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VAMOS DEBATER? O PENSAMENTO NÃO DEVE TER FRONTEIRAS
Walter Galvani, em 25/05/2008

Crônica publicada hoje no jornal ABC DOMINGO, do Grupo Editorial Sinos

PENSAMENTO SEM FRONTEIRAS

Walter Galvani

Aproveitando a onda de sucesso internacional do cinema brasileiro, chegou a vez do debate sobre ele na série “Fronteiras do Pensamento”, sessão de amanhã à noite no Salão de Atos da UFRGS. Em momento privilegiado, estarão no palco dois brasileiros que sabem o que fazem nesta área: José Padilha, autor do incensado “Tropa de elite” (que não verei nunca) e Beto Brant que falará de “Filme livro, filmo livre”, um pequeno trocadilho que coloca em jogo questões bem mais importantes do que o fascismo explícito de outros filmes que andam por aí. Eis uma boa oportunidade, afinal o título da série é justamente “As fronteiras do pensamento” e é bom haver opiniões discordantes, por isso vou logo colocando a minha: não me interessa o assunto de que trata “tropa de elite”. Prefiro outras tropas e outras elites...

Neste fim-de-semana, por exemplo, festejou-se o “Dia Nacional do Café”, um tema curioso porque são ícones da inacreditável integração nacional de um país continental, o samba, o futebol, a caipirinha e o cafezinho. E ontem foi o dia também em que uma quantidade inacreditável de livros chegou às livrarias, essas que tem café e outras que não. Festas para a leitura e para o paladar. Mas, no meio destes lançamentos há de tudo: desde o livro em que José Roberto dos Santos, um portuguesinho “best-seller”, aborda “O enigma de Deus”, perseguindo a fórmula científica da existência do ser supremo. Eis um livro que vendeu 125.000 exemplares em Portugal, para uma população de 11 milhões. Feita uma equação, a lógica vai levá-lo ao erro: se fosse no Brasil, venderia 2 milhões e tanto do seu livro para nossos 183 milhões! Não é assim. Pena.

Tem mais para ler: o gaúcho Cláudio Lovato Filho, jornalista, nascido em Santa Maria, formado pela PUCRS, que atuou em Santa Catarina e hoje mora no Rio, está lançando “O batedor de faltas”, segundo livro na área das relações entre o futebol e a literatura. O primeiro, em 2002, foi “O batedor de faltas”. Aí estão bons assuntos que podem servir para o Beto Brant abordar e não para o José Padilha, é claro. Mais debates no “Fronteiras do pensamento” na certa provocará o livro coordenado por Nelson Boeira, ex-reitor da Uergs, sobre filosofia, comunicação, ciências sociais, literatura e suas relações com a História em onze ensaios de primeira grandeza e que podem “levar o povo a pensar”.




LIVROS, LIVROS ÀS MÃOS CHEIAS...
Walter Galvani, em 24/05/2008

Já dizia Castro Alves que o "livro caindo n'alma, é germem que faz a palma, é chuva que faz o mar". Crônica publicada hoje no jornal A Razão de Santa Maria:

HOJE NAS LIVRARIAS

Walter Galvani

A Editora Record colocou uma penca de lançamentos nas livrarias neste dia 23 de maio: desde “O batedor de faltas”, do gaúcho Cláudio Lovato Filho, jornalista, nascido em 1965 em Santa Maria, formado pela PUCRS em 88 e radicado no Rio de Janeiro, há 15 anos, até o best-seller máximo português José Rodrigues dos Santos, escritor e apresentador de televisão, que em “A fórmula de Deus” faz uma fantástica viagem às origens do tempo e reaparece com mais uma aventura do seu personagem já consagrado, o pesquisador Tomás Noronha, professor de história na Universidade Nova de Lisboa, que identifica uma conspiração para descobrir a prova científica da existência de Deus.

Este desafio rendeu-lhe um livro que já vendeu 125.000 exemplares numa população, a de Portugal, de 11 milhões de pessoas. É só fazer a conta: se fosse no Brasil, com 183 milhões, este feito dele poderia alcançar números de Paulo Coelho, tipo dois milhões de exemplares.

(O Sérgio Faraco, autor de alguns dos melhores contos rio-grandenses, contesta os números que apontam o gaúcho como o super-leitor, tanto que lê 5,8 livros por ano, muito acima da média nacional que é de 1,5. Não sei o que é verdade, às vezes também duvido das pesquisas, sei de uma, de grande instituto de pesquisa de opinião pública que pediu ao Breno Caldas, à época diretor do Correio do Povo de Porto Alegre, que dissesse o que pretendia provar que o instituto o faria. Não sei se fez, sei que o Breno Caldas jamais aceitou a idéia de contratar tais serviços, alegando justamente aquele oferecimento secreto, mas nem tanto.)

Pois bem, além da “Fórmula de Deus”, chega hoje às livrarias o livro de Márcia Tiburi que tem se notabilizado por sua atuação na mídia, “Filosofia em comum”, mas é muito bom que um livro desses seja lido. Nem tudo está perdido, parece.

Ah, e está chegando aí também, um Pablo Neruda especial para as crianças: o “Livro das Perguntas”. Parece que Neruda tem as respostas, o que é mais interessante.

Nosso conterrâneo Cláudio Lovato Filho, o santamariense, lança seu segundo livro sobre os bastidores do futebol transformados em matéria literária. O primeiro, “Na marca do pênalti” foi êxito de vendas. Agora ele vem com “O batedor de faltas”. É para conferir e aguardar depois o lançamento em Santa Maria para pegar o autógrafo dele.




GAÚCHOS FAZENDO GOLS NAS LETRAS
Walter Galvani, em 23/05/2008

Crônica publicada neste final de semana no Diário Popular, de Pelotas, o mais antigo jornal diário em circulação no Rio Grande do Sul:

GOL DE LETRA

Walter Galvani

Os gaúchos andam por aí nas artes e nas letras e de vez em quando se converte um gol de letra, para sacudir as redes e mostrar que é possível, sim, fazer sucesso acima do Mampituba. É o caso de Cláudio Lovato Filho, nascido em Santa Maria, que se formou em jornalismo em Porto Alegre e hoje mora no Rio de Janeiro. Ele lançou, em 2002, “Na marca do pênalti”, e os seguidores do futebol sabem bem o que quer dizer a bola naquele pequeno círculo de cal, distante poucos metros, ou melhor, na cara dos goleiros e a responsabilidade do chutador. Dizem, aliás, nos subterrâneos do esporte, que o pênalti é uma coisa tão séria que quem deveria cobrar era o presidente do clube...

Depois daquele seu primeiro gol, Cláudio Lovato Filho seguiu adiante em sua carreira jornalística. Depois de atuar em Santa Catarina, hoje está fazendo gols no Rio de Janeiro e sua capacidade de goleador está sendo testada neste livro que apresenta agora pela editora Record, “O Batedor de Faltas”. Quem leu o primeiro já pode imaginar até onde Lovato pode ir. Aliás, costuma-se dizer que a literatura deve ao futebol um grande livro e o vice-versa. Quem sabe não se está diante do cumprimento deste desafio? Tomara e tomara que o gol seja de um gaúcho e jornalista.

Não são poucos os jornalistas que conhecem bem vestiários e gramados, que tratam a língua com intimidade e poderiam se aprofundar nos dramas e comédias deste esporte nacional. Mas, na maioria dos casos, a pressa e a necessidade de cumprir os compromissos profissionais, os deixa fora desta magnífica cancha com tantos leitores em potencial. E até poderiam ajudar e ampliar o número de leitores, promovendo a literatura no meio da multidão que acorre aos estádios ou que hoje, assiste pela televisão.

Poderiam, quem sabe, devolver a emoção que por vezes falta ao jogo em sim, resultado de certas tramas, arbitragens, leis e coisas piores que andam por aí... haja-se em conta aquele campeonato que o próprio juiz confessou que “deu” para o Coríntians sobre o Internacional de Porto Alegre. E outros que tais.

Pelotas tem uma grande tradição literária e esportiva. A palavra está com os craques da literatura e do esporte.




HOJE É O DIA DO ABRAÇO, MAS ONTEM FOI O DIA DO DESENVOLVIMENTO CULTURAL
Walter Galvani, em 22/05/2008

Crônica publicada hoje no Diário de Canoas, minha terra natal

DIA DO DESENVOLVIMENTO CULTURAL



Walter Galvani





O dia de ontem bem que poderia ter sido assinalado por diversas atividades, mas a UNESCO ao instituí-lo, deve ter imaginado que são tantas as datas criadas para isso ou aquilo, que é preciso dar um pouco de tempo às pessoas, para ver se as coisas “pegam”. O Brasil serve de exemplo: aqui há leis que “pegam” e as que “não pegam”, sinaleiras que “pegam” e que “não pegam”. Pois, ontem foi o Dia do Desenvolvimento Cultural.

Em Canoas, não tem sido descurado este aspecto da atividade no município, tanto que a direção do Departamento Cultural está entregue à uma pessoa que conhece o setor, que tem folha de serviços prestada e continua em intensa e entusiasmada atuação: Ivone Frare. Ela tem contribuído com sua experiência e conhecimento ao andamento da cidade que, curiosamente, parece ter nascido sob o signo da atenção para com a Cultura, tantas tem sido as promoções, eventos e atividades que, ao longo dos anos tem acontecido.

Pena que não está mais em nossa cidade a “Casa Arte” que se mudou para a rua Cel Bordini, em Porto Alegre, mas, pelo menos lá na capital, continua a projetar Canoas, pois foi aqui que ela nasceu, os que atuam no setor sabem muito bem disso e os que dela se aproximam, logo ficam sabendo, porque o seu proprietário jamais esconde dois fatos fundamentais em sua vida: a “Casa Arte” nasceu em Canoas; e ele também. Casualmente, Darwin Luiz Longoni, descendente de uma família prestigiosa de nossa terra, filho que é de Jacob Longoni, que foi inclusive vice-prefeito, por seu turno gerador de uma prole numerosa, como nos velhos tempos, também nasceu aqui, ali nos altos da rua Santos Ferreira, um dos núcleos iniciais de povoação local e nesta data de ontem esteve de aniversário.

O “Dia do Desenvolvimento Cultural” deve servir também para homenagear Francisco Trois, que, como presidente da Fundação Cultural Canoense, mestre internacional de xadrez e homem de cultura, integrante de uma família que por isso também se destaca, tem levado adiante intensa e valiosa atividade, por exemplo a comemoração do Dia Internacional do Livro, transcorrido a 23 de abril.




UM ACORDO PARA 240 MILHÕES
Walter Galvani, em 18/05/2008

Crônica publicada hoje no jornal ABC DOMINGO, órgão do Grupo Editorial Sinos, que circula em Novo Hamburgo, sua sede, Porto Alegre e toda a região metropolitana

O ACORDO E O DESACORDO
Walter Galvani


A Assembléia Nacional Portuguesa aprovou sexta-feira o Acordo Ortográfico que, em verdade carecia disso para entrar em vigor, embora o Brasil já o houvesse ratificado desde 2007, junto com as repúblicas do Cabo Verde e de São Tomé e Príncipe. São 230 milhões de falantes da língua portuguesa no mundo e o Brasil contribui com 180 milhões, aproximadamente, talvez um pouco mais, porque as coisas são muito rápidas em nosso país e quando este texto estiver sendo lido, já estaremos mais a frente...

O acordo que estava sendo chamado de “desacordo” em Portugal, altera 0,43% do dicionário brasileiro e 1,42 do português europeu e da maioria das suas ex-colônias africanas que de um modo geral seguiram a norma lusa. A extinção do trema, que a maioria já não usava no Brasil é mudança para nós, junto com a queda dos acentos diferenciais e o retorno de três letras ao alfabeto, K, Y e W, que passa para 26 a partir da entrada em vigor, que o MEC estabeleceu para 2010. Desde a aprovação pelos deputados, publicação no diário oficial e sanção do presidente Cavaco Silva que disse de sua posição favorável, contar-se-ão mais seis anos, portanto, 2014 é o portal. Timor Leste que se tornou independente em 2002, deverá também assinar o acordo, mas a guerra lá, com a presença de muitos professores brasileiros aliás, é pela propagação da língua portuguesa, suplantada em muitas regiões pelo tétum, que predomina sobre cinco dialetos ou mais. Há problemas semelhantes também de choques com línguas locais, na Guiné Bissau e, é claro, nos enclaves coloniais que ainda geram o cultivo do português na Ásia, como Goa, Damão, Diu, Macau, ou na chamada “diáspora portuguesa”, os cerca de 2.500.000 de emigrados e seus descendentes, em especial na Europa, nos Estados Unidos e na Venezuela. E problemas a menos em Angola e a mais em Moçambique. É uma língua muito falada e predominante na maioria dos lugares aonde chegou, dada à superioridade tecnológica, militar e econômica dos descobridores e viajantes portugueses. No Brasil mais ainda, pois apenas resistem alguns focos históricos indígenas na Amazônia, cada vez em menor número, esmagados e conquistados pelo falar brasileiro, pelo cafezinho, o futebol, o carnaval e a televisão.







TUDO COMO DANTES OU... UM DIA HÁ DE MUDAR?
Walter Galvani, em 17/05/2008

Crônica publicada neste fim-de-semana no Diário Popular, de Pelotas.
Amanhã trataremos aqui do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa


QUARTEL DE ABRANTES



Walter Galvani



À margem direita do rio Tejo, uns 90 quilômetros acima de Lisboa, fica uma pequena cidade portuguesa que resistiu mas caiu em mãos dos invasores franceses do general Junot, vanguarda das tropas napoleônicas, em 1807. Quando a situação se normalizou, para retratar a tranqüilidade que substituiu a presença dos franceses, expulsos pela reação lusitana, cunhou-se a expressão “Tudo como dantes no quartel de Abrantes”, para significar a calmaria, dir-se-ia até a mesmice que ali voltou a reinar. Desde então, nos países de língua portuguesa, a frase quer dizer que tudo continua igual, bom ou ruim, como antes e como sempre.

Não seria de estranhar pois que se utilizasse tal expressão, para dizer como vão as coisas no Brasil. Sim, porque a CPI do Detran descobriu 44 envolvidos, 1 milhão por mês manipulado, um certo senhor José Aparecido Nunes Pires que deixou vazar no ministério da Dilma, os gastos do senhor Fernando Henrique Cardoso, altos funcionários e familiares e os bandidos tentaram matar esta semana o repórter Edson Ferraz, da TV Diário de Mogi das Cruzes, porque ele denunciou propinas no seio de uma organização espelhada no tal de Bope, e que se chama Grupo de Repressão a Roubos e Assaltos, como se para isso precisasse um grupo especial e não fosse a função precípua da polícia. Da civil e da militar. E até dos cidadãos comuns. Tem mais: bandidos continuam ocultando o rosto sob capuzes na hora de agir e sob a camisa quando são presos, porque, em verdade eles andam por aí, com a cara mais feliz do mundo, despreocupados, como se fossem gente boa que acabou de fazer as compras da semana no supermercado.

Temos portanto um Brasil violento que mata, esfola e atira pela janela crianças de cinco anos, um Brasil de colarinho branco que assalta os cofres públicos e um Brasil noturno que assalta com uniformes da polícia militar, roubados também, naturalmente sem falar nos ladrões de documentos, de terras e até da esmola da missa dominical.

Procurando nos arquivos jornalísticos, vê-se que há cem anos é a mesma coisa. Pois muito bem, então, feitas as contas, dá para exclamar como em Portugal, há duzentos: “Tudo como dantes no quartel de Abrantes”...






NÃO PRIMA, ESPREMA!
Walter Galvani, em 15/05/2008

O que andam a fazer com a língua portuguesa e a culpa que não é de Paulo Coelho...
Uma visita a Feira do Livro de Guaíba e um passeio pela Internet


NÃO PRIMA...

Walter Galvani


Guaíba, a cidade onde moro, que fica do outro lado do magnífico lago que tem este mesmo nome, na frente de Porto Alegre, a capital dos gaúchos que é administrada por um professor e compositor, José Fogaça, ex-senador, está realizando a sua 19ª. Feira do Livro, com poucas barracas (porque evidentemente não tem muitas livrarias) mas com muito boas intenções e presença constante das crianças das escolas da cidade. Aos sábados e domingos, já me disse o secretário da Cultura e Turismo do município, Vinícius Polanczyc, espera-se lotação completa de adultos com bolsos e bolsas abertas para comprar alguma coisa e honrar a tradição de uma cidade que está na raiz da Revolução Farroupilha.
Sempre é bom lembrar que aqui morava Gomes Jardim, primeiro presidente da República Rio-Grandense, que aqui esteve inúmeras vezes o general Bento Gonçalves da Silva, aliás comandante em chefe, também presidente e o grande líder do movimento farrapo e daqui partiram os invasores de Porto Alegre a 20 de setembro de 1835.
Ah, o patrono é o Luiz Coronel.
Ontem, tocou-me a vez de falar para os guaibenses sobre a atividade literária e especialmente sobre leitura pró-ativa ou proficiente e escrita criativa ou criadora, que se constituem nos temas das minhas oficinas e palestras neste momento.
Os adolescentes fizeram as mais variadas perguntas, não tantas como eu gostaria, por causa da timidez natural dos jovens, mas algumas foram bem curiosas e interessantes, como uma menina que me pediu minha opinião sobre Paulo Coelho. Respondi com sinceridade que, embora não o considere nenhum Machado de Assis, acho que tem uma excelente contribuição a dar à literatura brasileira e é muito valiosa a sua atuação como um “best-seller” que atrai leitores do mundo todo e propaga o nome do Brasil pelo mundo afora. Vende milhões de exemplares e se dedica a dar asas à sua imaginação, o que já é alguma coisa neste mundo conturbado e difícil.
Ah, e vem aí uma biografia dele pelo Fernando Morais, grande escritor e jornalista, autor de um livro famoso sobre Chateaubriand, que denominou “Chato, o rei do Brasil”.
E então a garota respondeu-me:
“Graças a Deus que o senhor pensa assim, porque uma professora me deu zero numa redação e disse que era por eu ter citado Paulo Coelho, que, para ela não é ninguém na literatura.”
Pois é...
Outra pergunta curiosa foi de alguém que me perguntou o eu achava da linguagem que está sendo usada na Internet e se isso não é uma “diminuição”, uma redução para a língua portuguesa.
Respondi que não, que a língua não é estática e que historicamente as línguas, para não morrerem se renovam e no primeiro momento ninguém pode estabelecer se estão adequadas as mudanças que acontecem. Não se pode engessar uma língua, eu disse. Amanhã ou depois, certos procedimentos e determinados neologismos, estarão incorporados ao português que obedece a norma culta.
Pois não é que fui ligar para uma companhia aérea para saber preços e horários e levei uma pela cabeça para aprender a não me meter a lingüista?
Apareceu, bem nítido no meu monitor, um recado: “Não prima nenhuma tecla que estamos processando a informação.”
Bem, agora é demais... Não é nenhuma inovação, trata-se de ignorância mesmo. O criador do site da tal companhia quis mostrar uma erudição que não tem. Ora, não “prima”. Prima, pelo que eu sei, é a corda de certos instrumentos que acionada produz o som mais agudo...
Ele queria dizer provavelmente para o internauta não premer nenhuma tecla.
Espremer o autor do abuso é o que se deveria fazer, pois aqui não se trata de economizar tempo, ser expressivo, usar uma gíria limitada à idade dos freqüentadores da Internet e que, dessa forma fecham seu mundinho e se fazem entender por quem é da tribo, não é nada disso, não.
É ignorância mesmo.




UM VIOLINO STRADIVARIUS OU UM CONCERTO DE 4 MILHÕES
Walter Galvani, em 13/05/2008

Quatro milhões de dólares naturalmente. Esta terça-feira foi assinalada por este fato extraordinário: Philippe Quint esqueceu num táxi o seu violino Stradivarius do tipo Kiesewetter, que vale 4 milhões de dólares.
Trata-se de um instrumento de 1723 e o taxista, um imigrante egípcio, Mohamed Kahlil, procurou o dono e devolveu-lhe o instrumento. Ganhou 100 dólares de recompensa e uma medalha da prefeitura de Newark, Estados Unidos, onde atua, junto ao aeroporto Newark Liberty International.


Mas, o músico Quint não deixou por isso...
Nesta terça-feira ele faz uma apresentação especial para o taxista egípcio junto ao seu ponto de taxi e lhe entrega convites para o concerto que vai realizar no Carnegie Hall em setembro.
O violinoi foi feito pelo italiano Antonio Stradivarius, o mais famoso "luthier" de todos os tempos e o criador dos mais qualificados violinos e pertenceu a um compositor alemão do século XVIII, Kiesewetter.
Em reais, o valor hoje está em torno de seis milhões e seiscentos mil...
Pode ser que você não saia tocando bem ao ter um Stradivarius nas mãos, no entanto já é um caminho.
Paganini, claro, tinha um Stradivarius.
De vez em quando surgem falsificações do instrumento famoso, mas não é o caso deste, que pertence a Sociedade Stradivari e que organiza o empréstimo do violino que aliás pertence ao casal Clement e Karen Arrison).
Era nessa condição que estava em mãos de Philippe Quint.



O DIA DOS FILHOS
Walter Galvani, em 11/05/2008

Uma comemoração que vem desde os tempos da Grécia clássica, popularizada no mundo moderno pelos Estados Unidos, o Dia das Mães acabou transformado numa data comercial. Mas, as mães do mundo ocidental comemoram o seu dia com muita devoção. Eu diria que é o Dia dos Filhos.Mexam-se.
Crônica publicada hoje no jornal ABC DOMINGO, do Grupo Editorial Sinos:


DIA DOS FILHOS

Walter Galvani


Gosto de recordar neste dia que acabou dedicado às mães, apesar dos protestos constantes, pois todos sabemos que “todos os dias são dias das mães”, que este é o dia dos filhos. Muitas senhoras fingem não lhe dar importância porque afinal de contas transformou-se numa promoção comercial, o que é verdade, mas espiam, quando chegam os filhos, se eles trazem algum pacotinho debaixo do braço. Não precisa ser grande coisa, não, muitas vezes há dificuldades financeiras o que com tanta deficiência de empregos é um fato corriqueiro. Minha mãe, por exemplo, que faleceu há quase vinte anos, sempre dizia: “Isso é bobagem, é só para vender, não precisava nada para mim”, mas precisava, sim.

Ela era das que espiavam e, se por acaso a gente fingia que não havia trazido nada, fazia um muxoxo de desprezo e ficava por ali, com um mau humor de cão que só se desfaria ao receber o presentinho até então escondido.

Cenas de uma vida familiar que não retornam mais e que, aqueles que ainda desfrutam da presença de suas mães, tratem de cultivar como uma pérola preciosa representativa do ser que mais amor tinha que lhe dar e só lhe dar amor.

Não vamos falar das mães ou madrastas que ignoram os filhos ou parecem conformados com o seu desaparecimento prematuro, nem daquelas que botam os filhos numa “roda dos expostos” ou, pior, atiram no lixo.

De minha parte, vou só me lembrar hoje que foi ela que me deu os maiores presentes que recebi: a vida, pois me abrigou no seu útero e me desenvolveu até que eu tive condições de desembarcar neste mundo e me alimentou durante os primeiros anos, direto da sua fonte que era a sua própria vida. Depois, me alfabetizou e me colocou em condições de enfrentar as classes escolares já em condições de enfrentar qualquer concorrência, naqueles velhos e difíceis tempos.

Dificuldades financeiras? Nas primeiras que tive, foi ela própria quem me ajudou. Vou parar por aqui, pois se fizer um levantamento decente do que tem sido minha vida, eu a encontrarei sempre na primeira linha. Até hoje, quando ela já partiu, pelo exemplo, pelas palavras, pelas demonstrações de amor. Não esqueçam: levem o presentinho. Não é nada, apenas uma lembrança.




O DIA QUE VIROU MARCO EMOCIONAL...
Walter Galvani, em 10/05/2008

Crônica publicada neste fim-de-semana no jornal A Razão, de Santa Maria:

DIA DAS MÃES E DOS FILHOS

Walter Galvani

Foi, no início uma promoção comercial. Mas, agora se tornou uma obrigação sentimental. Não há como escapar. Neste domingo visite sua mãe e não esqueça de levar um presentinho. Faz parte. Incorporou-se ao nosso dia-a-dia. Não há mãe que não fique feliz, principalmente com a visita do filhinho ou do filhão, tenha ele 5 ou 50.

Então, este domingo não esqueça. Arme-se de um belo sorriso, para a “velha” não desconfiar que o amigo está apertado ou tem problemas e compareça. Poupe-a de dramas. Nada de comentar o assunto da menina paulista jogada pela janela. Nem das mães assassinadas por maridos desvairados.

Procure passar um domingo perfeito, falando sobre os tempos em que ela lhe dava feijão na boca, já que o amigo não tem memória para o tempo das mamadas...

Ah, e nada de trazer à tona questões irresolvidas ou mágoas que ficaram dependuradas. Faça de conta que tudo passou e nada restou para discutir e também, não esqueça, dê o exemplo na frente dos netinhos.

Como se dá e recebe, aqui se planta e então vem o retorno, é importante transformar esta data, sem dúvida comercial, num acontecimento inesquecível.

Se você não tem mamãe vá a um asilo e dê um reconfortador abraço numa daquelas senhoras que, possivelmente, não vá receber a visita de ninguém.

Nesse caso estará o amigo contando pontos para sua caminhada no lado de lá e, ninguém está livre disso.

Vamos aproveitar para comemorar uma porção de coisas, como o fim da crise do dossiê do FH, a promoção do Brasil pela agência americana que classifica os países onde se deve investir, enfim, são presentes que qualquer mãe aprecia.

O friozinho que aí está é sempre agradável, bem melhor do que a ameaça de enchentes, e nossos produtos, valorizados por este clima que nos deram aqui no Rio Grande, baterão recordes este ano, de produção e colocação no mercado. O momento é excepcional. Coisa para mãe, mesmo.

Não vamos deixar que assaltantes, criminosos, ladrões, papagaios ou pais amaldiçoados e madrastas de Cinderela continuem nos tirando o sono. Pelo menos um dia, vamos brincar de melhor dos mundos...




ARTUR DA TÁVOLA PARTIU PARA FICAR
Walter Galvani, em 09/05/2008

Morreu ontem no Rio de Janeiro, um dos maiores cronistas de um país de cronistas, este nosso Brasil: Artur da Távola, que escrevia para o jornal "O Dia", do Rio e mantinha um blog na Internet, como a maioria dos escribas está fazendo.
Paulo Alberto Monteiro de Barros, o Artur da Távola, faleceu por problemas cardíacos que já vinham desde o ano passado, ontem, aos 72 anos.
Deixou uma última nota na web. Ei-la:


"Embora enfermo desde agosto de 2007, com risco de vida, nas breves oportunidade em que não esteve internado, o titular deste blog nele não mais pôde escrever. Ele ficou aberto sujeito à interferência de internautas que se comprazem em entrar em domínios alheios.

Embora não mais internado em hospital prossigo em tratamento doméstico e assim será por algum tempo. Nessas circunstâncias, peço desculpas a quem o procure. Ele está momentaneamente congelado por seu titular. Espero voltar na plenitude de minhas possibilidades dentro de dois ou três meses. E conto com sua compreensão."





OS ABSURDOS QUE ACONTECEM NA INTERNET
Walter Galvani, em 08/05/2008

Fora do nosso controle... É bom que os pais saibam o que ocorre no mundo virtual.
O alerta é do inteligente diretor da Delegacia de Assistência da Crianã e do Adolescente do RGS.
Crônica que publico hoje, dia 8, no Diário de Canoas, jornal do Grupo Editorial Sinos, em minha terra natal.
Leiam por favor. Ficarão estarrecidos.


O QUE OS PAIS NÃO SABEM
Walter Galvani

“Interesse-se mais pela vida social dos seus filhos!” – recomenda o dr. Anderson Spier, delegado titular do DECA (Delegacia da Criança e do Adolescente do RGS), portanto com ascendência sobre todo o estado. Felizmente estamos ouvindo de uma autoridade pública um “aviso aos navegantes” que não deve ser negligenciado, em especial por aqueles “navegantes” da Internet, porque é lá que mora o perigo. Freqüentemente se ouve e vê em festas e contatos sociais, dos problemas de filhos e netos adolescentes que nada mais fazem além de “navegar” durante toda a noite e a madrugada e dormir na manhã seguinte, prejudicando seu estado físico e sua freqüência às aulas. É pena. “Tudo está bem, quando termina bem” como diria o sábio Shakespeare no século XVII, mas quem nos garante?

O del. Anderson chama a atenção para a quantidade de ameaças que transita na web, as promessas de encontros chocantes, lutas, brigas, tiros, coices, bofetadas, tóxicos e os atentados à lei e à liberdade, caracterizados principalmente pela calúnia e a difamação. “Pior ainda” – diz ele – “quando jovens utilizam imagens de ex-namoradas para expô-las nuas em seus blogs.”

Tudo isso é crime. Mas, como se sabe, “hecha la ley, hecha la trampa”, é assim que se passam as coisas no Brasil. E no mundo. E em Canoas, não se iludam, que estamos perfeitamente integrados nesta falsa modernidade. Os nossos jovens também marcam encontros, namoram, prometem surras e aprontam na Internet, como todos os adolescentes que hoje se utilizam deste novo meio que lhes foi disponibilizado. Se fosse tudo para o bem, seria ótimo, mas não sabemos, não é mesmo? - ainda mais o que se passa nas madrugadas de um município que, além de tudo é o campeão da violência com 41 mortes nos primeiros quatro meses do ano.

A observação final do Anderson Spier é que me chamou mais a atenção, pela sua propriedade: “Aconselho aos pais que participem mais da vida social dos filhos.” Pena é que ele não está enganado. É difícil, todos sabemos, inclusive ele, que os pais comecem a participar mais “da vida social” dos filhos, pois o problema começaria na rejeição que a adolescência faz dos mais velhos, e além disso parentes. Mas, eis um caminho.




ATENÇÃO, ESTÁ CHEGANDO UM NOVO LIVRO DE VALESCA DE ASSIS
Walter Galvani, em 07/05/2008

Estou me incorporando à divulgação do novo livro da grande escritora Valesca de Assis. Lançamento dia 13 em Porto Alegre

Vão pensar que estamos fugindo !

A história de uma viagem quase impossível

Valesca de Assis



Palavras de Moacyr Scliar: “uma grande contribuição para a nossa literatura e para a nossa cultura”.

Neste ano de 2008 observa-se a edição de muitos livros [e de resto, de filmes, documentários e até comercias de TV] que tratam da vinda da Corte portuguesa para o Brasil. Com maior ou maior fidelidade e resultados estéticos, essas peças e documentos fazem chegar ao leitor um bastante completo quadro político, moral e social da época em que Napoleão e seus exércitos assolavam a Europa e, como num golpe de mágica, extinguiam dinastias e coroavam reis de opereta. O Brasil entra nesse quadro como a nova sede da monarquia de Portugal, resultado direto da vinda do príncipe Regente, sua família e toda a burocracia do Estado.

O livro Vão pensar que estamos fugindo ! – a história de uma viagem quase impossível não pretende ser mais um a tratar desse assunto, nem colaborar para a saturação do mercado, repetindo o que outros já disseram. Sua diferença está em dois níveis: em primeiro lugar, é um livro que se destina ao público jovem [embora as leituras prévias tenham demonstrado que podem ser acompanhadas, e com ganho e prazer, pelos adultos]; em segundo lugar, é um livro que fixa seu olhar exclusivamente sobre a longa viagem marítima de Lisboa à Bahia e depois ao Rio de Janeiro.

Foi, pode-se dizer, uma viagem épica, em que o motivo condutor tem como mote uma frase de Napoleão em Santa Helena, de que D. João foi o único príncipe que o havia enganado. Foi épica pela quantidade de circunstâncias enfrentadas – e vencidas. Foi épica pelas poderosas e dramáticas forças em jogo. Foi épica, enfim, pelo drama pessoal de D. João que nesta viagem, foi capaz de refletir não apenas sobre o destino da Casa de Bragança, mas sobre seu destino pessoal de homem fraco por natureza, mas forte quando os fatos assim o exigiam. E isso tudo ocorre entre as ondas do Atlântico, em meio a pragas de piolhos, enjôos, nobres esfarrapados, má comida, má bebida, ausência de privacidade e tramas familiares.

Escrito em linguagem límpida e cativante, a premiada autora Valesca de Assis vai construindo seu texto como se fosse uma longa história contada ao pé do ouvido, uma história em que o leitor tomará contato com questões ainda nunca declaradas. Pela mão de quem sabe escrever, é desvendado todo um universo de intrigas, contradições, amores e ódios. Um universo que conquista o leitor da primeira à última página e que, nas palavras de Moacyr Scliar, "a notável escritora Valesca de Assis narra ao público jovem, com vivacidade, com humor e conhecimento". A obra terá lançamento e sessão de autógrafos na próxima terça-feira, dia 13 de maio, às 18h, na Palavraria (Vasco da Gama, 165)

Valesca de Assis é licenciada em Filosofia. Professora, tem atuado em atividades culturais, chegando à função de Presidente do Conselho Estadual de Cultura do Rio Grande do Sul. Estreou como escritora com A valsa da medusa (1990) Publicou depois A colheita dos dias, O livro das generosidades, Harmonia das esferas (Prêmio Revelação de Autor da Associação Paulista de Críticos de Artes), na seqüência Diciodiário. Participa, ainda, de diversas antologias, entre elas: A cidade de perfil, Nós, os teuto-gaúchos, Crônica & Cidade, Receitas de criar e cozinhar, O livro das mulheres, O João Carlos, Meia encarnada, dura de sangue, Contos de Bolso e Contos de bolsa.

O QUÊ: Lançamento do livro “Vão pensar que estamos fugindo ! – a história de uma viagem quase impossível”, de Valesca de Assis (Editora Bestiário, 2008, 38 páginas, R$ 18,00).

QUANDO: Terça-feira, 13 de maio, às 18h.

ONDE: Palavraria (Vasco da Gama, 165)




DEPOIS DO VENDAVAL...
Walter Galvani, em 04/05/2008

O Rio Grande do Sul conheceu um anti-ciclone com ventos de até cem quilômetros e chuvas intensas, o equivalente a dois meses choveu em dois dias.
Enquanto isso, para celebrar a euforia brasileira, vejam o carnaval que fizeram com nossa melhor de classificação para investimentos.
Esta crônica foi publicada no jornal ABC DOMINGO


NOSSO NARIZ, GOLAÇO E CARNAVAL

Walter Galvani

Euforia, perigosa euforia. Eis o retrato do que aconteceu no meio desses feriados e que muitos que merecidamente se ausentaram das atividades nem tomaram conhecimento dos fatos, ou apenas de maneira superficial. Pois acontece que a agência “Standard and Poors” que classifica os países segundo o grau de periculosidade para investimentos estrangeiros, promoveu o Brasil. “Foi um golaço do Brasil que a Argentina assistiu de longe”, registrou o jornal “El Cronista Comercial”, de Buenos Aires. O britânico “The Independent” diz que a economia brasileira “vive tempo de carnaval”.

Aí temos nosso retrato no exterior, onde naturalmente as duas pinceladas que trazem o Carnaval e o Futebol para o primeiro plano identificam com precisão o que é o país, mesmo na hora de um sério ajuste de contas com a economia internacional que permite esta inusitada classificação.

Lula, como legítimo representante das massas, não teve a sisuda reação de um professor de sociologia. Ao contrário, “mandou ver” e no encontro de governadores em Maceió, disse: “Agora somos donos do nosso nariz”.

Isso cheira mal, é óbvio, porque não é assim que se trata a economia. Mas, também duvido que se pudesse esperar de Lula ou de qualquer outro político brasileiro, o comentário digno com que os jornais ingleses apreciaram a animadora classificação do Brasil “para as semifinais” assinalando que a recuperação começou nos anos 90. Ou seja, ao tempo do professor Fernando Henrique, queira-se ou não.

Num ano de eleições, se alguém tiver boa memória isso significa muitas coisas, mas também é bom não esquecer que Lula (e o seu partido, porque ninguém governa sozinho), com todos os percalços representados pela corrupção que anda por aí, aprendeu a lição. Fez o tema de casa, direitinho, e seria uma demonstração suprema de grandeza se mandasse chamar em casa “o professor” e lhe prestasse também uma homenagem pública. Está bem, que faça isso depois das eleições de outubro para não ser acusado de babaca e de “entregar a rapadura”.

Assim, ninguém fica triste em definitivo e a velha figura do “brasileiro cordial” vai se mostrar mais uma vez.




AH SE EU TIVESSE TEMPO!
Walter Galvani, em 02/05/2008

Ocuparia todas as quartas-feiras deste ano até 10 de dezembro com o curso do Ivo Bender

Curso de Extensão Universitária
Departamento de Arte Dramática - IA - UFRGS
OFICINA DE CRIAÇÃO DRAMATÚRGICA
com IVO BENDER
Todas as quartas-feiras,
das 19h30 às 21h30
De 07 de maio a 10 de dezembro de 2008
(recesso em julho)

Objetivo: Proporcionar o aprendizado prático e teórico da criação de textos para teatro
Público Alvo: comunidade em geral, acima de 18 anos
Seleção: encaminhamento de currículo resumido (máx. 10 linhas)
e carta de intenção, via e-mail, até o dia 04 de maio


Informe-se pelo telefone 8175.0960
ou pelo e-mail: oficinadrama@yahoo.com.br


Local das aulas: Departamento de Arte Dramática
Rua General Vitorino, 255 - Centro - Porto Alegre


IVO BENDER, doutor em letras, é um dos mais importantes dramaturgos do teatro gaúcho. Suas peças estão publicadas em antologias como Teatro Escolhido, Nove Textos Breves Para Teatro, Entrenós (também com textos de Carlos Carvalho) e Trilogia Perversa. Publicou, ainda, as peças O Cabaré de Maria Elefante, O Boi dos Chifres de Ouro, Surpresa de Verão, Mulheres Mix.






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OLHO VIVO QUE A INFLAÇÃO DOS ALIMENTOS PODE CHEGAR AO BRASIL
Walter Galvani, em 27/04/2008

Crônica, publicada hoje no jornal ABC DOMINGO

INFLAÇÃO, ALIMENTOS, ELEIÇÕES



Walter Galvani





Há uma conjunção de fatores em nível mundial, que se une aos problemas nacionais, a perspectiva do segundo semestre, que já está na mira de todos os que precisam planejar minimamente, e o arroz! Ah, sim, o arroz, que está em setenta por cento das mesas de todos os países e que é, aliás, um dos fundamentos da alimentação global, já em alta na Ásia, logo logo o nosso seguirá o sinuoso caminho internacional. A própria FAO (a organização da ONU para a alimentação e a agricultura) já expediu o aviso de alerta. Olimpicamente nós o ignoramos no Brasil e, ao invés de ampliar as áreas agricultáveis, pensamos em outras soluções, mais capitalistas, mais voltadas para um “futuro” que pode estar ou não ali, ao alcance da mão.

Melhor, comeremos eucaliptos, mastigaremos celulose e todos seremos felizes. Se houver um governo capaz de transformar rapidamente as divisas que chegarão com o plantio destas árvores exóticas, aliás trazidas por um embaixador e ministro da Agricultura, Joaquim Francisco de Assis Brasil, não haverá “pardal” que obstaculize o nosso desenvolvimento.

Enquanto isso preparem seus corações e suas bolsas. E bolsos. A chegada da Inflação ao Brasil, depois de importarmos o fracasso americano no mundo dos negócios e da guerra de negócios sujos, será apenas um passo.

Quanto ao arroz, estocar não adianta, até porque ele tem um alto índice de precariedade. Trata-se de um alimento perecível, e não há como adiar seu cultivo, sua colheita. Chegou a época, chegou. É colher e comercializar. Comer. Ou perder a safra.

Não tenho lido muitas advertências, não tenho ouvido políticos e administradores brasileiros muito preocupados. Tenho mais ouvido falar em eleições, em apuração de crimes, aliás, gastam-se muitos eucaliptos na impressão de versões fantasiosas ou não, preparam-se espetáculos de televisão para esclarecer o que está na cara, fomenta-se a repetição de maldades, os criminosos passam ser “astros”. Não vejo ninguém arrancar a camisa com que estes bandidos, uma vez filmados ou fotografados, tapam o rosto para impedir a sua identificação, quando deveriam ser expostos a luz do dia ou dos refletores e “flashes” para que todos saibam quem são.








ANTIGOS REDATORES DA FOLHA DA TARDE SE REÚNEM
Walter Galvani, em 23/04/2008

No Restaurante Copacabana, em Porto Alegre, neste sábado, 26 de abril, estarão reunidos os antigos redatores e repórteres do jornal "Folha da Tarde" que não circula mais desde 1984. É a "festa de aniversário". Desta vez, 72 anos, "se vivo fosse"...
Relembrando o encontro que se produz praticamente cada ano, transcrevo a bela crônica que o Vinícius Bossle escreveu em 2003, e então publicou no jornal
ABC Domingo:


REENCONTRO INESQUECÍVEL


Walter Galvani


Vinícius Bossle escreveu um texto primoroso, depois de participar, no ano passado, de um dos encontros anuais (agora bi-anuais) promovidos pelos antigos redatores e repórteres da Folha da Tarde, no restaurante “Copacabana” em Porto Alegre, que perenizou a homenagem ao grande jornal desaparecido há 19 anos, quando da terrível crise financeira que abateu os jornais da Caldas Jr., então dirigida pelo Dr. Breno Caldas, “em pleno vôo”, como costumava dizer um dos seus diretores, também já falecido, Edmundo Soares.
Neste fim-de-semana o “Copacabana” reuniu, outra vez, aquele grupo que se encontra só para matar a saudade e inaugurar na parede do Salão “Folha da Tarde”, uma reprodução da página inteira que o jornal ABC DOMINGO, do Grupo Editorial Sinos, publicou com o texto do Vinícius e as fotos de Alceu Feijó, uma “dupla histórica”, pois atuam juntos há mais de cinqüenta anos.
Sob o título geral de “Dezoito anos de muita saudade”, são vários textos, assinalando o hábito da reunião dos velhos companheiros, “a dor e a alegria” que marcam estes encontros, tornando-os “momentos inesquecíveis”. E finalmente, sob o título:
“A Folha não morrerá jamais”,
assim escreveu Vinícius Bossle:
“Não se falou na questão, mas ela existe. Não só nos nossos corações, mas no de todos que uma vez foram leitores da Folha da Tarde. Oficialmente ela existe. Mas não circula. Não seria tempo e hora de quem detém o título pensar no seu retorno? Nem seria para a maioria de nós, que já dependurou as chuteiras e está fora do jogo. Mas para as novas gerações de jornalistas e profissionais de outros setores, carentes de uma oportunidade de mostrar sua competência e talento. E também pela cultura e a grandeza do Rio Grande do Sul.
Quem sabe até volte o tempo de glória, e tudo acabe trazendo dividendos para os atuais proprietários do vespertino, que deixou tanta saudade. Benefícios não só materiais como morais. Nos dias correntes já não se faz mais um vespertino que talvez se defrontasse com problemas de distribuição e acesso ao seu público. Mas nem se tentou.
Com seus 100 mil exemplares de circulação às segundas-feiras, carregada de uma massa de publicidade, a Folha da Tarde reinou por quase meio-século. Estava sadia, plena de vida e vigor quando sua circulação foi suspensa. Envolvida pela grande crise da imprensa nacional, não sobreviveu. Mas sobreviveu, no coração do povo gaúcho. Nós, que durante tantos anos fomos os intérpretes dos sentimentos dos leitores da Folha, é que estamos afirmando isto, e é a grande e irrefutável verdade. A Folha está viva e não morrerá, jamais.”
Cada um dos participantes deste almoço que reúne em média de vinte a trinta antigos colegas, recebeu uma cópia impressa da matéria do ABC, que por outro lado foi para a parede do salão, onde os clientes do “Copacabana” podem apreciar agora, toda a história do jornal, várias fotografias de outros encontros, charges publicadas com a presença de companheiros de variadas épocas e outros documentos fantásticos.
O Salão “Folha da Tarde” tornou-se num pequeno, vivo e atuante “museu” do jornalismo riograndense.
Mais uma vez estiveram lá velhos companheiros de trabalho, deixando bem claro a falta que faz um jornal, além de tudo um jornal como a Folha da Tarde, cujo espaço não foi ocupado.
“Tal é o vazio que deixamos” – dizem eles com o conhecimento de causa que a própria cidade neste testemunho vivo lhes transmite.
“Folha da Tarde”, jornal vespertino e em formato tablóide, foi fundado a 27 de abril de 1936 e circulou até o dia 14 de junho de 1984. Nestes últimos dezoito anos, os antigos jornalistas se reúnem para reverenciar sua memória, marcar um reencontro inesquecível e examinar o jornalismo que se faz no dias que correm e lembrar o que se fazia. Chegou em seus melhores momentos à uma tiragem superior a 100 mil exemplares, quando a população de Porto Alegre e sua região metropolitana, onde circulava preferencialmente, era pelo mínimo três vezes menor do que hoje.
Consagrou o formato – hoje todos os jornais do Rio Grande do Sul são tablóides – e o estilo de jornalismo com grandes reportagens alternando com pequenos tópicos e colunas personalizadas




O LIVRO E A LEITURA DOMINARÃO A SEMANA
Walter Galvani, em 20/04/2008

Troquem livros. Dêem livros. 23 de abril é o Dia Mundial do Livro.
A próxima semana terá o Livro como assunto dominante.
Crônica publicada na edição deste domingo, do ABC DOMINGO,órgão do Grupo Editorial Sinos.
Circula a partir de Novo Hamburgo, sede do Grupo Sinos, por toda a Região Metropolitana de Porto Alegre, Encosta da Serra, Vale do rio dos Sinos (Rio Grande do Sul, Brasil)


O DIA DO LIVRO SERÁ MUNDIAL

Walter Galvani

Quarta-feira da semana que entra é Dia de São Jorge e o Dia Mundial do Livro. A nascente da data é romântica e inspiradora: na Catalunha, aproveitando este dia que assinala em 1616 a morte de Cervantes e Shakespeare, e também o falecimento de Garcilaso de La Veja, os homens costumavam presentear suas mulheres com uma rosa. E elas, lhes retribuíam, com um livro.

Este belo e motivador costume foi ampliado pela Unesco que, aos poucos foi fazendo chegar a praticamente todo o mundo, o cultivo deste hábito. E assim, as organizações encarregadas de promover o livro e a leitura foram se encarregando de promover a comemoração, como o faz aqui entre nós de uns anos para cá, a Câmara Rio-Grandense do Livro.

O resultado é que este ano pelo estado inteiro ocorrem festejos para assinalar a presença deste nosso infatigável e insubstituível amigo, o Livro, que afinal “é o abrigo predileto da sabedoria”, segundo Harold Bloom, por exemplo, um dos seus maiores defensores.

Durante toda esta semana, depois de Tiradentes, sem fazer ironia, aqueles que escaparem do massacre do “feriadão”, estarão reunidos diante de um altar que tem como santo, este volume impresso e colado, que sucedeu seu antepassado o papiro e outros menos votados, onde nos está prometido o paraíso, o inferno e outras atrações colaterais.

Não existe progresso individual ou coletivo, sem a presença do Livro. Em verdade, é ele que provocou ao longo do tempo, guerras e revoluções, a paz e a sapiência, a consagração e o progresso, nunca o esquecimento.

Hoje se fala muito em aperfeiçoamento individual, como instrumento da sociedade. Como chegar a operar esta arma? Só através do livro e da leitura. Está bem que a audiência de rádio, a assistência à televisão e o acesso a Internet, ajudam. Mas, sem a leitura dos jornais, aprofundada e eu diria, carnal, bem como o mergulho nas páginas dos livros, não se chegará à nada.

É preciso fugir à superficialidade, alcançar níveis mais profundos de conhecimento e o único atalho conhecido, é a Leitura, com L maiúsculo.

Então, feliz 23 de abril. Troquem flores e livros. Com as bênçãos de William Shakespeare ou Miguel de Cervantes ou Garcilaso de La Veja. Boa leitura.




TEMPOS DIFÍCEIS (E NÃO SÓ PARA OS ÍNDIOS)
Walter Galvani, em 19/04/2008

Hoje, 19 de abril, é o Dia do Índio no Brasil. Tempos difíceis, mas também para os oriundos de caucasianos europeus como a população branca do país. Ou para os descendentes de pretos da África.
São tempos difíceis.
Crônica a ser publicada neste fim-de-semana do jornal "Diário Popular", de Pelotas, maior cidade da Região Sul do estado:


TEMPOS DIFÍCEIS
Walter Galvani

Por vezes se torna difícil ser ameno, pitoresco, amável, agradável, quando em volta tudo parece desmoronar. Falo em termos coletivos, é óbvio, pois em termos pessoais é preciso seguir a velha receita de Rudyard Kipling, o grande poeta do período máximo do “império britânico” (sim, antes do “império americano” houve o britânico... e muito antes disso o romano, como o otomano, o macedônio, o persa...). Voltemos à receita do poeta: o famoso poema “If”, o “Se”, que recomenda que, é preciso manter a calma, “mesmo quando todos em redor já a perderam” e enfim, opina ele, “serás um homem, meu filho!”

Vamos reconhecer que a famosa e imperturbável “fleugma britânica”, o histórico procedimento individual de estar acima de todas as perturbações e assim pautar o comportamento, também não resiste aos tempos modernos. Vejam, recordem o que tem acontecido na própria Inglaterra, nem vamos citar o caso “Jean Charles” pois, de deslizes policiais é feita a história desta difícil atividade, muitas vezes estes chamados “deslizes” são resultado de algum erro de avaliação. Fica fácil dizer isso quando não estoura no lombo da gente. Ou, acontece como no caso do brasileiro abatido a tiros em Londres, no metrô, uma simples suspeita, e não restou nenhuma possibilidade ou tempo para uma reação ou reabilitação.

É verdade que os tempos que correm são difíceis, mas se formos analisar a história da Humanidade, veremos que com maior ou menor complexidade, sempre foi assim. Naquele célebre dia 15 de março, célebre porque mudou o chamado “curso da História”, de que lado estaríamos se convivêssemos com Julio César? Ao lado do imperador que, dizia-se, pretendia transformar-se em Ditador? Ao lado dos conspiradores no Senado que pretendiam “livrar Roma” do perigo fascista?

E por aí vai. Com os desastres da sociedade no mundo moderno, somos obrigados a concluir, quem sabe, que as melhores intenções se perderam pelo caminho. E acrescentar com o velho provérbio de que, delas, as boas intenções, o inferno está cheio. Aliás, você acredita em Inferno? Paraíso? O bom mesmo – e o mais difícil – é acreditar sinceramente em alguma coisa. Religiões há para todos os gostos. Só a ética salva a alma humana? Todos sabemos. E será que isso basta? Eis a pergunta do momento. Dias difíceis, vivemos.




LEITURA PRÓ-ATIVA ESCRITA CRIATIVA
Walter Galvani, em 19/04/2008

Leia mais sobre a oficina que Walter Galvani vai realizar na Fundação Cultural de Canoas, no site da Fundacan, www.fundacan.com.br e no site do Galvani: www.waltergalvani.com.br
Em comemoração a Semana Internacional do Livro (de 22 a 26) e o Dia Mundial do Livro (23 de abril).
Ah, e dia 26 no Restaurante Copacabana, em Porto Alegre, almoço de lembrança do pessoal da Folha da Tarde, pelo aniversário (72 anos) do antigo e consagrado "vespertino da cidade" (de Porto Alegre, gloria do jornalismo gaúcho)


24/4/2008 - 19h às 22h 1 - MÓDULO A1:
Objetivos da leitura;
Tipos de leitura: rápida, dinâmica, carnal.

MÓDULO A2:
Exemplos levantados no contato com os alunos;
A interação.





25/4/2008 - 19h às 22h 2 - MÓDULO B1:
As conseqüências de cada escolha;
A memorização.

MÓDULO B2:
Resultados e exemplos no contato com os alunos





26/4/2008 - 15h às 18h 3 - MÓDULO C1:
A escrita;
Objetivos de cada aluno.

MÓDULO C2:
A escrita criativa;
A pesquisa bio-bibliográfica;
Resultados e exemplos decorrentes da oficina





Saiba mais sobre a Oficina pelo telefone da Fundação Cultural de Canoas: faça sua inscrição.
Telefone (51) 30.59.69.38
Sobre Walter Galvani e sobre a oficina: www.waltergalvani.com.br e
www.fundacan.com.br
presidida pelo Mestre Internacional de Xadrez, Francisco Terres Trois
Neste domingo, na coluna de Hiltor Mombach, no Correio do Povo de Porto Alegre



FESTEJANDO O LIVRO INFANTIL
Walter Galvani, em 18/04/2008

Que sirva o dia de hoje, como um bom aperitivo para o Dia Mundial do Livro que está chegando aí no dia 23 de abril.

DIA NACIONAL DO LIVRO INFANTIL

A sociedade brasileira só acredita no futuro. Talvez como um resquício daquela célebre frase do escritor austríaco Stefan Zweig, “Brasil, país do futuro” tenhamos ficado com o gérmen desta certeza metafísica e aos poucos tenhamos nos convencido que com estes que andam aí, nada seremos. Portanto, acreditemos nas crianças...
Certo ou errado meu raciocínio, vejo tantas ações culturais dirigidas às crianças que acabo me convencendo mesmo que esta gente que já amadureceu não trará as mudanças que queremos, ou desejamos, ou precisamos.
Enfim, hoje é o Dia do Livro Infantil e esta homenagem a Monteiro Lobato, o genial criador do “Sítio do Picapau Amarelo” merece. Estou falando do livro e não do subproduto televisivo que, afinal de contas também vale, pois preencheu o lazer de tantas crianças durante tanto tempo, sem apelar para a violência gratuita ou paga... dos desenhos americanos e japoneses, por exemplo, que nos chegam todos os dias através da telinha.
É pena. Preferia que as crianças lessem. Espero que continuem lendo, a despeito da pressão dos grandes meios de transmissão.




QUE DIA, HEIN...
Walter Galvani, em 17/04/2008

O 17 de abril coleciona horrores na história da Humanidade. Em meio à uma ou outra amenidade. Um dia difícil. Leia:




1535 - Antônio de Mendoza é nomeado o primeiro rei da Nova Espanha, no México.
1582 - Hernando de Lerma funda a cidade argentina de São Felipe de Lerma, atual Salta.
1797 - Uma frota inglesa, defendida pelo governador General Ramon de Castro, ataca São João de Porto Rico, com intenção de conquistar a ilha.
1897 - A Turquia declara guerra contra a Grécia.
1898 - Guerra de Cuba: o Senado dos Estados Unidos proclama a independência da ilha de Cuba por 67 votos contra 21.
1925 - O general Gerardo Machado é eleito presidente de Cuba pelo Parlamento.
1989 - Os uruguaios legitimam, com 57,22% de votos, a lei que perdoa os militares da ditadura.
1919 - A Assembléia Nacional Francesa aprova a jornada de trabalho de oito horas.
1923 - O XII Congreso do Paritdo Comunista da União Soviética é aberto. Stalin e a direção do partido são muito criticados.
1931 - O Partido Comunista Brasileiro convoca os trabalhadores a fazer a marcha da fome, no Rio de Janeiro. A polícia, chefiada por Batista Luzardo, proibe a manifestação e reprime grupos de operários.
1934 - Leon Tróstki é expulso da França.
1941 - Segunda Guerra Mundial: a Iugoslávia se rende perante os ataques da Alemanha.
1941 - As tropas britânicas entram no Iraque.
1943 - Hitler exige que a Hungria prenda todos os judeus do país.
1943 - Na cidade do México, Jacques Monard é sentenciado a 20 anos de prisão pelo assassinato de Trotsky, um dos líderes da Revolução Russa de 1917 que se exilou no México.
1956 - Os Estados Unidos apresentam o avião Lockheed F-104 Starfighter, que possui velocidade dobrada e pode transportar armas atômicas.
1958 - A Exposição Universal, inspirada nos acontecimentos científicos, é inaugurada em Bruxelas. Participam da exposição 51 nações e várias organizações internacionais.
1961 - Cerca de 1,4 mil exilados cubanos nos Estados Unidos desembarcam na baía de Cochinos (Cuba), em uma tentativa frustrada de derrotar Fidel Castro.
1965 - Numa das maiores manifestações contra a guerra do Vietnam, 15 mil jovens norte-americanos participam de um protesto em Washington.
- O ex-beatle Paul McCartney lança seu primeiro disco solo depois da separação do grupo.
1975 - As forças comunistas do Exército Vermelho entram em Pnom-Penh, a capital de Camboja.
1983 - Um incidente diplomático retém por 50 dias no Brasil 4 aviões líbios com armas para a Nicarágua.
1986 - Três reféns britânicos, seqüestrados no Líbano, são assassinados, como forma de represália pela utilização de bases aéreas britânicas pelas forças dos Estados Unidos que bombardearam a Líbia.
1987 - Após uma tentativa frustrada de golpe de Estado contra o governo das Filipinas, uma pessoa morreu e três ficaram feridas.
1996 - Em confronto com a polícia, 19 trabalhadores sem-terra foram mortos em Eldorado dos Carajás, no Pará.
1997 - A Marcha dos Sem-Terra chega à Brasília.





DIA DE MUITAS MORTES, MAS TAMBÉM, DIA DE NASCIMENTO DE LEONARDO DA VINCI
Walter Galvani, em 15/04/2008

Que dia importante na história. Mas, afinal de contas, em 1452, há 556 anos, nascia um dos maiores gênios da Humanidade:Leonardo da Vinci!


1452 - Nasce Leonardo da Vinci, artista e engenheiro renascentista italiano.
1829 - O projeto de criação da Scotland Yard é apresentado à Câmara inglesa.
1856 - Uma sangrenta jornada no Panamá contra os mercenários do aventureiro norte-americano William Walker, causa 17 mortes e 28 pessoas feridas.
1865 - Morre Abraham Lincoln, presidente norte-americano.
1871 - Santiago González entra em São Salvador e constitui um governo liberal.
1912 - Nasce Kim Il Sung, presidente norte-coreano.
1901 - Nasce Ruhollah Jomeini, líder religioso e político iraniano.
1916 - Os Estados Unidos intervém militarmente na República Dominicana, com ocipação do território e anulação da soberania do país.
1918 - Um avião realiza o primeiro vôo sobre a Cordilheira dos Andes (desde Zapata, na Argentina, até Curicó, no Chile), tendo como tenente o argentino Candelaire.
1920 - Nasce Richard von Weizsaecker, político alemão.
1927 - Um grande terremoto atinge Santiago do Chile.
1939 - Nasce Jaime Paz Zamora, ex-presidente da Bolívia.
1940 - Segunda Guerra Mundial: Forças aliadas desembarcam em Narvik (norte da Noruega).
1948 - Um atentado com bomba feito pelo Partido comunista Brasileiro mata 34 pessoas e deixa mais de 100 feridas.
1950 - Iniciam os combates guerrilheiros liberais contra a ditadura civil do partido conservador.
1953 - Duas bombas explodem na Praça de Maio de Buenos Aires durante um discurso do presidente Perón: morrem 6 pessoas e centenas ficam feridas.
1959 - O ditador cubano Fidel Castro visita os Estados Unidos pela primeira vez depois da revolução.
1960 - Nasce Philippe Sajonia-Coburgo, príncipe herdeiro da Bélgica.
1961 - Aviões procedentes da Guatemala bombardeiam Cuba.
1968 - O secretário geral do Partido Comunista de Checoslováquia, Alexander Dubcek, e o novo presidente do país, Ludvik Svoboda, publicam um programa de medidas liberais.
1980 - Morre Jean-Paul Sartre, escritor e filósofo francês.
1982 - O Canadá adquire total independência da Grã Bretanha com a aprovação da nova Constituição do país.
1989 - Morrem 95 pessoas no estádio britânico de Sheffield, após a invasão violenta de 2 mil torcedores aos 6 minutos da partido Liverpool x Nottingham, pela semifinal do Campeonato Inglês.
1990 - Morre Greta Garbo, atriz sueca.
1997 - Morrem 343 peregrinos muçulmanos e 2 mil ficam feridos, em um incêndio em um acampamento em Meca, causado por uma bomba de gás de cozinha.
1999 - O candidato único, Abdelaziz Buteflika, ganha as eleições presidenciais da Argélia.





O MAIS ODIOSO DE TODOS OS CRIMES
Walter Galvani, em 13/04/2008

Crianças indefesas são vítimas inocentes de adultos covardes.
E há os pais que não se interessam pelo que pensam ou fazem ou aonde estão os filhos. E há pais (e mães) assassinos.
Crônica de hoje, domingo, dia 13 de abril, publicada no jornal ABC DOMINGO (o órgão dominical do Grupo Editorial Sinos), a seguir:


“ONDE ESTAVA VOCÊ, MAMÃE?”

Walter Galvani

Kate e Gerry, os pais da menina inglesa Madeleine, desaparecida na praia da Luz, no Algarve, Portugal, no ano passado e que pretendem agora se defender publicamente e promover o que fizeram e tem feito pelo resgate de sua filha, estão enfurecidos porque a polícia espanhola tornou público o que a sua correspondente portuguesa lhe transmitiu. E o que a polícia portuguesa tem em mãos é o conteúdo de uma ligação feita para o celular de Kate Mccan, a mãe, por Maggie, a menina. Disse ela: “Por que não veio ontem à noite, quando chorávamos?” – perguntava ela.

Esta pergunta há de martelar na cabeça dos pais e de todos os pais do mundo. Inclusive dos pais de Isabella, a menina jogada pela janela do edifício em São Paulo.

Como escreveria Ricardo Kotscho, autor de “Uma nova vida feliz – sem crachá e sem secretária”, que recomendo a todos os que ainda querem ter um pouco de tranqüilidade e, quem sabe, alguma dose de felicidade nesta vida, cada vez mais difícil – “há uma overdose de coisas ruins, crises permanentes, violências, tragédias, denúncias, escândalos, (...) que se sucedem num moto contínuo”. Ele propõe que se procurem outras pautas e tem razão, que a vida não é feita somente destes acontecimentos que resultam em notícias negativas.

Tem mais: tem toda a razão em dizer que o leitor, o telespectador e o ouvinte de rádio, estão cheios de desgraças e não querem mais saber de novidades deste tipo. O que também é verdade. Mas, infelizmente Maggie e Isabella, tão jovens e inocentes, nos cobram uma atitude desagradável e seguimos escrevendo sobre a desgraceira, na esperança de que a vergonha desça seu manto sobre a Terra.

Difícil, pois é aqui, em Portugal ou na Inglaterra, na Suíça ou na Etiópia, no Iraque ou nos Estados Unidos, que continua a covardia dos adultos a massacrar as pobres crianças que eles mesmos colocaram no mundo.

Um mundo, aliás, de egoísmo e horror. Um pesadelo.

Precisamos tomar uma atitude forte, passar a exigir leis mais rígidas, mais prisões para os assassinos e nada de liberdade. Ah, e uma boa pulseira eletrônica na perna dos que tiverem direito a sair da prisão para trabalhar. Não se pode é permitir que de concessão em concessão, se enfraqueçam as malhas da Justiça. Cadeia para os criminosos. É o que todos queremos.




BATALHÃO CONTRA A VIOLÊNCIA
Walter Galvani, em 11/04/2008

Estamos formando uma frente única contra a violência, a corrupção, as más notícias enfim.
Crônica publicada neste sábado, 12 de abril, nos jornais A Razão, de Santa Maria e Diário Popular, de Pelotas:


VIDA NOVA E FELIZ
O jornalista Ricardo Kotscho, que já foi, entre outras funções, porta-voz de um presidente da república, repórter, chefe de redação, escreveu um livro intitulado “Uma vida nova e feliz – sem secretária e sem crachá” – no qual defende, entre outras coisas esta opção que fez forçado, mas que, segundo ele, valeu a pena. Agora escreve para a Internet, colaborando com alguns sites e trata de escrever outro livro. Ele está defendendo a necessidade da Imprensa optar por outras pautas, esquecendo as “crises permanentes, violências, tragédias, escândalos”. Está difícil, não é Ricardo?

