa das inúmeras ações que se tem empenhado no exterior.
Todos os governos de força conhecidos no Planeta, tenham ou não resultado de revoluções ou golpes de estado, que na operação de repressão aos opositores tenham se excedido, estarão sob a mira deste tribunal que, aparentemente será mais político do que efetivo.
O estatuto começa a vigorar a partir do dia 1º de julho e em setembro será celebrada a primeira assembléia dos que aderiram à iniciativa.
A Corte Internacional de Justiça poderá sentenciar pessoas, independente do cargo, posição ou nacionalidade, à penas até 30 anos de prisão ou, em casos mais graves, prisão perpétua.
Não me atrevo a elaborar a lista, mas se Ariel Sharon não se acalmar imediatamente acho que poderá inaugurar o incômodo banco dos réus... Mas tem mais gente boa na fila. Duvido que os judeus democratas que existem pelo mundo afora continuem apoiando o genocídio que está em curso na Palestina. Só no Bonfim (bairro de Porto Alegre, cidade-sede do Forum Social Mundial) tenho uma lista de milhares que, estou certo disso, não apoiam o ódio e a retaliação.
Se servir para a paz que venha o tribunal. E os demais que se cuidem, porque vai ter fila para sentar no tal banquinho...


É hora de chorar... postado por walter em 10/04/02

A Vitória do Computador

Walter Galvani

Este 10 de abril tem um significado todo especial na história da inteligência humana. Pelo menos na da inteligência artificial. Nessa data, há 5 anos exatos, ou seja no ano de 1997, quando a União Soviética já era uma ruína, um dos seus maiores orgulhos, dos poucos que restavam, era o campeão mundial de xadrez, Kasparov.
Pois os computadores da IBM, o mais pesado deles, o “Deep Blue”, ou o “Azul Profundo” como fora poeticamente batizado, bateu o campeão mundial.
Pela primeira vez ficou demonstrado que a inteligência artificial seria capaz de, em certas condições especiais, vencer ao ser humano. Foi arrasador para nosso orgulho como espécie. Afinal, criamos o computador, o “Deep Blue” tinha atrás de si os programadores da IBM, mas no comando também havia homens, é óbvio, mas o indiscutível é que o campeão foi à lona.
Kasparov esperneou, os demais mestres internacionais se indignaram, no entanto tudo isso foi inútil.
O “Deep Blue” dera uma demonstração prática do ponto que chegamos e do que ainda poderemos alcançar.
Bem, dali para cá já houve de tudo, mais meia dúzia de guerras, o Afeganistão, Israel versus palestinos mais uma vez, a derrubada das Torres Gêmeas, não encontraram a cura do câncer, da aids, do mal de parkinson, o Papa piorou muito mas continua o mesmo Wojtila, os chineses são cada vez mais numerosos, a IBM dispensou milhares de funcionários pelo mundo afora, não sei o que é feito do “Deep Blue” deve ser hoje uma montanha de “chips” inutilizados, mas o feito lá está.
Particularmente eu gostaria de que não houvesse acontecido. Queria que o Homem continuasse preponderando sobre os outros animais e sobretudo sobre as máquinas. Mas, não sei não... Com a aceleração do crescimento da inteligência dos cães (que daqui a pouco estarão falando, já que “comunicar-se” com os humanos já o fazem), com o que se sabe sobre os orangotangos e os chimpanzés, daqui a pouco o cetro máximo do xadrez vai para outras mãos...
Não é um dia para comemorar. Porque o desenvolvimento de tais máquinas para o bem, também pode servir para o mal. Conhecemos a Humanidade. Não é de hoje. Eu, pelo menos, há mais de seis décadas... Então já sei que podemos esperar sempre o pior.
Vejam o que ocorre no Oriente Médio. Será que os símios seriam capazes de guerrear-se daquele modo ?
Vamos lembrar bem então este dia 10 de abril em que o homem conseguiu perder para a máquina. Não é uma data para festejar. Mas é bom tomar nota, recordar os fatos, e botar nossas hipotéticas barbas, devidamente de molho...


postado por em 09/04/02



postado por em 09/04/02



É preciso verificar profundamente o que é de fato uma tradição válida e saber se aquilo engrandece uma comunidade. Tenho ouvido falar muito em "Farra do Boi". Como nas "touradas" espanholas, a pergunta é: constrói alguma coisa ? Vale a pena ? É alguma coisa "civilizada"? Não me importa que Hemingway tenha produzido belas páginas inspiradas na corrida de touros. postado por walter em 09/04/02

