ultura ocidental.
E é mesmo um “dia muito especial”.
Comecemos recordando que foi num 15 de março, no ano 44 Antes de Cristo, no que se chamava então “nos idos de março”, que Júlio César, rejeitando todos os avisos, os conselhos de cautela e prudência, e até os alertas de sua esposa que teve um pavoroso pesadelo naquela noite, dirigiu-se ao Senado e ali foi assassinado por Casca, que desferiu o primeiro golpe, Cássio, Bruto, que o atingiu na virilha, o golpe final, e outros conspiradores que o cercaram e o derrubaram com suas espadas, ferindo-o primeiro no ombro, depois no rosto, nas mãos e no peito.
Júlio César, o todo-poderoso imperador, o ditador, sucumbiu. Como todos.
Como Adolph Hitler, que num dia 15 de março, em 1933, anunciou o nascimento do III Reich, o Reich de Mil Anos, o império milenar, que acabou durando doze anos. Caiu em 1945, derrubado pelos aliados, encabeçados por França, Estados Unidos e Inglaterra, não exatamente nessa ordem, mas de acordo com as pretensões de cada um destes países que se julgaram e continuam se julgando os mais importantes...
Tanto é assim que hoje, os tempos mudaram, os aliados são outros, mas os interesse são os mesmos.
Estarão reunidos hoje, nos idos de março... portanto, Estados Unidos, através do seu presidente George W. Bush, Inglaterra, pelo seu primeiro ministro Tony Blair, e Espanha, pelo seu primeiro ministro Aznar, no Departamento Autônomo dos Açores, território de Portugal, que se fará presente como anfitrião através do seu primeiro ministro, o conservador Durão Barroso.
Ora, vejam só: a Espanha, que era francamente aliada da Alemanha na segunda guerra mundial e Portugal que se manteve neutro, mas foi, sabidamente, o maior viveiro de nazistas, época do governo Salazar, estão hoje “aliados” ao governo Blair que pensa que é Churchill, mas evidentemente não é, assim como Bush se imagina quem sabe um Eisenhower, nem sonha em ser Roosevelt, porque este era Democrata, e lá está posando de xerife do mundo.
De revólver na cintura ou espada na mão, eles pensam em traçar o futuro da humanidade e para isso se reúnem nos paradisíacos Açores, que pegam a carona da divulgação e da promoção turística... Mas, lá está situada a base americana de Lajes, na ilha Terceira, desde os tempos da II Guerra Mundial, como se fora um gigantesco porta-aviões a meio caminho entre os Estados Unidos e a Europa.
Tudo isso acontece no dia em que os senadores romanos mataram Júlio César, um representante do partido de Mario, do chamado Partido Popular, que levara o povo ao poder pela primeira vez na história romana. Se depois disso ele se transformou em ditador, então que leiam bem esta história Fidel Castro e Saddam Hussein, nunca se estará livre destas eventuais revisões que os povos costumam fazer, de tempos a tempos.
Na morte de César havia o componente-traição. Até um homem que ele havia amparado e protegido, Brutus, estava entre os conspiradores e, diz a lenda que ao vê-lo entre os agressores, abandonou-se à sanha dos seus matadores, e buscou a própria morte, exclamando, “Et tu, Brute. Fili”, “até tu Brutus, meu filho”.
Este foi também o dia em que em 1917, o czar Nicolau II abdicou, forçado pelos bolchevistas, em favor do governo da “troika” Lvov, Miliukov, Kerenski que se formava e levou a Rússia a trajetória comunista, de 17 a 92.
Um dia muito especial, como se vê. E muito instrutivo.
Porto Alegre tem tido problemas para fazer funcionar seu comércio aos domingos. Vejam esta decisão do STJ. postado por walter em 13/03/03
COMÉRCIO AOS DOMINGOS,
INTERESSE NACIONAL
Walter Galvani
A Segunda Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) em decisão unânime, garantiu ao supermercado Wal Mart Ltda., de Ribeirão Preto,São Paulo, o direito de funcionar aos domingos e feriados. Os ministros concluíram que a competência para legislar sobre as atividades comerciais varejistas no território nacional é da União e prevalece sobre o interesse municipal. A notícia é de editorultimosegundo@com.br em sua página na Internet, nesta última quarta-feira.
A abertura do supermercado estava proibida por uma lei municipal regulamentada por um decreto do então prefeito daquela cidade, Antônio Palocci. O supermercado impetrou mandado de segurança preventivo, com pedido de liminar, contra o secretário da fazenda de Ribeirão Preto, com o objetivo de impedir que o município multasse ou autuasse op estabelecimento por abrir aos domingos e feriados. O Wal Mart conseguiu uma liminar a seu favor, mas o Tribunal de Justiça paulista a revogou ao julgar o mérito. Para o TJ, o município tem competência para legislar sobre o assunto. Diante da decisão, o Wal Mart recorreu ao STJ, onde o ministro Peçanha Martins, relator do caso, deferiu-lhe o pedido.
O assunto interessa muitíssimo, em especial a Porto Alegre, onde, por causa de posições do sindicato dos comerciários, o município perde dinheiro há muitos anos e, em conseqüência, mercado para os municípios da sua região metropolitana, onde o comércio abre aos domingos. Tem mais: não apenas as empresas que não possuem empregados ou nas quais atuem apenas o proprietário e seus parentes.
Vejam a continuidade da informação:
Segundo o relator, a Lei 10.101/2000 autoriza o trabalho aos domingos e feriados do comércio varejista em geral, sem distinção do ramo de atividade. Além disso, a competência da União Federal – resultante das exigências sociais e econômicas dos tempos atuais visando atender aos interesses coletivos de âmbito nacional – prevalece sobre o interesse peculiar do município, cuja competência para legislar é supletiva.
Ao acompanhar o relator, o ministro João Otávio de Noronha destacou que vê nessa questão a prevalência do interesse nacional, que hoje é a política do emprego.
As informações estão no site do STJ.
Minha homenagem a estes pequenos-grandes heróis da ciência e da cultura. Hoje, 12 de março, é o dia de abraçar o Bibliotecário. Ainda bem que, pelo menos uma vez por ano, em nosso país, pensa-se nele postado por walter em 12/03/03
DIA NACIONAL DO
BIBLIOTECÁRIO
Walter Galvani
Eis uma digna e salutar ocupação, na certa muito mais proveitosa para a Humanidade do que construir ou soltar bombas sobre populações indefesas, sejam atômicas ou, digamos, convencionais... – seja “a mãe das bombas” ou um dos seus filhotes.
O saber, o patrimônio coletivo comum de todos os povos do mundo, produzido há milênios, transmitido de geração em geração, acondicionado em livros, seu bastante representante e indestrutível condutor, repetindo-se em milhares de traduções e edições, ganhando com isso todas as línguas, tem um protetor especializado, cujo dia hoje se comemora: O Bibliotecário.
Assim mesmo com maiúsculas que deve ser escrito, em minha opinião. Não fora o atentado contra a maravilhosa biblioteca de Alexandria já estaríamos alguns anos-luz mais adiantados, mas infelizmente o incêndio e destruição daquela jóia da civilização não foi nem o primeiro, nem será o último, dos crimes cometidos em nome do poder, da ambição, da louca corrida pela guerra.
Exemplarmente foi reedificada a biblioteca do Egito e se ainda não alcançou toda a cobertura do seu projeto, pelo menos já disse a que veio e lá está à disposição dos povos.
Cada cidade deve ter como orgulho próprio a sua biblioteca. Aonde vou pergunto por ela e muitas vezes me decepciono ao saber que o município não tem, porque se julga se recursos ou porque realmente é pobre e não vê nos livros o valor incontestável que eles de fato o possuem.
Nos meus verdes anos de mocidade muito freqüentei os salões da Biblioteca Pública Estadual do Rio Grande do Sul, a rua Riachuelo esquina General Câmara, em Porto Alegre e sempre acompanhei com orgulho o crescimento do número de volumes que constituem um patrimônio inestimável do estado mais meridional do Brasil.
Em quanto estamos? Duzentos mil? Trezentos mil?
Amanhã saberei, pois estarei fazendo uma visita especial à diretora atual da Biblioteca, Morgana Marcon, e à ela levarei um exemplar de “Nau Capitânia” e de “Olha a Folha”, meus dois trabalhos mais recentes, a “Nau” em quinta edição pela Record (Rio de Janeiro) e o “Olha a Folha”, sobre o último grande vespertino da capital dos Pampas, em segunda edição, revista e ampliada, obra da Editora Sulina de Porto Alegre.
Enquanto isso vai minha homenagem a todos os bibliotecários que, desde as coleções particulares até colégios, universidades e estabelecimentos públicos, colaboram de forma tão fundamental com a população, com o seu amor pelos livros e sua dedicação a um trabalho, aparentemente anônimo, mas integrado numa rede mundial de proteção ao trabalho, à ciência, à cultura, ao conhecimento geral de todos os povos, ou seja de preservação da própria dignidade do Homem.
Instala-se hoje em Haia, na Holanda, um tribunal internacional que, dentro de no máximo doze meses começará a julgar os crimes contra a humanidade. Há países que negaram seu apoio... Além disso, nos Estados Unidos acontece o cúmulo da hipocrisia: estão lançando uma licitação pública com cartas-convite já dirigidas a cinco empresas, para trabalhar na Reconstrução do Iraque depois da guerra anunciada... postado por walter em 11/03/03
RECONSTRUIR
A ÁFRICA,
PORQUE NÃO ?
Walter Galvani
O cúmulo do cinismo: os Estados Unidos da América do Norte convidaram cinco empresas para participar de uma licitação para a reconstrução do Iraque. Ora, então para quê destruí-lo? Se é sabido que gastarão tantos milhões de dólares na necessária reposição do que for atingido por uma guerra, tais como estradas, aeroportos, hospitais, instalações civis administrativas e sistemas de extração, refino e comercialização de petróleo, qual é a moral levar adiante uma guerra, acabar com tudo isso e depois investir milhões e milhões na reconstrução?
Enquanto isso as pessoas, que naturalmente não interessam como seres humanos a esses senhores da guerra, morrem, seus familiares não serão indenizados e nem tampouco será possível restituir-lhes a vida.
É o que dá quando há pessoas e países que se igualam a um ser supremo e pensam que são Deus de suas próprias vidas e das nossas.
E pergunto mais: porque não se unem todos os que nos últimos duzentos anos vem sugando os recursos naturais das terras africanas e distribuíram entre si o rico espólio das nações que eles próprios criaram, passando por cima das diferenças tribais, gerando a raiva, o ódio e a semente da violência que levou aos genocídios como o de Ruanda, e que ainda hoje debilita e infelicita aqueles povos?
Poderiam então, europeus e americanos, dando-se as mãos como agora e nisso incluindo sim, Inglaterra e Espanha, que agora apóiam sem limitação aos Estados Unidos, mais a França e a Rússia, a Alemanha, a Bélgica e a Holanda, Portugal e outros colonialistas maiores e menores, gastando menos e investindo com mais grandeza e sentido de humanidade, reconstruir a África. Sem precisar destruí-la outra vez, que já o fizeram várias vezes.
Ou será que estarão esperando o Dia do Juízo Final?
Porque, não se assustem, não perdem por esperar, uma guerra contra o Iraque, mais uma vez o fim cantado da Mesopotâmia, a guerra contra a Babilônia, seja lá o que for que o mundo reserva para o vale fértil dos rios Tigre e Eufrates – lembram da Bíblia e da história de guerras dos assírios, sírios, medas e persas, romanos e gregos? – acabará com uma boa parte da Ásia.
Por favor: sabemos que a Humanidade é tosca, ignorante. Mas, com toda esta tecnologia, tantos conhecimentos acumulados, será que mais uma vez vamos nos atirar na escuridão da morte, da guerra, da desgraça?
Agora mesmo está sendo instalado em Haia, Holanda, um tribunal internacional com 18 membros, para o julgamento de crimes contra a Humanidade. Os Estados Unidos retiraram seu apoio ao novo tribunal, bem como a Rússia e a China, receosos quem sabe de julgamentos procedentes e próximos.