Em parte ele tem razão, pois as pessoas precisam encontrar nos jornais, nos noticiários de rádio e televisão, outras atrações. É lógico que uma notícia de assassinato ou um escândalo político, uma tragédia ou a violência, tudo isso chama a atenção das pessoas que acabam dedicando seu tempo a esmiuçar tais lamentáveis acontecimentos. Mas, é mais lamentável ainda que as pessoas estejam empregando seu tempo neste exercício de malignidade, quando podiam muito bem ouvir uma boa música ou assistir a um bom filme (que não tratasse também de violência...) É sim, a vida está difícil, comprimida entre o ódio e o rochedo, entre a impotência e a onipotência do mal.

Precisas, para uma vida nova e feliz, de leis mais rígidas. Precisamos que as autoridades (eleitas por nós...) mandem fazer uma varredura e tirem das ruas os menores, já que com os maiores não se pode fazer nada, se existirem crianças abandonadas que sejam recolhidas para asilos e instituições que delas tomem conta. Quando nos chocamos com a morte ou assassinato de uma criança da classe média, viramos os olhos para o mesmo crime que se comete diariamente contra outras pobres criaturas, estas da classe D e E.

Então, para dormir em paz, para ter “uma vida nova e feliz”, já temos a receita: basta estar em paz com a consciência e para isso, votar também é fundamental... Ou melhor: votar bem. Punir os que nos enganaram e tentar escolher certo desta vez. Eles são nossos representantes. E para isso os pagamos. E bem.




LEITURA PRó-ATIVA ESCRITA CRIATIVA
Walter Galvani, em 07/04/2008

Na Fundação Cultural de Canoas, de 24 a 26 de abril
Inscrições no local
Ministrarei uma nova oficina, agora de Leitura Pró-Ativa e Escrita Criativa


Programa da Oficina

24/4/2008 - 19h às 22h 1 - MÓDULO A1:
Objetivos da leitura;
Tipos de leitura: rápida, dinâmica, carnal.

MÓDULO A2:
Exemplos levantados no contato com os alunos;
A interação.





25/4/2008 - 19h às 22h 2 - MÓDULO B1:
As conseqüências de cada escolha;
A memorização.

MÓDULO B2:
Resultados e exemplos no contato com os alunos





26/4/2008 - 15h às 18h 3 - MÓDULO C1:
A escrita;
Objetivos de cada aluno.

MÓDULO C2:
A escrita criativa;
A pesquisa bio-bibliográfica;
Resultados e exemplos decorrentes da oficina






LER É MERGULHAR NO TEXTO
Walter Galvani, em 06/04/2008

Leia sobre a oficina de Leitura Pró- Ativa e Escrita Criativa que Walter Galvani vai apresentar ainda neste primeiro semestre.
Começará, como uma homenagem especial, em sua terra natal, Canoas, na Fundação Cultural:





LEITURA PRÓ-ATIVA
ESCRITA CRIATIVA


Esta será a denominação da nova oficina que o jornalista e escritor Walter Galvani estará ministrando este ano: “Leitura Pró-Ativa, Escrita Criativa”. Uma coisa é condicionante da outra. Só há uma possibilidade de começar a escrever de forma criativa e que possa trazer algum tipo de contribuição à literatura e à sociedade: é o resultado de intensas e constantes leituras. Mas, nunca a simples leitura epidérmica, como se olhando e movendo os lábios até, se for o caso, pudesse ser apreendida a essência do que está sendo transmitido. Não. “A leitura bem feita é uma coisa carnal”, afirma George Steiner, crítico literário do jornal “The New York Times” e da revista “The New Yorker”, nascido em Paris, de pais austríacos, e que viveu nos Estados Unidos e Inglaterra, professor de lingüística e de literatura comparada, hoje também professor na Universidade de Genebra.
O ensaísta e jornalista português Antônio Carlos Cortez pergunta, a partir das posições de Steiner: “Como podemos apreender o verdadeiro significado do corpo, da corporeidade da linguagem alicerçada na pele com que nos tocamos, nos rostos que entrecruzamos, senão através da carnalidade que todo o ato humano pressupõe?”
É sobre este tipo de leitura que Galvani quer trabalhar. Nestes tempos de tecnologia é preciso retroceder até convencer-se do ato sagrado da leitura, no âmago do silêncio e da introspecção.
O mesmo ensaísta Cortez coloca: “Não sei de nenhum aluno que, cometendo erros de sintaxe, desconhecendo história e geografia, menosprezando a literatura e os livros, aprenda a redigir um raciocínio coerente e coeso só porque possui, em sua casa ou na sua escola, um computador.”
Só com este tipo de leitura estaremos aptos a partir para a conquista de uma escrita criativa.
Leitura e muita leitura, não para livrar-se dos textos, nem para acabar depressa um volume. É voltando atrás, saboreando cada afirmação ou discordando dela, desafiando o que lê como um tradutor que enfrenta o imenso desafio da tradução. É assim que se lê. E é assim que se começa a escrever.
Sem esta compreensão, torna-se impossível o passo seguinte: a Escrita Criativa.
Ela é o próprio resultado da Leitura Pró-Ativa que precisa ser feita com a maior consciência e aceitação do tempo empregado, sem preocupações com a velocidade, as aparências da interpretação rápida e, muitas vezes, errônea.




O CAVALINHO ESTÁ NA CHUVA
Walter Galvani, em 30/03/2008

Lula, Dilma Roussef, o "espírito" de Fernando Henrique em armas, tudo vai e volta na política brasileiro.
Vamos conversar sobre tudo isso e mais alguma coisa na crônica publicada neste domingo no ABC DOMINGO, veículo do Grupo Editorial Sinos.


CAVALINHO NA CHUVA

Walter Galvani

Estamos em plena campanha eleitoral, ninguém mais tem dúvidas e, todos os dias, há pronunciamentos fantásticos ou bombásticos, próprios e impróprios, espantando mesmo os que esperavam não se espantar com mais nada. Lula legalizou a expressão “tirando o cavalinho da chuva” e obrigando à uma pesquisa que nos leva à origem, digamos “caipira”, da expressão que conduz à uma transferência de significado: começou negativa e migrou para a acepção de hoje. Mas, “tirar o cavalinho da chuva” mantém o conselho (no caso ele dirigiu aos seus adversários políticos) para que desistam, pois, disse Lula, “eu vou eleger o meu sucessor”. O presidente brasileiro foi mais longe e criticou George Bush, dizendo, em sua linguagem tosca mas muito bem compreendida pelo povo brasileiro, “Ô Bush, é o seguinte meu filho: o Brasil está há 26 anos sem crescer. Agora que a gente está crescendo vocês vêm atrapalhar! Pô, resolve a tua crise!” E ironiza oferecendo “know how” para solucionar com o programa de socorro aos bancos.

A esperteza de Lula não está no que diz nem ao oferecer uma improvável ajuda ao governo americano, mas em “como” diz o que diz: lançando mão de antiga expressão, compreensível “de cara” para todo o povo brasileiro, de ponta à ponta do nosso território, que ao ouvir a frase no rádio e na tevê ou vendo-a na manchete dos jornais populares, apreende imediatamente o significado. Então, Lula está falando “urbi et orbe”, como se um Papa fosse... E tem mais: “falou e disse”, sem complicações, com o olho e o ouvido nas eleições, nas próximas e nas futuras, fazendo com que muita gente corra para aliar-se a ele, pois não duvidam de que ele “fará o seu sucessor”.

Insegurança, violência, emprego, dengue, tudo isso se resolve pelo caminho, no recado que ele deu, desde que não atrapalhem o desdobramento do seu governo, através de um sucessor que, por enquanto pelo menos, pode ser Dilma Roussef, desde que esta não “suba no salto alto”, mantenha-se a “moda das mulheres no poder” e não haja nenhum grande fato novo, como uma derrocada americana exportada para cá, como Lula não quer...Nem nós, é claro.




TIRANDO O CAVALINHO DA CHUVA
Walter Galvani, em 29/03/2008

Crônica publicada no jornal Diário Popular de Pelotas, maior cidade da Metade Sul do Rio Grande do Sul, sobre a política, o jogo das palavras e o senso comum:

TIRA O CAVALINHO DA CHUVA

Walter Galvani

O trânsito das palavras é empolgante, nunca é organizado como o dos veículos nas estradas, onde um acidente é sempre resultado de um desrespeito às leis, seja (quase sempre) por excesso de velocidade ou ultrapassagem onde é proibido e (raramente) por falha mecânica. Os conceitos emitidos pelas palavras e expressões idiomáticas refletem filosofia, ideologia e praxis da vida, são móveis, sujeitos às mudanças que se processam. Quando um dirigente de um país, como é o caso de Lula que preside a maior nação de falantes da língua portuguesa (183 milhões), se utiliza de expressão popular ou dá um sentido a um vocábulo, é preciso prestar muita atenção pois, acaba de ser colocado na oralidade e na escrita uma forma de ver a vida. Assim quando ele diz, dirigindo-se aos seus adversários políticos, que fará o seu sucessor e que, portanto “podem ir tirando o cavalinho da chuva”, ressuscita uma forma singela de dizer que eles podem abandonar seus intentos, pois será inútil tentar enfrentá-lo. A origem caipira de falar: quando o moço chegava para uma visita rápida, deixava o cavalo amarrado diante do portão. E então, alguém, desejando que sua presença se prolongasse, mandava que ele fosse amarrar o animal debaixo de uma árvore, protegido ou dentro de um galpão: “Pode ir tirando o seu cavalinho da chuva”.

A expressão evoluiu para este sentido negativo, imperativo de uma determinação do “dono da casa”, como Lula, que manda o recado aos seus opositores: “Podem ir tirando o cavalinho da chuva, porque farei o meu sucessor”.

Também serve este episódio para mostrar o quanto Lula está sintonizado com o povo. Será entendido de ponta à ponta do território. Só de escutar a expressão na televisão ou no rádio, ou vislumbrar de longe a manchete dos jornais populares, já o “eleitor” entenderá o recado.

Não se pode dizer o mesmo do que disseram de Dilma Roussef: para elogiá-la os políticos a classificaram como uma “mulher arretada, guerreira e comandante.” Comandante e guerreira tudo bem, mas no Rio Grande do Sul, mulher arretada é a que é capaz de facilmente excitar-se sexualmente. E em outros pontos do país, arretado é o que foi vendido e pode ser comprado de volta. Só na Bahia e no Nordeste é que arretado quer dizer bonito, gracioso. Bola fora, contra as regras de trânsito das palavras.










EM BUSCA DAS PEQUENAS E VALIOSAS NOTÍCIAS
Walter Galvani, em 27/03/2008

Crônica publicada hoje no Diário de Canoas, minha terra natal, município a 14 quilômetros do centro de Porto Alegre (capital que, aliás, ontem comemorou seus 236 anos)

O PRAZER DE LER (JORNAL)

Walter Galvani

Assino dois jornais e leio mais uns dois, em média, diariamente. Freqüento as páginas “on line” de várias instituições confiáveis, como a BBC de Londres, “El País” de Madri ou a “Folha de São Paulo”, o primeiro jornal brasileiro a desenvolver noticiário na Internet. Hoje, praticamente todos os grandes veículos, e os leitores do “Diário de Canoas” sabem muito bem, desenvolvem páginas na Internet. Hoje no “Virtual Paper”, assim como no futuro, com outros suportes ou técnicas. Já nos acenam com o celular “3G”, que significa “terceira geração” deste útil penduricalho que carregamos na cintura. E que já virou vício. Tudo isso é para dizer que ainda tenho o maior prazer em ler jornal.

Cumpro diariamente esta devoção com grande alegria e procuro, entre as páginas a notícia positiva como quem busca uma agulha num palheiro (leiam bem esta metáfora e imaginem a dificuldade que ela retrata) ou o ouro puro no fundo de um regato. Às vezes eu a encontro numa crônica ou num editorial, num comentário bem humorado a respeito da dureza da vida ou na interpretação de fatos por vezes difíceis de compreender que escorregam pelas páginas materiais ou virtuais dos grandes jornais.

Mas, o prazer de ler jornal persiste. Ainda esta semana, ao me levantar mais cedo do que todo o resto da família para buscar o jornal na caixa do correio, me dei conta disso, como me dou conta agora, quando estou escrevendo para o “Diário de Canoas” que concretizou um ideal (um jornal diário em minha terra natal) pelo qual lutei desde 1954.

E é tão simples encontrar este prazer! Uma noticiazinha de dez linhas faz a minha alegria, Mas quero cumprimentar o Diário, que foi o único a contar, (ah, com foto!, valeu DC!), que o Francisco Trois, mestre internacional de xadrez e presidente da Fundação Cultural Canoense, está na Bolívia defendendo o país numa grande competição. Como diria Fernando Pessoa, que cito para não perder o costume, “vale a pena, quando a alma não é pequena”. Tudo.




TROFÉU IMORTAIS DA CULTURA
Walter Galvani, em 25/03/2008

Hoje é o dia de vestir fraque e cartola e ir receber este troféu...

TROFÉU IMORTAIS
O troféu IMORTAIS é um prêmio distinção instituído pela- Casa dos Açores do Estado do Rio Grande do Sul- CAERGS através do Festival " O Rio Grande Canta os Açores", para homenagear pessoas que se destacam na área cultural.Visa reconhecer e tornar de conhecimento público o que essas pessoas fizeram e fazem , em vida,pela cultura.
O Festival o Rio Grande Canta os Açores, neste ano fará a entrega do prêmio "IMORTAIS", em dia especial , homenageando os intérpretes masculino e feminino, compositor de festivais e parceiros culturais.A homenagem será no dia 25 de Março, 20h, esta terça-feira, no Galpão Jayme Caetano Braun, Centro Administrativo do Estado, em Porto Alegre.
Na primeira edição foram homenageados: Antonio Augusto Fagundes, João Carlos
Paixão Cortes,Luis Antonio de Assis Brasil e na segunda edição os "IMORTAIS" foram: Airton Pimentel, Lilian Argentina Braga Marques, Vera Lucia Maciel Barroso e o imortal de festivais de música, Victor Hugo.
Na EDIÇÃO presente estão sendo agraciados como "IMORTAIS" o jornalista Walter Galvani e Manoel dos Santos Martins "Martins Livreiro",como intérprete de Festivais os homenageados são: Cléia Gomes e Neto Fagundes e o compositor Vaine Darde.
Os agraciados como parceiros culturais são: AMBEV,LATINA DISTRIBUIDORA,SULGÁS E TVE.

SERVIÇO
O QUE:TROFÉU IMORTAL
QUANDO:25 DE MARÇO, ÁS 20H
ONDE:GALPÃO JAYME CAETANO BRAUN NO CENTRO ADMINISTRATIVO,RUA BORGES DE MEDEIROS,1501,CENTRO.
PROMOÇÃO:CASA DOS AÇORES DO RIO GRANDE DO SUL-CAERGS
INFORMAÇÕES:51-93284330 COM IVO LADISLAU







BEM, AGORA O ANO TEM QUE COMEÇAR...
Walter Galvani, em 23/03/2008

Não há mais desculpas. Passou o Carnaval, passaram as férias de verão, hoje é domingo de Páscoa,não dá mais para ficar esperando... O ano de 2008, no Rio Grande do Sul começa amanhã de manhã.
Vai bombar, como dizem os jovens, na Internet e fora dela.
Crônica publicada hoje no jornal ABC DOMINGO, do Grupo Editorial Sinos:


O ANO VAI COMEÇAR...

Walter Galvani

Março já vai quase ao final, mas, para o Rio Grande, o ano vai apenas começar. É verdade que melhorou um pouco, mas com a Páscoa tão antecipada, com o verão oficial terminando na semana passada, é só agora, com o encantador outono do hemisfério sul, mais precisamente aqui pelas alturas do paralelo 30, é que vamos entrar mesmo nas atividades normais de novo ano. Uma equipe deslocada para o sul, vinda de São Paulo, Minas e Rio, ficou literalmente assombrada com a quantidade de adiamentos, decepções, desencontros e frustrações que caracterizaram este período.Tantas vezes ouviram “depois da Páscoa conversaremos”, que se convenceram que a cultura regional aponta mesmo neste sentido.

Aproveito para observar que até os índios procediam assim. É suficiente verificar a cultura de sambaquis no litoral, para ver nos meses quentes (pensando em termos do nosso calendário) os charruas, bugres, minuanos, guaranis se deslocavam para onde estão hoje situadas nossas estações de veraneio e por ali ficavam, junto às lagoas ou na foz dos rios que acabaram conhecidos como Mampituba ou Tramandai, ou nas proximidades das dunas e do mar. E ali permaneciam até que chegava o outono, com seus ventos agradáveis vindos do sul e do sudoeste.

Continuamos, portanto, praticando a mesma operação, em busca da comodidade, da calma e da tranqüilidade. E então, a partir de amanhã, segunda-feira, vão rugir os motores e estaremos todos de volta à esta selva de pedra em que se transformou o Rio Grande.

E como os políticos e administradores agem da mesma forma que todos os demais habitantes, agora é que se vai ouvir falar em novas estradas, em necessidade de ampliar os acessos às cidades e até melhorar o que existe. Ainda na semana passada, na reta da Páscoa, viam-se obras, por exemplo nas ruas de Porto Alegre, criando obstáculos enormes ao trânsito e que se espera que estejam concluídas para não coincidir com a volta ao trabalho pleno e retomada de todas as atividades.

No meio disso tivemos a oscilação das bolsas, os problemas da economia americana, a tomada de providências para as eleições (aqui e lá), a continuação da guerra do Iraque, que fez cinco anos, a briga com a Espanha e até as férias, o carnaval, o retorno às aulas.




ESTÁ COMEÇANDO O ANO NOVO. MESMO.
Walter Galvani, em 22/03/2008

Dia 20, manda-me dizer a amiga e amada conhecedora da astrologia, Amanda Costa, começou o Ano Novo Solar.
Esta crônica foi publicada no jornal DIÁRIO POPULAR, de Pelotas, maior cidade da Metade Sul do Rio Grande.


ANO NOVO SOLAR



Walter Galvani



Feliz Ano Novo! Não se surpreendam. Começou, no dia 20 de março, esta semana portanto, junto com o Outono aqui no sul, o novo ano solar. A Terra está de aniversário, o sistema solar comemora o ingresso em nova etapa, o nosso planeta inicia mais uma circunvolução ao redor da grande estrela que nos transmite a luz e o calor e propicía a existência da vida vegetal e animal aqui.

Talvez seja por isso que só agora, à esta altura do hemisfério sul, próximo ao paralelo 30, se comece a pensar em dar início à vida, como todos os anos dentro do calendário que Júlio César instituiu há mais de 2.000 e o papa Gregório VII alterou para grande surpresa dos povos do mundo. A Inglaterra, por exemplo, “correu atrás da máquina” um bom tempo, não acreditando na mudança que, ao final, teve de engolir.

Os índios, os silvícolas brasileiros, também não conheciam o calendário europeu e tiveram que se adaptar para sobreviverem depois que foram “descobertos” em 1500... Hoje já temos até índia estudando medicina! quero dizer, medicina ocidental, sem plantas, a não ser aquelas que já foram sintetizadas e transformadas em produtos químicos. Pois eles, índios, também hibernavam na Serra e veraneavam na beira do Atlântico, do Mampituba até o Chuy.

Estamos apenas repetindo o desempenho dos guarani, charruas, bugres e minuanos. E assim, depois da Páscoa dos cristãos, teremos o novo ano. Portanto, seguir o que nos diz o velho planeta Terra é apenas um caminho natural e adequado historicamente. Temos apenas três dias do novo ano solar, nem sabemos o que ele nos trará. Provavelmente muitas tentativas dos humanos em destruir o equilíbrio terrestre, mudar o clima, abater as aves e perseguir os outros animais, pescar os peixes e matar os bois. Não por necessidade, mas por cobiça.

Você, leitor amigo, já parou para pensar?

Teve tempo para isso?

Ou rolou nesta roda viva, nesta armadilha montada pelos próprios humanos?

Com o início do Outono aqui no Sul, começou o Ano Novo. Contado em milhões, provavelmente 75 milhões de anos e não apenas os 2008 da Era Cristã ou os sete mil e pouco registrados pela História.








QUEREMOS IGUALDADE, MAJESTADE!
Walter Galvani, em 20/03/2008

Queremos o mesmo tratamento na entrada na Espanha que daremos aqui aos espanhóis.
Mas, queremos normas, claras.


NORMAS, QUEREMOS NORMAS

Walter Galvani


O ministro interino dos Negócios Estrangeiros da Espanha, que, aliás, está com o cargo a perigo, porque o novo governo do reeleito Zapatero assume segunda-feira, disse que é possível, sim, “que tenha havido algum excesso de policiais espanhóis no aeroporto de Barajas e que algum tenha cometido erros.” Também acho, é o que todos sabíamos, só quem não o sabia era o governo da Espanha. Bastou o Brasil endurecer também, para mostrar que isso aqui não é “a casa da mãe Joana” e já os orgulhosos e sempre inflexíveis espanhóis compreenderam que não estamos mais no século XIX e começaram a reconhecer o seu engano.
Um jornalista, amigo meu, que mora na Europa, diz que só há uma forma de tratar os espanhóis: com a mesma altivez que eles costumam tratar os demais, subdesenvolvidos ou não.
Admiramos recentemente o gesto do rei Juan Carlos que foi capaz de mandar Chavez, o presidente venezuelano, “calar-se”. Foi muito incisivo, foi muito procedente, mas muito pouco cortês. “Por que no te callas?” – perguntou ele, com os aplausos de todos os que acompanhavam a incontinência verbal do presidente da Venezuela.
Mas, a matriz do comportamento do rei, é a mesma dos policiais espanhóis que se “lavaram” no aeroporto de Barajas, vetando a entrada de brasileiros. Sabe-se muito bem que mulheres jovens, em idade fértil, sempre correm risco na entrada em países europeus e não só na Espanha. Mas, basta seguir as normas. É o que queremos. Que se estabeleçam normas e se por acaso os regulamentos estiverem defasados, que sejam atualizados. Mas, que se acerte, por via diplomática, a vigência das mesmas leis na entrada no Brasil. E então, quem aparecer aqui sem os documentos exigíveis, sem dinheiro ou carta de crédito, sem reservas de hotéis ou garantia de hospedagem, sem licença de trabalho ou passagem de volta, não entra. Um brasileiro, na mesma situação, não entrará lá. Mas, não será necessário barrar o passageiro no desembarque. Basta impedir a viagem, na origem.
E mulher jovem em idade fértil, pode até dar a luz na Espanha... Desde que cumpra todos os requisitos legais.




O SONHO DE UM MUNDO SEM FRONTEIRAS...
Walter Galvani, em 16/03/2008

Utopia? Para breve ou para nunca?
Crônica publicada hoje no jornal
ABC DOMINGO, do Grupo Editorial Sinos, que circula em toda a região metropolitana de Porto Alegre, com sede em Novo Hamburgo


AH, AS FRONTEIRAS...

Walter Galvani

Condoleeza Rice está numa viagem “de boa vontade” pelos países da América do Sul, num dos últimos arrancos diplomáticos do governo Bush, explicando o pensamento do seu país a respeito de “fronteiras”. Trata-se de uma política sem dúvida “sui generis” e muitos não saberiam dizer se é “adiantada” para o que se vive, ou, ao contrário, obsoleta. O certo é que ela defende, em nome de George Bush, que as fronteiras não devem ser interpretadas como irremovíveis ou impenetráveis e que é preciso aceitar esta flexibilidade para objetivos modernos. Entre esses se inclui, segundo ela, o combate ao narco-tráfico. Os que defendem uma sagrada inviolabilidade das fronteiras nacionais, neste momento que atravessamos, naturalmente recusam tais posicionamentos.

A “poderosa” secretária de estado dos Estados Unidos sabe o que diz. Entenda-se, por trás desta declaração, que quem pode pode, quem não pode se sacode, como diriam nossos antepassados.

Os Estados Unidos vão continuar “ajudando” a Colômbia na guerra contra as Farcs, as milícias continuarão a ser consideradas por eles como “terroristas” e não com a simpatia que reivindica o presidente Chavez, da Venezuela.

O mundo me parece cada vez mais distante da utopia que um dia terá de chegar (mas, quando meu Deus?) – de que todas as fronteiras serão abolidas e todos seremos irmãos, com igual acesso às riquezas materiais, acima e fora das linhas artificiais criadas pelo próprio homem para proteger seus interesses.

Vamos admitir que os brasileiros (os “brasucas” como são conhecidos em diversos pontos da Europa e dos Estados Unidos) dão sua valiosa contribuição para tal abolição. Agora mesmo ficou-se sabendo que há um pequeno povoado da Irlanda, situado na intersecção de duas estradas nacionais no condado de Galway, chamado Gort, onde um terço dos habitantes são brasileiros. É um terço sobre 2.756. A maioria é de Divinópolis, Minas Gerais e são especialistas em desossa de animais. Geraldo Silveira (deve ser meu parente distante) desempregado, está sentado permanentemente diante de um dos frigoríficos, onde atuam nossos compatriotas e já foi apelidado de “pedra”, porque não sai dali, esperando o chamado para trabalhar.






EMIGRAÇÃO X IMIGRAÇÃO
Walter Galvani, em 15/03/2008

Uma história para analisar de cabeça fria.
Crônica publicada hoje na edição do jornal "A Razão", de Santa Maria


ALTA VOLATILIDADE

Walter Galvani

Aprendemos que a volatilidade é uma condição de substâncias que se desfazem ao contato com a atmosfera, liquefazendo-se ou evaporando-se. Mais ou menos como o que estão dizendo agora a respeito do dólar. Cuidado! Isso é um aviso de utilidade pública: o governo americano está injetando 200 bilhões para impedir a morte ou o suicídio coletivo de dezenas de empresas do seu país. Por outro lado, o governo Bush, que acabou de vetar a emenda que proibia a tortura pelo sistema de “asfixia” dos investigados (expliquemos: mergulha-se o suspeito na água, informando-lhe que será “afogado” em segundos, se não confessar, e o sujeito confessa tudo, inclusive que incendiou Roma e destruiu Tróia), pois este mesmo governo pode pleitear agora, para ganhar para McCain a próxima eleição, a destinação de mais recursos para as guerras. Com o aumento destas verbas, mais empresas do país estarão fugindo da recessão interna. E finalmente, haverá felicidade no rosto dos americanos. Talvez alguns assassinatos em colégios e universidades para aliviar as tensões e muitos filmes idiotas exportados para o mundo todo, onde se treinam, desde manhã cedo (e do alvorecer da infância) mais e mais idiotas para apreciar o que aquelas mentes tramam na sua produção doentia. Esta é a súmula do que está ocorrendo. E mais e mais importamos procedimentos danosos.
Voltando à volatilidade, falemos das notícias que se tornam por seu turno voláteis, desfazendo-se ao menor contato com o tempo. Destroem-se, atropeladas que são por novas notícias que trazem o veneno químico da destruição. Algo assim. Nossa economia, avisam-nos, cresceu 5,4 por cento nos últimos doze meses, o Produto Interno Bruto chegou a 2,6 trilhões de dólares. Para os leigos, difícil de calcular porque é preciso incluir no cálculo a inflação, pouco mais de 4% no mesmo período e a inflação sobre o dólar, este mesmo que ameaça liquefazer-se. Enquanto isso, em uma semana, devolvemos 30 europeus que vinham para cá “fazer a América” em troca dos brasileiros que haviam tentado desembarcar na Espanha para “fazer a Europa”. Tanto de lá para cá, quanto daqui para lá, havia gente que levava todos os seus pertences numa mochila. Esqueceram da troca de imigrantes, a mesma que fez Santa Maria, por exemplo.





O ÚLTIMO DIA DE JUYLIO CESAR SOBRE A TERRA
Walter Galvani, em 15/03/2008

Há 2052 anos

TU QUOQUE, BRUTUS?

Walter Galvani

Até quem não sabe latim, quem menosprezou o estudo da nossa “língua-mãe” achando que ela seria dispensável, no futuro, mesmo quem passou voando pelos bancos ginasiais (quando se estudava latim da primeira à quarta série), mesmo os se deixaram dominar pela língua inglesa (digo, americana...) que predomina hoje pelos caminhos do mundo embora “mastigada” num dialeto de cow-boys, detetives e “monstros” de animação cinematográfica ou televisiva, conhece o sentido desta frase que titula esta crônica:: “Tu quoque, Brutus?”
Ela se completaria com a explicação “Filii mihi”, “meu filho”, segundo a maioria Brutus ou Bruto era apenas um “filho adotivo” ou quase isso do grande imperador Júlio César, o homem que alargou as fronteiras do Império Romano até o Reno e até à Inglaterra, responsável, portanto, pela “europeização” da Itália e da língua latina, pela nossa cultura que se seguiu ao grande momento clássico que nascera na Grécia.
Somos todos filhos de Roma, de César, sobrinhos de Cícero, descendentes de Rômulo e Remo, nós ocidentais, quero dizer. Nós, caucasianos.
O dia 15 de março assinala os inesquecíveis “Idos de Março” do calendário romano e foi nesse dia, há 2052 anos que os senadores, representando em sua maioria o pensamento e o poder dos patrícios romanos, se juntaram numa conspiração e mataram César;
Esperaram-no na entrada do Senado. Ele subiu as escadarias, encontrou um arúspice (adivinho) que lhe aconselhou a não ir ao recinto do senado. Mas, César foi. Enfrentou seus adversários políticos, transformados em inimigos porque o povo queria consagrá-lo como ditador e foi morto.
Lutou bravamente até que viu entre os conspiradores seu filho adotivo, Brutus, e ao vê-lo, exclamou as palavras célebres “Tu quoque, Brutus?”
Se até o filho o queria matar, nada mais tinha a fazer.
Quantos já se defrontaram com esta situação na vida?
Mesmo que figuradamente, ela está presente na vida de muitos e o exemplo de dignidade de Julio César completa hoje 2052 anos.




O ÚLTIMO DIA DE JUYLIO CESAR SOBRE A TERRA
Walter Galvani, em 15/03/2008

Há 2052 anos

TU QUOQUE, BRUTUS?

Walter Galvani

Até quem não sabe latim, quem menosprezou o estudo da nossa “língua-mãe” achando que ela seria dispensável, no futuro, mesmo quem passou voando pelos bancos ginasiais (quando se estudava latim da primeira à quarta série), mesmo os se deixaram dominar pela língua inglesa (digo, americana...) que predomina hoje pelos caminhos do mundo embora “mastigada” num dialeto de cow-boys, detetives e “monstros” de animação cinematográfica ou televisiva, conhece o sentido desta frase que titula esta crônica:: “Tu quoque, Brutus?”
Ela se completaria com a explicação “Filii mihi”, “meu filho”, segundo a maioria Brutus ou Bruto era apenas um “filho adotivo” ou quase isso do grande imperador Júlio César, o homem que alargou as fronteiras do Império Romano até o Reno e até à Inglaterra, responsável, portanto, pela “europeização” da Itália e da língua latina, pela nossa cultura que se seguiu ao grande momento clássico que nascera na Grécia.
Somos todos filhos de Roma, de César, sobrinhos de Cícero, descendentes de Rômulo e Remo, nós ocidentais, quero dizer. Nós, caucasianos.
O dia 15 de março assinala os inesquecíveis “Idos de Março” do calendário romano e foi nesse dia, há 2052 anos que os senadores, representando em sua maioria o pensamento e o poder dos patrícios romanos, se juntaram numa conspiração e mataram César;
Esperaram-no na entrada do Senado. Ele subiu as escadarias, encontrou um arúspice (adivinho) que lhe aconselhou a não ir ao recinto do senado. Mas, César foi. Enfrentou seus adversários políticos, transformados em inimigos porque o povo queria consagrá-lo como ditador e foi morto.
Lutou bravamente até que viu entre os conspiradores seu filho adotivo, Brutus, e ao vê-lo, exclamou as palavras célebres “Tu quoque, Brutus?”
Se até o filho o queria matar, nada mais tinha a fazer.
Quantos já se defrontaram com esta situação na vida?
Mesmo que figuradamente, ela está presente na vida de muitos e o exemplo de dignidade de Julio César completa hoje 2052 anos.




DIA NACIONAL DA POESIA
Walter Galvani, em 14/03/2008

Castro Alves, Mário Quintana, Antonio Canabarro Trois Filho, Drummond, longa vida a todos.
Hoje é o Dia Nacional da Poesia.


DIA NACIONAL DA POESIA

Walter Galvani

O poeta tem por obrigação ser um ser, assim, transcendental, desligado dos fatos do dia a dia ou, como todo mundo, tem que comprar pão e leite, pagar suas contas, sobreviver?
Pois é, nos dias que correm, é difícil ser Poeta, no velho sentido do termo andar desligado, zanzar pelas ruas, perder-se nos desvãos da vida... Mas, quem disse que é preciso ser assim para ser poeta?
Alguns dos melhores poetas que conheço também “correm atrás da máquina”, buscam o seu sustento, tem família, mantém o seu emprego e seus compromissos com a coletividade.
Mário Quintana? Quem disse que era um alienado? Convivi de 54 a 84 com ele na redação do Correio do Povo e da Folha da Tarde em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil. Além das suas exaustivas tarefas criativas, desenvolvia, sim, a atividade de tradutor de espanhol e inglês, do noticiário internacional que, na época chegava à redação nestas duas línguas, enviado pelas agências noticiosas Associated Press, France Presse e outras menos votadas.
Castro Alves, o grande homenageado de hoje porque a data foi escolhida em razão do seu aniversário, nascido que foi em 14 de março de 1871, poeta extraordinário, do inesquecível “Espumas Flutuantes”, foi como ninguém, extremamente ligado à comunidade, às batalhas pela abolição da escravatura no Brasil.
Leio poesia todos os dias.
Dos velhos autores consagrados aos modernos e aos moderníssimos contemporâneos. Tenho, graças a Deus, inúmeros amigos poetas.
Saúde a todos!




CANOAS PRECISA FALAR MAIS ALTO
Walter Galvani, em 13/03/2008

Crônica publicada hoje no jornal Diário de Canoas

FALTOU DINHEIRO

Walter Galvani

Ouve-se falar em obras atrasadas, em atraso de cronogramas, o que naturalmente é o mesmo em linguagem mais rebuscada, em remoção de mil famílias, o que significa o problema social oculto pelos desejos do governo e as exigências da economia (como se sabe o dinheiro “bom” expulsa o “ruim”), em volatilidade do dólar e em alta moderada da inflação, enfim, um “puzzle” daqueles gigantes, quando é preciso armar um quadro com 500 peças. E esta é a cabeça que o leitor/ouvinte/telespectador precisa ter todos os dias para entender o mundo onde desperta.

Quem sonha a noite inteira com desastres, inundações, tempestades na vida pública e na particular, acorda ou melhor, desembarca no dia com a pretensa ilusão de que os pesadelos passaram.

A nossa canoa (“canoas” aliás...) navega num mar de ameaças que vem desde o Tribunal de Contas até à consciência de alguns, a situação política e uma eleição que se desenha no horizonte e nela passamos a noite imersos, preocupados com a água que sobe como nos tempos de 1942. Aliás, repetidos por inundações semelhantes, mas nenhuma igual aquela que trouxe a água do rio dos Sinos até à rua Brasil. Sabem onde fica? Pois é, ali, depois da “lomba da igreja”, uma quadra, duas quadras, na antiga fábrica de vidros, perto da perdida sede do Clube Comercial. Sessenta e seis anos atrás. Muito numa história particular, mas pouco numa história geral.

De lá para cá chegou o trem metropolitano, chegaram os imigrantes em penca, vieram russos, poloneses, romenos, turcos, libaneses, iraquianos, para dar continuidade ao trabalho que já desenvolviam aqui portugueses, italianos e alemães.

A cada ano fomos perdendo gente e qualidade de vida. O velho Medeiros, o Dr. Vitor Ludwig, Sezefredo Vieira, o Hugo Lagranha, o velho João Palma da Silva, ganhamos de presente alguns alienígenas, desvios de verba, furtos de dinheiro, incêndios, seqüestros, algum colombiano ligado às Farcs (aliás o Comando Militar da Amazônia informa que por lá eles andam...) e muita “fumaça” nos locais e corredores mais incríveis.

Precisamos mais atenção do “governo central”, mais voz no Congresso, mais atuação na Assembléia. Mais rodovias, mais ação. Espernear não resolve, claro, mas ajuda!




TUDO O QUE É SÓLIDO SE DESMANCHA NO AR...
Walter Galvani, em 12/03/2008

Pobre dólar... Será mesmo?
Ou pobres,nós?


ALTA VOLATILIDADE

Walter Galvani

Aprendemos que a volatilidade é uma condição de substâncias que se desfazem ao contato com a atmosfera, liquefazendo-se ou evaporando-se. Mais ou menos como o que estão dizendo agora a respeito do dólar. Cuidado! Isso é um aviso de utilidade pública: o governo americano está injetando 200 bilhões para impedir a morte ou o suicídio coletivo de dezenas de empresas do seu país. Por outro lado, o governo Bush, que acabou de vetar a emenda que proibia a tortura pelo sistema de “asfixia” dos investigados (expliquemos: mergulha-se o suspeito na água, informando-lhe que será “afogado” em segundos, se não confessar, e o sujeito confessa tudo, inclusive que incendiou Roma e destruiu Tróia), pois este mesmo governo pode pleitear agora, para ganhar para McCain a próxima eleição, a destinação de mais recursos para as guerras. Com o aumento destas verbas, mais empresas do país estarão fugindo da recessão interna. E finalmente, haverá felicidade no rosto dos americanos. Talvez alguns assassinatos em colégios e universidades para aliviar as tensões e muitos filmes idiotas exportados para o mundo todo, onde se treinam, desde manhã cedo (e do alvorecer da infância) mais e mais idiotas para apreciar o que aquelas mentes tramam na sua produção doentia. Esta é a súmula do que está ocorrendo. E mais e mais importamos procedimentos danosos.
Voltando à volatilidade, falemos das notícias que se tornam por seu turno voláteis, desfazendo-se ao menor contato com o tempo. Destroem-se, atropeladas que são por novas notícias que trazem o veneno químico da destruição. Algo assim. Nossa economia, avisam-nos, cresceu 5,4 por cento nos últimos doze meses, o Produto Interno Bruto chegou a 2,6 trilhões de dólares. Para os leigos, difícil de calcular porque é preciso incluir no cálculo a inflação, pouco mais de 4% no mesmo período e a inflação sobre o dólar, este mesmo que ameaça liquefazer-se. Enquanto isso, em uma semana, devolvemos 30 europeus que vinham para cá “fazer a América” em troca dos brasileiros que haviam tentado desembarcar na Espanha para “fazer a Europa”. Tanto de lá para cá, quanto daqui para lá, havia gente que levava todos os seus pertences numa mochila. Esqueceram da troca de imigrantes, a mesma que fez Canoas, por exemplo.





IMIGRAÇÃO, FATOR ELEITOREIRO NA ESPANHA
Walter Galvani, em 09/03/2008

Minha crônica de hoje no jornal ABC DOMINGO, órgão do Grupo Editorial Sinos:

MOCHILAS E XENOFOBIA
Walter Galvani


Há duas ou três correntes de pensamento que se entrecruzam pelo mundo moderno, montadas nos interesses políticos e econômicos e impulsionadas pelos ventos de liberdade. Fala-se nos males da globalização, trombeteia-se sobre os benefícios da mundialização, as palavras se atropelam e esbarram nos diferentes conceitos que os homens lhes emprestam, traídas pela tradução ou pervertidas pelos interesses escusos da politização. Ou da própria política econômica. Dia desses, Alberto Dines, um dos papas da comunicação no Brasil, o homem que revolucionou a imprensa nos anos sessenta com a transformação implantada no Jornal do Brasil do Rio de Janeiro, que repercutiu (e continua) pelo país inteiro, levantava a questão das FARC, perguntando sobre a eficiência das palavras. Afinal, “terroristas ou insurgentes”? Para ele, quem seqüestra e faz reféns é terrorista e não simpático guerrilheiro lutando por sua causa política. “Os terroristas que seqüestram inocentes e fazem chantagem com vidas humanas” precisam ser tratados pelo que de fato o são.

Os brasileiros precisam levar no bolso 57 euros por dia, um mínimo de quinhentos e alguns, nunca terem lançado mão do esquema de ficar três meses num pais, sair, ganhar outro visto de entrada e ficar outros três meses, seguro saúde, seguro de vida em valor de no mínimo 30 mil euros, para entrarem na Espanha. Quem poderá viajar para lá então, sendo estudante ou tendo algum amigo que o convide? Onde ficou o velho espírito de aventura? Mochilas, nunca mais...

Isso tudo se faz em nome de que? Do medo de que os brasileiros desçam num aeroporto espanhol e tentem ficar como clandestinos no país.

É assim que se estimula o turismo? É assim que se pratica a democracia da convivência, sem xenofobismos nem ultra-nacionalismos?

“Palavras, palavras, palavras...” – diria Polônio e diria Hamlet, ambos falando sobre o sentido diverso que elas podem receber. É bom não esquecer que morreram os dois antes do fim da peça...

Governos e “gobiernos”, sejam da sofisticada Europa ou da subdesenvolvida América Latina, precisam fazer uma “oficina” de leitura e escrita criativa...








ESPANHA, ESPANHA
Walter Galvani, em 08/03/2008

O problema que se torna agudo, da imigração para os países da União Européia, coloca em destaque o problema das relações com o Terceiro (e o Quarto...) Mundo, usado nos séculos passados como estuário dos problemas europeus... A crônica a seguir está sendo publicada hoje no jornal "A Razão" de Santa Maria:

A LEI DO LEÃO

Walter Galvani

Os países da América, todos, foram construídos em cima de um processo de imigração contínuo de excedentes europeus, mais ou menos acentuados a partir dos séculos XVI e XVII, intensificados nesta ou naquela região, nos séculos subseqüentes, aliviando-se com isto a tensão da Europa, ora no sul, ora no centro, ora no leste. Todos conhecem a história da imigração alemã, italiana, espanhola, portuguesa, croata, grega, polonesa e até de etnias de menor expressão numérica como tcheca, romena, húngara, suíça ou eslovaca. No Brasil, tentativas de colonização por franceses, ingleses ou de outras origens foram rejeitadas pelos que já estavam aqui, ajudados pelos silvícolas ou escravos, trazidos por grandes traficantes ou seus próprios compatriotas do Benin, da Serra Leoa, de Uganda, Angola ou Moçambique, Guiné ou Argélia. Foi assim que se constituíram as colônias européias na América, bem como em países hoje independentes e importantes de outros continentes.

Pela necessidade de fornecer pleno emprego para os seus próprios cidadãos, os países europeus, modernamente concentrados na União Européia, assinaram tratados que permitem o livre trânsito entre si e que aqueles que chegam do “Terceiro” e do “Quarto” Mundo, leia-se Brasil, África e arredores... – ao ingressar na Espanha, por exemplo, possam deslocar-se para outros assinantes do Tratado de Schengen, ou seja para Alemanha, Áustria, Bélgica, Dinamarca, França, Finlândia, Grécia, Holanda, Itália, Islândia, Luxemburgo, Noruega, Portugal, Suíça, Suécia, Malta, República Tcheca, Estônia, Letônia, Lituânia, Polônia, Hungria, Eslováquia e Eslovênia. Mas, só podem “entrar” os que tenham passaporte válido por mínimo de 6 meses, comprovante de reserva de hotel ou carta de quem vai hospedá-lo se responsabilizando, confirmação de passagens do itinerário, bilhete de volta, no mínimo 57,06 euros por dia de permanência e um mínimo total de 513,54 euros, seguro médico internacional com garantia de repatriação em caso de acidente ou doença grave com cobertura de 30 mil euros, convite para eventuais feiras, reuniões, convenções, nome da empresa que o convida, duração da estadia e objetivos, ou matrícula em cursos e ainda não indicar perigo à saúde pública, à ordem pública ou à segurança nacional ou às relações internacionais e não haver esgotado o período de permanência de três meses em três meses, a contar da primeira data de entrada.

Consegui ler até aqui? Então, boa viagem... se puder!




ACADEMIA RIO-GRANDENSE DE LETRAS
Walter Galvani, em 05/03/2008

Vamos dar um intervalo a tantos problemas e preocupações que nos vem de todos os lados, inclusive da Colômbia, Equador e Venezuela. Ah, a propósito disso: Uribe, presidente colombiano, sabia que a França negociava com Reyes (o número 2 das FARC que foi morto no ataque em território equatoriano) a libertação de Ingrid Betancourt, ex-senadora e candidata a presidente da Colômbia... Chega, não é? Ou será preciso ser mais óbvio?
Não querendo dizer que os "imortais" se afastem das questões do dia-a-dia, é hora de pensar no doce convívio da academia.


Ocupo na Academia Rio-Grandense de Letras a Cadeira de número 25, cujo patrono é Alberto Correia Leite.
Por este motivo, meu compromisso semanal é participar das sessões em que se produz cultura e se discute assuntos administrativos da entidade.
Nesta quinta, dia de posse da nova diretoria que foi eleita no final do ano passado.
Em sua sede administrativa, rua dos Andradas, 1234, 10º andar, Porto Alegre, toma posse nesta quinta-feira, 6, às 16 horas, a nova diretoria da Academia Rio-Grandense de Letras, encabeçada pelo acadêmico Francisco Pereira Rodrigues, eleita nos primeiros dias de dezembro do ano passado.
A diretoria tem a seguinte constituição:
Presidente: Francisco Pereira Rodrigues
Vice-presidente: José Francelino de Araújo
Secretário geral: Avelino Alexandre Collet
Secretário: Heino Villy Kunde
Tesoureiro: Zélia Helena Dandena Sampaio
Diretor de patrimônio: Marília Beatriz Cibils Becker
Conselho Fiscal: Luiz Alberto Cibils, Altino Berthier Brasil e Amir Feijó Pereira.
A entidade realizará durante o ano reuniões administrativas semanalmente e desdobrará um largo programa de palestras sobre os mais importantes assuntos da área cultural abertas ao público, que será anunciado oportunamente.
O centenário de nascimento do escritor Cyro Martins, o centenário do falecimento de Machado de Assis, o Dia Internacional do Livro, entre outros temas estarão sendo apreciados pela academia.






O TERRORISMO DAS FARC E AS PALAVRAS
Walter Galvani, em 05/03/2008

Alberto Dines, mestre de tantas gerações de jornalistas, fala hoje sobre o sentido das palavras, a propósito das FARC, Colômbia, Venezuela, Equador, França, etc.etc.etc.

O terrorismo e o sentido das palavras

Por Alberto Dines em 29/2/2008

"A imprensa brasileira capitulou às exigências das Forças Armadas Revolucionários da Colômbia (Farc) e continua designando como "guerrilheiros" os terroristas que seqüestram inocentes e fazem chantagem com vidas humanas.

Os dramáticos relatos dos quatro parlamentares colombianos liberados pelas Farc na quarta-feira (27/2) sobre as condições de vida dos demais reféns na selva revelam barbaridades só comparáveis às cometidas pelos nazi-fascistas durante a Segunda Guerra Mundial. Mesmo assim, nossos editores não se comovem nem se indignam e insistem em classificar aqueles que perpetram tais as barbaridades como "guerrilheiros".

Conceitos enganosos

A guerrilha não é moralmente condenável, não é crime, é uma forma de guerra não-convencional. Os maquis franceses eram guerrilheiros, assim também os partisans da Europa oriental e os partigiani italianos. Seus alvos eram as forças inimigas, não atacavam nem seqüestravam civis.

As Farc há muito abandonaram a guerrilha, já não conseguem travar combates, fazem apenas terrorismo – e terrorismo, por definição, é o emprego sistemático da violência contra inocentes para fins políticos. A libertação dos reféns na quarta-feira não foi ato humanitário, mas chantagem.

Jornalistas não podem oferecer os seus leitores conceitos enganosos. Jornalistas não deveriam seqüestrar o sentido das palavras".

Vamos refletir, gente! Não é um principiante, não é um calouro, não é um "bixo" que está falando!





FARC X COLÔMBIA X EQUADOR X VENEZUELA Hoje haverá reunião da OEA (Organização dos Estados Americanos)
Walter Galvani, em 04/03/2008

Extraio trecho do noticiário de hoje para que os que abordarem este site situem-se diante da gravidade da situação.
Dizem que o número do celular de Reyes, o número 2 das FARC, executado no ataque colombiano ao acampamento que estaria dentro dos limites do Equador, foi fornecido pela CIA, Estados Unidos da América, o que facilitou a localização como se fosse um GPS.
Será mesmo ou em tempo de guerra, mentiras na terra?


O Equador rompeu relações diplomáticas com a Colômbia e a Venezuela expulsou o embaixador colombiano. Ao mesmo tempo, os países da América Latina se mobilizam para conter a crise diplomática, iniciada após um ataque colombiano contra a guerrilha Farc (Forças Armadas revolucionárias da Colômbia) em território equatoriano, ocorrido no ultimo sábado (1º), e que levou à morte Raúl Reyes, um dos principais líderes da guerrilha, além de outros 16 membros das Farc.

As decisões de Caracas e Quito de romper relações diplomáticas com a Colômbia foram adotadas depois que Bogotá revelou a suposta existência de acordos das Farc com os governos de Equador e Venezuela.

Bogotá informou que as revelações serão apresentadas à OEA (Organização dos Estados Americanos), cujo conselho permanente se reunirá nesta terça-feira.

O presidente do Equador, Rafael Correa, que iniciou uma viagem por vários países latino-americanos para tentar obter apoio em meio à crise, pediu aos "governos da região que formem fileiras frente ao "nefasto e traidor" ato da Colômbia contra as Farc em seu território. Amanhã, ele estará no Brasil para encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.




A CRISE DAS FARC
Walter Galvani, em 03/03/2008

Com a morte do "número 2" num acampamento em terras equatorianas, segundo a denúncia do próprio Equador, a situação sul-americana está sofrendo uma perigosa perturbação.



PREOCUPAÇÃO

Walter Galvani

É natural que haja preocupação no Brasil, no Chile, no Peru, no Equador, na Venezuela, na Colômbia, na França, no mundo civilizado todo e em especial nos vizinhos limítrofes, nos povos da Amazônia, com este incidente dentro das fronteiras equatorianas ou não, a poucos metros da Colômbia. Amanhã ou depois, novo incidente poderá ocorrer na Venezuela ou na própria Colômbia, ou, porque não? – no Brasil.
É natural pois sendo o nosso país o maior e mais populoso da América do Sul, tendo fronteiras naturais com todos os envolvidos, seja ouvido, ou seja o mediador, para evitar um conflito terrível, que teria alto custo em vidas e no meio ambiente que interessa a todos e claro, ao mundo inteiro. E na economia de um modo geral. Sem falar na infinita pobreza dos povos da floresta, os maiores prejudicados em qualquer choque. E que já sofrem sem guerra nenhuma.
A dificuldade séria do governo colombiano com uma guerrilha de tantos anos de atividade é de difícil solução, mas precisa ser enfrentada pelo povo do seu próprio país e dentro de suas fronteiras.
Mas, quem conhece a Amazônia sabe o quão difícil é uma linha demarcatória completamente perceptível. Quem seria capaz de botar a sua mão no fogo, para indicar deslizes ou apontar ultrapassagens? Perguntem a qualquer militar que opera ou tenha operado na região para compreender as reais dificuldades para uma questão desta natureza. Bem, o que importa mesmo é a boa vontade possível entre os povos da mata, o que já outra questão difícil.
Não é por nada, também que Lula quer trocar telefonemas com todos os envolvidos, que quer também a opinião da Argentina, outro parceiro importante neste xadrez político latino-americano.
Antes que os interesses pelo petróleo venezuelano atraiam outras cobiças e outras atenções...




SEREMOS O GRANDE MERCADO DA CHINA...
Walter Galvani, em 02/03/2008

Crônica publicada neste domingo no jornal ABC DOMINGO, do Grupo Editorial Sinos, presidido pelo grande jornalista Mário Alberto Gusmão, dono de uma história épica.
Falo sobre a expansão sem limites da China, que muitos sonhavam como seu futuro mercado. Do jeito que vai, o dragão vai nos abocanhar a todos...


A LEI DO FILHO ÚNICO

Walter Galvani

Aprendemos todos, pelo sentimento ou pelo ensino, que o fato mais interessante é o que se dá mais próximo, mas, aos poucos aprendemos também que há coisas que se rotinizam, nos chateiam, não atraem mais. Então, falar dos assaltos à mão armada com desprezo total pela vida, do tráfico de entorpecentes, das drogas, da tortura e do excesso de população... nas prisões, do regime semi-aberto, de quem não tem nenhum valor moral trazido de casa, da falta de educação, dos desmandos e da prepotência no trânsito, das pequenas às grandes infrações, do desrespeito às leis, da incompetência e da corrupção das autoridades e de nossos representantes, ficar falando disso tudo e muito mais, aqui, é o mesmo que pregar no deserto. Entra ano, sai ano, entra mês, sai mês, mesmo que seja bissexto como o fevereiro que recém acabou, e nada muda.

Vamos portanto falar da China, que nos afeta e de muito perto, muito mais próximo do que se possa imaginar.

Já ouviram falar da “Lei do filho único” e seus efeitos? Pois é. Foi a única maneira encontrada pelo governo chinês para frear o crescimento da população do país. Agora, pensam em aboli-la. Daqui a pouco, quantos serão eles? Durante muito tempo pensou-se que a China seria um mercado formidável para nossos produtos, dos automóveis aos calçados, passando pela música, dança, cinema, tudo enfim que não fossem os miseráveis produtos de plástico com que própria China inundou o mundo. Pois, aquilo era apenas a primeira onda. O sonho de que lá seria o nosso grande mercado, acabou. Agora nós é que somos o grande mercado da China.

Procurem e encontrarão camisas, cuecas, calçados, calcinhas, rádios, toca-fitas, dvds, enfim, o que quiserem, tudo com a marca “Made in China”. Preparem-se para os automóveis. Quando chegarem, no preço que chegarão, não sobrará espaço nenhum para as marcas tradicionais já estabelecidas com fábricas aqui no Brasil.

Vai ser um tsunami de produtos chineses invadindo o Brasil na segunda e na terceira onda, confirmando aliás o que Napoleão Bonaparte havia dito no início do século XIX: “Deixem dormir os chineses”. Pois, lamento informar que eles acordaram.






TERRORISTAS OU INSURGENTES?
Walter Galvani, em 01/03/2008

Crônica publicada hoje no jornal "A Razão" de Santa Maria e no "Diário Popular" de Pelotas, neste fim-de-semana.

RELAÇÕES PÚBLICAS NA SELVA

Walter Galvani

Quem assistiu a entrega dos ex-reféns libertados pelas FARC, nesta última quarta-feira, ao governo da Venezuela representado pelo seu ministro do Interior, e o posterior regresso à Colômbia, não pode deixar de registrar que se produziu um acontecimento inédito na história da Imprensa: sob as câmaras da televisão, e, portanto, aos olhos de todos, desenrolou-se um procedimento que implicaria outrora numa improvável possibilidade. Talvez fossem necessários delegados, testemunhas, olheiros internacionais, a representação de uma possível Liga das Nações ou ONU para falar em termos mais atuais. Mesmo assim, só as manifestações posteriores dos presentes ao ato, poderiam transmitir para a comunidade internacional a impressão de saúde e boas condições físicas que os quatro libertados ostentavam.

Hoje eles falarão sobre as péssimas condições de vida na floresta, da tortura terrível que é estar privado da liberdade, das tentativas de fuga, da doença que aflige a mais, digamos, ilustre das prisioneiras, a ex-candidata à presidência da Colômbia, Ingrid Betancourt, mas ninguém poderá retirar da lembrança dos que assistiram as transmissões e que depois viram as fotos, que os quatro ex-reféns Gloria Polanco de Lozada, Orlando Beltran Cuellar, Luiz Eladio Perez Bonilla e Jorge Eduardo Gechen Turbay estavam gordos e aparentemente bem nutridos, alguns deles saltitantes, mas todos se despedindo com flores e beijos dos guerrilheiros que os escoltaram.

Quer dizer as FARC deram, ante os olhos atônitos ou distraídos da população mundial, uma demonstração de Relações Públicas de matar de inveja qualquer grande multinacional. Se eu presidisse uma empresa dessas, sairia correndo hoje e voando de helicóptero para a selva colombiana, de preferência para a região de 750 quilômetros quadrados que a guerrilha quer desmilitarizada, para trazer o responsável por este plano fantástico para gerir os meus negócios.

Como num grande jogo de xadrez, a iniciativa das jogadas agora está com o governo da Colômbia. O que fazer para “matar” esta brilhante demonstração de que as FARC estão profissionalizadas e aptas a jogar?

Só falta agora algum time de futebol guerrilheiro querer disputar o campeonato colombiano... Já vimos de tudo. E então, fica difícil provar de que se trata apenas de terroristas. Ah, sim, os métodos são terroristas: seqüestros, reféns.




LA SALLE DE CANOAS FAZ CEM ANOS
Walter Galvani, em 28/02/2008

Dia 4 de março o Centro Universitário La Salle, que nasceu de uma escola dos irmãos lassalistas, há cem anos, em Canoas, minha terra natal, completará o seu centenário.
Esta crônica foi publicada na edição do Diário de Canoas, deste dia 28 de fevereiro de 2008:


CEM ANOS DO LA SALLE

Walter Galvani

Palavra que eu ia começar este texto, escrevendo egoisticamente “Cem anos do meu colégio”! Claro, La Salle aqui em Canoas, desde o início do século XX, começando as aulas num dia 4 de março, é muito mais importante e significativo para a então pequena povoação, que virou vila, cidade e hoje é das maiores do estado, formando tantas turmas, aprimorando tanta gente, alfabetizando, aperfeiçoando e agora, a um passo de universidade.

Tudo isso é muito bom e dia 4 estarei presente à missa, com a devoção que eu tinha nos velhos tempos de 42 a 48 do século passado, quando segui o único curso regular de minha vida. Depois, estudei uma especialização técnica no próprio colégio lassalista: na velha tipografia, aprendi a compor nos tipos de Guttenberg, montar páginas e imprimir nas antigas prensas. Quando cheguei no “Correio do Povo” em 1955, já estava preparado para o difícil trabalho que desembocou na diagramação e na impressão eletrônica que se conhece hoje.

Citar todos os meus professores certamente provocaria enganos e esquecimentos, injustiças. Mas, como esquecer do primeiro professor de francês, Irmão Maurício Isaac, que veio direto de Paris para Canoas? Ou do Irmão Albano, do Irmão Amadeu, do Irmão Frederico, do Irmão Henrique Justo que modelou minha mente literária, me fazendo participar no pioneiro grêmio literário de 1947/1948 ?

Quem diria que eu poderia contemplar, emocionado, desde a sede da Fundação Cultural de Canoas, ou seja da antiga estação do trem, os prédios que hoje constituem o complexo dos irmãos lassalistas, do glorioso Centro Educacional La Salle, do antigo Externato São Luiz, do Colégio São José ? Onde encontrei o Irmão Francisco, o Armando, o Gilberto, o Bonifácio, enfim, tantos e inesquecíveis professores que me ensinaram o fundamental na vida?

Aqui estamos nesta janela do século XXI, a admirar cem anos de uma história inesquecível que começou com a própria intervenção dos canoenses que pediram a vinda dos lassalistas para cá, dos membros da Comissão de Emancipação, mais adiante, que lutaram pela transformação em cidade do antigo distrito de Gravataí.

Toda esta força, esta pujança de Canoas, se deve à presença pioneira que agora festejamos e eu me vejo menino, à distância, recebendo ensinamentos que jamais me abandonaram e que ainda sei, na ponta da língua. Mesmo o que esqueci eventualmente, por nervosismo, em algum exame oral. Estou apto para uma revisão. La Salle, o meu colégio.








CUBA E O MUNDO,CUBA E A EUROPA
Walter Galvani, em 26/02/2008

Um novo Castro no comando da ilha mostra que ela segue os rumos modernos, que todos estão a seguir?
China ainda é comunista?
Rússia é agora super-capitalista?
E o Brasil do PT?


CUBA E A EUROPA

Walter Galvani


O que estará mais próximo de Havana? A Europa ou a América? Os irmãos latino-americanos ou as matrizes européias agrupadas não Comunidade Econômica Européia? Os vizinhos americanos ou os cubanos exilados em Miami e arredores?
Parece que, neste momento, por mais distante fisicamente que pareça, quem mais se aproxima de Cuba e lhe estende a mão nesta hora de possível transição e conseqüente mudança, é o Velho Continente.
Dono de uma histórica plataforma de cultura, mas também de um pragmatismo produtivo e indiscutível é de lá, da Europa, do chamado “Velho Mundo” é que está chegando uma ponte, plataforma ou abraço.
França e Espanha já estão, aliás, há muitos anos, desde os tempos de Fidel, representados por suas empresas e bancos. Os serviços eletrônicos, as transferências de fundos, os acordos comerciais bilaterais, os automóveis novos de reluzentes marcas como Peugeot ou Seat que trafegam ao lado dos antigos automóveis americanos e dos Toyota que já chegam também, porque a chamada “sabedoria oriental” também passa pela possibilidade de vendas para qualquer parte do mundo, seja o regime comunista puro (se é que existe algum), socialista (será que ainda existe?) ou capitalista (a saída parece a mais provável).
Diz-se tudo, que a China não é mais comunista, no entanto, ainda mantém a dureza do regime, censura e emprego com salários ínfimos, que a Rússia agora é super-capitalista, que Lula agora acredita plenamente no capitalismo, enfim, todos são, em verdade, grandes e atentos aplicadores do pragmatismo.
Fazer o quê?
Mudar para sobreviver no mundo globalizado. É o que Cuba vai fazer agora, assim como os Estados Unidos... Não se iludam. Esta virada em favor de Barack Obama, o turbante e o traje caracteristicamente muçulmano estão sendo usados como arma para derrubar um candidato a candidato praticamente vencedor, assim como surgiu uma amante para o adversário republicano, enfim, tudo nos une, nada nos separa. Estamos todos no mesmo barco. Mudam os remadores mas os roteiros permanecem os mesmos.




FIDEL RENUNCIOU
Walter Galvani, em 19/02/2008

A grande notícia do dia. Para muitos, a grande notícia deste princípio de século.
Como ficará Cuba?
E o socialismo, resistirá em Cuba?
Fidel anunciou sua renúncia na manhã desta terça-feira.
Eis o que foi divulgado em Havana:



Fidel anuncia renúncia em Cuba


Fidel: 'Desejo apenas combater como soldado das idéias'
O líder cubano Fidel Castro anunciou nesta terça-feira que não voltará a governar o país, lançando dúvidas sobre o futuro do regime que se prepara para escolher um sucessor dentro de apenas uma semana.
Em uma mensagem publicada pelo jornal oficial do Partido Comunista Cubano, o Granma, Fidel disse que não aceitará o cargo de Presidente do Conselho de Estado, para o qual vinha sendo eleito e ratificado desde 1976.

“Trairia minha consciência ocupar uma responsabilidade que requer mobilidade e entrega total que não estou em condições físicas de oferecer. Digo-o sem dramatismo”, escreveu Fidel, afastado do cargo há um ano e meio para tratamento de saúde.

“A meus queridos compatriotas, que me deram a imensa honra de me eleger recentemente como membro do Parlamento, em cujo seio devem ser adotados acordos importantes para nossa Revolução, comunico que não aspirarei e nem aceitarei – repito – não aspirarei e nem aceitarei o cargo de Presidente do Conselho de Estado e Comandante-chefe.”

"Não me despeço de vocês, desejo apenas combater como soldado das idéias".

