Dos poetas do sul ao Caderno H
Mário Quintana, símbolo do apoio à Cultura
Está no primeiro número, dia 1º de outubro de 1895. O CORREIO deixa bem claro que será além de um órgão comercial, também "literário". Na última página, um folhetim ao gosto da época, mas dedicado aos "Farrapos", da autoria de Oliveira Bello. E em sua primeira página, os "Rabiscos" de Tenório, pseudônimo que ocultava o fundador, Francisco Antonio Vieira Caldas Júnior e lá pelo meio, o noticiário das novidades recebidas pela Livraria Americana.
Como logo o perceberam os assinantes, de número a número, as novidades culturais da cidade, do país e do mundo povoavam a suas páginas. E os grandes nomes da época, como Emile Zola ou Machado de Assis se faziam tão presentes como os literatos do estado.
Mas, os Poetas do Sul tiveram a sua grande chance de aparecer, a partir de 1899, quando o jornal resolveu comemorar sua entrada no Ano V instituindo uma seção exatamente com este nome, anunciando que a partir dali seria formada a "Galeria do Correio do Povo" onde desfilariam nossos intelectuais, começando pela órdem alfabética. Alfredo Lisboa, jovem poeta, formado em Direito pela Faculdade de São Paulo, seria o primeiro.E logo seguiram-se os grandes nomes daquele fim de século: Andrade Neves Neto, Aquiles Porto Alegre, Augusto Sá, Apolinário Porto Alegre, Damasceno Vieira, Dogelo Caldas, Mário Totta, Múcio Teixeira, Vilallobos Júnior, Zeferino Brasil e lá pelo meio, o próprio Caldas Júnior.
E assim foi ao longo destes cem anos, sempre sendo encarregado de editar as páginas literárias, primeiro com a seção "Poetas do Sul", depois classificadas como "Literatura", ou mais tarde Páginas Literárias,simplesmente, desembocando no Caderno de Sábado, que começou dia 30 de setembro de 1967 e transformado em suplemento "Letras & Livros" em 8 de agosto de 1981, algum intelectual de primeira linha da capital gaúcha.
Zeferino Brasil, Sérgio de Gouvea, Paulo de Gouvea, Carlos Reverbel, Oswaldo Goidanich, P.F.Gastal se sucederam nesta tarefa, auxiliados sempre por quantos talentos surgiram na área, pois o CORREIO DO POVO era o verdadeiro "campus" cultural rio-grandense.
Dava gosto chegar à redação do "Róseo" em qualquer momento deste gigantesco passado e olhar em torno. À cada mesa havia um luminar, um profundo conhecedor do seu setor ou um monumento das artes e da literatura.
Mário Quintana, nosso poeta maior, tornou-se uma presença permanente, sentado à sua mesa, conversando às vezes consigo mesmo seus poemas imortais e alvo de constantes visitas de curiosidade ou estudo e pesquisa.
Ele próprio se queixava da perda da sua privacidade, mas não trocava a redação do CORREIO por nenhum outro local da cidade a não ser para palmilhar suas ruas ou recolher-se ao seu refúgio no Hotel Majestic, por exemplo, hoje a Casa de Cultura que leva seu nome.
Mas foi só a 4 de fevereiro de 1934 que ele teve a glória de ver o seu primeiro poema estampado nas páginas do CORREIO DO POVO. Lá estava "Madrugada", contando que "o vento enrodilhou-se como um cão e o seu fôlego manso apenas dá para remover alguma folha sêca, um que outro papel perdido..."
Ainda estávamos muito longe do Caderno H, mais longe ainda dos tristes e duros momentos em que o poetinha, em plena crise existencial, teve que ser resgatado pelos abnegados amigos e companheiros de redação, Oswaldo Goidanich, Carlos Reverbel e P.F.Gastal, que, com órdem expressa de Breno Caldas, o mítico diretor da época, determinação que incluía não medir despesas, e recolocado em condições, depois do que ele mesmo chamou de "recauchutagem". E ainda se estava mais distante ainda da hora em que o CORREIO ajudou a veicular a preocupação da sociedade gaúcha que não viu chegar o reconhecimento da "imortalidade"da Academia Brasileira de Letras, dívida que ficou. Mário Quintana lançou o seu "Caderno H" nas páginas do CORREIO no dia 18 de junho de 1953.
Ele já tinha feito de tudo na vida desde que chegara a este mundo a 30 de julho de 1906 até que "passarinhou" em 5 de maio de 1994.E entre outras coisas, uma, simbólica, tão característica de gerações e gerações de gaúchos: aprendeu a ler nas páginas do Correio do Povo.
Mas, antes de chegar em definitivo com o seu "Caderno H" debaixo do braço, ele estudou no Colégio Militar de Porto Alegre, foi empregado da Livraria do Globo, voltou para sua Alegrete natal, trabalhou no "O Estado do Rio Grande" e traduziu nomes como Lin Yutang, Charles Morgan, Guy de Maupassant, André Gide, Virginia Woolf, Marcel Proust, Aldous Huxley, Somerset Maugham, Joseph Conrad e tantos outros, apresentando-os ao público gaúcho.
Mas em 34, os assinantes do Correio já sentiam a presença do jovem poeta: "Dorme ruazinha...dorme... ninguém passa... - Eu sou a paz noturna, apenas... - O silêncio das folhas... - A trêmula palpitação das estrelas..."
Seu primeiro livro, "A rua dos cataventos" hoje imortalizado como o trecho da antiga travessa Araújo Ribeiro que atravessa a Casa de Cultura, só sairia em 1940. Depois vieram as "Canções", "O Sapato Florido", "O aprendiz de feitceiro", o "Espelho mágico" e tantos outros. Até que o poeta fez 87 anos de vida e poesia e quase chegava aos 88.
Desde os 47 ele era "redator" do CORREIO DO POVO e durante todo o tempo em que aqui esteve, não tinha outra obrigação a não ser "escrever o que quisesse", conforme estabeleceu Breno Caldas, no dia da sua contratação oficial, lº de julhode 1953.
Uma vez ele contou, por exemplo, suas reminiscências da grande enchente que tinha sido notícia no CORREIO e até parara sua edição por cinco dias:
"A enchente de 1941. Entrava-se de barco pelo corredor da velha casa de cômodos onde eu morava.Tínhamos assim um rio só para nós. Um rio de portas a dentro. Que dias aqueles! E de noite não era preciso sonhar: pois não andava um barco de verdade assombrando os corredores ? Foi também a época em que era absolutamente desnecessário fazer poemas..."
Érico Veríssimo, Dyonélio Machado, Reinaldo Moura, Moacyr Scliar, Carlos Nejar, Italico Marcon, Assis Brasil, Luiz Fernando Veríssimo, Viana Moog, Alcides Maya, Augusto Meyer, todos os grandes nomes de todas as épocas, neste século, passaram pelo CORREIO, antes, ao lado ou depois de Mário Quintana. Fez greve em 83, chorou quando o Correio parou e chorou quando foi trazido de volta, pela adminstração Renato Ribeiro em 86. Depois, "passarinhou", conforme prometera, e nos deixou o recado:
"E sigo
todo florido
destes nossos velhos sonhos
imortais.
- Ó mistério tão sem fim -
eu sigo todo florido,
cadáver desconhecido
vogando, lento, à deriva
nos rios todos do mundo!"
* autor de "Um Século de Poder - os bastidores da Caldas Júnior" - Editora Mercado Aberto.