Os ratos – no caso os gatos – não querem um tribunal para a apreciação de sua conduta. Estão contra. Que velha e triste história!
Futebol não é mais a alegre festa de disputa e combate ruidoso de torcidas alegres. Confrontos nas ruas mostram que se busca qualquer coisa para desatar a violência que mora no coração postado por walter em 10/03/03
RAÍZES DA VIOLÊNCIA
Walter Galvani
Uma partida de futebol reunindo dois rivais antigos, no caso porto-alegrense, Grêmio e Internacional que jogam entre si desde 1909, disputando os principais títulos locais, regionais e há alguns anos também os nacionais, é em princípio uma dinamite nas relações sociais. Há os esportistas, mas estes são cada vez em menor número, pois o alinhamento num campo de futebol de duas equipes, com símbolos, hino, cores e princípios distintos, dividem amigos, famílias, criam adversários e não “co-irmãos” como antigamente se usava e hoje só se usa como cinismo e acaba gerando batalhas campais.
De nada adiantou a Brigada Militar fazer reuniões com os dirigentes das torcidas organizadas e de nada serve responsabilizar os clubes. Eles não tem como dominar seus torcedores e, mesmo que o quisessem, no aceso da disputa esportiva, depois de um resultado que, de certa forma, humilha o rival, não há acordo possível.
Foi o que aconteceu ontem aqui em Porto Alegre, a cidade “do Fórum Social Mundial”, tida e havida como um pólo de qualidade de vida no país, mais alto índice de educação e de leitura, pois engalfinharam-se mais uma vez os torcedores do Grêmio e do Internacional e partiram para se agredir e quebrar o que vissem pela frente.
Falta de educação, de controle, de formação, na verdade um bando de deficientes, mas em sua violência produtos da violência geral nas relações humanas, frutos da violência política, administrativa, resultados das diferenças sociais.
Só que será preciso – da próxima vez – colocar um efetivo maior de soldados para proteger o patrimônio público e estabelecer o regime de “tolerância zero” para os desordeiros, para os agressores e para os desequilibrados que infestam e povoam os grupos de sadios torcedores.
Não adianta dizer que “no meu tempo não era assim”. Agora é. Se não forem tomadas medidas seríssimas, acabarão levando o futebol a ser disputado em estádios fechados, com transmissão pela televisão e será então o fim do esporte que há mais de cem anos se pratica no mundo inteiro.
E a violência geral da sociedade não pode autorizar a baderna. Acabaremos todos iguais ao Rio de Janeiro.
Aqui vai o artigo Farda na paisagem, falando sobre a segurança no país e os roubos de automóveis Omega de governador, deputado, ministro, etc... Realidade (lamentável) brasileira. Mas não posso deixar de lembrar que hoje, 9 de março, no ano de 1074, o Papa Gregório VII fez a grande asndeira - claro, problemas da época... - de expulsar todos os padres casados da Igreja Católica. Há quase mil anos atrás. Está na hora de revisar aquela medida absurda e acabar com o celibato sacerdotal dos católicos postado por Walter Galvani em 09/03/03
FARDA NA PAISAGEM
Walter Galvani *
O carro de modelo Omega, produzido pela General Motors, se presta pela potência do motor, aparência imponente e severidade das formas, a abrigar grandes executivos. Tem sido usado por empresários e por autoridades públicas, muitas vezes blindado, conseqüência dos tempos modernos que vivemos. Vejam, historicamente: já roubaram o Omega do governo do estado quando Olívio Dutra era governador e arriscou-se a ir com ele ao seu antigo endereço particular na av. Assis Brasil em Porto Alegre, roubaram o Omega do deputado Otomar Vivian quando ele era presidente da Assembléia Legislativa do RGS e roubaram o do ministro da Justiça, Márcio Thomas Bastos, quando em São Paulo, ia a uma consulta médica. E agora o do governo do estado gaúcho.
Não é o Omega em si que atrai os ladrões, mas como qualquer carro de porte e potência o faria, torna-se alvo predileto. Logo eles o utilizarão em assaltos, que a ousadia não tem limites.
E porque a ousadia não tem limites?
Porque não há fardas na paisagem, simplesmente.
Ainda neste Carnaval tivemos a prova disso, quando o Exército classificou-se no primeiro lugar absoluto nos desfiles do Rio de Janeiro. Você não fala com ninguém nas ruas e avenidas cariocas que não aplauda o garbo, o ritmo, a eficiência e a alegria da presença da farda.
Só isto afasta os ladrões. Vocês já ouviram falar em assalto diante dos brigadianos? Difícil, não é mesmo? Mas a nossa Brigada Militar não tem efetivo suficiente, como na certa não o tem o Exército, nem somando com a Marinha e a Aeronáutica, para policiar todo o país. Mas, já chega. É um bom começo. Depois disso é aplicar nos fora-da-lei o mesmo que se fez no passado com os presos políticos. Confinamento em locais inacessíveis e quem mora diante de Porto Alegre sabe muito bem o significado da Ilha-Presídio, aliás a bucólica Pedras Brancas, que sempre se falou em utilizar para o turismo e nunca foi aproveitada. A ministra Dilma Roussef, considerada “subversiva” naquele período, conhece a ilha.
Portanto, o que nos falta apenas é decisão de afrontar o “mundo do mal”. Os rapazes que estarão prestando serviço militar, só com a exibição pública dos seus uniformes, o aparato dos seus veículos e a potência de suas armas, substituirão os poucos policiais civis ou das milícias estaduais, ou a eles se unirão, melhor dito, e teremos outra vez alguma paz nas ruas. Porque cresce o banditismo, multiplicam-se os assaltos? Velho provérbio da língua portuguesa já dizia, “a ocasião faz o ladrão”. Pois que não tenham eles, os ladrões, ocasião, nenhuma oportunidade.
Critica-se por vezes o custo do serviço militar e o lazer obrigatório a que são submetidos os jovens recrutas, disponibilizados para situações especiais ou uma guerra eventual, em defesa da Pátria ameaçada. Muitas vezes ficam eles nos pátios dos quartéis, preparando-se fisicamente, ou correndo nos parques, adestrando-se.
Eu diria que a Pátria está em perigo. Se não nos unirmos para defendê-la agora... quando o faremos? O que bem sabemos é que se não agirmos imediatamente, daqui a pouco será tarde. Se já não o é. Na verdade estamos diante de uma “guerra civil”, dos maus contra os bons.
A Escola “Unidos do Exército, Marinha e Aeronáutica” ganhou o coração do povo do Rio de Janeiro, apesar do incidente em que morreu um professor, mas agora se sabe, não respeitou o bloqueio, a parada que lhe fora ordenada, pelo menos pelo depoimento da sua acompanhante; agora só falta estender a todo o Brasil a atuação, senão o crime organizado trata de ganhar outros mercados, fugindo da repressão e da presença da farda...
* Inicialmente publicado em ABC DOMINGO de 9/3/2003, semanário de grande circulação na região metropolitana de Porto Alegre
Perdão leitores, mas diante de tanta hipocrisia estampada nos jornais e nas ações da sociedade... não resistí! postado por walter em 08/03/03
LEIAM; NÃO É UM ARTIGO BABACA
SOBRE O DIA INTERNACIONAL DA MULHER...
Walter Galvani
A maior prova de que as coisas vão mal, muito mal, para as mulheres de um modo geral, é que se continua a comemorar a cada 8 de março, como hoje, o “Dia Internacional da Mulher”. Estão todos cansados de saber que a comemoração da data nasceu nos Estados Unidos, o que não é uma grande vantagem porque, apesar de lá haverem nascido também Woody Allen, Roosevelt, Lincoln, também é a terra de Bush, e outros gaviões da fiel torcida do Pentágono.
Mas, de fato, aquelas pobres mulheres foram queimadas vivas e, desde então, passou-se a cultivar uma data para homenagear as mulheres. Em todo o mundo. Eis afinal uma coisa boa para os americanos exportarem e não apenas o seu Exército, quer dizer, Polícia do mundo.
A mulher tem um dia porque não tem descanso em dia nenhum. Não conheço nenhum Dia Internacional do Homem e, agora mesmo, acabei de me sentar aqui para digitar esta crônica, enquanto minha companheira se dedica a resolver os problemas do dia-a-dia. E olhem, que eu colaboro, hein! Acabo de botar no fogo um arroz com açafrão e tudo o mais que tem direito, até tomates secos e azeitonas pretas. Uma coisa de luxo oriental...
No entanto, enquanto eu preparava o arroz com raro prazer pessoal, ela percorria o centro da pequena cidade onde moramos, Guaíba, na frente de Porto Alegre, sob um calor dos demônios que faz hoje aqui, para comprar frutas, verduras, acompanhar a filha que por seu turno fora fazer uma troca de roupas do bebê, que aliás, chama-se Isabella e estréia hoje no tal dia internacional...
Esta ainda não protestou, mas não custa esperar... Ela tem dois meses!
Pois, como dizia eu, enquanto me deliciava a preparar um prato de arrancar exclamações, ela, minha mulher, comia do duro, andando no sol, dirigindo o carro, fazendo compras. “Não esqueça de me trazer os jornais!” – disse-lhe ao sair. Fiquei me sentindo um sultão.
E é assim mesmo, as mulheres saem por aí, fazem todo o “trabalho pesado”, ou como diriam os mafiosos, “sujo”, ainda lavam pratos, verificam a roupa dos machões e ainda tem que ter espírito para tomar banho, perfurmar-se e fazer amor atendendo às exigências e vontades do “dono”...
É demais, não acham?
Espero, sinceramente, mas tenho a premonição (ou a certeza) de que não, que no ano de 2004 ao invés de explorar comercialmente com bem bolados anúncios, esqueçam o tal dia internacional. Por desnecessário e hipócrita.
E não adianta assumir por um dia a tarefa do lar. É preciso ser sincero, prático e objetivo e começar a dividir tudo. Para valer.
Emoção ao falar na Folha da Tarde me faz misturar as duas coisas: Folha da Tarde, o maior jornal vespertino que jamais circulou em Porto Alegre e o "pai" do formato tablóide que hoje vigora absoluto no Rio Grande do Sul e Santa Catarina e o livro "Olha a Folha" que escrevi e está em segunda edição pela Sulina postado por Walter Galvani em 06/03/03
"Olha a Folha" faria misérias neste Carnaval. Mas, sabem os leitores de hoje o significa um "jornal vespertino"? postado por Walter Galvani em 06/03/03
CARNAVAL DA POLTRONA
Walter Galvani
Costumo brincar com meus amigos, quando me perguntam a que horas vou deitar, respondendo: “Agora levanto na hora em que antes ia deitar... Seis e meia da manhã.”
É mais ou menos por aí, a vida vai mudando e vou deixando a velha boemia de quem trabalhava em jornal – e durante muitos anos em jornal vespertino, a “Folha da Tarde”, o jornal de venda avulsa que alcançou a maior circulação relativa à população em Porto Alegre. A Folha chegou, no período em que fui o seu secretário de redação, a tiragens superiores a 100 mil exemplares, isso num período em que a capital gaúcha não ia além de 600 mil habitantes.
E este ano vivi o Carnaval da poltrona. Como poltrona? Então fostes ao Sambódromo ? - perguntam-me.
Não. Fui ao cinema.
Aproveitei para ver dois grandes filmes, imperdíveis, aos quais já me referi aqui nesta coluna: “O Crime do Padre Amaro” e “As Horas”. E estou me preparando para assistir “O Pianista” que está entrando em cartaz. Sempre vou ao “Guion Center”, é lá que estão e é o que recomendo.
Já que falei em Folha da Tarde, quando eu era seu chefe de redação, tínhamos a “Equipe das Terças”, um quadro de jovens jornalistas, entre os quais Antônio Hohlfeldt, hoje vice-governador do Rio Grande do Sul e Ivo Stigger, entre outros. Como as estréias cinematográficas se davam às segundas, a chamada Equipe das Terças se multiplicava e assistia a todas as estréias, cinco ou seis filmes em média. E na edição de terça-feira, publicava-se uma primeira crítica sobre cada um deles.