Fidel disse que continuará escrevendo no Granma, mas sua coluna "Reflexões do comandante-chefe" passará a se chamar "Reflexões do companheiro Fidel".





EIS UM EXEMPLO DE TRABALHO EM CULTURA
Walter Galvani, em 18/02/2008

O jornal VS, de São Leopoldo, publica interessante matéria que demonstra como
os pequenos, médios e grandes municípios
podem fomentar a atividade cultural:


Último dia para entrega de projetos culturais em SL

São Leopoldo - A Secretaria Municipal da Cultura (SMC) de São Leopoldo recebe até esta segunda, às 18 horas, propostas de candidatos ao processo seletivo de oficineiros e ativistas comunitários. Os interessados devem inscrever seus projetos na SMC (rua Lindolfo Collor, 439, 5º andar) contendo apresentação, objetivo, justificativa, etapas de trabalho (para nove meses), metodologia, público, currículo e clipagem que comprove as experiências relatadas. A decisão foi tomada em virtude do não preenchimento da totalidade de vagas das variadas linguagens culturais.

Os oficineiros trabalharão nos projetos Descentralização da Cultura e Pontos de Cultura, podendo desenvolver aulas de dança, vídeo e fotografia, música, artes plásticas, teatro, capoeira, literatura, canto e voz, inclusão digital, customização de roupas e invernada gaúcha. Por carga horária de 20 horas mensais, os oficineiros recebem salário líquido de R$ 534,00. Os ativistas comunitários serão contratados para formar comissões de cultura nos bairros, além de coordenar, organizar e divulgar as oficinas. A remuneração líquida é de R$ 1.174,80 para 160 horas de trabalho ao mês.


Jornal VS






"TROPA DE ELITE" GANHOU O "URSO DE OURO"
Walter Galvani, em 17/02/2008

O Festival de Berlim é sempre muito generoso ao procurar contemplar produções de países subdesenvolvidos ou em vias de desenvolvimento. Agora, premiou o Brasil (quem ganhara o "Urso de Ouro" há dez anos com "Central do Brasil" de Walter Salles Jr., e com isso
o filme "Tropa de Elite" ganha um impulso internacional.
Embora já tenha estado três vezes em Berlim, como jornalista e radialista, nunca participei do júri do festival.
A crônica a seguir, publicada hoje no jornal ABC DOMINGO, mostra porque eu não votaria neste filme.


FRENÉTICO E EPILÉPTICO

Walter Galvani


A escolha do assunto? Os “caras” de uniforme lembrando policiais fascistas? Tropas SS? Nazismo? Tortura? Assassinatos? Nem sei bem o que mais contou para me afastar de “Tropa de Elite”, mas indiscutivelmente eis um filme que não faz o meu gênero. Mas, talvez seja por isso que ele ganhou o “Urso de Ouro”, ontem em Berlim. Pelo chocante, pelo inusitado e até pela violência. Ou por simpatia com subdesenvolvidos e é assim que o Brasil é visto na Europa. Nem adiantou a revista “Variety” tocar num ponto que identifico não apenas neste, mas em vários filmes modernos e que, indiscutivelmente deles me afasta: “câmera frenética, montagem epiléptica”.

Sou um cara antigo. Continuo preferindo “No tempo das diligências”, do velho mestre John Ford ou “Casablanca”, que imortalizou Michael Curtiz e outros, mais ou menos votados, ao longo de todos estes sessenta e tantos anos de convivência com o cinema.

Vejo que a chamada “Sétima Arte” é capaz de surpresas à cada curva do tempo. Um dos filmes mais assistidos no Brasil e no mundo é “Desejo e Reparação” (título escolhido no Brasil para “Atonement”, que em verdade quer dizer “Expiação”, baseado no livro de Ian McEwan) e não vi, em nenhum momento, cenas de violência gratuitas ou provocadoras dos piores instintos racistas, fascistas, adormecidos no seio da população e trazidos à tela e à consciência.

Efeitos especiais? Quem precisa disso? A não ser em filme de ficção científica, nada disso interessa. Ou quem sabe em especialíssimos desenhos animados.

Trabalho com o cinema, com C maiúsculo, desde 1949, quando me associei ao Clube de Cinema de Porto Alegre e ajudei a fundar o “Clube de Cinema Alberto Cavalcanti” em Canoas. Jamais esqueci o “Hamlet” de Lawrence Olivier, ou o “Cidadão Kane”, de Orson Welles. Nem tampouco os já citados “Casablanca” e “No tempo das diligências”, ou mesmo os grandes filmes do neo-realismo italiano, quando a tela se povoava de idéias, sentimentos e emoções. “Dolce vita”, “La Strada”, “Perdidos na tormenta”, por exemplo.

Quem precisa de movimentos frenéticos de câmera ou andamentos epilépticos destinados a mexer com a lama que dormita no fundo dos corações solitários? Acho que o Brasil poderia muito bem escolher outras temáticas. Não sou contra a exteriorização dos problemas, mas será que é só morro/favela/tóxicos/policia/tortura/assassinatos que constituem a tessitura da vida brasileira? Não se produz nada, ninguém faz nada de bom neste país? Será que vivemos mesmo só de roubos, corrupção e falcatruas?




TIMOR, LÍNGUA PORTUGUESA E A IMPORTÃNCIA DO BRASIL
Walter Galvani, em 15/02/2008

Claro que nos preocupa o que se passa no distante, mas tão próximo do coração e do cérebro, Timor Leste.
Crônica publicada no jornal A Razão de Santa Maria


SAÚDE AO TIMOR LESTE
Walter Galvani

Não pensem na distância geográfica, mas lembrem da proximidade com o coração. O Timor Leste escolheu para solidificar a sua independência, a língua portuguesa. Neste mês de fevereiro, mais especialmente a 16, a ONU, em 1983, emitiu a sua aprovação pela independência daquele jovem país que, depois de colônia portuguesa durante século e tanto, fora invadida pela Indonésia. Dali até à proclamação da independência em si foi um tapa, mas o pior é que os indonésios, daquele regime corrupto e ditatorial de Sukharno, haviam invadido em 7 de dezembro de 1975, a parte leste da ilha, justamente o Timor Leste que tanto prezamos e lá prenderam, seqüestraram, mataram, incendiaram, em nome de uma anexação que lhes interessa muito, porque no mar, dentro da limitação territorial de milhas internacionalmente reconhecida, tem petróleo. Compreenderam porque o Timor, tão pequeno, é tão importante?

Nesta semana que passou, liderados por um soldado rebelde, Reinaldo Monteiro, ex-militares demitidos por corrupção tentaram matar o presidente José Ramos-Horta, aquele que é Prêmio Nobel da Paz junto com o bispo Ximenes Belo e o primeiro ministro Xanana Gusmão.

Dá para perceber os interesses indonésios, holandeses (que antigamente dominavam a região), apátridas, que se unem numa hora dessas para tentar dobrar o regime democraticamente eleito, mas ainda em seus verdes anos.

O Brasil, por simpatia e aproximação motivada pelo cultivo da língua portuguesa, prometeu (e está atuando assim) o maior apoio à Ramos-Horta e ao Timor Leste. Aliás, o presidente timorense fez sua última viagem internacional ao nosso país, onde foi recebido por Lula.

Desde 1520, quando navegadores portugueses visitaram o arquipélago de que faz parte o Timor Leste, a região ficou como um dos pontos de contato lusitanos na Ásia, junto com Macau, Goa, Calicute e vários outros territórios no Japão, na Índia, na China e na chamada Indonésia. Muitos anos e dezenas de guerras mais tarde, o Timor sentiu-se libertado pela Revolução dos Cravos Vermelhos (1975) em Portugal e optou pela sua liberdade.

Frágil flor da independência, optou pela fortaleza da expressão lingüística diferente dos opressores indonésios e desfraldou a bandeira da língua portuguesa.

Por tudo isso, por esta opção que nos aproxima, por esta decisão máscula, estóica e perturbadora, é que o Timor Leste vive hoje em nosso coração.








CANOAS E O TREM
Walter Galvani, em 14/02/2008

Crônica publicada hoje no jornal Diário de Canoas, órgão do Grupo Editorial Sinos

1871/2008

Walter Galvani

Foi no verão de 1871 que foi inaugurada a estrada de ferro ligando Porto Alegre a São Leopoldo, mais tarde estendida até Hamburger Berg, hoje Novo Hamburgo, estabelecendo-se assim o primeiro caminho ferroviário para transporte de cargas e passageiros no Rio Grande do Sul. Mais tarde, durante aquele século XIX e até mais ou menos a metade do século seguinte, continuou sendo ampliada a malha e chegamos a ter, no estado, um adequado serviço de transporte por trens. Depois, ainda no século vinte, a partir dos anos cinqüenta, destruiu-se tudo.

Canoas ficou marcada por este propósito inicial, pois foi a partir da estação dos trens, (onde hoje está instalada a Fundação Cultural), que se espalhou a primeira leva de população que se fixou nos lotes postos à venda pelo Sr. Vicente Ferrer da Silva Freire. Nascia uma estação de veraneio.

(Meu avô, Enrico Galvani, foi contratado para trabalhar nas roças e pomares dos ricos porto-alegrenses que ali se instalavam. Mais tarde, os netos daqueles proprietários tornaram-se meus amigos. Meu outro avô, Felisbino Ignácio da Silveira, junto com o sr. Henrique Witrock, foi o primeiro industrial canoense, pois começou a produzir as famosas cadeiras Silveira, na sua fábrica, na hoje rua Domingos Martins.)

Mais adiante, quando veio a emancipação política em 1939 e a instalação do município em 15 de janeiro de 1940, o primeiro prefeito Edgar Braga da Fontoura e seu sucessor Aluízio Palmeiro Escobar, tentaram em vão transferir o núcleo populacional para a zona chamada Estância Velha, local alto e arejado, atingível pela rua Santos Ferreira (que até hoje figura em nosso mapa) para assim fugir das inundações. Não acreditaram e em 1941 veio a maior enchente de todos os tempos, quando inúmeros canoenses foram desalojados e ficaram flagelados, como se costuma dizer.

Desde então, de tempos em tempos, se tem a repetição do flagelo. Correm então cidadãos e administradores, igrejas e bispos, amigos e parentes, para resgatar quem ficou invadido pelas águas.

Mudar hoje uma cidade de 300 mil habitantes não é apenas difícil, é impossível, até porque ela foi se estendendo e ocupando terras de antigos arrozais.

Os flagelados tornaram-se uma marca da nossa cidade. De tempos em tempos eles se refugiavam nos pavilhões da igreja São Luiz, mesmo lugar das saudosas quermesses. Vamos ter que nos habituar com as enchentes, mesmo porque ninguém parece interessado em resolver o problema. As águas baixam e todos voltam para suas casas.














AMAZÔNIA SANTUÁRIO
Walter Galvani, em 13/02/2008

Para uma aproximação com o presidente da França, Nicolas Sarkozy, o presidente Lula, do Brasil, disse que a França é o único país europeu que pode falar sobre a Amazônia, de maneira pró-ativa, pois é o único que mantém fronteiras e reparte alguma coisa da região. É pela chamada Guiana Francesa, capital Cayenna, que durante muitos anos foi presídio francês para bandidos e para subversivos. Uma espécie de Guantanamo.

Em compensação, Lula quer dizer que é preciso analisar com muito cuidado o que desejam da Amazônia, pois lá vivem 30 milhões de brasileiros que desejam consumir. Ou seja, disse ele: "Querem ter automóveis, comprar, ter casas, andar para lá e para cá."
Cuida-te Amazônia!



NOSSA PREOCUPAÇÃO, O TIMOR LESTE
Walter Galvani, em 11/02/2008

José Ramos Horta, o presidente do país que optou pela língua portuguesa para marcar sua independência política, econômica, moral, foi atingido por duas balas num atentado que visava também o primeiro ministro Xanana Gusmão


Uma segunda-feira sangrenta com atentados contra a vida e a liberdade, contra o estado do Timor Leste e contra o desenvolvimento econômico e social daquela antiga colônia portuguesa na Ásia.
Sempre nos orgulhamos de que se fale a língua portuguesa nos cinco continentes e que mais de 200 milhões o façam.
Por isso, temos um carinho especial pelo Timor Leste, bem como os enclaves de Goa e Macau, pontos onde se mantém aceso o cultivo da nossa maravilhosa língua, aquela que serviu de mote para a afirmativa de Fernando Pessoa: "Nossa pátria é a nossa língua!"
Com muita atenção e apreensão acompanhamos o desenrolar dos acontecimentos que atingiram o próprio cerne daquele jovem democracia.
José Ramos Horta, Prêmio Nobel da Paz de 1996, está internado num hospital de Darwin, na Austrália, lutando por sua vida.





O QUE É O TIMOR LESTE?
Walter Galvani, em 11/02/2008

Nesse momento em que os líderes e as próprias instituições democráticas sofrem atentado conduzido por contra-revolucionários, vamos revisar: afinal o que é o Timor Leste?

Trata-se de um artigo publicado originalmente no "Caderno de Literatura" da AJURIS, em dezembro de 2000:

A PENÚLTIMA FLOR DO LÁCIO

Walter Galvani



Estamos próximos. Tão próximos que nos espanta saber os milhares e milhares de quilômetros que na verdade medeiam entre o Brasil e esta pequena ilha do arquipélago da Indonésia, lá mesmo onde encontramos Java, Sumatra e Bornéu, com tantas recordações de Emilio Salgari e outros fantásticos escritores que povoaram o imaginário infantil e adolescente de várias gerações. E de repente, lá do fundo deste imensurável estoque de recordações, emerge a ilha do Timor com suas incríveis divisões, e uma remota ligação com a língua portuguesa.

Renascem com seus sonoros nomes lusitanos os reflexos da aventura dos descobrimentos, aquela mesma que trouxe Cabral ao Brasil e o levou, bem como conduziu Vasco da Gama, Bartolomeu Dias, Luís Vaz de Camões ou Afonso de Albuquerque, ao Oriente.

E assim, desfilam diante de nós Xanana Gusmão, José Ramos-Horta, o arcebispo Ximenes Belo ou Manuel Carrascalão.

Mas, quem são estes Manuéis, Joaquins, Josés, Pedros, que povoam o distante país que nasceu de uma colônia antiga e abandonada e no entanto até hoje disputada, onde talvez o único reflexo e desbotado vínculo com a antiga metrópole seja o estropiado português lá praticado, invadido, repartido e conspurcado pelos dialetos locais, rivalizado pelo "tétum", que poderia ter mais significado patriótico e nacionalista, até porque fora adotado pela Igreja Católica como a língua oficial de suas cerimônias ?

E porque a escolha do português como língua oficial, porque esta decisão, já que é sabida e conhecida a influência e a importância do inglês como moderno "latim" ou esperanto, como queiram, o sonho da língua universal a um passo de concretizar-se ?

Bem, mas ali estão eles a falar em Camões e Pessoa, a citar Eça de Queiroz e Machado de Assis, a lembrar Guimarães Rosa, o Brasil e Portugal. A invocar a irmandade com Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde e Guiné Bissau e de certa forma o enclave de Macau, que também este, incrustado em plena China, serve de ponte com a Europa, com os quinhentistas e seiscentistas, com Gil Vicente e com os "homens de grandes narizes", os navegadores cristãos.

Descobrimos que a nossa língua portuguesa, esta mesma que acutilamos e atropelamos diariamente, é uma arma poderosa da cultura e da comunicação que nos integra, sim, e nos carrega até o coração, até à emoção de gente que tenta construir seu pequeno país, com liberdade de escolha religiosa, política e racial, com direitos e deveres e com expectativas.

Sim, com diferenças. Assim como falamos hoje aqui, com nossa contribuição original e inequívoca e com nossa pronúncia inegavelmente vinculada à língua do tempo de Pero Vaz de Caminha e seus contemporâneos.

Também eles, lá no Timor Leste, o que lhes sobrou da derrocada de 1975, quando os indonésios arrasaram o que encontraram pela frente na ânsia da sua incorporação num grande projeto de expansão, tentam com tijolos, areia e sonhos construir o seu país, usando o cimento da língua portuguesa.

É uma obra e tanto.

E uma lição para nós.

Mas não foi fácil, não, desde o início, até porque o Timor Leste não tem muito a agradecer aos colonizadores portugueses, a não ser talvez a sorte de que o cristianismo proporcionou-lhe um traço de unidade nacional que acabou servindo notavelmente na hora da independência.

Os padres sempre lá estiveram muito presentes, com as missões que começaram a chegar logo depois da primeira visita dos navegadores, isto em 1520. Foi quando lá arribaram, na esteira dos comerciantes em busca de sândalo. E, os missionários, de futuros cristãos.

Ao longo dos 450 anos de ocupação não fizeram muito pela promoção dos nativos. Abrigaram imigrantes chineses ricos, receberam mesmo indonésios de outros setores do arquipélago ainda não constituído na grande nação de hoje, e nem sequer tiveram tempo de consolidar seu domínio e permanência, sem lutas contra inimigo europeu poderoso e perigoso: a Holanda.

Durante três anos, durante a Segunda Guerra Mundial, sustentaram uma resistência contra os invasores japoneses. E desde o dia 7 de dezembro de 1975, a Indonésia com seu exército, suas armas mortíferas, seu napalm e seus foguetes terra-terra e terra-ar, aliás fornecidos pelo Brasil.

Mesmo assim, todas estas guerras desestruturadoras e destroçantes não acabaram com as belas escolas católicas de Saibada, Maliana, Ossu e o seminário de Dare. Ramos-Horta diz que ao papel da Igreja se deve "o pouco que o Timor Leste teve de riqueza intelectual, espiritual, moral e religiosa."

Afinal, o que é o Timor ?

Uma ilha situada entre o sudoeste asiático e o Pacífico Sul, que ficou dentro das posses de Portugal pela continuidade do traçado (nunca demarcado) de Tordesilhas. Está dividida em Timor-Oeste (geralmente considerado como a "parte legítima" da Indonésia) e o Timor-Leste (Timor Lorosae) , ocupado desde 1975 pelo regime vizinho, com 18.899 quilômetros quadrados, constituído pelo enclave de Oe-Cusse (na costa norte da parte ocidental), pela ilha de Ataúro (a 23 km de Díli, a capital), o ilhéu de Jaco (separado por um canal da ponta leste) e a metade oriental da ilha de Timor.

Tem uma agricultura rica, mas tem também, e esta é a razão de tanto interesse indonésio e internacional pelo território, importantes reservas petrolíferas. Aliás, a Austrália, que hoje posa de "protetora dos direitos timorenses" assinou um acordo em dezembro de 1989 para dividir com a Indonésia o direito de explorar o petróleo do Timor. Em 1991, Portugal iniciou um procedimento legal contra este tal acordo junto ao Tribunal de Haia. Vamos ver se os timorenses acabam se beneficiando com o que é seu.

Mas, é sempre difícil a história das minorias. A denominação Timor Leste e Oeste nasceu de uma simples linha riscada a lápis no célebre mapa-mundi de Mercator , o grande geógrafo e matemático flamengo que criou no século XVI a representação em mapas do mundo com paralelos e meridianos. Curioso que tal linha virtual acabou aceita e predominando durante séculos, até permitir esta eclosão de nacionalismo, justo quando parecia que os nacionalismos entravam em agonia para quem sabe começarem a expirar no século XXI...

Já não sei se isto sucederá, muito menos com o Timor.

Conta a lenda que "em tempos que já lá vão, vivia na ilha Celebes um crocodilo muito velho, tão velho que já não conseguia caçar peixes no rio. Certo dia, apertado pela fome, decidiu arriscar-se nas margens atrás de algum porco distraído. Tanto se arrastou que perdeu as forças e caiu, exausto em meio à vegetação. Um rapaz simpático e forte, dele teve pena e levou-o de volta à água.

Em retribuição pelo salvamento, o crocodilo ofereceu-se a transportar o jovem às suas costas, sempre que quisesse navegar. Isto não impediu no entanto, que sentindo fome outra vez, não se lembrasse de comer o companheiro que o salvara. Antes porém, quis ouvir a opinião de outros animais e todos se mostraram indignadíssimos: "devorar quem o salvara ? Que ingratidão!"

Envergonhado e cheio de remorsos o crocodilo partiu para bem longe, para recomeçar a vida onde ninguém o conhecesse. Como o rapaz, afinal de contas era o único amigo que tinha, convidou-o para viajar uma vez mais, dizendo: Vem comigo à procura de um disco de ouro que flutua nas ondas perto do sol nascente. Quando o encontrarmos seremos felizes para sempre!

Mais uma vez viajaram juntos e tanto nadaram que à certa altura o crocodilo percebeu que suas forças não lhe permitiam continuar. Deteve-se um instante e logo seu grande corpo cresceu e se transformou numa ilha magnífica.

O jovem, transformou-se imediatamente num adulto e verificou, encantado, que trazia ao peito o disco de ouro com que sonhara o crocodilo. Percorreu então lentamente as praias, subiu às colinas, andou pelas matas e resolveu que ali ficaria para sempre. Deu à ilha o nome de Timor, que significa Oriente."

Toda a beleza da lenda que esconde em seu sub-texto a certeza dos valiosos recursos que o Timor abriga, ajuda a contar seja em dialeto maubere, tétum ou em português, o porquê de tanto apego à tão pouca terra.

Nos episódios de 1999, os timorenses mostraram do que são capazes, morrer aos milhares por sua ilha encantada e escolheram o português neste ano 2000 para ser o meio de comunicação e acesso ao mundo desenvolvido, porque só aí encontraram os resquícios daquela riqueza intelectual de que nos fala Ramos-Horta, ele e Ximenes Belo alçados à situação de reconhecimento internacional com o Prêmio Nobel.

Trata-se do mais alto e político certificado, no bom sentido, que a comunidade universal sabe conceder. Por ironia com o que sobrou da fortuna do homem que inventou a dinamite e até para resgatar o nome de Alfred Nobel desta culpa eterna.

E foi assim que a FRETILIN (Frente Revolucionária para um Timor Leste Independente) , assim mesmo com estas consagradoras iniciais em língua portuguesa, enfrentou a APODETI (propugnava a união com a Indonésia) e a UDT (União Democrática Timorense) que advogava a reintegração com Portugal.

Por isto tudo, a última floração do Lácio, a "inculta e bela" língua portuguesa acabou ganhando uma oportunidade a mais para mostrar sua força, sua respeitabilidade e seu poder revolucionário.

É uma ótima lição, para que seja muito bem aprendida em especial em Portugal, mas muito mais no Brasil e nos demais irmãos que deploram muitas vezes, com lamentável indignidade, o fato de não estarmos "colonizados" (ainda...) pelo inglês.





AS ELEIÇÕES AMERICANAS SÃO IMPORTANTES PARA O MUNDO INTEIRO
Walter Galvani, em 10/02/2008

Crônica publicada hoje no ABC DOMINGO
ór~gão do Grupo Editorial Sinos


CARNAVAL DE DINHEIRO

Walter Galvani

O senado americano já aprovou, na semana que entra será a vez da câmara de deputados. Um pacote assombroso de dinheiro será distribuído pela presidente Bush antes que se vá e que espera, com esta formidável jogada de papai Noel, ganhar a eleição.

Naturalmente o seu partido teme que o adversário Democrata, com a impaciência de Hillary Clinton praticamente indicada, tenha os votos necessários, e conquiste a Casa Branca. Vocês ainda devem estar lembrados da sujeira que foi a reta final da eleição de Bush. Pois, com este vendaval de dinheiro prometido aos americanos, 600 dólares de restituição por pessoa, com 300 dólares por cada filho, com 1.200 para o casal, com cheques de 300 para os que não pagam impostos e não tem restituição a perceber, esperam os republicanos mudar a sorte das eleições.

Pobres políticos brasileiros, amadores sem cacife que ficam por aí desviando dinheiro de selos ou participando de mensalões! Nada se compara à esta monumental pernada americana que pode traduzir tudo o que pensam e fazem nossos amigos do norte.

Vendo este “carnaval de dinheiro” fico pensando o quanto somos toscos e ingênuos.Quem diria, não é mesmo? Nunca vimos nada igual.

Agora mesmo, assistiu-se ao desperdiçar de milhões de reais em nome das atrações turísticas que deveriam derramar importância igual ou superior nas ruas brasileiras. Pagou-se a “alegria do povo”, indenizou-se o tempo dedicado à preparação dos carros alegóricos, à feitura das fantasias, aos ensaios e às composições. Remunerou-se a falta de inspiração e até o menor tapa-sexo do país, como se isso fosse uma grande conquista.

O dinheiro gasto para gratificar escolas de samba que tratassem da vinda da família real portuguesa para o Brasil há duzentos anos, deveria ter sido investido na premiação dos estudiosos do assunto. Presentear escolas de samba é o mesmo que pagar o jantar de caridade, ao invés de distribuir sacolas de comida aos necessitados.

Para fugir ao buraco negro da recessão, os americanos fazem agora o carrossel do esbanjamento, contemplando a todos, indiferentemente, na convicção de que o dinheiro voltará milagrosamente transformado em voto que garantirá o poder. Então, continuaremos na corrida belicista, teremos tanques, canhões, armas fantásticas, soldados, petróleo e a manutenção do status atual: manda quem pode, obedece quem precisa.

Não sei porque mas sinto um cheiro incrível de corrupção neste abraço nacional de falsa caridade.






"OPERAZIONE BISCHA"
Walter Galvani, em 09/02/2008

Eis como os travestís brasileiros presos pela Polícia Italiana neste fim-de-semana, estão ajudando a imagem do Brasil no exterior...
Enquanto isso, continuamos "jogando futebol"...
Ou participando do Carnaval, ou não fazendo nada, que "ninguém é de ferro".
A crônica a seguir foi publicada hoje no jornal A Razão de Santa Maria


VAMOS TRABALHAR

QUE NINGUÉM É DE FERRO



Walter Galvani





“Foi um rio que passou em minha vida...” ou “foi mais um carnaval que passou”, deixando a fantasia “de rei, de pirata ou de marinheiro” e tudo se acabou na quarta-feira. A grande vantagem do carnaval moderno é que ele não acaba mais na quarta-feira de cinzas, mas desliza até ao sábado, às vezes domingo e até segunda-feira. A vantagem extra do carnaval deste ano é que ele ocorreu tão cedo que vai dar para começar o ano na segunda-feira, 11 de fevereiro.

Este início tão precoce poderá fazer com que se trabalhe algumas horas a mais do que em 2007, mas a pergunta que deve ser feita a cada um, na concha do ouvido, é se isso será, de fato, útil. O que você produzirá a mais neste 2008? Mais trabalho? Mais consumo? Mais leitura? Mais escrita? Mais amor e carinho? As contas são absolutamente individuais.

A necessidade desta parada imperativa do Carnaval, assim como das festas de fim-de-ano, assim como dos “feriadões” (escassos no segundo semestre deste ano), é pauta estabelecida pelos psicólogos, psiquiatras e psicanalistas, pelos analistas de plantão. Sem estas interrupções salutares, dificilmente se suportam as tensões da vida moderna, que, aliás, são profundamente estressantes de per si e portanto, provocadoras da necessidade que as projeta. Não sei se fui suficientemente confuso (ou complexo) para ser/não ser entendido, mas é o que é.

Não é difícil, ninguém precisa ser Jung ou Freud, Melanie Klein, para compreender que é preciso, por vezes, mergulhar no fundo do subconsciente e de lá reaparecer com a resposta na ponta da língua.

Assim raciocinando, até os “feriadões” são, de fato, produtivos. E nem sequer se justifica a idéia de que a economia sofre abalos. Não, não sofre, porque a produção industrial é planejada, em tempos modernos quem vai montar 5.000 automóveis num determinado período, completará a quota independente do número de dias, mais dois, menos dois não alteram nada. O consumo caseiro, este que se direciona a supermercados, mercearias e farmácias, migra com o consumidor e se ele gasta na capital ou na praia, nas pequenas e nas grandes cidades ou nas vilas distantes, acompanha o consumidor. Resumindo: quem vai para a praia ou para a serra, para o campo ou para os pontos que tocará numa viagem de deslocamento, arrastará consigo a sua necessidade de gastos. E o investimento, se houver, ficará dormindo nos estabelecimentos bancários.




MAS É CARNAVAL...
Walter Galvani, em 04/02/2008

Crônica publicada neste final de semana no jornal Diário Popular, de Pelotas

MÁSCARAS E FANTASIAS

Walter Galvani

Não irei para nenhuma “avenida”, não estarei em algum “sambódromo”, não vestirei uma fantasia e nem usarei máscara. Mas, é pena. Deveria fazê-lo, como já o fiz no passado. São quatro dias (modernamente ampliados para uma semana ou mais...) em que o país não pensa em outra coisa, por osmose, não por participação total. Aliás, a grande vantagem é da tevê que transmite ao vivo, de Pelotas ao Rio de Janeiro e nos mostra escolas de samba, blocos e cordões (cordões?... velhos tempos!) e gente indo atrás do Trio Elétrico (“atrás do Trio Elétrico, só não vai quem já morreu!”). É isso mesmo: às vezes a gente já morreu e não se dá conta... Mas, é este o momento em que o Brasil mergulha naquilo que antigamente se chamava “folia” e esquece os problemas, a verdadeira identidade, transformam-se os mais humildes em reis, rainhas e princesas, e o Rei Momo recebe as chaves da cidade, realizando mais pela alegria do povo que muito prefeito que anda por aí.

Infelizmente, na Quarta-feira de Cinzas, tudo volta a ser como dantes e podemos arquivar ilusões, sonhos e guardar as fantasias. Tudo recomeça a girar e, por um ano inteiro estaremos outra vez presos à máquina, ao computador, ao expediente, ao cartão-ponto, ao sistema.

Todo ano eu lembro disso quando chega esta época em que as coisas passam a acontecer no terreno do sonho e por alguns dias a população se desliga dos problemas e dos desencantos proporcionados pelos políticos que sujam a própria atividade com a sua em geral valiosa e volumosa contribuição.

Esquecidos de todos, durante alguns dias somos “rei, poeta ou marinheiro”. No entanto, tudo vai acabar na quarta-feira...

Depois deste intervalo, o ano vai começar para valer. Neste 2008, mais cedo do que de costume, pois, pelo cálculo misterioso que preside nossos calendários e nossas vidas, o Carnaval é o mais cedo desde 1923. Logo logo, portanto, voltaremos à vida normal das cidades, acabar-se-ão as férias e recomeçaremos as atividades. Iemanjá e Nossa Senhora dos Navegantes no feliz sincretismo que viceja no Brasil estarão também dando o seu adeus, pois estão irmanadas nestes mesmos dias de Carnaval e, sobrará pouco para novas paralisações.

Infelizmente, e os números já apontam para isso, haverá mortos e feridos no trânsito, assassinatos, execuções, traições, vinditas. E então, estará chegando o ano verdadeiro. Aquele que não permitirá mais hesitações, será preciso pensar nas realizações e que chegou a hora delas. Ao trabalho, portanto, a partir de quarta, que ninguém é de ferro.




DIRIGIR BÊBADO É UM PROBLEMA DE CONSCIÊNCIA
Walter Galvani, em 03/02/2008

Crônica publicada hoje no jornal
ABC DOMINGO, órgão do Grupo Editorial Sinos


UM CRIME: DIRIGIR BÊBADO

Walter Galvani



Dois copos de cerveja. É o limite. Melhor seria até que fosse uma conscientização e pronto, nem seriam necessárias medidas de fiscalização. Quanto à droga, nem se fala. Dirigir com mais de 3 decigramas de álcool por litro de sangue, a partir de agora será crime. E como tal, o motorista, seja ele membro da feliz classe média brasileira, a que não tem limites, ou das classes mais altas, que não tem limites em lugar algum, será preso, julgado e condenado em questão de minutos, se funcionarem, é claro, fiscalização e vigilância dos poderes públicos.

Para mim, uma longa história e experiência por causa da idade, já tendo passado por tudo o que é possível e testemunhado o que há de mais incrível, uma boa lição antes de encerrar a minha participação nesta peça da vida e sair pelos fundos do palco. De costas, como recomendava Paulo Autran, pois nunca se deve dar as costas ao público, a não ser que esteja prescrito na ação dramática e por isso se torne necessário. Certa vez, lá pelos anos setenta, visitei um amigo que militava na embaixada do Brasil em Estocolmo. Fomos ao centro da cidade jantar e depois deveríamos nos dirigir para a região conhecida como “Jardins do Rei”, onde ele morava, vizinhando com o Gustavo Adolfo ou a Rainha Cristina da época. Pois bem: comemos sanduíches, lembrando-nos do “Prinz Bar” em Porto Alegre, tomamos duas cervejas e na hora de ir embora, meu amigo chamou um táxi. “Como? – lembrei-lhe – estamos de carro.” “Não – respondeu-me – bebi. Bebestes. Vamos de táxi.”

Se existisse esta mentalidade não seria necessário que o Ministério da Justiça tomasse a providência que a sociedade pediu, exigiu: a partir de agora, quem dirigir bêbado estará cometendo crime.

Este sim é o verdadeiro basta nos exageros no trânsito e os jornais aqui da casa tem alertado sobre isso, inclusive através do poderoso “NH”, hoje o décimo jornal em circulação no país, mais de 40 mil exemplares por dia, e que sempre fez da defesa da comunidade, o seu forte, como base, ponto de partida e posição de impacto.

Mesmo não havendo bebida, é preciso que o motorista esteja preparado, descansado, sem problemas de estresse, pois adrenalina é o mesmo que álcool no sangue. A qualquer momento há uma “pechada” na esquina da casa da gente. É o barulho da desgraça, da infelicidade e, muitas vezes, da irresponsabilidade.




HOMO HOMINI LUPUS
Walter Galvani, em 31/01/2008

De nada adianta cercar a fortaleza, se a violência está dentro dela.
Crônica publicada hoje no Diário de Canoas


O INIMIGO DO HOMEM

Walter Galvani


Foram os romanos que cunharam esta frase que, desde então acompanha a Humanidade: “Homo homini lupus”. Para os que gazearam a aula de latim no velho La Salle ou no Auxiliadora, “O homem é o lobo do homem”. Aliás, desde que você “não perca o seu latim”, nada mais óbvio para tradução. Não pede nenhum esforço extra.

O que também não pede esforço extra é a atualidade desta frase, presente nas manchetes dos nossos jornais e é claro, aqui no “Diário de Canoas” pois não há como fugir à esta certeza... Só o homem é capaz de matar por pura maldade e até com requintes de ferocidade que acabrunhariam qualquer lobo. O próprio Lobo Mau das historinhas infantis se abalaria com as monstruosidades que estão sendo cometidas pelos membros da espécie humana contra outros membros da própria espécie. Matam por nada. Para roubar os tênis às vezes, os automóveis, a mulher, o homem, incendeiam, transformam o corpo em um monte de brasas fumegantes.

John Kennedy uma vez escreveu que de nada adianta cercar de guardas o castelo, se o inimigo vive em seu interior.

É exatamente o que se passa no mundo de hoje. Aliás em nossa terra, em nossa cidade. Aqui estamos expostos e como não há policiamento possível, como diria Kennedy, ou como nos garantem os membros da Brigada Militar ou da Polícia Civil, não há como enfrentar as forças do mal.

Só há um caminho e temo que me tomem por pastor de alguma religião, católica ou qualquer outra que propague o reino de Deus, mas a minha pregação, digo, crônica, não poderia ter outra orientação: vamos tentar instilar nas pessoas o velho espírito que orientava os primeiros cristãos.

Retornando ao império romano, é lá que surgiu a idéia e a primeira imagem daqueles “que se amavam” e se protegiam. Enfrentavam feras e adversários dispostos a massacrá-los, afrontavam um império até que converteram o líder deste tal império, o imperador Constantino. Uma vez convertido por Helena, sua esposa, transformou a religião cristã em oficial. Era a vitória do espírito sobre a matéria, dos mais fracos sobre os mais fortes, dos pequenos sobre os grandes.

Dois mil anos depois, o que fazer para restaurar o predomínio dos bons? Como dormir em paz numa humilde habitação feita de táboas e plásticos, restos de papelão e latas, que um pé na porta pode botar abaixo o sossego da madrugada? Rezar? Já que o poder público é incapaz de garantir a paz nas ruas e vielas, nos palacetes e nos casebres, só nos resta mesmo rezar. Ou não votar neles...




QUEM FOI MESMO DOM JOÃO VI?
Walter Galvani, em 28/01/2008

O dia 28 de janeiro assinala a assinatura do decreto de abertura dos portos brasileiros às "nações amigas".
Leia-se aqui, "Inglaterra"


A ABERTURA DOS PORTOS BRASILEIROS

Walter Galvani

Foi há duzentos anos, num 28 de janeiro, em 1808 naturalmente, poucos dias depois de chegar a Salvador na Bahia de Todos os Santos, que o príncipe regente, Dom João de Orleans e Bragança, dentro de sua estratégia política de apoio total à Inglaterra, contra o bloqueio da Europa Continental por Napoleão Bonaparte, assinou o decreto de “abertura dos portos brasileiros ao comércio com as nações amigas”.
Aqui, onde se lê “Nações amigas”, leia-se Inglaterra, a única potência que tinha condições de visitar, comerciar, fazer trocas ou simplesmente aportar em locais proibidos pela força incrível do exército do imperador dos franceses.
O exemplo frutificou. Quando já como João VI, rei de Portugal, o antigo “príncipe regente” se retirou daqui, deixou seu filho, aconselhou-o a colocar a coroa em sua própria cabeça “antes que algum aventureiro o faça” e tornou-se assim o grande propulsor da independência brasileira.
Sua imagem, manchada pelo filme de Carla Camurati, “Carlota Joaquina”, que o apresentava como um pobre monarca vítima de adultério e comedor compulsivo de frangos, está sendo higienizada agora e mostrada aos brasileiros com outras visões.
Depois do sucesso espetacular de “1808”, do jornalista e escritor Laurentino Gomes, que vive 19 semanas como um dos mais vendidos no Brasil, vai chegar a vez do livro dos portugueses Jorge Pedreira e Fernando Dores Costa, “Dom João VI”, ao mesmo tempo em que a “mídia” adversária de Laurentino, talvez por concorrência empresarial, anuncia que vem aí o livro da professora Lúcia Bastos, que, com todo o respeito que nos mereça, ainda não o escreveu. É um livro portanto ainda promessa. Pode sair ou não. Mas, competição é competição e o simples anúncio do futuro trabalho, funciona como anti-publicidade para o Laurentino.
Meu conselho é no sentido contrário: comprem o livro “1808”.
Mas, se Dom João VI foi tão combatido assim e ainda o é depois de duzentos anos, é porque fez alguma coisa de importante. Como dizem os árabes, “ninguém atira pedra em árvores que não dão frutos”.




UMA VIDA NOVA E FELIZ...
Walter Galvani, em 27/01/2008

"... sem poder, sem cargo, sem carteira assinada, sem crachá, sem secretária e
sem sair do Brasil"
e... "Não acordem os chineses" (Napoleão)
O grande livro de Ricardo Kotscho e a
crônica que publiquei neste fim-de-semana
no jornal ABC DOMINGO, do Grupo Editorial Sinos


NÃO ACORDEM OS CHINESES
Walter Galvani

A frase que serve de título à esta crônica não é minha, mas de Napoleão Bonaparte, o imperador dos franceses, que, sempre preocupado com o “grandeur” do seu país e até aonde poderia levar as fronteiras do seu império, costumava usá-la para acalmar seus assessores. Enquanto ele mandou no mundo, ou seja dos anos finais do século XVIII até 1815, batalha de Waterloo, seus comandados obedeceram piamente ao que ele determinava. O Ocidente como um todo porém, volta e meia esquece a lição napoleônica e se põe a fazer cócegas no dragão adormecido que, quando acorda, bufa línguas de fogo por suas ventas. Depois, ele reflui, pelo menos tem sido assim e torna a dormir o sono histórico em que, segundo o imperador francês, deveria ser mantido para sempre.

Sabem qual foi o crescimento chinês neste ano em que todos “comemoraram” ter andado pelos 3 ou 4 por cento, como o Brasil e os Estados Unidos? Pois foi de 11,5%... Segundo cálculos das autoridades monetárias da China o seu país poderá crescer ainda mais e em 12 anos terá multiplicado por quatro o seu PIB.

Enquanto o dragão vomita estas labaredas, todos os que podem se atiram ao mercado chinês, imaginando que lá está o segredo das vendas infindáveis.

É, o tema do dia-a-dia, tem ido do dragão chinês ao terror e imprudência nas rodovias, passando pelos assaltos, requintes de crueldade e falta geral de vergonha na cara.

Prefiro seguir a lição de Ricardo Kotscho, autor do mais recente “best-seller” brasileiro, “Uma vida nova e feliz – sem poder, sem cargo, sem carteira assinada, sem crachá, sem secretária e sem sair do Brasil” que diz que o assunto das crônicas deve ficar livre e permitir que o autor fale de outros temas ou sobre quase nada, preciosidades como as que reencontrou, ao deixar as grandes redações depois de quarenta anos de combate e refluir para a vida de uma pequena cidade. “Descobri – diz ele – que o grande barato é aprender a viver com menos. A gente passa a dar valor às coisas mais simples como preparar o próprio jantar ou levar um papo com a síndica sobre a reforma do jardim do prédio”.

E por aí segue ele, achando que a comunhão destes pequenos e ternos assuntos vale mais a pena do que buscar o assunto do dia e acabar falando sempre em violência, corrupção política, competição e morte no trânsito.

Sim, todos já enchemos destes assuntos. Onde anda a imaginação? É o que diz Kotscho e assino embaixo.




VAMOS SAIR CHEIRANDO POR AÍ...
Walter Galvani, em 24/01/2008

"Cheirando" no bom sentido. Ainda bem que o piloto tem sentido de olfato...
E é o dia de recordar o bravo soldado japonês Shoichi. Bota fidelidade estapafúrdia nisso.


DEPENDEMOS DO NARIZ...
E A HISTÓRIA DO
BRAVO SOLDADO SCHOICHI


Walter Galvani


Pode parecer piada ou cronista sem assunto que resolve enveredar por aí, pelo noticiário e catar o que houver de mais insólito, mas, confesso, não resistí.
Não é que um piloto da United Airlines sentiu “cheiro de fumaça” dentro do avião que pilotava e por isso cancelou o vôo de São Paulo com destino Chicago, na quarta-feira à noite? (Isso em pleno 2008!) Ora, não seria surpreendente se outro avião da mesma companhia não houvesse retornado depois que o piloto denunciou falha mecânica e se outro ainda, também da mesma companhia, não tenha feito uma aterrissagem meio forçada no Rio de Janeiro, tendo estourado dois pneus. Tudo nesta semana que ainda não passou.
O pior é depender do nariz do piloto...
Mas, como!
Não existem equipamentos sofisticados, produzidos pelas grandes fabricantes de aeronaves que detectem uma irregularidade que pode ser fatal a 142 ou 154 passageiros, mais tripulantes, conforme informações da Folha on-line, o jornal mais antigo na Internet no Brasil e de plena confiança? Não, não se trata de nenhum “blog” irresponsável ou aventureiro...
É um mundo incrível. Eu preferia os bons tempos da Varig.
Pelo menos, o que se dizia era força de lei,sua revisão era fantástica e aprovada com distinção por todas as companhias aéreas do mundo, que mandavam aqui seus aviões para serem inspecionados.
xxxxx
Confiança assim, só no soldado japonês que num dia 24 de janeiro, esteem 1972, vinte e dois anos depois do fim da II Guerra Mundial, que foi encontrado nas selvas (bota selva nisso, hein!) de Guam, uma ilha no Pacífico, onde continuava refugiado e disposto a resistir em nome do império japonês.
O bravo soldado Schoichi Yokoi, símbolo do fanatismo e da desinformação, ou quem sabe do medo ou da valentia, ou de um brilhante coquetel de todas estas virtudes e defeitos, escondido no meio do mato, estava pronto a receber o inimigo a balaço. Guardara uma última carga de munição e se alimentava de frutas e raízes silvestres.
Ainda bem que tinha um bom nariz, caso contrário teria sido aprisionado antes...




DE CABEÇA, NA HISTÓRIA...
Walter Galvani, em 23/01/2008

Um dia para ninguém botar defeito...
Especialmente as FARC e os anti-Fidel.
Ou melhor: anti-Cuba "Libre"...


QUE DIA!...
Walter Galvani


Começo minha jornada olhando o que se passa no mundo, depois da leitura dos jornais que me encaminharam à oscilação das bolsas, à prostituição de meninas nas ruas de Porto Alegre (que a Polícia não encontrou..., claro não tripulava carros último tipo) e à convocação da nova seleção brasileira, com Renan, Pato e outros notáveis recém saídos das fileiras do Internacional de Porto Alegre (ou do Milan ou da Inter de Milão. Aliás só três jogam no Brasil, além do goleiro do Internacional, Renan).
Mergulho na História em busca de dias para santificar o dia. E o que encontro eu? A ironia amotinada nos recantos dos bons velhos tempos.
Vejo, por exemplo, que no dia 23 de janeiro de 1994, as FARC invadiram uma festa do partido que, também ironicamente, se denominava “Esperança, Paz e Liberdade” e jogaram para cima os “slogans” partidários em meio à intensa fuzilaria. Foi “paz e liberdade” para 35 mortos no ato. Assassinados em nome da “Esperança”...
Quatro anos depois, o papa João Paulo II, o mesmo que encheu o mundo de esperança, paz e liberdade, levou o diploma de restauração do catolicismo de Fidel Castro, aliás ex-aluno lassalista, (nossos colegas ex-alunos costumam ir longe...) e disse que era hora dos jovens cubanos pararem de fugir para os Estados Unidos: “Não busquem um mundo falso, baseado na alienação e no desenraizamento!”
Tinha razão o Papa, mas é difícil resistir às luzes de Miami que se avistam da costa ocidental cubana. Ainda mais com os apelos de “esperança, paz e liberdade”...
De ironia em ironia chegamos assim ao 2008.
E então, mergulho em meu próprio arquivo “Calendas” e redescubro que este é um dia em que a Humanidade ficou mais rica, porque nasceu em 1783, Stendhal, aliás Henri Marie Beyle, em 1832, o pintor impressionista Manet, em 1898 o maior cineasta russo de todos os tempos, Sergei Eisenstein.
Em compensação, ficamos mais pobres porque em 1989 perdemos Salvador Dali, e recuando um pouco, 1931, o mito dos mitos da dança, a bailarina Ana Pavlova.
Não há dia que não contribua para a renovação das esperanças de paz e liberdade e não traga alguma luz para entender, através da recordação destes fatos marcantes, o que tem sido a trajetória do mundo. Aliás, começa em Davos o Fórum Mundial, com a possível recessão americana como pano de fundo.




O "TSUNAMI" MUNDIAL NAS BOLSAS
Walter Galvani, em 22/01/2008

Foi assim que o "Correio do Povo" de Porto Alegre, jornal onde comecei meu trabalho jornalístico na capital gaúcha em 1955, "mancheteou" a crise que nos lembra automaticamente 1929

A GRANDE DEPRESSÃO

Walter Galvani


Não há como não se reportar à famosa “Quinta-feira Negra”, 29 de outubro de 1929. Talvez hoje, movimentos negros se rebelassem contra o uso do adjetivo, mas foi assim mesmo que ela ficou conhecida, historicamente, e já se passaram 78 anos. Por aí ainda existem contemporâneos daquela data e pelo menos a sua repercussão ficou marcada e transmitida de geração a geração. Os efeitos dela duraram no mínimo seis anos e durante este período, que aliás antecedeu a II Guerra Mundial que viria logo depois (1939), foram inúmeros os que se suicidaram, abandonaram os negócios, emigraram ou passaram numa hora para outra de ricos e remediados a dependentes dos serviços sociais do governo americano, o principal país afetado.
O efeito daquela quinta-feira em que os 16 milhões de títulos apresentados à venda na Bolsa de Nova York literalmente “desabaram” e perderam um terço do seu valor, prolongou-se por muitos anos e estendeu-se a inúmeros outros países. Alterou a composição do poder mundial (os Estados Unidos detinham 22% do PIB mundial na oportunidade, a Alemanha, que protagonizou a guerra dez anos depois, 9%) e o desmoronamento de Wall Street virou livro, filme, epopéia histórica sempre relembrada.
Por isso, e não poderia ser de outra maneira, o “Tsunami” – como foi batizado – que varreu as bolsas de valores neste início de semana, foi apontado como o possível início de uma quebradeira geral.
Aliás, já fora precedido pelas notícias sobre o mercado imobiliário americano e alguns dos seus principais bancos, em dificuldades.
Para quem não entende ou nunca entendeu como se compõe o mercado financeira mundial – que não para, pois quando cessa o expediente nos estabelecimentos ocidentais, está apenas começando no Extremo Oriente – é hoje uma autêntica mesa de jogo, diante da qual os “bingos” laboriosamente fechados pela polícia brasileira, são “fichinhas”...
A ópera está apenas na abertura. Ainda vamos ouvir muitas árias, intermezzos e duetos, antes do “gran finale”. O pior é que o retrospecto não é nada animador. Relembre-se, se não quiserem ir até 29, o “11 de setembro de 2001” e os dias subseqüentes, quando o atentado às Torres Gêmeas demonstrou que os Estados Unidos não estavam imunes ao fracasso, aos atentados, enfim, aos percalços do dia-a-dia que afligem os demais países que trotam em sua esteira.
Quanto ao Brasil, o presidente Lula diz que está tranqüilo, o presidente Henrique Meirelles do BC, informa que “estamos preparados” e Guido Mantega avisa que a nossa economia está blindada e podemos todos, dormir em paz. O que é o mais perigoso de tudo.
O pior é que não adianta não ser jogador, apostador ou contribuinte da Bolsa. O jogo de cartas, o castelo que desmorona é conhecido de todos desde a infância.




DOM JOÃO VI VAI SAIR NO CARNAVAL...
Walter Galvani, em 21/01/2008

Crônica publicada na edição de 20 de janeiro do jornal ABC DOMINGO,
do Grupo Editorial Sinos


OS DUZENTOS ANOS

Walter Galvani


Para começar seria conveniente alterar o título desta crônica para dizer que nem tudo mudou nestes “últimos duzentos anos”. Estamos começando com uma homenagem ao príncipe Dom João de Orleans e Bragança que, há dois séculos atrás, fugindo das tropas de Napoleão (que mais tarde reconheceu, “este foi o único que me enganou”), atravessou o oceano Atlântico com toda sua corte, mulher, filhos, irmãs, cunhados, tios e serviçais, nobres e também esforçados marinheiros e chegou ao Brasil, aportando na Bahia de Todos os Santos no dia 22 de janeiro de 1808.

Nunca será demais registrar que foi com a vinda do príncipe regente que se alterou a vida brasileira, abrindo-se os portos “para as nações amigas” (leia-se aqui Inglaterra), criando mais adiante o Banco do Brasil, o Museu Histórico, a Biblioteca Nacional, e, em 1816, quando já proclamado Rei, a união no mesmo nível dos reinos de Portugal, Brasil e Algarves.

Este passo gigantesco que representou para nosso país, (até 1808 uma humilde colônia distante da Europa e portanto, do centro dos acontecimentos políticos mundiais), um encaminhamento para a independência que veio em 1822, proclamada por Pedro, filho de Dom João VI, foi dado pelo príncipe até então tido como pusilânime e indeciso.

Nem preciso recomendar o excelente livro de Laurentino Gomes, fruto de exaustiva e criteriosa pesquisa, editado pela Planeta, e que tem como título conciso e correto, “1808” e como subtítulo não mais do que demagógico e comercial, “Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a história de Portugal e do Brasil”, mas que funciona publicitariamente, que o digam os dados das listas de “best-sellers” há seis meses. Não é necessário recomendar porque esta presença nas listagens assegura que o povo o descobriu. Leiam. É ótimo. E leiam-no mais agora que estamos chegando ao período, que começa exatamente com o dia 22 de janeiro de 1808, onde Dom João aportou a bordo da nau “Príncipe Real”, às 11 horas de uma luminosa manhã. Ancorou ali pelas proximidades onde são hoje o Mercado Modelo e o Elevador Lacerda. Salvador não passava então dos 40 mil habitantes e já havia perdido sua condição de capital do Brasil colônia. A sede do vice-reinado já estava no Rio de Janeiro, para onde Dom João seguiu mais adiante, e de onde governava o Conde dos Arcos.

Desde então passamos a adorar a Corte, o rei, depois o imperador, seus esplendores e naturalmente, seus escândalos. Tanto que Dom João VI sairá em 17 escolas de samba no carnaval carioca deste ano. Precisa mais?








DUZENTOS ANOS DA CHEGADA DA FAMÍLIA REAL PORTUGUESA AO BRASIL
Walter Galvani, em 21/01/2008

A chegada do Príncipe Regente, sua mãe,
a "Rainha Louca" e sua esposa (muito mais
esperta, politicamente falando, do que louca...)ajudou a preparar o caminho
da independência brasileira.


Leiam, a seguir, a crônica publicada no
jornal ABC DOMINGO que é, o jornal que
circula aos domingos em toda a região
metropolitana de Porto Alegre (cerca de
4 milhões de habitantes concentrados junto
à capital do Rio Grande do Sul)



FUNDAÇÃO CULTURAL DE CANOAS É EXEMPLO A PROMOVER
Walter Galvani, em 17/01/2008

Crônica publicada hoje no Diário de Canoas

SÓ FALTOU O BITTER ETGES...

Walter Galvani


Esta semana estive na velha estação do trem no centro de Canoas, ali na av. Vitor Barreto (nome em homenagem ao antigo proprietário da Chácara Barreto), diante do prédio onde funcionava o ginásio São Luiz. É bom não esquecer que em março completa-se o Centenário da criação do La Salle, hoje Centro Universitário, em março de 1908 apenas um colégio destinado à educação básica, com ênfase na área agrícola, nada mais adequado para um distrito de Gravataí, dedicado à criação de gado e plantação de arroz. Mas, a minha visita prendeu-se à posse de Francisco Trois (nunca esquecendo sua condição de Mestre Internacional de Xadrez) e um dos intelectuais canoenses de maior destaque e intensa dedicação à Cultura nestes últimos anos. Não é por nada que se trata de uma reeleição.

Lá estava ele, recebendo os cumprimentos junto com os demais membros do Conselho Diretor da entidade, João Amarante de Oliveira e Silva, Antonio Carlos Escobar e Valmyr Fernandes.

O ato foi enriquecido com a homenagem que a Fundação prestou à própria prefeitura da cidade, pois a data não poderia ser mais significativa: 15 de janeiro, completando-se pois, desde 1940, justos 68 anos da existência oficial do município de Canoas. A instalação se deu nos altos da rua Santos Ferreira, conforme crônicas da época. A referência ao ato histórico e a leitura de registros da imprensa em 1940, foi feita pelo poeta Tonito Canabarro Trois, meu colega dos tempos de estudos no Externato São Luiz dos saudosos Irmãos Lassalistas.

Foi um instante inesquecível e jovens e “antigos” confraternizaram por alguns momentos num verão que nos lembrava sim, o verão de 1940, que parecia prever as grandes chuvas e as inesquecíveis enchentes do ano seguinte, quando a esquina das ruas Cel. Vicente com Av . Brasil se transformou em porto para as “gasolinas” (assim se chamavam as lanchas) que faziam o transporte para o centro de Porto Alegre. Relembrou Tonito Trois que, se houvesse sido seguida a inspiração do primeiro prefeito então nomeado (a 5 de janeiro) e que assumia no dia 15 com a instalação oficial do município, Edgar Braga da Fontoura, a povoação teria se situado muito mais acima, à altura do atual hospital Na.Sa. das Graças e não teriam ocorrido os prejuízos enormes das enchentes que se sucederam deste então.

Hoje não há como corrigir os erros do passado e oxalá que não se produzam novos. Foi uma bela comemoração. Senti falta apenas do “Bitter Etges”...




NAS CADEIRAS DE VIME, COM FIDEL
Walter Galvani, em 16/01/2008

Lula foi conhecer como funciona a
"suite" Havana...


Eu também sentei nas cadeiras de vime. Só não falei com o Homem. Para vê-lo, tive que deslocar-me até o Estádio da Revolução, cheio de fotos imensas de Che Guevara, bem próximo ao simpático e modesto prédio da “Casa de Las Américas”, onde Fidel Castro falaria ao povo.
Lula sentou-se nas tais cadeiras de vime, de “mimbre”, e também desfrutei de alguns momentos de descanso em móveis semelhantes, para conversar com Luis Felipe Rocca, o chanceler, que, pelo que vejo está prestigiado.
Isso foi em 2002. Mais tarde voltei à Cuba, em janeiro de 2004, para participar do júri que escolheu o Prêmio Casa de las Américas daquele ano. Eu fora premiado em 2002, referente ao ano de 2001.
Uma das coisas que me chamou a atenção foi justamente a simplicidade que representavam os móveis de vime, onde todo mundo se sentava com a maior naturalidade.
Por isso, não me surpreende que neles Fidel tenha recebido Lula e tenha tratado de assuntos tão importantes como um possível convênio para a Petrobrás pesquisar petróleo no golfo do México, em águas cubanas. É um achado. Tomara que os Estados Unidos não tomem isso como uma provocação.
Sabe-se como é difícil o xadrez político das Américas e sabemos todos o valor da pedra Cuba para os Estados Unidos. Um regime socialista ali, na cara da pátria do neo-liberalismo capitalista não deve ser nada palatável para nenhum candidato, mesmo que a mudança esteja chegando. Ao contrário: Cuba pode ser tomada até como aposta de quem quer conquistar o poder, tipo assim: “Bem, já que o Bush não conseguiu varrer Fidel dali, eu conseguirei....”
Foi um gesto valente por parte de Lula sentar-se nas tais cadeiras de vime. Para mim, foi mais fácil e mais cômodo. Afinal lá estive para trazer uma estatueta para casa (e mais 3.000 dólares que me foram creditados numa agência de um banco espanhol) e mais tarde, vivi a oportunidade de conhecer o interior cubano.
Sei o quanto a vida lá é dura, todos sabemos que a dificuldade maior vem do bloqueio econômico exercido pelos americanos, com o que eles querem demonstrar que um regime comunista é impraticável, mas também sabemos ler nas linhas e nas entrelinhas. E tem mais: há censura sim, mas foi em Cuba que assisti ao documentário “Suíte Havana”, uma das visões mais cruas e duras sobre a vida naquele país.
Ah sim, e antes que seja tarde, foi nas ruas de Havana que vi, ao lado dos velhos carros americanos com manutenção difícil por causa da dificuldade de peças, flamantes automóveis franceses (Renault acima de todos) e espanhóis.
Alguém fala sobre isso?
E também o transporte coletivo em carroças no interior.
Difícil, sacrificante e sacrificado, mas parece que se sabe bem porque.
E ia me esquecendo: há muitos ônibus e micro-ônibus, sim, com as carrocerias muito conhecidas nossas, feitas em Caxias do Sul, da Marcopolo.




INSURGENTE OU TERRORISTA, NÃO É UMA SIMPLES QUESTÃO SEMÂNTICA
Walter Galvani, em 15/01/2008

O que são as Farc?
Terroristas? Insurgentes?
Onde se situam?
O presidente Álvaro Uribe, da Colômbia, cederá e iniciar-se-ão conversações?


TERRORISTA OU INSURGENTE

Walter Galvani


“Palavras, ah palavras”, como diria Cecília Meirelles, mas o quanto elas são perigosas, qualquer um de nós pode ser testemunha, eis que a palavra fere, faz sangrar, mata, explode, subverte, provoca rompimentos, irreconciliáveis muitas vezes e liqüida com relações, parentescos, amizades, amores e vidas. Talvez seja a mais letal de todas as armas, por isso que uma discussão sobre palavras não deve ser tomada como algo pueril ou dispensável.
Agora mesmo assistimos à um debate internacional. As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as chamadas “Farc”, não querem ser classificadas como “terroristas” e contam com o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, como seu advogado principal, que conseguiu, após longa e tortuosa ação diplomática, a liberdade de pelo menos dois reféns importantes, Clara Rojas e Consuelo Gonzalez. Eles querem ser chamados de “insurgentes”, declaram-se revolucionários e não simples terroristas. O próprio presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, abriu hoje a possibilidade de mudar esta denominação e iniciar negociações políticas. Clara Rojas, ex-deputada e que foi refém durante seis anos, disse saber que eles “são receptivos à uma discussão inteligente”.
Mas, afinal o que é terrorismo e o que é insurgente?
Ora, o significado muda de acordo com os tempos, nem sempre uma palavra permanece com a mesma acepção indefinidamente, como uma “mesa”, uma andorinha ou um verão. Mesmo assim, no sentido figurado estas palavras também evoluem, mudam, tornam-se mais fortes, mais fracas, conforme a inserção no discurso alcançam outros significados e isso sem apelar para a moda da terminologia do texto e do subtexto.
Objetivamente, para um leitor (ou ouvinte) comum da língua portuguesa, desde o século XIX, “terrorista” quer dizer o que usa de violência para conseguir a desorganização do sistema político vigente e assim conquistar o poder.
É comum opor à esta denominação que caracteriza uma ação doutrinária e prática, a conquista do poder pelas urnas. Todo mundo sabe o que se quer dizer: através de eleições.
As Farc, aparentemente, não acreditam em eleições pois nelas não confiam, ou preferem o caminho, que julgam mais curto, dos métodos violentos, lançando mão de seqüestros, desapropriações, roubos a bancos, formação de quadrilhas, tomada de reféns.
O que são insurgentes? São os que se rebelam contra algo, se amotinam, se revoltam.
Aparentemente há uma gradação neste significado, embora alguns dicionários prefiram classificar os dois termos no mesmo estágio de sinonímia. Você pode ser insurgente por meios pacíficos, deixando de comer, de falar, de dialogar com o governo, apresentando publicamente seus protestos. Já pelo terrorismo está implícito o uso de armas, bombas, modernamente pelos exemplos enfáticos do Oriente Médio (generalizando) até o pé das montanhas do Afeganistão ou do Paquistão, do Iraque invadido, esta invenção dos ingleses que implantaram uma nação onde outrora conviviam pacificamente (ou não) vários povos distintos, (como a incrustação do estado de Israel pelas Nações Unidas em 1948, quando 800 mil palestinos perderam seus bens e sua terra), suicidas, carros-bomba, tudo isso no mesmo pacote de destruição e, muitas vezes, auto-imolação.
A palavra, contudo, insurgente é parente próxima do terrorista, embora nem todo o insurgente seja terrorista e nem todo o terrorista seja, de fato, um insurgente. O terrorismo também pode ser “de Estado” que age politicamente prendendo, expulsando, torturando ou matando inimigos ou adversários.
Muito diálogo e concessões de parte a parte, parece ser o único caminho para a guerrilha colombiana e o governo do seu país. E um entendimento que vá além da semântica...




