Nós aprendemos a amá-lo. Nos pequenos gestos de que ele era capaz, trazendo trastes inúteis mas significativos, um pedaço de pano velho, um resto de camisa despedaçada, um tênis sujo, ou um lindo tecido, que parecia tule. Presentes que ele trazia e depositava na frente do nosso portão.
Acostumamo-nos a ele. Cada vez que se chegava ou saía, ele é que festejava, corria pelo pátio aproveitando um momento de permissão que lhe era dado, comia rapidamente, tomava água e regressava para o seu posto de sentinela, diante do portão, a qualquer sinal meu, obedecendo a hora da retirada. Era uma ordem e ele cumpria.
Eu quisera ter a inocência dos 13 anos, mas não aquela que eu não tive, a que se tem como ideal, para escrever hoje sobre o cachorro preto, ?orelhudo e rabudo?, como o batizamos, que guarnecia nossa casa e era insubstituível, descobri tarde demais, também em nossos corações.
Ele morreu atropelado uma noite destas. Os carros passam à grande velocidade na rua da esquina, ali no asfalto negro, a 50 metros de nossa casa.
Eu preferia não acreditar, bem como minha mulher, seria preferível crer que ele se fora, acompanhando alguém, ou que este alguém, tendo se apiedado dele e do frio que passava nas ruas no inverno, o tivesse recolhido.
E o ?Orelhudo Rabudo? então viveria para sempre em nossa lembrança, para sempre, sabendo que teria tido um destino melhor.
Mas, desgraçado de mim que tive que sair e caminhar pelas ruas para buscar um produto qualquer.
Eu o vi, sim. Ele estava ali, com o sangue ainda vermelho escorrido do ferimento, imóvel definitivamente, morto.
Quem disse que os animais não tem espírito ?
Eu sinto sua ausência e a dor profunda de sua morte não só atinge minha alma, como torna tudo menos alegre, como deforma este fim-de-semana que se pronunciava tão promissor. O sol, a pequena viagem que faríamos, tudo nos deixa agora tristes, destroçados.
Ele não existe mais! Isto é possível ?
Mas, na volta tive uma pequena alegria: seu corpo não estava mais no lugar onde eu o vira na partida e então - quem sabe ? - ele realmente não havia morrido e partira a convite de alguém, sacudindo alegremente o rabo, enfiando-se num automóvel e hoje vive numa casa distante, cuidando com generosidade do pátio e brincando com as crianças ?
Prefiro este desfecho. Cada vez que entro ou saio desta casa, parece-me vê-lo e sei que é apenas a minha lembrança e a minha saudade. A minha culpa, sim, por não tê-lo acolhido como deveria ter feito.