Bons tempos aqueles em que se valorizava a cultura como deve ser, em todas as suas manifestações e não apenas na música popular, que essa, logicamente, por sua capacidade de atrair a juventude, recebe generosa cobertura, às vezes até excessiva e indevida, equivocada e precipitada.
Por exemplo: quem é que lembrou que hoje é o Cinqüentenário da morte de um dos maiores gênios da música erudita moderna, o russo Sergei Prokofiev? Até parece que estamos no tempo do stalinismo (aliás Stalin também faleceu a 6 de março de 1953...) quando era proibido elogia-lo.
Mas, percorram as edições da velha Folha da Tarde ou leiam o livro “Olha a Folha”, em segunda edição pela Sulina, na Bamboletras, por exemplo está à venda.
E depois me digam...
Ah, e por falar em vice-governador ex-redator da Folha, Antônio Hohlfeldt, que muito nos honra, não é o primeiro. Um seu antecessor, João Gilberto Lucas Coelho, foi nosso correspondente em Santa Maria, onde atuava na Rádio Medianeira. Fui pessoalmente lá, contrata-lo. De tão bom que era e continua sendo.
Qualquer dia vamos promover o almoço dos ex-correspondentes e redatores da Folha da Tarde. E ex-governadores também...
Aliás, está chegando aí o dia 27 de abril, aniversário do “Vespertino da Cidade”, data em que os antigos redatores se reunem, religiosamente, no restaurante Copacabana, em Porto Alegre
"The Hours", um filme imperdível. Você que me visita aqui na Internet, não deixe de assisti-lo postado por Walter Galvani em 05/03/03
QUEM TEM MEDO DE
VIRGINIA WOOLF ?
Walter Galvani
O cinema tem o dom, quer dizer vários dons. Transfigura, metaforiza, debate, esclarece, confunde, anatemiza, ilumina, mente, sacode, interpreta, revolve, remexe, rememora, enterra, afunda, promove, amplia, minimiza, retoma, obscurece, enfeita, melhora, agrava, apresenta.
“As Horas”, com o título sabiamente mantido conforme o original “The Hours”, com três magníficas atrizes, Nicole Kidman (com um nariz postiço, sem nenhuma vaidade, com profissionalismo e amor pelo papel de Virginia Woolf), Juliana Moore e Meryl Streep, no mesmo nível, faz tudo isso com a escritora Virginia Woolf, com o seu livro “Mrs. Dalloway” que era para se chamar “The Hours”, com três histórias, três mulheres, aliás três criaturas humanas, acima de classificações sexuais, com as preferências sexuais, aliás, mostradas com delicadeza e tato, mas sem escândalo, com inteligência.
Acho que, fundamentalmente, é preciso ver e rever este filme dirigido por Stephen Daldry, antes de tirar qualquer conclusão apressada, mas vejo que persiste ainda “o medo à Virginia Woolf”.
É um filme sobre a depressão?
Pode ser.
É um filme sobre homossexualismo?
Pode ser.
Mas, é, sobretudo, uma demonstração do que o cinema é capaz de fazer, quando bem dirigido, bem pensado, bem orientado.
Há momentos sufocantes.
A primeira reação das pessoas é justamente dizer isto a respeito do filme que assisti em Porto Alegre no nicho dos bons espetáculos, o Guion Center: “terrível, é um filme terrível!”
Mas, eu acrescentaria: “Terrível de bom, imperdível!”
Assim como reputo, também, imperdível, “O Crime do Padre Amaro”, que está no mesmo Guion Center, de onde não saio, como podem perceber os visitantes desta página.
Aliás, o “Guion” me lembra muito o Shopping Monumental de Lisboa. Eu morava ali ao pé do Monumental, quando residi em Lisboa e não perdia filme bom nos seus belos cinemas, tão agradáveis e... com lugares marcados.
Um luxo que não temos ainda aqui no Brasil, mas quem sabe nos chega, por obra e graça do Guion, qualquer dia desses?
Onde se lê "instalação", leia-se "instalações"... Meu erro de ortografia não livra, no entanto, "as instalações iraquianas" do bombardeio... Quanto ao xeque detido no Paquistão, vamos ver o que ele nos conta. Enquanto isso, continuamos sambando. Alguns ao som da "Egüinha pocotó", mas todos sambando neste Brasil... postado por walter em 03/03/03
Khalid Shaick Mhoammed é apontado como "o mentor do ataque às Torres Gêmeas". Foi preso em Rawalpindi, Paquistão, no sábado. E esta madrugada os aviões americanos e ingleses começaram a bombardear estações de mísseis de defesa anti-aérea do Iraque. postado por walter em 03/03/03
PELO SIM, PELO NÃO...
Walter Galvani
Os passos do dia de ontem, Carnaval no Brasil e os passos de hoje, quando continua o Carnaval, no Brasil, graças a Deus – enquanto os americanos prosseguem em sua tarefa de “limpar” o planeta, prendem o suposto terceiro homem da organização Al Kaeda e anunciam que estão bombardeando instalação iraquianas, estações de mísseis terra-ar na chamada “Zona de Exclusão”.
Desde o final da guerra de 91, quando o pai do atual presidente Bush derrotou o Iraque sem chegar às últimas conseqüências, criaram-se duas “zonas de exclusão”: ao norte do país para separar os Curdos, que lutam pela sua independência e separação do Iraque e os xiitas ao sul, que discordam igualmente de Saddam Hussein.
Até aqui vigorava o seguinte: se nas tais zonas os iraquianos entrassem em ação, atirando contra os aviões “aliados” – leia-se Estados Unidos e Inglaterra – que sobrevoassem a região, poderiam ser atacados. Tempo de guerra é assim mesmo, não sabemos bem o que aconteceu, só que nesta madrugada começaram os bombardeios diretos.
Aqui no Brasil continuamos sambando...
Ao mesmo tempo, pelo que se vê das fotografias de jornais e emissões de televisão, desapareceram as tradicionais fantasias de árabes que sempre tanto sucesso fizeram na festa brasileira.
Enquanto brincamos, as bombas explodem. Felizmente para nós ainda bem longe daqui, apesar de que, em nossa guerrinha particular continuem as metralhadoras a soar...
Ainda ontem, bandidos atacaram pelo mar no Rio de Janeiro. Como há 34 mil soldados do Exército, Marinha e Aeronáutica policiando os locais do Rio de Janeiro onde os traficantes costumam exercer seu poder, duas lanchas foram até a Ilha do Governador e atiraram contra banhistas. Um ficou ferido.
No trânsito continuamos também com nossas perdas que, anualmente, se igualam à guerra do Vietnã.
Mas, continuamos sambando...
O jornal londrino "Sunday Telegraph" informa em sua edição de hoje que, Estados Unidos e Inglaterra lançarão um ataque ao Iraque, imediatamente após a votação do Conselho de Segurança da ONU, qualquer que seja o resultado. A estultície tomou conta do planeta, escreveu Eça de Queiroz, em 1870... Não está de todo fora de contas... postado por walter em 02/03/03
MAS... É CARNAVAL...
Walter Galvani *
Por aqui tudo está em suspenso e adiado até depois do Carnaval, e, “depois do Carnaval” no Brasil, significa já na outra semana. Ninguém é de ferro para tomar decisões na Quarta-feira de Cinzas, e a quinta-feira já será a véspera da sexta, o fim-de-semana outra vez, portanto, em nosso caso específico, dia 10. Atenção leitores, vai começar o Ano Novo!
Para a Economia o pior já ficou para trás. Passou janeiro, a posse do novo governo, Lula lá, o PT mostrando sua cara no comando das finanças, o que acabou por tranqüilizar o chamado “mercado”, fevereiro, tradicional mês de férias no Rio Grande do Sul, chuvas, calores, tempestades, inundações, para muitos inesperadas, frentes frias sucessivas que começam a “subir” desde a Argentina, não esqueçam de que este conceito de que o Sul fica embaixo nasceu porque os europeus (Hemisfério Norte, portanto) é que desenharam os mapas conhecidos por nós, logo com o Sul embaixo e o Norte na cabeça, não querendo dizer que nos inúmeros movimentos que o travesso globo terrestre faz, não apenas Rotação e Translação, e em sua marcha de acompanhamento de todo o sistema solar, não possamos estar “de cabeça para baixo”, sempre levando em conta a opinião eurocêntrica.
Mas o fato objetivo numa sociedade onde uma vez ao ano, significativamente, entregam-se “as chaves da cidade” ao Rei Momo, quer dizer “o poder executivo” toma uma folga e durante os quatro dias, em algumas regiões do país uma semana ou mais, como na Bahia, apenas padres, alguns pesquisadores, talvez um poeta, continuam suas tarefas habituais. Os demais, nem que seja apenas trocando o asfalto das cidades pela areia das praias ou pelo ar puro da Serra, interrompem sua rotina.
No fundo faz bem, além de que, mudando de local é indiscutível que um consumidor ajuda a irrigar a economia local. Sempre há compras a fazer, leite, carne e pão a comprar, algum peixe ou, quem sabe, a extravagância de um filé com fritas...
No caso típico deste ano de 2003, no dia 10, uma segunda-feira, todos estarão de volta aos seus postos de trabalho. E então, retoma-se a normalidade, os prazos se cumprem oficialmente e aos poucos a atividade volta ao normal.
Outros aproveitarão o período que muito antigamente era chamado “tríduo momesco”, isso quando se limitava a apenas três dias, para pôr em dia seu pensamento, sua casa, seus livros, seus discos, sua vida. Também vale a pena.
O fato é que todos estaremos de volta ao mundo na segunda-feira da outra semana.
Pena que o Carnaval brasileiro se produz apenas aqui. Se ele alcançasse todos os países, tanto os que não nos admiram nem um pouco, como aqueles que se deliciam com o nosso sistema de vida, não teríamos guerra. Pelo menos enquanto “as chaves da cidade” estivessem com o Rei Momo.
Mas esse não é o caso do mundo.
Esquecidos de que já foram pobres e fanáticos, os ricos e poderosos só enxergam o cifrão à sua frente e naturalmente recursos naturais em mãos alheias lhes causam calafrios. Por enquanto é o petróleo do Iraque, amanhã será o da Arábia Saudita, depois será a Amazônia, nossos grandes rios, os lagos do Rio Grande do Sul, amanhã ou depois os diamantes de Angola ou o petróleo supostamente existente nos mares do Timor.
E então aí, nem o Rei Momo nos salvará. Até o dia em que surjam outros dominadores ou conquistadores, talvez de pele amarela e olhos amendoados...
* Esta crônica foi publicada na edição de hoje do ‘ABC DOMINGO’, jornal do Grupo Editorial Sinos, que circula na região metropolitana de Porto Alegre, com epicentro de sua circulação em Novo Hamburgo, Sapucaia, Esteio, Canoas e São Leopoldo
Se estiver em cartaz em sua cidade não deixe de ver o filme mexicano "O Crime do Padre Amaro" baseado no romance de Eça de Queiroz. E não deixe de ler ou reler o livro, se puder. Aproveite o Carnaval... postado por Walter Galvani em 01/03/03
O CRIME DO PADRE AMARO
Walter Galvani
Já reli 70 páginas das 277 do meu Eça de Queiroz, “O Crime do Padre Amaro”, transformado em filme pelo mexicano Carlos Carrera, e que, aliás, concorre ao “Oscar” de melhor filme em língua estrangeira (ou seja, não em inglês... (Aproveitamos a folga do sábado à tarde e fomos vê-lo, eu e minha mulher, dois “Queirozistas” convictos, embora sem a dimensão do Luís Antônio de Assis Brasil que é, confessadamente, o maior cultor do grande escritor português, aqui no Rio Grande do Sul, como costumo informar para os visitantes estrangeiros desta página, a “província mais meridional do Brasil”). Curiosamente, por coincidência pura, pois não refere o filme, a “Zero Hora” deste sábado utilizou Eça de Queiroz como o mote de uma reportagem de seu Caderno de Cultura. À esta altura já li a matéria do jornal porto-alegrense e já vi o filme. Mas não consegui ainda terminar o livro. Simplesmente parei minha releitura porque já iam as tantas da madrugada e agora, estou ansioso por retomá-la, assim que o calor terrível enfraqueça. Não podemos nos queixar dele, do calor, claro. É que é verão e, portanto, normal. Se anda mais acima do que devia, a temperatura, é culpa nossa e dos nossos antepassados que não fizeram mais do que depredar e derrubar árvores, inclusive lançando mão de queimadas para “preparar” a terra... Como não podemos fugir para “a praia da Vieira” , como fizeram os seus personagens, aqui ficamos e aproveitando as vantagens da civilização, se é que isto que temos se pode chamar assim, ligamos aparelhos de ar condicionado e ventiladores, ou bem melhor, buscamos a sombra das árvores que ficaram no pátio, felizmente respeitadas, por enquanto, para a delícia de leitura.