O BAILE DA RAMAGEM
Walter Galvani

Estando em Florianópolis, partilhei durante estes últimos dias da acirrada discussão em torno à chamada “Farra do Boi”, uma “festa (?) popular” que opõe durante dois ou três dias, nos feriados de Páscoa, alguns animais propositadamente adquiridos para tal finalidade e soltos para serem perseguidos pela população. Até à morte. Dois bois naturalmente. Apesar de proibido por lei, decisão do STF, a prática continua em ação em Florianópolis e em algumas cidades do litoral catarinense, nomeadamente Governador Celso Ramos.
Por falar em governador, Espiridão Amin manifestou-se a propósito do assunto dizendo que o seu governo protege os animais e em publicidade disse que “respeita a vida”. Mais claramente, o cartaz dizia: “Sou catarinense. Respeito os animais porque respeito a vida. Sou da paz.” Em carta ao jornal Diário Catarinense o governador mandou que uma senhora, representante da Associação Nacional de Proteção aos Animais, fosse cuidar da violência das ruas cariocas...
Isso me faz lembrar o “Baile da Ramada”, uma antiga canção popular rio-grandense que falava em tiros, coices, bofetadas e outras elevadas manifestações “culturais” da “grossura” que nada tem a ver, na verdade, com as caras tradições gaúchas que os CTGs se encarregaram de espalhar e representar pelo país afora. E agora até pelo mundo, porque sei da e4xist6encia de CTG até na Califórnia.
Quanto à “Farra do Boi” acho bom pensar duas vezes. É verdade que existe a “Tourada” na Espanha, mas lida-se com touros e não com bois, em primeiro lugar... Em segundo lugar, há a tal “Corrida do dia de San Fermín”, em Pamplona, que muito se assemelha à “farra do boi” catarinense, sem que uma coisa legitime a outra. No caso, também se trata de touro e não de boi...
Vamos mais longe: se é para imitar ou seguir tradições, então é melhor pôr de lado esta de touradas, porque hoje no mundo inteiro se levanta a opinião pública contra a “fiesta” espanhola. Lá também o touro é submetido aos maiores vexames e crueldades. Só é entregue ao toureiro para a girada final, depois de haver sido enfraquecido e ridicularizado pelos banderilheiros e outros “valentes” que já o fizeram perder sangue e forças.
Não sei se de fato os Açores ainda preservam este selvagem costume de perseguir um animal indefeso, levando-o ao sofrimento, a dor e à morte. É de ver-se. Prometo investigá-lo.
Quanto à “Farra” catarinense posso informar que 3 foram presos. Três bois, naturalmente...


Pincei na data de hoje, Mozart, Pedro I de Portugal, o Justo e a descoberta da Florida que os americanos pronunciam "Flórida"... postado por walter em 08/04/02

COSI FAN TUTTE

Walter Galvani

Assim fazem todos. Ou seja: “Cosi fan tutte”. E assim se tem desculpas para tudo e para todos. A ópera mais difícil de Mozart e aquela que tem o mais claro recado psico-social teve uma estréia de gala em Lisboa em 1985, quando foi pela primeira vez representada por um elenco de profissionais locais, duzentos anos depois de haver sido criada. Viviam-se os primeiros anos pós revolução dos Cravos Vermelhos, já existias ambiente e a censura fora abolida. Não fora isso, o revolucionário recado de Mozart não poderia ser levado à cena.
A força de um artista está aí bem explicitada. Duvido que se representasse hoje esta ópera no Brasil, em primeiro lugar porque o gênero está um pouco abalado em sua popularidade: as pessoas preferem “A Casa dos Artistas” e o “Big Brother”, ou as lágrimas de crocodilo do Romário. Mas, bem que este país merecia uma reposição do “Assim fazem todos”, basta percorrer a nossa área política para colecionar impressões de que é assim mesmo.
Mas a data de hoje nos remete também para outros dois fatos da História, capazes de demonstrar que nem sempre foi assim.
O primeiro se refere ao ano de 1357. Nascia um menino, batizado logo como Pedro e com este nome ele viria a ser Dom Pedro I, de Portugal. Sabem o que fez o jovem Pedro ? Apaixonou-se pela dama de companhia de sua esposa. Numa ausência ela foi morta a mando de políticos, com a anuência do seu próprio pai, pois, em sendo espanhola poderia contribuir para uma incômoda aproximação do seu país com a Espanha, quando o jovem chegasse a rei. Pedro voltou de viagem e, vocês todos sabem a continuação da história, “era tarde, Inês é morta!”
Só que ele não estava disposto a lavar as mãos, esquecer, fazer como todos. Quando chegou a Rei, buscou a vingança.
Desenterrou-a, fê-la sentar-se no trono e ordenou a seus nobres que, em fila, beijassem-lhe as mãos. “Depois de morta foi rainha! “- escreveu Luís Vaz de Camões.
Levou sua vingança adiante: arrancou o coração dos matadores de Inês e comemorou seu feito em Coimbra.
“Cosi fan tutte”? Não, a maioria deixa por isso mesmo. Não era o caso do jovem nascido a 8 de abril, há 645 anos e cuja memória, por isto mesmo, jamais foi esquecida. Nem a de Inês.
Como Mozart não será nunca olvidado e por outros motivos, também aquele aventureiro espanhol, Ponce de Leon que ocupou a península da Florida em nome do seu rei, num 8 de abril. Ano: 1513. Para sorte dele não viveu para verem mudar o nome de sua terra “descoberta” de Florida, como ele batizou-a por ser cheia de flores, para “Flórida” como pronunciam os americanos.
Os mesmos que estão pensando à esta altura que são os xerifes do mundo. Pena que suas próprias criaturas não os obedeçam... Vide estado de Israel que está surdo aos apelos do cow-boy...



Continua a matança, a pobreza endêmica, a desnutrição, a guerra, no dia em que a Organização Mundial de Saúde completa 54 anos postado por walter em 07/04/02

SAÚDE. SAÚDE ?