CONTRA A LUTA ARMADA E CONTRA O CONDENÁVEL HÁBITO DE FAZER REFÉNS
Walter Galvani, em 14/01/2008

Hugo Chávez começou a semana com uma
surpreendente profissão
de fé democrática:


CONTRA LUTA ARMADA
E FAZER REFÉNS

Walter Galvani


Afinal, tenho o primeiro nome a subscrever a lista que sonhava percorrer os diversos países do mundo, sejam da subdesenvolvida África, ou da explosiva região do Oriente Médio ou da úmida e arborizada (ainda) América Latina, onde em alguns países (exemplo, Colômbia) há imensos territórios “de ninguém”, dominados por movimentos que se situam entre “guerrilha pelo pão de cada dia” e “revolta armada contra as instituições”.
Pois a adesão fundamental que acabo de receber é do presidente da Venezuela, pasmem, ele mesmo, Hugo Chávez. Talvez para auto-vacinar-se contra aventureiros, acaba de declarar que “é contra a luta armada e contra o hábito de fazer reféns”.
Esta declaração democrática se produz na seqüência dos acontecimentos em que fortaleceu sua posição de líder do seu país e seu renome internacional, ao interferir vitoriosamente na libertação de duas reféns pelas FARC: Clara Rojas e Consuelo González.
O filho de Clara, Emmanuel, ao que se informa, “fruto de uma relação consentida” com um guerrilheiro, e nascido no cativeiro, já estava, desde os 8 meses de idade (hoje tem 3 anos) num orfanato do governo, com identidade falsa, o que, afinal, o salvou da morte nas difíceis condições na floresta.
Diz-se que há ainda 700 reféns, aproximadamente, em mãos das FARC e Chávez fez hoje um apelo para que cessem os guerrilheiros de praticar o hábito de fazer reféns. Está certo ele e se é sincero – quem garante? – em suas posições de defesa da democracia, contra a luta armada e contra este mau costume de forçar as pessoas privando-as da liberdade, então, estamos todos no bom caminho. Duvidoso nesta estrada cimentada com tantas mentiras e enganos, mas vale a pena acentuar.
Também acho que o mais justo seria negociar um desarmamento geral de corpos e espíritos, eleições fiscalizadas pela ONU, constituição de uma assembléia nacional com votação universal, libertação de todos os detidos, devolução dos reféns estrangeiros aos seus países de origem e, depois disso tudo, teríamos então uma nova Colômbia.
É um perigoso exemplo de democracia. Será que viveremos o suficiente para testemunhá-lo em ação?




CHÁVEZ DIZ QUE AS FARC TEM PROJETO POLÍTICO. VOCÊ, O QUE ACHA?
Walter Galvani, em 13/01/2008

Crônica publicada hoje no jornal
ABC DOMINGO,
publicado pelo Grupo Editorial Sinos


NEGOCIANDO VIDAS...

Walter Galvani


Hugo Chaves, Álvaro Uribe, o envelhecido líder das FARC, os políticos interessados e nesse grupo entram até Sarkozy e Lula, ou seja, França e Brasil, com a devolução das duas reféns, Clara Rojas e Consuelo Gonzalez, seqüestradas em 2002 e 2001, e o menino Emannuel, nascido em cativeiro, parece que o humanismo se impôs, ao menos neste “round” da luta. Mas, não se iludam. Eu gostaria de lhes dar este abono no café da manhã (ou almoço) neste domingo para o qual nos haviam prometido temperatura amena na Região Metropolitana (e olhem que, “promessa” do Prof. Eugênio Hackbarth, da Metsul Meteorologia, é para agarrar com as duas mãos), mas, infelizmente, não é o que ocorre.

São 500 os guerrilheiros em mãos do governo colombiano, conforme as FARC e, por outro lado, a contabilidade aponta além de Ingrid Betancourt, a ex-candidata à presidência do país, 33 soldados/policiais, 3 americanos e 8 políticos, entre os quais a senadora, que é o “bem” mais valioso, se é que se pode tratar assim, em mãos dos “revolucionários”, se é que se pode chamá-los por este termo.

Respeito, em toda a linha, a posição dos revoltosos na história da humanidade, caso contrário não estaríamos, hoje, reverenciando Tiradentes, Che Guevara ou Jesus Cristo entre outros. Mas, faz tanto tempo que as FARC se notabilizaram, pelo bem ou pelo mal, que já nem lembramos o que, de fato, desejam e se os seus métodos são apropriados ou precisariam de uma revisão.

Vejam que, só estas duas reféns libertadas esta semana, estavam na posse deles há sete ou oito anos. Dizem que, além de Ingrid, que é da “mesma safra”, há outros tão ou mais antigos.

Já se chatearam todos, os reféns de viverem em condições adversas no meio da floresta e os guerrilheiros que, toda a vez que se deslocam e procuram não deixar vestígios de onde andaram, ainda tem que arrastar os reféns, com seus livros, idiossincrasias, cigarros, charutos, velas e religiões. É over-dose para todos.

O bom mesmo, para a guerrilha colombiana e para o governo de Álvaro Uribe, para o país e para o mundo, seria uma revisão geral, e, zero a zero e bola no centro do campo para começar o outra vez.

Talvez então se tornasse possível o reexame da questão toda, a análise das motivações revolucionárias, até para saber se cabem no mundo de hoje. Dizem que há guerrilheiros com “laptop” e, em compensação, gente que nem sabe que existe Internet.






O GRANDE SUSTO DA FEBRE AMARELA
Walter Galvani, em 10/01/2008

Crônica publicada no jornal
"Diário de Canoas", que circula
na maior cidade da região metropolitana
de Porto Alegre, editado pelo
Grupo Editorial Sinos.
Canoas é minha terra natal.


FEBRE AMARELA

Walter Galvani

Não se trata de entrar na psicose coletiva, mas num país de 188 milhões de habitantes, sem boas condições de saúde pública para a maioria, um surto de Febre Amarela é de tirar o sono e... as férias dos responsáveis pelos setores em níveis municipais, estaduais e federais. Não adianta dizer que é “muito cedo”, que é um problema só de Goiás e Brasília, onde morreu Graco Abubakir e nas proximidades, no tempo e no espaço, de um problema com macacos. Ora, problema com macacos, afirma-se, com certeza foi onde nasceu a AIDS. E por transmissão via contato sexual.
Sem esconder ou tentar esconder as barbaridades que o ser humano pratica, o problema é o fantasma da febre amarela.
Há quinze dias morrera em Goiânia, o lavrador João Batista Gonçalvez, com “suspeita” de febre amarela.
Mas, a transmissão da febre amarela se dá pela picada do mosquito transmissor do vetor, que é o “Haemagogus”. Direto ao sangue como o nome diz. Não é contagioso de indivíduo para indivíduo, mas as mesmas providências que se tomam contra o mosquito transmissor da dengue, devem ser adotadas contra o transmissor da febre amarela.
Como enfrentar?
O governo federal precisa deixar de lado a fantasia e atacar para valer, esquecendo o problemão que isso vai representar para o turismo, o que é indiscutível. Hoje, os turistas europeus e norte-americanos precisam temer, além das questões de insegurança, por causa da violência brasileira (ainda esta semana houve um tiroteio com mais de 30 disparos na frente do Hospital Mãe de Deus em Porto Alegre) o perigo da febre amarela.
Problema para o turismo, porque terá de ser divulgado o assunto, com muita intensidade. E isso sim, é preciso ser tratado na televisão e no rádio, nos jornais e em out-doors das empresas estatais, nas ruas das cidades.
Porque só há um jeito de se prevenir: vacinar-se.
Todos os viajantes que chegam ou saem do país, precisam vacinar-se contra a febre amarela e isso é preciso fazer, porque não existe outra maneira de prevenir-se.
Um mosquito chega, na calada da noite ou ao entardecer, de manhã cedo ou ao meio dia, ele não tem hora de circulação...
Só para lembrar: antigamente comemorava-se o dia 9 de Janeiro, como uma grande data da nacionalidade. Foi em 1822, o Dia do Fico. Lembram da frase de Dom Pedro I: “Se é para o bem de todos e felicidade geral da nação, digam ao povo que eu fico!” E ficou. Foi o introdutor da ideologia do “Fico”, no Brasil. Depois os políticos trataram de aperfeiçoá-la para o “Fico no Poder. Enquanto der...”







O GRANDE PERIGO DA FEBRE AMARELA
Walter Galvani, em 09/01/2008

Não é uma brincadeira e por maiores que
possam ser os prejuízos para o turismo
brasileiro, é preciso divulgar, as duas
mortes suspeitas.


FEBRE AMARELA

Walter Galvani

Não se trata de entrar na psicose coletiva, mas num país de 188 milhões de habitantes, sem boas condições de saúde pública para a maioria, um surto de Febre Amarela é de tirar o sono e... as férias dos responsáveis pelos setores em níveis municipais, estaduais e federais. Não adianta dizer que é “muito cedo”, que é um problema só de Goiás e Brasília, onde morreu Graco Abubakir e nas proximidades, no tempo e no espaço, de um problema com macacos. Ora, problema com macacos, afirma-se, com certeza foi onde nasceu a AIDS. E por transmissão via contato sexual.
Sem esconder ou tentar esconder as barbaridades que o ser humano pratica, o problema é o fantasma da febre amarela.
Há quinze dias morrera em Goiânia, o lavrador João Batista Gonçalvez, com “suspeita” de febre amarela.
Mas, a transmissão da febre amarela se dá pela picada do mosquito transmissor do vetor, que é o “Haemagogus”. Direto ao sangue como o nome diz. Não é contagioso de indivíduo para indivíduo, mas as mesmas providências que se tomam contra o mosquito transmissor da dengue, devem ser adotadas contra o transmissor da febre amarela.
Como enfrentar?
O governo federal precisa deixar de lado a fantasia e atacar para valer, esquecendo o problemão que isso vai representar para o turismo, o que é indiscutível. Hoje, os turistas europeus e norte-americanos precisam temer, além das questões de insegurança, por causa da violência brasileira (ainda esta semana houve um tiroteio com mais de 30 disparos na frente do Hospital Mãe de Deus em Porto Alegre) o perigo da febre amarela.
Problema para o turismo, porque terá de ser divulgado o assunto, com muita intensidade. E isso sim, é preciso ser tratado na televisão e no rádio, nos jornais e em out-doors das empresas estatais, nas ruas das cidades.
Porque só há um jeito de se prevenir: vacinar-se.
Todos os viajantes que chegam ou saem do país, precisam vacinar-se contra a febre amarela e isso é preciso fazer, porque não existe outra maneira de prevenir-se.
Um mosquito chega, na calada da noite ou ao entardecer, de manhã cedo ou ao meio dia, ele não tem hora de circulação...




O QUE NOS FOI IMPOSTO AO VIRAR O ANO...
Walter Galvani, em 06/01/2008

Crônica publicada no jornal
ABC DOMINGO


FACADA NA MADRUGADA

Walter Galvani

Nem me dei conta. E o pior é que ainda não começou a sangrar. Mas, ao começar a ler a verdade, depois dos prognósticos falhados de Ano Novo e da costumeira choradeira do presidente Lula e de vários ministros, por causa da CPMF que o pobre Adib Jatene criou com as melhores intenções, descobri que havia sido atingido na ilharga e que não teria como fugir ao sangramento. Revistas do exterior que assino, livros que compro, enfim, tudo o que o celebrado cartão de crédito nos facilita, agora virá mais salgado para compensar a perda do governo federal com a eliminação de um tributo que, na verdade, não servia mais e nunca serviu às suas finalidades.

Assim será, como sempre foi. Nada mudará no Brasil de 2008, bem como nada mudou em 2007, como não havia mudado nada quando o PT chegou ao poder, o que demonstra que não importa qual o partido que chega lá em cima, pois não somos nós que mudamos, é o Natal que muda... Parafraseando a pergunta do velho e insubstituível Machado de Assis, “Mudaria o Natal ou mudei eu?...”, podemos afirmar que agora já temos a resposta. (O sempre oportuno Machado será o mote de muitos trabalhos, pesquisas e discussões neste ano em que se comemora o primeiro centenário de sua morte que seu a 29 de setembro de 1908. O cortejo do seu sepultamento foi, se disse na época, “uma apoteose nacional”. Não é sem tempo que o relembremos diante dos fatos mínimos do dia-a-dia.)

Todos os dias, aliás, precisamos aprender com o que nos reserva o cotidiano. Quando menos esperamos desaba sobre nós, pobres rãs a pedir um rei, um novo edito presidencial, um novo decreto que nos derruba, sem contemplação. E, depois de respirar fundo, nós os brasileiros, dedicados e competentes, bons cidadãos e acomodados pagadores de tributos, seguimos em frente. Estes primeiros dias do ano, enquanto a maioria se diverte, é a hora de aumentar os custos e repassá-los ao consumidor. E isso vale para as grandes redes e para o botequim da esquina, para os estacionamentos pagos e para os pedágios, tudo enfim recebe a sua percentagem, em cima de um cálculo mais ou menos fictício que gira em torno de 7 por cento. Mas, e se você quiser fazer os cálculos, porque lhe parece “pouco” e descobre que algo que teve uma alta de 3,50 para 5,00, em verdade subiu 30 por cento?

Acordem, brasileiros, acordem. Pagaremos mais imposto sobre a renda, mais caro pelos estacionamentos, pelos pedágios, pelo preço da gasolina e a desculpa será a contribuição provisória que, de fato, queriam permanente.




BICENTENÁRIO DA IMPRENSA E OS CENTENÁRIOS DE CYRO MARTINS E MACHADO DE ASSIS
Walter Galvani, em 05/01/2008

Crônica publicada no jornal
Diário Popular de Pelotas


AS BOAS DATAS

REDONDAS



Walter Galvani





O ano de 2008 será pródigo em agradáveis datas redondas. Não, não se assustem, nenhuma delas é o aniversário de algum bandido ou a celebração de um atentado. Afinal de contas, com os últimos acontecimentos, tipo assassinato de Benazir Bhutto ou comemoração de um apenado que, romanticamente, promete “não mais fugir” do regime de prisão a que foi condenado, pode-se pensar que o país só quer cantar glórias duvidosas ou conquistadas com os pés. Nada contra os feitos esportivos, mas vamos recordar que a Maratona tem esse nome, não pela prova atlética, mas pelo prodígio de comunicação que representou a corrida de mais de quarenta quilômetros para contar uma vitória dos gregos.

Temos um Bicentenário digno de ser festejado: o da Imprensa Brasileira, com este nome e este objetivo. A primeiro de junho de 1808, circulava em Londres o “Correio Braziliense”, (assim mesmo pois à época se grafava “Brazil” com Z), editado pelo “gaúcho” adotivo Hipólito José da Costa. Ele nascera na Colônia do Sacramento que, numa das oscilações político/guerreiras do sul do continente, perdemos para o vice-reinado da Espanha e conseqüentemente para a futura República Oriental del Uruguay.

Hipólito educou-se em Pelotas, com um tio sacerdote e depois seguiu o caminho de Coimbra (Portugal) e Inglaterra, onde fundou o jornal que ajudou a criar as condições para a independência do Brasil. A ARI (Associação Riograndense de Imprensa) vai comandar as comemorações.

Machado de Assis. Centenário da morte do maior escritor brasileiro de todos os tempos, ocorrida no dia 29 de setembro de 1908. Muitas edições comemorativas se terá, e já começaram. O lançamento agora do trabalho do poeta e publicitário Luiz Coronel, “Dicionário Machado de Assis – Ontem, hoje e amanhã”, (patrocinado pelo Grupo Zaffari, eis um bom exemplo de sabedoria promocional) abre uma longa série de expressão nacional e internacional.

Cyro Martins. No dia 5 de agosto de 1908 nascia o grande romancista, médico, psicanalista, contista e profundo conhecedor da vida rio-grandense, autor da famosa Trilogia do Gaúcho a Pé, em que antecipava com precisão sábia, a crise da vida no Pampa. Já no ano passado, abrindo a comemoração realizou-se um seminário na Feira do Livro de Porto Alegre e também algumas instituições, como a PUCRS, trabalham em cima deste acontecimento enorme na área cultural. Preparem-se, pois 2008 será pródigo de grandes momentos para reflexão e elevação. Não será preciso festejar nenhum pássaro exótico ou ficar esperando por explosões de bombas.







VOCÊ É A FAVOR DAS CORUJAS OU DO FOGUETÓRIO POLÍTICO?
Walter Galvani, em 03/01/2008

Crônica publicada n esta quinta, no jornal Diário de Canoas:

A FAVOR DAS CORUJAS

Walter Galvani



Todos conhecem aquela passagem bíblica do “atire a primeira pedra”, quem não tiver nenhuma culpa. Eu também a tive. Já soltei foguetes, montei linhas de rojões, fiz tudo errado. Eram bons e velhos tempos e chegava a hora do Ano Novo, a gente fazia explodir todas as preocupações com aquela bateria de fogos. Lindo! Inesquecível. Mas, errado. Saudosa memória, meu pai sempre levantava a voz (uma das raras vezes em que a levantava, normalmente preocupado em ser polido e bem educado) mas, nas duas vezes em que tradicionalmente gritava “Lá vem ele!”, queria dizer, o Ano Novo, à zero hora do primeiro dia do novo ano ou na Semana da Pátria, quando, do centro da Praça da Bandeira, parecia ser o dono exclusivo da notícia de que estava chegando o “Fogo Simbólico”, em mãos de um atleta do Oriente, do Brasil ou do F.C.Canoense.

Quando parti para outros rumos levei na cabeça a idéia de comemorar o Ano Novo e, confesso, muitas vezes participei de foguetórios que hoje vejo como irresponsáveis. E tanto os vejo como irresponsáveis que aplaudi e aplaudo a atitude da Brigada Militar, que, através do seu Batalhão Ambiental, para que se protegessem os filhotes de coruja, suspenderam a promoção de fogos de artifício da prefeitura de Capão da Canoa. Salvaram-se os filhotes, o casal, o Brasil inteiro ficou feliz.

Hoje, passado o Ano Novo, me pergunto se não teria sido mais proficiente e eticamente correto, a prefeitura de Capão (e tantas outras) aplicar a verba que seria “queimada” na meia noite do dia 31, em melhorar as condições de habitação, saúde, saneamento, daquela vila que a gente atravessa olhando com o olho esquerdo, ao dirigir na Estrada do Mar, enquanto o olho direito contempla o luxo e o egoísmo daquelas edificações todas em sistema de condomínio fechado.

O dinheiro posto fora pelo país inteiro para fazer esta comemoração poderia ter sido representado simbolicamente pela distribuição de bolsas de estudo para os filhos do povo, este imenso povão que se diverte vendo as bobagens (a violência e a ignorância) de redes de televisão e passando fome, comendo abaixo das necessidades básicas para sua alimentação. Pergunto se os exageros, os absurdos, os crimes não poderiam ser poupados, como um acidente de trânsito em Panambí, minutos antes da meia noite, quando o condutor de um carro matou o motorista que lhe ia a frente, um foguete que explodiu na cabeça de uma dona de casa numa “comemoração” de Ano Novo em Santa Terezinha, ou a bala perdida que matou uma jovem de 18 anos em São Luiz Gonzaga.






PASSAGEM 2007-2008
Walter Galvani, em 30/12/2007

Crônica publicada hoje no jornal
ABC DOMINGO, do Grupo Editorial Sinos


O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA

Walter Galvani


Peço licença, embasado pelas boas intenções, para furtar o belo título do livro de Gabriel Garcia Márquez, que faz o encanto dos bons leitores no mundo todo desde 1985, e, ao mesmo tempo ajudar na escolha de um bom programa de fim-de-ano, que o momento da virada está chegando aí, de forma inexorável, dentro de poucas horas. Agora, de nada servirão bons propósitos ou belas promessas. A não ser para o 2008. Mas desfrutar com o que há de melhor os últimos instantes deste ano que se vai, é algo justo e prazeroso. Faça como fiz e curta a cerimônia do cinema, algo também insubstituível e se você não tem condições de possuir em casa um “home theater” saia, vá mesmo à uma sala de cinema e viva em toda a intensidade a história que o próprio Garcia Márquez diz que escreveu “com as entranhas”.

O que você, leitor amigo, acha de uma paixão devoradora que Florentino Ariza viveu por Fermina Daza durante toda a sua vida e que lhe rendeu uma espera de 53 anos, 9 meses e 11 dias?

Vejam o filme, leiam o livro, e bom 2008. É que a suprema lição da obra de Gabriel Garcia Márquez e que dá para aproveitar em nossa vida é justamente a capacidade da espera, a extensão da esperança e a crença ilimitada em que um dia as coisas que queremos, chegarão. Sem isso talvez fosse impossível viver.

Tecnicamente, é justo que se diga que nem todos os indivíduos possuem a resistência suficiente para suportar. Mas, também é verdade que se aprende, não é mesmo, “Florentino Ariza”?

O brasileiro é um exemplo disso. Com sua teimosia, sua sabedoria cabocla que o ensina e orienta na hora de enfrentar as dificuldades, vai atravessando o mar, sem afogar-se. Como se diz no Rio de Janeiro, enfrentando “uma onda de cada vez”.

E assim se chega à outra margem, ao outro lado, ao fim do mês, ao novo ano, ao fim da vida, à nova vida (oxalá que exista...) ou ao simples e obscuro esquecimento.

Já sabemos que a inflação deverá fechar acima dos 7% por cento (a oficial), que o salário mínimo subirá como sempre (desde que foi criado por Getúlio Vargas) em abril (ou maio), que o mundo continua apesar do assassinato de tantos inocentes, da morte de Benazir Bhutto, uma esperança para o pobre Paquistão, longínquo, mas não tão distante, tão próximo do Brasil nos números negativos, e do dinheiro posto fora em nosso país, do fim da CPMF, “acidente” em que, como se sabe, não morreu ninguém e serviu para muita coisa. E assim é e somos e assim será 2008. Só muda a folhinha do calendário.




















A HORA DO BALANÇO
Walter Galvani, em 29/12/2007

Crônica publicada neste fim-de-semana nos jornais Diário Popular,
de Pelotas e A Razão, de
Santa Maria


ADEUS, ANO VELHO...
Walter Galvani


Já sabemos que a inflação passou dos 7%, que o salário mínimo, no ano que vem, valerá 408,90 (a partir de abril), que teremos eleições municipais e, portanto, as administrações serão muito mais boazinhas nos próximos meses do que se possa sonhar, que os políticos que este ano nos enviaram os últimos cartões impressos em circulação no planeta e congestionaram nossa caixa postal eletrônica com as mais engenhosas e simpáticas mensagens, estarão ainda mais risonhos e afáveis e que, finalmente, chegou a hora de dizer, “Adeus, Ano Velho”, pois não há mais remédio e em poucas horas estaremos em 2008.

Feliz do Laurentino Gomes que assinalou e muito bem o ano que vai entrar com o seu excelente (e muito bem vendido) livro “1808”, com o qual assinala a vinda da família real para o Brasil e o início da construção do Brasil independente, quatorze anos depois. De quebra ele resgatou a figura de Dom João VI, a esta altura guindado à grande estadista, “o único que me enganou”, segundo Napoleão. Era tempo: depois do filme canalha e da literatice de segunda que se praticou por aí, a imagem do Príncipe Regente estava periclitante.

Assim, o “ano velho” pelo menos fez este resgate histórico e projetou para “o ano que vai entrar” uma esperança a mais para os incorrigíveis brasileiros que sempre imaginam que “tudo vai melhorar”. É um espírito benéfico, não se pode negar. Noventa por cento das entrevistas de virada do ano, sejam elas feitas nas areias de Copacabana ou no sertão mineiro, às margens do Xingu ou no pampa gaúcho, são otimistas e apontam para a perspectiva de melhores dias. Tais como no ano passado. Esquecemos apenas de revisar, porque de 2006 para 2007, deu-se coisa parecida, tal como de 2005 parta 2006 e assim por diante. Ou para trás.

O que se torna necessário agora é equilíbrio suficiente para estimar até que ponto precisamos ter ponderação, prudência, sabedoria, para aquilatar o que muda ou não, além da cabeça, com a passagem do calendário. Antigamente usava-se uma “folhinha” na parede e pacientemente arrancava-se, todos os dias, uma página, para saber com exatidão, onde se andava.

Parar a marcha do tempo não interessa, antecipar-se a ele, não é o caminho, retroceder, impossível. É apenas aceitar-se e compreender que, em verdade, nada muda, a não ser dentro de si mesmo. E é lá que é preciso valer seus propósitos a serem cumpridos e não apenas prometidos a si e aos outros, na hora da passagem inexorável para o 2008. Com mais de duzentos mortos em acidentes, com tantos crimes e balas perdidas, já é alguma coisa.









E ENTÃO É NATAL...
Walter Galvani, em 23/12/2007

Crônica publicada hoje no
ABC DOMINGO


CULTURA E PACOTES

Walter Galvani

A força das palavras é algo tão respeitável que, às vezes, quem as usa nem sequer sonha com o alcance do dardo de aço que estão expelindo e no entanto... soltam o verbo. O presidente Lula, por exemplo, disse esta semana que tem “ojeriza” – ou seja, aversão ou repulsa – enfim, ele detesta, odeia, a palavra “pacote”. Eu não, se for um pacote colorido que me for dado pelo Papai Noel. Outros tem ojeriza à expressão CPMF, Lula também não gosta de ouvir falar em “greve-de-fome”, prefere outros tipos de greve que fez muito no passado, nos tempos do sindicato de São Bernardo do Campo. E garante que vão continuar tocando adiante a idéia estapafúrdia de inverter o curso do Rio São Francisco, para, segundo ele, beneficiar 12 milhões de nordestinos e que não liga para a “greve-de-fome” do Frei Cappio. Odeio a palavra quando ela é mal empregada. Por exemplo: Transposição ao invés de informar corretamente o que se quer que é “inverter o curso”.

Mas não se pode pedir que todos sejam tão informados e cultos quanto os ladrões que entraram no Museu de Arte de São Paulo, pela porta da frente, e em três minutos levaram duas das mais valiosas telas ali abrigadas, o “Retrato de Suzanne Bloch” de Pablo Picasso, tela de 1904, final da sua famosa “fase azul” e “O lavrador de café”, de Portinari, que em 1939 retratava um negro que vendia sua força como se fosse um escravo, que evidentemente não era mais. Valor dos roubos, telas sem seguro e alarme desligado, 100 milhões de dólares.

Vejam só quanta mentira e desfaçatez se encerra em simples notícias e reações oficiais, que mais disfarçam a realidade do que a explicam aos concidadãos.

Realmente é de criar “ojeriza” à certas coisas, sem falar na crise aérea (já passou?) , no campeonato roubado pelo Coríntians, nas negociações no Senado da República, enfim, tudo isso que sofremos este ano que se aproxima do final.

E como é Natal, vamos imaginar que as pessoas redescobriram o efetivo significado da mensagem de Jesus e, acreditando no cristianismo ou não, passem a praticar aquilo que assombrou os romanos e acabou conquistando o coração da imperatriz Helena e, posteriormente, do imperador Constantino: “eles, os cristãos, se amam!”

Isso não salvou a vida dos pioneiros, mas construiu uma imagem que resiste há 20 séculos. Pena que a imagem inicial, de humildade e doçura, de tranqüilidade e misericórdia foi transtornada pelo bicho-homem, aquele que destrói tudo, inclusive o ambiente onde vive.

Para encerrar: todos os problemas têm origem na imprevidência e na imprudência. Desde as corridas no tráfego, até as questões financeiras. E o roubo, e a CPMF, e a ojeriza à certas atitudes e palav
acreditando no cristianismo ou não, passem a praticar aquilo que assombrou os romanos e acabou conquistando o coração da imperatriz Helena e, posteriormente, do imperador Constantino: “eles, os cristãos, se amam!”

Isso não salvou a vida dos pioneiros, mas construiu uma imagem que resiste há 20 séculos. Pena que a imagem inicial, de humildade e doçura, de tranqüilidade e misericórdia foi transtornada pelo bicho-homem, aquele que destrói tudo, inclusive o ambiente onde vive.

Para encerrar: todos os problemas têm origem na imprevidência e na imprudência. Desde as corridas no tráfego, até as questões financeiras. E o roubo, e a CPMF, e a ojeriza à certas atitudes e palavras.




ZORIONAK ETA MERRY CHRISTMAS
Walter Galvani, em 22/12/2007

Crônica publicada neste fim-de-semana
nos jornais A Razão, de Santa Maria
e Diário Popular, de Pelotas


O PODER DA PALAVRA

Walter Galvani

Feliz Natal, “Merry Christmas”, “Buon Natale”, “Feliz Navidad”, “Fröhliche Weihnachten”, “Zorionak Eta” (esta última expressão em língua basca) ou qualquer que seja a língua utilizada, a força ainda existe por que é latente, mora no seio das palavras, adormecida ou não. Despertará ao primeiro abraço, ao primeiro sorriso, ao primeiro cartão.

Cultura ocidental, cristianismo, amem-se uns aos outros, tenham fé, caridade, esperança, Cristo, o filho de Deus, esteve na Terra para resgatar os humanos, a vida não acaba após a morte, “fazei isso em memória de mim”, quer dizer, há todo um sistema de crenças e atitudes, construído sobre o edifício que nos foi legado nestes últimos dois mil anos.

E então, é a Palavra. Aliás, na própria Bíblia se diz: “No princípio era o Verbo (a Palavra) e o Verbo se fez carne e habitou entre nós!” – Quem não conhece estas linhas tão cheias de significado?

Durante a II Guerra Mundial, em certo ponto da frente de batalha entre franceses/ingleses e alemães, interromperam-se as hostilidades no dia 24 de dezembro, aproximava-se a meia noite. De ambas as trincheiras rivais, levantaram-se vozes, como que integrassem treinados corais e ouviu-se a canção “Noite Feliz”, aquela mesma que se consagrou e hoje se ouve pelos quatro cantos da terra.

Então, você carrega isso em seu coração e, mesmo que não seja mais católico, ou nunca tenha sido, sabe o conteúdo e o significado, sabe, enfim, a força destas palavras.

E é nisso que é preciso pensar nas próximas horas, mas não inutilmente, nada de tentar um habeas-corpus preventivo para soltar-se depois do primeiro dia do ano novo a praticar todas as idiotices que se fez até agora. O sentido é purificar-se, recomeçar, tornar-se outra vez um menino. Isso é possível, diante das barbaridades do nosso dia-a-dia?

Ora, porque não?

Este é o único sentido que ficou desta religião que se criou, nascendo no Oriente Médio, o mesmo que hoje se arrasta em meio a crise, dividindo o futuro entre a esperança e a desesperança.

E então esqueceremos a CPMF, os 20% por cento que o governo pode gastar como quiser, de suas receitas, os acordos parlamentares, a corrupção, a mentira, a hipocrisia, o cinismo, a violência.

Respeitando a palavra, esta força incomensurável que se aloja no verdadeiro segredo (sabem, “The secret”?) do nascimento e do amadurecimento da humanidade. Porque até em matemática já perdemos para os chimpanzés. Vamos nos agarrar no que nos resta: a força da palavra.







UM PRÊMIO ARI DE JORNALISMO
Walter Galvani, em 21/12/2007

Tive a honra de contar com
Mário Marcos de Souza, no início
de sua brilhante carreira, como
meu repórter (antes um estagiário
ativo e criativo) na Folha da Tarde
o grande jornal vespertino de
Porto Alegre (o último).
Hoje,Mário é nome consagrado.
Atua em Zero Hora, onde conquistou
mais um Prêmio ARI de Jornalismo
neste 2007.
Com a seguinte crônica, exemplar,
comovente e bem escrita:


O OLHAR E O SILÊNCIO
DE PUSKAS

Mário Marcos de Souza


Nunca houvee doce como aquele. Os figos, comprados ainda verdes em bancas do mercado público, saíam daquela imensa panela na medida exata de consistência e açúcar, banhados numa suave calda. Ficava irresistível. Um dia, estranhamente, eles ganharam um pouco mais de açúcar, ficaram mais doces pouco depois e a dosagem continuou subindo. Quem reclamava, ouvia de dona Adiles, parada na cozinha do chalé do Guarujá, em Porto Alegre, uma resposta entre risos, mas firme, a um passo da irritação:

_ Doce é para ser doce.

Aquele não era, como ficou claro depois. Quem convivia com ela percebeu tempos depois que a dose a mais de açúcar era o primeiro sinal de uma doença silenciosa chamada Mal de

Alzheimer _ a mesma que levou à morte ontem o húngaro Ferenc Puskas, um dos maiores jogadores da história do futebol. Ele tinha 79 anos, os últimos cinco internados no hospital de Budapeste em que morreu no início da madrugada, vítima de complicações respiratórias.

***

Puskas foi parando devagar, como se estivesse sendo desligado, desde os sintomas iniciais da doença, em junho de 2001. Foi assim com a doce criatura do Guarujá. Aos poucos, os primeiros sinais foram acrescidos de outros, as lembranças pareciam ter sido apagadas, os caminhos no bairro viraram labirintos, os rostos amigos passaram a ser estranhos, as

colheres de paus que mexiam os doces foram encostadas em algum canto, longe das panelas. Mas o mais chocante era o olhar _ como ocorre com todas as vítimas da doença. Ele parece cruzar por quem está à frente, à procura de algum ponto. É o olhar que Puskas começava a mostrar já em agosto de 2002 (foto), ao participar da cerimônia que deu seu nome ao

Nepstadion de Budapeste. O homem que um dia fora capaz de jogadas mágicas em campo já não sabia em que mundo circulava. O olhar inexpressivo _ esta é uma das duras faces da doença.

***

Houve tempo em que o olhar de Puskas nunca se desviava do objetivo, como naquele dia 25 de novembro de 1953, em Londres. A seleção inglesa jamais perdera em casa e estava certa de que os húngaros, quase todos saídos do Honved, o clube do exército, não seriam capazes de mudar a história _ e levaram apenas 50 segundos, o tempo do primeiro gol da Hungria, para descobrir o erro. Sofreram quatro gols só no primeiro tempo de um jogo que terminou em 6 a 3, mas ninguém esqueceu mesmo foi do terceiro, marcado por Puskas. Foi o gol do olhar. Puskas viu Czibor pela direita, viu que estava de costas para o gol e viu que o marcador Billy Wright estava por perto. A exemplo de todos, o zagueiro esperava que o húngaro dominasse, ajeitasse para a direita e chutasse. Puskas fez tudo diferente. Dominou com a sola de seu pé preferido, o esquerdo, arrastou a bola para trás, no mesmo movimento tocou

um pouco para a frente, já pelo outro lado do atordoado Wright e chutou rasteiro.

_ Nove em 10 vezes, eu ganharia a jogada, mas aquela era a 10ª e na minha frente estava Puskas _ conta Wright no livro Puskas, uma lenda do futebol. _ Minha perna só chutou o ar.

***

Um ano depois, os ingleses foram a Budapeste para a revanche, no mesmo estádio que hoje tem o nome Ferenc Puskas. Foi pior. Levaram 7 a 1. "Em toda minha vida, nunca fui buscar a bola sete vezes no fundo da rede", lamentou um dia o goleiro Merrick, o mesmo dos outros seis em Wembley. Eram assim os confrontos com os húngaros liderados por Puskas, o Major Galopante, por causa de sua patente militar. Ele e seus amigos faziam sempre dois gols nos primeiros 10 minutos dos jogos, foram campeões olímpicos em 1952, mas esbarraram na

surpreendente Alemanha em 1954. Puskas nunca teve seu título mundial. Não importa, ele entrou para a história. Fez 83 gols em 84 jogos por sua seleção e, ao mudar-se para o Real Madrid fugindo da repressão de 1956 na Hungria, ganhou três Ligas dos Campeões. Até sua aposentadoria, em 1967, fez 180 partidas pelo Real, nas quais marcou 154 gols. Virou mito também na Espanha.

***

Antes do sucesso no Real, Puskas teve de vencer um desafio lançado pelo antigo presidente do clube espanhol, Santiago Bernabéu. Quando foi procurado pelo dirigente para ser contratado, Puskas estava 18 quilos mais gordo por causa dos 13 meses de suspensão pela fuga da Hungria. Surpreso, foi franco:

_ O senhor me olhou? Estou gordo.

_ Este não é problema meu, é seu _ respondeu Bernabéu.

Puskas só deixaria o Real aos 40 anos, depois de 23 de carreira.

***

Na manhã de ontem, os sinos tocaram nas igrejas de Budapeste e o Parlamento húngaro ficou em silêncio, bem como foram os últimos anos de solidão de Puskas no quarto do hospital. O homem que, a exemplo da alegre senhora do Guarujá, perdera a capacidade de olhar e de falar, tinha virado imortal. Como todos os gênios, nunca será esquecido.




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O BRASIL CONTINUA NOS ÚLTIMOS LUGARES
Walter Galvani, em 20/12/2007

Crônica publicada hoje no Diário de Canoas, lembrando, como diz a Bíblia, que "os últimos - em nosso caso, NÃO
- serão os primeiros".
O Brasil, por enquanto,
só está na fente no futebol...


ÚLTIMOS, NÃO OS PRIMEIROS

Walter Galvani


Com Káká e Marta, o Brasil ganhou os primeiros lugares mundo em futebol de campo, outros prêmios também se acumularam durante o ano de 2007 em outras modalidades esportivas e com isso, julgamos que o nosso país é o “Bambambam”, pelo menos nisso.

Pois, não é.

Somos os últimos, é duro admitir isso, mas é a verdade. Em pesquisa conduzida pela ONU, por exemplo, descobre-se que o Brasil está entre os últimos colocados em escolaridade e educação. Entre os 15 e os 24 anos, nossos jovens não passam mais de 8 anos e 4 meses em média, na escola. Essa média diminui, em proporção à idade, pois as gerações anteriores, menos tempo ainda passavam estudando. Vamos adiante e descobrimos que entre os 101 piores em negócios, esta é a colocação do nosso país: 101º... Apenas, assim como em outras atividades econômicas, pontuamos entre os últimos.

A pesquisa vai adiante e demonstra que 27% dos nossos jovens entre os 20 e 24 anos, não estudam, nem trabalham... Sem fazer ironia, os demais estão morrendo em acidentes automobilísticos, como o demonstram os números absurdos de falecimento de rapazes e muitas vezes de quem os acompanha (amigas, namoradas...)

Pois é fácil concluir que 78% são do sexo masculino, os que morrem em acidentes de carro, e 48% dos acidentes, são colisões.

Mas, estamos também mal colocados com alfabetização, em letramento, em estudos universitários, em dinamismo e operosidade, naquilo que se costuma denominar hoje “proatividade”, enfim, só aparecemos mesmo nos primeiros lugares, nos esportes e de um modo especial, no futebol.

Basta? Será suficiente isso para construir um futuro para o Brasil?

Todo mundo sabe que não.

À cada dia se somam pesquisas e estatísticas que demonstram que estamos atrás até do Peru, do Chile e da Argentina, que vizinhamos com o Paquistão, Bangladesh ou Etiópia.

Quem sabe uma CPMF para a educação?

Quem nasceu ou sempre viveu em Canoas, ou para cá se transferiu, conhece a importância das nossas instituições. O La Salle que vai comemorar o centenário da chegada dos Irmãos Lassalistas à Canoas no ano que vem, o Pestalozzi, que andou tão mal que a comunidade teve que acordar (acordou?) e o Auxiliadora. Mas, esses são particulares, colégios privados, que sempre tiveram o apoio de quem tem alguma coisa dentro da cabeça.

É preciso transformar o ano de 2008, definitivamente, no Ano da Educação. Cada um precisa fazer a sua parte para arrancar a nação deste atoleiro. Os números são de matar a pau, de vergonha.









SENSIBILIDADE EXCEPCIONAL
Walter Galvani, em 18/12/2007

Todos os dias, quando chego à PUCRS depois do almoço, passo pela Sílvia.
Trocamos rápidas palavras, em geral sobre o calor que está fazendo
(ou o frio)e comentamos sobre a
beleza do dia.
Claro, fica no sub-texto, mas
estamos nos desejando felicidades
no dia de trabalho.
Dia desses ela me mandou este
belíssimo poema que quero
compartilhar com meus possíveis
visitantes do site.


ILUSÕES DO AMANHÃ

"Por que eu vivo procurando
Um motivo de viver,
Se a vida às vezes parece de mim esquecer?
Procuro em todas, mas todas não são você
Eu quero apenas viver
Se não for para mim que seja pra você.

Mas às vezes você parece me ignorar
Sem nem ao menos me olhar
Me machucando pra valer.

Atrás dos meus sonhos eu vou correr
Eu vou me achar, pra mais tarde em você me perder.

Se a vida dá presente pra cada um
O meu, cadê?
Será que esse mundo tem jeito?
Esse mundo cheio de preconceito.

Quando estou só, preso na minha solidão
Juntando pedaços de mim que caíam ao chão
Juro que às vezes nem ao menos sei, quem sou.

Talvez eu seja um tolo,
Que acredita num sonho
Na procura de te esquecer
Eu fiz brotar a flor
Para carregar junto ao peito
E crer que esse mundo ainda tem jeito
E como príncipe sonhador
Sou um tolo que acredita ainda no amor."

PRÍNCIPE POETA (Alexandre Lemos - APAE)
Este poema foi escrito por um aluno da APAE,
chamado, pela sociedade, de excepcional.
Excepcional é a sua sensibilidade!
Ele tem 28 anos, com idade mental de 15
peço que divulguem para prestigiá-lo.
Se uma pessoa assim acredita tanto
porque as que se dizem normais não acreditam?





Silvia Gama

PUCRS VIRTUAL - EAD





O BRASIL É SÉRIO?
Walter Galvani, em 16/12/2007

Crônica sobre a CPMF publicada no ABC DOMINGO

A COMÉDIA DO PODER

Walter Galvani

Está entrando em cartaz nos cinemas gaúchos, um novo filme do extraordinário diretor francês Claude Chabrol que leva o título oportuníssimo de “A comédia do poder”. É mais oportuno ainda porque logo nas primeiras cenas, mostra o terno caro de um empresário ser amarrotado pelas algemas que a polícia lhe aplica à saída do trabalho. Nada que não estejamos acostumados a ver aqui, em especial em nossos noticiários de televisão, ultimamente dedicados a este tipo de cobertura.

O Brasil é o palco ideal, aliás, para este tipo de filme e o título se aplica a tudo o que ocorre aqui. Veja-se por exemplo o assunto da CPMF. Bastou que o governo sofresse uma derrota que vai tirar dos seus cofres a expectativa de 40 bilhões de reais e surgiram os defensores dela de todos os recantos. E eu que, iludido, lendo, vendo e ouvindo, imaginava que não ia um só tostão da tal de CPMF para a Saúde, seu supremo objetivo e em razão do que fora aprovada, sob a fiança de um homem digno como o ex-ministro Adib Jatene?

Pois é... agora todos choram o fim da CPMF e tem gente que tem a cara e a coragem de dizer que sem ela não será possível levar adiante o atendimento à saúde pública em nosso país! Para esse arremedo de atendimento que tem a saúde da população, acho que não é necessária nenhuma arrecadação especial. O ideal é acabar mesmo com a Contribuição sobre os movimentos financeiros, que penaliza quem não deve penalizar, chegando até o ponto de cinismo geral, de se afirmar que atinge em 1,7% o preço final dos produtos. Quanto descaramento! Maior ainda ao afirmar-se que do montante de 40 bilhões, 52% seguiam diretamente para a Saúde. Ah é? Como é então que se dizia que não ia nada, que o imposto estava completamente desvirtuado?

É a tal “comédia do poder”, não percam o filme de Claude Chabrol que sem os efeitos especiais idiotas do cinema americano, fala a verdade sobre a vida em sociedade no mundo do século 21.

O governo, acostumado com este dinheiro que caía do céu há quatorze anos, pretende enfrentar a crise com “corte de gastos, aumento de impostos e represálias políticas”. Tudo bem ao estilo da “comédia do poder” que vivemos no Brasil. Não se iludam, o governo sairá dessa, não se apertará, até porque o cinismo e a hipocrisia são as moedas de troca vigentes em nosso país do Real. Do Real real e não do imaginário.

Daqui a pouco, com o leilão de cargos e influências, tudo voltará a ser como sempre foi.

Em tempo: uma espécie de CPMF existia e foi extinta no Peru, Argentina, Venezuela e Equador, numa onda sucessiva que vem desde 1992.






O QUE FALTA AO BRASIL?
Walter Galvani, em 13/12/2007

Crônica para marcar o tempo presente em nosso país.
A crônica, como se sabe,é filha]
do deus Chronos.


SÓ FALTA
O VULCÃO

Walter Galvani

Antigamente se dizia que o Brasil, estranhamente, parece que em obediência ao dito popular que afiança que “Deus é brasileiro”, pois fora contemplado com imensidão de terras, matas insondáveis, rios fantásticos, cachoeiras maravilhosas, praias infindas, temperaturas tropicais na maioria da extensão territorial, não tinha tufões, corrupção, tremores de terra e vulcões.

Esta terra abençoada – dizia-se – tinha, portanto, tudo para progredir, independentemente até da ação dos seus políticos e há quem jure que o próprio Getúlio Vargas, o grande político gaúcho que chegou à presidência da república, comentava: “O Brasil é tão grande e tão poderoso, que mesmo os que roubam o tesouro nacional, à noite dormem. E então o país cresce!” garantia-se: “O Brasil não tem terremotos, nem vulcões.”

Pois é. Até à semana passada não tinha “tremores de terra”. Apenas alguns estremecimentos, ao que se afirma provenientes da Bolívia e da Venezuela, portanto, nada para assustar. Um terremoto mesmo, como aquele que destruiu todo o centro de Lisboa em 1755, jamais.

Dormíamos tranqüilos até à semana passada, quando o sul de Minas Gerais foi abalado e até a morte de uma criança tivemos. Portanto, chegou aqui o terremoto. Os especialistas dizem que teremos outros tremores nos próximos tempos. Já tivemos todos os graus de corrupção possíveis e imagináveis, já tivemos o nascimento de religiões, inundações, poluição à vontade, nossas praias maravilhosas de vez em quando amanhecem sob o martírio da morte de peixes e crustáceos, acabou a CPMF, portanto já nos aconteceu tudo o que se poderia imaginar e até o inimaginável. Só falta o que? Um vulcão.

A famosa “terra abençoada por Deus e bonita por natureza” já passou por provas inacreditáveis, já se viu que é possível sim, sob o céu deste lindo país, a ocorrência das maiores atrocidades, continuamos não tendo pena de morte o que demonstra por si a índole pacífica e tolerante do povo brasileiro e só não fomos premiados ainda com um vulcão. Acho que não se perde por esperar. É só o que nos falta.

Temos tudo e num estalar de dedos se providencía o que está faltando. Menos o vulcão. O Chile tem, a Venezuela também (e não é o Hugo Chávez...), até a Itália tem.

Com tanta terra, com tanta gente “sem terra” que, aliás, parece que só deseja terra urbana... – com tanta riqueza sobrando, já tendo incorporado ventos, tempestades, furacões, continuamos sem o vulcão. É só isso, mesmo, o que nos falta...




AÇORES, AÇORES NOSSO!
Walter Galvani, em 11/12/2007

O Rio Grande do Sul tem agora a sua
Casa dos Açores
Crônica publicada hoje no jornal
Correio do Povo, o mais antigo em
circulação no estado mais meridional
do Brasil


CORDÃO UMBILICAL

Walter Galvani


Claro que uma visita de nove dias, embora extensa para comitivas oficiais não é o suficiente para apertar laços históricos de dois séculos e meio. Mas, serve para instalar afetos, reiniciar contatos e institucionalizar relações. Falo da visita providencial dos açorianos à esta região que nasceu, em parte, pela generosidade do sangue que eles nos legaram. Basta andar por aí e ver os sobrenomes e a dedicação de gente como Luis António de Assis Brasil ou Ivo Ladislau, Vera Barroso ou Ana Lúcia Morisson, Sandra Braga de Medeiros, Neiva Costa, enfim tantos, que se unem ao presidente do Governo Regional dos Açores, Carlos Manuel Martins do Vale César e seus auxiliares diretos, políticos importantes da região que nos transmitiu a doçura e o encanto de suas tradições, suas danças, sua poesia, seu coração..

Tomem nota: Casa dos Açores do Estado do Rio Grande do Sul, Rua Adolfo Inácio Barcelos, 938, Gravataí, RS. Este é o novo endereço do encontro de cultura, que marca a partir de agora o recanto onde nossos irmãos do arquipélago em meio ao Atlântico encontram o resultado do que aqui semearam seus antepassados. Não há cidade gaúcha do período histórico que começa no século XVIII e vai até quase o final do XIX, que não esteja definitivamente marcada pelas suas nascentes açorianas. Basta atravessar o oceano e fechar os olhos e imaginar-se no Rio Grande, assim como bastaria visitar Piratini, Santo Amaro, Triunfo, Gravataí e tantas outras brilhantes comunidades gaúchas e sonhar com os Açores.

Não está apenas nos genes formadores, mas na paisagem, na arquitetura, no material empregado, nas cores, e, sobretudo, na singeleza e simplicidade, no doce carinho dos contatos humanos, para saber que isto aqui é Açores.

Então, o que se quer é que haja mais viagens como esta, mais visitas, mesmo que não surjam imediatamente resultados econômicos, que prometam trocar mercadorias daqui para os Açores ou de lá para cá.

É assim mesmo que se constroem os laços mais fortes, que se consolidam as relações sólidas e, no caso de Porto Alegre, que teve em seu povoamento básico tantos casais açorianos que até seu nome inaugural teve esta conotação, ou das cidades que compõem nossa região metropolitana, como Gravataí, Viamão, Canoas e outras mais, é bom saber que a velha fonte é respeitada e honrada num acontecimento como este da inauguração de uma casa específica. Parabéns, Régis Gomes, parabéns Rio Grande.




O PÓLO SE DESMANCHA OU NÃO?
Walter Galvani, em 09/12/2007

O que haverá por trás das denúncias
sobre o aquecimento global - ou
agora desconfiamos de tudo, por que
a ética se desmanchou no meio
dos interesseiros humanos...
Crônica publicada hoje no jornal
ABC DOMINGO, do cinqüentenário
Grupo Editorial Sinos


O CLIMA E O NOSSO GURU

Walter Galvani

As Nações Unidas estão reunidas em Bali, na Indonésia, onde a beleza natural mais aparece como uma lembrança ostensiva, de quanto pode ser bela a vida e atraente o mundo. O objetivo é extrair dos duzentos cientistas que representam mais de 190 países uma “Declaração de Bali sobre o clima por cientistas” que em princípio defendem a redução da emissão de gases que causam o chamado “efeito estufa” em cinqüenta por cento para que, em dez ou quinze anos, o pico do aquecimento global comece a cair. Mantido nos ritmos atuais, dizem eles, teremos uma elevação de 2 graus (não dizem em que período) e isso significará a continuidade das “ondas de calor, secas, enchentes e tormentas”, mesmo em localidades nunca antes atingidas ou sequer ameaçadas.

Tudo bem, assino embaixo como todo mundo, mas fico me perguntando se esta reunião da ONU é mesmo a última palavra sobre o assunto ou se existem outras teses em jogo que precisam ser consideradas. Há por exemplo um livro chegando às livrarias, “Uma breve História do Mundo” de autoria do professor Geoffrey Blainey, que é professor em Melbourne, Austrália e catedrático em Harvard nos Estados Unidos, em que ele se reporta a eventos de aquecimento e de resfriamento da Terra, ocorridos ao longo destes milhares de ano com registro de vida humana.

Ainda esta semana ouvi o professor Eugênio Hackbarth, diretor do Instituto de Meteorologia de São Leopoldo e renomado mestre no ramo, afirmar que o Pólo Sul, ao contrário do seu homônimo nortista, está com sua sólida camada de gelo intacta e até, em certos pontos, ampliada. Tranqüilizado pelos dados de que dispõe aquele ilustre meteorologista, dormi em paz.

Apesar de saber que, psicologicamente é interessante que se divulguem as conclusões dos cientistas reunidos em Bali ou não, e assim se ampliem os temores das populações e se gerem medidas das administrações, também é verdade que seria antiético ignorar posições diferentes ou omitir informações significativas, como é o caso das que dispõe o nosso guru, professor Hackbarth, ou para ser mais pontual, o que podem essas significar com relação ao panorama global.

Não é o caso de abaixar as armas e desmobilizar-se, talvez, mas, pelo menos eis um adequado desvio da histeria coletiva para impedir medidas extremas e radicais, que poderiam, por seu turno, contribuir para um descalabro ambiental.

Como diria o povo de antigamente, “cautela e caldo de galinha” nunca fizeram mal a ninguém...











NOTICIAR O PIOR, PARA QUE?
Walter Galvani, em 07/12/2007

Estamos nos distorcendo...

NOTÍCIAS RUINS

Walter Galvani

É difícil para uma corporação receber uma crítica e assimilá-la, aproveitando o suco de bons efeitos que se deve extrair de uma manifestação dessas. No caso, estamos nós, jornalistas, diante da crítica feita pela governadora do estado, Yeda Rorato Crusius que é, além disso, oriunda das nossas próprias fileiras. “Roupa suja se lava em casa”. Sim, se lava, mas, muitas peças, é preciso mandar à lavanderia, até porque o tipo de sujeira não sai na primeira água.

Yeda sabe o que diz, na verdade ela não quer afirmar que “os jornais só dão notícias ruins”. Ela está usando politicamente esta frase e sua condição de governadora, sua ligação com o jornalismo que exerceu ao lado do magistério durante tantos anos, com o mesmo conhecimento de causa que os políticos de sucesso sabem usar em benefício próprio.

Há uma distorção presente na Imprensa, não resta dúvida e depois que os jovens aprendem nos bancos da faculdade que notícia é “quando o homem morde o cão e não quando o cão morde o homem”, saem todos com o canudo debaixo do braço a procurar as falhas humanas e não as reações naturais e instintivas dos animais. A não ser quando estas causam danos maiores como os “pit-bulls” da vida.

A maioria quer saber o que há por trás dos fatos, os meandros das negociações, o uso indevido das verbas públicas, os subornos, as ameaças, os crimes, até porque é difícil e exige bem mais do que simples talento para trabalhar em cima da notícia positiva. Yeda sabe disso, mas jogou com as palavras, como é adequado para quem exerce o poder e precisa se valer do efeito do que diz ou faz.

Com o pomposo empréstimo de “1 bilhão” para zerar suas contas, ela se dará o direito agora de afirmar que é muito bonito, mas não será possível zerar as contas com este valor. É sempre assim, e ela aprendeu depressa o que é preciso fazer com as palavras que são como peixes que fogem ao contato e quando apertadas se espalham e somem pelas águas, deixando a lembrança de um colorido cambiante atingido por um raio de luz. Peixe não se pega com a mão.

Quem quiser ler jornais, precisa aprender a lê-los, bem como é preciso saber interpretar o que se diz ou o que se mostra no rádio e na televisão. A confiabilidade de outros meios, como o mundo “web”, por exemplo, é discutível e nunca se deixa de aprender o que estão tentando nos dizer. Assim é, historicamente, desde quando se praticava democracia direta com as reuniões nas ágoras de Atenas, até quando se passou a praticar as eleições e as votações na república romana que precisava ouvir mais de cem mil pessoas.







CORÍNTIANS E HUGO CHAVEZ
Walter Galvani, em 03/12/2007

Caíram os dois...

Sem crônica. Só para lembrar
que quem abusa do poder cai do
cavalo.
O presidente corintiano é que
informou que o campeonato
de 2005 foi roubado do
Internacional de Porto Alegre.
E o diretor de futebol, disse que]
o Grêmio ficou devendo 2003...
O que terá havido?
E Chávez? Mudou o que?




GRUPO EDITORIAL SINOS, 50 ANOS
Walter Galvani, em 02/12/2007

Crônica publicada neste domingo no jornal ABC DOMINGO

UM PRÊMIO E UMA SAUDADE

Walter Galvani

Nada mais oportuno e significativo do que recordar o nome de Paulo Sérgio Gusmão, ainda mais num prêmio que leva o seu nome e uma realização do “NH”, tão presente em meu passado e presente, pela sigla e pelas figuras envolvidas, pelo próprio Paulo Sergio e pelo Mário Alberto Gusmão. Lembro quando os dois irmãos iniciaram a sua saga que resultou nesta potência onde militamos hoje – eu morava em Canoas, embora já exercitasse minha profissão no Correio do Povo em Porto Alegre – mas não poucas vezes estive em Novo Hamburgo, pequena viagem que se tornou missão obrigatória ao longo deste meio século.

Foi assim que vi crescer a obra de Paulo Sérgio e Mário Alberto, assim que fiz amigos nas fileiras do NH, mais tarde nos demais veículos, mais recentemente neste ABC DOMINGO onde estou desde o número dois. Sim, desde o segundo número.

Agora, vejo que o Prêmio Paulo Sérgio Gusmão procura fazer justiça à sua lembrança, acentuando que em vida ele lutou pelos interesses da educação e com isso se unifica um ciclo de projetos e ações voltado às escolas, alunos e comunidade da região do vale do Rio dos Sinos o verdejante (ainda) e produtivo (sempre mais) vale que abarca já uma boa parcela dos milhões de habitantes do Rio Grande do Sul.

E nunca é demais uma ação na área da Educação Infantil, do Ensino Fundamental, do Ensino Médio, do Técnico e da educação de um modo geral, de jovens e adultos, em especial quando o Brasil colhe resultados tão disparatados como se colocar bem no Índice de Desenvolvimento Humano, ao mesmo tempo em que se classifica mal na tabela da OCDE e perde pontos na oferta de empregos e nos negócios internacionais.

Assisti nestes cinqüenta anos do Grupo Editorial Sinos, onde tenho a honra de servir com modéstia neste espaço e em outros que me são gentilmente cedidos, todo o desenrolar do progresso no vale, com seus altos e baixos, com seus sucessos, com sua aprendizagem, com os enganos e acertos, com as oscilações da política e da economia, com a concretização de ideais que, afinal, para quem nasceu em Canoas, são os mesmos. E aqui vamos nós. Na certa não teremos fôlego para outros cinqüenta anos, mas o que aprendemos já nos vale muito e na hora de registrar este prêmio e lembrar os verdes anos com tanta saudade, também nos orgulhamos de estarmos juntos neste combate que não cessa nunca, pois os que nos sucederem haverão de levar adiante, assim como foi feito com o Paulo Sérgio. E transmito ao Mário Alberto Gusmão meu abraço e meus cumprimentos públicos pelo grande trabalho. E, só para encerrar, lembremos que as inscrições ao prêmio podem ser feitas a partir de amanhã.







BRASIL, PAÍS DO FUTURO
Walter Galvani, em 02/12/2007

Lembram o que Stefan Zweig escreveu quando, em 1939, fugindo nazismo em sua terra, refugiou-se em Petrópolis, estado do Rio?
Pois é...
O futuro parece que ainda não chegou...
Até quando escreveremos isso, como fiz
neste fim-de-semana nos jornais
A Razão de Santa Maria e Diário Popular
de Pelotas?


EIS O FUTURO...

Walter Galvani

Vamos festejar: estamos a frente da Colômbia, da Tunísia, do Azerbaijão, do Qatar e do Quirguistão! Não chega? Ah, não? Pensei que poderíamos comemorar... É que o Brasil se classificou em 52º lugar sobre 57 países selecionados pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento e Econômico), na disciplina Ciências, num teste aplicado sobre alunos da 7ª. e 8ª. séries do ensino fundamental.

Pois estes jovens, futuro do “país do futuro” ajudaram a classificar o Brasil nesta magnífica posição. Na certa, os que me lerem, hão de se lembrar que se a disciplina fosse Futebol, o Brasil estaria nos primeiros lugares, ou pelo menos misturado com os integrantes do bloco vanguardeiro. Mas, em Ciências, os “classificados” são Finlândia, Hong Kong, Canadá, Taiwan, Estônia e Japão que no futebol também não apareceriam nas primeiras posições.

Lembremos que nos vestibulares normalmente surgem 35 candidatos por vaga para o curso de Medicina. Mas, os jovens esportistas devem prestar bem atenção que o “vestibular” do futebol é na base de 100.000 por vaga e ainda se multiplica este dado por outro fator para encontrar os que encontram algum encaminhamento internacional, onde os festejados dólares acenam para os felizardos Kaká ou Ronaldinhos ou Gilbertos Silvas da vida.

O melhor mesmo é acreditar no estudo e tratar de aprender Ciências, alfabetizar-se convenientemente e chegar a alguma coisa na vida aqui dentro. Ah, se quiserem jogar futebol, muito bem, podem fazê-lo. Mas, façam-no paralelamente, pensando primeiro na carreira garantida e depois na eventual.

Passando os olhos pela América Latina vemos que aqui mesmo em nossas barbas, outras se saíram melhor do que nós no tal exame e entre esses, Argentina, México, Uruguai e Chile. Pior mesmo do que nós, aqui só a Colômbia... Os países foram selecionados e no momento em que ficamos comemorando a entrada do Brasil no grupo dos países com alto índice de desenvolvimento humano, é bom que se olhem estes números desastrosos. Ao menos para raciocinar um pouco. Na certa o governo não festejará esta classificação ridícula. Talvez acuse os exames, condenando-os. Sabem aquela história do marido traído no sofá da sala, e que decidiu trocar o sofá? Agora mesmo querem demolir a cadeia onde uma menina de 15 anos foi, várias vezes, estuprada por estar misturada com detentos homens. Fomos mal no exame? Desvalorize-se o exame...

E viva o Brasil, aquele país que Stefan Zweig batizou em 1939 como “o país do futuro”...







SHAME
Walter Galvani, em 26/11/2007

Nós também...
Crônica publicada no ABC DOMINGO


VERGONHA DAS VERGONHAS

Walter Galvani

Todos conhecem a letra do hino rio-grandense, que cantamos com tanto fervor patriótico quanto o hino nacional brasileiro, nas cerimônias cívicas. Sim, com destaque para aquele trecho que proclama que “sirvam as nossas façanhas, de modelo à toda a Terra”. Imagine-se então, para os que tem consciência do que se afirma, a vergonha das vergonhas que de nós toma conta, quando verificamos que entramos com os dois pés e de rijo no campeonato nacional da corrupção.

Até aqui parecíamos maravilhosamente imunes à promiscuidade do roubo e do lucro fácil, com uma indiscutível ausência da lista dos envolvidos. Era uma ausência gritante, uma espécie de anúncio público de que os gaúchos estão acima e de fora dessas questões, desse compromentimento moral e de fato, são “melhores do que os outros”.

Basta examinar os escândalos recentes que perpassam a vida do país, desde os “mensalões” até corrupções localizadas ou histórias de “dinheiro carregado nas cuecas”, ou seja, outros escândalos maiores ou menores.

E eis que a Polícia Federal chega ao Rio Grande. Então, prestadores de serviço ao DETRAN aparecem algemados, segundo a própria PF, em cinco anos são 40 milhões desviados, se anuncia. Ficamos pensando assim: “Pô! Até eu ajudei quando paguei a renovação da minha carteira de motorista!”

Tínhamos antigo e forte orgulho de ficar fora deste mar de lama que infesta o país, muito mais extenso e profundo do que o lodaçal que atingiu o Palácio do Catete em 1954, expressão usada pelo próprio Getúlio Vargas, aliás gaúcho também. Então, foi de tal monta o estrago que levou o presidente ao suicídio. Tomamos aquele gesto extremo, como mais uma demonstração do nosso caráter, da retidão e do orgulho gaúcho.

E agora? E agora que a lama avança pelos canais do Rio Grande?

Pena que tenhamos que usar este espaço semanal para fazer uma reflexão dessas, mas estamos, sim, envergonhados. E, pela primeira vez nos tempos contemporâneos, temos vergonha, verdadeira vergonha de nosso estado e por nossos concidadãos.

O que fazer agora? Insistir para que a devassa seja completa e em todos os setores da atividade pública e, se for o caso, privada, ou pelo menos atinja todos os envolvidos. Ainda agora se viu que nem ministros e, muito menos, presidentes do Senado estão imunes ao vírus da corrupção que corróe e compromete as atividades democráticas.

Então, vamos até o fim, até o amargo fim, se for o caso. Caso contrário, não estaremos mais autorizados a cantar o inigualável hino rio-grandense.








"POR QUE NO TE CALLAS?"
Walter Galvani, em 19/11/2007

Crônica publicada nos jornais
Diário Popular (Pelotas)
e "A Razão" (Santa Maria)


“POR QUE NO TE CALLAS?”

Walter Galvani

O espaço para os imitadores baratos é franqueado quando os personagens que ocupam a cena não possuem a dimensão dos ícones. Simón Bolívar, morto há 177 anos, ou mais propriamente Simón Jose de la Santíssima Trinidad Bolívar Palácios y Blanco, líder da idéia do panamericanismo, tem sido aproveitado por falsos profetas e líderes de si mesmos, para a projeção pessoal. Bolívar morreu só, aos 43 anos, tuberculoso e abandonado pelos políticos tanto da Venezuela quanto da Colômbia. Mas, o rei de Espanha, Juan Carlos I, ao “enquadrar” Hugo Chávez conseguiu com uma simples frase, derrubá-lo da sua empáfia a que ascendeu montado no jorro do petróleo que o sustenta no ar. Não sei por quanto tempo.