Bem, o sábado passou, já houve chuvarada e tempestade de verão aqui no Sul. É hora pois de retomar o livro, coisa que farei esta noite e que na certa será bem mais divertido do que assistir asneiras na TV.
E lá vamos nós com o Eça em punho. Vejam, em setenta páginas só encontrei acertos do realizador mexicano. Vamos ver se o que mudou atinge profundamente a história que eu nem lembrava mais, lida que fora há quarenta e tantos anos, nos tempos em que ainda freqüentava o La Salle em Canoas e fazia dos meus sábados uma feliz sessão do Grêmio Literário.
O filme nos coloca dentro da história, devidamente atualizada. Carlos Carreras ambientou-o no México de hoje e tratou dos “narcos”, como há em seu país, como os há no Brasil, na Colômbia e na certa também em Portugal.
Assalto a ônibus. Também não é exclusividade brasileira e é com um incidente destes que ele começa o filme. Mas, valeu a pena. Com a introdução conseguida, ele nos joga para dentro da história e logo vai mostrando a que veio.
Incrível. Mais incrível ainda é ver que é possível sim, fazer cinema sem lançar mão de recursos especiais… Para quê servem, hein? Para impressionar os incautos ou ensinar como se derrubam torres gêmeas? Tenho cá minhas dúvidas, acho que qualquer dia nos mostram como se faz uma bomba atômica e aí acabam de vez com a tal civilização cristã e ocidental. Que aliás, já vem muito mal parada e levou várias bombas disparadas por Eça de Queiroz em 1874, data da publicação de “O Crime do Padre Amaro”, contra a impávida Igreja Católica, a mesma que não toma providências contra os padres pedófilos americanos e muito menos nos diz aonde anda o Padre Frederico, um brasileiro que se envolveu com meninos na ilha da Madeira, onde se deu uma morte pela qual foi julgado e condenado e que fugiu para o Brasil, tomando um táxi que o levou de Portugal a um aeroporto em Madrid. Ah, e consta ainda que conseguiu na embaixada brasileira uma duplicata do seu passaporte.
A Igreja continua a mesma. Não mudou nada desde o tempo de Eça. E eu recomendo muito o filme mexicano – tomara que ele vença o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.
Enquanto isso, se me permitem, volto à releitura de Eça. Espero dar conta do volume neste fim-de-semana carnavalesco. Informarei os atentos leitores e visitantes desta página em tempo hábil.
Rio de Janeiro, nós te amaremos sempre! Cidade Maravilhosa, cheia de encantos mil! Mas, com a proteção do Exército, ou nem isso adiantará? Qual será o nosso futuro? postado por Walter Galvani em 28/02/03
COMEÇOU O CARNAVAL NO RIO
Walter Galvani
Se querem saber a minha opinião, se o Exército não tomar conta do policiamento das ruas da antiga “Cidade Maravilhosa”, onde aliás vivi anos fantásticos e inesquecíveis na década de cinqüenta, onde minhas filhas curtiram férias maravilhosas nos anos sessenta e setenta, e onde basta olhar para os lados, para o céu e para o mar, para estar de bem consigo mesmo, pois se o Exército não descer as ruas, nada se resolverá.
O Carnaval começou ontem à noite, quando roubaram um carro às 23h30min e o motorista tentou reavê-lo e acionou a Polícia.
Mortos, feridos, uma cena de terror digna dos piores filmes americanos, meia dúzia de carros com as quatro portas abertas e atirando para trás, para inviabilizar o tráfego, gente correndo desesperada, quer dizer, tudo como o diabo gosta.
Imaginem só os turistas que estão chegando para o Carnaval no Rio! É claro que eles nem sequer imaginam o que os espera. Ou então imaginam, mas tem o gosto pelo estresse, por viver o perigo...
De minha parte, cancelaria minha ida. Infelizmente.
Acho que o Exército tomando o controle das ruas e agindo articuladamente e permanentemente poderá recolocar o Rio de Janeiro na condição de cidade viável. Mas, só uma perguntinha: se isso for feito com relação ao Rio, será que os bandidos não irão se espalhar por toda a chamada Baixada Fluminense? E se o combate a eles for estendido então à Baixada, serão que eles não migrarão para São Paulo, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, Belo Horizonte, Vitória, Salvador, Brasília e outras menos votadas?
Alguma coisa deve ser feita. É preciso. Que a Polícia do Rio não tem condições de controlar os criminosos, isso é sabido. Arreglar-se com o Fernandinho Beira Mar, o tal de Elias Maluco e outros fascínoras ?
Difícil de engolir, não é mesmo?
Mas, vejam só onde chegamos e a que chegamos.
Esta é a vida no Brasil no ano da graça de 2003...
O Conselho de Segurança das Nações Unidas examina hoje a questão do Iraque postado por Walter Galvani em 27/02/03
POLÍTICA REALISTA
Walter Galvani
Nos tempos do totalitarismo era assim que se chamava a política de estabelecer o poder do mais forte. “Realpolitik” e pronto. Quem duvidasse do poderio do autor do ultimato que ousasse desafia-lo e foi assim que se construiu a divisão do mundo no século XX, herdado do aventureirismo e do neo-colonialismo do século anterior. O mesmo período em que os europeus ousaram “redistribuir” a África... Vejam no que deu! Ah, sim, a Ásia já havia sido convenientemente recortada.
Mas, os tempos mudam e hoje não existem mais pequenas ou grandes potências, uma vez que o próprio instrumento da imposição da vontade dos vencedores, a ONU, evoluiu e se transformou num foro internacional para a presença e a discussão dos temas fundamentais e do respeito à independência e auto-determinação dos povos.
Ao ruir a antiga URSS, os Estados Unidos se transformaram na única super-potência do globo, mas embora eles tenham acabado predominando no século passado não quer dizer que continuem no atual.
Já pensaram na China? Comunista ou pragmática, socialista ou neo-capitalista, ainda não se sabe bem, a China será, irremediavelmente, uma das maiores e mais poderosas (já o é) do XXI e nem os Estados Unidos podem esquecer-se disso ou, quem sabe?, desrespeitar uma posição imposta por ela.
Resta saber até que ponto a China está disposta a jogar pela independência do Iraque e, porque não? – pelo seu petróleo.
Saddam Hussein não tem o charme de Fidel Castro e ninguém vai arriscar um fio de cabelo em sua defesa pessoal. Muitos votarão pelo seu exílio, mesmo que ele não queira, já que, para manter o essencial, muda-se o transitório, como já ensinou Giuseppe Tomaso de Lampedusa.
Hoje a ONU se reúne. O Conselho de Segurança vai demonstrar até que ponto, efetivamente, representa a opinião pública mundial. Mas, há gente que não tem vergonha na cara, recorde-se o voto dos deputados conservadores britânicos que preferem “dormir com o inimigo”, coabitar com o rival a posicionar-se ao lado do povo inglês que concentrou um milhão nas ruas de Londres para dizer que “Guerra não”, “Not in my name”...
No Observatório da Imprensa, dirigido por Alberto Dines, desta semana, saiu esta matéria sobre o livro que circula em 2a. edição atualizada, Editora Sulina postado por Walter Galvani em 25/02/03
FOLHA DA TARDE, RS
A sombra de um jornal
Walter Galvani (*)
Texto da orelha de Olha a Folha – amor, traição e morte de um jornal, de Walter Galvani, 206 pp., Editora Sulina, Porto Alegre, 2002; , e-mail
Fui o último diretor da Folha da Tarde, de Porto Alegre. Coube-me, portanto, a inglória tarefa de fechar a porta e apagar as luzes. Assim escrevia, ainda com a mágoa no peito e a frustração do acontecimento, "uma enorme amargura de que não me livrei ainda" - quando da primeira edição deste livro, em 1996. Hoje, passados quase vinte anos do fechamento, vê-se que o título continua vivo e disputado, o que motivou ações objetivas e procedentes de proprietários e dos concorrentes.
Depois do resgate feito, posso encarar em paz recortes e coleções de jornais e acompanhar com orgulho todos os que passaram por aquela valiosa escola que lançou tantos profissionais no jornalismo local e nacional.
Posso confirmar o que defendo desde os velhos tempos de sua circulação: tal era sua força que marcou toda a imprensa que até então se fazia no Rio Grande do sul e que se continuou a fazer. O formato, por exemplo, o tablóide, tornou-se norma aqui, já alcançou Santa Catarina e é padrão praticamente universal no mercado gaúcho. Seu estilo de jornalismo com notas curtas, pequenos tópicos e grandes reportagens, característicos dos vespertinos do seu tempo, também predominam.
O que não se faz mais é jornal vespertino, isso não, premidos por circunstâncias que analisamos neste livro, que vão do trânsito ao estresse, passando pelo desenvolvimento do jornalismo eletrônico.
No mais, os seus antigos redatores continuam se reunindo no mínimo duas vezes por ano, relembrando a força daquele jornal e a unidade de propósitos daquelas redações que se sucederam. Mas continuamos achando que perdemos para nós mesmos e que as mudanças equivocadas e a crise financeira que a antiga empresa viveu é que trouxeram a nossa derrota. E que faltou um pouco de reação da cidade, que assistiu atônita e paralisada, o desfecho que abateu o império Breno Caldas.
Foi um caso de amor, traição e morte e a lógica não funciona em acontecimentos deste tipo. Porto Alegre perdeu e a falta que faz a Folha da Tarde é tão grande que é suficiente olhar para ver que, aqueles que não a imitam ou trazem até seu nome à baila, procuram apresentar produtos que assinalam o velho estilo vitorioso que começa no tamanho e vai até o tratamento das matérias.
Ainda haveria lugar para a Folha da Tarde nos dias de hoje? Os desafios são a característica da atividade jornalística. Quando um repórter sai da redação, indo para a rua em busca da informação, inicia uma corrida de obstáculos que precisa vencer, um a um, para concretizar seu trabalho. Quando um redator reúne imenso material e precisa reduzi-lo a uma coluna de 10 centímetros, é o espírito da velha Folha que sobrevoa e ainda pulsa nas ruas da capital dos gaúchos.
(*) Jornalista e escritor. Trabalhou na Folha da Tarde, Folha da Manhã e Correio do Povo (onde atualmente é colaborador); escreve nos jornais ABC Domingo e Diário de Canoas, e na Rádio Guaíba apresenta um programa cultural diário; autor de Brasil por linhas tortas, Um século de poder – os bastidores da Caldas Júnior e Nau Capitânia – Pedro Álvares Cabral, como e com quem começamos – este com o prêmio Casa de Las Américas.
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Leiam o que informa hoje a página brasileira da BBC de Londres e reflitam sobre a nojeira em que se transformou a vida pública e privada no mundo de hoje... postado por Walter Galvani em 25/02/03
Vítima de Polanski pede neutralidade ao júri do Oscar
Polanski fugiu dos Estados Unidos 25 anos atrás
Uma mulher com quem o cineasta polonês Roman Polanski teve relações sexuais ilícitas mais de 25 anos atrás pediu que o filme do diretor seja avaliado com neutralidade na entrega do Oscar este ano.
Polanski admitiu ter tido relações sexuais com Samantha Geimer, que na época tinha 13 anos de idade. O ato ocorreu na casa do ator Jack Nicholson, em 1977.
O diretor fugiu dos Estados Unidos, mas pode serpreso se voltar ao país.
