Não sinto nenhuma alegria neste dia seguinte ao 7 de outubro em que os mísseis começaram a falar sua linguagem. Não há mais tempo para negociações, ou melhor, talvez daqui a pouco sentem-se à mesa, sob o troar dos canhões, como bem recomendou no Século XIX, Napoleão Bonaparte. Será a hora da diplomacia. Com as primeiras perdas e com a avaliação do estragos, conversarão sobre a continuidade ou a interrupção das chamadas ?hostilidades?.
Será também a hora de contabilizar os primeiros mortos, os estragos causados no território afegão e, neste caso, comparar intimamente com a destruição das duas torres de Nova York. Valeu a pena ?
A Cruz e o Crescente estarão em confronto ? Todos os líderes religiosos fazem questão de rejeitar esta hipótese. Não é uma guerra religiosa, mas é um confronto de civilizações, e tanto o atentado de 11 de setembro quanto a resposta de 7 de outubro, demonstram o quanto é difícil para o Homem conviver com as diferenças.
Negros, brancos, amarelos, vermelhos, tostados pelo sol do deserto ou pálidos pela vida em ambientes fechados das altas latitudes do Hemisfério Norte, sábios ou ignorantes, cientistas ou rudes trabalhadores de minas insalubres, embora todos tenham cabeça, tronco e membros, usem uma linguagem para comunicar-se e assistam os mesmos horrendos programas de televisão, filmes ridículos de ?cinema-catástrofe? ou leiam os mesmos panfletos, cada qual incentivando à morte gloriosa pela Pátria, sob o som de hinos diferentes, mas que produzem a mesma fixação, o mesmo arrojo.
Para quê ?
Alguns milhões serão gastos no confronto desigual e daqui a pouco as diferenças terão sido aprofundadas. Lamentaremos mais alguns milhares de mortos (ou milhões...) e por certo rezaremos hipocritamente a Deus.
Aliás, não é de hoje que as religiões rezam um ?Te Deum? de agradecimento por uma vitória dos seus exércitos, com a destruição dos inimigos e naturalmente dos alvos civis, da população do adversário e de sua economia (o que significa empobrecimento, morte, miséria). Não poucos ditadores e usurpadores foram coroados no interior de igrejas, mesquitas ou o que mais. Comecemos pelo próprio Napoleão, século XIX, nem tão distante na história.
Será que o Deus dos cristãos, o Alá dos árabes ou o Jeová dos judeus, se é que existem além das suas mentes, é injusto e capaz de abençoar a guerra, a morte, o terror ?
Prefiro pensar que, certos ou errados, são todos meus irmãos e que é preciso que se estendam pontes e não se destruam torres.
Adeus, Salam Aleikun, Shalon!
Concordam ? Discordam ? Que a paz esteja em nossos corações. Mas com a aceitação plena das diferenças, das divergências, das incertezas, da insegurança, dos desvios de comportamento ou dos erros de conduta. Esteja onde esteja.
Em tempo: Porto Alegre não é uma cidade de caipiras. Ah, ser caipira não é ofensa...
Ofensa é pensar que todos devem afinar pelo pensamento único. O seu.
Mas, leiam isto:
Hazem Saghyeh, intelectual árabe, publica no jornal ?Al-Hayat? em Londres:
?O intelectual deveria ser o que contradiz sua nação, seu exército, sua igreja, as instituições nacionais?.
E Edward W. Said:
?O debate crucial é o que tem lugar dentro do mundo árabe. Ali está a batalha, não em Nova York.?
E acrescenta:
?Devemos discutir a intolerância, estabelecer o diálogo das culturas, a luta civil, a liberdade de expressão e a censura, a verdade e a reconciliação (...) e em especial o papel simbólico do escritor como um intelectual que dá o seu testemunho da experiência de um país ou de uma região, conferindo com isto a esta experiência uma identidade pública inscrita para sempre na agenda de debates global.?