Quinta, 09 de Setembro de 2010

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A PENÚLTIMA FLOR DO LÁCIO
(Publicado originalmente no "Caderno de Literatura" da Ajuris, dezembro 2000, ano V - n. 8)

Walter Galvani

     Estamos próximos. Tão próximos que nos espanta saber os milhares e milhares de quilômetros que na verdade medeiam entre o Brasil e esta pequena ilha do arquipélago da Indonésia, lá mesmo onde encontramos Java, Sumatra e Bornéu, com tantas recordações de Emilio Salgari e outros fantásticos escritores que povoaram o imaginário infantil e adolescente de várias gerações. E de repente, lá do fundo deste imensurável estoque de recordações, emerge a ilha do Timor com suas incríveis divisões, e uma remota ligação com a língua portuguesa.

     Renascem com seus sonoros nomes lusitanos os reflexos da aventura dos descobrimentos, aquela mesma que trouxe Cabral ao Brasil e o levou, bem como conduziu Vasco da Gama, Bartolomeu Dias, Luís Vaz de Camões ou Afonso de Albuquerque, ao Oriente.

     E assim, desfilam diante de nós Xanana Gusmão, José Ramos-Horta, o arcebispo Ximenes Belo ou Manuel Carrascalão.

     Mas, quem são estes Manuéis, Joaquins, Josés, Pedros, que povoam o distante país que nasceu de uma colônia antiga e abandonada e no entanto até hoje disputada, onde talvez o único reflexo e desbotado vínculo com a antiga metrópole seja o estropiado português lá praticado, invadido, repartido e conspurcado pelos dialetos locais, rivalizado pelo "tétum", que poderia ter mais significado patriótico e nacionalista, até porque fora adotado pela Igreja Católica como a língua oficial de suas cerimônias ?

     E porque a escolha do português como língua oficial, porque esta decisão, já que é sabida e conhecida a influência e a importância do inglês como moderno "latim" ou esperanto, como queiram, o sonho da língua universal a um passo de concretizar-se ?

     Bem, mas ali estão eles a falar em Camões e Pessoa, a citar Eça de Queiroz e Machado de Assis, a lembrar Guimarães Rosa, o Brasil e Portugal. A invocar a irmandade com Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Guiné Bissau e de certa forma o enclave de Macau, que também este, incrustado em plena China, serve de ponte com a Europa, com os quinhentistas e seiscentistas, com Gil Vicente e com os "homens de grandes narizes", os navegadores cristãos.

     Descobrimos que a nossa língua portuguesa, esta mesma que acutilamos e atropelamos diariamente, é uma arma poderosa da cultura e da comunicação que nos integra, sim, e nos carrega até o coração, até à emoção de gente que tenta construir seu pequeno país, com liberdade de escolha religiosa, política e racial, com direitos e deveres e com expectativas.

     Sim, com diferenças. Assim como falamos hoje aqui, com nossa contribuição original e inequívoca e com nossa pronúncia inegavelmente vinculada à língua do tempo de Pero Vaz de Caminha e seus contemporâneos.

     Também eles, lá no Timor Leste, o que lhes sobrou da derrocada de 1975, quando os indonésios arrasaram o que encontraram pela frente na ânsia da sua incorporação num grande projeto de expansão, tentam com tijolos, areia e sonhos construir o seu país, usando o cimento da língua portuguesa.

     É uma obra e tanto.

     E uma lição para nós.

     Mas não foi fácil, não, desde o início, até porque o Timor Leste não tem muito a agradecer aos colonizadores portugueses, a não ser talvez a sorte de que o cristianismo proporcionou-lhe um traço de unidade nacional que acabou servindo notavelmente na hora da independência.

     Os padres sempre lá estiveram muito presentes, com as missões que começaram a chegar logo depois da primeira visita dos navegadores, isto em 1520. Foi quando lá arribaram, na esteira dos comerciantes em busca de sândalo. E, os missionários, de futuros cristãos.

     Ao longo dos 450 anos de ocupação não fizeram muito pela promoção dos nativos. Abrigaram imigrantes chineses ricos, receberam mesmo indonésios de outros setores do arquipélago ainda não constituído na grande nação de hoje, e nem sequer tiveram tempo de consolidar seu domínio e permanência, sem lutas contra inimigo europeu poderoso e perigoso: a Holanda.

     Durante três anos, durante a Segunda Guerra Mundial, sustentaram uma resistência contra os invasores japoneses. E desde o dia 7 de dezembro de 1975, a Indonésia com seu exército, suas armas mortíferas, seu napalm e seus foguetes terra-terra e terra-ar, aliás fornecidos pelo Brasil.

     Mesmo assim, todas estas guerras desestruturadoras e destroçantes não acabaram com as belas escolas católicas de Saibada, Maliana, Ossu e o seminário de Dare. Ramos-Horta diz que ao papel da Igreja se deve "o pouco que o Timor Leste teve de riqueza intelectual, espiritual, moral e religiosa."

     Afinal, o que é o Timor ?