Seu filme mais recente, O Pianista, ganhou dois Bafta - o prêmio máximo para televisão e cinema da Grã-Bretanha - e concorre a sete Oscars, mas teme-se que o passado do diretor afete suas chances na premiação.
Sem mágoas
Geimer escreveu para o jornal Los Angeles Times pedindo que os méritos do diretor, e não seus erros passados, sejam julgados.
Ela disse que o escândalo tinha voltado à tona desde o início da corrida pelo Oscar, mas acrescentou que hoje era uma mulher casada e mãe de três filhos.
"Não houve consentimento da minha parte. Eu disse não, mas ele não me ouviu. Estava sozinha e não sabia o que fazer", disse Geimer.
No entanto, ela explicou que hoje não guarda mágoas e que o Oscar não é um concurso de popularidade.
"O que ele (Polanski) faz para viver e quão bom ele é na sua profissão não tem nada a ver comigo ou com o que ele fez comigo", concluiu.
Roman Polanski tentou negociar uma sentença com a promotoria para uma redução de sua pena em 1977. O juiz, entretanto, rejeitou a apelação no último momento, e o diretor corria o risco de ter de passar 50 anos na cadeia.
Além de evitar viajar para os Estados Unidos, o cineasta vem evitando visitar a Grã-Bretanha, temendo extradição.
O diretor não compareceu à cerimônia de entrega do Bafta, em Londres.
O filme O Pianista fala sobre a vida no gueto de Varsóvia durante a Segunda Guerra Mundial.
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Com a volta, prevista, das chuvas, a preocupação retorna. Mas, depois com o sol e o Carnaval, as autoridades brasileiras esquecerão mais uma vez... postado por Walter Galvani em 23/02/03
SÃO PEDRO E A IMPREVISÃO
Walter Galvani *
Não por acaso, quando os portugueses tomaram posse desta capitania bem ao sul do Brasil, deram-lhe o nome de São Pedro do Rio Grande, mais tarde “traduzido” para o que conhecemos hoje como “Rio Grande do Sul”. O topônimo, como dizem os geógrafos, homenageava o “mar de dentro” que eles haviam descoberto, a lagoa ou laguna (dependendo dos ventos e das marés) dos Patos, e esta por seu turno desaguando o “lago” ou estuário, mas certamente “o rio que não é rio” Guaíba e este, recebendo todas as águas que rolam para a bacia do rio Jacuí. A denominação de São Pedro lembrava o apóstolo que, além das chaves da portaria do céu – na visão católica mais simplista e ingênua – também é o responsável pelas formações de nuvens, pelo tempo, pelas chuvas.
De lá para cá, sucessivamente, as autoridades municipais e estaduais da província simplesmente minimizaram tais efeitos e influências. Quando se fala hoje em bairros de Novo Hamburgo ameaçados de erosão pela força das águas, de inundações em vilas de Canoas, em quatro estradas interrompidas quando ainda nem sequer começou o inverno, não se pode simplesmente responsabilizar os que estão hoje no poder. Na verdade, todos, de 1733 para cá são responsáveis, cada um à sua conta e medida.
Mas, o pior vem pela frente. Hoje a população cresceu tanto, somos mais de 10 milhões, e urbanizou-se de tal forma que qualquer deslizamento se transformará em tragédia, igual em causas e efeitos àquelas que ocorrem no resto do país, pois igualmente no passado não se pensou no futuro, como no presente também nada se faz.
Pagarão a conta os pobres. Morro com mansões de ricos tem um eficiente trabalho de sustentação das encostas. Dificilmente teremos um problema em tais locais. Mas, nas precárias casas dos desvalidos da sorte, dos chamados “excluídos”, não há nenhum tipo de proteção e qualquer chuvarada mais forte levará essa gente à perda dos poucos bens e à morte.
Quando uma família dorme, não sabe se amanhecerá com vida e só a ignorância da tragédia que lhes ronda permite o descanso.
Não que a falta de informação, nesse caso, seja benvinda, mas é o que é. Poderiam talvez, os que se salvarem, acionar os poderes públicos que colocaram serviços de iluminação e fornecimento de água e energia elétrica e lhes cobram também na maioria dos casos, IPTU. Mas, triste consolo. Lutarão na Justiça talvez para nunca mais conseguirem se ressarcir, além de que terão perdido, em muitos casos, vida de seus familiares. O que não se repõe. De nada servirá o socorro financeiro tardio.
Mas, o que cabe aos governos? Tratar de impedir que se localizem em áreas de risco, consertando o que já foi feito de errado ou deixar de fornecer alguns serviços fundamentais. Sem água, luz, televisão e em certos casos telefone, os “deserdados” buscarão outros locais menos perigosos e cabe ao poder público zelar para que isto se produza de forma adequada.
Tem mais: um bom programa de controle da natalidade poderia ajudar a assentar as bases para um desenvolvimento mais harmônico, coerente com a ecologia e o respeito ao meio ambiente a que temos obrigação, como habitantes desta província de São Pedro do Rio Grande. Seria pelo menos um número menor a ser socorrido.
* Este artigo foi inicialmente publicado no excelente semanário ABC DOMINGO, que circula na Região Metropolitana de Porto Alegre, com venda avulsa e entrega a todos os assinantes do NH, DC e VS, jornais diários de Novo Hamburgo, Canoas e São Leopoldo
As declarações atribuídas ao presidente Lula nos fazem desconfiar mais uma vez, que Stefan Zweig estava redondamente enganado... postado por walter em 22/02/03
STEFAN ZWEIG E O
PAÍS DO FUTURO
Walter Galvani
Foi num dia 22 de fevereiro que, em meio às brumas serranas de Petrópolis, estado do Rio, embora ainda fosse oficialmente verão, que o escritor austríaco Stefan Zweig matou-se, deixando no ar a dúvida: “Brasil, país do futuro”?
O livro que ele escrevera com este título e a sua opção por viver em terras brasileiras deixavam assim, naquele longínquo 1942, quando a guerra mundial ainda fazia rugir os canhões na velha Europa e ainda não sinalizava para uma derrota total dos nazistas, quando os judeus ainda eram perseguidos pelo mundo tudo e, também alvo de ameaças e preconceitos aqui no Brasil, Zweig achou que já vivera o suficiente e deixou a vida.
Só não teve tempo foi de esclarecer porque havia considerado o nosso, como “o país do futuro”... Desde então estamos correndo atrás da máquina. Ontem mesmo houve uma reunião do presidente Lula com os governadores e ele, num lance de imaturidade, deixou dito que vai fazer a reforma das aposentadorias mesmo contra a opinião dos servidores. “Se for preciso nós jogaremos a sociedade contra eles!” Ora, Senhor Lula, não era preciso. A sociedade já sabe, já viu e por certo apóia a posição dos servidores, afinal de contas eles fazem parte dela... E esta ameaça só vai pegar mal. Em tempo: já tenho minha aposentadoria e não como servidor público, embora tenha prestado serviços ao estado em três oportunidades.
Depois deste lance de patética infantilidade do presidente Lula, não sei o que vai ser deste e de outros projetos do governo. Eu ia escrever “novo governo”, mas já é “velho” de 53 dias...
Sobre a profecia de Stefan Zweig já se passaram também tantos anos, só de sua morte são 61, que se fica em dúvida também, quando ela vai se realizar. Se é que algum dia isso vai acontecer.
Com todas estas asneiras que os brasileiros cometem, fica difícil imaginar que o sonho da utopia, que trouxe os portugueses até aqui, num momento raro de sua história, que fez com que a Europa do Renascimento se aproximasse da terra de Santa Cruz, ou do pau Brasil, há mais de quinhentos anos, um dia se concretize.
De vez em quando se ouve dizer que a “culpa é dos portugueses”, pois não saem as reformas, e se esquece que o Brasil é independente desde 1822. Portanto, as burradas são nossas há pelo menos 171 anos.
Já estamos bem crescidinhos, não é mesmo?
Vamos comemorar o Trem, no ano que vem! postado por walter em 21/02/03
TREM, 199 ANOS
Walter Galvani
Tomem nota desta data que pode render muito no próximo ano, pois, é sabido que só se assinalam mesmo, as contas redondas, cheias. Assim é que, de nada serve comemorar hoje os 199 anos da primeira demonstração com o trem. No ano que vem sim, segundo centenário. Em 1804, o engenheiro britânico Richard Treevethick fez a primeira demonstração com uma máquina a vapor sobre carris. Quer dizer: o futuro trem.
Mas, quero aproveitar a deixa para dizer que, lamentavelmente, aqui no Brasil nem sequer se chegou ao segundo centenário e já, injustamente, se deixou de lado aquele magnífico sistema de transporte coletivo e de cargas, insuperável para grande número de pessoas e grandes quantidades de mercadorias.
Sou do tempo em que, menino, sentado à porta do dentista que não queria freqüentar ou num banco da Praça da Bandeira, em minha então “pequena aldeia” – hoje enorme cidade da região metropolitana de Porto Alegre – falo sobre Canoas, então 12.000 hoje 300 mil habitantes – ficávamos, eu e meu irmão mais velho a contar entusiasmados o número de vagões que integravam uma composição que, imaginávamos, vinha de São Paulo ou de Santa Maria.
Não seria muitos, para nós uma imensidão. Contávamos 39, 40 vagões, que passavam no centro da pequena cidade, fazendo “trac,tratac”, carregando gado, trigo, arroz, milho, sei lá o quê e, em certos momentos, embevecidos enxergávamos tanques de guerra e carros de combate que iam para as manobras nos campos de Saicã ou retornavam de alguma guerra improvável.
No fim da tarde, o trenzinho chegava da capital, trazendo centenas de trabalhadores e estudantes. Nos fins de semana, veranistas.
Bons saudosos tempos, que passaram! Hoje, nem veranistas, nem cargas, nem bois, nem canhões. Verdade que há o trem metropolitano, o Trensurb transportando estudantes e trabalhadores, mas o velho e miraculoso trem de carga ou de passageiros, que resfolegava noites e noites e cruzava nosso imaginário, o pampa e a nossa alma, este está morto e enterrado. No dia do segundo centenário, ano que vem, espero estar aqui assinalando o seu renascimento.
Isso se houver alguma grama de compreensão e inteligência no cérebro dos administradores. E dinheiro nas arcas do estado.
Você já ouviu falar em "economia de guerra"? É o que nos espera... postado por Walter Galvani em 20/02/03
INFLAÇÃO
Walter Galvani
O tempo passa e vamos retomando aos poucos aquele que foi o flagelo dos anos setenta e que muitos brasileiros sequer imaginam. Tomam-se medidas, mas não se consegue conter, porque, na verdade, por trás do que se pode ver do problema, há todo um quadro que tem suas raízes no egoísmo da população, na ânsia de consumir e na voracidade de alguns pequenos, médios e grandes empresários.
Além disso, ainda há a conjuntura mundial.
Vamos pensar pois, em cada caso individual, em criar uma economia de guerra, pois a guerra já chegou... Vamos gastar só o que podemos, esta é a lição número 1 e, se for o caso, para sustentar o padrão de vida, abrir mão de certos luxos.
Só procurem na errar na seleção das prioridades... Por exemplo: o que há para cortar é, por exemplo, o gasto excessivo em alimentos que depois são jogados fora por falta de uso. Na Europa ninguém compra além do que pode consumir. Se você vai comer seis bananas numa semana, compre seis bananas.
Se você vai consumir 12 laranjas, compre doze laranjas. Se vai consumir a metade disso, compre seis.
Nada de acumular coisas que não lhe servirão no futuro, imediato ou distante.
E não saia de casa para consumir em bobagens. Gaste o necessário, compre o indispensável.
Quanto aos empregos, procure propiciar um emprego, nem que seja em serviços domésticos. O pouco que você botar no mercado, ajudará a toda a sociedade.