Walter Galvani

Parece mentira que o Dia Mundial da Saúde esteja sendo comemorado hoje, mais uma vez, com mais da metade do mundo padecendo justamente de problemas dessa área. E isso porque os governos, teimosamente, seguem considerando outras áreas prioritárias (construção de estradas, viadutos, pontes ou remunerando regiamente seus parlamentos ou, o que é muito pior, equipando seus exércitos, matando) enquanto sua população padece.
O exemplo de Cuba deve ser lembrado nessa hora, ainda mais quando se sabe que no dia 16, portanto daqui a nove dias, haverá a votação de uma moção que a condena por causa dos “direitos humanos”, que estaria sendo apresentada pela Argentina, Uruguai ou a Costa Rica. Nenhum deles parece muito disposto a assumir esta missão que lhes teria sido designada, ao que dizem os cubanos pelos Estados Unidos. Mas o fato é que a tal moção tem este prazo para aparecer e ser votada.
Enquanto isto os direitos humanos são desrespeitados para valer no território palestino, onde cada dia morrem cinqüenta, sacrificados pela questão territorial que opõe o país nascente e o estado de Israel.
Direitos humanos que são vitimados todos os dias nas ruas brasileiras – e não vejo razão para os cariocas se oporem à historieta dos Simpsons, que está programada para ir ao ar em junho e que conta a visita deles ao Rio de Janeiro com as conseqüências que, sabemos, afeta estrangeiros e... brasileiros que caem na louca loteria da insegurança da antiga capital.
Eu sei porque o Rio ficou assim. Agora, não permitir que os de fora falem do assunto é o mesmo que leva o governador de Santa Catarina, Espiridião Amim a se pronunciar contra uma senhora carioca que preside a Associação Protetora dos Animais e que ousou reclamar da “Farra do Boi”.
A propósito: atenção Açores! Ainda existe aí a “Farra do Boi” ? Ou seja, ainda matam animais em plena rua numa euforia generalizada de gente a persegui-los ?
Em vez da “Farra do Boi” então eu gostaria de ver a “farra do touro”... Pequena diferença, não é mesmo ?
Mas este assunto já é com os “direitos dos animais”. Voltemos aos direitos das gentes. Então vamos comemorar outro Dia Mundial da Saúde com gente morrendo de fome, de dengue, de guerras, de desnutrição. Há gente que sobrevive, 2 bilhões, com menos de 2 reais e 30 centavos por dia. Façam a conta.
Enquanto isto Israel gasta o dinheiro que recebe dos judeus de todo o mundo em canhões, bombas, tanques, aviões. Será que é para isto que sde remetem fundos do mundo todo para o Oriente Médio ?
Ariel não merece o nome que tem. Não é espírito dos ares. Ao contrário, me parece muito mais Caliban do que Ariel...
Shalon! meu caro Sharon...



Continuemos com os olhos e o coração postos no Oriente Médio. Parece que Bush deu um pouco mais de ênfase à sua cobrança de Israel, uma tentativa de conter o ímpeto belicista de Ariel Sharon. Metade mais um dos judeus de todo o mundo discorda das posições do primeiro ministro de Israel. Vamos ver o que nos reserva a sexta, dia sagrado dos muçulmanos e o sábado, dia sagrado dos judeus. Queremos a paz. Não só no Oriente, mas principalmente no Oriente, hoje. Lembrando que ali nasceram as perigosas religiões monoteistas, com suas exigências e o seu fanatismo, ao lado dos seus notáveis códigos de ética. Que nem sempre são cumpridos. postado por walter em 05/04/02



Quando se entenderão no Oriente Médio ? Reuniões e mais reuniões, enquanto os tanques avançam e troam os canhões... postado por walter em 04/04/02

TARDE DEMAIS
Walter Galvani

Os vinte e dois ministros de Relações Exteriores das nações árabes pretendem realizar uma reunião depois de amanhã no Cairo, capital do Egito, para decidir o que farão no caso do ataque de Israel aos palestinos em resposta aos atos terroristas cometidos por defensores da causa de Yasser Arafat. Ontem, 57 membros da chamada Conferência Islâmica, reunidos na Malásia, emitiram uma forte declaração que, no entanto, não põe fim ao conflito e sequer define o que é terrorismo.
Na verdade esta é uma questão que está na base de toda a discussão e pode inviabilizar tanto o que sucede no Oriente Médio como em qualquer parte do mundo. Os defensores dos direitos das minorias alegam que há um “terrorismo de estado” e este é caracterizadamente desenvolvido por Israel e pelos Estados Unidos e contra eles é lícito realizar ações de defesa, neste caso aquelas praticadas por pessoas que lançando artefatos mortais ou se auto-transformando em bombas, atuam em nome de princípios, doutrinas ou postulados regionais ou nacionais. O campo para discussão é vasto e não foi resolvido em Jakarta como não o será no Cairo. E, suspeito, quando acontecer a reunião na capital egípcia será tarde demais para Arafat e o projeto de estado palestino.
Israel tem um conceito de segurança desenvolvido pela prática ao longo do tempo, desde que Bem Gurion desembarcou com as tropas judaicas para estabelecer o estado sionista na região. De nada adianta o debate sobre direitos históricos, a lei do mais forte é que há de se impor, sejamos realistas. Neste sentido, pareceria simples imaginar que todos os estados árabes unidos, somando uma população centenas de vezes maior do que Israel, simplesmente imporiam um bloqueio e uma ação bélica que os levaria à vitória. Até poderia ser, mas não à paz. E nem tampouco ao aniquilamento dos seguidores de Ariel Sharon.
A União Européia, tanto como a própria ONU, enviaram observadores, hoje e amanhã estarão “visitando” o “front”, que aliás é tão móvel quanto se possa imaginar numa guerra moderna, mas acho que todos acabarão se refugiando na Basílica da Natividade, onde depondo as armas pessoais estarão protegidos segundo o arcebispo local, de cuja palavra duvido porque acho que não tem como sustentá-la. Nem a “a bandeira do MST” e o colono gaúcho salvam Arafat...
A menos que os Estados Unidos, principal apoio de Israel, corte imediatamente qualquer tipo de ajuda e apoio militar. Que de repente, George Bush se transforme num grande estadista e intervenha.
Esses são os fatos, “alea jacta est” – os dados estão lançados.
O Egito fornece anualmente 15 milhões de toneladas de petróleo aos israelenses – não de graça, naturalmente, é uma operação comercial de venda, mas estrategicamente muito importante neste momento. Se na seqüência do corte de relações, for suspenso o fornecimento de combustível, os tanques pararão de mover-se.
É toda uma conjuntura, mas numa guerra, segundo Júlio César, “os acontecimentos importantes resultam de causas triviais”. Nada mudou nestes últimos dois mil anos. Prefiro escutar a sabedoria de César e ver no que vai dar.
Mas, acabo de recusar um convite para viajar com todas as despesas pagas até Jerusalém e Belém.
Se Cristo nascesse agora na certa não atingiria a maioridade... Morreria muito antes da idade útil de ser levado a uma cruz pelos romanos...