A justiça e a inteireza do gesto de Zapatero, ao defender seu adversário político e antecessor, Jose Maria Aznar, a quem Chávez acusara de “fascista”, absolve a interferência do rei e dá-lhe grandeza, e é por isso que a Espanha é o país que é, atravessando com os solavancos e sobressaltos da História, o que há de bom e o que há de ruim.

Ao mentir publicamente dizendo que não ouviu o rei mandar que se calasse, Chávez subscreve a opinião que dele está se formando. Lula, transmudado em futuro sheik do petróleo vai acabar perdendo a paciência com ele, e não me chamem de falso profeta. Se é o dinheiro que lhe concede autoridade, então em breve o Brasil poderá estar na competição.

Este atual presidente da Venezuela, dizendo-se descendente de índios “que foram martirizados” pelos invasores espanhóis, bem que poderia aproveitar a ocasião para juntar-se a outros personagens que calados, aliás, seguindo a sugestão do rei da Espanha, melhor serviriam seus países.

Não sei se é verdade que no DNA de Chávez só corra sangue ameríndio. Se isso for verdade, lembremos que não era o caso de Bolívar, cuja generosidade portanto, era muito maior e cuja cultura, conhecimento do mundo e capacidade de ação o tornaram depois de tantos anos, num exemplo a ser seguido e lembrado.

Juan Carlos de Bourbon mostrou estar à altura do trono que ocupa, defendendo a palavra livre e a expressão política distinta de seus dois primeiros ministro, do que se foi e é agora acusado de fascista e do atual, cuja lisura o faz defender com elegância o antecessor. Isso não se compra em botequins baratos, nem bolichos de vila. É por estas e por outras que existe a velha fábula das rãs pedindo um rei.












QUEM FALA DEMAIS MERECE OUVIR REPRIMENDAS
Walter Galvani, em 17/11/2007

Eis o resultado de ser um falastrão...
Estamos falando de Chávez...


REGRAS DO JOGO



Walter Galvani





Quem aceitar comparecer à uma conferência cujo título é “Ibero-americana” precisa, por uma questão de conhecimento histórico, ajustar-se ao que uma pauta ali nascida, automaticamente disciplina os participantes. Não será um instante de molecagem e tampouco o fórum adequado para fazer piruetas ideológicas que levem a desmerecer ou irritar os demais participantes. Há de ser necessário um mínimo de polidez e compreensão do momento que se vive, para poder conviver com os co-irmãos. Aliás, se não fosse esta regra mínima de conduta, como seria possível suportar os momentos a que somos obrigados a tolerar para levar adiante nossas respeitáveis diferenças democráticas? Não podemos pretender uma convivência ditada nem pela submissão, nem pelo desrespeito.

Falo de Hugo Chávez e falo também do Rei da Espanha que, como humano, como bem acentuou o jornal francês “Le Figaro”, que ressaltou a ira de Juan Carlos de Bourbon quando mandou Chávez calar-se, como um desabafo pois “os monarcas também são seres humanos”. Depois do episódio, demagogicamente, o presidente venezuelano acusou o rei de exercitar sua ira conferindo-lhe a pecha de prepotência: “Quando o rei explode diante das expressões de um índio, estão explodindo quinhentos anos de prepotência imperial, quinhentos anos de sentimento de superioridade.”

Não sei se Chávez é tão ameríndio quanto o diz, mas o certo é que está muito distante daquele que elegeu para seu ícone, Don Simon Jose de la Santíssima Trinidad Bolívar Palácios y Blanco que, aliás, morreu só, tuberculoso e abandonado pelos amigos. Mas digno e forte. Tanto que hoje, cento e setenta e sete anos depois, ainda é lembrado, sobretudo pela obra que deixou e acabou desvirtuada pelos que ficaram com a tarefa de levar adiante seus ideais, aqui na América.

Quanto ao rei espanhol, é oportuno lembrar que o único apoio político e econômico que encontra a Cuba de Fidel Castro na Europa, é justamente a do velho, correto e indômito Bourbon. Vamos ser realistas e fazer justiça. E ele o faz, em nome da democracia que jurou preservar, independente das naturais oscilações de direita, centro ou esquerda dos governos que empossou, a partir do voto do povo espanhol. Assim, fica difícil para um candidato a ditador, a aceitação da defesa de um direitista feita por esquerdista. É muito, é demais para as cabecinhas de minhoca de nosso continente. Com a prepotência do dinheiro do petróleo fica difícil enxergar certas coisas. Que as descobertas da Petrobrás não perturbem nosso rico sheik metalúrgico.




A FEIRA DA GENTE
Walter Galvani, em 13/11/2007

Sob este título, publiquei em 2004, um livro editado pela
Câmara Rio-Grandense do Livro
abordando os 50 anos
da Feira do Livro
de Porto Alegre.
Eis o primeiro capítulo:



Este é um livro de História. E de histórias. Por isso, ele começa com "Era uma vez..." E como tudo é verdade perante os céus, embora seja preciso enxergar "sob o manto diáfano da fantasia, a nudez forte da verdade" e embora, muitas vezes, se possa imaginar que se cria ou que se voa, é preciso estar atento, pois os sonhos podem ser mais reais do que se pensa.
Por isso tudo, o início está na foz do rio Mekong com Luís de Camões e na Praça da Alfândega em Porto Alegre, antigo Largo da Quitanda, e junto ao Tejo, em Lisboa, e também na redação do antigo Diário de Notícias na rua Sete de Setembro, ou na Editora e Livraria do Globo junto à Galeria Chaves e ainda na avenida Borges, todos endereços no centro de Porto Alegre. Entre os livros, onde estão e estarão sempre, todas as histórias. E na cabeça dos homens, amigos dos livros.
Ali vai o poeta, nadando e, loucamente, conduzindo o texto que lhe há de dar "doces lembranças de passada glória que me tirou Fortuna roubadora". Aqui, os homens discutem no café da esquina como hão de mudar o mundo. A alavanca para movê-lo? O livro. Portanto... "Era uma vez, na foz do Mekong, aí por 1557, ou ainda e também em Porto Alegre, por volta de 1955...". São fatos que se somaram e, hoje, envoltos pelo "manto diáfano da fantasia", já não se distinguem mais os limites entre a verdade dos homens e a certeza dos sonhos.
Até que ponto um naufrágio na Ásia, o professor Guilhermino César, os livros na praça principal de Porto Alegre e Camões estarão interligados? Pois, num destes lances de mistério que só um pouco de magia nos faria compreender, veremos que o dedicado professor mineiro, que escolheu o Rio Grande do Sul para viver, e o poeta do século XVI, um dos "pais fundadores" da cultura e da língua portuguesa, têm o seu ponto de encontro na feira de cinqüenta anos, preparada para viver outro tanto. Ou muito mais. É o nosso sonho.
Magia não seria bem o termo, melhor seria referir a seriedade de Guilhermino César e sua erudição, virtudes que o aparentavam diretamente com Luís Vaz de Camões, e o casamento destas duas personalidades com a Feira do Livro de Porto Alegre, cuja idéia básica transita de um para outro, e busca seu sentido simbólico no salvamento do texto de "Os Lusíadas". Imaginá-lo rumo à praia com a ação de apenas um braço, enquanto com o outro elevava "Os Lusíadas" para que não se perdesse no mar revolto, é um desafio ao ceticismo moderno. Mas, a metáfora permanece ao longo dos séculos e chega à Praça da Alfândega, onde o livro vive e nos faz lembrar, mais modestamente, que a luta com as águas da chuva assumiu contornos de epopéia vivida e, de certa forma, vencida.
No dia 16 de novembro de 1955, às 18 horas, quando se inaugurava a I Feira do Livro do Rio Grande do Sul, Guilhermino César era o porta-voz na entrevista coletiva, depois, no encerramento, dando o balanço nos resultados e anunciando a nova feira. Dezessete anos depois, Camões seria o Patrono da Feira, na comemoração dos 400 anos de publicação de "Os Lusíadas". Quem o saudaria lembrando o episódio homérico de 1557? Ora, Guilhermino. E trinta e cinco anos adiante quem seria o Patrono da Feira? Guilhermino César.
Por essas e outras, fica mais fácil identificar a idéia, vitoriosa, e como tal dividir sua paternidade entre os muitos candidatos, do que encontrar em seu genoma criador o gene paterno.
Envolvendo a Feira que nascia não eram apenas Camões e Guilhermino, é lógico. Havia Maurício Rosenblatt, Henrique e José Bertaso, Leopoldo e Nelson Boeck, Augusto da Cunha Carneiro, Ernani Nerva, Egon Poetter, os lusitanos Ruy Diniz Netto e Edgardo Xavier e Say Marques, o maior candidato a pai/padrinho/patrono.
Como no início era apenas "uma idéia trêmula, frágil, bruxuleante", foi quase totalmente creditada ao entusiasmo do jornalista Say Marques, um dos diretores do Diário de Notícias, que regressara do Rio de Janeiro onde vira a II Feira do Livro carioca e tentava transmitir a sugestão aos porto-alegrenses. Ele foi enfático em seu jornal. Ocupou o alto da última página com uma manchete em duas linhas em que prometia: "A Praça da Alfândega converter-se-á em uma autêntica biblioteca a céu aberto".

Para ajudar a explicar aos leitores de que se tratava, ele incluía, na edição do dia 13 de novembro de 1955, uma crônica de Rachel de Queiroz sobre a feira do Rio e explicava o nascimento da congênere gaúcha:
"O Diário de Notícias e as Emissoras Associadas bem como os livreiros e editores, com o apoio da Secretaria de Educação e da Prefeitura, levarão ao povo gaúcho 30 mil livros em quinze dias, em um comício de cultura na Praça da Alfândega."
Lançada a idéia, formou-se a primeira comissão organizadora a cargo da Câmara Brasileira do Livro, Seção RGS, presidida por Henrique Bertaso (Editora e Livraria do Globo) e integrada por Leopoldo Boeck (Livraria Sulina, Egon Poetter (Livraria Americana e Cia. Melhoramentos de São Paulo), Augusto Cunha Carneiro (Livraria Farroupilha), Maurício Rosenblatt, (Editora José Olympio do Rio de Janeiro) e o jornalista Say Marques. Escolhidos o local, o dia e a hora, só faltaria o discurso. O encarregado foi o Secretário de Estado da Educação e Cultura, Liberato Salzano Vieira da Cunha, que procurou atribuir a iniciativa à "imaginação cascateante de Say Marques, fecunda em iniciativas em prol do bem público" e não esquecendo a importância dos agentes concretos do acontecimento, "à Câmara do Livro, aos editores e livreiros de Porto Alegre".
O entusiasmo levou o secretário a uma visionária declaração de compromisso democrático: "Lendo a história dos homens e dos povos, eles sabem que os ditadores pertencem ao pó do passado, são figuras efêmeras de um dia, e que só permanecem os autênticos democratas, aqueles que consagraram sua vida ao serviço do povo".
Mal sabia ele que todos nós, e a própria Feira, enfrentaríamos dias difíceis com outros ditadores que estavam por vir. Mas o dia não se prestava a pessimismos. Inaugurava-se uma feira de livros em Porto Alegre, no local onde a sua vocação de porto e comércio nasceu, no antigo Largo da Quitanda, e era justo, pois, que o homem responsável pelo setor cultural do governo encerrasse com a mensagem mais animadora possível. Foi o que ele fez:
"Dizia o velho Sêneca que dar um livro a alguém não é apenas fazer-lhe um presente, é também dirigir-lhe um elogio."
Maurício Rosenblatt, integrante da comissão e representante da Livraria José Olympio, ouviu bem e o discurso do secretário Salzano marcou-o de tal maneira que sempre o apresentou como ideal e "das melhores coisas que se disseram na praça". Em 1984, ano em que foi o patrono, o primeiro a ser escolhido em vida, Maurício lembrou-se do ato de trinta anos antes:
"Fomos para a praça como guris para um piquenique, loucos de contentes, mas sem saber o que iríamos encontrar."
Outro que lá estava era o jornalista Alberto André, na época deputado pelo Partido Libertador, e logo na sessão do dia 18 de novembro, requereu um "voto de congratulações" à "Câmara Brasileira do Livro e ao Diário de Notícias na pessoa do seu diretor, Say Marques, pela realização da Feira do Livro". Era o reconhecimento público, oficial.
Naquele bom começo, o grande ausente fora o escritor mais conhecido do Rio Grande do Sul. Os jornais do dia 25 de novembro noticiavam, com grande destaque, que Erico Verissimo, "depois de três anos e meio servindo na OEA, chegaria ao Brasil pela primeira vez depois desta longa ausência e seria homenageado pelos colegas e amigos". Mas isso se deu depois do encerramento da Feira, no dia 30 de outubro. Depois, sempre que esteve em Porto Alegre, Erico prestigiou a Feira. A fatalidade e o costume da época, no entanto, só lhe dariam o título de Patrono em 1976, depois de falecido. Naqueles tempos, ainda se escolhia o patrono entre os mortos. Mas, ao longo de sua carreira, sempre procurou apresentar seus livros na Praça em sessões de autógrafos bastante concorridas.
No dia 16 de novembro de 1955, Cícero Soares, presidente da ARI (Associação Rio-grandense de Imprensa), estava no palanque, bem como o deputado-jornalista Alberto André, e Say Marques, além de Henrique Bertaso e o seu assessor, o jornalista Ruy Diniz Netto.
Esses todos e o próprio Erico Verissimo, um dos fundadores e primeiro presidente da ARI, como secretário de redação da Revista do Globo, estabeleceram o elo inoxidável com a Imprensa. Acrescente-se que tanto a seção gaúcha da Câmara Brasileira do Livro, quanto a futura Câmara Rio-grandense do Livro abrigaram-se no edifício da ARI, na av. Borges de Medeiros, 915, até que se tornasse possível a sede própria.
Entre os selecionados apóstolos dos livros, estava também o professor Guilhermino César, que vivia em Porto Alegre desde 1943, e aqui solidificara seu conceito de homem erudito, que vinha desde Cataguazes. Lá, estudara e participara da modernista revista Verde. Seu porte intelectual o havia transformado numa espécie de porta-voz do grupo fundador. Por isso, lhe eram encaminhadas as primeiras entrevistas, resultantes da suave curiosidade da imprensa de então.
Ao longo dos anos, o lusitanista emérito tornara-se também professor em Coimbra e Lisboa, enquanto o seu sólido casamento com a cultura portuguesa produzia lógicos afloramentos locais. Em 1972, quando Camões foi escolhido como o Patrono da Feira, ele seria o orador. Dezoito anos depois, em 1990, chegou a sua própria oportunidade, na 36a. edição. Ao final da feira de 55, o prof. Guilhermino voltara ao palanque para fazer a palestra de encerramento, costume substituído mais adiante por uma festa. Naquele ano, ele apresentou os resultados, sublinhou os objetivos alcançados e anunciou a repetição no ano seguinte, no mesmo local. E foi com ele de Orador oficial que se inaugurou a II Feira do Livro no ano seguinte, adiada de 24 para 27 de outubro por causa da chuva. Lá estava o estimado professor mineiro-gaúcho falando sobre "o pão do espírito"...
Os jornais porto-alegrenses, em sua discreta cobertura da I Feira, (com exceção do Diário de Notícias, co-promotor entusiasta), encontraram espaço para abrigar as palavras impetuosas de Guilhermino:
"Vejo diariamente centenas de homens do povo diante das barracas, abastecendo-se de romances, poesias, livros técnicos, livros didáticos. É um espetáculo comovedor. Pessoas que normalmente não freqüentam livrarias, em grande parte porque trabalham de sol a sol, passam à noite pela Praça da Alfândega e saem carregados de livros. Meninos pobres reviram os caixotes em que se empilham livros em liquidação, compêndios escolares fora de moda, e saem triunfantes com a sua modesta-grande compra. O movimento da Feira do Livro, o interesse que despertou, o entusiasmo com que o povo correspondeu à expectativa, quer dizer, em linguagem de governo, o seguinte: ‘É preciso inaugurar em Porto Alegre um serviço de bibliotecas ambulantes!’. Toda essa gente que não pode ler, pelo alto preço da mercadoria, ou porque lhe falta tempo para procurar o livro do seu agrado, deve também ser contada no panorama da cultura rio-grandense. Não se pode esquecer que existem estas pessoas. Sobretudo, não se pode esquecer que a escola primária tem na biblioteca pública a sua mais alta e bela complementação.
Aproveitemo-nos da Feira para abrir uma campanha em favor das bibliotecas circulantes. Não proponho uma utopia. Em São Paulo, criadas pelo Departamento Municipal de Cultura, são elas uma realidade há muitos anos. Porto Alegre, com o auxílio do Estado e do município, poderá atender facilmente a esses altos objetivos. Sei que tudo isto custa dinheiro. É verdade. Mas não é preciso muito dinheiro para começar. Ademais, o Estado possui uma Divisão de Cultura e de um belo orçamento e, entre os fins de sua criação, encontra-se esse de organizar na capital as bibliotecas circulantes. Vamos começar? Nunca é tarde para que se dê ao povo o mínimo de que precisa."
Say Marques, diretor do Diário de Notícias e que era apontado, mesmo pelos jornais concorrentes, como "o idealizador da Feira do Livro", fez também o seu discurso. O Diário de Notícias, por motivos óbvios o jornal porto-alegrense que melhor registrou a inauguração da primeira edição, disse que Say Marques, "em uma palestra cordial com o povo, explicou como nasceu e como vingou a iniciativa da Feira, que naquele instante representava uma extraordinária vitória de todos os livreiros, editores, intelectuais, educadores, governantes e do próprio povo gaúcho – tão sensível foi este ao convite que lhe fizemos para esse encontro na Praça da Alfândega".
O próprio governador do Estado, Ildo Meneghetti, estabeleceu um procedimento dos ocupantes do Palácio Piratini, de estar presente no ato, mas com um requinte que se perdeu nos tempos: comprou o primeiro livro, "Problemas da Liberdade", do americano Fulton Sheen (que foi arcebispo de Nova York), e, ao retirar-se da praça, adquiriu um álbum para seu netinho, conforme explicou.
Para Ruy Diniz Netto, o jornalista Say Marques foi importante, mas acima de todos o editor Henrique Bertaso, este sim poderia ser considerado o "pai da idéia", pois há muito a defendia e já fizera, inclusive, uma experiência em sua própria livraria. Nesse caso, havia uma antiga cumplicidade entre o "patrão" e o funcionário: Ruy conhecera o editor Henrique na viagem de vinda de Portugal em 1950 e haviam falado sobre a Feira de Lisboa, com muito entusiasmo. Ele a conhecia desde os tempos em que se realizava na Praça Camões, no bairro do Chiado, depois veio para a avenida da Liberdade e, posteriormente, para o parque Eduardo VII.
O que a Editora Globo fizera na loja tradicional da Rua dos Andradas, 1416, a tradicional Rua da Praia, em 1952, para ele, contudo, não fora propriamente uma Feira do Livro, embora o Correio do Povo, de 18 de novembro de 1952, assim a saudasse e houvesse, inclusive, um cartaz numa das barracas com a inscrição "1a. Grande Feira de Livros". Ruy Diniz explicou:
"Aquilo foi apenas uma liquidação, não havia participação de outras empresas, não era uma feira de livros na acepção do termo, como já se conhecia há anos na Europa".
A notícia do Correio, embora sem o número da fatura que a caracterizasse como "comercial" como se usava na época, tem todo o perfil de "matéria paga". Abria com uma cartola acima do título cumprimentando a empresa:
"Feliz iniciativa da Livraria do Globo".
E o título geral em duas linhas de cinco colunas do jornal, então impresso em formato "standard", dizia:
"Livros aos milhares, de todos os gêneros, com descontos reais desde vinte até oitenta por cento!"
E começava a matéria de forma ainda mais comprometida:
"Certos planos de venda assumem, às vezes, caráter de verdadeira benemerência pública, tais as vantagens e o interesse que encerram para a massa do povo.
É o caso da 1a. Grande Feira de Livros, inspirada iniciativa comercial da Livraria do Globo e que foi inaugurada anteontem na moderníssima loja Royal Fridden da rua dos Andradas, 1416".
E prosseguia:
"Nesta época em que tudo custa caríssimo – e o livro por certo não escapa às duras contingências do momento econômico que vivemos – é um verdadeiro tour-de-force pelo enriquecimento cultural do nosso povo, o que a Livraria do Globo realiza com a sua 1a. Grande Feira de Livros".
Comercial ou não, claramente a empresa defendia os mesmos interesses mais adiante ampliados através da seção do Rio Grande do Sul da Câmara Brasileira do Livro. A notícia do jornal se estendia, como se estivesse analisando uma das modernas edições da Feira do Livro, embora, sob o ponto de vista técnico, a razão estivesse com Ruy Diniz: "Era uma grande liqüidação, apenas".
E vejam a conclusão da nota:
"Encontram-se também ali variados livros didáticos, preciosas publicações dedicadas à arte em todas as suas manifestações, inclusive obras ilustradas sobre as artes plásticas em todo o mundo. Há ainda toda a imensa coleção de romances policiais e de aventuras, de narrativas de viagens, de almanaques manuais de ensino profissional ou de utilidade caseira, livros de crônicas e de humorismo, etc.etc. Tudo, enfim, que se edita (...) é um empreendimento destinado a marcar época e que credita à Livraria do Globo mais um expressivo laurel em sua bem orientada e superior orientação comercial."
Tudo isso acontecia três anos antes da primeira feira oficial e também antes da tal inspiradora feira carioca. Havia sido um bom aperitivo. Ao incorporar-se à Editora Globo no final daquele ano, Ruy Diniz Netto, o lisboeta, trouxera a sua contribuição com a lembrança do que então se realizava em Lisboa.
Segundo lembrou Edgardo Xavier, outro cidadão português com os pés bem assentados na atividade livreira porto-alegrense e participante da primeira comissão, também o pai de Ruy, Seu Henrique Netto, foi chamado a dar sua opinião e contribuir com o seu conhecimento da Feira de Lisboa. Assim, lembrou Ruy:
"A pedido do Seu Henrique Bertaso, mandamos buscar em Lisboa o regulamento da feira de lá, junto ao Grêmio dos Editores. Pedi a meu primo, João Diniz, que presidia a Empresa Nacional de Publicidade. Mais tarde, com a concretização da I Feira, em 1955, o Seu Henrique Bertaso me disse: ‘O Maurício, que é todo maneiroso, está envolvido com o Say. Mas, deixa ele pensar que foi ele. O importante é que saia a Feira’ ".
E a Feira, como se sabe, saiu.
Edgardo Xavier, que completou exatos 50 anos de trabalho com o livro, justamente junto com a Feira de Porto Alegre, também lembra do assunto:
"O primeiro a me falar na Feira foi o Mário de Almeida Lima. Mas, o grande impulsionador da idéia era o Seu Bertaso, sim. Ele me falou, a mim, ao Ruy e ao pai do Ruy, o Seu Henrique Netto, que era o gerente do ‘Cotillon Club’, que ficava ali na Salgado Filho."
O apoio foi geral no início. Ruy Diniz Netto lembra que o chefe de reportagem do Correio do Povo, jornalista Antônio Carlos Ribeiro, era também assessor de imprensa da CEEE (então Comissão, mais tarde Companhia de Energia Elétrica), e este laço serviu de ponte para que a empresa contribuísse ao melhorar consideravelmente a iluminação da Praça da Alfândega, dando começo assim a uma relação que se tem mantido.
Anos depois, exatamente no difícil 1964, Say Marques foi mais uma vez convidado para ser o Orador da Feira, que então chegava à sua décima edição, e os jornalistas creditaram-lhe cavalheirescamente a paternidade da idéia, ou, pelo menos, preferiram manter assim, sem contestação, esta parte já envolta em brumas da História. Para ele, havia sido uma honra renovada pois falara na primeira edição da Feira e tornava a falar no significativo décimo aniversário.
Isso, de certa forma, arquivava, pelo menos provisoriamente, uma antiga disputa, dentro da competição entre as empresas jornalísticas, tão acirrada quanto em qualquer momento da nossa história, tanto que fez algumas vítimas. Uma delas foi a divulgação da II Feira do Livro, em 1956.
No Correio do Povo e na Folha da Tarde, os dois jornais da Cia. Jornalística Caldas Júnior, então a empresa líder no mercado, que sempre se notabilizou pelo apreço à cultura, aquela segunda edição da Feira passou quase despercebida. A Folha da Tarde divulgou uma única nota durante todo o seu transcurso. Já o Correio, apesar de todo o espaço de que dispunha então em formato "standard", fez um pequeno, mínimo registro, mas nem sempre diário. Ora, não se tratava de uma promoção do concorrente, Diário de Notícias? Competição era assim mesmo, nem adiantaria recordar que no episódio da morte de Getúlio Vargas, a 24 de agosto de 1954, o diretor do Correio, Breno Caldas, havia socorrido o Diário que fora depredado, com o empréstimo de uma máquina impressora. O momento de fraternidade estava esquecido. E a Feira pagava o pato.
Aos poucos, essa competição foi se esvaindo e a idéia da Feira foi batendo as resistências e as ciumeiras. Em 1957 foi melhor, em 1958 melhor ainda e também com o surgimento de novas empresas, a circulação de novos jornais como A Hora, depois a Última Hora, e em 1964, a Zero Hora, sem falar na velha e prestigiosa Revista do Globo, que sempre manteve seu compromisso até deixar de circular em 1967, até a integração das rádios e o surgimento das televisões.
Mas naqueles anos iniciais, o orador personificava a idéia mais adiante desenvolvida, da escolha de um patrono oficial, o que veio a ocorrer em 1965. O primeiro a ser contemplado, ainda escolhido no panteão dos grandes nomes já falecidos, foi Alcides Maya, o criador de "Ruínas Vivas", um romance gaúcho editado em Portugal pela Lello & Irmãos, da cidade do Porto, o primeiro gaúcho a integrar a Academia Brasileira de Letras. Ele era apresentado então como o "Patrono do Dia do Livro no Rio Grande do Sul". Fora deputado estadual e federal, ensaísta, romancista, contista e conferencista, membro também da Academia Rio-grandense de Letras e jornalista, diretor de três jornais em Porto Alegre: A República, Jornal da Manhã, e A Federação. E com o patrono já falecido, é claro que a homenagem precisava se completar com a figura do orador. Naquele ano, a honra tocou a Rubens Maciel, escritor e médico cardiologista.
Em 1972, a responsabilidade retornaria para Guilhermino César, aumentada então pela dimensão do Patrono, nada menos do que Luís Vaz de Camões, e pela oportunidade da escolha: festejavam-se os 400 anos da publicação de "Os Lusíadas", junto com o Sesquicentenário da Independência do Brasil. Quer dizer: um preito de homenagem ao poema fundador da língua portuguesa e uma alusão ao emblemático, embora verdadeiro – ou falso – grito de Independência ou Morte em 1822.
Com toda a sua "mineirice", o professor saiu-se bem da incumbência, tratando mais do livro e da leitura, evitando o desgaste com os possíveis anti-lusitanistas, mas concluiu citando o exemplo histórico de Camões com a narrativa do naufrágio e a salvação dos originais de "Os Lusíadas":
"Este forte e perene simbolismo deve servir de exemplo e estímulo a todos os que convivemos diariamente com o livro, de maneira que defendemos a necessidade básica da existência do lugar para a leitura e para a compreensão conseqüente do material lido e refletido".
Não seria a última presença de Guilhermino César no palanque, que agora era reforçado de ano para ano, pois todos queriam ocupar um lugar entre os eleitos. Até hoje é assim. Há algum tempo, passou-se a adotar o costume de separar uma área para privilegiar os que poderiam estar no palanque, mas por falta absoluta de espaço físico não podiam ser contemplados. Não era o caso do professor Guilhermino. Qualquer direção da Câmara Rio-grandense do Livro se sentiria obrigada a cavar um lugar para ele. E assim foi, até que chegou a sua vez mesmo, em 1990, na 36a. edição da Feira do Livro, quando, finalmente, seria ele o patrono do evento. E em vida!
Poucos conheceriam o assunto "livros" melhor do que ele. Roque Jacoby, presidente da Câmara, fez-lhe a saudação, recordando sua participação desde 1955, e o homenageado tratou de agradecer à população de Porto Alegre "pelo carinho que dispensa à Feira, num gesto de fraterna amizade". Fez blague dizendo que "só aos domingos utilizo adjetivos" e marcou mais uma vez sua passagem pelos jacarandás em flor (figura batida, habitual, mas característica da velha praça e inseparável da Feira). Falou de improviso, foi o mais curto dos seus pronunciamentos ao longo dos tempos, cheio de emoção.
Naquele ano, o patrono Guilhermino César, usando óculos de grossas lentes, mas impotentes para resolver seu problema, optou pelo improviso. Por isso, seu curto pronunciamento não foi publicado. Registraram os jornalistas algumas frases. Chovera na hora da abertura. Carlos Alberto Silveira, coordenador-geral da Feira, lembrou que os livreiros já estavam habituados com isso e "guardaram os livros bem no alto".
A Feira do Livro é, pois, a vitória de uma idéia. Dito assim, parece o óbvio. Mas, se decompusermos os fatos, veremos que é mesmo um triunfo sobre os convencionalismos, sobre o mercantilismo, sobre as tradições e sobre a própria e institucionalizada ignorância e até sobre as águas da chuva, que começou a vencer com a cobertura das alamedas da praça.
Como diz o jornalista português Manuel António Pina, "alguma grande razão tem de haver para essa atração, para a força obscura que move tanta gente, que na sua imensa maioria não lê, ao encontro dos livros. Quando soubermos o quê, conheceremos decerto algo essencial acerca de nós mesmos." E acrescenta: "As Feiras do Livro são hoje, mais do que meras oportunidades de negócio livreiro, singulares momentos de esperança e de cidadania. Por algum motivo se mantêm (apesar de tudo) à margem dos roteiros mediáticos dos clowns da política e do entretenimento. E talvez por isso ainda sejam lugares respiráveis, quando as próprias livrarias, antes territórios vagarosos de tranqüilidade e de descoberta, crescentemente asfixiam sob o peso insuportável dos best-sellers e das novidades".




PETRÓLEO, LULA SONHA COM VIRAR SCHEIK
Walter Galvani, em 11/11/2007

Crônica publicada no jornal ABC DOMINGO

PROFISSÃO ESPERANÇA



Walter Galvani





A seis metros de profundidade, debaixo de uma grande camada de sal, jaz uma reserva de petróleo que poderá transformar Lula no mais requisitado sheik do próximo carnaval, disfarce, aliás, que já foi muito popular nos velhos bailes tradicionais, do tempo em que o carnaval era uma alegre e amistosa festa de clubes.

Antônio Maria, um dos nossos maiores cronistas, um jornalista gordo e boêmio, aos tempos em que isso era permitido sem cobranças públicas, costumava classificar-se e o fez numa crônica famosa, como “brasileiro, profissão esperança”.

É isso que nos alimenta e sustenta, mesmo em meio a todas essas denúncias e suspeições, acusações e delações premiadas, junto com aplausos a traficantes que deixam as vilas onde mataram policiais, como heróis. Já sei, será explicado que é a ausência do estado que os torna representantes de uma certa “legalidade”, que garante o ir e vir na vila, saída e entrada com segurança, enquanto ninguém se intrometa no ritmo dos seus “negócios”.

Se é isso que sobrou para os cidadãos que cumprem seus deveres, pagam (ou devem) suas contas, trabalham de sol a sol e ganham salário mínimo, paciência haja, o Brasil foi construído pelos brasileiros, um povo tão paciente que só se levanta de cinqüenta em cinqüenta anos e só faz uma revolução por século...

Ver um traficante deixar a vila sob aplausos, sob as luzes da televisão, depois de haver enfrentado a maior concentração de policiais dos últimos tempos, mesmo depois de haver matado um e ferido dois brigadianos, outrora a força símbolo da confiança gaúcha, é um sinal lamentável dos tempos que vivemos e que, provavelmente, iremos viver, daqui para o pior nos próximos anos.

O acontecido na vila Areia, aliás uma das que receberam a maior atenção dos poderes públicos com a construção de pequenas casas, bem pintadas pelo menos, antes que cheguem os pichadores, é um retrato do desconforto moral em que vivem os habitantes desta cidade como de outras grandes capitais do país. A exportação do “know how” carioca, com requintes tecnológicos de câmaras para filmar quem ousa penetrar nas ruas da vila, é também outro pequeno toque da verdade do que ocorre no país.

Mas, eis que explode a notícia de que o Brasil poderá se tornar exportador de petróleo, algo no gênero da Arábia Saudita, na posição da Venezuela ou da Nigéria e já se pode imaginar o sorriso e o tamanho da esperança que se aloja nos corações brasileiros. Esquece-se tudo. Brasileiro, profissão esperança.




QUE HORROR!
Walter Galvani, em 07/11/2007

Crônica publicada neste fim-de-semana

“PRA QUÊ? PRA NADA...”



Walter Galvani





Costumo lembrar versos de Aderbal Tavares, grande poeta pernambucano que, certa vez, para assinalar a inutilidade da reação violenta e precipitada do gaúcho, nos retratou assim; “Lá vai o gaúcho em louca arrancada! Pra quê? Pra nada...”

Foi o que fez o presidente desta louca república do Brasil, o senhor torneiro-mecânico Lula da Silva, ao anunciar-se o nosso país como o organizador da Copa do Mundo de 2014. Disse ele: “Organizaremos uma Copa do Mundo para argentino nenhum botar defeito!”

Pergunto: pra quê ele disse isso? Pra nada. Em verdade, só para irritar nossos vizinhos, como se isso adiantasse alguma coisa.

Sob o ponto de vista esportivo, futebolístico, pior ainda. A sua declaração desastrada só servirá para mobilizar nossos tradicionais adversários, irritá-los e prepará-los para um surto de raiva, revanche ou inveja. Pra quê? Pra nada...

É conhecida a rivalidade histórica entre o Brasil e Argentina no campo de jogo e que não raras vezes extravasa os limites dos estádios, transformando um jogo amistoso numa batalha e uma partida oficial numa questão de princípios. Ora, se os dois se encontram no elevado patamar dos melhores do mundo, junto com a Itália, Alemanha, Inglaterra e poucos mais, de que serve esta “cutucada” do Lula? Só para discussão inútil em mesas de bar e para transformar o confronto entre os dois em batalhas como a “mídia” gosta de denominar, as memoráveis e muitas vezes lamentáveis, “batalhas do Rio da Prata” ou combates do Morumbi e do Maracanã onde por certo se jogará uma finalíssima, se houver e justamente entre esses dois cultores excepcionais do esporte inventado pelos ingleses e difundido pelo mundo afora.

É pena. Pior do que isso, só a burrice astronômica do Paulo Coelho, que, talvez pensando em fazer gênero, disse que os brasileiros gostam mais de futebol do que de sexo, pois o sexo termina em pouco mais de meia hora ou quarenta minutos e o futebol é discutido horas a fio depois do término da partida.

Boa ocasião perderam ambos, Lula e Paulo Coelho, para ficarem devidamente calados.

Graças a Deus que não é a maioria do povo brasileiro que pensa como eles. Tenho certeza que nossos leitores nses ficaram arrepiados com tal demonstração de grossura, ignorância e mau gosto.

Certamente não contribuíram em nada para a realização da Copa de 2014, competição poderá ajudar alguns problemas de infra-estrutura e transportes, pois, como se sabe, transformada em questão de honra, qualquer governante de hoje até lá, fará tudo para colocar em ordem sua região e ou o país.












ATÉ O AMARGO FIM...
Walter Galvani, em 29/10/2007

Crônica publicada no jornal ABC DOMINGO
do Grupo Editorial Sinos


PETRÓLEO A NOVENTA



Walter Galvani





Estamos brincando com os fatos. O petróleo ultrapassa a barreira dos 90 dólares por barril e isso é minimizado, ou, na prática, ignorado por todo o mundo, e... segue o baile! Não vai haver uma queda no consumo dos combustíveis chamados fósseis (óleo, gás, querosene e gasolina) por conscientização mundial diante da poluição ambiental. O problema será o custo.

Para que se tenha uma idéia pálida de como isto começou: no auge da primeira crise do petróleo, nos anos setenta, o petróleo custava 20 dólares o barril. Agora, quatro vezes e meia mais caro.

Você sabe o que pode significar isso na sua passagem de ônibus, no pedágio, no deslocamento do seu automóvel particular?

Por muito menos o império americano invadiu o Iraque, fez alianças com os mais inesperados governos do Oriente Médio, ou entrou em guerra fria ou aberta. Por muito menos, a estrutura de comércio, serviços, transportes, indústria, enfim todo o edifício da economia mundial já se abalou. Resta imaginar que pode ruir como as torres gêmeas de Nova York, só que desta vez o impacto não será por um avião maluco ou dirigido por suicidas.

O suicídio da economia ocidental pode ocorrer por soberba e ou prepotência. Ninguém imagina que o petróleo bruto pode subir ainda mais. Mas pode. E se isso ocorrer, teremos num par de anos, uma alta absolutamente insuportável.

Quais são as saídas?

Primeiro economizar enlouquecidamente. Mas isso não será suficiente.

Abandonar o consumo dos combustíveis que tenham essa origem. Eis uma boa medida. Mas, como fazê-lo?

Ora, criando um motor que não seja à explosão, ou que consuma eletricidade produzida por superbaterias. Enfim, o desafio está lançado às indústrias de automóveis e caminhões, para que desenvolvam numa velocidade nunca vista, uma saída à altura, para escapar a esse impasse.

Que faremos então?

Encostar o automóvel?

Se providenciarmos um dia sem carro por mês no mundo, já estaremos contribuindo, mas, vejam bem, não estaremos solucionando.

Os que lêem estas linhas, ponham-se a pensar. Como nunca o mundo precisará da contribuição de cada um, para tirar o planeta do desgoverno em que cairá, não pelo abalo ao meio ambiente, mas pelo abalo ao bolso... Como este é o “órgão mais sensível” do corpo humano, pode-se imaginar que logo surgirão medidas para evitar a catástrofe. Agora, tomem nota: será mesmo uma catástrofe. Quando metade da frota mundial de carros virar sucata, talvez a humanidade comece a pensar seriamente a questão...

Desta vez não dá para “pegar leve”... como manda a “sabedoria” de vila, típica do Brasil.




DA LEITURA À CRÕNICA
Walter Galvani, em 24/10/2007

O resgate através
do letramento.
Os caminhos da
escrita criativa


OFICINA DE CRÕNICA
DE WALTER GALVANI
NA 53ª. FEIRA DO LIVRO


Walter Galvani, veterano jornalista com 53 anos de carreira e escritor consagrado, com dez livros editados, estará ministrando oficina de criação literária, na área de Crônica, nos primeiros dias da 53ª. Feira do Livro de Porto Alegre.
Sob o título “Leitura, o desafio da interpretação” ele abre o caminho para o resgate da arte da crônica, na biblioteca (2º andar) do Centro Cultural “Erico Veríssimo”, (Rua dos Andradas, 1223, Porto Alegre), das 15h30 às 17h30min, nos dias 27 de outubro (sábado), 28 (domingo) e 29 (segunda-feira).
“Quando se pára de ler, desaprende-se” – escreveu Gabriel Garcia Márquez, um dos grandes cronistas citados por Galvani em sua oficina de três dias, na qual aborda a história do gênero, sua constante oscilação entre o eterno e o efêmero, a perenidade e a mortalidade infantil, sempre a um passo da eternidade.
Inscrições ainda podem ser feitas na sede da Câmara Rio-Grandense do Livro, obtendo-se maiores informações pelos telefones (51) 32.25.50.96 ou 81.01.24.55.




FEIRA DO LIVRO
Walter Galvani, em 22/10/2007

É a época de feiras de livros.
Em Porto Alegre, começa
na sexta-feira, dia 26, a
53a. edição.
Antônio Hohlfeldt será o patrono.
Em Pelotas, vem aí
a 35a. edição. Já tem
também o seu patrono.
Leiam a seguir na
crônica que publiquei
no Diário Popular da
maior cidade da metade sul
do Rio Grande:


UM APAIXONADO

PELA CULTURA

Walter Galvani



Todas as quartas-feiras, exatamente das 13 às 13h30min, a Orquestra Filarmônica da PUCRS propicía aos alunos, professores, convidados e visitantes da universidade em Porto Alegre, no campus do Partenon, uma denominada “Sobremesa Musical”. Durante trinta minutos a gente esquece dos problemas e aflições e participa do doce convívio musical. Assim tem sido. E nessas quartas-feiras, quase sempre tenho desfrutado do prazer da visita do pelotense José Antonio Mazza Leite que, quando está na capital procura partilhar aqueles agradáveis momentos na universidade.

Já sei que não contarei com a presença dele nos próximos dias, pois estará voltado à questões que o prendem à sua terra. Foi escolhido como o Patrono da 35ª. Feira do Livro de Pelotas.

Afinal, como é bom saber que lhe fazem justiça! Não só por ser um intelectual de mérito, mas sobretudo pela sua dedicação ao Livro e às coisas da cultura de um modo geral. Ainda recentemente, recebi das mãos dele, numa dessas visitas, o valioso “Xarqueadas – de Danúbio Gonçalves um resgate para História”.

Modesto no título e no texto, o resgate não é só do excelente Danúbio, mas do valoroso empenho e da mão amiga do José Antonio Mazza Leite que aqui nos brinda com sua eficiência de pesquisador e sua paciência de reconstrutor da memória da sua cidade e da região.

Como o é também o Museu do Charque, ou seja a Pousada do Charme, ali no Areal, e que ajudou a erguer com a participação da arquiteta e urbanista Ediolanva Liedke. Quem conhece se deslumbra.

Saiu bom, o neto mais velho do comendador Raphael Mazza que veio da Itália para dar a sua contribuição à esta cidade tão cheia de encanto e de espiritualidade, de cultura e pensamento! Eu próprio, quando escrevi meu primeiro romance, “Anacoluto do princípio ao fim”, achei que os personagens se sentiriam bem se a trama fosse inserida no contexto pelotense. Foi o que fiz, e hoje me sinto orgulhoso quando ouço ou leio referências elogiosas ou simples comentários, pois não ouvi até agora nenhuma contestação à minha decisão de enquadrar o romance em Pelotas.

Acho que tudo isso nos aproxima, mais as tardes musicais na PUCRS, a situação de Patrono de Feira do Livro, a preocupação com o passado histórico e a certeza de que se pode colaborar, e muito, para o resgate da Metade Sul do estado, relegado por questões políticas e por competição privada, quando deveria ser entronizada como uma das matrizes do nosso desenvolvimento. Tudo isso virá, com a participação de tantos valiosos intelectuais como José Antonio Mazza Leite, que aqui tomo como exemplo, se ele, em sua modéstia, me permitir.




A GUERA DOS CAMELÔS
Walter Galvani, em 21/10/2007

Crônica publicada hoje
no jornal ABC DOMINGO
do Grupo Editorial Sinos


COPIANDO O QUE HÁ DE PIOR
Walter Galvani


O filme “Tropa de elite” serve para várias coisas além da sua possível qualidade cinematográfica. A principal delas é alertar a sociedade de que o câncer da violência não será tão facilmente extirpável, porque os interesses entrecruzados são tão grandes que se interpenetram e acabam alimentando a fera que, por seu turno, consome os próprios filhos. Ou seja: o torturador e o traficante, o executor e o ladrão, o policial e o bandido, acabam se entredevorando, filhos que são do mesmo monstro.

Para saber se o monstro é indestrutível ou se podemos vencê-lo, só o tempo poderá responder.

Mas, enquanto isso, o filme mais vendido em todos os camelôs do país, ajudou a criar o ambiente que desaguou na ação violenta da própria polícia que resolveu, depois de anos de inação contemplativa, apreender mercadorias, prender camelôs e tentar varrer o centro da capital do estado desta verdadeira praga que é o comércio que não é mais ambulante há muito tempo.

Todos têm razão. Polícia, camelôs e até bandidos e cineastas.

No entanto, o que há para lamentar é que a capital do civilizado estado do Rio Grande do Sul está simplesmente copiando o que há de pior na antiga capital federal e que, justamente quando deixou de sê-lo, passou a inchar e se tornar no lugar da desesperança e da infelicidade.

Ninguém quer condenar o Rio de Janeiro como cidade, aliás, um dos lugares mais lindos do mundo e onde qualquer estrangeiro gostaria de fixar-se.

Mas, porque não se criaram ações (depois de 1961) para transformar a vida no Rio de Janeiro e promover seu saneamento e recuperação, logo que surgiram os primeiros sintomas desta doença terrível que a atingiu?

Pois é, tomem nota, ninguém fará nada por Porto Alegre agora e muito menos pela Região Metropolitana, ou pelo Vale do Rio dos Sinos, ou pela Encosta da Serra, ou por Novo Hamburgo, São Leopoldo, Sapucaia, Esteio, Canoas, etc e tal.

Por favor: já que importamos o pior e a capital já começa a aplicar, não copiem. Sei que, dito assim, não tem nenhum favor. Mas, no instante em que esta atitude de violência no cumprimento do que deveria ser norma (o que quer dizer, normal, habitual), gera a violência da resposta, é preciso muita cabeça fria e intervenção de quem ocupa posições de responsabilidade. Mas, não com ameaças. Sim com ações equilibradas e justas. Não defendo o comércio ilegal, a pirataria. No entanto, a fiscalização, o policiamento, o rigor, devem ser permanentes. E para todos os delitos. Como o fez o prefeito Juliani, de Nova York, que transformou a grande cidade num local seguro em dois anos de atuação.









NO BRASIL, HOJE COMEMORA-SE O DIA DO MÉDICO
Walter Galvani, em 18/10/2007

Mas, em minha opinião,
todo dia deveria ser
"O" Dia do Médico.
Saiba porque:


DIA DO MÉDICO, DIA DO PACIENTE
E DO IMPACIENTE, TAMBÉM

Walter Galvani


Aos poucos, em meio ao intenso e extenso calendário promocional brasileiro, instituído a partir do momento em que alguém se lembrou de fazer um levantamento geral de datas e decretos comemorativos, surgiram algumas celebrações que adotamos por considerá-las justas, adequadas, oportunas. Nesse caso se inclui, por exemplo, o “Dia do Médico”, dia 18 de outubro.
Não interessa investigar as razões, nesse momento, pois quero apenas propor que se festeje o Dia do Médico... todos os dias!
Sou contra estas histórias de “dia disso, dia daquilo”, mas compreendo que, dentro da simbologia que talvez as religiões nos tenham transmitido, tornou-se quase obrigatório manifestar-se a propósito dos contemplados.
Hoje, 18 de outubro, é pois a hora de pegar o telefone ou ao menos o computador e mandar um mail (correio eletrônico, como sabiamente se diz em Portugal, onde se fala a língua portuguesa, ainda...) – e cumprimentar aquele sujeito de espírito cordial e compreensão escuta nossas mazelas e conserta um pé quebrado aqui, um coração partido ali, ouvindo-nos pacientemente.
Já fiz minha ronda de hoje, mas quero deixar registrado aqui, aproveitando esta oportunidade que compreendo e admiro o trabalho do médico e quando digo que o professor deve ser o profissional mais bem remunerado do reino ideal, também classifico o médico, como professor. É que ele nos ensina tudo, desde o be-a-bá higiênico, até os cuidados com o coração, esta bomba aspirante-premente capaz das maiores proezas e também das maiores certezas e incertezas da nossa vida. De tanto ser pressionado, o pobre coração às vezes dá de si e se entrega antes do tempo. Hora, na base de 60 ou 70 batidas por minuto, multipliquem para ver o quando funciona a prodigiosa invenção da natureza (ou do Criador, conforme a ideologia de cada um) durante 50, 60, 70, 80 anos de vida (ou até mais, pois descobriram uma senhora brasileira com 128 anos e pensionista do INSS).
Pois é preciso que um “mestre” de vida e de comportamento cuide desta preciosa “máquina”.
Mas, não esqueça que também é um médico que cuida dos seus “faróis” , dos seus aparelhos de audição, da sua locomoção. Lembre-se deles, todos os dias. E telefone, hoje ao menos.





LEVARAM O LIVRO DO POETA...
Walter Galvani, em 17/10/2007

No recinto sagrado da Feira do Livr
de Porto Alegre,
um furto assombroso...


O ROUBO DA MEMÓRIA

Walter Galvani

Os ladrões perpetraram o maior roubo da história gaúcha. Muito pior do que qualquer assalto a banco, seqüestro ou atentado a caminhão de transporte de valores, eles, atentaram contra a memória do porto-alegrense: levaram o livro que estava nas mãos do poeta Carlos Drummond de Andrade, na estátua que a Câmara Rio-Grandense implantou na Praça da Alfândega, para assinalar o local sagrado da Feira do Livro. Ninguém viu, o que é característico da maioria dos crimes similares, mas o pior é que ninguém notou. Ou seja: deram-se conta ontem, quando chegaram ao local para a montagem das bancas, pois antes ninguém havia percebido o que acontecera. E se sabe que tem “mais de 25 dias” o roubo, porque no dia 25 de setembro, quando Antônio Hohlfeldt foi anunciado como o patrono da nova feira que inaugura no dia 26 de outubro, o livro não estava mais lá. As fotos o documentam.
Mas, só as fotos. Ninguém lembrou naquele momento, ninguém comentou, não houve nenhuma notícia daí resultante, em suma, ninguém sentiu a falta do livro.
E ele lá estava desde 2001, quando foi inaugurada a 47ª. Feira do Livro de Porto Alegre, (hoje chegando à 53ª. Edição), criada por Xico Stockinger e Eloísa Tregnano representando o encontro entre os poetas Mario Quintana e Carlos Drummond de Andrade. Simbolicamente é tudo o que se pode imaginar, inclusive o feliz encontro entre a literatura que se produz no sul e o resto do país, o que é uma ficção na maioria dos escritores gaúchos, pois se acham segregados e também é simbolicamente, o significado maior da feira que leva à praça gente de todos os lados, literatura de todos os gêneros e muita poesia e imaginação. O pior de tudo foi, portanto, o roubo da memória.
Levaram o livro de Drummond e ninguém viu!
Ou melhor: ninguém notou.
Todos nós temos responsabilidade nisso, se é verdade que não temos obrigação de olhar para todos os lados, também é certo que é preciso prestar atenção ao que realmente tem algum significado. Qualquer dia, levam a Fonte da Talavera, o monumento ao Julio de Castilhos ou um pedaço da catedral.
Pichação já é coisa comum e tem até gente que acha que aquilo é manifestação artística. Prefiro considerar sujeira e concitar os juizes (se é possível impressionar algum juiz) a punir os pichadores com balde, vassoura e sabão. Para que limpem o que fizeram e mais uns cem metros ao redor...
O pior é a limpeza da memória, a anulação das lembranças... Como ninguém sabe e ninguém viu e como o livro do Drummond era feito de bronze, resta apenas a esperança de que seus livros de papel tenham mais duração, como se imagina. E que sirva apenas de alerta para a ousadia dos ladrões que não perdoam a Feira do Livro. Aliás, numa súbita valorização da literatura eles estarão em ação durante os dezessete dias da feira. Perguntem aos responsáveis pelas barracas, sobre a atuação dos ladrões. A diferença é que praticam seus atos diante dos olhos de todos, sob as luzes e as bênçãos do maior público que comparece a uma feira ao ar livre na América Latina.




MUITA ÁGUA POR DEBAIXO DA PONTE
Walter Galvani, em 16/10/2007

Muitos mortos ilustres,
muitos acidentes no feriadão,
mas ainda é tempo de registrar
esta crônica publicada
no Diário Popular de Pelotas,
o mais antigo diário
em circulação no
Rio Grande do Sul


O CHARME DA HISTÓRIA

Walter Galvani


O que nos dizem, leitores, de nascer no Irã (antiga Pérsia), crescer na Rodésia (hoje Zimbabue) e viver os últimos 57 anos na Inglaterra? Assistir durante a vida as tensões sociais revolucionárias de países em desenvolvimento, passar para o camarote especial da Grã Bretanha e testemunhar a Segunda Guerra Mundial, o crescimento dos movimentos feministas, sempre com a capacidade de transplantar isso para o papel?

Não é por nada que “The golden notebook”, lançado antes que “notebook” se tornasse sinônimo de computador portátil, (1962), significando então seu “Caderno Dourado” (como foi batizado na edição portuguesa) se tornou uma das suas obras de maior repercussão. Doris Lessing esperou 87 anos, onze meses e 21 dias para ganhar o Prêmio Nobel, mas na certa não foi por falta de reconhecimento anterior. Agora, se já tinha uma velhice confortável com os direitos autorais que arrecadou ao longo da vida, terá de encontrar um lugar em sua estante e em sua conta bancária para acrescentar a estatueta do Nobel e os 10 milhões de coroas suecas, que equivalem a 3 milhões de euros.

Quanto ao reconhecimento pelo Prêmio Nobel, há cinco anos ela perguntou a um jornalista se ele já havia ouvido falar no “Prêmio Astúrias”, que naquele ano recebera na Espanha (igualmente valioso e significativo numa carreira literária), pois o profissional de imprensa a provocara, perguntando se não se achava candidata à distinção sueca que tem 106 anos e uma longa lista que inclui 34 mulheres.

Mas, a autora recebe este prêmio agora por transmitir “a experiência épica feminina” e por descrever “com ceticismo, paixão e força visionária” as divisões da civilização, discutindo tensões inter-raciais, violência contra crianças e movimentos feministas.

“Debaixo da minha pele” e “Andando na sombra” e “O sonho mais doce” todos pela Companhia das Letras, “As experiências de Sírius” pela Nova Fronteira, “O quinto filho” pela Record, são os seus livros editados no Brasil, mas também há disponíveis em língua portuguesa, outros livros seus, lançados por editoras de Portugal, como “O caderno dourado”, “Shikasta” seu primeiro trabalho “A erva cresce” e uma peça teatral “Canopus em Argos”.

Doris Lessing, um nome de grande repercussão internacional, especialmente nos meios dos movimentos feministas, resultado das posições que adotou ao longo de uma vida extensa já, mas ainda produtiva (como o atesta seu novo livro recém lançado na Inglaterra, “The cleft”) nasceu a 22 de outubro de 1919 em Kermanshah, antiga Pérsia, atual Irã, onde viveu por cinco anos, indo para a Rodésia do Sul, atual Zimbabue, (onde morou por vários anos) e vive desde 1949 na Inglaterra.








O PALCO VAZIO Walter Galvani Aos 85 de idade, depois de uma carreira de 58 anos em que se incluíram mais de 90 peças e até um programa de rádio (em São Paulo, na BandFM) em que interpretava textos poéticos em língua portuguesa, enriquecendo-os com a sua magistral compreensão, morreu o ator Paulo Autran. É o único ator moderno que se equivale a João Caetano, hoje nome de teatro no Rio de Janeiro, o que Paulo será muito em breve, pois não faltará quem queira homenageá-lo. Nós, que aprendemos teatro acompanhando suas atuações, perdemos um mestre inigualável. Lembro quando ao início de minha carreira jornalística, me aproximei do setor de Arte e Cultura e fui convidado a escrever sobre teatro, quantas vezes colhi de suas lições fecundas o verdadeiro caminho, o entendimento de uma peça, a correta visão de um texto como “Depois da Queda”, por exemplo, o magnífico trabalho de Arthur Miller, “After the fall” no original, que ele fez ao lado da gaúcha Maria Della Costa, e que o Jofre Miguel trouxe para Porto Alegre, no Teatro Leopoldina (hoje Teatro da OSPA). Estreou como amador universitário (estudou Direito) com a peça “Esquina Perigosa”, mas considerava o seu real primeiro passo, ao lado de Tonia Carreiro em “Um deus dormiu lá em casa”, de Guilherme de Figueiredo. A maior lição que dele poderia receber, que repito toda a vez que se abre uma oportunidade: “Deve-se representar com a mesma flama, para um teatro cheio ou para três pessoas. Os que foram te ver atuar não tem culpa se teu nome não atrai um grande público... Seja digno deles. Entregue-se totalmente ao desempenho!” Isso me disse numa entrevista à “Folha da Tarde”, vespertino de Porto Alegre, que tratava os assuntos culturais com a mesma ênfase dos esportivos. Com 58 anos de carreira, tornou-se o símbolo maior dos palcos brasileiros, um dos melhores intérpretes de todos os tempos. Fez de tudo. Deu cursos, apresentou-se em peças de menor expressão para valorizar o trabalho de grupos, ou fez “Otelo”, fez “Rei Lear”. Seu último espetáculo, “Quadrante”. Nasceu a 7 de setembro de 1922. Dia em que o Brasil completava cem anos de independência. Ele disse no ano passado: “Deveria ter parado de fumar há 61 anos. No dia em que comecei.” Matou-o, sexta-feira, um enfizema e um câncer no pulmão. Na televisão fez o personagem (entre outros) “Baldaracci”, na novela “Pai Herói” de Janete Clair que o tornara conhecido do “povão” até os últimos dias, apesar de que aquela atuação fora em 1979. Aliás sobre televisão, disse: “Meu próximo projeto para televisão é nunca mais fazer televisão. É muito chato...” Quem se atreveria a apontar um sucessor? É pena, mas, pelo menos por enquanto, o palco parece vazio...
Walter Galvani, em 13/10/2007





DORIS LESSING, UMA VITÓRIA DAS MULHERES
Walter Galvani, em 12/10/2007

Prêmio Nobel para uma
mulher de combate.
Crônica para o jornal
"A Razão" de Santa Marua


UMA MULHER DE COMBATE



Walter Galvani





Não se iludam: a força combativa de Doris Lessing, que completará 88 anos no próximo dia 22, não esmoreceu e só crescerá com a medalha de ouro, o diploma e o anúncio através do rei da Suécia, de que é a escolhida do ano com o Prêmio Nobel de Literatura. Prêmios aliás, não lhe faltam, ao longo de uma carreira iniciada em 1949, quando foi morar na Inglaterra, depois de haver atravessado experiências incríveis, como nascer em Kermanshah, no Irã (antiga Pérsia) e viver alguns anos na Rodésia do Sul, (hoje Zimbábue), na África. Juntou-se aos movimentos feministas e deles nunca se afastou enquanto ia publicando sua vasta obra que ultrapassa as duas dezenas de publicações, desde o primeiro livro, de 1949, “A grama cresce”.

No Brasil tem sido editada pela Nova Fronteira, pela Cia. Das Letras e pela Record. Seu livro de maior repercussão, lançado em 1962, “The golden notebook” (em língua portuguesa tomou o título de “Caderno Dourado”, é uma espécie de acompanhamento de sua atividade diária, onde despontam as atitudes a favor das mulheres que continuam a sofrer discriminações, em especial no país onde nasceu e no país em que viveu. A situação é mais tranqüila na Grã Bretanha, mas isso lhe propicia um camarote especial para ver a vida, mas não sem a experiência anterior dos seus primeiros e difíceis trinta anos.

Na certa o cheque que acompanha a estatueta do Nobel, mais de um milhão de euros, portanto mais de 3 milhões de reais (para entender-se o valor financeiro), ajudará Doris a enfrentar com mais tranqüilidade os desafios da idade, mas não para acomodá-la, coisa que nem os prêmios anteriores (como o “Astúrias” da Espanha) ou os rendimentos dos direitos autorais, enormes ao longo de uma vida de sucesso e muitos livros editados, conseguiram. É uma lutadora e como tal foi definida pelo Comitê do Nobel que ao fazer o anúncio da escolha disse que ela é “uma autora de contos épicos sobre a experiência feminina “que defende com fervor e uma força visionária que escrutina a sociedade” mas também com o “realismo do seu ceticismo”.

Seus títulos como “A boa terrorista”, “O quinto filho”, “O verão antes das trevas”, “Gatos e gatas” estarão sendo procurados nas feiras do livro em andamento por todo o estado neste momento e logicamente na 53ª. Feira do Livro de Porto Alegre que inaugura no dia 26 de outubro.

Doris Lessing nasceu Doris May Tayler, em 1919, na Pérsia, filha de pais ingleses.







12 DE OUTUBRO, DESCOBERTA DA AMÉRICA Houve uma época em que se comemorava a Descoberta da América. Aliás, hoje, "Dia de la Hispanidad"...
Walter Galvani, em 12/10/2007

E também é o
"Dia da Criança" no Brasil.
Esta crônica foi publicada hoje
no Diário de Canoas.
Depois dela, leiam aqui no meu sítio,
minha opinião sobre
a escolha de Doris ing para o
Prêmio Nobel de Literatura 2007


TODO DIA É DA CRIANÇA
Walter Galvani


Estabeleceu-se no Brasil que o dia 12 de outubro será o “Dia da Criança”. Sou contra. Não sou contra para “fazer gênero” ou porque imagine que me manifestando contrário, vá acontecer alguma coisa. Não sucederá nada. Mas, acho que todo dia é dia da criança e não apenas um miserável diazinho. Nem como símbolo, me serve a escolha.

Acho que as crianças merecem toda a nossa atenção, completa e indivisível. Sobre elas é que se constrói o futuro do país, das famílias, das comunidades. E dos pais, naturalmente. O Brasil será aquilo que forem nossas crianças.

O que é preciso é que os adultos aprendam a se comportar.

É preciso, de saída, anular a “babá eletrônica”. Com as monstruosidades que aparecem na telinha, não se construirá nada digno. Colocar as crianças diante de um aparelho barulhento (já experimentaram desligar a televisão e saborear o “silêncio”?) – não, não sou contra a instituição tevê, só acho que é preciso aprender a utilizar-se dela. Não cabe expor uma criança aos absurdos que se montam nos cérebros adultos, com o objetivo primeiro de obter lucro, para que “fique quieta”. É melhor pagar uma babá humana ou, ao menos, dividir o tempo livre entre os adultos da casa para que “tomem conta” das crianças. Vejam, crescemos com brinquedos simples, com cabra-cega, pião, bolinhas de gude, pega-pega e estamos aqui.

Então, ao invés de presentear as crianças amanhã com mais jogos eletrônicos e sementes de violência, experimentem, senhores pais e mães, a doarem-se integralmente, passar ao menos este dia inteiro com elas. Sim, já sei, há os compromissos de trabalho. Pois, dividam-se, façam como quiserem, mas pensem nos demais dias, quando as crianças ficam jogadas a um canto, abandonadas, tendo que encontrar o próprio entretenimento.

Não sou contra o progresso, não sou contra o uso do computador, tanto que estou aqui agora batucando nestas teclas, mas também não acho que isso seja a salvação da humanidade. Aliás não é, nem nunca será. O computador é apenas uma ferramenta, um instrumento eletrônico para produzir mais e melhor. Nem sequer significa que o seu trabalho vá ficar melhor. Dentro da cabeça é que está o segredo e é isso que é preciso passar para estas crianças que amanhã terão o seu dia. É preciso que elas aprendam a lidar com o tempo livre, a usar o feriado, o dia sem aula para uma atividade construtiva.

E comece hoje. Faça de conta que hoje também é o Dia da Criança. Dê atenção aos seus filhos, aos conhecidos, aos parentes, aos meninos de rua, caso contrário estaremos construindo a elite da tropa e a tropa da elite, aumentando o mercado das drogas e ajudando a torturar, segregar, matar.







A VEZ DO LUPI
Walter Galvani, em 10/10/2007

Falei ontem sobre um grande jornalista que faleceu: Amir Domingues
Agora foi a vez do
Lupi Martins


Nem me senti habilitado
a escrever sobre o passamento
de outro grande nome
do jornalismo gaúcho.
Modesto, eficiente,
honrado e capaz,
Lupi Martins partiu no dia seguinte ao Amir.
Curiosamente, embora
atingido por mal terrível
há quatorze anos,
não emitia uma só queixa.
Agora, Lupi partiu.
Fico pensando porque
se fazem estas
escolhas e que nos deixa
sempre na situação de
dizer:
Fulano? Porque ele?
Por que era a hora?
Onde está escrito isso?
Lupi Martins, um homem
cheio de grandes amigos
uma dedicação familiar
inigualável, tinha
de sair de cena
como entrou.
Modestamente, mas
com muita honra.
Adeus Lupi, aliás,
para mim outra grande
perda por si e por
ser irmão de Lasier Martins,
outro grande amigo.
Sem revolta, adeus Lupi!
O jornalismo gaúcho
perdeu, em dois dias,
dois grandes exemplos.