Difícil? Em guerra é assim mesmo
Encontrando Manoelito seria o melhor título para meus comentários feitos no dia do seu centenário. Mas, quem pode responder se de fato o encontrei, são os leitores postado por Walter Galvani em 19/02/03
Eis a íntegra do pronunciamento que fiz dia 17 de fevereiro de 2003, centenário de nascimento do escritor Manoelito de Ornellas, no maravilhoso Salão Mourisco da Bilioteca Pública Estadual
Porque ler Manoelito e ou
a síndrome do esquecimento
Walter Galvani
“O desconhecido podia bem ser um grande de Espanha ou um príncipe do Renascimento italiano que viajasse incógnito no tempo e no espaço. Pensei cá comigo: Só pode ser o Manoelito de Ornelas. E era!” – Erico Veríssimo ao conhece-lo, num tarde de inverno de 1927 (ou seria 28?) em Cruz Alta.
“Era também um orador fluente, de entusiasmo fácil e cálida eloqüência, mas de gestos elegantemente discretos.” – Erico Veríssimo.
“Em 1929 arrebatou do fundo de uma de minhas gavetas, um conto que eu escrevera clandestinamente – “Ladrão de Gado” – e mandou-o com elogios e recomendações a Mansueto Bernardi, que o publicou na sua “Revista do Globo”. Posso assim dizer que entrei no “potreiro” da literatura pela mão de Manoelito de Ornelas.” – Erico Veríssimo.
“Recordo-me de que ao tempo em que o Gen.Cordeiro de Farias era interventor federal em nosso estado, como se achasse vago o cargo de diretor da Biblioteca Pública, vários escritores gaúchos enviaram àquela autoridade um memorial em que lhe pediam que nomeasse Manoelito de Ornellas para aquele posto tão de acordo com suas inclinações, afeições e conhecimentos.O general interventor chamou o meu amigo ao Palácio do Governo e, depois de breve intróito, disse-lhe: “Você vai dirigir a Biblioteca Pública Estadual, mas saiba que não foi apenas nomeado para esse cargo, mas também eleito pelos seus pares!” – Erico Veríssimo.
“... O escritor traça o discutido paralelo entre beduínos e gaúchos, valendo-se de lendas e superstições, semelhança de hábitos, indumentária, tradições e costumes. “ – Erico Veríssimo.
“Argumento que justifica esta reedição: ela constitui uma homenagem póstuma a um homem inteligente e bom que amava sua terra com uma paixão que às vezes me parecia não só espiritual como também carnal.” – Erico Verissimo.
Estas observações de Erico Verissimo, datam de fevereiro de 1972 e foram incluídas nas edições posteriores de “Gaúchos e Beduínos (A origem étnica e a formação social do Rio Grande do Sul)”, agora em 4A. edição, 1999, Martins Livreiro. A primeira é de 1948, pela Livraria José Olympio Editora, do Rio de Janeiro.
Posso dizer, na prática, que conheci Manoelito de Ornellas aqui nesta casa e na redação do Correio do Povo, onde cheguei em 1955 e o encontrei entre os monumentos vivos que habitavam e freqüentavam a sala do jornal de Breno Caldas. Lá estava ele constantemente levando a sua colaboração que era editada nas páginas literárias e logo no “Caderno de Sábado”, conversando com o Carlos Reverbel, o Mário Quintana, o Paulo de Gouvêa, o P.F.Gastal ou o Oswaldo Goidanich e enchendo de admiração os jovens companheiros que sabiam estar ali presente o homem que tivera a audácia de enfrentar a historiografia oficial e a tese de que o Rio Grande era uma indiscutida “capitania del Rei de Portugal”.
Além do mais, enchia os olhos pela sua figura de príncipe ou espadachim, como bem o retrataria mais adiante Erico Veríssimo.
E aqui, nesta sala encantada, onde até o nome se enche de eflúvios e manifestações mágicas, lembrando a ligação histórica, recordando que a “fusão do sangue real” aqui ou na península ibérica, “não era mais do que um reflexo da fusão do sangue do próprio povo, que, não obstante a guerra permanente, vinculava-se aquém e além das fronteiras imprecisas”, ainda ouço a sua voz, no recinto onde ele era o diretor, e como acentuou Erico, com a legitimidade de diretor eleito e não apenas nomeado.
Foi assim que o conheci e foi assim que o reencontrei neste fim-de-semana quando me dediquei a reler com assombro e alguma devoção, o seu generoso e apaixonado “Gaúchos e Beduínos”.
Por todas essas razões e para assinalar a data do seu nascimento a 17 de fevereiro de 1903, para marcar o seu centenário, aqui estamos reunidos com a presença do poeta e escritor Dilan Camargo, Subsecretário da Cultura do Estado do Rio Grande do Sul, do escritor e jornalista Landro Oviedo e da filha do ilustre homenageado, Lilia Pinto de Ornellas.
Vamos lembrar porque ler Manoelito, como enfrentar a síndrome do esquecimento, recordar que o termo gaúcho começou a ser veiculado em 6 de agosto de 1763, entre outras lições, o que é ser matreiro, de onde vem o termo ginete, enfim, abrir uma cortina onde, mais uma vez, cai nosso passado e encobre o conhecimento do presente e do futuro.
E também, como logo vai nos mostrar o poeta José Machado Leal, Manoelito foi muito além desta discussão e com seus “Símbolos Bárbaros” ajudou a projetar o Rio Grande, abrindo os “caminhos do Brasil”.
Na hora de finalizar, gostaria de transcrever o paralelo final que faz Manoelito em seu livro “Gaúchos e Beduínos”:
“Do paralelo procurado, entre o homem do deserto da Arábia e o homem do verde deserto do pampa, ficam os fatos e as circunstâncias que a história e a sociologia não desamparam: a chegada, e a permanência por séculos, dos árabes berberes em terras da Espanha e Portugal, a partida dos andaluzes, do sul, e dos maragatos das montanhas setentrionais da Espanha e dos portugueses do Sul e das Ilhas Atlânticas pra as terras selvagens da América; o domínio espanhol nos plainos comuns da nossa fronteira, por quase dois séculos, e a tradição de hábitos e costumes que foram familiares a ambas as nações – aos espanhóis e portugueses. Poder-se-iam generalizar, quanto ao gaúcho, as conclusões a que chegou, na Argentina, Jose Ortega y Gasset: “vive entregue, hoje, não a uma realidade, senão a uma imagem. E uma imagem não se pode viver senão contemplando- a . O gaúcho está se revendo sempre, refletido na própria imaginação. É sobremaneira um Narciso. O Narciso é fonte de Narciso. Leva-o todo consigo: a realidade, a imagem e o espelho.” O beduíno, quando pousa à beira acolhedora de seu oásis, à sombra recortada de suas palmeiras e de seus tamarindos, fica, por longo tempo, a olhar a sua própria figura majestosa no espelho das águas, coberto por seu Albornoz, que paneja ao vento como as asas brancas de um imenso pernalta do deserto... Necessita, no culto apaixonado de sua própria superioridade e valentia, contemplar-se cara a cara, no diálogo íntimo de seu amor-próprio exagerado. Com o mesmo orgulho e a mesma altanaria com que o gaúcho “se mira” na lâmina de seus arroios murmurantes e no aço espelhado e cortante de sua adaga...”
Estou assombrado e, ao mesmo tempo, encantado: meu amigo Wanderley Soares, cujo talento jornalístico acompanho desde os anos sessenta, foi encarregado pela editora Ediouro, de revisar o clássico "Guerra e Paz" de Tolstoi em sua tradução para o português. Em breve nas bancas e livrarias. postado por Walter Galvani em 19/02/03
Nossa angústia continua: hoje haverá uma reunião da OTAN e nossos olhos continuam postos em Bagdá. Enquanto isso, mudam os tempos, muda até a t emperatura postado por Walter Galvani em 17/02/03
Teremos hoje temperaturas mais baixas, na próxima madrugada novamente e na sexta-feira a chegada de mais uma frente fria ao estado mais meridional do Brasil. Não deixa de ser um alerta, lembrando que em Bariloche fez 2 graus e em Buenos Aires, 9.
No dia do centenário de Manoelito de Ornellas, que nunca deixou de lembrar as nossas ligações com o Prata e a identidade entre o homem gaúcho do Rio Grande e o gaucho do Prata, não é demais lembrar que o mundo está mudando e não é só pela globalização...
Os movimentos da Terra, além da rotação e da translação, que são os mais conhecidos, fora o seu caminho no rumo da Estrela Veja, ou de todo o Sistema Solar, atravessamos regiões do Universo e evidentemente as questões básicas de pressão e temperatura podem se ir alterando.
Recorde-se ainda, não totalmente desprezível, a idéia de que as calotas polares diminuem e que isso altera o regime e o ritmo das estações.
Mas, as andorinhas que passaram em vôo de formação rumo norte, ontem à tarde pela região metropolitana de Porto Alegre anunciam o fim do verão ou, o que é mais difícil, um equívoco da espécie...
Elas buscam o calor e o calor aqui, vai acabar se já não acabou nesta estação. Está chegando o outono. Em breve puxaremos um cobertorzinho para dormir e vai cair, felizmente, o consumo da eletricidade por causa do ar condicionado.
É o mundo mudou. E não foram só os países e os políticos.
Imaginem só: nas medidas de economia do governo Lula está o fato dos telefones oficiais rejeitarem a partir de agora ligações feitas de aparelhos celulares. Como se sabe, quem recebe ligações de tais sistemas paga uma parte dos custos. Pois, economizam Lula e seu governo e quem só tem celular, se rala. Para reclamar, pedir, reivindicar ou apresentar algum pleito, tem que dar um jeito.
Daqui a pouco, nem o 190 vai aceitar pedido de socorro partindo de celular. Sai caro....
Nesta segunda-feira, às 18h30min, no Salão Mourisco da Biblioteca Pública Estadual, um ato solene pelo centenário de nascimento do escritor MANOELITO DE ORNELAS postado por Walter Galvani em 16/02/03
GAÚCHOS E BEDUÍNOS
Walter Galvani *
Manoelito de Ornelas completaria cem anos amanhã. Para assinalar o seu centenário, a Secretaria da Cultura do RGS reúne alguns admiradores, descendentes e especialistas para uma sessão de debates, no belíssimo Salão Mourisco da Biblioteca Pública do Estado. O local, a data e o motivo se conjugam: o Salão Mourisco recorda, afinal de contas, pela sua inspiradora decoração, a origem de tantos conterrâneos nossos que, independente da alteração das fronteiras políticas, ao sabor dos acordos selados em Madri ou Santo Ildefonso, Lisboa ou Tordesilhas, estiveram ora do lado de lá, ora do lado de cá e sempre praticando o “portunhol”, ou seja o saboroso fruto das trocas culturais que se sobrepuseram aos interesses territoriais, bélicos ou comerciais das potências da Península Ibérica e seus vice-reinados ou colônias sul-americanas. Da Biblioteca Pública ele foi diretor.Seu livro principal, “Gaúchos e Beduínos – a origem étnica e a formação social do Rio Grande do Sul”, primeiramente editado pela Livraria José Olympio Editora em 1948, em quarta edição agora pela Martins Livreiro, 1999, é obra básica para o conhecimento e o entendimento do nosso estado, daquilo que resultou da antiga Província de Rio Grande do São Pedro, e para entender quem é, afinal de contas, o gaúcho.
É uma questão em aberto. A historiografia oficial do Rio Grande do Sul sempre traçou um esforço – conforme Ieda Gutfreind – “no paradigma da nacionalidade.” Diz ela: “Este esforço dos construtores da história gaúcha já se manifesta no final do século passado (XIX) e, com maior empenho, nas primeiras décadas deste século (XX), assumindo como matriz historiográfica, o axioma: “O Rio Grande sempre foi, desde o berço, um pedaço do Brasil, o Brasil que cresceu de si mesmo” como afirmava Moysés Vellinho em “Capitania Del Rei”.
