Quinta, 09 de Setembro de 2010

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A DESCOBERTA
DO OUTRO


Walter Galvani

Quando começou-se a falar em 500 anos do Brasil, dois anos atrás, o governo brasileiro pensou num grande encontro internacional com as presenças de chefes de estado de todo o mundo, que iria coroar uma longa série de festejos. Haveria presenças ilustres e importantes como a Rainha da Inglaterra, o presidente de Portugal, o primeiro ministro, os reis da Suécia, o secretário geral da ONU, os mandatários supremos da Argentina, do Uruguai, do Chile, da Venezuela, do Paraguai, presidentes da Itália, da Alemanha, dos Estados Unidos, do Japão, enfim, representantes dos que nos descobriram e nos incorporaram ao mundo ocidental, os vizinhos, os mais importantes países, os que intervieram em nossa construção como nação, todos.
Não me lembro de ver Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e muito menos Timor, na relação, mas sei que o Itamaraty, sempre muito cuidadoso e atento, na certa não os deixaria de convidar.
Faltou falar apenas em xavantes, terenas, caiapós, guaranís e pataxós, mas estes seriam provavelmente representados por alguns caciques aculturados, convivendo pacificamente com os "brancos".
Não foi o que aconteceu.
De repente, com dardos e bordunas, arcos e flechas, alguns até - como diria Caminha - com suas "vergonhas" mais ou menos à mostra, os indígenas fizeram uma inesperada irrupção na história do Brasil e ajudaram a sacudir os festejos dos 500 anos. Mais do que sacudir, provocaram um abalo sísmico que gerou uma ruptura e ganharam uma visibilidade que talvez não tenham tido nos últimos cinco séculos.
A última vez que foram focados em primeiríssimo plano pela "media" (na época representada pela pena dos cronistas) foi exatamente naqueles últimos dias de abril e primeiros de maio de 1500.
E agora, aí estão eles, de volta.
Resta saber se para cairem outra vez no esquecimento, em poucos dias, ou para ocultar-se no seio das florestas que muitos deles ajudam a devastar para vender a madeira sagrada das árvores para os brancos cúpidos das multi-nacionais e das muito nacionais exploradoras do produto.
De repente, redescobrimos seus valores, compreendemos num choque cultural, a importância que eles tiveram e continuam tendo, o valor da rica contribuição que deram à construção do Brasil.
Já não há praticamente tupiniquins e tupinambás, apenas estão representados pelas etnias que sobraram por aí, resistindo ao ataque dos predadores humanos e naturais, como os bandeirantes, e também a gripe, o sarampo, o tifo, a pobreza, a inadequação à civilização dos vencedores, aqueles que começaram a chegar aqui há 500 anos. Tudo isto que podemos chamar de choque cultural.
Descobriu-se - pois não é esta uma era de descobertas ? - que o DNA brasileiro passa pelas matas, mais do que pelas senzalas até, mas que nesta sua volta pelo antigo e o moderno, integra as correntes sangüíneas que desembocam no fluxo atual. E que a herança genética comprova que a maioria da população, com dados que assombram porque estabelecem um total de 82%, tem a correr em suas veias e artérias o sangue índio ou o sangue negro em porções consideráveis e não em contribuições pitorescas.
E este é o Brasil, com mais a soma dos imigrantes europeus de todas as correntes e lembrando que na composição total é também esmagadora a participação portuguesa, não de nobres senhores aristocratas, mas da massa que para cá emigrou em busca de perspectivas durante os cinco séculos. Emigração inaugurada pelos dois degredados que aqui ficaram e pelos dois grumetes que fugiram da esquadra de Cabral e decidiram aqui permanecer.
Toda esta luz se fez no dia em que se pretendia comemorar os 500 anos, já sem o brilho imaginado anos antes, mas com aquele ar de quermesse que o ex-ministro de esportes e turismo imaginou. Foguetes, fogos de artifício. Nada de discussões e debates, nada de encontros entre intelectuais. Isto ficaria para mais tarde.
Como ficou.
O grande erro do governo brasileiro foi tirar do Ministério das Relações Exteriores a comemoração, e quando o fez, não encaminhá-la aos ministérios da Educação e da Cultura.
Não aconteceu nada ainda de duradouro ou estimulante, na área cultural. Ainda há tempo.
A sociedade pressionou e pressiona de outra forma, porém. Felizmente. Os índios se levantaram em armas - escassas mas significativas, os negros desprezaram a festa que não lhes dizia respeito e todos ficamos a ver navios. Principalmente.
A intervenção neste debate, no entanto, é uma obrigação de todos os brasileiros lúcidos. Já buscamos saber como e com quem começamos, agora resta verificar para onde vamos. E com quem.
Esperamos começar a ler logo estas respostas. Para isto existem os meios de comunicação, os debates universitários, os cursos elementares e o interesse dos seus professores e alunos, e as urnas.
Vamos ver com que espírito se pisará o novo milênio.

 

 

Walter Galvani
maio/2000

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