     Uma ilha situada entre o sudoeste asiático e o Pacífico Sul, que ficou dentro das posses de Portugal pela continuidade do traçado (nunca demarcado) de Tordesilhas. Está dividida em Timor-Oeste (geralmente considerado como a "parte legítima" da Indonésia) e o Timor-Leste (Timor Lorosae) , ocupado desde 1975 pelo regime vizinho, com 18.899 quilômetros quadrados, constituído pelo enclave de Oe-Cusse (na costa norte da parte ocidental), pela ilha de Ataúro (a 23 km de Díli, a capital), o ilhéu de Jaco (separado por um canal da ponta leste) e a metade oriental da ilha de Timor.

     Tem uma agricultura rica, mas tem também, e esta é a razão de tanto interesse indonésio e internacional pelo território, importantes reservas petrolíferas. Aliás, a Austrália, que hoje posa de "protetora dos direitos timorenses" assinou um acordo em dezembro de 1989 para dividir com a Indonésia o direito de explorar o petróleo do Timor. Em 1991, Portugal iniciou um procedimento legal contra este tal acordo junto ao Tribunal de Haia. Vamos ver se os timorenses acabam se beneficiando com o que é seu.

     Mas, é sempre difícil a história das minorias. A denominação Timor Leste e Oeste nasceu de uma simples linha riscada a lápis no célebre mapa-mundi de Mercator , o grande geógrafo e matemático flamengo que criou no século XVI a representação em mapas do mundo com paralelos e meridianos. Curioso que tal linha virtual acabou aceita e predominando durante séculos, até permitir esta eclosão de nacionalismo, justo quando parecia que os nacionalismos entravam em agonia para quem sabe começarem a expirar no século XXI...

     Já não sei se isto sucederá, muito menos com o Timor.

     Conta a lenda que "em tempos que já lá vão, vivia na ilha Celebes um crocodilo muito velho, tão velho que já não conseguia caçar peixes no rio. Certo dia, apertado pela fome, decidiu arriscar-se nas margens atrás de algum porco distraído. Tanto se arrastou que perdeu as forças e caiu, exausto em meio à vegetação. Um rapaz simpático e forte, dele teve pena e levou-o de volta à água.

     Em retribuição pelo salvamento, o crocodilo ofereceu-se a transportar o jovem às suas costas, sempre que quisesse navegar. Isto não impediu no entanto, que sentindo fome outra vez, não se lembrasse de comer o companheiro que o salvara. Antes porém, quis ouvir a opinião de outros animais e todos se mostraram indignadíssimos: "devorar quem o salvara ? Que ingratidão!"

     Envergonhado e cheio de remorsos o crocodilo partiu para bem longe, para recomeçar a vida onde ninguém o conhecesse. Como o rapaz, afinal de contas era o único amigo que tinha, convidou-o para viajar uma vez mais, dizendo: Vem comigo à procura de um disco de ouro que flutua nas ondas perto do sol nascente. Quando o encontrarmos seremos felizes para sempre!

     Mais uma vez viajaram juntos e tanto nadaram que à certa altura o crocodilo percebeu que suas forças não lhe permitiam continuar. Deteve-se um instante e logo seu grande corpo cresceu e se transformou numa ilha magnífica.

     O jovem, transformou-se imediatamente num adulto e verificou, encantado, que trazia ao peito o disco de ouro com que sonhara o crocodilo. Percorreu então lentamente as praias, subiu às colinas, andou pelas matas e resolveu que ali ficaria para sempre. Deu à ilha o nome de Timor, que significa Oriente."

     Toda a beleza da lenda que esconde em seu sub-texto a certeza dos valiosos recursos que o Timor abriga, ajuda a contar seja em dialeto maubere, tétum ou em português, o porquê de tanto apego à tão pouca terra.

     Nos episódios de 1999, os timorenses mostraram do que são capazes, morrer aos milhares por sua ilha encantada e escolheram o português neste ano 2000 para ser o meio de comunicação e acesso ao mundo desenvolvido, porque só aí encontraram os resquícios daquela riqueza intelectual de que nos fala Ramos-Horta, ele e Ximenes Belo alçados à situação de reconhecimento internacional com o Prêmio Nobel.

     Trata-se do mais alto e político certificado, no bom sentido, que a comunidade universal sabe conceder. Por ironia com o que sobrou da fortuna do homem que inventou a dinamite e até para resgatar o nome de Alfred Nobel desta culpa eterna.

     E foi assim que a FRETILIN (Frente Revolucionária para um Timor Leste Independente) , assim mesmo com estas consagradoras iniciais em língua portuguesa, enfrentou a APODETI (propugnava a união com a Indonésia) e a UDT (União Democrática Timorense) que advogava a reintegração com Portugal.

     Por isto tudo, a última floração do Lácio, a "inculta e bela" língua portuguesa acabou ganhando uma oportunidade a mais para mostrar sua força, sua respeitabilidade e seu poder revolucionário.

     É uma ótima lição, para que seja muito bem aprendida em especial em Portugal, mas muito mais no Brasil e nos demais irmãos que deploram muitas vezes, com lamentável indignidade, o fato de não estarmos "colonizados" (ainda...) pelo inglês.

 

Walter Galvani
fevereiro/2001

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