Estamos mexendo num vespeiro. Embora amainada, ainda não cessou a discussão sobre a vocação da província e as verdadeiras origens do gaúcho, ou pelo menos parte dos seus habitantes, na certa oriundos da mistura de guaranis e tapes, guaicurus e charruas, dispersados pot esta parte meridional do Brasil, Uruguai e Argentina. Manoelito de Ornelas foi na contramão do oficialismo, embora tenha ele ocupado posições oficiais em vários governos. Foi inclusive diretor da nossa Biblioteca Pública do Estado, justamente aonde se situa o Salão Mourisco em que será lembrado e discutido amanhã às 18h30min. Mas para aquele cargo ele foi eleito pelos seus pares. Os escritores rio-grandenses reuniram-se e firmaram um memorial e pediram a sua indicação ao então interventor federal, (isto se passava na década de trinta), Cordeiro de Farias.
É muito saudável discutir nossas origens, é mais do que prazeiroso reencontrar Manoelito de Ornelas que, aliás, entre outras virtudes, encaminhou secretamente para publicação o conto “Ladrão de gado” em 1929, para a “Revista do Globo”, promovendo assim a estréia de um jovem escritor: Erico Veríssimo.
A oportunidade é única. Esperamos ver amanhã à tarde em Porto Alegre, a indiscutida capital da província de Rio Grande do São Pedro e confluência indiscutível, representantes de todas as correntes, platinos, citadinos, e o pessoal da Campanha, este território ideal e utópico, mas real e concreto, onde prosperaram as mais legítimas tradições do gaúcho rio-grandense sempre irmanado com o uruguaio e o argentino, revelando o sangue comum espanhol, maragato e, portanto, beduíno. Manoelito explica tudo isso.
* Esta crônica foi inicialmente publicada no jornal ABC DOMINGO, edição de hoje, domingo, 16 de fevereiro de 2003
Hoje, caminhamos todos pelas ruas do mundo, de Bagdá a Paris, com o pensamento único de evitar a guerra. postado por Walter Galvani em 15/02/03
PAZ!
Walter Galvani
Hoje é o dia de pensarmos todos na Paz, com P maiúsculo, Paz Mundial, não apenas na possível guerra EUA X Iraque, que, por certo não será uma guerra, mas um ataque unilateral, praticamente sem chance de defesa. Mas, que na certa abrirá um caminho lamentável para um longo período de retaliação. Por certo, uma vez derrubado o governo de Saddam Hussein, o que parece uma conseqüência automática de qualquer ação americana, tal como ocorreu em 91 na outra “Guerra do Golfo”, a ação não se esgotará em si mesma. Depois da derrubada das Torres Gêmeas no 11 de setembro, ninguém está mais seguro e não se sabe até onde podem caminhar as revanches.
No mundo inteiro, nas principais cidades, de Paris a Porto Alegre, de Londres a Lisboa, de Nova Delhi a Pequim, as pessoas caminharão pelas ruas conduzindo faixas, cartazes, camisetas, dísticos, bandeiras, todas com um único pedido: “Não à Guerra!” Será a maior demonstração pela Paz feita em todos os tempos, mas infelizmente não cremos que o apelo chegará aos ouvidos de quem já se decidiu pela guerra...
E não são poucos os que, pelo mundo afora, advogam o início de uma operação bélica que poderá de repente transformar o mundo da economia, não nos enganemos. Com os preços do petróleo se elevando até os patamares que uma guerra decretará, muita gente sairá ganhando.
É bom que lembremos que a nova guerra se dará sobre o solo bíblico, talmúdico, alcoronístico (acabei de inventar um neologismo) da Mesopotâmia. Lembram? Ali onde os rios Tigre e Eufrates se alinham e se reúnem, nasceu uma terra abençoada, justamente denominada “no meio dos rios”, hoje Iraque. É lá que fica a encantada Bagdá que iluminou nossos sonhos infantis, as “mil-e-uma-noites” de Sherazade e de toda a humanidade.
Ainda esta semana reli a história de “Simbad, o marujo”. Andei pelas ruas, pelas vielas perdidas, pelo mercado e pelos palácios de Harun Al Rashid, caminhei em sonhos pelo mercado, ouvi a voz dos “muezin” do alto dos minaretes das mesquitas.
Pode ser que daqui a pouco somente se escute o silvo dos mísseis e o explodir das bombas. Tomara que não. Da outra vez pouparam-se os palácios milenares, as pedras, as casas, as ruas desta cidade fantástica, patrimônio comum da Humanidade.
E agora, sobrará alguma coisa de Bagdá?
E os civis, os iraquianos, pagarão com suas vidas pelo radicalismo político de uns e outros ou pela ambição de todos?
É a pergunta que não quer calar.
Vamos tomar um refresco, um pouco de sonho e ar puro, enquanto americanos, alemães, franceses, russos, chineses discutem sobre o Iraque, o futuro do petróleo, e até queijos e vinhos... sim, a última notícia é de que os Estados Unidos ameaçam suspender importações de queijos e vinhos franceses se não houver apoio à guerra contra Saddam Hussein... postado por walter em 13/02/03
UMA IDÉIA: TRANSPORTE FLUVIAL
Walter Galvani
O novo governo rio-grandense alinhou várias idéias para trabalhar em cima, neste início de ano, e uma delas me toca de modo especial. Eis que havendo escolhido a cidade de Guaíba para meu retiro eventual, ainda ontem à tarde desfrutei do belíssimo panorama do lago (Saint Hilaire já o tratava assim) tomando um chope no Caisinho, um belo restaurante situado na ponta da orla ou “Beira” como a chamam aqui, enquanto imaginava o quão seria agradável fazer uma viagem por água.
Assim o transporte fluvial ou lacustre, escolham a denominação, seria uma bela solução para a cidade de Guaíba e demais municípios da Metade Sul. Teoricamente mais barato, indiscutivelmente mais belo e ecologicamente correto. A viagem sairia do cais do porto de Porto Alegre e aportaria a 500 metros do referido Caisinho, no centro de Guaíba.
Já me imagino a bordo, conversando tranqüilamente ou lendo, completando os 20 ou 30 minutos de travessia ao ar livre, num dos bancos dispostos no tombadilho.
Penso no Tejo e na velha Lisboa. Eis uma boa semelhança, só que lá em Portugal o transporte fluvial é praticado e explorado com muito sucesso e conveniência para as populações que se espalham pela bacia do “Mar da Palha”, como historicamente se denomina a foz do rio, tão importante em nossa história e na de Portugal, em nossa formação cultural e política.
Lembro com prazer quantas vezes fiz aquela travessia e continuo a sonhar com as minhas idas e vindas Porto Alegre-Guaíba.
Diz o programa do governo gaúcho que se trata de um plano para 2002.
Como se diz em Portugal, “que bem haja”.
Fechem os olhos, vamos agora mergulhar no túnel dos horrores: guerra, inflação, redução de investimentos... há uma luz lá no fundo? postado por Walter Galvani em 12/02/03
FOME ZERO MENOS 80%
Walter Galvani
Ridículo, simplesmente ridículo, cortar o que ainda nem começou e era apresentado como o ponto principal do novo governo. Fazer o quê? É a tal predominância do econômico sobre o social, ou do elementar sobre o que sempre foi considerado secundário ou alguma coisa nova, na linguagem dos novos ocupantes do poder? Realismo? Adaptação aos novos tempos.
Seja lá o que for, o Programa “Fome Zero”, apresentado como a prioridade das prioridades do governo Lula, trombeteado pelo Brasil afora, anunciado em Porto Alegre no Fórum Econômico Social e ampliado no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, com o desassombro que parecia caracterizar este governo do PT, foi cortado este ano, em 34,5 por cento dos seus investimentos.
Aliás, a manchete dos principais jornais brasileiros fala nas medidas de arrocho que reduzirão em 80,6% o orçamento e 2003 para todas as atividades, sendo que o campeão de cortes será o Ministério dos Transportes. Podem ir dizendo adeus à duplicação da BR-101... ou qualquer luxo do gênero.
Às vezes fico pensando se a idéia de conformar-se com a pobreza é uma posição politicamente correta ou se deveríamos nos revoltar contra isso.
O resultado prático destes cortes logo se verá: redução de empregos, diminuição de circulação de riquezas, queda no comércio. Se tudo isso vier com uma segurada na inflação, tudo bem, mas com a alta do combustível, resultante da disparada do petróleo, não sei não.
O panorama internacional é o pior possível. Os Estados Unidos estão dispostos a ir à guerra contra o Iraque, ou por outra planejam amassar o Iraque em questão de dias, o que é lícito esperar, considerando a disparidade de forças.
Não tenho e lementos para duvidar da asserção de que a Al-Qaeda apóia Saddam Hussein, o que neste momento parece lógico. Mas, com ou sem Bin Laden, o confronto deverá sair, mesmo com a opinião contrária da ONU e da OTAN.
Os Estados Unidos foram longe demais na sua retórica guerreira e recuar agora, só com a renúncia do ditador iraqueano, o que duvido que venha a ocorrer.
Esta conjuntura internacional se perfila para desatar uma situação de retração indiscutível, um recesso interno acima do esperado. A menos que se descubra o mercado interno como uma solução. Tal como sucedeu na II Guerra Mundial quando, fechado em suas fronteiras, de 42 a 45 o Brasil acabou consolidando a sua economia e promovendo a sua indústria como legítima produtora de bens e serviços que não podiam mais ser importados.
Convém dar uma mergulhada na História do Brasil.
Resta-nos "torcer" por Caetano Velloso... postado por walter em 11/02/03
SERÁ MESMO?
Walter Galvani
“Contrariando as expectativas, o filme Cidade de Deus não recebeu indicação para o Oscar de melhor filme estrangeiro” – diz a página de Cultura da BBC Brasil, cujo endereço na web é www.bbc.co.uk/portuguese/cultura
“Contrariando as expectativas” de quem? Acho que da “mídia” brasileira...
Na premiação que acontece dia 23 de março, teremos a presença do elogiado e discutido filme mexicano “O Crime do Padre Amaro”, uma atualização do livro notável de Eça de Queiroz. Concorrem com ele “Hero”, da China, “Nowhere in África”, da Alemanha, “O homem sem passado”, da Finlândia e “Zus e Zo”, da Holanda.
A Espanha não inscreveu o filme de Almodóvar, “Fale com ela”, porque havia sido alertada que ele estava sendo indicado como candidato a “melhor diretor” pelo mesmo filme. Achou mais prudente concorrer com o seu nome mais famoso a um título ainda mais significativo.
No geral, o filme que recebeu mais indicações foi o musical “Chicago”, que disputará 13 estatuetas, seguido por “Gangues de Nova York” com dez e “As Horas”, com nove.
Meryl Streep concorre como atriz coadjuvante pelo filme “Adaptação” e Jack Nicholson, por sua atuação em “As confissões de Schmidt” chega à sua 12a. disputa.
Em tempo: dizer que em 10 minutos de Internet grátis alguém pode acessar até um “site” é demagogia pura. No máximo receber e expedir e-mails, desde que não sejam eles muito pesados. Caso contrário, o brasileiro terá que voltar no outro dia e assim por diante... Faço este comentário, já que estamos na Internet e aqui se fala sobre o assunto: Internet, todo mundo sabe, requer no mínimo meia hora para uma pesquisa razoável e olhe lá!
Não sei se o filme brasileiro – voltando assim ao tema desta intervenção, mereceria a indicação. Um jornalista que eu respeito, Nikão Duarte, que chefia a comunicação social da FIERGS (Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul), considera-o um “sólido documento de denúncia” e um filme “bem feito, que dá o seu recado”.
Não fui ainda assisti-lo. É que estou um pouco enfarado situação que vivemos nas concentrações urbanas do Brasil e pergunto se o PT está pronto para acabar com este problema? Ou desperdiçaremos, mais uma vez, nosso tempo. Fácil? Claro que não é. Mas só quem está no governo tem a faca e o queixo na mão.
Finalmente, a força da “media” brasileira estará agora a favor de Caetano Velloso, no Oscar do dia 23, pois o cantor baiano, junto com cantora Lilá Downs defende a canção “Burn it blue”, que não é de sua autoria, e pode dar o Oscar de melhor música para o filme “Frida”.
Os autores são Eliott Goldenthal e Julie Taynur.
Mas concorrem contra o "rapper" Eminen...