A MORTE DE UM GRANDE JORNALISTA GAÚCHO
Walter Galvani, em 08/10/2007

Aos 79 anos, faleceu na manhã deste dia 8 de outubro, um
dos mais estimados
homens de imprensa do
sul do país


AMIR DOMINGUES
DEIXOU ESTE
ESTÁGIO FÍSICO

Walter Galvani

Trabalho há 52 anos e meio na imprensa da capital do Rio Grande do Sul, tendo começado apenas alguns meses antes em Canoas, num jornal que ajudei a fundar, o “Expressão”, que pouco durou. Neste meio século de atuação, sempre contei com a presença do Amir Domingues perto de mim.
Hoje ele nos deixou. Escolheu uma data relevante, 8 de outubro, que assinala a morte de Che Guevara, um dos ícones do século XX, há quarenta anos atrás.
Amir tem estado comigo – e acredito que continuará – todo este tempo. Quando cheguei ao esporte do “Correio do Povo”, em 1955, ele já estava na capital (à época na Rádio Gaúcha) e pouco tempo depois, em 1956, veio somar-se à equipe que se juntava na “Folha da Tarde” – outro órgão da Cia. Caldas Jr., para preparar o lançamento da Rádio Guaíba, o que aconteceu em 57. Mesmo antes da data de estréia da rádio (30 de abril de 1957) já estávamos juntos, pois ele atuava no mesmo prédio que eu, do outro lado de um imenso corredor.
E foi assim que comecei na prática minha carreira na capital. Aos poucos fui me aproximando do Amir e com ele tive uma longa amizade que só foi interrompida nesta manhã de segunda-feira, quando ele deixou o estágio físico atual. (Era nisso que ele acreditava e é preciso fazer-lhe justiça.)
Aos poucos fui engatinhando na nova profissão e o Amir sempre estava por perto. Foi assim que, ao iniciar meus comentários culturais e sociais na rádio Guaíba no início de 1958, lá estava ele. Também lá estava o grande amigo quando fiz minha primeira incursão internacional, em março e abril de 1959, pois o Amir Domingues também fora para Buenos Aires, onde fui passar quase quarenta dias para a cobertura do Sul-Americano de Futebol.
Grandes trabalhos, muita cerveja com “bife de lomo e papas fritas” nos Palácios de Las Papas Fritas na Calle Maipú, muito acompanhamento com o Mendes Ribeiro, o Celso Costa, o Alcides Krebs, o Edison Pires, o Pedrinho Pereira (que também já foi) em Buenos Aires e outros tantos na retaguarda em Porto Alegre.
Na volta, o destino nos juntou na mesma redação. Mesmíssima redação onde ocupei o primeiro posto de chefia em outubro de 1967, quando transformei o Amir Domingues em nosso primeiro grande repórter investigativo, com vários dias para trabalhar (bem) profundas e extensas matérias, como o levantamento completo que ele fez da Região Metropolitana.
E assim fomos caminhando juntos.
Juntos uma vez mais estivemos em 1975, quando o governador Guazelli e o chefe da Casa Civil, Carlos Alberto Allgayer, foram nos recrutar, a mim e ao Amir, para sermos chefe e subchefe da Comunicação Social do Palácio Piratini. Deixei-o sozinho no posto para voltar para a Caldas Jr. e assumir a chefia de redação da “Folha da Manhã”, mas daqui a pouco eu estava outra vez ao lado do Amir, na velha “Folha da Tarde”. Já em 67, havíamos construído juntos uma grande redação na “Folha”, mas o melhor ainda estava por vir.
Amir “arrebentou” com as suas grandes matérias na área policial, quando revelou os segredos que haviam levado aos grandes crimes, tipo Margit Kliemann e o “Mãos amarradas”.
Mas, ainda nos reuniríamos outra vez, agora na nova arrancada da “Folha da Tarde” em 1983 e mais adiante na Rádio Guaíba, onde comecei a apresentar programas e onde fiquei até 2002. Agora, em 2007, mais uma vez retornei à “Guaíba” e lá estava o Amir, firme, paciente e mesmo quando contrariado, com um sorriso nos lábios e muita paciência.
Durante muito tempo privei da sua companhia para um cafezinho no final da manhã, quando se dedicava à redação dos editoriais do “Correio do Povo”.
Juntos vivemos, profissionalmente próximos, deglutimos as maldades alheias, digerimos as grandes mentiras e a hipocrisia de tanta gente e freqüentamos, quando podíamos, os bons lugares da cidade.
Juntos também recebemos eu e ele as homenagens da Maçonaria e da Câmara Municipal, de onde saímos, jornalistas do ano e cidadãos honorários de Porto Alegre.
O que estaria faltando?
Amir – que nunca escreveu livros porque não quis – esteve em todos os meus lançamentos de livros, que até aqui já foram dez.
E quando não saía mais à noite, porque se recolhia às seis da tarde, apoiava de longe com um telefonema amigo e com um sorriso simpático no dia seguinte.
Como vai ser, para mim, freqüentar a Caldas Júnior, e não o encontrar nos corredores, no estúdio ou no segundo andar, onde já utilizava o computador, mas se reservava o direito de bater na velha máquina de escrever o editorial do “Correio”?
Onde Amir, aonde irás a partir de hoje?
Onde repousará tua palavra sábia, teu espírito crítico e tua atitude de conciliação?
Vamos procurar, enquanto nos restar uma caminhada sobre a Terra, representar com humildade tua atenção para com o próximo e tua imensa capacidade de enfrentar os poderosos. Estaremos mais sozinhos, mas procuraremos honrar o teu legado.




PRODUTORES CULTURAIS, UNAM-SE...
Walter Galvani, em 07/10/2007

LIC ameaçada.
Crônica publicada
no ABC DOMINGO, órgão
de circulação dominical
do Grupo Editorial Sinos:


PACOTE ATIRA NA CULTURA
Walter Galvani

Entendo: quem deve, não faz festa. Quem está em déficit, não pode se pavonear promovendo exposições, concertos, teatro, cinema, edição de livros ou feiras. Tampouco pode realizar duvidosos desfiles para projetar identidades construídas ao longo do tempo e que precisam de uma injeção financeira para sua manutenção. Patriotismo tem que ser manifestação espontânea e não marchas subsidiadas pelo estado.

O pacote de Yeda, aparentemente irretocável sob o ponto de vista administrativo, embora se possa duvidar da sua eficácia (o “cigarro” que o diga...) disparou um tiro de canhão na linha de flutuação da atividade cultural no estado do Rio Grande do Sul.

E tem mais: haverá novos disparos.

Pode parecer uma medida saneadora, a longo prazo, mas, no primeiro momento, soará como uma bomba demolidora. Não sem razão, já ocorrem manifestações de desagrado e expectativa.

Já se sabe que serão excluídos da lista dos projetos a serem beneficiados pela LIC (Lei de Incentivo à Cultura), aqueles que se beneficiarem da lei federal (Lei Rouanet ou outros dispositivos que venham a existir). Ou seja: Feira do Livro de Porto Alegre, Jornada de Literatura de Passo Fundo, Concertos e apresentações de orquestras, enfim, será fácil identificar quem pode ou não, basta examinar quem são os promotores ou patrocinadores.

Em segundo lugar, o que sobrar da atividade cultural terá que se movimentar através das OSCIPS (organizações da sociedade civil de interesse público), ou seja sociedades civis, sem fins lucrativos, de direito privado e de interesse público.

Aí estarão, simplificando, os órgãos que atuam na promoção da cultura, defesa e conservação do patrimônio histórico e artístico. Consta que já foram listados 33 órgãos que poderão surgir do repasse de atividades para as tais sociedades civis.

Até pode ser uma saída para um estado falido, como é o caso, mas a pergunta é: terá a sociedade condições de arcar, sem subsídios ou renúncia fiscal, com entidades do porte do Museu de Arte do RGS, Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, Casa de Cultura Mario Quintana, e outras constantes da listinha de 33 ?

O setor das Oscips é organizado através da lei 9790/99. Há toda uma legislação já codificada, onde se identifica como ponto frágil a quantidade e diversidade de dispositivos federais, estaduais e municipais que por vezes colidem ou se superpõem. Nada que não se possa organizar. O problema maior talvez seja convencer a sociedade de que a atividade cultural agora passa para sua exclusiva responsabilidade, eximindo-se o estado de conceder isenções.






ALERTA À AREA CULTUIRAL
Walter Galvani, em 06/10/2007

Crônica publicada hoje
no jornal "A Razão"
de Santa Maria:


PACOTES E PACOTÕES

Walter Galvani

O nome do novo jogo é Oscips. Você decifra o que é isto? Organizações da Sociedade Civil de Interesse Público. Transforme-se você museu, você orquestra, você feira do livro, você teatro, enquanto é tempo. Há uma lei federal (5.790) que disciplina o chamado “terceiro setor” e se não escolher este caminho, você acabará condenado ao ostracismo, ao impaludismo, e à morte por inanição.

É isso mesmo, é o que se planeja, certo ou errado, nos subterrâneos do governo e, hoje em dia qualquer medida de saneamento será bem-vinda, tal a rejeição que se criou pelo apadrinhamento estatal. Uma certa demonização se espalhou pela sociedade que passou a considerar toda e qualquer aplicação de recursos sem retorno aparente imediato, como uma ação condenável. Não se mede se determinada atitude significará o atendimento de necessidades, cujo suprimento cabe ao estado. É deficitário? Corte.

Este “super-realismo” administrativo pode levar a cultura a viver a tranqüila “paz dos cemitérios”...

Quando não houver mais nada a fazer, quando a atividade cultural que hoje distingue o Rio Grande do Sul houver esmaecido ou for definitivamente riscada do primeiro plano das preocupações da sociedade, então estarão os “economicistas” satisfeitos. Morreu e pronto. Sustentar-se-ão exclusivamente aquelas produções eventualmente apoiadas por grandes interesses comerciais.

Pode ser que a saída de transformar uma associação de amigos em Oscip venha a ter algum êxito. Mas, isso valerá para tudo e todos?

Lembro-me bem que, durante a II Guerra Mundial, um figurão do regime nazista costumava dizer: “Quando ouço falar em cultura me dá vontade de sacar o revólver!” Não foi preciso tanto e o regime em que ele se incorporava ajudou a humilhar a Alemanha e submetê-la ao vexame da derrota mundial. Talvez por isso, fico eu preocupado, pois já tivemos tentativas de redução da atividade cultural e já vimos o setor de joelhos, mendigando. Finalmente, com as chamadas leis de incentivo que implicam em alguma renúncia fiscal, reestruturou-se a atividade e temos aí o Projeto Monumenta, a Lei Rouanet e a LIC para semear alguma reação organizada da sociedade com inegáveis resultados positivos.

Mas, e agora, diante da penúria da máquina estatal rio-grandense, não estaremos uma vez mais ameaçados de retrocesso? A ameaça está no ar. Transforme-se em Oscip ou saia do caminho. Parem a música, suspendam-se os acordes, calem-se os violinos! Risquem-se as peças teatrais, a conservação e recuperação do patrimônio, o estado tem outras coisas a fazer.




CONSULTE-SE O "MANUAL DO PERFEITO IDIOTA LATINO-AMERICANO" do Llosa Filho e do Carlos Alberto Montaner (que,aliás, participará da série "Fronteiras do Pensamento" em Porto Alegre, ainda este mês.
Walter Galvani, em 04/10/2007

A DEMISSÃO DO
GERÚNDIO

No Brasil,

tudo é possível...



A demagogia não tem limites e por isso, o governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, acaba de invadir o domínio da lingüística, com o objetivo de impressionar o povo, emitindo um decreto que estabelece que “fica demitido o gerúndio de todos os órgãos do Distrito Federal”. Em tempos de renovação de linguagem e acordo ortográfico, aliás aguardando assinatura de mais algum dos integrantes da entidade que reúne os “países de língua oficial portuguesa” para que se torne uma norma oficial, chama a atenção esta condenação pública do uso do gerúndio.
Ora, a língua não reflete apenas as questões formais de comunicação, mas o próprio espírito de quem a pratica. Usos, costumes, tradição, enfim, aquilo que se chama a “cultura” de um povo, estão embutidos no seio das orações, de suas composições e das palavras escolhidas. O uso do gerúndio é tipicamente brasileiro. Aqui se diz: estou TRABALHANDO. Ou estou CONCLUINDO esta crônica para ser publicada. Já em Portugal se usa, estou “a trabalhar” ou “estou a concluir”. Ora, se “a trabalhar” quer dizer mais ou menos o mesmo que “trabalhando”, pois estabelece que se está em plena operação, já o “estou a concluir” é mais promissor do que “concluindo”, pois deixa ao interlocutor a esperança de que logo logo o trabalho estará terminado. Se é verdade ou não, só os fatos posteriores o dirão.
Transformar esta questão semântica em ordenação jurídica é apenas uma boa demagogia, ou seja o “ato de um lider político ou administrador”, segundo o dicionário Caldas Aulete, “que procura obter apoio manipulando sentimentos e paixões populares.” José Roberto Arruda conseguiu alguns dos seus objetivos. Por exemplo, passou a ser citado em outros círculos que não os especificamente políticos onde era conhecido. Seu ato, transformado em decreto, está sendo discutido em todo o país e até mesmo nos demais integrantes da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), além do Brasil, naturalmente, Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste.
Temos muitas diferenças, inclusive de comportamento, que resultam até no uso ou não do gerúndio, mas muitas semelhanças, inclusive pela língua comum que é perfeitamente compreensível pelo menos na norma culta, apesar das variações locais e que busca agora um acordo ortográfico. Aliás é bom que se lembre o que é o gerúndio, que reflete um estado de espírito e não apenas “uma forma nominal do verbo”.
Quanto ao demagogo em questão, acho que ele pode IR PREPARANDO (forma bem rio-grandense de expressão, juntando o infinitivo e o gerúndio) suas justificativas.





'HOW GREEN WAS MY VALLEY"
Walter Galvani, em 30/09/2007

Crônica publicada hoje no jornalABC DOMINGO, do Grupo
Editorial Sinos


COMO ERA VERDE O MEU VALE


Walter Galvani

Livro e filme dele extraído, famosos nos anos quarenta e cinqüenta, celebravam a doce vida da campanha no País de Gales. Escrito por Richard Llewellyn, (que, aliás, ficou por aí...) continham o chamamento à vida romântica que a idílica convivência com a terra podia propiciar. Era a narrativa da vida num vale onde viviam mineiros, feita sessenta anos depois dos fatos por um personagem central que concluía sua narrativa, exatamente com a frase que deu título ao livro, mais tarde transformada em filme por John Ford, grande diretor americano.

Tudo bem que o livro tenha originado um grande filme, o que é muito comum, mais significativo ainda pelo fato da vida vista assim, do ângulo romântico que o passado propicia pareça melhor do que era, mas vamos falar de fatos atuais e notórios.

Continuam aprovando a utilização do pampa gaúcho para o plantio de imensidões de árvores cujo único fruto é, através da sua própria morte, o papel. Ou melhor: a celulose que produzirá, no futuro o papel.

Isso me faz lembrar que foi nesta semana que passou que a Organização Mundial da Saúde divulgou os números que aclamam os países escandinavos como os que melhor cuidam do meio ambiente. A classificação coloca em primeiro lugar a Finlândia e seguem-se Noruega e Suécia. As capitais destes últimos, Oslo e Estocolomo, por seu turno se qualificam nos dois primeiros lugares do mundo.

É claro que nesta classificação o Brasil vai da metade para a rabeira, assim como muitos outros subdesenvolvidos por lá se colocam. E, num primeiro momento, vê-se muita gente medianamente informada, aclamando aquela preocupação com o verde, enquanto nosso país nem se liga nisto aí.

Pois é, que bonito! Como “era verde o meu vale!” Ou, como diria Justino Martins, “quanta paz naqueles campos”... Árvores alienígenas, exóticas, onde “nem passarinho pousa”, espalham-se agora, multiplicadas pela ambição e pela... digamos, conveniência. Mais vale cultivar um bosque de eucaliptos do que criar uma ponta de gado. E, aos poucos, vamos dizendo adeus ao velho pampa. “Adiós, pampa mia!”

Como fica fácil viver na Finlândia ou morar nas sadias e civilizadas capitais escandinavas, se o papel sujo é exportado para os subdesenvolvidos da América do Sul. Para que o Brasil, o Uruguai e a Argentina briguem pelos seus investimentos, mandam-nos máquinas, dólares e interesses. Em troca, entregamos a alma dos nossos campos. Como fica fácil ser um campeão do verde, recebendo só o filé mignon e poluindo com a sua sujeira toda a Metade Sul.









QUANDO IREMOS RESPIRAR COM ALÍVIO?
Walter Galvani, em 29/09/2007

Crônica publicada hoje
no jornal "A Razão"
de Santa Maria


QUANTO HORROR PERANTE OS CÉUS

Walter Galvani


Tivemos mais uma semana terrível, dessas que a gente imagina que nunca mais se poderá viver, afinal de contas, já se viu de tudo! Mas, assim é. No Supremo temos agora dias de Senado, no Senado temos dias de vila e nas vilas temos dias e noites de horrores, com execuções, roubos, assaltos, igualzinho como nas ruas centrais das grandes cidades, onde também se vive este clima.

Como diria Castro Alves, “quanto horror perante os céus”. Mas, se não fosse o poeta nos socorrer, como iríamos escapar desta miséria em que se transformou a vida diária! As pessoas ficam a se perguntar quem matou um personagem de telenovela ao invés de ler, estudar, preparar-se com afinco, mas afinal isso é perdoável. Imaginem se não tivéssemos a saída pelo imaginário!

Dia desses me dei ao trabalho de ouvir, anotar e gravar depoimentos pessoais e por telefone, de pessoas que compõem o tecido social da comunidade, sem dar-me conta de que a miséria em que se chafurda foi semeada pelos erros absurdos cometidos e esquecidos, nunca revisados e amontoados pela pá do desprezo e do desencanto.

Li atentamente o que nos veio da Europa e descobri que, descaradamente, os países escandinavos são apresentados como os campeões da limpeza e da preservação do meio ambiente. Claro: eles nos exportam a parte suja da sua atividade. Assim fica fácil para que Noruega e Finlândia, Suécia e Dinamarca ocupem as primeiras posições, para que Oslo e Estocolmo se situem nos primeiros lugares na luta pelo “verde”.

Para sujar, para plantar espécies exóticas que produzirão o mau cheiro e a lixívia dos seus empreendimentos, existe o sul do Brasil. O sul do mundo. É isso mesmo, é lá, no sul do mundo que eles enfiam a sua sujeira. Levam embora o filé mignon e deixam em mãos dos nossos ricos estancieiros, os dólares (ou euros, conforme o caso), o ouro da maldição pelo uso dos campos outrora povoados de gado.

Onde hoje estão aquelas árvores, nem passarinho pousa!

Em compensação, o lucro do empreendimento é certo. Para quem vende, para quem aluga, para quem se livra da ocupação e do cuidado, em troca do ouro.

Até quando? Até quando as terras estiverem exauridas, as pessoas haverem emigrado porque aqui não há nem emprego, nem comida.

O que fazem os políticos? Discutem, batem boca no Congresso. Pois agora se bate boca até no Supremo... Pena, mas dizem que “Deus não joga, mas fiscaliza”. Vamos tentar sobreviver para assistir à retaliação divina...







ESCRITOR E PROFESSOR ANTÔNIO HOHLFELDT É O NOVO PATRONO DA FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE
Walter Galvani, em 27/09/2007

A mais importante e
maior feira de livros
a céu aberto da
América Latina, que
inaugura a 26 de outubro
já tem seu Patrono.
Uma figura tutelar que
reina sobre a feira na
Praça da Alfândega,
centro de Porto Alegre
até o dia 11 de novembro.
Crônica publicada
hoje no jornal
"Diário de Canoas"
do Grupo Editorial Sinos


HOHLFELDT, PATRONO

Walter Galvani


Anualmente a expectativa de todo o estado gira em torno da escolha do patrono da Feira do Livro de Porto Alegre, chegando agora à sua 53ª. Edição, sem desconsiderar as feiras que cada município (Canoas inclusive) realiza todos os anos. A da capital foi a pioneira em nosso estado, tendo iniciado em 1955, e com o seu sucesso, aos poucos foram se incorporando diversas cidades do interior. Daí que a figura do patrono da feira porto-alegrense ganha uma característica especial e o seu carisma se projeta muito além fronteiras. Este ano é a vez do jornalista, escritor e professor Antonio Hohlfeldt.

Um grande padrinho, um patrono excepcional que abarca diversas linhas de atividade, inclusive pensando em termos de política, carreira em que resolveu investir a partir de 1983, quando a empresa Caldas Júnior, onde atuava como jornalista desde 1967, entrou em grave crise econômica. Antonio continuou, pelos caminhos do jornalismo (atua presentemente no Jornal do Comércio da capital), mas é como professor e atual vice-coordenador do programa de Pós Graduação da Famecos/PUC que alcançou destaque nos meios acadêmicos.

Ele se elegeu entre os patronáveis que se alinharam na lista dos “dez mais lembrados”. Logicamente esta primeira lembrança trouxe o seu nome para o proscênio, aliás, lembrando sua atuação como crítico teatral, o único permanente em nosso meio e que assiste rigorosamente todos os espetáculos estreados na capital.

Hohlfeldt seguiu sua carreira política também, tendo sido eleito vice-governador na chapa com Germano Rigotto e exercendo o cargo com brilho, e eficiência e imparcialidade consagradoras.

De volta aos livros, onde já passou das trinta publicações, estará lançando novas edições e reedições na 53ª. Feira do Livro de Porto Alegre, elegendo-se como um digno sucessor do patronato que será exercido até o dia 26 de outubro por Alcy Cheuiche, a quem sucederá até à feira do ano que vem.

Trata-se da consolidação de uma autoridade literária inconteste e a reafirmação de uma carreira que seguirá muito além da trajetória política.

Todos estamos de parabéns com a justa escolha que distingue o escolhido, a PUCRS, a feira porto-alegrense e a cultura do estado. Ah, no dia 22 de dezembro ele completará 57 anos. Muito campo pela frente e conhecendo a capacidade de produção do Antonio como eu conheço, como ex-colega de redação e agora companheiro na universidade, mais uns tantos títulos que chegarão ao devido tempo.




RIO GRANDE DO SUL PERDEU O IRMÃO ELVO CLEMENTE
Walter Galvani, em 23/09/2007

Mestre da PUCRS, presidente
da Academia Rio-Grandense
de Letras, abre um
vácuo de bondade e
inteligência.
Irmão Elvo faleceu
quarta-feira, dia 19
de setembro de 2007.
Crônica publicada
hoje nos meios de
comunicação impressos


UMA ENORME PERDA

Walter Galvani


Quando falece alguém, habitualmente desaparecem os defeitos e exaltam-se suas virtudes. Assim tem sido. Mas, no caso do Irmão Elvo Clemente, o grande professor da PUCRS, assessor especial do reitor Joaquim Clotet, presidente da Academia Riograndense de Letras, autor de trinta livros, cronista, ensaísta, e o indiscutível amigo dos seus amigos, não há defeitos para esconder, mas somente muita capacidade, dedicação e amor pelo que fazia, para recordar.

O Irmão Elvo Clemente, da ordem marista, há mais de cinqüenta anos ajudando a formar gerações e gerações de profissionais, tendo conduzido jovens desde os verdes anos no Colégio Rosário, até o patamar mais alto nos cursos universitários, atuando em várias unidades acadêmicas, deixando sua contribuição sobretudo na Faculdade de Letras e nos cursos de jornalismo da Famecos. Ou na Academia Riograndense de Letras onde teve destacada atuação com seu espírito de conciliação e mediação, ajudou a manter o alto nível de suas sessões. E produzindo sempre, ora escrevendo crônicas, ora se aprofundando em ensaios, intervindo no andamento da sociedade e na compreensão dos fenômenos culturais e em sua difusão. Na Academia, não por acaso ocupava a cadeira nº 6, cujo patrono era Apolinário Porto Alegre, antigo e conceituado mestre porto-alegrense do século XIX.

Nascido em Maróstica, região do Vêneto, Itália, a poucos quilômetros de Veneza, terra conhecida pela sua criatividade em espetáculos populares, sendo a sede mundial e pioneira do Xadrez com figuras humanas, terra de onde a espada foi banida do uso desde 1454, Antonio João Silvestre Mottin, viria a tornar-se o “Irmão Elvo Clemente”, amado pelos seus alunos aqui no Brasil, com mais de meio século de carreira no magistério.

Aos poucos a sociedade foi lhe reconhecendo os méritos e prestando o tributo à sua inteligência e à sua bondade. Virtudes que muito bem se refletem, por exemplo, no discurso que preparou para a comemoração do centenário de Erico Veríssimo, que concluía assim: “Percorrer uma vida é ver a mão misteriosa da Providência conduzindo os dias e os anos das pessoas para levá-las ao momento sublime de sua perfeição. Ponto final de uma aventura terrena e começo da nova caminhada para a outra vida, onde a bondade e a misericórdia infinitas de Deusa se aproximam para o amplexo de amor e eternidade”. Pois, é à “aventura terrena” de Elvo Clemente que aplicamos neste momento em que ela se encerra e em que começa “uma nova caminhada”, seu próprio pensamento e assinalamos que tudo o que pregou, defendeu e fez, sirva de ponto de reflexão e exemplo para os que o irão suceder.






COMO PILATOS (Terá sido mesmo assim?)
Walter Galvani, em 17/09/2007

No grande Diário Popular
de Pelotas, o mais
antigo diário em circulação
no Rio Grande do Sul,
apareceu na edição
de domingo, esta minha crônica:


LAVANDO AS MÃOS

Walter Galvani

Ocupado em cumprir bibliografia para um curso de formação literária que abriga uma disciplina chamada “Biografia e autobiografia” acabei mergulhando na leitura de um “Pôncio Pilatos”, cuja figura histórica se confunde com a lenda, a verdade com a idealização, a falta de documentação com a inundação de textos históricos, a criatividade com a razão. É uma biografia de Ann Wroe, premiada nos Estados Unidos, e considerada pelo “Washington Post” como “definitiva”.

Leio e não estranho a coincidência – porque nada é inventado e o destino não se cria, se cumpre – com este momento em que o Senado mergulha na densa escuridão de mentir publicamente, por conveniência de seus membros e do governo, dos partidos da situação e dos partidos da oposição.

Recapitulando apenas para nos situar: 41 votos serviriam para cassar o mandato de Renan Calheiros, mas ele “venceu” por 40 a 35 e mais seis abstenções. Justamente estes, que lavaram suas mãos, cumpriram o édito histórico de não tomar posição pública, aliás, o que mais esteve em discussão, pois a sessão deveria ter sido secreta, foi aberta a força pela chave da Justiça e contra essa decisão se rebelaram até “seguranças”, esta abstrusa criação das nações modernas, que desejam que se cumpra pela força o que decidem no conchavo e no segredo.

Um “segurança” chegou ao ponto de exibir uma pistola que “dispara” 50 mil volts, com a intenção de impor sua posição e impedir a entrada de deputados que pretendiam presenciar, ouvir e talvez tornar pública a ruinosa discussão no seio do senado. Ora, sabemos, desde alguns anos antes da chamada Era Cristã, que teve justamente Pôncio Pilatos como testemunha, que este supremo recinto da democracia, sofre em nossos países de uma síndrome histórica que o transforma em palco e picadeiro.

Todo mundo sabe, não é preciso apregoar à porta do senado como fazia a Roma antiga, que o preço pago foi a liderança da própria casa, que logo estará em mãos de um governista e nos cofres do “viajante” Lula, que foi à terra do Papai Noel encomendar a manutenção da CPMF, supremo presente de Natal. Assim, quando ele voltar, debaixo do seu presépio estará a manutenção do mecanismo criado para proteger a saúde pública e jamais usado em sua proposição original, junto com a bicicleta e o computador. Feliz Natal, Lula. Volto à leitura do meu “Pôncio Pilatos”, onde aprendo tudo sobre Brasília e arredores, século XXI. Como dizem os portugueses, continua “tudo como dantes no quartel de Abrantes”.




AOS POUCOS, ESTAMOS FICANDO "CHEIOS"...
Walter Galvani, em 16/09/2007

Crônica publicada
hoje no jornal
ABC DOMINGO
do Grupo Editorial
Sinos, com
circulação em toda a
região metropolitana
de Porto Alegre,
Encosta da Serra e
Vale do Rio dos Sinos


A SAGA DOS MENTIROSOS



Walter Galvani



Durante largo tempo ainda repercutirá sobre o Senado Populusque Brasiliensis o anátema de refúgio dos mentirosos, uma vez que, ouvidos pela imprensa, onze mentiram dizendo que não votariam pela absolvição de Renan Calheiros e, no entanto, votaram. O placar eletrônico registrou, implacavelmente, 35 votos apenas pela cassação. Até que ponto isso será verdade, não saberemos nunca, talvez, pois se mentiram agora, mentirão sempre. O perigoso nisso é que foi acrescentada assim mais uma pedra ao desprestígio parlamentar. Pena que, cada vez mais, ao invés de se trabalhar na construção de uma imagem que estimule o voto, tenhamos que manter nossos índices de abstenção, variáveis entre 10 e 20 por cento dependendo apenas da chuva, baseados na obrigatoriedade do comparecimento às urnas, ou justificativa da ausência, uma vez que os atos civis estão condicionados à apresentação do título eleitoral com o protocolo do comparecimento às eleições. Se não fora por este pequeno estratagema para manter a votação dos próprios políticos e teríamos o dia das eleições transformado em grande feriado e uma ausência maciça, invertendo os valores: 80 por cento de abstenção, andaria perto do que pensam os brasileiros dos políticos. Não sou político, mas poderia sê-lo.É atraente sim, poder prestar serviços à comunidade comparecer aos atos importantes da vida política. Mas, de vez em quando soa a campainha do ridículo e você se distancía e mergulha nos compromissos particulares.

Mas, bem que eu gostaria de acompanhando o orçamento da Yeda Crusius para 2008, por exemplo. Tomem nota: 1.278.000.000,00 de déficit previsto. Como zerar esta conta em 12 meses?

Melhor situação seria a do “serial killer” russo, cujo nome nos remete aos grandes romances do século XIX e conseqüentemente à imaginação de Dostoiewski ou Puskin. Pois o senhor Alexander Pichushkin, simplesmente pensava em preencher com cadáveres as 64 casas do seu imaginário tabuleiro de xadrez. Já tinha passado dos sessenta. Ou o perdão fabuloso de uma dívida lendária que Lula, vivendo seu conto de fadas, conseguiu na Dinamarca: o Brasil foi absolvido de uma dívida que datava do ano de 1800, portanto anterior à nossa própria independência como nação, de 20 milhões de dólares, por passar diante do palácio real no Guldborgsund, sem permissão. Quem sabe a Yeda vai à Brasília, circular em torno da Granja do Torto e volta com as verbas para zerar nosso buracão?




MOSTREMOS VALOR, CONSTÂNCIA
Walter Galvani, em 15/09/2007

Crônica publicada hoje
no jornal "A Razão"
de Santa Maria (RS)


AURORA PRECURSORA





Walter Galvani





Construímos, vagarosamente, o conceito de nação para os rio-grandenses. Julgando a luz dos fatos históricos, ninguém pode dizer que não fomos derrotados em 1845, mas, em compensação, de lá para cá, tantas são as lições que demos no “império brasileiro” e em seu sucessor, a república, que desapareceu como peça de ficção a versão da derrota. Vencemos e não só vencemos como impomos aos demais, a imagem do que foi o vinte de setembro real.

Todos os dias renovo esta impressão porque vivo há dez anos na cidade onde nasceu a idéia farroupilha, (Guaíba), passo pelo local de onde partiram os primeiros revolucionários para a tomada de Porto Alegre e contemplo o rio, calmo e translúcido, por onde atravessaram aqueles heróis numa madrugada clara de primavera que apenas começava de 19 para 20 de setembro de 1835. Desembarcaram do outro lado, marcharam para o centro da capital, trocaram tiros com os “imperiais” na Ponte da Azenha e ocuparam Porto Alegre. Logo foram embora, pois perderam o segundo “round”, mas isso é insignificante, porque permanecemos em luta por dez anos e o império teve que dobrar-se às nossas exigências. Tudo mentira? Tudo ficção? Parte sim, parte não, o fato é que somente nós, rio-grandenses, temos um hino que cantamos em coro e que todo mundo sabe. Letra mudada por conveniência...

Por isso pregamos a cada 20 de setembro que “mostremos valor, constância, nessa ímpia e injusta guerra e que sirvam nossas façanhas de modelo à toda a terra.” Com o lema incorporado da Revolução Francesa, que então ainda não completara nem cinqüenta anos, tentamos impor uma república, com a constituição, a moeda, o arquivo, as armas e os barões assinalados que nos tocaram por herança, dispostos a defender os interesses que se mesclavam nos bolsos e corações de proprietários rurais, empregados, índios, escravos e apaniguados: Liberdade, Igualdade e Humanidade. Éramos uma democracia? Somos, hoje, uma democracia? São verdadeiros os ensinamentos que passamos de geração em geração? Ganhamos, perdemos, ou isso não interessa?

O fato é que a construção da República Rio-Grandense, tarefa a que nos temos dedicado desde então, é uma verdadeira missão. Nós, gaúchos, colhendo os ensinamentos de então e cultivando nossas tradições, procuramos, dia após dia, transmitir as velhas lições. Um pouco mais de educação, não nos faria mal. É preciso que os gaúchos se dêem conta de que já desembarcamos de nossos cavalos. Somos, como disse Cyro Martins, “gaúchos a pé”. Mas, educação e saber não ocupam lugar.

Vamos aproveitar, pois, a Semana Farroupilha e tratar de aperfeiçoar nosso comportamento, para honrar o legado. E que sirvam nossas façanhas, de modelo à toda a terra.










UMA HISTÓRIA EXEMPLAR
Walter Galvani, em 13/09/2007

Neste momento de comemoração
farroupilha, sempre
é bom lembrar casos
inesquecíveis e significativos
para as comunidades.Cr~
Crônica de hoje no
Diário de Canoas,
do Grupo Editorial Sinos


RANCHO CRIOULO



Walter Galvani





Mergulho no passado, já nem sei quantos anos lá se vão, mas lembro da figura de João Palma da Silva, fronte crispada pela emoção, montado em seu cavalo, troteando pelas ruas da cidade de Canoas, quando acabara de fundar/criar o Rancho Crioulo. Ele foi dos primeiros, logo trouxe à Canoas os jovens Barbosa Lessa e Paixão Cortes que então lideravam o movimento tradicionalista, recém saído da casca. Lembro bem da inveja, da incompreensão, da ignorância dos políticos da época que, salvo honrosas exceções, como o prefeito Sezefredo Azambuja Vieira, nem sabiam do que se tratava e procuravam “derrubar” o líder tradicionalista, com medo de que sua criatividade pudesse se transmudar milagrosamente em votos.

João Palma da Silva foi por longos anos correspondente do Correio do Povo e de outros órgãos de imprensa, tendo multiplicado a produção da sua velha “Remington” em cujo teclado batucava esplendorosamente, como se fazia naquela época, hoje substituído pelo suave toque da digitação.

E deixou, nas paredes do “Rancho Crioulo”, nas apresentações que realizou, nos inúmeros prêmios que conquistou e na valiosa conquista da importância cultural para a sua cidade de adoção, sua marca indiscutível. Felizmente ainda hoje se cultua seu nome, na biblioteca pública do município, mas é pena que ele não esteja conosco.

Hoje, em plena Semana Farroupilha, se pode notar que aquela primavera de idéias felizmente floresceu e frutificou.

Parece que estou a ver ali, a dobrar a esquina da avenida Vitor Barreto, o piquete do “Rancho Crioulo” com o “seu” Palma a frente, com a meninas Regina e Maria Helena Vargas carregando as bandeiras, com os espíritos todos voltados para o grande baile que, na certa se realizaria no próximo sábado.

Era uma pequena cidade, o trensurb ainda não corria fechado, o transporte para a capital se fazia dentro das limitações que o ônibus e o próprio “trenzinho” ainda impunham, mas João Palma da Silva andava aí, cercado pela admiração e o carinho dos mais jovens como o poeta Antonio Canabarro Trois Filho, o Antonio de Jesus Pfeil e outros mais ou menos votados, ou o respeito dos grandes moradores do município, respeitáveis intelectuais que haviam escolhido nossa terra, como o Lenine Nequete, “seu” Arlindo Martins, o dr.David Bonder ou os irmãos Conter da “Casa BBC” e depois da “Dick”. Saudosos e produtivos tempos. Quem sabe o “Rancho Crioulo” estaria na raiz do amor, da dedicação ao próximo e da boa vontade? Ou pelo menos dos frutos que geraram agora uma verba de 429 mil reais para a “Semana Farroupilha” com mais de trinta entidades beneficiadas? Vou procurar o espírito do seu Palma nesses dias.









EM DIA COM A ACADEMIA
Walter Galvani, em 09/09/2007

Alguns dados pesquisados por mim, sobre
o patrono da minha cadeira (a de número 25) na Academia Rio-Grandense de Letras:


ALBERTO DA COSTA CORREA LEITE


Por Walter Galvani



Não era saudável ser poeta romântico no século XIX, mas de certo modo era assim que se afrontava o “establishment” e se atingia a sociedade através da sensibilização e da comoção: morria-se moço, como Castro Alves, mas sabia-se muito e se alcançava rapidamente uma grande cultura e se conquistavam as ferramentas para brilhar.

Alberto da Costa Correa Leite não fugiu à essa regra de ouro. Nasceu numa família dedicada à literatura e ao jornalismo, como poderia ser o título desta breve nota sobre o patrono da Cadeira 25, onde cheguei em 1999, por obra e graça dos meus fraternos colegas. Como foi redator do “Correio do Povo” logo nos primeiros anos do jornal, senti-me ainda mais ligado a ele. Também eu tive este começo.

O meu patrono nasceu em Rio Grande, no dia 4 de setembro de 1871 e depois veio para Porto Alegre aonde veio a falecer na idade típica dos poetas e escritores do romantismo, no dia 2 de fevereiro de 1898. Com 27 anos.

Isso não impediu que deixasse uma obra apreciável e que fosse levado à nossa academia em sua fundação.

Seu irmão, Antônio da Costa Correa Leite Filho, um pouco mais velho, nascido em 1866, também fundador da Academia, tornou-se conhecido sob o pseudônimo de Mário de Artagão. Este se formou em filosofia na Alemanha onde aliás fez também os estudos primários; o secundário foi em Portugal e mais tarde tornou-se diplomata.

Alberto teve uma carreira mais modesta e regional, mas igualmente brilhante.

Primeiro foi empregado no comércio de Porto Alegre, silenciosamente. Depois entrou para o “Correio do Povo”. Era poeta e cronista. Pertenceu também ao Centro Literário de Porto Alegre e estreou, justamente no ano de fundação do grande jornal por Caldas Júnior (1895), com um livro de poemas, “Sarças Ardentes”, impresso na tipografia do grande matutino. Publicou, aliás, no “Correio”, durante dois anos, crônicas sob o pseudônimo de Quasímodo. Em 1897, publicou um segundo livro de poemas, com o título inspirado em Castro Alves: “Espumas do Mar”.

Em Rio Grande, sua terra natal, publicou valioso levantamento sob o título curioso de “Anuário Estatístico e Literário do RS”, em 1897.

Ainda no século XIX, em 1898, lançou “Na paz dos sonhos”, um livro de sonetos, estilo em grande voga na época. No ano seguinte, em Pelotas, terra de grande tradição e cultura, “Almanaque Popular Brasileiro” que é classificado como “Psicologia e Poesia”. Eis um bom casamento... Ele porém, já nos deixara. O poeta não veria suas publicações seguintes, uma vez que faleceu em fevereiro de 1898. Os livros continuaram saindo por obra dos amigos: “Voz Dolente”, também de sonetos em sua terra natal, 1901, já no novo século, (que ele não alcançou em vida), bem como o “Almanaque Literário e Estatístico do RGS”, no mesmo ano.

Como se vê, os almanaques estavam em moda.

A curta carreira de Alberto Correa Leite encerrou-se com “Flor de Neve”, também editado em Rio Grande, em 1901.

Até hoje é reverenciado como poeta de rara sensibilidade, mas seus livros somente são encontráveis nos valiosos acervos das bibliotecas públicas, de Pelotas e Rio Grande, ou, por muita sorte dos pesquisadores em algum “sebo”.








O HORROR DAS RUAS
Walter Galvani, em 08/09/2007

Nas estradas, centenas de mortos.
No recesso dos lares, crimes.
No trânsito,
a má educação.
Para onde vamos?
Crônica publicada
hoje no jornal "A Razão"
de Santa Maria (RS)


NA MINHA JAULA



Walter Galvani





Estou aqui, na minha jaula, imaginando o que de pior ainda pode nos acontecer e como reagir contra isso. Vejo que os bons procedimentos parecem ter sido expulsos da comunidade brasileira e hoje exista no imaginário popular uma figura de “esperteza”, que não tem nada a ver com a competência e com a seriedade de objetivos na vida. Penso, o quão inúteis devem se sentir os que trabalham o dia inteiro e ainda seguem a estudar à noite, ou hoje pelos métodos de ensino à distância, estudos que os possam elevar a uma situação melhor no futuro próximo. Digo próximo, porque no “distante”... bem... fica mais difícil, não é mesmo?

Escrevo, “na minha jaula”, porque estou tentando me proteger da ignorância generalizada, a hostilidade nos atendimentos públicos, dos pit-bulls soltos nas ruas e da violência do trânsito.

Dia desses, antes de entrar para esta jaula protetora, pensei assim: “que tal uma campanha de trânsito baseada no amor e respeito ao próximo, contendo frases como “dê passagem”, “seja gentil”, ou mais egoisticamente falando, “trate os demais volantes como gostaria de ser tratado” – que tal, hein?

Pois é. Mostrei a alguns amigos e eles me disseram: “vais perder teu tempo e gastar tuas expectativas”. Ninguém quer sabe dos outros.

De posse do noticiário do dia-a-dia, vejo que infelizmente têm razão estes descrentes da humanidade. Volto para minha jaula, para me proteger. Da próxima vez que sair às ruas, farei como todos. Ou seja: não darei passagem a quem vem de uma rua transversal à minha, não permitirei que me ultrapassem, não cederei um milímetro aos “competidores”.

Vocês, leitores amigos de um jornal que tem “A Razão” como título, já pararam para pensar o quanto há de atraso, de selvageria, de despreparo, de falta de educação nestas atitudes que fazem do gaúcho um ser arrogante e pretensioso, a ponto de merecer os célebres versos do pernambucano Ascenso Ferreira? Que versos? Estes: “Lá vai o gaúcho em louca arrancada! Pra quê? Pra nada...”

Mas, não desisto. Penso, logo existo, diria Descartes, o problema é que a maioria não pensa e segue seus instintos primitivos, verdadeiros pit-bulls soltos nas ruas da cidades e nas estradas que atravessam os campos, hoje semi-desertos, e que vivem “a paz anunciada” por Cyro Martins em seu livro “Porteira Fechada”.

“Que paz naqueles campos...” As reticências da morte, da decadência, da expulsão dos humanos em troca do barulho das máquinas ou da plantação de árvores onde nem passarinho pousa...

Voltemos para nossas jaulas.




Crônica de hoje no Diário Popular de PELOTAS
Walter Galvani, em 08/09/2007

O jornal mais antigo do
Rio Grande do Sul.


UMA QUESTÃO ÉTICA



Walter Galvani





Não, não se assustem, não vou falar de Renan Calheiros ou dos “mensaleiros” e tanta coisa mais que nos enoja e perturba em plena Semana da Pátria ou pouco depois dela, como neste domingo, afinal tivemos um “feriadão” para colocar a casa em ordem e os pensamentos também. Sou adepto de velho adágio lusitano que diz assim: “Boa jornada faz, quem em casa fica em paz!” Além da rima inesperada, o justo conselho. Ao invés de sair por aí, enfrentar estradas cada vez mais saturadas e em mau estado, como é o caso desta BR-116 abandonada pelos poderes públicos, mas não esquecida a ponto de estar recheada de pedágios, teoricamente arrecadando para confortar os cofres das concessionárias e dos governos. O último favorecido, como se pode verificar pelo estado geral delas, é o usuário. Aquele que já contribui com impostos na hora de emplacar o seu carro, com todos os penduricalhos que embolotam o seu salário, passando por esta miserável CPMF que serve tudo menos à saúde... – pois é, chega de queixas. Vamos derrubar o governo? Sim, pelo voto. Este e outros. Podemos até pensar na agradável solução anarquista que povoou o imaginário do século XIX, mas que deu em nada na Europa ou no Brasil. Foi naqueles anos, contudo, que nasceram os mais exacerbados nacionalismos. Antes disso, era-se mais pelo regionalismo do que propriamente se tinha a noção de pátria e de governos nacionais. E isso, era válido tanto para a velha Europa como para a jovem América.

Algumas das melhores experiências democráticas tiveram lugar aqui neste continente, como foi o caso das colônias inglesas que se emanciparam e se transformaram em 1776, nos Estados Unidos da América. Supremo exemplo de democracia durante muitos anos, tanto que a nação daí resultante se empenhou na gloriosa guerra mundial contra o fascismo e o nazismo e que reduziu a cacos o regime de Hitler, Mussolini e Hiroito, (do célebre Eixo Roma-Berlim-Tóquio, 1939-1945) . Depois, este mesmo país liderou com o chamado “Plano Marshall” a reconstrução da Europa. Vamos ver o que este império, agora decadente, fará com o Iraque, quando acabar de se retirar, não antes que aquilo lá se converta num novo Vietnã, como disse Immanuel Walerstein, analista norte-americano, que esteve participando esta semana em Porto Alegre, da série de palestras e debates do “Fronteiras do Pensamento Contemporâneo”. Aproveitemos, pois, o final do feriadão e vamos consertar nossas disponibilidades. Daqui a pouco estará aí a Feira do Livro, e a de Pelotas ocupa a posição tradicional de segunda em idade relativa à de Porto Alegre e, nos preparar para o final de ano, que é o que já sinaliza o último trimestre.






EXPANSÃO DE INTERESSES E DE VIRTUDES
Walter Galvani, em 05/09/2007

"Nossa pátria é nossa
língua" - dizia
Fernando Pessoa


ACORDO ORTOGRÁFICO DA LÍNGUA PORTUGUESA


Walter Galvani



O tempo passa e se é verdade que não escrevemos mais “ortográphico” também é certo que a grafia varía do Brasil para Portugal, o que aqui é fato, lá é “facto” porque o que lá é “fato” aqui é terno e assim por diante.
Faltam assinaturas dos oito países da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa). Espalhados por quatro continentes: Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Brasil, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, e o TImor Leste, representados os continentes: África, América do Sul, Europa e Ásia. Alinhei-os todos em ordem alfabética para evitar ciumeiras e competições inúteis.
Em verdade, todos são resultantes da colonização portuguesa que se produziu nos séculos XIV, XV e XVI e que levou a nossa língua comum a se transformar em “língua franca” de certo instante da evolução mundial, alcançada pelas navegações portuguesas e pela sua capacidade comercial. Nunca militar, porque as ocupações que necessitaram de apoio militar, foram se desfazendo, não sem dor e custos altos, até 1975, quando, com a Revolução dos Cravos se deu a penúltima liberação. A última foi a do Timor-Leste por auto-escolha, diga-se de passagem. Libertado da metrópole, o Timor tentou a aventura da independência, sozinho, mas foi obstado pela invasão imperialista da Indonésia, por seu turno uma sucessora do império holandês na região. Mas, o povo timorense, sob a liderança sobretudo de Xanana Gusmão, proclamou sua independência, baseando-, entre outras valiosas escolhas, o uso da língua portuguesa que estivera proibida durante a ocupação inimiga.
Tudo isso me faz olhar com os melhores olhos esta marcha da língua portuguesa para unificar-se pela escrita e tornar-se de fato a quinta língua mais falada do mundo. À sua frente estão o Mandarim, que se pratica na China onde os habitantes se contam por bilhões. A língua indiana, se é que existe uma língua que possa se classificar assim, como fruto também de um país bilionário... O inglês e o espanhol, praticados pelos conquistadores (e piratas) dos séculos XVII e XVIII e por isso mesmo presentes nos cinco continentes.
E aqui entra o Português.
Nossa língua é hoje falada por uma população potencial de 220 milhões de pessoas. Mas não muito. E bastante maltratada, especialmente em certos círculos onde o analfabetismo predomina e a miséria se encarrega do resto.
Mas, nossa pátria é a nossa língua, como dizia o poeta Fernando Pessoa e por isso deixamos a admiração espantada pela sua cadeira no café “Martinho da Arcada” para os turistas e trabalhemos.
O Brasil pode ser um líder legítimo da CPLP. Mas, parece que não o deseja, ou pelo menos não está na ordem de prioridades dos políticos.
O que é uma lástima.
Mas, também podemos “jogar sem eles”...
Um movimento que nasça de dentro para fora acaba alcançando algum resultado, como esta indiscutível vitória na Comissão de Ética do Congresso, onde, já se sabe, o processo dos ”mensaleiros” vai caminhar...




SEMANA DA PÁTRIA
Walter Galvani, em 02/09/2007

Que o som nostálgico das velhas bandas escolares e militares
traga de volta o
espírito de prestar
serviços à pátria.
Crônica publicada hoje
no ABC DOMINGO.


SEMANA DA QUALIDADE



Walter Galvani



Até que ponto somos patriotas? Eis o que convinha analisar. Um levantamento de opinião, respondendo a três ou quatro questões básicas, a isso nos levaria, permitindo-nos fazer uma boa análise do significado desta “Semana da Pátria” que vem aí, com o velho ribombar dos tambores das bandas escolares trazendo sons nostálgicos que nos ligam à uma infância perdida e sem complicações metafísicas. Éramos jovens “soldados” e pronto! Marchávamos pelas ruas das nossas cidades, exibindo nossos uniformes, carregando nossas bandeiras e disputando a honra de portar o pavilhão nacional. Hoje? Bem, a maioria das escolas não tem mais uniforme e os jovens aproveitam, junto com os pais ou sem eles, o “feriadão” que se arma e vão todos para onde der. Alguns para a praia, outros para a montanha, para a casa dos parentes, para hotéis ou aproveitam a interrupção para refrescar a cabeça. E quem não pode sair, por um motivo ou outro, se gruda na televisão ou na internet.

Mas, e se tentássemos responder aquelas questõezinhas que citei lá no início? Por exemplo, se você dá, mesmo, tudo de si no cumprimento das tarefas diárias, seja trabalho ou estudo? Se você procura se ultrapassar, produzir mais e melhor? Se você se orgulha de ser “um brasileiro” ou, o que mais o faz sentir-se orgulhoso por ter nascido aqui? É o futebol? A produção literária? O espírito de integração sem preconceitos? A produção agrícola? A industrial? Todos estes fatores somados? Ou você acha o nacionalismo uma babaquice e pensa que não há motivos de se orgulhar?

Numa semana como esta que se inicía e que vai desembocar no dia 7 de Setembro, vale bem uma criteriosa reflexão que poderá nos dizer até que ponto amadurecemos desde os verdes anos até este momento em que os tambores da banda marcial da escola não soam mais em nossos ouvidos.

Sem nenhuma “babaquice”, em que medida temos contribuído para a consolidação desta pátria imensa, que está chegando aos 190 milhões de habitantes, cuja renda per capita está muito abaixo do necessário e onde o salário mínimo é ridiculamente inferior ao que se pode exigir para a sobrevivência? Onde há crianças exploradas, crianças com fome, crianças sem pais e sem moradia, nas ruas de grandes cidades onde o luxo impera nas butiques e grandes lojas? Onde a corrupção está de tal forma instalada que deixou de ser notícia?

O que temos feito, em nossa vida particular ou pública? Onde é que falhamos? Onde estão as promessas de antigamente e as crenças dos velhos tempos?




PARAR OLHAR ESCUTAR
Walter Galvani, em 30/08/2007

Antigamente, nos cruzamentos de ferrovias,
havia uma placa trianguylar
com esta inscrição, ao mesmo temoi misteriosa e instigante:
PARAR
OLHAR ESCUTAR
É o que recomendo
para a área da saúde.
Esta é uma crônica publicada
hoje no jornal
DIÁRIO DE CANOAS,
do Grupo Editorial Sinos:


SALVANDO A SAÚDE

Walter Galvani

Passamos por um momento de dificuldade com a saúde e, no Brasil, não se trata nunca, nesse caso, de instantes, mas de um processo. Sabemos, pois já aprendemos isso, que para sobreviver com boa saúde é preciso ter um bom plano privado. Só com o SUS ou qualquer que seja o nome que venha a tomar, estaremos sujeitos à filas imensas, à marcações de exames, por vezes com meses (e até anos) de antecedência. Morrer na fila é uma realidade brasileira. Por isso é preciso valorizar todas as pequenas (e grandes) conquistas nesta área.

Eu próprio venho de uma bela eexperiência. Nunca deixo de recomendar que se tenha um bom Plano de Saúde, eu o tenho e não cito aqui o nome para não ser acusado de fazer mera propaganda. Mas, o que quero relatar tem a ver com a qualidade dos médicos que aliás não muda, tendo ou não o tal plano privado. A dificuldade reside no atendimento.

Já lhes contei da minha primeira e longínqua fratura do braço direito e a conquista da amizade e de uma sadia cumplicidade com o Dr. Victor Hugo Ludwig, que me curou e me deu uma lição de vida. A partir daquele instante, quando eu não passava muito dos seis ou sete anos (a precisão se perdeu nestes sessenta e tantos anos de distância dos fatos, a precisão, mas não a certeza dos valores então conquistados) passei a confiar nos médicos que agindo com humanidade, carinho e compreensão nos ajudam mais do que os mais sofisticados exames que de lá para cá tanto se desenvolveram.

Foi assim que, num episódio traumático de acidente doméstico, perdi a luta com uma “bombona” de água e fui cair, literalmente, em mãos do Dr. Cristiano, um jovem traumatologista que, por seu turno, tem como colega de formação e de amizade, o Dr. Gustavo Verzoni. Ambos, Cristiano e Gustavo, foram exemplares: educados, atentos, cuidadosos, um lá na clínica no centro de Florianópolis, outro, o Dr. Gustavo em Porto Alegre, na tradicional Ortopedia Santo Antônio e assim, em tempo ainda menor do que levou o Dr. Victor, com o auxílio do “Seu” Porcello da farmácia, na distante Canoas da primeira metade do século passado... – me recuperaram. O mal havia atingido o mesmo braço, e a luxação de hoje tinha sua origem na fratura de antigamente. Os três, o velho amigo Victor Hugo Ludwig e os modernos Cristiano e Gustavo, agora ficam ligados, moram no meu coração. E eu saí ganhando de uma avenida de perigosos cruzamentos: a saúde e os acidentes, os inesperados acontecimentos da vida. Recomendo sempre: parar, olhar, escutar...






MAIS DE UM SÉCULO DO "DIÁRIO POPULAR" DE PELOTAS
Walter Galvani, em 27/08/2007

Estou publicando hoje, esta crônica para assinalar o aniversário do grande jornal da Região Sul do
Rio Grande do Sul:


117 ANOS

DO

JORNALZÃO

Walter Galvani



O final do século XIX foi pródigo na geração de grandes jornais. Estava-se em pleno domínio da palavra impressa que transmitia a sensação de perpetuidade, não havia suporte mais adequado para colocar o leitor diante deste prodígio de técnica que já durava então quatro séculos. Hoje pode-se acrescentar mais um século e tanto sobre aquelas conquistas. É impressionante imaginar que os tipos móveis e a prensa de Guttenberg tenham produzido tais milagres de permanência e de efetividade.

Quando o “Diário Popular” nasceu, vivia-se esta fase de euforia da comunicação, em que os órgãos impressos sucediam-se como estrelas brilhantes de uma civilização do papel, do livro, da palavra e do jornal. Poucos, pouquíssimos sobreviveram. No Brasil contam-se nos dedos, tais como o “Estado de São Paulo”, o “Jornal do Brasil”. Aqui mesmo, no Rio Grande do Sul, nenhum veículo impresso tem seu currículo os 117 anos de circulação ininterrupta que distinguem o nosso jornal.

Digo “nosso” porque, embora simpatizante antigo e leitor assíduo, desde que cheguei à redação do “Correio do Povo” de Porto Alegre em 1955, tenho procurado me aproximar do “Diário Popular” e só agora me transformo em colaborador permanente. (Eu costumava brincar com Clayr Lobo Rochefort dizendo-lhe que, quando desejo me promover pessoalmente, profissionalmente, informo que sou colaborador do Diário.)

Neste século e tanto a importância deste jornal só cresceu. Ele que começou a acompanhar Pelotas quando recém se instalara a república e mesmo que não seja ela a república dos nossos sonhos, por certo era a conseqüência de um sonho grande de muitos brasileiros. A cidade já era então um expressivo núcleo populacional, um pólo industrial respeitável e um símbolo de cultura, pois, as famílias locais souberam sempre transformar os excedentes financeiros que resultavam da sua intensa atividade no campo e na cidade em instrução, educação e aperfeiçoamento para seus filhos.

Não foram poucos os pelotenses que levaram bem longe e bem alto o renome dela. Poderia citar, por exemplo, João Simões Lopes Neto ou Mozart Victor Russomano, mas na certa são tantos os nomes que brilharam e brilham e não poderiam ficar de fora de qualquer listagem.

Ora, o “Diário Popular” desde os tempos em que era impresso em formato maior do que os “standard” tradicionais, até hoje quando somou-se à opção pelo tablóide, característica do Rio Grande do Sul, com sua edição na “web” como todos os que pensam no presente e no futuro, foi, é e será um legítimo porta-voz da cidade onde nasceu. E não é por nada que traz o “popular” em seu título.




PASSO FUNDO, CAPITAL NACIONAL DA CULTURA
Walter Galvani, em 26/08/2007

De 27 a 31 de agosto,
o endereço da cultura
é um só,
no Rio Grande do Sul


Crônica de Walter Galvani para o ABC DOMINGO
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JORNADA DE LITERATURA



Walter Galvani



Passo Fundo goza de um status especial que lhe foi brindado pelo reconhecimento público: será a Capital Nacional da Literatura, de 27 a 31 de agosto. É o coroamento de um trabalho de Tânia Rösing que iniciou a Jornada há 24 anos, a quem se somaram ao longo do tempo, escritores, jornalistas, professores, administradores públicos e privados.

Esta atraente realidade atravessou todo este tempo, sempre acrescentando adesões significativas, que afinal seguiam o caminho traçado por Josué Guimarães, naqueles tempos já distantes da arrancada inicial.

Isso não significa, no entanto, uma blindagem definitiva à Jornada de Literatura, nem a exime de se submeter às regras do jogo, que, no caso estão consolidadas na Lei de Incentivo à Cultura do estado do RGS e na Lei Rouanet, do Ministério da Cultura. Entretanto, a existência de um Conselho Estadual de Cultura que faz só metade de sua tarefa, porque não consegue poder político e influência para moldar um Plano Estadual de Cultura, também não pode ser esquecida. É preciso que, apesar das diferenças e divergências, o Conselho seja respeitado e se o órgão de estado, e não de governo, como o próprio organismo frisou em sua nota oficial sobre o episódio de Passo Fundo, não seguiu abertamente as linhas que talvez a Secretaria de Cultura gostasse de traçar é que faltou, talvez, contato e entendimento, sobretudo, um Plano básico que poderia simplesmente ser respeitado, até pela palavra de ilustres conselheiros, como Luis Paulo Faccioli, relator do processo, presidente da Associação Gaúcha de Escritores, que acabou se desgastando e perdendo o cargo precioso para toda a cultura do estado.

Não importam os fatos secundários que podem haver cercado esta decisão, mas aparentemente o conselheiro quis apenas se assegurar de que os recursos do estado seriam corretamente aplicados. Se faltou comunicação entre as diversas partes envolvidas, é óbvio que isso é corrigível. Mas corrijam depressa porque a 12ª. Jornada de Literatura começa amanhã, dia 27 e ocupa toda a semana, até 31de agosto.

Erros, podem acontecer, como em tudo o que é humano. Mas, não pretendia o Conselho negar a importância do acontecimento que, aliás, não é apenas um evento, como diz Tânia Rösing, mas uma longa seqüência de trabalhos que envolvem toda a cidade e a região e desembocam na Jornada.

Logo ficaremos sabendo do sentido do debate que obedece ao slogan “a leitura da arte e a arte da leitura”. Tudo é instigante.




TAMBÉM ESTOU CANSADO DE TANTA MEDIOCRIDADE
Walter Galvani, em 19/08/2007

Crônica publicada
neste domingo, no jornal
ABC DOMINGO, do Grupo Editorial Sinos


JOBIM, CHÁVEZ, CANSEI...

Walter Galvani

Se me dêem licença, também me incorporo ao movimento “Cansei”, eis que não agüento mais certo tipo de notícias e procedimentos. Cansei, por exemplo, de ouvir dizer que “desta vez vamos”, que a “corrupção não é tão grande assim”, que o governo vai adotar esta e aquela medida, e no contornar a esquina já mudou de procedimento. Cansei.

Cansei da crise dos aeroportos. Estou cansado de ouvir dizer que será feito um “grooving”, que eu nem sabia o que era, na pista de Congonhas, que os vôos serão desviados para Guarulhos e São José dos Pinhais, que o Salgado Filho terá um sistema antineblina, que 7 controladores de vôo foram presos (por causa do RDA...) que as vilas Dique e Nazaré chegaram depois do aeroporto estar instalado e serão removidas, que o governo desenvolverá um plano de habitação e não haverá mais vilas. Cansei.

Cansei de ouvir dizer que o Chávez não é ditador, que o seu projeto de “reeleição contínua” é um engenhoso sistema democrático. Cansei.

Cansei de ler que um projeto que cobra ingressos não pode receber apoio publicitário com subsídios do governo e que um membro do Conselho Estadual de Cultura foi nomeado para seguir as normas do governo, mas também cansei de ver um conselheiro insurgir-se contra o governo que o nomeou. Faltou clareza e orientação. É cansativo e difícil de entender.

Cansei mais ainda de ver os nomes dos mortos no acidente da TAM, que agora já são mais de 200, até porque acabou de morrer uma mãe que perdeu um filho naquele fatídico dia 17 de julho, só que ela morreu agora, quinze ou mais dias depois, porque também cansou.

Todos cansaremos um dia e será difícil impedir que invadam a Assembléia Legislativa (aliás cansei de ouvir falar no Macalão...) ou que interrompam uma estrada. Cansei.

Em verdade, cansei de ler, ouvir e ver bobagens, de saber de estudantes que não estudam, de mão-de-obra cada vez pior, da falta de educação crescente, da ignorância generalizada, do desperdício dos meios técnicos cada vez mais sofisticados à disposição de incompetentes. Chega. Cansei.

E tanto é verdade que comecei a aderir aos movimentos mais extravagantes por que me parecem os mais inteligentes. Por isso aderi ao “Movimento Slow-Food”, nascido na Suécia (pelo menos tem boa origem) que prega o tempo de tranqüilidade ao menos para almoçar. E por isso me incorporo também ao Movimento Cansei. Pois, cansei. E chega. Não dou mais explicações, mas me reservo o direito de dispensar os chatos e não atender aos incômodos. Cansei.