Jogamos fora nossas vidas, sem sequer perceber que erramos e poderíamos acertar. Basta mudar nossas perquenas vidas. Falo nas notícias sobre violência e crime, guerra e mais guerra postado por walter em 03/04/02

Tempo desperdiçado

Walter Galvani

Teofrasto, filósofo grego que morreu em Atenas no ano 387 A . C. e sucedeu a Aristóteles na direção do Liceu, escreveu com imensa propriedade que “o nosso gasto mais dispendioso é o tempo”. O único bem perecível e que não tem reposição. Até o petróleo, energia que move nossas máquinas, embora suba de preço com a instabilidade do Oriente Médio, quando estiver esgotado será substituído por outra fonte, outro combustível.
Mas e o nosso precioso tempo que gastamos inutilmente, sentados diante de um aparelho de televisão ou lendo jornais e escutando rádios, para saber que o mundo gira sem parar e que os homens continuam se matando ?
Não há nenhuma reposição para este precioso bem.
Tomamos conhecimento dos horrores diários e isto não nos torna melhores. Os bandidos ganham espaço na “mídia”, mais espaço que qualquer médico, cientista, escritor ou artista. Nenhum nome da Música, das Artes ou da Literatura a não ser que morra em circunstâncias trágicas, ganha primeira página dos jornais ou mais do que quinze segundos de tevê.
Porque ? Ora porque o homem não sabe administrar o seu tempo pessoal e o dos outros. Porque não lhe interessa, na verdade, porque estamos cada vez mais pobres e mais pobres ficaremos. Porque somos liderados por gente de baixa extração e porque não há nem perspectiva de mudança. E porque os interesses econômicos se sobrepõem às reais necessidades populares.
Fazer o quê ?
No mínimos demonstrar nossa inconformidade. E é o que começo a fazer aqui. Aliás, é o que venho fazendo há muito tempo. E se o leitor concorda com meu ponto de vista (ou dele discorda) mande dizer. Escreva para walter@cpovo.net
Vamos discutir o tema. E ver a que chegaremos.


Dia Internacional do Livro Infantil, eis o que comemorar hoje. Se acreditarmos em futuro, eis o caminho postado por walter em 02/04/02

LER E APRENDER A VIDA

Walter Galvani

Hans Chrstian Andersen talvez seja o caso mais bem acabado de sucesso como escritor de histórias para crianças do mundo e por isto me parece muito bem escolhida a data de hoje, 2 de abril, para celebrá-lo instituindo o “Dia Internacional do Livro Infantil”. São poucos os que não conhecem por haverem lhes contado as narrações deste dinamarquês genial que hoje seria um J.K.Rowling de muito maior porte ainda. Para isto bastariam “O Patinho Feio”, “A pequena sereia” e sobretudo o fantástico “Pequeno Polegar”, entre outros. Andersen nasceu em 1805 em Odense e morreu em Copenhague, capital da Dinamarca, setenta anos depois.
Imaginação, graça, criatividade e uma certa melancolia, foram suas marcas principais, que fizeram a delícia de quase duzentos anos de leitura e portanto, de quinze gerações.
Hoje há o “Harry Potter” (Rowling) e por certo “O Senhor dos Anéis” (J.R.R. Tolkiens) , por vezes nem tanto para crianças, mas à elas dirigindo seu apelo básico e como fenômenos engajados no sistema moderno, beneficiados pela “mídia” global, explodiram no imaginário e nas estantes do mundo ocidental. Principalmente onde sobra algum dinheiro para comprar livros e onde exista o hábito.
Em Porto Alegre temos batalhado neste sentido nos últimos anos e graças aos autores que tem se dedicado à literatura infantil, como Antônio Hohlfeldt, Carlos Urbim, Jane Tutikian (esta mais para o público adolescente) e sobretudo Maria Dinorah, à cada Feira do Livro se comemora o crescimento das vendas.
O pioneiro em nosso país foi Monteiro Lobato e por isto o mês de abril dedica duas datas ao livro infantil: hoje, por causa de Andersen e o dia 18, nascimento de Lobato, que neste ano completaria 180, naturalmente se vivo fosse. E quem não conhece, ao menos de ver na televisão, o “Sítio do Picapau Amarelo”?
Entendo que há aí benefícios que vem se produzindo e multiplicando nestes anos todos, fazendo crescer o círculo dos futuros leitores. Não canso de dizer o quanto o livro pode ter significado no aprimoramento das pessoas, tanto como criaturas humanas quanto como profissionais que entram no mercado onde, cada vez mais, a diferenciação pessoal é o toque fundamental para assegurar uma carreira. Leiam pois, é o único conselho que sei dar. Mas leiam tudo o que lhes cair nas mãos.
Podem ler até jornais... – cuidando para não se deixar envenenar pelos enganos dos políticos e os excessos das páginas de polícia – sempre se encontra uma crônica, uma notícia positiva, um fato que precisa ser conhecido e compreendido.
Além disso, é preciso também aceitar que o jornalismo moderno também tem contribuído para a difusão da leitura, com a cobertura dada a escritores, prêmios e concursos literários, reuniões de academias, palestras, discussões e congressos.
Pensem por exemplo no que representa a Jornada Nacional de Literatura que se realiza a cada dois anos em Passo Fundo, Rio Grande do Sul, quando 4.000 pessoas discutem livros sob uma lona de circo durante uma semana ?
E as feiras do livro, de Porto Alegre, de Lisboa, de Buenos Aires, de Guadalajara, de Frankfurt, de São Paulo e do Rio de Janeiro ? E também as mais modestas, desde as pequenas cidades como Tapera, no interior gaúcho até Camaquã ou Canoas, Gravataí, enfim são tantas.
Como diria Castro Alves, viva o livro “este audaz guerreiro, que conquista o mundo inteiro, sem nunca ter Waterloo!” – mas já é preciso que se leia algo para entender o que significa “waterloo”...
Boa leitura, crianças e jovens! O mundo vos espera.