O Brasil perdeu um dos seus maiores atores, um excelente intelectual postado por walter em 11/02/03
JOSÉ LEWGOY, 82
Walter Galvani
Morreu jovem pela sua importância para o teatro, o cinema e a televisão do nosso país: aos 82 anos nos deixou ontem, depois de uma última parada cardíaca, José Lewgoy. Ele vinha de um enfraquecimento progressivo, causado por uma série de problemas de saúde que o vieram afetando há quase dois anos e que o levaram à imobilização parcial numa cadeira de rodas.
Pena, ainda tinha muito que dar, pensando-se na seriedade com que sempre se dedicou à sua carreira, formando-se ator e jamais deixando de se aperfeiçoar. Estudou na Universidade de Yale, Estados Unidos, em consagrado curso de arte dramática que formou muitos atores de fama mundial.
Contribuiu com o seu conhecimento da arte, sua cultura e sua educação para o nosso país e aqui se caracterizou sempre pela atenção que concedeu à juventude, trabalhando na preparação e na qualificação de atores.
Militou na resistência aos regimes de opressão e não raro freqüentou os calabouços da ditadura, buscando libertar colegas de profissão.
Sua terra natal, Veranópolis, é conhecida pelos altos índices de longevidade, daí que não seria de estranhar que hoje, no alto da serra gaúcha, se lamentasse o desaparecimento de Lewgoy com um comentário tipo: “Que pena! Tão moço!”
Para a cultura brasileira, cada vez mais carente de nomes do seu porte, realmente uma perda e “tão jovem”! Assistimos hoje ao lento decréscimo da média intelectual do país, atingidos que fomos em nossa linha de flutuação pelos crimes contra o ensino, cometidos nos últimos cinqüenta anos. Esperamos que esta tenha sido a última vez que tenhamos aceitado a “razía” do neo-liberalismo, seja em sua forma mais branda – leia-se “oito anos de Fernando Henrique” – ou em sua forma mais aguda, “64-86”, começando com o golpe militar e se estendendo até Sarney, por sinal de volta hoje, como presidente do Senado.
Cuidado! Esta doença começa com febrícula e acaba em síncope...
Estaremos chegando em questão dias ou horas, ao ponto máximo da ebulição postado por walter em 10/02/03
A SEMANA DA VERDADE
Walter Galvani
Paz. Nosso único pensamento.
Mas, a semana começa “quente” em matéria de guerra e o dia, especialmente. Haverá hoje uma reunião de emergência da OTAN, França e Bélgica já se declararam contra qualquer ação de ataque ao Iraque. Por ali será difícil que os Estados Unidos obtenham o respaldo que pretendem para sua ação contra Saddam Hussein, cuja renúncia é o ponto 1 do plano americano e exílio é o ponto 2.
Sexta-feira os inspetores da ONU, sob a liderança de Blix, apresentarão o resultado das promessas de desarmamento que tentam arrancar ao Iraque, junto com o resultado de suas inspeções.
Sábado, dia 15, a opinião pública mundial, numa dimensão que só poderá ser conferida no dia e na hora, fará demonstrações públicas gigantes, na primeira “mundi-manifestação” contra a guerra.
E no meio de intensa e agitada atividade diplomática que envolve todas as capitais do Oriente Médio e recebe as pressões anti-guerreiras de Paris, Berlim, Moscou e Pequim, os americanos continuam a expedir seus soldados para o que poderá vir a ser o “teatro de guerra”. Ontem foi a vez da Divisão 101, considerada invencível pelos “falcões” que cercam o presidente Bush, porque participou da guerra de 81, quando o presidente era o pai do atual, e não houve perda de nenhum homem.
Paz continua sendo nosso único pensamento.
Putin, o presidente russo, disse claramente: “Não há nada na carta da ONU que autoriza uma intervenção simplesmente por não gostarmos do regime ou da pessoa que predomina em algum lugar.”
Ainda há outra pedra na estratégia da guerra: a Turquia é o país que possui a maior fronteira com o Iraque e contando com a ajuda americana para enfrentar as dificuldades econômicas, se coloca numa perigosa corda-bamba. Cede suas instalações militares, suas bases aéreas, em troca do apoio financeiro americano.
É uma venda. Uma operação comercial.
Resta saber de que lado está Judas Iscariotes, aliás envolvido como sempre no dilema do Oriente Médio: uma guerra aniquilaria qualquer tratativa de paz para Palestina x Israel e ajudaria a espalhar o fogo pelas reservas petrolíferas da região. Como se sabe, a maior reserva do mundo. O próprio Iraque, isolado, é o segundo colocado.
A indústria automobilística não desenvolveu até agora um substituto correto para o petróleo, os carros continuam a consumir gasolina e óleo diesel.
Resta saber até quando as irmãs construtoras – que se mantém discretamente a margem da possível guerra – necessitarão este combustível fóssil.
Até lá – mais 25 anos talvez – dependeremos do humor subterrâneo destas poderosas forças.
Sábado próximo, se ainda houver tempo, será o dia da primeira demonstração mundial contra a Guerra, situando marchas da população nas principais capitais. De Porto Alegre a Oslo, passando por Washington e Bagdad, Paris e Tóquio. Ah, e do alto de suas árvores, nas florestas que ainda não derrubamos, milhares de macacos nos contemplam... postado por walter em 09/02/03
MUNDI-MANIFESTAÇÃO
Walter Galvani *
Pois é assim mesmo que está sendo chamada a primeira manifestação global deste século: ela vai ocorrer no dia 15 de fevereiro, na próxima semana, portanto, e levantará todas as principais capitais nos países mais importantes da terra. Quer dizer: de Paris a Nova Déli, passando por Tóquio, Estocolmo, Pequim e, naturalmente, Porto Alegre.
Quaisquer que sejam os próximos atos, a exigência de provas contra o Iraque ou o ansioso bombardeamento proposto pelos Estados Unidos, a adesão incondicional da Inglaterra ou a dúvida existencial característica da França, o receio histórico da nova Alemanha ou o temor atômico do Japão, as pessoas marcharão pelas ruas dos maiores centros urbanos do planeta, protestando.
“Juntos podemos impedir a guerra” é o “slogan” internacional cunhado para este raro momento de integração e em toda a parte os Conselhos para a Paz e a Cooperação estarão arregimentando as pessoas para saírem as ruas e desfilarem com faixas, protestos e bandeiras. Só não sabemos é se não será demasiado tarde.
Em Lisboa, por exemplo, a concentração será no Largo do Camões, ou seja, no ponto principal do Chiado, diante da estátua do poeta épico da língua portuguesa e em Paris os defensores da paz marcharão pela Avenida dos “Champs Elysèes”, debaixo do Arco do Triunfo. O que se quer desta vez, não é celebrar a vitória dos exércitos, mas cantar a possibilidade de uma convivência permanente entre os desiguais, entre os esquecidos e excluídos, entre ricos e pobres, em defesa da vida.
Parece uma utopia, uma grande utopia em andamento, mas é o que se terá dentro de seis dias. Isto é: se antes disso o rugido dos mísseis e a veloz passagem dos aviões de combate não acabar com o sonho.
Será o último apelo à racionalidade e à compreensão, ao entendimento e à união entre os povos.
Estarão de mãos dadas, seja no Largo Glênio Perez em Porto Alegre ou nas ruas de Nova York, todos os que pensam que a paz precisa de uma chance, antes que se soltem os cães rumo ao Apocalipse.
Entre o povo anônimo que andará pelas ruas e avenidas de todo o mundo, alguns dos melhores espíritos produzidos pela Humanidade e que conosco convivem nesta quadra inicial do século XXI, estarão se alinhando para a mais importante demonstração esta “mundi-manifestação” que visa mostrar que ainda somos feitos de espírito, de emoção, de amor ao próximo e de caridade. Se pudermos prestar atenção a indivíduos, veremos entre os homens das primeiras filas, nomes como Mário Soares, Tarik Ali, Paul Auster, Boaventura Sousa Santos ou Al Pacino, Dario Fo e José Saramago, talvez Tarso Genro e Gilberto Gil, quem sabe Woody Allen e Günter Grass.
Todas as bandeiras de todos os movimentos pacifistas estarão nas ruas. E no recesso dos lares, os velhos combatentes, aqueles que lutaram na II Guerra Mundial ou na Coréia, no Vietnã ou perderam seu tempo e humor nos anos da chamada “guerra fria”, lamentarão por certo a oportunidade perdida pelos terráqueos, este famoso gênero humano, único tipo de animal que combate por questões políticas e para marcar seu território, sua posse sobre meia dúzia de metros de areia, não faz como os cães que urinam e andam em círculo. Preferem soltar bombas e destruir seus semelhantes.
Penso que os macacos nos contemplam, coçam a cabeça e lamentam o rumo lamentável que tomamos...
* Inicialmente publicado no jornal ABC DOMINGO, 9 de fevereiro de 2003, que circula na região metropolitana de Porto Alegre, editado pelo Grupo Editorial Sinos
O jornal Diário de Canoas publica minhas crônicas em suas edições de quintas-feiras. A mais recente, do dia 6 de fevereiro, recordando os bons velhos tempos, aqui está. Neste verão que terminará chuvoso, como sempre, vale um "ataque de nostalgia". Ah, e preparem-se: vem aí uma nova edição da "Oficina De Crônicas O Vôo da Gaivota"! postado por walter em 08/02/03
CRESCENDO DEVAGAR
Walter Galvani *
Segundo o IBGE, Canoas chegou a 306.093 habitantes e tem 100 por cento de urbanização em sua área municipal. Antigas roças e quintas tornaram-se tão insignificantes que já nem contam mais, portanto e o índice de crescimento ficou em 1,45% o que é ótimo, pois, vê-se que não há muito mais para onde se expandir, a não ser pequenos bolsões que restaram e que os especuladores imobiliários conhecem muito bem.
Pode-se, portanto pensar em cem por cento também em prestação de serviços públicos, como transportes, comunicações, saúde pública, pois qualquer equipamento instalado devolverá na totalidade sua aplicação. Não há mais vazios em Canoas.
Eu a conheci bem diferente. Em primeiro lugar porque aqui nasci em 1934, quando éramos poucos os “nativos”, digamos assim... Naquele tempo não havia essa garantia de internação da mãe para que tivesse seu filho com a garantia dos estabelecimentos hospitalares e a dona Julieta deu a luz na própria rua Progresso, hoje chamada Coronel Vicente, numa casa de madeira construída pelo meu próprio pai. Era assim a vida, naqueles velhos bons tempos. Amassava-se barro e, à noite era preciso sair com uma lanterna de querosene para iluminar o caminho até onde se precisava ir, alguma farmácia, ao cinema (que tinha gerador próprio) ou à casa de algum parente para jogar vísporas, dominó ou conversar fiado.
Além dos poucos moradores locais que não iam muito além de 5.000, viviam no então 13O. distrito do município de Gravataí, felizes fins-de-semana os possuidores de sítios de descanso. Ao contrário de hoje, o clima era fantástico no verão e mesmo com o calor natural desta época, o denso arvoredo garantia uma qualidade de vida sequer sonhada pelos 300 mil moradores de hoje.
Depois, chegou a era da “cidade-dormitório”, pois, valendo-se do serviço de transporte coletivo razoável que já existia, com trens e ônibus servindo a ligação com a capital, muitos foram os que passaram a residir em nossa cidade, enquanto seguiam trabalhando em Porto Alegre.
Logo se deu a emancipação, dia 15 de janeiro de 1940, e o novo município que fora criado em junho do ano anterior, era instalado, ao que consta com o jovem Hugo Simões Lagranha “espiando” a sessão de instalação... Aquele jovem e outros de seu mesmo nível e qualificação foram escolhendo Canoas para trabalhar e deu-se o processo inverso.
Depois do nascimento de inúmeros loteamentos, dos quais a Vila Rio Branco e a Vila Niterói foram pioneiras, passamos a concentrar uma vasta população de comerciários e industriários que fizeram a felicidade do eleitorado de Getúlio Vargas. Eram os tempos do “trabalhismo” e do “queremismo”. Lembram do “slogan” de então, “Queremos Getúlio”?
Afinal chegou a industrialização e inverteu-se aos poucos o sistema que se costuma chamar de “pendular”, do ir e vir da po