Spike Lee, o mais famoso cineasta negro norte-americano (autor de ?Malcolm X?, ?Faça a coisa certa? e ?A hora do show?), julgando-se talvez em ação em algum dos seus filmes, concluiu esta semana uma entrevista a um representante da imprensa brasileira (Marilene Felinto, da Folha de São Paulo), dizendo o seguinte:
Lee ? Agora eu queria perguntar uma coisa. É verdade que o Brasil está começando uma ação afirmativa (prática de redução da desigualdades motivadas por gênero, raça e origem...) ?
Folha ? Acho que estão tentando algo neste sentido. Espero que façam à brasileira, sem imitar a americana.
Lee ? Qual seria a diferença ?
Folha ? Nossa realidade étnica é diferente. No Brasil nunca tivemos segregação.
Lee ? Mas qual é a diferença ? Não há. O racismo é o mesmo.
Folha - Não é o mesmo. Segregação gera ódio. Aqui (nos Estados Unidos) vocês tem ódio uns dos outros, da cor da pele.
Lee - E não é por ódio que somente 2% dos negros freqüentam universidade no Brasil ?
Folha ? Isso é diferença de classe social, herança da escravidão, ignorância. É tudo menos ódio.
Lee ? E escravidão não é ódio ? É ignorância ?
Folha ? Ódio é eu acenar para um taxi em Nova York e o motorista não parar porque acha que sou negra. Isso não aconteceria comigo no Brasil.
Lee ? Você está transformando a discussão em questão semântica.
Folha ? Você é que está. Eu apenas não concordo com seu ponto de vista. Além do mais, eu freqüentei a Universidade.
Lee ? Pois eu quero te dizer que você teve muita sorte.
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Spike Lee, que diz em outro ponto da sua entrevista que não acredita em união de brancos e negros, demonstra duas coisas:
1 ? Não conhece o Brasil.
2 ? Não sabe o que é semântica.
Não é de estranhar. Muita gente no mundo não entende como foi possível criar uma democracia racial em nosso país, com integração a partir da mestiçagem incrível que se produziu aqui. Agora, um cineasta americano confundir o que é semântica, para disso se aproveitar e criar a confusão na cabeça dos leitores desavisados, é no mínimo desonestidade.
Mas é fácil de compreender isto. Nossa integração racial é invejada globalmente. E tem mais: aqui temos palestinos, hebreus, muçulmanos, católicos, umbandistas, japoneses, chineses, coreanos, brancos, pretos, amarelos, todos convivendo com alegria. Falta emprego mas sobra solidariedade. Percorram as vilas e verão.
Talvez entre a classe média alta e a classe AAA, isto sim, não exista nada mais do que corporativismo classista. Mas, mesmo assim, dá para pensar duas vezes antes de generalizar. Não sou um idiota otimista, tanto que faço o alerta: em breve vão querer jogar uma bomba em nosso entendimento e a segregação, para qualquer lado que for, é o primeiro passo neste sentido.
As leis de reserva de mercado tem que ser protecionistas sem ser exclusivistas. Descubram como fazê-lo. O efeito contrário desta receita é o ódio. O mesmo ódio preconizado pelo Spike Lee, um dos tantos semeadores da violência e da infantilidade intelectual que por vezes beira a demência que não deveria representar a civilização americana, que também tem Orson Welles, Edgar Allan Poe, William Faulkner, Ernest Hemingway, Arthur Miller e tantos outros grandes criadores.