Que bom que as manchetes de hoje fossem apenas ingênuas brincadeiras de Primeiro de Abril ... postado por walter em 01/04/02

DIA DA MENTIRA

Walter Galvani


Nos meus tempos de criança, meio século ou mais atrás, eram tradicionais as brincadeiras no pátio do colégio ou nas salas de aula, neste primeiro dia de abril. O Dia dos Bobos conservava um espaço especial em nosso coração. Mudaram-lhe o nome, agora é o “Dia da Mentira”, nos Estados Unidos é o “Dia dos Loucos” como em outros lugares tem outros títulos, sempre com o mesmo propósito de brincar com a seriedade e desconstruir uma realidade incômoda ou pesada.
Uma escola em Florianópolis, adequadamente partiu para a idéia de analisar e discutir em aula o significado desta brincadeira universal que diverte e ao mesmo tempo faz pensar.
O tema é encarado com tal seriedade que eventualmente ocorre até a troca de sopapos ou até desentendimentos mais sérios por causa da brincadeira ingênua que está por trás.
Evidentemente que gostaríamos que as manchetes de hoje fizessem parte, todas, do esquema do dia 1º de Abril e que não tivessem a seriedade que infelizmente tem. Que não fosse verdade, mas que apenas divertimentos do dia a informação de que tantos ainda morrem de fome ou que homens e mulheres-bomba fazem vítimas por motivos políticos ou que tanques arrasam aldeias inteiras ou destroem cidades. Ou então que os homens continuem a se matar, a destruir, por território, por dinheiro e por poder.
Brincadeiras também seriam as notícias sobre os seqüestros, assaltos, acidentes, assassinatos no Brasil. A morte de crianças por falta de alimentos, as vítimas da dengue, a pobreza e a ignorância.
Perdeu a graça o Dia dos Bobos, mas já foi tão forte no Brasil que até um movimento revolucionário que acabou em golpe de estado em 1964 foi antecipado para o dia 31 de março para não coincidir com o primeiro de abril e assim receber uma pecha da qual jamais se teria livrado. E olhem, aquilo não foi brincadeira, não...
Para a América Latina toda, o “Dia dos Bobos” ou “Dia da Mentira” é de uma espantosa realidade. Algo que o “realismo mágico” de Gabriel Garcia Marquez ou Julio Cortazar não conseguiria explicar.
É um bom momento de reflexão.



Todos temos responsabilidades no Oriente Médio. Em especial o Brasil que presidiu a sessão da ONU em que foi criado o estado de Israel, a Inglaterra que repartiu as terras quando se retirou e os Estados Unidos, que afinal, atribuem-se a liderança do mundo ocidental. postado por walter em 28/03/02

O ORIENTE PRÓXIMO

Walter Galvani


Num dia morrem 19, porque um guerrilheiro-suicida explodiu-se levando todos para o inferno ou para o céu, como queiram. No outro, os tanques arrasam um acampamento, porque dali pode ter partido o atacante. No dia seguinte mata-se alguém num bar do centro da capital e no outro um ônibus vai pelos ares, e então morrem trinta ou trinta e seis. A contabilidade é variável, há dias que são comemorados porque foram apenas quatro mortes e nas fileiras “inimigas”.
Esta é a vida no Oriente a que nos acostumamos a chamar de Médio, porque também há o Próximo e naturalmente todos nos parecem “distantes” o suficiente da nossa “civilização” e portanto de tais problemas estamos livres, isentos.
Pois não estamos. Quando nos servem diariamente ao café da manhã esta dose de horror, estamos ficando menores, diminuindo nossa importância humana. Impotentes individualmente continuamos a suportar o que nos toca, na esperança inútil de que no dia seguinte a Humanidade terá criado juízo.
Abrimos o jornal, assistimos à televisão, e a monótona repetição das desgraças já banalizou a tragédia. Não há o que dizer.
Há talvez o que fazer.
A responsabilidade é geral. De todos os povos envolvidos, das suas religiões, dos que dividem o poder nos corredores e gabinetes da ONU. Dos que se atribuem missões internacionais e responsabilidades. Dos que ajudaram a criar a situação.
A questão árabe-judaica não é apenas uma troca de terrenos ou localização de populações, não é de apelar para uma convivência pacífica entre desiguais, nem de uma aceitação dos diferentes, do fim de discriminações.
José Saramago tocou no ponto na sua segunda manifestação, quando afirmou: “Ter 100 mil palestinos obrigados a se espremer em três quilômetros quadrados em Gaza, enquanto nas colônias israelenses ao redor, tudo é iluminação, amplitude e conforto, ao lado de extensões relativamente grandes de aldeias arrasadas pela estratégia da expansão e domínio israelense.” Completou dizendo que a “dominação israelense é a forma mais perversa de apartheid”.
Vamos por partes: há uma diferença enorme, quilométrica, entre a ciência e a tecnologia de Israel e a de seus vizinhos. De um modo geral a demora cultural entre aquelas comunidades é da Idade Média para o Mundo moderno, centenas de anos. Nem todo o dinheiro acumulado pelo petróleo pelas nações árabes mudou esta proporção, porque os direitos do ouro negro serviram para enriquecer algumas famílias, mas tarda em chegar ao povão.
Só a demonstração de poderio e riqueza, portanto, já choca e agride. Nem era preciso reagir ou atacar, agredir ou responder aos ataques. Nenhuma bomba é mais destruidora do que a simples comparação entre a riqueza extrema e a pobreza absoluta.
Deus, Jeová e Alá não são a mesma pessoa, nem o mesmo deus. Cada um nasceu à sua maneira, e exclusivistas como são, afinal comandam as três maiores religiões monoteistas, querem tudo para seus seguidores e procuram “converter” os “infieis”. Aceitação, compreensão, tolerância ? Palavras difíceis aqui no Ocidente, porque iriam ser palatáveis no Oriente Médio, Próximo ou Extremo ?
Não vejo solução, não sou otimista. Para onde olho enxergo muita falta de vergonha e interesses comerciais apenas. Não creio que os homens se entendam, pois nunca se entenderam, sempre lutaram entre si como feras. Como aliás as feras só o fazem por territórios. Ou seja: não há muitas diferenças.