CYRO MARTINS, CENTENÁRIO
Walter Galvani, em 17/08/2007

Falando na sessão desta
quinta-feira na
Academia Rio-Grandense
de Letras, enfoquei
a grande figura de Cyro Martins
partindo de uma bela
frase que nos abre
as portas da sua alma:


CYRO MARTINS

“A FELICIDADE É FEITA DAS MIUDEZAS DA VIDA...”



Dita por mim, pela nossa vizinha, pelo porteiro do edifício, a frase soaria como uma destas pérolas populares que acabam se transformando em provérbios ao longo dos tempos, ou caindo no esquecimento, para ser trazida de volta à tona, por um antigo avô, atencioso com seus netinhos. Mas, saindo da mão de um dos mais preciosos escritores produzidos pelo nosso estado, como o é Cyro Martins, nos faz imediatamente pensar que a verdadeira sabedoria é uma destas coisas preciosas, que vivem esquecidas no baú dos pensamentos e, afinal de contas, é construída pelas miudezas da vida...

Assim é que, entregar-se à leitura de “Porteira Fechada”, “Campo Fora” ou “A Curva do Arco-Íris”, para ficar apenas nestes exemplos, ou seguir adiante pela obra de Cyro, é começar a remexer naquelas coisas valiosas que se guardam no sótão, junto com as fotografias da infância, para um dia nelas remexer e reencontrar o guri perdido que assentava o pé no pneu de um avião, ou a garotinha que segurava o telefone como se fosse o caminho secreto para o campo da felicidade. É isso que é, amigo Cyro, agora que você chega ao seu Centenário e nos delegou a tarefa de lembrá-lo. E vou explicar como foi que Cyro me nomeou posteiro para este encargo:

Vivi muitos anos bastante próximo da família dele, mais especificamente do “Seu” Arlindo de Deus Martins, que era de fato um escolhido “por Deus” e possuía uma biblioteca maravilhosa, de onde extraí para minha primeira leitura, “Porteira Fechada” que reli na semana passada, encharcado de emoção. Seu Arlindo era de Quaraí, e os descendentes de Cyro ou os estudiosos de sua obra, sabem o que significa aquele recanto da geografia rio-grandense em sua obra. Mais: foi na casa de Arlindo em Quaraí, que mais adiante conheci em Canoas, (para onde transportara sua imensa biblioteca), que se produziram as tentativas de salvar da morte, o pai, o seu Bilo. Já em Canoas, tornei-me íntimo do “seu” Arlindo e de dona. Dalila, pois meus colegas Túlio, Lineu e Léo e mais tarde o Paulininho, os filhos do “Seu” Arlindo, me franquearam o mundo maravilhoso da sua biblioteca. Ali comecei a ler os clássicos, ali descobri os grandes russos Dostoiewski, Tolstoi, Gogol, Gorki, Turguenev, ali tomei-me de intimidades com Eça de Queiroz, e conheci os primeiros livros de Cyro Martins.

Cresci, pois, no respeito a esse nome que mais adiante vim a conhecer pessoalmente, quando já trabalhando no “Correio do Povo” e na “Folha da Tarde” fui designado ou me auto-indiquei para entrevistá-lo. Foi quando conheci também a Maria Helena, incorporando-a ao meu crescente estoque de relações com o mestre.

Tenho alguns livros autografados por Cyro, pois a minha aproximação a isso me levava, o saldo de longos bate-papos, os encontros na Feira do Livro, embora nenhum tão eficiente e instrutivo quanto o “Para início de conversa”, de Abraão Slavutsky, que se era um “início”, ficou nos devendo a valiosa continuação.

É lá que está, busquei e encontrei à página 113, a explicação para a epígrafe deste pequeno trabalho: “A felicidade – disse Cyro – é feita das miudezas da vida... Cada vida tem seus grandes acontecimentos, proporcionais ao tipo de pessoa que se é. Mas, entre essa meia-dúzia, digamos, de fatos importantes, há intervalos de anos. Nesses intervalos transcorre o banal do quotidiano. E se esse quotidiano é ruim, até os picos existenciais se apagam, porque eles são constituídos pelo corriqueiro do dia-a-dia.”

E quanta riqueza no quotidiano de Cyro!

Imaginem, alguém que nasceu ao pé do mítico Cerro do Jarau! Só isso já o habilitaria para uma longa obra, cheia de mistérios e curvas, com a Teiniaguá Encantada refulgindo com o seu anel de pedra moura.

Cyro, em sua modéstia, só falava nesta sua “vizinhança” para lembrar que o armazém do Seu Bilo ficava por ali, junto ao arroio Garupá.

“... a velha venda, de chão batido – diria ele – paredes de ladrilho e coberta de zinco. (...) me lembro muito bem do fogo no chão, e do aro enorme da roda de carreta, que circunscrevia a lenha, as trempes, as brasas, a cinza e, naturalmente, as panelas e chaleiras bem no meio, tisnadas de fumaça. (...) a panela maior era a do feijão”.

E por aí segue a modesta lembrança do velho Cyro, indiscutivelmente ligada à riqueza das pequenas coisas, do dia-a-dia que o formou e o fez entender, muito antes que qualquer político, qualquer economista, o drama que vivia o campo gaúcho, a decadência da peonada que depois da gloriosa vida errante do ciclo do gado, encontrava agora a “porteira fechada”.

Depois que ele se manifestou, combatido e contestado, o velho pampa foi se esvaziando cada vez mais, transformando-se num enorme espaço, na maioria dos casos mal aproveitado e agora ameaçado de virar deserto pelo plantio de peças exóticas e daninhas, cujo benefício único será encher os bolsos de meia dúzia e beneficiar algumas multinacionais distantes, que preferem concentrar seu lucro nas terras altas do norte da Europa e exportar a parte suja da produção para os semi-desenvolvidos que acolhem os capitais com os olhos abertos da cobiça.

Historicamente, o romance, o conto, a ficção digamos assim, tem se adiantado aos compêndios políticos e econômicos. Não há como negar, o poeta, o escritor, este sim carrega no semblante as virtudes, os sensores que lhe permitem “ver” o futuro. Quando escreve, com simplicidade e firmeza, com estilo e conteúdo, acaba sendo o primeiro a ser atingido pelos petardos da reação. Os que não querem ouvir as verdades, perseguem costumeiramente quem tem a coragem de dizê-las.

Esta foi a grandeza de Cyro Martins.

Um homem capaz de construir no silêncio do seu consultório, na intimidade da sua casa, um mundo que precisava ser mostrado, para ser discutido, compreendido ou talvez revirado.

E com que simplicidade agia! Ainda esta semana, me dizia o escritor Luis Antônio de Assis Brasil, como foi difícil “arrancar” de Cyro sessenta linhas para o Instituto Estadual do Livro que decidira publicar algo remexendo no baú dos escritores, para um programa de divulgação que levava o autor ao interior do estado.

Esta simplicidade quase quixotesca não impediu contudo, que Cyro Martins fosse um dos mais sofisticados integrantes da escola de psicanálise, onde sua formação em Buenos Aires funcionou de maneira claramente didática e provocadora para os rio-grandenses.

Cyro escritor, Cyro médico, Cyro psicanalista, Cyro observador da vida econômica e social do estado, Cyro amigo, muitas facetas de uma só figura que hoje nos espanta e encanta e nos faz pensar no tempo perdido: por que não “exploramos” melhor o Cyro? Pois é...

No respeito a um grande amigo, por vezes deixamos passar a chance de conhecer melhor nossa própria vida e destino, ou o lugar onde se habita. Generoso, porém, Cyro Martins deixou o legado de sua obra.

Basta aproximar-se dela, agora ou sempre, aproveitando o centenário que se começa a comemorar, a existência de uma boa coleção de seus livros em disponibilidade em livrarias ou bibliotecas, ou na editora Movimento, que obedecendo à cabeça privilegiada e a mão operosa de Carlos Appel, consegue manter este elo entre o que se produz industrialmente ou se comercializa, com a qualidade e a cultura que se quer e deve preservar.

Cyro nasceu em Quarai em 1908, filho de Apolinário e Felícia dos Santos Martins. Freqüentou o Colégio Municipal, onde foi aluno do professor Caravaca, seu personagem futuro em “Rodeio” e “O Professor”. Em 1920, deixou a região da “Campanha” e veio para Porto Alegre, estudar no internato do Colégio Anchieta. Este período pode ser relembrado em “Um menino vai para o colégio”. Exemplar.

Aos 15 anos, portanto, em torno de 1923, escreveu seus primeiros contos e cinco anos mais tarde ingressa na Faculdade de Medicina.

Seu primeiro livro de contos, “Campo Fora”, é de 1934, ano em que morre seu pai. No ano seguinte, numa conferência, utiliza pela primeira vez a expressão “gaúcho a pé”.

No ano de 1937 vai estudar neurologia no Rio de Janeiro e em 38, já em Porto Alegre, presta concurso para Psiquiatria do Hospital São Pedro. Participa da fundação da Sociedade de Neurologia, Psiquiatria e Medicina Legal e vê publicado seu primeiro romance, “Enquanto as águas correm”, pela Globo, nossa grande editora, então dirigida por Erico Veríssimo.

“Porteira Fechada”, seu segundo romance e para muitos o maior deles, sai em 1944.

Em 49 faz sua formação psicanalítica em Buenos Aires.

O terceiro romance da chamada “Trilogia do gaúcho a pé” sai em 1954: “Estrada Nova”.

Escreve até o “Páginas Soltas”, de 94, seu último livro.

Falece a 15 de dezembro de 1995 em Porto Alegre.

E agora, para encerrar, ouçam o capitulo XXII, que, aliás, poderia se chamar “Paz nos campos”, final de “Porteira Fechada”, livro que li e reli, emocionado, para lembrar bem de Cyro. E atentemos para a paisagem linda, mas desprovida de humanos. Como ficaram os campos do sul...



“A tarde desse dia, nos campos, caiu serena, sem um frêmito. O sol descambava devagar, refletindo-se nas sanguinhas cheias, cantantes, irisando as espumas de sapo, reluzindo nos capinzais crescidos, nos fios de aramado, na chapa das lagoas. Pendia sobre a campanha uma claridade tênue de céu lavado. Os animais saíam para os altos a sorver o frescor das passagens úmidas. Perdizes assobiavam contentes entre as moitas, bandos de avestruzes vagavam, catando bichinho à flor da terra.

Longe de Boa Ventura, lá no fundo duma estância, numa invernada de dez quadras de sesmaria, lotada de bois, defrontavam-se três taperas: a do Bentinho, a do João Guedes e a da Gertrudes. Sobravam algumas árvores, algumas pedras e os sinais de moradia humana no chão. Nada mais. Os bois gostavam de lamber aquela terra.

Aquilo agora era um rincão despovoado. Não se avistava um vulto de campeiro, não se ouvia um latido de cachorro numa porta de toca, não tremulava um pala endomingado, não chiava uma carreta, os arados não rompiam a terra.

Mas, que engorde dava aquela invernada! Para um fim de safra, então, já com caídas para o inverno, não havia campo que se lhe igualasse. Seiscentos novilhos pastavam folgadamente entre as altas cercas de sete fios e madeirama de lei que a tapavam.

O sol entrou sem grandes esplendores. A noitinha caiu suavemente.

Que paz naqueles campos!”



Obrigado

Walter Galvani

Em 16 de agosto de 2007
















UM 16 DE AGOSTO NA HISTÓRIA DA HUMANIDADE
Walter Galvani, em 16/08/2007

The point of no return
Crônica publicada
hoje no
Diário de Canoas (terceira cidade do estado do RGS) -
órgão do Grupo Editorial Sinos


QUEIMEM OS NAVIOS

Walter Galvani


Foi em 1519, portanto há 488 anos. Uma data dessas, precisa ser relembrada, para que não fiquemos nos alimentando somente de crimes, ratos mortos e odiosos textos de políticos incompetentes. Por exemplo: os que aprovaram, é verdade que em primeira instância, mas aprovaram, a prorrogação da CPMF até 2011.

Fazemos caretas de nojo, mas a matéria segue em frente. Terá que ser aprovada mais duas vezes ou três até, mas a gente se esquece e, tocando a vida dentro daquilo que o professor Pierre Levy chama de “cultura virtual”, e vamos nos esquecendo. É um mail de um amigo distante hoje, uma vitória do Real Madrid, uma ponte que cai nos Estados Unidos, alguma confusão de trânsito, uma nova “batida” da Brigada Militar, cumprindo ordens naturalmente, alguma declaração folclórica do presidente Lula, tipo “meu avião tem bom espaço entre as poltronas” e, no entanto, esquecemos o essencial para nos ocuparmos com o acessório. Perdão, Monsieur Levy, mas preferiria os tempos em que se lia mais e se digitava menos e também sou do tempo em que as palavras deslizavam inteiras para dentro das frases. E do papel, naturalmente.

Mas, Hernán Cortez bem que deu uma lição aos que o acompanhavam na conquista do México, quando lhes ordenou, num dia 16 de agosto, em 1519, que queimassem os navios. Houve um instante de hesitação, mas ele cobrou a execução de sua ordem, imediatamente, e em pouco tempo ardiam as belas naves de Suas Majestades Católicas, Fernando e Isabel, e estava definida para um sempre que acabou mais adiante, a ocupação das terras mexicanas pelos espanhóis.

Ficou a lição, para que todos aprendessem, de que existem empresas sem volta e que é preciso, quando se toma uma decisão, voltar as costas aos acontecimentos e nunca mais hesitar.

(A propósito senhores leitores modernos: hesitar significa o mesmo que titubear, ficar indeciso, e não, alcançar “êxitos” sucessivos... É bom explicar, porque com a onda de ignorância oficializada e até consagrada pelos modernos espíritos criativos, é um perigo deixar a interpretação à vontade, livre.)

Então, para realizar alguma coisa, é preciso determinação. E quando alcançado determinado ponto, aquilo que os americanos chamam de “point of no return”, queimar os navios... Só assim é possível fazer alguma coisa pela terra natal, mesmo que a decisão implique em nunca mais voltar a ela, pelo menos para chorar sobre o leite derramado. Vamos adiante e ponto final.








SE AS BOLSAS BALANÇAM...
Walter Galvani, em 12/08/2007

E balança tudo nesse país sem ética...



VENDEREI MINHAS AÇÕES

(Crônica publicada no jornal ABC DOMINGO,
do Grúpo Editorial Sinos)

Walter Galvani


Não sou especialista em mercados, não entendo nada de ações, altas e baixas, dólares e euros. Procuro acumular estas moedas, sem preferências, mas ultimamente não tenho conseguido entesourá-las. Tesouros, só meus livros e minhas moedinhas e para estas, conto com a decisiva colaboração da minha netinha Isabella, que requisita todas as que chegam em casa, atulhando meus bolsos. Ela logo faz um eficiente trabalho de coleta, com o qual espero estimular um espírito de economia que faltou ao “vô”. Se eu tivesse tido esta iniciativa, melhor seria a situação minha e dos demais netos, Luiz Felipe e Lucas e das filhas também. Não guardei o suficiente, do que me arrependo muito. Mas, nesta época tardia comecei a colecionar as cédulas, logicamente deixadas nos bancos na medida das possibilidades, e assim prevendo para prover. Mas, com o olho acompanho a marcha das ações na Bolsa e este sobe e desce fantástico hoje é facilitado pela atenção dos meios de comunicação social. O circo está armado e esta atração é até maior do que muitas das anunciadas pelos programas de televisão, em geral mais pobres, menos criativos. Até porque a realidade brasileira é bem mais surpreendente do que a ficção!

Há aviões que caem, outros que não conseguem parar sua louca carreira na aterrissagem, a distância entre os bancos não comporta homens de 1,90 e há sim, homens com esta estatura e alguns são até ministros neste país de anões... Tem mais: venda de selos não é mais exclusividade dos Correios, desvio de recursos públicos é tão corriqueiro que não precisa mais explicações e há até venda de segurança, salvo-conduto, suspensão temporária de ataques ao tráfico, enfim, a criatividade brasileira não tem limites.

O assombro deixaria qualquer cidadão de outras nações com os olhos arregalados, mas a única coisa que ainda espanta os brasileiros é saber que apesar de tudo ainda é possível sobreviver aqui. Não sei como. Cada vez que vou ao exterior (ou o fazem meus amigos) a surpresa é saber que é possível caminhar nas ruas das grandes cidades sem cuidar as costas. Não, você não vai ser assaltado, não. Incrível e ainda acham isso normal aqui no Brasil!

E então, pode ser que no meio desta alienação geral em que vivemos, sejamos surpreendidos pelas bolsas asiáticas em queda, ou porque Londres ou Nova Iorque decidiram quebrar-se ou abalar o mundo e recordar 1929. Vamos, pois, tentar dormir em paz nossa sesta de domingo. É a trégua. Amanhã, segunda, a semana pode começar com um abalo. Vou vender, bem cedo, se ainda der tempo, minhas ações... Guardarei somente os trocados dos netos.










O GAÚCHO É MELHOR DO QUE OS DEMAIS?
Walter Galvani, em 06/08/2007

Crônica publicada no
ABC DOMINGO


SOMOS EXIGENTES DEMAIS?



Walter Galvani





Todos estes fatos que se agigantam e atropelam a tímida monotonia destes dias de frio e chuva, quando procuramos, se possível, não colocar o nariz para fora de casa, lembrando a agitação e a preocupação gerada pelos desastres nas rodovias e nos aeroportos dos tempos recentes, nos permitem fazer uma parabólica reflexão: nós, os gaúchos, somos exigentes. Seríamos “exigentes demais”?

Assim é que nos vêem e não é de hoje. Nos anos vinte, o poeta pernambucano Ascenso Ferreira já nos enviara um poema para análise, que dizia:

“Lá vai o gaúcho

Em louca arrancada!

Pra quê?

Pra nada...”

O fato é que somos intolerantes com o erro, com a demora, com o atraso na remessa de verbas federais, na falta de seriedade de determinados homens e partidos, no relaxamento e na incúria. Não temos paciência com a excessiva tolerância, com a barganha, com os arranjos políticos, com a propina institucionalizada, com a falta de rigor na apuração dos fatos delituosos.

Tudo isso nos gera uma expectativa de altivez e dureza e uma imagem de superioridade que se torna intolerável para outros estados da mesma federação.

Lembram nosso hino? E nele que se fala em “sirvam nossas façanhas de modelo à toda a Terra”... Portanto, como uma luva, nos aplicam, a forma do exagero e da megalomania.

É assim que nos vêem.

Estados que mantém conosco alguma rivalidade histórica, pela proximidade ou por alguma divergência política e econômica, são ainda mais ressentidos com o nosso sucesso, com a nossa “mania” de trabalho, com a nossa constante profissão de fé na honestidade.

Arrogantes, é o que somos. Pagamos um preço alto pelo desenvolvimento constante e pelo fato de havermos demarcado estas fronteiras do sul à base da espada e da pata de cavalo, como todos sabemos aqui.

É difícil ser gaúcho e mais ainda pagar com a vida, com o sangue dos nossos filhos, pela incompetência e pela inveja de coirmãos e isso vale do futebol, até às companhias aéreas...

Assim sendo, nosso discurso de hoje, é pela tolerância, pela compreensão, pela superioridade que se conquista através do aperfeiçoamento e da dedicação ao estudo e ao trabalho. É por isso que não dá para aceitar esta proposta de diminuição de categoria do nosso ensino estadual. É só apostando nele que manteremos para os próximos séculos o patamar de desenvolvimento moral do rio-grandense, um patrimônio sem igual, realmente invejável e admirável. Esta semana perdemos Hugo Ramirez, ex-presidente da Academia Rio-Grandense de Letras, poeta e cantor desta grandeza.








UMA FRATURA HISTÓRICA
Walter Galvani, em 02/08/2007

Crônica publicada
no jornal
Diário de Canoas


vUM ACIDENTE E UMA LEMBRANÇA



Walter Galvani





O ano era 1940 e eu, menino de seis anos, destilava meu suor e minhas energias

debaixo do caramanchão (quem sabe o que é isto, hoje?) dos meus pais, na rua Cel.Vicente, 376, ali, naquela rua que desce ao lado da igreja São Luiz..

De repente, dei um salto e apoiei meu pé direito sobre uma lata de querosene Jacaré. O resultado foi o que o leitor imagina: a lata virou, deu no meu pulso direito e o braço quebrou-se. Hoje sei que o osso quebrado havia sido o “radio”, que faz dupla com o cúbito. Sei hoje por que o médico que me atendeu por outro acidente doméstico, agora em Florianópolis, e me garantiu um prognóstico otimista, o fato de haver quebrado aquele ossinho há 67 anos atrás, me encaminhou para a difícil luxação na Una que apresento hoje. E, disse-me ele, fui premiado por que não fumo desde os 29 anos. Há 64, portanto.

Coisa boa, corro pelas ladeiras da memória, lembrando que o acidente de 1940 me levou ao consultório do Dr. Victor Ludwig, onde descobri a bondade humana e graças à uma trama que ele e eu fizemos, abriu-me o caminho para a leitura (que me estava proibida) de histórias em quadrinhos. Grande conquista na época e que hoje em dia seria vista como uma trivialidade e um absurdo. Mas, que vitória!

Abriu-se o caminho para a imaginação, para a leitura, para a criatividade.

Hoje, lembro com saudade que foi a minha combinação com o Dr. Victor que me propiciou o convencimento sobre meu pai que entendia como um desperdício a busca de leituras marginais ao invés de me encaminhar logo pelo estreito caminho do dever. Valeu, no entanto, e como.

Já a fratura me liga ao acidente de hoje. Fico com o braço engessado por mais uns quinze dias, mas só a lembrança daquela tarde gris de 1940 já chega para me devolver a vontade de viver e de enfrentar os desafios. (Quem disse que não sei digitar com a mão esquerda, usando a direita para dois ou três toques? Pois é...)

Acho que foi então que perdi um pedaço da minha inocência, mas isso me valeu também para começar a entender o vasto mundo com todos seus descaminhos. Eu tinha aprendido a enganar meus pais...

Pena que não dei com os burros na água logo de saída...

Hoje, 67 anos mais tarde, estou pagando o preço do castigo com este gesso incômodo que me adverte e pune. E é isso que pensarei nos subseqüentes doze dias de pena que me restam.

É um mandamento da lei de Deus ou dos deuses que os verdadeiros homens precisam respeitar, honrar pai e mãe.




UM VÔO QUE NÃO TERMINA
Walter Galvani, em 29/07/2007

Ainda não aterrissamos

QUESTÃO DE HONRA



Walter Galvani





Há muito tempo que não se vê um alto dirigente da nação anunciar publicamente que o erro foi seu, que já nem nos surpreende mais saber que ninguém assumirá oficialmente os erros que levaram ao sucateamento da aviação comercial brasileira, a crise dos controladores de vôo e os sucessivos acidentes que mostram a deficiência da infra-estrutura dos nossos aeroportos. Brasileiramente, adotamos a melhor solução: viajar de avião, quanto menos, melhor. Isso que o transporte aéreo nesse país, já foi o símbolo da segurança e da cuidadosa manutenção. Sou do tempo em que vinham de longe os aviões para serem cuidados no pátio da antiga Varig, aliás, companhia tão estimada pelos rio-grandenses que se dizia que “o sonho de todo gaúcho é ser cavalo ou avião da Varig”... para situar com precisão o cuidado com a conservação, a qualidade da manutenção dispensada, junto com um amor inexcedível ao “pingo” e ao avião daquela empresa. Depois disso, o gaúcho desembarcou dos dois veículos... tornou-se “o gaúcho a pé” e a Varig foi sucateada e vendida a preço de banana, apesar do governo dever-lhe uma nota federal que a tiraria do chão a qualquer momento.

Agora é a vez da TAM, na verdade é a vez dos passageiros, é a nossa vez. Somos os culpados prováveis pelo caos da aviação civil brasileira, fazendo exigências absurdas como segurança de vôo, melhor infra-estrutura de aeroportos, pistas mais compridas, já que os aviões também cresceram, controladores em número maior, tudo é culpa dos passageiros que agora fugirão dos vôos, e então diminuirão os vôos e baixarão as tarifas.

As questões de honra saíram de moda, estão premiando a traição, eufemisticamente denominada “delação premiada” e a culpa pelas três derrapagens seguidas de aviões até que se produzisse a tragédia mais anunciada da nossa história, será provavelmente das aeronaves, dos pilotos, dos controladores, mas nunca das autoridades que liberam pistas sem condições, tumultuam o próprio sistema ou não fiscalizam. Ninguém vai praticar o harakiri, isso não pega no Brasil.

Estão voando demais, a população faz exigências absurdas, os pilotos querem ganhar muito, a Varig cresceu demais durante a ditadura militar, “engoliu” a Panair, gaúcho é muito presunçoso e controlador de vôo pensa que pode controlar os céus brasileiros e as cidades não tinham nada que crescer e sufocar os aeroportos. Portanto, esperem que vem aí o salvador desta pátria falida. Adeus Redecker, Souza, Waldemarina, Rebeca, Taís e os outros todos. Vocês é que erraram.







PARA QUEM PERDE A HONRA, A SAÍDA É O HARAKIRI
Walter Galvani, em 19/07/2007

Leiam, para recordar,
como os japoneses
solucionam as questões,
digamos insolúveis...
da consciência.
Pensem nisso, senhores
administradores do
espaço aéreo (e terrestre...)
brasileiro.
Remember Congonhas!


Harakiri é um dos mais intrigantes e fascinantes aspectos do código de honra do samurai: consiste na obrigação ou dever do samurai de suicidar-se em determinadas situações, ou quando julga ter perdido a sua honra. Significa literalmente "corte estomacal". Esse suicídio ritual também é chamado de seppuku.

Várias circunstâncias podiam levar o samurai a praticar o harakiri.

Entre elas:

- Como castigo e forma de recuperar a sua honra pessoal, uma vez que esta foi perdida em alguma atitude indigna do nome de sua família e de seus ancestrais;

- A fim de evitar ser prisioneiro em campos de batalha, pois era considerado imensa desonra entre os samurais se render ao adversário; assim, eles preferiam renunciar à vida do que entregar-se a mãos inimigas. Além disso, a rendição também não era uma boa escolha, pois os presos eram quase sempre torturados e maltratados;

- Em um ato de pura lealdade, o samurai chega a se matar para chamar a atenção de seu senhor (daimiô) a algo de errado que ele venha fazendo, advertendo-o. Alguns samurais também se suicidavam ao ver o declínio dos seus senhores, ou mesmo quando estes morriam, como forma de acompanhá-los eternamente e seguir o preceito de que um samurai não serve a mais de um daimiô em sua vida.

O ritual do harakiri era praticado da seguinte forma:

O samurai banhava-se, de forma a purificar o seu corpo e a sua alma e dirigia-se ao local de execução, onde se sentava à maneira oriental. Pegava então sua espada curta (wakizashi), ou um punhal afiado e enfiava a arma no lado esquerdo do abdômen, cortando a região central do corpo e terminava por puxar a lâmina para cima. Era importante o corte ser no abdômen, pois era considerado o centro do corpo, das emoções e do espírito para o povo japonês.

Assim, o samurai estaria literalmente cortando a sua "alma".

Importante também era para o samurai escrever um poema de morte, que era uma pequena composição poética onde o guerreiro deixava registradas as suas últimas impressões do mundo, algum desejo oculto ou simplesmente uma despedida formal.

A morte por evisceração era lenta e dolorosa, e podia levar horas. Apesar disso, o samurai devia mostrar absoluto controle de si mesmo, não podendo dar sinais de dor ou medo.

Ao lado do suicida ficava um amigo ou parente, o kaishakunin, que portava uma espada. Era uma espécie de assistente do ritual; se o samurai demonstrava não estar mais suportando a dor, o kaishakunin dava-lhe o golpe de misericórdia, decepando sua cabeça.

Seria considerada imensa falta de respeito se a cabeça do samurai rolasse diante de seus parentes, que geralmente também assistiam à execução. Por causa disso o kaishakunin devia acertar o pescoço do samurai de modo a deixar a sua cabeça pendendo, para que esta não fosse degolada. Assim, o kaishakunin devia ser um exímio espadachim, pois não poderia falhar em sua atuação. Era uma função considerada honrosa.

Tornou-se costume entre as famílias de samurais ensinar o filho homem, na véspera de ingressar na vida adulta, o modo exato de se praticar o seppuku.

Nem sempre o ritual era seguido à risca com todos os seus detalhes. Em alguns casos extremos como em campos de batalha, onde não havia tempo para tais preparos, o samurai abandonava a vida apenas enfiando a espada em sua barriga.

O primeiro harakiri registrado na história data de 1170, quando Minamoto Tametomo, figura quase lendária do clã Minamoto, suicida-se após perder uma batalha contra o também famoso clã dos Taira.

O suicídio ritual tinha grande significado para o povo japonês. Vencendo o medo da morte, o samurai vencia também esse grande enigma da humanidade e destacava-se então das outras classes existentes na época. É esse mesmo espírito do samurai que levaram os pilotos suicidas (kamikases) a explodirem junto aos seus aviões durante a Segunda Guerra Mundial.

Infelizmente, ainda hoje o suicídio é visto por alguns japoneses como a melhor forma de se recuperar a honra perdida. Daí se explica o constante suicídio de empresários falidos, estudantes que não conseguiram bons resultados, etc...
Harakiri é um dos mais intrigantes e fascinantes aspectos do código de honra do samurai: consiste na obrigação ou dever do samurai de suicidar-se em determinadas situações, ou quando julga ter perdido a sua honra. Significa literalmente "corte estomacal". Esse suicídio ritual também é chamado de seppuku.

Várias circunstâncias podiam levar o samurai a praticar o harakiri.

Entre elas:

- Como castigo e forma de recuperar a sua honra pessoal, uma vez que esta foi perdida em alguma atitude indigna do nome de sua família e de seus ancestrais;

- A fim de evitar ser prisioneiro em campos de batalha, pois era considerado imensa desonra entre os samurais se render ao adversário; assim, eles preferiam renunciar à vida do que entregar-se a mãos inimigas. Além disso, a rendição também não era uma boa escolha, pois os presos eram quase sempre torturados e maltratados;

- Em um ato de pura lealdade, o samurai chega a se matar para chamar a atenção de seu senhor (daimiô) a algo de errado que ele venha fazendo, advertendo-o. Alguns samurais também se suicidavam ao ver o declínio dos seus senhores, ou mesmo quando estes morriam, como forma de acompanhá-los eternamente e seguir o preceito de que um samurai não serve a mais de um daimiô em sua vida.

O ritual do harakiri era praticado da seguinte forma:

O samurai banhava-se, de forma a purificar o seu corpo e a sua alma e dirigia-se ao local de execução, onde se sentava à maneira oriental. Pegava então sua espada curta (wakizashi), ou um punhal afiado e enfiava a arma no lado esquerdo do abdômen, cortando a região central do corpo e terminava por puxar a lâmina para cima. Era importante o corte ser no abdômen, pois era considerado o centro do corpo, das emoções e do espírito para o povo japonês.

Assim, o samurai estaria literalmente cortando a sua "alma".

Importante também era para o samurai escrever um poema de morte, que era uma pequena composição poética onde o guerreiro deixava registradas as suas últimas impressões do mundo, algum desejo oculto ou simplesmente uma despedida formal.

A morte por evisceração era lenta e dolorosa, e podia levar horas. Apesar disso, o samurai devia mostrar absoluto controle de si mesmo, não podendo dar sinais de dor ou medo.

Ao lado do suicida ficava um amigo ou parente, o kaishakunin, que portava uma espada. Era uma espécie de assistente do ritual; se o samurai demonstrava não estar mais suportando a dor, o kaishakunin dava-lhe o golpe de misericórdia, decepando sua cabeça.

Seria considerada imensa falta de respeito se a cabeça do samurai rolasse diante de seus parentes, que geralmente também assistiam à execução. Por causa disso o kaishakunin devia acertar o pescoço do samurai de modo a deixar a sua cabeça pendendo, para que esta não fosse degolada. Assim, o kaishakunin devia ser um exímio espadachim, pois não poderia falhar em sua atuação. Era uma função considerada honrosa.

Tornou-se costume entre as famílias de samurais ensinar o filho homem, na véspera de ingressar na vida adulta, o modo exato de se praticar o seppuku.

Nem sempre o ritual era seguido à risca com todos os seus detalhes. Em alguns casos extremos como em campos de batalha, onde não havia tempo para tais preparos, o samurai abandonava a vida apenas enfiando a espada em sua barriga.

O primeiro harakiri registrado na história data de 1170, quando Minamoto Tametomo, figura quase lendária do clã Minamoto, suicida-se após perder uma batalha contra o também famoso clã dos Taira.

O suicídio ritual tinha grande significado para o povo japonês. Vencendo o medo da morte, o samurai vencia também esse grande enigma da humanidade e destacava-se então das outras classes existentes na época. É esse mesmo espírito do samurai que levaram os pilotos suicidas (kamikases) a explodirem junto aos seus aviões durante a Segunda Guerra Mundial.

Infelizmente, ainda hoje o suicídio é visto por alguns japoneses como a melhor forma de se recuperar a honra perdida. Daí se explica o constante suicídio de empresários falidos, estudantes que não conseguiram bons resultados, etc...
Harakiri é um dos mais intrigantes e fascinantes aspectos do código de honra do samurai: consiste na obrigação ou dever do samurai de suicidar-se em determinadas situações, ou quando julga ter perdido a sua honra. Significa literalmente "corte estomacal". Esse suicídio ritual também é chamado de seppuku.

Várias circunstâncias podiam levar o samurai a praticar o harakiri.

Entre elas:

- Como castigo e forma de recuperar a sua honra pessoal, uma vez que esta foi perdida em alguma atitude indigna do nome de sua família e de seus ancestrais;

- A fim de evitar ser prisioneiro em campos de batalha, pois era considerado imensa desonra entre os samurais se render ao adversário; assim, eles preferiam renunciar à vida do que entregar-se a mãos inimigas. Além disso, a rendição também não era uma boa escolha, pois os presos eram quase sempre torturados e maltratados;

- Em um ato de pura lealdade, o samurai chega a se matar para chamar a atenção de seu senhor (daimiô) a algo de errado que ele venha fazendo, advertendo-o. Alguns samurais também se suicidavam ao ver o declínio dos seus senhores, ou mesmo quando estes morriam, como forma de acompanhá-los eternamente e seguir o preceito de que um samurai não serve a mais de um daimiô em sua vida.

O ritual do harakiri era praticado da seguinte forma:

O samurai banhava-se, de forma a purificar o seu corpo e a sua alma e dirigia-se ao local de execução, onde se sentava à maneira oriental. Pegava então sua espada curta (wakizashi), ou um punhal afiado e enfiava a arma no lado esquerdo do abdômen, cortando a região central do corpo e terminava por puxar a lâmina para cima. Era importante o corte ser no abdômen, pois era considerado o centro do corpo, das emoções e do espírito para o povo japonês.

Assim, o samurai estaria literalmente cortando a sua "alma".

Importante também era para o samurai escrever um poema de morte, que era uma pequena composição poética onde o guerreiro deixava registradas as suas últimas impressões do mundo, algum desejo oculto ou simplesmente uma despedida formal.

A morte por evisceração era lenta e dolorosa, e podia levar horas. Apesar disso, o samurai devia mostrar absoluto controle de si mesmo, não podendo dar sinais de dor ou medo.

Ao lado do suicida ficava um amigo ou parente, o kaishakunin, que portava uma espada. Era uma espécie de assistente do ritual; se o samurai demonstrava não estar mais suportando a dor, o kaishakunin dava-lhe o golpe de misericórdia, decepando sua cabeça.

Seria considerada imensa falta de respeito se a cabeça do samurai rolasse diante de seus parentes, que geralmente também assistiam à execução. Por causa disso o kaishakunin devia acertar o pescoço do samurai de modo a deixar a sua cabeça pendendo, para que esta não fosse degolada. Assim, o kaishakunin devia ser um exímio espadachim, pois não poderia falhar em sua atuação. Era uma função considerada honrosa.

Tornou-se costume entre as famílias de samurais ensinar o filho homem, na véspera de ingressar na vida adulta, o modo exato de se praticar o seppuku.

Nem sempre o ritual era seguido à risca com todos os seus detalhes. Em alguns casos extremos como em campos de batalha, onde não havia tempo para tais preparos, o samurai abandonava a vida apenas enfiando a espada em sua barriga.

O primeiro harakiri registrado na história data de 1170, quando Minamoto Tametomo, figura quase lendária do clã Minamoto, suicida-se após perder uma batalha contra o também famoso clã dos Taira.

O suicídio ritual tinha grande significado para o povo japonês. Vencendo o medo da morte, o samurai vencia também esse grande enigma da humanidade e destacava-se então das outras classes existentes na época. É esse mesmo espírito do samurai que levaram os pilotos suicidas (kamikases) a explodirem junto aos seus aviões durante a Segunda Guerra Mundial.

Infelizmente, ainda hoje o suicídio é visto por alguns japoneses como a melhor forma de se recuperar a honra perdida. Daí se explica o constante suicídio de empresários falidos, estudantes que não conseguiram bons resultados, etc...




DELAÇÃO PREMIADA OU O PRÊMIO Á COVARDIA E À TRAIÇÃO
Walter Galvani, em 15/07/2007

Crônica publicada no
ABC DOMINGO,
órgão lider do
Grupo Editorial Sinos


UM PRÊMIO À TRAIÇÃO

Walter Galvani





Em todo o arsenal que se descobriu para combater a corrupção, o mais terrível, algo assim como tentar curar a ferida com o veneno da própria cobra, é o instrumento da delação premiada.

Premiar tal gesto de covardia e falta de integridade moral, até mesmo no crime, é um dos desvãos mais assustadores do comportamento humano. Não digo que não o utilizem, até porque, regulamentado tornou-se prática comum pelos organismos investigativos. Tenta-se seduzir o culpado, dizendo-lhe que se contar tudo, revelando o nome dos comparsas, teria um tratamento especial. Quer dizer: acena-se com a diminuição da punição, com a atenuação das culpas, através de um mecanismo altamente imoral e condenável. Confesse, delate, sua culpa vai diminuir. E estou assombrado que se trate isso, com a maior desfaçatez, com a maioria das pessoas aplaudindo a “inteligência” de quem é capaz de chegar a este ponto e aos que legislaram sobre o assunto, criando a figura da “delação premiada”.

Venho de um tempo em que ser delator era um crime horrível, a ser punido talvez com a própria morte, pelo menos com o esquecimento total e completo pela comunidade, do indivíduo que fora capaz de tão lamentável procedimento. Foi assim que aprendi, e com meus pais, avós, com os meus amigos, passei a praticar o caminho contrário. “Amigo não se discute, se defende”, dizia eu nos exageros da juventude, mas que mostram que outrora o sol brilhava sobre nossas cabeças.

Líamos “O Delator”, romance inesquecível de Lian O’Flaherty e dito isso, digo tudo. Procurem-no em algum “sebo”, onde tantas obras primas repousam ou numa biblioteca pública. Procurem, repito, numa dessas livrarias que reabastecem a população com o que há de melhor na cultura humana e que foi expelido pela falta de lugar nos minúsculos apartamentos gerados pela fúria imobiliária, onde não se pode sequer armazenar algumas centenas de volumes. Mas, voltemos ao delator. Figura desprezível, de um covarde que para safar a própria pele, denuncía os companheiros e com isso vê diminuída a sua própria punição E a isso se chama, “delação premiada”! Não esqueçam que seu crime não mudou. Não cometeu uma ação menor, ou pelo menos, não tão culposa. A culpa continua a mesma, os danos seguem os mesmos, só que com o ouro sujo da traição, o covarde, incapaz de responder pelos seus atos, se beneficiou. A que triste estado chegamos em nossa sociedade. Uma recompensa ao traidor, um prêmio à traição!










LEIAM, LEIAM, LEIAM
Walter Galvani, em 14/07/2007

Não se envergonhe de ler o "Harry Potter", o sétimo livro.
Mas, leia.


VOCÊ LEMBRA DO TARZAN?
Walter Galvani



Há muito de hipocrisia e esquecimento, talvez alguma pitada de reacionarismo e cinismo nesses que detestam o sucesso de personagens populares, tipo “senhor dos anéis” ou “Harry Potter”, para lembrar o que estará chegando às livrarias no dia 20. Aliás, as que trabalham com encomendas virtuais estão com as listas lotadas e logo começarão a fazer as entregas. Muitas dispensam frete.

Vai chegar caro o novo Harry Potter, em primeiro lugar porque se trata de edições em inglês, importadas dos Estados Unidos, a 159,60 e da Inglaterra, a 144,00 reais.

É o sétimo livro de J.K.Rowling, a mulher que estava quebrada e não encontrava editor e agora já vendeu 325 milhões de exemplares dos livros com o personagem que inventou.

Eu não li, confesso que já tentei e não consegui, mas não condeno as pessoas que gostam de “Harry Potter”, pois, afinal de contas, isso significa leitura. E o mais importante é ler. Sempre. O livro é a base de tudo, é o alicerce da sociedade.

Além do mais, como poderia eu falar mal de quem lê livros de aventura, mistério ou magia, se eu próprio, quando jovem, consumi todos os Tarzans que surgiram na velha Coleção Terramarear, da editora Nacional? Aqui no Brasil, os livros de Edgar Rice Burroughs faturaram tanto quanto hoje Tolkien (com “O senhor dos anéis”) ou Rowling (com o pequeno “Harry”). Li um atrás do outro, “Tarzan na Ilha do Tesouro”, “Tarzan e as formigas”, “Tarzan o Rei da Selva”, “Tarzan, rei dos macacos”, e tantos mais que esqueci. Parece-me que eram 25. Ora, o Potter está apenas chegando ao sétimo, assim como o filme, que também estreou esta semana e que está na quinta película.

Ora, dizer que se detesta uma coisa que se tornou popular, é cinismo puro. Prefiro que comecem por aí, a que se iniciem com a violência, a droga ou o preconceito.

A ensaísta Rosa Sílvia Lopes escreveu sobre estes fenômenos literários e denominou seu ensaio “O poder mágico das palavras”. Eu também acho, embora tenha apanhado efeitos contrários, pois esta arma ensurdecedora, levada pela força do vento, às vezes nos derruba. Mas, que arma! Basta saber usá-la. A crônica, por exemplo, o que é? O resultado da magia das palavras.

Elas são como lanças. Direto ao coração.
















AS 7 MARAVILHAS
Walter Galvani, em 11/07/2007

Fazer listas, eis uma idéia que deve ter nascido com o surgimento da relação das "7 Maravilhas do Mundo Antigo"... ou seja, no ano 200 A.C mais ou menos...

UMA BOA IDÉIA E A SUA

EXPLORAÇÃO POLÍTICA

E COMERCIAL



Walter Galvani



Ninguém vai dizer que a seleção das “7 Maravilhas do Mundo Moderno”, ainda mais quando é tornada pública num dia “cabalisticamente correto”, como o 7 de julho (mês sete) de 2007. não seja uma boa idéia, sob todos os pontos de vista, inclusive aqueles promocionais, comerciais ou de simples absorção de interesse público.

Em todo o mundo, praticamente, se fala do assunto desde a noite de sábado, quando raríssimos canais de televisão (no Brasil foi só a RedeTV), mas na certa todos os jornais de domingo (a não ser os que circulam com data de domingo no próprio sábado à tarde, nesse caso impedidos materialmente de fazê-lo) divulgaram os nomes das novas “maravilhas do mundo” eleitas na base de toques de celulares (telemóveis, como se denomina em Portugal) e votos por Internet.

O belíssimo estádio da Luz, sede do Benfica de Lisboa, ganhou uma divulgação extra e serviu de base para um espetáculo capenga (se é que foi só o que foi transmitido para o Brasil) onde o perfil da atriz Jennifer Lopez parecia ser o da maior estrela presente, mas pouco convincente, diga-se de passagem, a não ser por sua beleza. Mas, o que estava em questão no momento seria a sua voz...Como disse minha netinha de quatro anos, a Isabella, “sem dúvida uma bela cantora” e mais não disse porque achou que havia dito tudo. E havia mesmo.

O que ninguém cantou e de um modo geral se ficou devendo ao público, foi quem inventou, com que razões e objetivos, o tal pleito.

Ao que se sabe, trata-se de um cineasta suíço Bernard Weber, que pretendeu criar um maxi-evento para sacudir toda a terra. Ele tem aliás a pretensão de abalar os terráqueos com seus livros e filmes.

A lista nascida da duvidosa votação por e-mail e por telemóveis, pela ordem de apresentação, foi a seguinte:

A Grande Muralha da China

A cidade arqueológica de Chichén Tzá (México)

O Cristo Redentor, no Rio de Janeiro

As ruínas de Petra, na Jordânia, cidade esculpida na pedra pelos romanos.

Machu Pichu, em Cuzco, no Peru

O Coliseo, de Roma.

O Taj Mahal, na Índia.

Ora, assim como surgiram estes aí, é óbvio que estava certa a UNESCO (Organização para a Ciência e a Cultura das Nações Unidas) em dizer que não se pode limitar em apenas sete, as maravilhas do mundo moderno, como de certo não se poderia limitá-las em sete quando foram enumeradas por alguém, na altura do segundo século antes de Cristo, com relação ao chamado “mundo antigo”.

Veja-se com que felicidade se enumera outras tantas maravilhas:

Os colossos da ilha de Páscoa

A cidade árabe de Alhambra, em Granada, Espanha

O teatro moderno de Sidney, Austrália

A Torre Eiffel, em Paris

A Estátua da Liberdade em Nova Yorque

A Esfinge de Gisé, no Egito

O complexo de templos do Kremlim, em Moscou.

E que lista mais poderia seguir-se à esta!

Como:

A catedral de Santa Sofia em Istambul

O templo de Kaaba, na Arábia Saudita

A catedral de Notre Dame, em Paris

A catedral de Veneza

A própria cidade de Veneza, edificada sobre centenas de ilhas.

O colosso de Stonehenge na Inglaterra

A Acrópole de Atenas

O complexo de Angkor Wat no Camboja

E tantas outras coisas construídas pelos humanos. De propósito vamos parar por aqui para não sermos tentados a reproduzir a relação das coisas maravilhosas destruídas pelos humanos, lembrando que apenas as Pirâmides do Egito sobrevivem da lista inicial, a tal criada antes de Cristo e que incluía:

O Farol de Alexandria

O Colosso de Rodes

O templo de Artemis

O mausoléu de Halicarnassus

Os jardins suspensos da Babilônia

A estátua de Zeus

Tantos foram os viajantes, guerreiros, filósofos e escritores que se maravilharam diante destas jóias que a tradição perpetuou-as e originou esta nova lista na cabeça dos humanos, o que já fora, aliás, tentado em outras oportunidades, mas seguramente como em 2002, por exemplo.

Bernard Weber, diretor de documentários cinematográficos e escritor suiço, resolveu agora tornar-se ele próprio uma das maravilhas do mundo moderno e lançou esta competição que, bem ou mal, com a mídia moderna terá grande repercussão.

Pessoalmente continuo me deslumbrando com o Colosso de Rodes e o Farol de Alexandria, que iluminam meu pensamento e vivem na minha imaginação. E se tivesse que fazer escolhas, fugiria quase que completamente à lista aprovada, ou, pelo menos multiplicá-la-ia por cinco ou seis.

Quanto a Bernard Weber, este sim terá sua fortuna multiplicada. Ele diz que foi assistente de Federico Fellini, quando tinha 15 anos de idade e que muito aprendeu com o mestre italiano do grande cinema das décadas de 60 e 70 do século passado.

Na certa que a obra do próprio Fellini merecia uma preservação com a classificação de “maravilha do mundo moderno”.

Já o senso comercial de Bernard Weber, quem sabe...
















"CRISTO REDENTOR" CHEGOU LÁ...
Walter Galvani, em 07/07/2007

No estádio do Benfica, em Lisboa, surgiram:

AS SETE MARAVILHAS DO
MUNDO MODERNO

Walter Galvani

Criamo-nos ouvindo falar nas “7 Maravilhas do Mundo Antigo” e, embora delas distantes e talvez impedidos por vários motivos de ver o que restava de algumas delas, já destruídas, sabíamos a lista, de cor:
O templo de Ártemis
Os jardins suspensos da Babilônia
O mausoléu de Halicarnassus
O Colosso de Rodes
O Farol de Alexandria
A estátua de Zeus
As pirâmides do Egito
Neste sábado, no estádio da Luz, “casa” do Benfica de Lisboa, foram anunciadas as “7 Maravilhas do Mundo Moderno”, fruto de uma votação feita através da Internet, mas nem por isso menos expressiva que a relação antiga surgida em torno do ano 200 Antes de Cristo.
Esta nova lista, 2.207 anos depois, traz alguma luz e muita curiosidade, muita polêmica e uma sadia preocupação, bem melhor do que saber de assaltos e crimes, e que pode, momentaneamente, ocupar os espaços da “mídia”. Para início de conversa, é bom saber que há vida inteligente longe das grandes redes...
Mas, vamos aos “aprovados” deste sábado:
Muralha da China
Cidade de Petra, esculpida na pedra na Jordânia
A estátua do Cristo Redentor, na baia da Guanabara, Rio, Brasil
Ruínas de Machu Pichu, Peru
Cidade de Chichén Itzá, na península de Yucatan, no México.
Coliseu, em Roma, Itália.
Aí se alinham, portanto, um estádio, um templo, uma cidade esculpida na pedra, uma imagem de Deus (como fora um Zeus antigamente), a longa muralha da China (protetora e separadora, como tantas de hoje em dia, leia-se México e Palestina...) um mausoléu, como é o Taj Mahal, como o foi o de Halicarnassus.
A UNESCO eximiu-se de qualquer responsabilidade e o Egito pediu que não fossem consideradas suas pirâmides, porque elas já estavam na relação das antigas maravilhas e ainda teve a inspiração de pedir que a Organização para a Ciência e a Cultura das Nações Unidas pensasse em organizar uma lista com bases científicas, com vistas ao patrimônio histórico e artístico e não um resultado de votações por Internet, onde, evidentemente a divulgação e as questões de número influiriam. Como influíram.
Basta percorrer a lista a sentir a falta do teatro de Sidney ou da estátua da Liberdade, ou da Torre Eifell ou do Kremlin. Mas, a lista iría, é claro, muito além de 7, de 21 ou de 121.
Quem não teria hoje uma relação dessas para substituir os escolhidos pela votação popular? Em todo o caso, foi um bom começo.
Vamos nos preparar para os casos de substituição e polêmica. E fez muito bem o Felipão em prestigiar o ato. Pelo menos alguém do Brasil para representar o “Cristo Redentor”...




UMA FEIRA DE LIVROS EM CANOAS
Walter Galvani, em 05/07/2007

Como é em minha tera natal, estou mais do que preocupado.
Mas acho que a diretora cultural do município, Ivone Frare, achou o caminho certo.
Esta crônica foi publicada hoje no jornal Diário de Canoas:


A SACOLA DA CULTURA

Walter Galvani

Penso exatamente como o Juremir Machado da Silva: não é uma boa medida esta história de cotas nos vestibulares para negros, deficientes, etc e tal. O certo é dar tais condições ao ensino básico, o nosso antigo primário, que os negros, os deficientes, os pobres, chegarão aos exames nas mesmas condições dos brancos, ricos, alemães, italianos, etc... Mais ainda: com o tempo, acabar com os vestibulares, este sim é o caminho. Também acho, como ele aliás, que no entanto, enquanto isso, é preciso que os negros “metam o pé na porta” e nesse sentido, agiu de forma olimpicamente superior, o Reitor Magnífico da UFRGS, José Carlos Henemann, aliás, para orgulho da nossa família, com o mesmo sobrenome da minha avó materna, Alma Henemann.

Isso é para dizer que “dar a mão à palmatória” é um procedimento assás inteligente e eu louvo a Ivone Frare, diretora do Depto. de Cultura, por ter sido capaz de recolocar a Feira do Livro, agora em sua 23ª edição, de volta no Calçadão. Não sei se o Calçadão de Canoas merece a Feira do Livro, se merece a Ivone, se merece os livros e se ele próprio, se merece. Desconfio que não. Mas, não vale a pena discutir isso, a Ivone foi suficientemente lúcida para trazer a Feira de volta para o Calçadão, não importa quais foram as pressões. Vamos ver agora como a cidade responde. Quero saber dos números ao final, esvaziados de qualquer pontualismo.

E a Ivone Frare trouxe os livros para o Calçadão e mais e melhor ainda, levou-os às vilas e bairros distantes com a genial sacada das “sacolas de cultura”, com que atinge inicialmente 225 famílias do bairro Mathias Velho, cada uma portando 30 livros que passam como os santinhos de igreja e na volta recebem os livros lidos, para dar outro giro.

Este projeto iniciou na feira do livro do ano passado e era só para as escolas municipais. Agora, as sacolas vão até o fundo das necessidades familiares. Espero que as sacolas sejam felizes e que o povo as mereça. Desconfio muito que as sacolas voltem vazias... Se isso acontecer, viva os ladrões de livros! Afinal, uma cidade que já tem ladrões de livros está no bom caminho, porque eles só furtarão livros e ninguém morrerá baleado por acerto de contas. Isso, deixamos para os toxicômanos e os traficantes, que, aliás, estão a pedir uma ação do Exército Nacional, que seria benfazeja, já que, como no caso das cotas universitárias, o melhor é meter o pé na porta., agora. Depois se refaz o caminho. Começando pelos livros.







SOGIPA, 140 ANOS E A ATUALIZAÇÃO CULTURAL (Curso especial que tem forte tradição no grande clube porto-alegrense)
Walter Galvani, em 03/07/2007

A convite de Hipérides
Ferreira de Mello, vice-presidente cívico-cultural
da Sogipa, falei
para quase 100 mulheres.
Mais ou menos o seguinte:


A PESQUISA HISTÓRICA COMO RESGATE
E ATUALIZAÇÃO CULTURAL


Com este título, ficou marcada uma palestra para a Sogipa, dentro do Curso de Atualização Cultural realizado pelo clube, que deverei fazer no dia 2 de julho de 2007.

O que direi?

Partindo da idéia de pesquisa histórica que me levou (a mim e minha companheira Carla Irigaray) a Portugal durante o ano de 1998, pois imaginávamos que as comemorações dos 500 anos da descoberta oficial do Brasil ocupariam “corações e mentes” durante o ano 2000, pensamos (mudo para o plural, pois éramos dois com a mesma idéia) em realizar uma pesquisa para produzir um livro.
Quando deixamos o Brasil ainda não sabíamos bem o que nos esperava, nem o que resultaria da nossa proposta.
Antes de partir, esgotamos o que havia em matéria de bibliografia sobre o tema no Brasil e percebemos que havia um espaço para algo que fosse sério e de fato fizesse o resgate do que ocorreu no final do século XV.
Aliás, quem eram aqueles portugueses que chegaram ao nosso continente?
O que pretendiam eles?
Já sabiam da existência de terras nestes paralelos e meridianos?
Ou o mundo de fato “acabava” ali na altura dos Açores ou das ilhas do Cabo Verde?
Durante um ano e meio, antes do nosso embarque que se deu a 8 de março de 1998, (vejo hoje que coincidentemente na data de 8 de março, quando Pedro Álvares Cabral deixou Lisboa em 1500, aliás, logo ficamos sabendo dia 9, porque a frota ficou pronta para partir no dia 8, mas o vento (única fonte de energia na época) somente soprou no dia 9. Foi também a 9 que chegamos à Lisboa em 98, com todo o gás e a disposição de trazer uma contribuição original ao tema do Descobrimento.
Logo se viu que se estávamos atentos às condições históricas do período da descoberta oficial do Brasil, estávamos pouco informados a respeito das condições meteorológicas da nossa própria época, pois, chegamos à capital portuguesa, munidos de roupinhas leves para enfrentar a primavera e o verão europeus que estavam a chegar, mas esquecemos da ponta de inverno que ainda predominava no Velho Continente.
Quase morremos de frio, com o ventinho que teimava em retornar todas as tardes, naqueles saudosos tempos de Lisboa e, pior ainda, quando nos atrevemos a fazer a primeira viagem à Belmonte, terra natal de Pedro Álvares, uma jóia engastada no sopé da Serra da Estrela, onde os montes ainda ostentam o que então se chamava “neves eternas”. Aliás, não é bem no sopé, é na encosta das montanhas, e quem conhece o clima de Gramado e Canela pode bem imaginar o que foi...
O que também não sabíamos era que ao mergulhar na aventura lisboeta com os desdobramentos por outros sítios de Portugal e da Europa é que iríamos nos apaixonar completamente pela História, pelo tema escolhido e pelo personagem especial, um dos nossos “pais fundadores” como diria a Psicanálise.
Foi ele, aliás, quem me apareceu em sonhos, pois saibam que a visita na segunda etapa do sono, naquilo que se costuma classificar como “sono profundo”, um patamar em que o cérebro trata de arrumar as coisas para o dia-a-dia, mas isso muito mais adiante, quando em outubro ou novembro de 1998 me enterrava na redação do texto.
Minha mulher assustou-se com meu súbito despertar em plena madrugada e mais ainda quando, sentando-me na cama, exclamei: “Pedro!” ou nem disse nada, pois hoje misturo com a cena do “Hamlet”, de Shakespeare, quando aparece ao príncipe o espírito do seu pai – “O espírito do meu pai em armas!”, disse o príncipe da Dinamarca. E eu, vendo ali, quem sabe “meu pai” também, não pôde conter a emoção enquanto eu o via e escutava o que tinha para dizer.
Pedro Álvares Cabral com o dedo em riste , surgiu-me como nas efígies que antigamente ilustravam as notas do papel-moeda brasileiro, de perfil, com a barba pontuda, me ameaçava: “Não malbarates a minha herança!”
Ora, “malbaratar”, eis um verbo quinhentista, o que ajudava a dar legitimidade ao personagem que me surgira em sonhos, parido pela minha preocupação em escrever-lhe corretamente a história.
Tempos mais tarde, livro pronto, submeti-me ao que considerava o “supremo julgamento”. Enviei-o ao Prof. Bernardo Vasconcelos e Sousa, que havia conhecido em Lisboa, como “descendente direto e representante oficial da família Álvares Cabral”, 15º na linha sucessória, e que no ano da pesquisa dirigia o Arquivo Nacional Torre do Tombo, o principal arquivo histórico português. Eu lhe havia narrado o sonho, com grande preocupação e angústia e Bernardo, hoje um grande amigo que deixei no além mar, um “irmão transatlântico” como nos tratamos, me respondeu:
“Fique tranqüilo. O Walter não malbaratou a herança!”
Dito isso, tranqüilizei-me. O susto fora grande.

Pelo jeito, não pensaram da mesma maneira os portugueses, pois o livro, que foi grande sucesso no Brasil, alcançando seis edições em pouco menos de dois anos e ultrapassando hoje os 46.000 exemplares vendidos, o que é por qualquer parâmetro um legítimo “best seller” – em Portugal, onde foi lançado em primorosa edição da Gradiva, foi um rotundo fracasso. Até hoje, embora apresentado com toda a pompa e circunstância no castelo da família Cabral em Belmonte, não conseguiu vender muito mais de mil exemplares...
Explica-se e descobri na pesquisa, é claro, Cabral não é importante para os portugueses, apesar de todo o ouro que mandamos para lá durante dois séculos e meio.

Importante, esse sim, foi Vasco da Gama, o que “abriu o caminho para as Índias” e lançou Portugal no mercado internacional em 1497/98 e era o mais cotado para comandar a “maior frota que Lisboa jamais viu”, e, no entanto, foi preterido por Dom Manuel I, que escolheu nosso Pedro, honrando um convite do antecessor Dom João II e com isso “puniu” o Gama por algumas rebeliões que alimentava na sua região natal.

(A propósito: vocês conhecem algum clube de futebol o nome de Pedro Álvares Cabral? Não? Mas “Vasco da Gama” todo mundo sabe, não é mesmo? E assim é, pelo mundo afora, pelos outros sete países da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) ou pelos pontos dispersos da diáspora portuguesa, que vão de Macau (na China) a Goa, Damão e Diu na Índia, ou França, Alemanha e Inglaterra na Europa.

Mas quem era Pedro Álvares Cabral, porque fora ele o escolhido, o que mais fez pela coroa portuguesa, o que fizera antes, como foi a sua meninice, sua adolescência, sua juventude, se estudou onde o fez e em que guerras andou.
Temo estar me perdendo, faltou-me um astrolábio, o que sobrava aos navegadores portugueses daqueles tempos. A tecnologia de que dispunham transformava Portugal no país mais desenvolvido da Europa neste período, Lisboa era uma capital atrativa e rica, posição que conservou até cair sob o domínio da Espanha, e, depois da Restauração em 1680, pelo menos até o terremoto de 1755, período em que foi perdendo um pouco de sua importância, sempre com a independência em risco por causa da idéia do “Iberismo”, até chegar à condição de hoje, quando ocupa um dos últimos vagões da Europa, (embora isso não queira dizer que esteja atrás do... Brasil por exemplo), em termos internacionais.

Temos mais habitantes mas falamos todos, com as pequenas diferenças regionais de acento ou preferências vocabulares, a “língua portuguesa”.
Todos nos entendemos.
Costumo dizer que o futebol, o cafezinho e a língua portuguesa nos unem completamente.

Poderíamos ser (com nossos mais de 180 milhões de habitantes) os líderes naturais da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa) mas desprezamos este pedestal, em troca da indiscutível liderança futebolística ou da saudosa música popular e do próprio espírito que conduz à renovação de língua e costumes, embora pudéssemos nos abster com vantagem da exportação da malandragem e da violência, modelos que nos envergonham perante a comunidade mundial, mas que estão indiscutivelmente ligados ao comportamento brasileiro.

Não somos melhores do que ninguém, mas então porque nos orgulhamos tanto e do que nos orgulhamos tanto? Pode-se dizer que o deslumbramento nacional começou com a própria carta de Pero Vaz de Caminha, nosso primeiro cronista, que escreveu uma notável carta que é uma preciosa reportagem e que escancara a admiração dos europeus por nossas matas, nossos rios, nossos mares e ... nossas “índias”...
Foi ele, aliás, um notável cidadão da cidade do Porto, onde era o escrivão oficial da Câmara, quem inaugurou a idéia depois ampliada e trombeteada da “Europa se curva ante o Brasil” e foi a malandrice tropical que ele logo percebeu na Bahia, depois chamada Cabrália, no Porto Seguro e mais tarde na Bahia de Todos os Santos, que passou a predominar no pensamento e no procedimento brasileiro.

Dom João VI que o diga, que veio para cá fugindo estrategicamente de Napoleão, aliás a conselho da Inglaterra, a eterna aliada de Portugal, e apaixonou-se pelo Brasil.
Voltou obrigado, jungido pelas exigências das cortes portuguesas. Deixou o filho a quem mandou que colocasse na própria cabeça a coroa do Brasil, “antes que algum aventureiro o faça”, como foi historicamente claro e só reconheceu a nossa independência, quando foi ele reconhecido pelo Brasil, como monarca.
Seu filho era o Imperador, mas ele o Rei...

É bom ir adiante no resgate da nossa identidade, pois talvez assim seja mais fácil compreender o que se vive diariamente, o que se vê e se lê. Ou melhor: o que se vê, mas não se diz e o que se lê, mas não se comenta...
Mas, voltemos primeiro a 1500. É lá que estávamos.

Ou a 1998, quando voltamos aos sítios em que se formou nosso descobridor oficial, em busca da sua personalidade e da explicação das suas motivações e de seus contemporâneos e é assim que se faz a pesquisa histórica, como um resgate e em busca da atualização cultural.

Foi assim que percorremos o Zêzere, pequeno rio que se formava nos altos da Serra da Estrela e depois atravessava os campos e as encostas, por onde Pedro, um menininho, andava nos anos verdes de sua infância e juventude, a correr a pé e a andar a cavalo, seguindo seu irmão mais velho, o líder “da malta”, como diriam nossos irmãos lusitanos.
Molhava seus “pezitos” naquele pequeno rio, talvez próximo da ponte onde hoje passa uma auto-estrada por onde emigram os descendentes dos seus amigos para trabalhar na França e na Alemanha.

