Quinta, 09 de Setembro de 2010

Hoje |  2006 - 2007 - 05/2008 |  Currículo |  Livros |  Crônicas & Artigos |  Fotos |  Links 


TERRORISMO - O MASSACRE DO MIRI

Walter Galvani - 09/10/01

    Mudam os tempos, mudam os costumes. Mudam os motivos, mudam as conseqüências. E até onde vai a crueldade ? E o chamado terrorismo ? Mas a História é implacável. Foi a 3 de outubro de 1502. Anotem:

    ?Quando Vasco da Gama trouxe ao rei a notícia de todo o problema relativo ao barco ?Miri?, ocorrido na sua viagem de ida, um ano antes, pode-se imaginar a preocupação de Dom Manuel. Bastaria para deixá-lo possesso apenas pensar qual seria a reação do Papa, uma das conseqüências daquela incomodação que lhe enviavam os céus. Correra muito na frente do mais veloz dos barcos que voltavam da nova viagem ao Oriente a notícia das atrocidades cometidas sobre o navio mercante, praticamente indefeso, que transportava peregrinos regressando de Meca. Agora, segundo a notícia de Gama, o Soldão, soberano do Egito, ameaçava converter à força ao islamismo todos os cristãos que fossem encontrados no Oriente e destruir o Santo Sepulcro. Tratava-se de assunto sério por demais, mexia com todos os países cristãos da bacia do Mediterrâneo e dos mares do Norte, tocava num delicado equilíbrio político e condenava os povos da África e da Ásia ao rompimento com o cristianismo.

    O ?Miri? era um grande barco que tivera a infelicidade de se encontrar na rota dos portugueses, voltando de Meca, para onde levara muçulmanos ricos com suas famílias para a tradicional peregrinação religiosa. Uma nau imensa, poderosa, que resistira ao ataque dos rumi, como chamavam os cristãos, mas afinal tivera de render-se.

    Vasco da Gama comandara o assalto final, pessoalmente: o bombardeamento, o incêndio e o afundamento. O sangue dos peregrinos, as suas jóias e o seu ouro, tudo havia sumido nas águas do mar. O dia 3 de outubro de 1502 marcara a viagem de ida do almirante, como uma impiedosa e sangrenta jornada, jamais esquecida. Tomé Lopes, o escrivão que ia a bordo da nau de Estêvão da Gama, adiantou em Lisboa o relato do episódio, sobre o qual escreveria mais tarde:

    ?As mulheres tentavam desesperadamente demover os portugueses. Colocavam-se na amurada da embarcação, exibindo grandes ornamentos em ouro, prata e pedras preciosas. Gritavam em alta voz e chamavam o almirante, agitando a cabeça e mostrando que lhe entregariam tudo, se ele quisesse salvar-lhes a vida. Algumas pegavam seus filhos de pouca idade e erguiam-nos nos braços e todos nós compreendíamos que elas nos pediam para termos piedade daqueles inocentes.?

    Os que morreram poderiam agradecer por isso, porque assim escaparam à tortura de terem arrancados seus narizes e orelhas e se transformarem em destroços humanos, a maioria deles comida por peixes, pois ao mar eram atirados como carga inútil. Os poucos que foram poupados logo foram batizados como cristãos. Garantia-se que não eram mais do que 16 crianças.?

    Do meu livro ?Nau Capitânia?, 5ª edição pela Record, páginas 241 e 242.

    Não estamos falando sobre as Cruzadas sequer, mas sim sobre a segunda viagem às Índias, do glorioso almirante português, Vasco da Gama. Quando apresentei meu livro em Lisboa no ano passado, um repórter disposto perguntou-me: ?Quer dizer que o senhor acusa Portugal de haver promovido um massacre de muçulmanos em 1502 ??

    Resposta: Sim.

    Em tempo: o texto foi mantido intacto na edição portuguesa feita pela Editora Gradiva. Graças à Deus, Jeová e Alá, naturalmente.

© 2005 - Walter Galvani - Proibida a reprodução sem autorização.