O escritor Alcy Cheuiche e a Reforma Agrária, uma oitava edição de livro, um milagre no Brasil e uma questão irresolvida por falta de ação e vontade. postado por walter em 27/03/02

ANAS E JOÕES SEM TERRA

Walter Galvani

Em outubro de 1990, na Feira do Livro de Porto Alegre, o escritor Alcy Cheuiche apresentava ao público o seu romance “Ana Sem Terra”. Uma visão política e sociológica, além do sentido de oportunidade, haviam levado o grande escritor gaúcho a apresentar seu trabalho, baseado no problema dos colonos sem terra, mais claro e identificável no Rio Grande do Sul, por ser este estado o mais atingido pela questão agrária, apesar da sua antiga posição (hoje contestada pelos concorrentes diretos Paraná, Goiás, Mato Grosso do Sul), de celeiro do Brasil.
O escritor Alcy, apesar de toda a sua ligação familiar e pessoal com o campo e a atividade pecuária e agrícola, teve a sensibilidade e a coragem para identificar a questão e apresentá-la à discussão do público, quando ainda estava bem ardente na memória da população a intervenção dos chamados “revolucionários” de 64, o que tornava qualquer questão social um perigoso caso de polícia.
O livro recebeu a consagração popular pela sua oportunidade e no próximo dia 22 de abril será alvo de homenagem e debate no Instituto Estadual do Livro por ocasião do lançamento da sua oitava edição.
Ora, se é uma raridade no Brasil um livro chegar à segunda edição, imagine-se, como no caso, à oitava.
Ganha mais do que nunca importância quando o debate deixa de ser literário ou de fortuna crítica do escritor para que se retome a questão das anas e dos joões sem terra deste país imenso que não sabe ou não quer fazer uma reforma agrária. Poderia fazê-la, sem dúvida, com a simples utilização das terras devolutas e o mesmo que se prometeu – e em muitos casos não se cumpriu – no século XIX aos colonos europeus, vindos da Alemanha e da Itália. Terras, sementes, ferramentas e no caso do século XXI, máquinas agrícolas, sejam elas de uma cooperativa estimulada ou do próprio governo, eis tudo o que se necessita, mas junto a isto uma imensa vontade política e capacidade técnica.
Não sei o que falta ao governo. Sei o que falta à Ana, a sem terra, a do Alcy Cheuiche que, contou-me o escritor gaúcho, pediu permissão à dona Mafalda, viúva de Erico Verissimo, para utilizar o trocadilho com a Ana de “O Tempo e o Vento”, aquela sim uma mulher com alguma terra, e uma das nossas ancestrais, formadoras da gente e da mentalidade do estado mais meridional do Brasil. Como sou lido – graças à Deus e a Internet – pelo mundo todo, neste caso felizmente globalizado, preciso dar esta explicação.
No caso da invasão da fazenda dos “parentes do presidente da república”, que tanto agitou a “mídia” e a opinião pública brasileira nesta semana pré-Páscoa, houve pronunciamento de autoridades que não se verificaram em casos semelhantes ocorridos, por exemplo no Rio Grande do Sul e é isto que espanta.
Condena-se, e com razão, a invasão da propriedade produtiva, o uso das instalações e o consumo indevido de alimentos e bebidas. Além disso, reprovável sem dúvida a exibição de uma ocupação ostensivamente política.
O ministro Marco Aurélio Mello, presidente do Superior Tribunal Federal, disse que “os manifestantes não respeitaram sequer a intimidade da residência”. E no caso das “invasões” de Bagé, São Gabriel e tantas outras no Rio Grande do Sul ? Porque não se manifestou com tanta presteza e eficácia o ministro ?
Por falar nisto, Aloysio Nunes Ferreira justificou a ação policial: “A polícia é obrigada a agir, prender, senão estaria cometendo crime de prevaricação.” E o presidente da república, “Manifestações radicais como esta agridem o Estado de direito e a democracia, e ferem a cidadania no seu sentido mais amplo.”
Pena que o presidente e os seus ministros não tenham feito tais declarações quando outros cidadãos, mais comuns por certo, foram atingidos, tiveram suas fazendas ocupadas.
É claro que os integrantes do MST querem o filé mignon das terras brasileiras. Mas, aí entra a cidadania, o estado de direito e a democracia, os direitos de todos, a ordem. Ao Estado cabe zelar pela aplicação da lei igual para todos. E promover a justiça, a distribuição eqüitativa de oportunidades.
O sucesso do livro de Alcy Cheuiche em oitava edição e os novos fatos que mexem com a opinião pública do país, mostram o quanto ele estava certo e a importância do nosso voto em outubro, única arma para lutar pela igualdade de todos os cidadãos do país. E também para demonstrar a necessidade, urgência e conveniência de uma reforma agrária reclamada há tantos anos e causa de tantos conflitos.
Alcy dedicou seu livro de 1990 a Marco Rodrigo Toledo (nove meses), Alexandre Batistella (cinco meses), Jaime Rohden (cinco anos) e Marisa Garcia da Rocha (quatro meses), que, “num dia ensolarado do mês de fevereiro de 1989” morreram envenenados quando “um avião agrícola sobrevoou o acampamento dos colonos sem-terra no Rincão do Ivaí, abrindo sobre eles seus esguichos de pesticidas”.
O escritor encerra assim sua comovente dedicatória: “à memória dos quatro pequenos ex-combatentes”.
Nestes 12 anos o que foi que mudou ?
Os leitores do Brasil bem o sabem: nada. Só piorou.
Para os de fora: 2.000 anos depois da primeira reforma agrária dos romanos, aqui ainda nada foi feito...




