Quando começou-se a falar em 500 anos do Brasil, dois anos atrás,
o governo brasileiro pensou num grande encontro internacional com
as presenças de chefes de estado de todo o mundo, que iria
coroar uma longa série de festejos. Haveria presenças ilustres
e importantes como a Rainha da Inglaterra, o presidente de
Portugal, o primeiro ministro, os reis da Suécia, o secretário
geral da ONU, os mandatários supremos da Argentina, do Uruguai,
do Chile, da Venezuela, do Paraguai, presidentes da Itália, da
Alemanha, dos Estados Unidos, do Japão, enfim, representantes
dos que nos descobriram e nos incorporaram ao mundo ocidental, os
vizinhos, os mais importantes países, os que intervieram em
nossa construção como nação, todos.
Não me lembro de ver Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo
Verde, São Tomé e Príncipe e muito menos Timor, na relação,
mas sei que o Itamaraty, sempre muito cuidadoso e atento, na
certa não os deixaria de convidar.
Faltou falar apenas em xavantes, terenas, caiapós, guaranís e
pataxós, mas estes seriam provavelmente representados por alguns
caciques aculturados, convivendo pacificamente com os "brancos".
Não foi o que aconteceu.
De repente, com dardos e bordunas, arcos e flechas, alguns até -
como diria Caminha - com suas "vergonhas" mais ou menos
à mostra, os indígenas fizeram uma inesperada irrupção na
história do Brasil e ajudaram a sacudir os festejos dos 500 anos.
Mais do que sacudir, provocaram um abalo sísmico que gerou uma
ruptura e ganharam uma visibilidade que talvez não tenham tido
nos últimos cinco séculos.
A última vez que foram focados em primeiríssimo plano pela
"media" (na época representada pela pena dos cronistas)
foi exatamente naqueles últimos dias de abril e primeiros de
maio de 1500.
E agora, aí estão eles, de volta.
Resta saber se para cairem outra vez no esquecimento, em poucos
dias, ou para ocultar-se no seio das florestas que muitos deles
ajudam a devastar para vender a madeira sagrada das árvores para
os brancos cúpidos das multi-nacionais e das muito nacionais
exploradoras do produto.
De repente, redescobrimos seus valores, compreendemos num choque
cultural, a importância que eles tiveram e continuam tendo, o
valor da rica contribuição que deram à construção do Brasil.
Já não há praticamente tupiniquins e tupinambás, apenas estão
representados pelas etnias que sobraram por aí, resistindo ao
ataque dos predadores humanos e naturais, como os bandeirantes, e
também a gripe, o sarampo, o tifo, a pobreza, a inadequação à
civilização dos vencedores, aqueles que começaram a chegar
aqui há 500 anos. Tudo isto que podemos chamar de choque
cultural.
Descobriu-se - pois não é esta uma era de descobertas ? - que o
DNA brasileiro passa pelas matas, mais do que pelas senzalas até,
mas que nesta sua volta pelo antigo e o moderno, integra as
correntes sangüíneas que desembocam no fluxo atual. E que a
herança genética comprova que a maioria da população, com
dados que assombram porque estabelecem um total de 82%, tem a
correr em suas veias e artérias o sangue índio ou o sangue
negro em porções consideráveis e não em contribuições
pitorescas.
E este é o Brasil, com mais a soma dos imigrantes europeus de
todas as correntes e lembrando que na composição total é também
esmagadora a participação portuguesa, não de nobres senhores
aristocratas, mas da massa que para cá emigrou em busca de
perspectivas durante os cinco séculos. Emigração inaugurada
pelos dois degredados que aqui ficaram e pelos dois grumetes que
fugiram da esquadra de Cabral e decidiram aqui permanecer.
Toda esta luz se fez no dia em que se pretendia comemorar os 500
anos, já sem o brilho imaginado anos antes, mas com aquele ar de
quermesse que o ex-ministro de esportes e turismo imaginou.
Foguetes, fogos de artifício. Nada de discussões e debates,
nada de encontros entre intelectuais. Isto ficaria para mais
tarde.
Como ficou.
O grande erro do governo brasileiro foi tirar do Ministério das
Relações Exteriores a comemoração, e quando o fez, não
encaminhá-la aos ministérios da Educação e da Cultura.
Não aconteceu nada ainda de duradouro ou estimulante, na área
cultural. Ainda há tempo.
A sociedade pressionou e pressiona de outra forma, porém.
Felizmente. Os índios se levantaram em armas - escassas mas
significativas, os negros desprezaram a festa que não lhes dizia
respeito e todos ficamos a ver navios. Principalmente.
A intervenção neste debate, no entanto, é uma obrigação de
todos os brasileiros lúcidos. Já buscamos saber como e com quem
começamos, agora resta verificar para onde vamos. E com quem.
Esperamos começar a ler logo estas respostas. Para isto existem
os meios de comunicação, os debates universitários, os cursos
elementares e o interesse dos seus professores e alunos, e as
urnas.
Vamos ver com que espírito se pisará o novo milênio.