Enquanto vivemos aqui este lindo e alegre outono, o mundo pega fogo lá fora... Prestem atenção nas palavras de José Saramago, o único escritor de língua portuguesa a conquistar o Prêmio Nobel de Literatura postado por walter em 26/03/02

O SAL AMARGO
Walter Galvani

Não é por nada que em Portugal, na intimidade dos círculos jornalísticos e literários, chamam o Nobel José Saramago de “sal amargo”. E não será por acaso também, que ele fará jus a tal apelido. Os portugueses, para quem não os conhece na intimidade, dizem “lá as suas coisinhas” e são extremamente práticos, objetivos e claros ao externarem seu pensamento.
Quando vi que Saramago integrava o grupo de intelectuais que visitaria a Cisjordânia, imaginei que ele e todo o grupo, onde pontificava outro Nobel, Woyle Sinke, abalariam o mundo com a sua presença. Não deu outra, mas sobretudo pela declaração do único escritor da língua portuguesa distinguido com o prêmio máximo da literatura mundial.
Saramago desceu do muro e disse que os israelenses, no caso da ocupação de Ramalah, da prisão domiciliar que impuseram a Yasser Arafat, estão agindo tal como os alemães fizeram com os judeus na guerra 39-45.
Pode-se imaginar o abalo que tal declaração causou no Oriente Médio e no mundo todo. Aliás, a começar pela entrevista coletiva onde o grande escritor fez tal declaração, que foi abalada pela retirada de uma jornalista israelense e protestos de outros.
Os intelectuais ocidentais estavam realizando uma visita de apoio ao escritor Ahmud Darwish, um grande nome da etnia árabe, também ele reduzido – como seu povo – à uma situação difícil em meio à guerra.
Ora, ninguém quer guerra, ainda mais à porta de sua casa. Ou na casa ao lado.
A visita tinha o sentido e o objetivo de mexer com a opinião pública mundial e podem estar certos de que isto foi alcançado. A menos que se tapem os olhos e se imagine que ainda pode ser pior. Pode mesmo. E para o mundo todo, se continuarem a buscar solução radical para questões que o diálogo – e penso em gente civilizada – deveria presidir.
Saramago fez o mundo pensar. Honrou, mais uma vez, seu apelido nacional.




Uma grande festa do cinema, mas e as injustiças ? postado por walter em 25/03/02

POLITICAMENTE CORRETO
Walter Galvani

O “Oscar”, sempre se soube, é um prêmio político e comercial que visa beneficiar o cinema como indústria e apenas roçar com suas pesadas asas do interesse, a chamada Sétima Arte como tal.
Assim sendo, é redundância dizer que os “Oscar” deste ano foram tentativas de correção, a busca do chamado “politicamente correto” pelos americanos. Dar o prêmio a Denzel Washington e a Halle Berry, com isto destacando de uma vez só dois atores negros, justamente no dia em que também se lembravam de chamar Sidney Poitier para um “Oscar” especial, por ter sido até então o único negro premiado, é uma forma um pouco descarada de mostrar publicamente o quanto o cinema é agradecido aos negros. Mentira. O cinema americano é uma arte de brancos, de preferência wasps (ou seja White, Americans, Protestants) e até aqui sempre foi o mundo das loiras, com raras exceções para uma que outra “brazilian bombshell” como era chamada a luso-brasileira Carmen Miranda ou a Jeniffer Jones atual ou qualquer outra beldade latina.
Os seus grandes diretores, John Ford, Henry Hathaway, Cecil B. de Mille, Steve Spielberg ou importados como Fritz Lang ou Ernest Lubitsch, sempre foram brancos, caucasianos, europeus ou descendentes. E seus astros e estrelas, desde Cary Grant até Russel Crowe, passando por Tyrone Power ou Humphrey Bogart, brancos, branquíssimos.
De vez em quando aparece um negro para provar que eles são democratas. Portanto, nada de mais, nada de importante.
Sidney Poitier é um grande astro do passado e tanto em “Ao mestre com carinho” quanto em “Adivinhem quem vem para jantar”, prestou-se generosamente para uma abertura que não chegou.
Premiar agora dois negros é uma iniciativa política, não que os premiados não tenham valor. Não se trata disso, mas uma vez mais de hipocrisia apenas.
Amanhã ou depois os negros serão tão discriminados como até agora o foram. A única diferença, que não sei se é vantajosa para a raça negra é que agora não podem ser chamados de “blacks” ou “negros”, são tratados de “afro-descendents”. Foi isto que mudou.
Continuam também a fazer papéis como os negros brasileiros em nossas novelas de televisão: são motoristas, empregados domésticos, lixeiros, varredores. Os papéis que os brancos não querem desempenhar na vida real e que repassam para os pretos, também não são cumpridos na tevê.
Assim vai a vida e os “politicamente corretos” que cumpram a parte que lhes toca. Hollywood continua sendo Hollywood.
Não é por acaso que alguns dos maiores diretores de todos os tempos, Orson Welles, autor de “Cidadão Kane”, este um dos 10 melhores da história do cinema, só por exemplo, jamais levou uma estatueta do “Tio Oscar” para casa...


Salim Miguel, hoje talvez o maior nome das letras catarinenses, perfila-se ao lado de Cruz e Souza e recebe aos 50 anos de carreira nosso preito de admiração. E assim festejamos os 276 anos de Florianópolis postado por walter em 24/03/02

A LUZ, FLORIANÓPOLIS

Walter Galvani

Comemorei o aniversário de 276 anos de Florianópolis, a bela capital que esqueceu porque foi ofensivamente batizada com o nome do seu opressor, almoçando com o notável escritor e melhor criatura humana, Salim Miguel. Eu, a Carla Irigaray, minha companheira de todas as horas e Eglê, a esposa do Salim, ambas nossas primeiras e duras críticas literárias. Pois merecem a nossa confiança, não é mesmo Salim ?
Mas o momento mais emocionante da nossa visita ao Salim foi a permissão que nos deu Eglê para que penetrássemos no recinto sagrado da sua biblioteca em Cachoeira do Bom Jesus.
Saí de lá carregando o livro “Salim na claridade”, editado pela FCC com 24 depoimentos comemorando os 50 anos de atividade literária do grande escritor catarinense, aliás libanês e florianopolitano por adoção.
Deslumbrei-me enquanto isso com o seu carinho pelos livros, com a metódica organização da sua biblioteca, com as preciosidades que lá reune, lamentando é claro as edições princeps que se perderam nas garras do cupim selvagem, o mesmo bicho daninho que já me atormentou em Canasvieiras e continua a me preocupar com sua presença ou ausência – pode estar devorando nossos bens no silêncio devastador de sua ação secreta – e no entanto, Salim resiste.
Pena que ele se obriga a transitar para outros lados e não permanece o tempo todo ali, ao lado de suas preciosidades. Mas, lá estavam Dumas, Anatole France, Roger Martin du Gard, Assis Brasil, Erico Veríssimo, Dostoiewski, Andre Gide, enfim, lado a lado os grandes monumentos da literatura regional, nacional e universal.
Foi uma belíssima forma de festejar Flops.
Espero estar com meus amigos catarinenses nos 277, 278 e assim por diante. Novos e velhos amigos, como o Mário Pereira, Rossana e Cláudio Thomas, Euclides Lisboa e tantos outros. Sem dúvida tendo o privilégio de ler o grande cronista Sérgio da Costa Ramos , que estilo, que força, que talento!
Felicidades Florianópolis!
Mas felicidades também à cidade por ter Salim Miguel entre os seus. Escritor, jornalista, ex-diretor da Editora da Universidade, autor de tantos textos diversos desde o seu “Velhice e outros contos” de cinqüenta anos atrás e atualíssimo como tudo o que fez, está fazendo e continuará a fazer.
Estive diante do mitológico Salim Miguel que aprendi a incorporar aos meus afetos e recebendo dele, como demonstração inicial, o mesmo apoio que sempre deu a todos os que dele se aproximaram, e os depoimentos coletados neste belo livro que me preencheu o Domingo, “Salim na claridade”, título que é uma bela citação ao seu “Nur” e a claridade desta Flops, hoje ocasionalmente chuvosa neste início de outono.
Para resumir os sentimentos que Salim provoca transcrevo as primeiras palavras de Cícero Sandroni, no artigo “Nossa parceria na “Ficção” – querendo referir-se aqui à revista desaparecida depois da heroicidade dos seus 43 números e que tanto marcou o país (ainda hoje insubstituída):
“Lealdade, gen4erosidade, honestidade, bondade e outras virtudes terminadas em ade, além da capacidade de doar-se com entusiasmo à uma causa – e o talento de um escritor”- eis a descrição de Salim Miguel.
Assino embaixo e boto na Internet para que se propague. Amém.


O que faz a grandeza de uma cidade ? A concentração de iniciativas, prestação de serviços, poder e sua conseqüente atração sobre uma região, um país ou o mundo, como Paris por exemplo... postado por walter em 23/03/02

MIGRAÇÃO INTERNA

Walter Galvani

Ilha do Desterro. Assim era o nome oficial e objetivo da ilha de Santa Catarina, onde se situa parte da cidade de Florianópolis, hoje com mais de 340 mil habitantes e capital do estado. Durante os 276 anos de sua existência, comemorados hoje, dia 23 de março, recebeu sempre contingentes populacionais da própria colônia, da metrópole e mais adiante do exterior, ou depois da independência (1822), dos irmãos nacionais.
Durante um breve período no século XIX, foi invadida pelos espanhóis que, subindo do rio da Prata vieram conquistando pontos na costa brasileira. Diz-se em Florianópolis que os seus descendentes gostaram tanto que ainda hoje repetem anualmente a invasão, embora adocicada pela paixão por Canasvieiras e outras praias da ilha.
Mas, o fato é que a pequena cidade deixou de ser o lugar de desterro e embora batizada cruelmente com o nome de quem a subjugou e mandou pôr a ferros e executar alguns dos seus mais ilustres filhos, refiro-me ao ditador Marechal Floriano, tornou-se, pelas suas belezas naturais logo descobertas e cada vez mais encontradas, lugar de encontro, de migração e não de punição.
Hoje é um dos principais locais de migração de brasileiros de todos os estados que aqui acorrem para curtir sua aposentadoria ou ganhar a vida com a atividade que o cosmopolitismo da cidade passou a permitir.
Tudo muito interessante, mas não se pode admitir xenofobia em território do mesmo país, que aí já é estresse em demasia... Pois há pessoas que acham que esta atração de “estrangeiros” é prejudicial à Florianópolis. Lembro-me do caso de Canoas, minha terra natal e no entanto pólo de atração de riogr

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