E assim veremos, que para um resgate histórico, acabamos fazendo um trabalho de sapa, de escavação de origens e raízes, para descobrir ou redescobrir e assim explicar o que ficou para trás em nossa formação.

Aos poucos vamos balizando os acontecimentos e sempre que o fizermos, estaremos estabelecendo os pontos de identificação, esclarecendo e , logicamente, abrindo o espaço para a compreensão, para o entendimento, para a memória e, conseqüentemente, para a explicação dos atos que poderiam hoje nos assombrar.

Para tudo acharemos uma explicação convincente.
Este é o resultado iniludível de qualquer pesquisa histórica.
E com isso, refrescamos nossa memória. Restabelecemos nossos padrões, redescobrimos nossas raízes e fazemos luz sobre nossa conduta




ALMIRO ZAGO, ANOTEM O NOME
Walter Galvani, em 01/07/2007

No Diário Popular, o grande jornal da zona sul do estado, publico esta crônica e a poesia de um belo cronista que acompanho e recomendo:

REVELANDO UM POETA E CRONISTA

Walter Galvani


Muitas e muitas vezes, em nossa atividade jornalística e ou literária, enfrentamos o inesperado e agradável encontro com o talento. É preciso saber reconhecê-lo, seja no jovem que recém abre as asas para o primeiro vôo, seja no veterano que pratica o melhor de um nível que talvez nem suspeite haver atingido.

Almiro Zago, um deles. Um veterano, poderíamos dizer, longamente entregue a outras atividades e que me surgiu como “aluno” (e no entanto, o quanto aprendo com ele!) numa oficina de escrita criativa em que os “formandos” se autodenominaram “mecânicos da palavra”. Criaram até um “blog” do grupo, (http//www.mecanicosdapalavra.weblogger.terra.com.br/index.htm) onde, vez por outra surgem maravilhas como este poema do meu aluno-revelação:



ENTARDECER



“Vem

vamos revisitar

antigos outonos

com a sonata do vento

a soprar aromas

e sentir o que fomos.

Vem

a estação ainda demora

vamos de mãos dadas

andar sobre as folhas caídas

pelos caminhos de outrora.

Ao pôr-do-sol

das vinhas esquecidas,

uvas tardias colheremos

para suavizar a palavra,

adoçar o olhar

nas horas estremecidas.

Depois

agasalhados de esperança

meias de lã verde-mate,

esperemos o inverno

na varanda da memória

com chá de menta

e bolo de chocolate.”



Almiro Zago.



Não por acaso, aliás com este mesmo título, lá está no site, uma crônica de Camila Doval, também ela minha ex-aluna, daquelas e daqueles como o Camilo, que ultrapassam o mestre e enchem o professor de orgulho e satisfação.

Fico satisfeito em ver o quanto ainda é possível criar. Como diria Rosa Montero, autora de “A louca da casa”, na sua escrita mistura a experiência pessoal, a autobiografia e a ficção, porque “tudo o que conto neste livro sobre outros livros ou outras pessoas é verdade, quer dizer, responde a uma verdade oficial documentalmente verificável. Mas receio que não possa garantir o mesmo sobre o que se refere à minha própria vida. Porque toda a autobiografia é ficcional e toda ficção, autobiográfica, como dizia Roland Barthes.”

Almiro Zago, por certo no outono da vida como este seu professor (preferiria “companheiro de aprendizagem”) ainda nos terá muito para dar.

Espero estar presente no lançamento do livro de crônicas que prepara com carinho e esmero. Onde por certo figurarão também algumas experiências desta alta densidade poética demonstrada neste poema fundamental com que nos presenteou.









GARIBALDI, DIA 4 DE JULHO
Walter Galvani, em 30/06/2007

Duzentos anos do nascimento
de Giuseppe Garibaldi, terá palestra de Alcy Cheuiche, no Memorial do RGS, às 17 horas e o lançamento do livro produzido pela sua oficina, logo após.
Esta crônica foi
publicada no jornal
"A Razão" de Santa Maria:


DATAS RIOGRANDENSES

Walter Galvani


Nesta semana entrante, o Rio Grande começa a festejar uma enorme data, dessas redondas, mas realmente expressiva para nossa História. Será a vez dos 200 Anos de Giuseppe Garibaldi. Foi o autor da Unificação da Itália, o homem que combateu e na força de sua audácia e coragem construiu a aproximação entre todos os italianos e deu-lhes uma pátria única, festejada, aliás, na mesma data que a nossa Revolução Farroupilha, 20 de Setembro, por coincidência e trama virtual da própria História.

Na semana que passou, deu-se o falecimento de Paulo Xavier, este sim um dos maiores nomes da historiografia do nosso estado. Ele foi também um dos primeiros diretores do Departamento de Cultura da SEC, raiz da hoje secretaria, por onde desfilaram e confluíram tantos e tão produtivos projetos.

Também ele um dos grandes entusiastas da figura de Garibaldi, “o heroi dos dois mundos”, que será alvo de um trabalho especial do acadêmico Alcy Cheuiche, que irá proferir palestra sobre Garibaldi, no Memorial Riograndense, dirigido por outro acadêmico ilustre, o Prof. Voltaire Schilling, eleito também na semana passada para a Academia Riograndense de Letras.

Assim, temos vários nomes a unir no instante em que celebramos nosso herói transatlântico, o poderoso Garibaldi, o homem que nos abriu o trânsito para a liberdade, princípio que veio aqui defender e que, junto com Luigi Rosseti e outros grandes nomes italianos, ajudou a inscrever no pavilhão farroupilha: “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”.

Baseada nesses princípios é que nascia nossa república.

Hoje, passados tantos anos, duzentos sobre o nascimento de Garibaldi, quase tantos (172) sobre o surgimento do nosso movimento revolucionário, esmagado pelo império brasileiro mas que deixou sua marca na valentia, na coragem, no desejo de independência e na lisura de atitudes do gaúcho, por certo espelhados no herói que a Itália nos emprestou, registre-se que a semana, o mês e o ano será de lembrar seu nome.

Mas, além do seu nome, o significado da sua empresa internacional pela liberdade, e depois, o envolvimento inolvidável em sua terra natal, contando em todos esses episódios com a participação da brasileira Anita e dos seus filhos, com ela gerados e que ajudaram a levar o sangue riograndense para o solo italiano.

Já que estamos tratando de valores culturais, não esqueçamos o que está inscrito em nosso hino: “Mostremos valor, constância” e que “sirvam nossas façanhas de modelo a toda a Terra!”




SOBRE INÊS PEDROSA NO "DIÁRIO POPULAR" DE PELOTAS
Walter Galvani, em 25/06/2007

É o jornal mais antigo em circulação no Rio Grande do Sul.
Walter Galvani estréia nas páginas literárias, publicado
na edição deste domingo:


FICA COMIGO ESTA NOITE

Walter Galvani

A Editora Planeta está cumprindo uma notável tarefa de lançamentos e, no caso, de atualização da obra de diversos escritores europeus importantes, em especial espanhóis, italianos e portugueses. Nesta roda de acertos, incluiu a apresentação no Brasil de todos os livros de Inês Pedrosa, uma das mais fortes intelectuais de Portugal (por exemplo, pelo romance “Fazes-me falta”) e agora por este excepcional, cheio de ternura, compreensão pelos problemas humanos e de uma tão funda penetração nos sentimentos, e eu diria que até nos sentidos que chega a doer quando se lê, o livro de contos ou quase isso, “Fica comigo esta noite”.

A própria Inês, quando comenta seu trabalho costuma dizer o quanto lhe custa cada “filho” desses, apesar da sua também notória atitude de propagação e defesa de uma postura feminina que vai muito além da simples atuação pelos chamados “direitos da mulher”. Vendo-se Inês Pedrosa em ação, e ela já esteve na Jornada de Literatura de Passo Fundo e várias vezes no Rio, São Paulo e pelo menos uma vez em Porto Alegre, percebe-se que ela é isso. Por vezes, como fez em Passo Fundo há três anos atrás, vestiu-se “de homem”, inclusive de terno e gravata, para deixar bem clara a sua posição de defesa dos verdadeiros valores da pessoa, bem longe da fumarada da “mídia” ou dos resultados colaterais de mitificação de ideais ou conquistas ocasionais.

Fica difícil mergulhar nesse mundo da Inês Pedrosa, sem usar as próprias palavras dela. Aí se explicita um caminho que está presente onde você escavar, em todos os seus textos. Acompanhem por favor, o final do conto “Europa, plano nocturno” que encerra seu livro: “Não há portas para os territórios familiares da dor, não há como conter a violência dentro do ninho (...) Há apenas a dor, cintilando como um clarão no chumbo do céu, chuva de estrelas cadentes sem História nem mártires reconhecíveis. Porque há sempre uma noite mais escura do que a escuridão do mundo. Mesmo para quem, como eu, nunca soube escavar até ao fundo dessa gruta negra, trans-siberiana, húmida, universal, a que chamamos coração.”

A Planeta manteve, como se vê, a grafia portuguesa das palavras (ex. húmida) o que é um bom exercício para quem vai ter de ceder alguma coisa (assim se fazem os tratados) para o Acordo Ortográfico aprovado e até hoje não posto em prática.

“Fica comigo esta noite”, editora Planeta, São Paulo, 2007, 160 páginas, numa edição apoiada pelo Instituto Português do Livro e das Bibliotecas.




O QUE ANDA, ANDA MAL...
Walter Galvani, em 24/06/2007

Crônica publicada
hoje no ABC DOMINGO
do Grupó Editorial Sinos


UM PAÍS EMPERRADO
Walter Galvani

Afinal de contas, sem concessões nem constrangimentos, o que é que está funcionando neste país? Os sistemas de saúde, se, sabidamente é preciso ter um plano particular para contar com um atendimento razoável? A Previdência Social, se é sabido que é preciso contar com planos de complementação privados, para não ficar reduzido à incapacidade financeira, limitado a dois ou três salários mínimos, depois de haver contribuído sobre valores muito maiores? Segurança Pública, se não é mais possível sair-se à rua depois de determinada hora, e, pior ainda, pode-se ser assaltado em qualquer lugar nas grandes e agora também nas pequenas cidades, mesmo ao meio dia?

Será que é possível ainda programar um deslocamento por avião, mesmo sabendo que os vôos são cancelados sem prévio aviso e você não é sequer indenizado? Que, pior ainda, os controladores de vôo podem entrar em greve e você ficar sem o transporte, caro e elitizado, que, no entanto não tem mais controle de qualidade?

Utilizar seu carro nas estradas, onde o atraso de processos de desapropriação e liberação de verbas tem o seu cronograma de obras alterado o que aumenta o risco de acidentes e não se pode sequer imaginar para quando elas estarão concluídas?

De olho na política, você pode imaginar se alguma coisa funciona, em meio a tantos desvios e notícias sobre corrupção?

Na Educação consagrou-se a perda de um ano e onde as escolas aprovam os alunos por decreto? Onde ninguém mais roda, ninguém mais estuda, porque sabe que vai passar, e onde se pagam salários miseráveis aos professores?

Onde é, então, que as coisas funcionam neste país?

Prezados leitores, desculpem o negativismo, mas parece-me que estamos chegando a um impasse. Como nada mais funciona e vamos de mal a pior, temos a tendência de engolir o que é medíocre, o que não passaria por um controle mínimo nem nos empobrecidos paises africanos. Somos Terceiro ou Quarto Mundo, é preciso que se assuma isso de uma vez e deixemos de lado as pretensões, a soberba, a vaidade.

No que é que somos melhores do que os outros?

No futebol, quem sabe, sujeito sempre à competições e comparações, porque, de repente até nisso... sim, há por aí a Argentina, a Itália, a França... Para nada serve enraivecer. Vamos mal e pronto.

Lula é muito engraçado, o povo entende a sua linguagem, mas nivelar por baixo não me parece a melhor saída. Aqui no Rio Grande nos orgulhamos e até botamos em nosso hino, que “sirvam nossas façanhas de modelo à toda a terra”. Mas, vamos ver de perto nossas mazelas, vamos descobrir que o dobro de nada é muito pouco ou é nada também. Portanto, comparar com o resto do país é covardia.






EDUCAÇÃO E ENSINO BÁSICO
Walter Galvani, em 23/06/2007

Crônica publicada hoje
no jornal "A Razão"
de Santa Maria



NENHUMA CRIANÇA SEM ESCOLA

Walter Galvani

Por vezes é preciso que o revolucionário desapareça para que suas teses sejam adotadas. Costume velho. Assim, morto Brizola, que aliás não chegou a realizar seu sonho de presidência, lembra-se o velho slogan: “nenhuma criança sem escola”. Esta semana se assinalaram três anos de sua morte e em meu caso pessoal, uma coincidência: naquele dia 21 de junho de 2004, eu ingressava no Hospital São Lucas da PUCRS, com o mesmo diagnóstico de Brizola, que naquele dia deixava a vida para entrar na História: endocardite.

Para quem não está afeito à dialetologia médica, infecção interna, no coração. Tive sorte. Diagnosticada pelos doutores Lorival Cardoso e João Carlos Fernandes, minha doença foi tratada em tempo e acabei cuidado pelo infectologista Gabriel Narvaez e operado pelo cirurgião Marco Antônio Goldani. Com tantos nomes ilustres e o apoio da PUC através da ação do Irmão Elvo Clemente, de quem sou “aluno à distância”, uma espécie de “EAD” particular, há cinqüenta anos, aqui estou digitando com violência herdada dos tempos da máquina de escrever, esta historinha de amizade e carinho que foi conduzida por minha companheira Carla Irigaray, com igualável dedicação.

Mas, eu queria falar de Brizola e apenas aproveitei a coincidência de datas, para salientar que ele cogitou dar à educação o melhor, primeiro como prefeito de Porto Alegre, depois governador do Rio Grande, mais adiante na Guanabara. Aqui no Rio Grande todos conhecemos as modestas mas multiplicadas escolinhas de madeira que brotaram como cogumelos depois da chuva. As coisas mudaram, faltou dinheiro para pagar professores, concentraram os alunos em algumas unidades, fecharam-se outras, criou-se um sistema de transporte em ônibus, faltou verbas para os municípios, enfim, houve de tudo e hoje... bem hoje pouco resta do plano antigo.

Ficou a idéia que foi semeada em 1957 e pelos seguintes vinte ou trinta anos. Ainda hoje, a simples menção da frase, “nenhuma criança sem escola” traz a lembrança. Três anos é muito pouco, Brizola é ainda muito discutido, ele esteve na raiz da briga que manteve João Goulart na presidência, podado pelo parlamentarismo de ocasião, depois na geração do golpe militar, a divisão do país entre posições extremadas que nem sequer eram de direita e esquerda, mas que marcaram a ruptura ideológica entre os conservadores e as “perigosas” forças populares que, mal conduzidas poderiam levar a um novo levante, golpe no golpe, revolução, mortes, ostracismo, exílio, o que acabou acontecendo de forma tipicamente brasileira, mas que também deixou muito ranço ideológico e injustiças.






O PAPA E O TRÃNSITO
Walter Galvani, em 21/06/2007

Crônica publicada neste dia 21 de junho de 2007, no jornaj
"Diário de Canoas" d
Grupo Editorial Sinos


CÓDIGO PAPAL DE TRÂNSITO

Walter Galvani

O Papa falou, causa encerrada, diziam mais ou menos os romanos, representado o Sumo Pontífice pelo próprio nome da cidade: “Roma locuta, causa finita”. E como não há o que discutir, depois do código de trânsito elaborado pelo Papa Bento XVI, também não se pode fazer reparos. Faltou-lhe apenas dizer por que o homem é tão indisciplinado no trânsito e o gaúcho mais do que qualquer outro. Saiam na rua e vejam por conta própria, constatem o egoísmo, a vaidade, a prepotência e suas conseqüências, como a agressão, a violência, o desrespeito, a desconsideração.

O Papa elaborou um decálogo:

1 – Não matarás; 2 – A estrada seja, para ti, um instrumento de ligação entre as pessoas, não de morte; 3 – Cortesia, correção e prudência para te ajudar a superar os imprevistos; (“Bah, se ele visse os gaúchos em ação! Como são “corteses”, como dão lugar para os outros numa fila!”) 4 – Ajudar o próximo principalmente se for vítima de um acidente; 5 – Que o automóvel não seja um lugar de dominação, nem lugar de pecado (“Se meu fusca falasse...”); 6 – Convencer os jovens sem licença a não dirigir; (“Convencer a quem de alguma coisa?”); 7 – Dar apoio às famílias que tenham parentes vítimas em acidentes; 8 – Reúna-se com a vítima e com o motorista agressor em um momento oportuno para que possa viver a experiência libertadora do perdão; (“Quando? Que hora? Você quer apanhar?”); 10 – Você é o responsável pelos outros; (“Está brincando, Papa?”).

Propositadamente fiz alguns comentários entre aspas para lembrar ao Papa que deve viver no céu com os anjinhos, que estamos sobre a terra e que “tudo que se move é inimigo” para a maior parte dos motoristas.

Finalmente queremos propor ao Papa um estágio aqui em Canoas, em nossas ruas e avenidas, nas passagens de nível e nos viadutos, nas filas e nas estradas que cruzam nosso município. Com direito a pós-graduação em Porto Alegre.

Ele vai ficar sabendo o que é que é bom para a tosse!

Descobrirá, em questão de segundos e poucos metros de ruas e avenidas, que o principal aqui é teoricamente chegar antes. Mesmo que você pare na mesma sinaleira que o “adversário”… Pois, é claro, o motorista do outro carro é um “adversário”, um “competidor” e não um companheiro de sina.

Assim é a dura vida no trânsito do mundo. Não confunda, não estou escrevendo “sic transit gloria mundi”... O sentido é outro, mas também passa depressa. O pior é não saber latim. Nem latir...






DOM PEDRO II POR JOSÉ MURILO DE CARVALHO PARA O DIÁRIO POPULAR DE PELOTAS
Walter Galvani, em 18/06/2007

Pelotas é a segunda cidade do Rio Grande do Sul, e, sob certo ponto de vista,
a primeira.
Estreei neste domingo,
como colaborador daspáginas literárias
do Diário Popular,
o mais antigo jornal diário
em circulação ininterrupta
no Rio Grande do Sul,
dirigido pelo grande jornalista
Clayr Lobo Rochefort,
que dedicou ao seu jornal, já, mais de meio século de vida.
É um orgulho escreverpara
o grande jornal de Pelotas.
Aqui vai reproduzido
meu primeiro artigo:


DOM PEDRO II

Walter Galvani

Todo mundo, quase todo o mundo, é bastante curioso verificar que a leitura de assuntos relativos à antiga Casa de Bragança, que nos deu um rei (sim), e dois imperadores, atraia tanto a atenção dos brasileiros. Nesse momento, está na estante dos “mais vendidos” ou “mais comprados” como queiram, das maiores livrarias do Brasil, a biografia de “Dom Pedro II”, da série “Perfis Brasileiros”, escrita por José Murilo de Carvalho. A edição é da “Companhia das Letras” e o autor, um Prêmio “Casa de Las Américas”, embora não por este volume recém lançado, mas pelo seu trabalho anterior, “Cidadania no Brasil: o longo caminho”. (Participei do júri em Cuba e acho que foi mais do que merecido o prêmio a José Murilo de Carvalho em 2005, pelo seu criterioso estudo sobre a evolução da sociedade brasileira em busca de uma “cidadania” em todos os aspectos filosóficos, sociológicos, e até geográficos da questão.)

Um dos pilares desta construção nacional é a presença da família real portuguesa que gerou a permanência aqui do Príncipe do Brasil, mais adiante Dom Pedro I e do seu filho Dom Pedro II. Tanto o filho como o neto de Dom João VI haverão de agradecer (através dos seus descendentes) por esta lembrança tão viva na construção de uma legítima “cidadania brasileira” que acabou incorporada pelos sambistas do Rio de Janeiro e mais tarde por todo o país: em primeiro lugar, não há desfile de Escola de Samba da cidade antigamente chamada “Maravilhosa”, hoje palco de uma guerrilha urbana ilimitada, que não tenha reis, rainhas, passistas vestidos como nas cortes do século XIX ou concurso de clube ou festa popular, da Uva e do Vinho ao Atlântico Sul, que não eleja rei, rainha e princesas.

Este saudosismo da corte não cessa de produzir os seus efeitos, e é bem explicado pela atitude dos republicanos que fizeram embarcar Dom Pedro II e sua família, ainda de madrugada em 1889 pois, se o povo descobrisse o que fizeram Deodoro e seus camaradas do exército, por certo ainda hoje teríamos a cerimônia do beija-mão no Passo de São Cristóvão.

Embora sintetizado em suas 276 páginas de muita informação, o livro é um reflexo da saudável admiração de Murilo pelo imperador brasileiro, “um homem que amava o Brasil”, talvez na mesma sintonia de seu avô, João VI e seu pai, Pedro I. Na falta da figura paterna, diz Murilo, talvez o jovem Bragança tenha erigido o próprio país em seu modelo. E é nesse sentido, na defesa inclusive da honra nacional e dos seus interesses, que pautou toda a sua vida. Esta admirável reflexão está em todas as páginas do pequeno volume de Murilo de Carvalho e talvez com isso se explique a inesperada voga do livro e do biografado. Talvez também pela falta de modelos recentes onde o país possa se espelhar... afinal, embora a distância no tempo possa portar uma visão reformadora da realidade, também é certo que o filtro do passado ajuda a enxergar com mais precisão o que havia de positivo e negativo na figura enfocada.

“Dom Pedro II”, por José Murilo de Carvalho, edição da Companhia das Letras, série Perfis Brasileiros, São Paulo, 2007, 276 páginas, em torno de 37 reais nas livrarias, uma boa oportunidade de começar a compreender quem somos, de onde viemos e para onde vamos, neste antigo império semi-tropical




CRISTO REDENTOR CANDIDATO
Walter Galvani, em 17/06/2007

Lula tirou uma fotografia ao lado da estátua do Cristo Redentor, no Corcovado, mas não abriu os braços...
Seria demais.
Crônica publicada neste domingo
no jornal ABC DOMINGO, do Grupo Editorial Sinos:


LULA CRISTO

Walter Galvani

Numa interrupção dos tiroteios na Favela dos Macacos e entre uma preocupação e outra da Ministra do Turismo, mandando que os atrasos dos vôos fossem aproveitados pelos turistas para “relaxar e gozar” – uma forma de expressão de péssimo gosto – seguida pelo seu pedido de desculpas urgente, que não convenceu ninguém, os fotógrafos pediram ao presidente Lula, irmão do Vavá, que posasse junto ao Cristo Redentor no Rio, com os braços abertos, pedindo votos para transformá-lo (o Cristo, naturalmente...) em uma das “Maravilhas do Mundo Moderno”. Num instante de lucidez, Lula disse aos profissionais de imprensa: “Não, depois vocês vão publicar dizendo que eu quero ser Cristo!”

Pode ser que ele esteja se sentindo mesmo como o personagem mítico do cristianismo, uma espécie de “crucificado” moderno, que tudo faz em favor dos seus irmãos e acaba pendurado no alto do Calvário, mas a verdade é que, num lampejo de sorte ou raciocínio, evitou o ridículo maior.

Das acusações sobre a atuação do seu irmão ou da lama que daí respinga, ele se livra com mais facilidade, pois não há quem não entenda, nesse país de corruptos e corruptores, que o procedimento é típico e não surpreende ninguém. Nem mesmo que um senador mande pagar a pensão de uma ex-companheira através de esquemas que, inesperadamente vem à tona, por obra e graça de investigações sérias da Polícia Federal, nada mais espanta uma nação que perdeu a capacidade de se revoltar.

A população brasileira fica indignada é com pênaltis não cobrados, gols em impedimento, erros de arbitragem ou multas inesperadas por infrações de trânsito que, jura, jamais cometidas. Isso sim. Há também os cortes de pensões por aposentados de há muito falecidos e que seguem indevidamente recebidas. Tudo isso deixa a nação indignada. O resto, não mais surpreende, nem choca ninguém.

Assim, Lula sobe o seu Calvário para se transformar num cristo do século vinte e um, quando tudo é válido, até mesmo “relaxar e gozar”, e depois pedir desculpas.

Por isso que os cultores do parlamentarismo dizem que a pior autocracia é a do voto universal, pois uma vez cumprido o rito, não há como mudar ou retocar. Já no sistema parlamentarista de governo, pelo menos se bota um ministério abaixo, por muito menos do que a boquirrota da Marta Suplicy escorregou.

Depois disso tudo, fala-se que só a Educação é capaz de salvar o Brasil. Isso mesmo. Só que é preciso começar lá do início mesmo. Alfabetização, apenas, não é o suficiente.








QUANDO OS ALUNOS SUPERAM OS MESTRES
Walter Galvani, em 14/06/2007

Hoje trago para os meus eventuais leitores, um belíssimo trabalho de uma aluna, Camila Canali Doval.
Leiam, por favor, eta crônica está no blog http:/mecanicosda palavra.terra.com.br/index.htm


NÃO POR ACASO

* Camila Canali Doval

Não por acaso saí de casa, ontem, na maior chuva, para ir ao cinema. A verdade é que eu já previa uma tarde maravilhosa com a família, só eu e eles, como há muito tempo não fazíamos.

Não por acaso eu e minha família, ontem, éramos apenas quatro. no dia 2 de junho, em uma estonteante noite de inverno em Gramado, meu irmão se casou.

Não por acaso nós quatro, eu, meus pais e minha irmã, sentimos necessidade de estarmos juntos, um dia inteirinho, fazendo coisas deliciosamente banais. Realizando, silenciosamente, um íntimo ritual de despedida.

Não por acaso comemos pipoca, não por acaso olhamos os filhotinhos de cachorros na vitrine da loja, não por acaso conversamos sobre os últimos acontecimentos, planejamos o futuro próximo e fomos sorridentes e carinhosos uns com os outros.

Não por acaso o filme que assistimos não era um romance nem uma comédia, era um filme sobre a vida, sobre os rumos, sobre os caminhos que tomamos, as ruas que cruzamos, sobre as idas e vindas, sobre as ondas de sinais verdes que se propagam, sobre os sinais vermelhos também, sobre como, às vezes, perdemos o controle do jogo e a bola branca inevitavelmente cai na caçapa.

Não por acaso a história do filme falava de separação e fim, de ressentimento e perda, de paralisia e medo, da instabilidade das certezas, da vontade de fazermos sempre e apenas o que dará certo.

Não por acaso no filme tinha amor, muito amor. Amor para tudo ser verdadeiro, amor para segurar as barras, amor para tudo e todos encontrarem o seu lugar.

Não por acaso desde o filme não pára de chover um instante, como em todos os momentos dramáticos das cenas e da vida, e agora não há luz na minha casa, e reencontro , enfim, o papel e a caneta à luz destas velas, reencontro as palavras, reencontro meu pedaço afastado, reencontro o que há em mim que me impele dolorosa e docemente a criar.

Não por acaso a chuva lava as feridas dos últimos meses, a perda do emprego, a perda da confiança, a perda da certeza, o sentimento de rejeição, o medo de estar no lugar errado na hora que nunca foi marcada, a inesgotável fase ruim que só esgota com essa água toda caindo do céu, com esse abraço mudo e apertado na família, com um respirar fundo, com o enfrentamento de uma enxurrada de sentimentos assustadores necessitando de resoluções.

Não por acaso, às vezes, a tacada sai um pouco mais forte do que o planejado e é preciso recomeçar.

Não por acaso, às vezes, a sinaleira entra em pane e precisamos decidir sozinhos se devemos atravessar.

Não por acaso, ontem, assisti ao filme Não por Acaso. Não tem remédio para a alma melhor do que uma obra-prima.


Camila - Mulher de Sardas | < 00:23:36> comentários[2].
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DIA É DE CAMÕES É O DIA DA RAÇA O DIA DE PORTUGAL
Walter Galvani, em 10/06/2007

10 de junho é uma data especial: data nacional de Portugal, uma homenagem ao poeta Luís Vaz de Camões.
Homenagem a um poeta? É isso mesmo.
Leia-se sobre este original procedimento, na crônica que aqui se transcreve, publicada hoje no jornal ABC DOMINGO, do Grupo Editorial Sinos, que circula na região metropolitana de Porto Alegre, Vale do Sinos e Encosta da Serra no Rio Grande do Sul.


CAMÕES NÃO SE ESQUECE



Walter Galvani





Sempre me surpreendeu, a cada dia 10 de junho, lembrar que há um país que escolheu o seu “dia” a partir da data de um poeta. Faz hoje 427 anos que morreu Luís Vaz de Camões, o genial criador de “Os Lusíadas” e outro tanto que a ele se referem os cultores da língua portuguesa. Ele é o pai da nossa língua e foi ele o primeiro a registrar em versos inspirados, o longo passeio que ela fizera por todos os continentes então conhecidos, gerando um fato indiscutível: fala-se o português em todos eles. É a quinta língua mais falada no mundo, mesmo considerando o indiano e o mandarim (leia-se o chinês), ambas praticadas em países com mais de um bilhão de pessoas. Depois delas vem o inglês e o espanhol e somente eles, junto com o português, praticados pela quantidade assombrosa de pessoas capaz de colocá-los neste “ranking” mundial.

Os povos criam seus mitos e seus símbolos e, de um modo geral, atribuem a uma data a função e a capacidade de representação que as transforma em sólidos avatares da nacionalidade. Comecemos pelo Brasil que erigiu o 7 de Setembro como o ponto de partida para a nossa independência, mesmo que o grito de “Independência ou Morte” tenha sido proferido por um príncipe português que depois foi ser rei em Portugal, nosso Pedro I, lá o Dom Pedro IV. Para os Estados Unidos, o dia é 4 de julho, para os franceses, 14, e assim por diante. Pois, para Portugal, o dia é o 10 de junho e não se relembra com ele nenhuma batalha, nenhum general ou almirante, mas apenas a morte do poeta.

É bem verdade que Camões pintou em “Os Lusíadas” toda a saga da criação de um país e de uma nacionalidade, mas não desferiu nenhum tiro para fazê-lo. Usou apenas os memoráveis versos que começam com o inesquecível “As armas e os barões assinalados” que, como se sabe, passaram “inda além da Taprobana” e que andaram “em perigos e guerras esforçados, mais do que prometia a força humana”. Lá esteve Camões, percorrendo todos os caminhos de mar e terra cumpridos pelos seus antecessores e compôs, com seus versos inspirados, cuidadosamente compostos, a legenda dos bravos portugueses. São eles que estão nos pilares da nação brasileira, são eles que nos transmitiram o orgulho nacional imenso que nos permitiu conservar e fazer crescer este colosso.

Dos 220 milhões de falantes, 180 estão no Brasil, mas também em Portugal, Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Timor Leste e em enclaves como Macau, ou antigas colônias como Damão e Diu. Viaje, portanto, armado com o português na ponta da língua.








REFLETINDO COM O PROFESSOR EUGÊNIO HACKBARTH
Walter Galvani, em 07/06/2007

Crônica publicada hoje
no jornal
Diário de Canoas


AQUECIMENTO E ERA GLACIAL



Walter Galvani





Todo mundo tem direito a ter o seu guru, eletrônico ou não. Um ícone escolhido, alguém em cada área do conhecimento, que possa ajudar a iluminar os caminhos, compreender o que “está por vir”. Assim, nos porões da História, podemos selecionar nomes como Charles Darwin ou Galileo Galilei, Henrik Ibsen ou Shakespeare, Machado de Assis ou Lula. Sirvam-se.

De tanto falarem no “aquecimento global” tomei-me de alguma desconfiança com o tema. Pois não é que o meu “guru meteorológico” vem a público e bota uma pitada de dúvida em cena? Pois é. Eugênio Hackbarth, para mim o símbolo do conhecimento meteorológico, o homem que administra a Estação de Meteorologia Urbana de São Leopoldo e dá mais de duzentas entrevistas mensais e produz centenas de boletins sobre o assunto, faz um alerta, comedido como é seu estilo, mas objetivo, como é também: “há períodos de aquecimento global, há períodos de resfriamento”, são ciclos irremediáveis, basta acompanhar a história da Terra nestes anos todos em que tem sido possível escriturar os dados, colecioná-los e se percebe que se é verdade que é preciso respeitar os azares da vida do planeta, também convém não exagerar.

Bem puxadas as orelhas dos adeptos do catastrofismo, lembra o Prof. Eugênio, que não é de hoje que surgem versões, tanto de um lado quanto de outro, apelando para a dramática reação das pessoas.

Nos anos vinte houve um período de aquecimento, então não se usava ainda o adjetivo “global”, bem como nos anos cinqüenta, deu-se um período de resfriamento.

Que isso não sirva de justificativa, aliás, ajuizadamente, o próprio professor assinala isto, para os inimigos das medidas contra o “efeito estufa”, para os grandes industriais que só visam o lucro ou para os maus cidadãos, para quem com o sistema do “lixem-se os outros” trilham o próprio caminho do desastre. Ou da danação, como diria algum poeta ou profeta perdido nos descaminhos do século vinte e um.

Pois é, mas o professor chama a atenção para os exageros dos que vendem a dificuldade para negociar melhor a facilitação. Cuidado com eles, pois estão em toda a parte, em especial nos governos, nos cargos políticos, na direção das multinacionais ou, quem sabe, nos postos jornalísticos.

Tem muito falso profeta por aí, alertou o meu “guru meteorológico”. E entre o seu conhecimento, diria até sua sapiência, do alto dos seus setentinhas bem vividos, e a loucura ou a má fé que anda por aí, prefiro ficar sob a guarda da prudência. Saio de guarda-chuva, mas não me nego a levá-lo dobrado, debaixo do braço.





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4.500 vagas em 28 minutos
Walter Galvani, em 05/06/2007

Jornada de Literatura
de Passo Fundo


Todos os anos, quando agosto chega, Passo Fundo assombra o Brasil e o mundo.
Sobretudo, o Brasil...
Ninguém poderia imaginar que uyma Jornada de Literatura reuniria 4.000 pessoas, debaixo de uma lona de circo, mesmo que hoje ela seja virtual (até que, com o frio do Rio Grande é bom que assim seja)para falarde livros.
Pois é verdade, acontece no Brasil, o mesmo país de ignorantes e tantos idiotas virtuais
que não sabem fazer outra coisa a não ser assistir tv.
Lembro muito do filme sobre aquele idiota norte-americano, no qual ele dizia "I watch tv."
Pois é.
Lê-se no Rio Grande e este é um dos nossos maiores e mais jkustos orgulhos.
Para mim, que trabalho na área, é uma enorme alegria.
Viva Passo Fundo, viva a Jornada, viva o Zaffari e viva a Tânia Röseing.
Todos os anos tenho dito e escrito isso.
Espero que o reconhecimnento a essa gente se reproduza e se propague.
Até sempre.



BRASIL, MAL NA FOTO...
Walter Galvani, em 03/06/2007

Países mais pacíficos
do mundo: veja a nossa
colocação...
Crônica publicada hoje
no ABC DOMINGO,
do Grupo Editorial Sinos


BRASIL, 83º COLOCADO





Walter Galvani







Celebramos o Brasil quando ele é campeão, e no futebol somos penta, o que significa mais ou menos, que nos consideramos imbatíveis. Estamos, aliás, funcionando agora como produtores de matéria prima... Exportamos nosso “ouro”, nossos craques, para a Europa. E vamos logo produzindo outros. Mas, no que interessa mesmo, ou seja em alfabetização, em produção industrial, em poupança, nisso andamos lá pela rabeira.

Esta semana foi divulgado outro “ranking” mundial, reunindo 121 países integrantes da ONU, pesquisados por uma instituição chamada Global Peace, que estabeleceu o que se denominou GPI (Global Peace Index) e lá figura o Brasil como o 83º colocado. E isso sem estar em guerra, porque o pobre do Iraque ficou em 121º, claro, foi invadido. Aliás, merecidamente, o país invasor do Iraque está pior do que nós: os Estados Unidos estão no 96º posto.

Ali, ao redor do nosso feio lugar, estão México, Ucrânia, Jamaica, Marrocos, estes antes de nós e logo depois, na seqüência, Síria, Camboja, Bangladesh e Equador. Que mistura, hein?

Só para mitigar nossa vergonha, os últimos colocados são, pela ordem: Nigéria, Rússia, Israel, Sudão e, claro, o Iraque. Estes são os lugares menos pacíficos do mundo.

E agora, para inveja nossa, eis os mais pacíficos, onde se vive melhor. Já poderíamos imaginar, numa coleção de dez países, pontifica a Europa, norte daquele continente, mas há surpresas. Vejam a lista:

1º - Noruega

2º - Nova Zelândia

3º - Dinamarca

4º - Irlanda

5º - Japão

6º - Finlândia

7º - Suécia

8º - Canadá

9º - Portugal

10- Áustria

Todos os países escandinavos estão entre os dez primeiros. O segundo lugar é a Nova Zelândia, lá perto da Austrália, país que está cheio de estudantes gaúchos.

E Portugal? Tão menosprezado pelos brasileiros ignorantes e tão pouco respeitado, lá está, entre os dez mais pacíficos, ocupando a nona posição. Vive-se melhor na terra dos nossos irmãos lusos? Parece-me que sim.

Enquanto convivemos com balas perdidas, acertos de contas e assaltos com assassinatos, há gente que ainda vive razoavelmente pelo mundo afora. Por exemplo, falando em latino-americanos, no Chile, 16º colocado, Uruguai, nosso vizinho, 24º ou a própria Argentina, que já foi melhor, e que está na 52ª posição. E até no México, 79º lugar.

Os organizadores da pesquisa citam a escritora inglesa Agatha Christie na abertura dos resultados: “Ganhar uma guerra é tão desastroso quanto perdê-la”, escreveu ela, alertando seus compatriotas, conhecidos pelo orgulho imperial, a pirataria oficial e a guerra de conquistas nos séculos passados.








DIA DA IMPRENSA
Walter Galvani, em 01/06/2007

O dia 1º de junho é agora o Dia da Imprensa no Brasil, graças a um trabalho feito pela ARI.
Associação Riograndense de Imprensa.
Foi a data em que
começou a circular,
em Londres, o
"Correio Braziliense".
O jornal de Hipólito
José da Costa, uma espécie de gaúchpo, porque nasceu em
Colônia do Sacramento e foi educado aqui no estado (em Rio Grande e em Pelotas), e mais tarde foi viver
em Portugal, estudou em Coimbra e morou em Londres, como maçon, exilado.
Criticou a coroa portuguesa mas era tão respeitado que, dizem, um dos assinantes do "Correio" era Doim João VI...
Começo a pensar nele a partir de hoje.






"REVISTA" PARA IMPEDIR TÓXICOS E ARMAMENTOS, COISA ANTIGA VOLTANDO À MODA
Walter Galvani, em 31/05/2007

Na Inglaterra já pode.

"REVISTA" NAS ESCOLAS INGLESAS

Walter Galvani


Aconteceu, ou melhor, começou a acontecer o inevitável. As autoridades inglesas, munidas de autorização governamental e com aprovação do Parlamento, podem de agora em diante fazer a revista dos estudantes que chegam aos estabelecimentos de ensino, com armas ou tóxicos.
Vamos dizer que isso não é uma novidade, pelo menos na Europa... Nos tempos em que Pedro Álvares Cabral estudava na universidade de Lisboa, isso antes da sua fabulosa viagem ao Brasil, já eram desarmados os estudantes que apareciam portando pistolas, espingardas ou espadas. O bedel da universidade, autorizado pelos regulamentos vigentes, recolhia o armamento e fundia o metais, transformando tudo em barras, que eram comercializadas em benefício da instituição.
Dizem que, depois de 1498, começou-se a apreender também o fumo, pois tendo o “ítalo-hispano-português (há hoje uma dúvida cada vez maior sobre a nacionalidade do grande navegador), Cristóvão Colombo levou das Antilhas para a Europa, o gosto e o vício pelo tabaco.
(Aliás, coisa oportuna para relembrar num 31 de maio, escolhido como o “Dia Mundial sem Tabaco).
Desarmados e sem as rodelas de fumaça que ajudavam a espantar os maus espíritos e insuflar coragem aos estudantes, esses se viam obrigados a estudar matemática, astronomia, língua portuguesa, um pouco de teologia e muito de filosofia e quem sabe, alguma arte teatral.
Pedro, que então se assinava apenas Pedr’Álvares, por ser “segundo filho” e não poder por isto ostentar o sobrenome completo, também foi “desarmado” alguma vez, e na certa escapou de ser morto em alguma arruaça numa esquina de Lisboa.
Os nossos estudantes de hoje, oriundos de uma cada vez maior “geologia” da sociedade, provenientes de camadas as mais diversas, podem vir a ser surpreendidos com a “cannabis sativa” ou algum “crak” e, pior ainda, se seguirem o modelo americano, armados para o exercício de “tiros em Columbine”. Ninguém está livre disso. Eis uma nova moda que pode chegar aqui, mas que já chegou na Inglaterra, pois sendo lá, todos eles tão próximos dos americanos, pela carga genética transmitida, pela aliança histórica, pela língua e pelos demais valores culturais, sabem que o desastre está sempre ao alcance da mão. E antes que alguns inocentes paguem pelo descuido, e o prestígio da “velha senhora” Inglaterra arraste-se na lama, o jeito é aplicar a incômoda, mas útil, “revista”.
Ôlho vivo em cima desta moda que, tal como os “Beatles” e a “minissaia” decola lá do Reino Unido e acabará aterrissando aqui.




BILHÕES PARA UMA GUERRA INÚTIL...
Walter Galvani, em 27/05/2007

Como, aliás, são todas elas.
O governo de Bush
conseguiu embrulhar,
no mesmo saco,
republicanos e democratas.
Crônica publicada
hoje no ABC DOMINGO.
Jornal do Grupo Editorial
Sinos


DINHEIRO PARA A GUERRA



Walter Galvani





O Congresso americano aprovou uma verba de 100 bilhões de dólares para a Guerra no Iraque, sem nenhum cronograma de retirada das tropas invasoras. Vitória de Bush, vitória dos “falcões”, união dos dois partidos, os republicanos e os democratas, coisas incompreensíveis para quem não mora nos Estados Unidos, ou que não estude a política interna daquele país ou pelo menos não conheça a sua história recente.

Esta é uma vitória da indústria do armamento e do alto comando do exército. Nada que tenha a ver com a vida dos soldados americanos, seus familiares, e, muito menos com os civis iraquianos ou por acaso com os políticos da região. Os Estados Unidos da América do Norte também não estão interessados em solucionar a crise política, econômica e social da zona que invadiram. Para eles a paz é apenas um aglomerado insignificante de letras,(em inglês “Peace”). Não há o que fazer.

Derrubar torres em Nova York? Isso, já ficou demonstrado também, é inútil.

A cultura da violência que se propagou por toda a superfície da Terra nasceu, cresceu e floresceu nos Estados Unidos. O cinema americano se encarregou de difundi-la, torná-la apetecível e popular. Os “tiros em Columbine” não são raridade, mas repetecos permanentes de uma realidade, cujo modelo, infelizmente, copiamos.

Nossos jovens cantam em inglês, todos os fins-de-semana, canções cujas letras desconhecem, nossos estádios se transformaram em campos de guerra, onde disparar um foguete contra a torcida “adversária” se transformou num hábito e em pouco tempo ganhará ares de “exercício lúdico”. E já que não fazemos nada para dar segurança à população, na certa continuaremos a praticar, assim como toda a devastação do nosso território, a violência dos nossos dias e noites, o furto, o roubo, o assalto, o seqüestro, o assassinato.

Trocamos nossa paz de outros tempos pela patusca garantia de favores ao Mal.

Nem sequer as crianças, outrora poupadas desta guerra por um resto de humanidade presente nos sentimentos dos envolvidos, se salvam hoje. Elas estão na linha de tiro, como todos nós, que somos apenas números a ser incluídos ou não, pela sorte, na estatística da violência diária.

Vocês lembram do massacre dos indígenas pelos “conquistadores do Oeste” americano? Do revólver do “mocinho” que não se esgotava nunca? Eis o modelo americano, o que adotamos, para o nosso mal. Quanto a investir 100 bilhões de dólares na Guerra do Iraque, serão tantos os beneficiários internos e externos que, duvido que algum padre santo ou não, algum cacique ou índio se manifeste.





Walter Galvani, em 24/05/2007

DO FOGUETE AO INCÊNDIO

Walter Galvani


No levantamento diário dos horrores que consomem a nossa dita civilização, encontram-se pérolas inesquecíveis. Como essa, por exemplo, do rapaz que teve o peito acertado por um foguete que caiu a seus pés e então explodiu. Era uma “comemoração” no estádio! O Grêmio classificou-se para a fase seguinte da Libertadores e o jovem torcedor foi atingido. De onde saiu o foguete, ninguém sabe. Mas, que selvagens ululantes são esses, meu Deus? E mais:a não existe Polícia? Então como é que entram no estádio portando tais artefatos?
De vergonha e mentira vivemos todos, no molho da hipocrisia e do cinismo.
Vejam, por exemplo, a visita do Papa. Esconderam dos olhos piedosos do “Santo Padre”, doze mil sem teto nas ruas de São Paulo. Sumiram. O governo paulista deu um jeito de retirá-los da circulação durante a semana que o líder dos católicos esteve no Brasil.
Quer dizer então que é possível solucionar o problema dos sem teto? Sim, pois onde estiveram dormindo neste período? Na certa que não foi em nenhuma igreja...
Pois é, o desfile de horrores prossegue com um ex-policial que foi alvejado e cozinhado vivo ou morto no incêndio de sua casa. Acerto de contas? Talvez. A menor (de 13 anos) que estava com ele, sumiu, deu o serviço à Polícia e desapareceu.
Mistérios de um país que perdeu o rumo.
Dia desses passou um carro com placas de Ribeirão Preto com o seguinte letreiro inscrito em sua traseira: “Não roubem, por favor. O governo não quer concorrência.”
Forte, não?
Uma criança de meses foi ferida em assalto em Caxias, apesar dos brados lancinantes dos jogadores do Juventude que ocupavam o carro e pediram aos bandidos que levassem tudo, mas que não ferissem ninguém e mais, que havia uma criança a bordo. Adiantou o apelo? Não. O bebê Miguel continua hospitalizado.
Acho que o presidente do Tribunal de Justiça do Estado, terceiro na sucessão no governo gaúcho, tem razão na veemente defesa que faz do fim da impunidade e adoção da pena de morte no Brasil. Mas... e se a corrupção que vemos todos os dias alcançar também os escalões da Justiça? Será que não se punirá com morte, inocentes? Será que não haverá venda de liberdade?
Como dizia Getulio Vargas, ele próprio governante de um país já corrupto, nas décadas de trinta e quarenta do século passado, “o que salva o Brasil é que de noite os seus políticos dormem... E então o pais cresce.” Palavras de Getúlio.
Três mortos no Rio Grande do Sul por balas perdidas, só no mês de abril.
Isso aqui está virando o Rio de Janeiro?






CHINA, MOÇAMBIQUE, BRASIL...
Walter Galvani, em 22/05/2007

Pão, granada e futebol...

GRANADAS, PEDRAS
E UM PEDAÇO DE PÃO

Walter Galvani


Se você percorre o noticiário, em busca de algum gesto de bondade ou grandeza por parte da humanidade, corre o risco de não encontrar nada numa pobre manhã como essa, de 22 de maio de 2007.
Não é possível acreditar que nada aconteça, mas a seleção, naturalmente feita com o intuito de chamar a atenção, registrar o inusitado, percorre os porões, os infectos subterrâneos da consciência humana.
Hoje, por exemplo, temos para oferecer uma história de granada, um apedrejamento e um pão roubado...
Na China, o glorioso “Império do Oriente”, onde, aliás, o comunismo já foi para o arquivo embora sob o silêncio da maioria – onde a propriedade privada foi restaurada oficialmente através de lei, no ano passado, e onde a pobreza é um fato incontestável, uma pobre garota de 16 anos, roubou um pão, pois estava com fome e não conseguiu resistir ao apelo que ele representava, e suicidou-se.
A imprensa chinesa divulgou o fato mudando o nome da moça. O pseudônimo utilizado é Huang Shiaoling, como poderia ser o que se quisesse em meio aos dois bilhões de chineses. A vergonha, esta é irremovível da cara do país.
A menina deixou um bilhete contando do seu arrependimento, pedindo desculpas e dizendo adeus.
O dono da padaria humilhou-a por mais de uma hora diante dos clientes que chegavam e saíam do estabelecimento. Um deles ainda tentou pagar o pão, que não valia mais de 2 huans, coisa de 0,26 centavos de dólar, mas o padeiro não quis receber o dinheiro e continuou massacrando a moça.
Em Moçambique, jogavam o Ferroviário contra o Lichinga que perdia por 2 x 0. Um torcedor do Ferrovirário festejou mais um gol do seu clube e foi morto à pedradas.
Sem comentários. A moda pode pegar fácil no Brasil...
E por falar em Brasil, no Morro do Livramento, na pobre cidade do Rio de Janeiro, explodiu uma granada dentro de casa de uma família e pai e filha foram parar no hospital. A menina, Ana Clara dos Santos, com ferimentos no rosto. Quem são os culpados? Onde estão? Melhor exclamar como Castro Alves no século dezenove: “Deus, onde estás? Onde te escondes? Em que recanto do infinito Tu te escondes, dizei-me vós, onde estás, Senhor Deus?”
Na época Deus não queria “explicar” a Castro Alves a covardia da escravidão. Dois séculos depois, Deus continua escondido. Não consegue explicar, nem justificar, que continuem se cometendo crimes como estes que reduziram a “Cidade Maravilhosa” a algo bem pior do que Sodoma e Gomorra...




REFLEXÕES PARA UM DOMINGO
Walter Galvani, em 20/05/2007

Crônica publicada no ABC deste domingo, jornal do
Grupo Editorial Sinos


MEMÓRIA, LEITURA, HISTÓRIA



Walter Galvani



Você sabe o que é uma “rave”? Já viu acontecer uma em sua cidade, aí numa esquina de Novo Hamburgo ou debaixo do Monumento ao Livro de Morro Reuter? Sim falo daquele obelisco de onze metros representando os livros, no principal acesso da cidade. Você soube que esta semana, na quinta-feira, as pessoas se reuniram para uma “rave”, convocados via Internet, na Borges de Medeiros em Porto Alegre? Você ficou sabendo que um ataque “virtual” impossibilitou qualquer ação através dos computadores na Estônia, porque o governo retirou do seu pedestal um monumento aos soldados russos que lutaram na Segunda Guerra pela liberdade daquele país e aproveitaram para ir ficando – por ordem dos seus superiores, naturalmente – em Riga (ah, vagamente você se recorda dos “Pinhos de Riga”? – pois é, deram origem até à uma música) e assim é que se entra (ou sai da História).

Dia desses, Ivan Izquierdo, um extraordinário professor, o maior conhecedor dos mecanismos da Memória em nosso meio e pelo mundão afora, falou numa das conferências da série “Desafios do Pensamento Contemporâneo” sobre a capacidade e necessidade de “esquecer”. Não há cérebro e não há espaço em cérebro para acumular todas estas coisas que desabam sobre nós e que, basta abrir o computador, escutar o rádio, ler o jornal, assistir tevê, e o que se imaginava absorver nas longas conversas na mercearia da esquina ou no botequim da madrugada, se vai por água abaixo.

Pois é, trate de descobrir o que é uma “rave”. Você vai ver o quanto isso tem a ver com o velho conceito de comunicação entre os jovens e os caminhos da liberdade, enquanto à sombra tanta coisa acontece. Todos os dias, despertamos com uma nova e devastadora informação de que o mundo ainda não desabou não, mas os brasileiros continuam roubando (matando, assaltando) mas também “metendo a mão” via Internet ou ao vivo e a cores, sem vergonha nem divisão de classes ou profissões ou divisão geográfica, roubo acontece também e muito no Centro-Sul ou no Extremo Sul. Que o governo é capaz da maldade de dividir o Ibama para facilitar seus atos e, ao mesmo tempo melhorar seus números e é PAC pra cá e PAC pra lá, pac, pac, pac... Falta-me coragem para passar em revista uma semana. Desde que se começou a revirar o bojo da sociedade, em busca da compreensão da História, o mau cheiro começou.

Receio que a Sandra Pesavento e o Roger Chartier não consigam na próxima sessão do encontro imperdível em que se transformou o “Fronteiras do Pensamento” reavivar o conceito de Memória e História para nós. Chegarei tarde ao lugar número 31 da fila D. Estarei ajudando a preservar a memória de Luís Figueredo, na ULBRA, Campus Canoas. É bom que se construam obeliscos para marcar o que passou. E que não deve passar.








ÁLVARO CÃNDIDO DA SILVEIRA meu modelo particular
Walter Galvani, em 18/05/2007

Uma crônica
escrita para mim
mesmo ou para mais
duas ou três pessoas


ESCREVENDO PARA DUAS OU TRÊS PESSOAS...

Walter Galvani da Silveira


Profissionalmente tenho usado o nome e prenome que me vieram de minha mãe: Walter Galvani. Propositadamente, ao longo dos anos e desde 1957, não tenho utilizado o meu nome completo, Walter Galvani da Silveira, mas hoje o faço em homenagem ao meu personagem preferido, meu pai, a quem tento inutilmente imitar ao longo da vida (e já lá se vão 73 anos...)
Sei que escrevo hoje para duas ou três pessoas, talvez para mim mesmo e para meus irmãos.
É que o dia 18 de maio era um dia discreta festa em minha família, mas que não podia ser esquecido, apesar de que o titular, meu pai, Álvaro Cândido da Silveira, se fizesse presente apenas com a sua calma, sua simpatia, sua bonomia, sua altivez e sua cativante personalidade de diplomata, inato.
Estaria completando hoje 102 anos. Possibilidade que já existe nos tempos modernos, difícil em sua época e por isso nos deixou no já longínquo 1989.
Mas, quantas lições, meu Deus do céu!
Quantas e quantas vezes fico a imaginar como se comportaria ele em determinadas aperturas que a vida tem me reservado!
E vendo o quanto foi amado e tudo o que teve de enfrentar e suportar, acho que é apenas uma modesta homenagem, esta que lhe faço aqui nas páginas abertas ao público deste site de Internet.
Nasceu em Porto Alegre, viveu praticamente toda sua vida em Canoas, foi um artesão, um profissional de marcenaria, mas, sobretudo um artesão da “arte de viver”.
Pena que partiu sem me transmitir toda a sua sabedoria.
Ainda agora, olho sua fotografia e vejo o caminho que tanto gostaria de haver trilhado. Bravos, Álvaro!




ONDE FORAM PARAR AS NOTAS DE 100?
Walter Galvani, em 17/05/2007

A falta de inflação produz de tudo.
E a Navalha está cortando fundo...


OPERAÇÃO NAVALHA E OPERAÇÃO FURACÃO

Walter Galvani

Já temos de tudo. Até operações com título em inglês que é para impactar ainda mais os contribuintes. E assim é que nem bem saímos da “Operação Hurricane”-1 entramos na “Hurricane-2” e, antes disso, apareceu cortante e atuante a “Operação Navalha”.
São quarenta e três políticos e empresários atingidos aqui, outros tantos ontem e outros mais anteontem e já nem sabemos quem é quem...
Só que estavam lesando o fisco e a fazenda federal e muitos policiais federais saíram do casulo e no escuro da manhã já estavam confiscando computadores, (cuidado com os mails...) e telefones, cofres e documentos.
No meio disso, um amigo me chama a atenção:
Você já se deu conta há quanto tempo você não vê uma nota de cem reais?
Verdade, nem me lembrava, como é que eram mesmo as notas de cem?
Pois é – disse-me ele – isso é o resultado da falta de inflação. O dinheiro sumiu da praça, o dólar caiu e o dinheiro se foi.
Enquanto isso, a navalha está cortando grosso!
E deu até para interromper o furacão.
Temos que pensar duas vezes na hora de abandonar uma função ou de trocar de emprego, ou fazer uma compra grande. Estamos diante de uma realidade nova. E os que estavam acostumados a enganar a opinião pública, cuidem-se. A “navalha” está aí mesmo, fazendo sangrar.
A “pergunta que não quer calar” é: será que depois disso tudo vamos criar vergonha no Brasil e parar de roubar do erário público?




LULA APRENDEU A LIÇÃO
Walter Galvani, em 15/05/2007

A entrevista coletiva desta manhã de terça-feira, mostrou
um presidente pronto para
a "sabatina".


LULA, O BOM MENINO

Walter Galvani

Desde muito tempo sabemos que “o bom menino” não falta à escola e aprende a lição. Na entrevista coletiva desta manhã de terça-feira, o presidente Lula demonstrou com eloqüência e precisão, o quanto progrediu desde que foi três vezes derrotado como candidato a presidente até que acabou duas vezes eleito. Como já sabe que não poderá candidatar-se novamente, já acenou com acordos a todos os partidos imagináveis, mesmo aqueles que combatia e que o combatiam. E todos sabem agora, que Lula se transformou num parceiro ideal de convivência política.
Nada melhor.
Lula sabe tudo, Lula já viveu do melhor ao pior, já foi preso, fez greve, aprendeu a tolerar as diferenças políticas, sociais, conviveu com os grandes com os poderosos, colecionou momentos inesquecíveis e decepções notáveis.
Agora, Lula está preparado para engolir todos os sapos que se possa imaginar, mesmo “sapos barbudos”... como os adversários, maldosamente, a ele próprio se referiam e assim, tornar-se como é sua sagrada intenção, presidente de todos os brasileiros. Já avisou que o seu partido, o PT aprendeu a governar, depois de haver aprendido como se vive na Oposição, enfim, Lula já sabe ceder, fazer acordos, nomear antigos inimigos.
Lula aprendeu a lição completa. São poucos os políticos hoje, no Brasil, que possuem o grau de preparação de Luiz Ignácio Lula da Silva para tratar com os correligionários e com os adversários, ou seja, com os aliados e com os, digamos, divergentes políticos para não usar nenhum termo mais pesado.
E é pensando em Lula que escrevo hoje aqui. Bons tempos os do parlamentarismo, mas que no Brasil só valeram a pena durante o império. A experiência republicana não deu certo e escrevo isso para dizer que Lula não deve pleitear mais nenhuma reeleição, mas ele e seu partido aprenderam a conviver, tanto que poderiam compor-se em algum gabinete multipartidário. Como o governo que ele está montando para esta seqüência de mandato que tem.
Governo de coalizão é o nome do jogo neste momento. Se “é para o bem de todos e felicidade geral da Nação”, aceitamos. Vamos ver no que vai dar. Quanto às pequenas perdas (ou serão grandes?) como a tal história das refinarias da Petrobrás na Bolívia, pagou-se também um preço político. Tenhamos muita paciência.





O QUE DIZ O PAPA NO BRASIL E O QUE REGISTRA A IMPRENSA
Walter Galvani, em 13/05/2007

Há "pequenas diferenças" entre a repercussão "triunfante" na "midia"
eletrônica e impressa no Brasil, e o que
informa a imprensa internacional.
Leiam e reflitam, amigos brasileiros.
Mesmo sendo um conhecido conservador,
sempre é interessante o que dizem do
Brasil, "lá fora".
(Esta crônica está sendo publicada hoje no jornal ABC DOMINGO, do Grupo Editorial Sinos, editado para Porto Alegre, Região Metropolitana e Encosta da Serra no Rio Grande do Sul, estado mais meridional do Brasil)


OS CAVALEIROS DO APOCALIPSE



Walter Galvani







Como sempre, é preciso ler os jornais de fora do país para descobrir o que acontece aqui dentro. Isso porque os meios oficiais conseguem mascarar de tal forma o que de fato sucede que o povo, em meio à poeira cósmica dos comentários e manifestações políticas, fica sem saber o que de fato ocorre.

Visita do Papa. Os brasileiros ficam sabendo através da cobertura maciça feita especialmente pelos sistemas de televisão, de que foi um sucesso e que a Igreja Católica deve crescer depois desta visita. O “sábio” pontífice teria ajudado os brasileiros a encontrar os seus caminhos e a não ser pelo pouco diplomático envelope de Lula que sumiu estrategicamente na hora da entrevista do presidente com Bento XVI, no qual ele narrava suas permanentes preocupações “com a família”, pouco mais se viu de negativo ou pouco positivo.

No entanto, a reação dos jornais internacionais como “El País” e “El Mundo”, de Madri, o “The New York Times” e o “Washington Post” dos Estados Unidos, o “La Reppublica” de Roma, a não ser que estejam todos mentindo, numa “conspiração internacional” contra o Brasil, é diametralmente oposta.

Dizem eles que o Papa “puxou as orelhas” dos bispos brasileiros. Disse-lhes que a Igreja Brasileira tem sido muito tolerante e que modernamente enfrenta-se “os quatro cavalheiros do Apocalipse”. São eles, disse o papa germânico: “O Agnosticismo, o Laicismo, o Relativismo e o Consumismo. E agora, os Meios de Comunicação de Massa, todos empenhados em destruir a família, os valores cristãos, defendendo os casamentos diferenciados.”

Atribuiu-se à “sensualidade inata” dos brasileiros esta espécie de dissolução dos costumes e com isso tentam explicar o crescimento das “igrejas pentecostais evangélicas”.

“É falso – comentam os jornais da Europa e dos Estados Unidos – As chamadas Igrejas Pentecostais Evangélicas são mais conservadoras em matéria de costumes e sobretudo com a sensualidade do que a Católica”.

Surgirão muitas explicações, principalmente depois que o Papa deixar o Brasil. Espera-se que não o acusem de desnorteado como o pobre pingüim que saiu do Chile caminhando e como um descendente dos “happy feet” andou 5.000 quilômetros e foi parar, ontem, no Peru. Ou como o próprio presidente Lula que chegou certa feita à Venezuela e saudou os “bolivianos”.

Se o Papa sabe mesmo o que está dizendo, botou o Igreja Católica brasileira numa saia justa, demonstrando que não se perdeu como pingüim e sim, provou que não é por acaso que leu um longo discurso em português com sotaque irretocável.






FANATISMO E DESTEMOR
Walter Galvani, em 12/05/2007

Ah a juventude! Bem supremo que se desperdiça, e cujo valor só descobrimos quando já estamos, infelizmente,
velhos.
Eis o drama da paixão e morte de um jovem estudante de Medicina.


MURETA E PAIXÃO



Walter Galvani





Há a presença do Papa no Brasil e o deslocamento até São Paulo, com todos os sacrifícios possíveis, inclusive financeiros até, para levar “cuia e bomba de chimarrão”, rejeitados pelo Serviço de Segurança do Campo de Marte ou do Pacaembu, porque lá, estes símbolos gaúchos não são reconhecidos como “mensageiros de paz”. Deve ser ainda algum resquício de 1932 alojado no espírito paulista...

Mas, o tamanho da mureta e as dimensões da paixão esportiva é que se sobrepõem à vontade de estar num acontecimento ímpar e ao fanatismo religioso, para fazer com que as pessoas se excedam. E morram por isto.

Na vitória do Grêmio sobre o São Paulo pela “Libertadores”, um jovem estudante de medicina, uma promessa da nossa sociedade, jogou-se para a morte ao saltar uma mureta de 80 centímetros, mais a grade de proteção de 30 centímetros. Precipitou-se no abismo de 3 metros e meio.

Os funcionários da Segurança do estádio Olímpico dizem que não são poucos “os mais entusiasmados” que sobem ali, nos momentos de paroxismo da paixão clubística. E não descartam, inclusive que o jovem William tenha sido empurrado por outros apaixonados que buscavam a mesma demonstração de loucura que ele cometia.

Pensa-se em elevar a mureta e a proteção para dois metros e tanto. Não o façam. O erro não está na altura da mureta, o erro reside nos corações apaixonados que no auge da onipotência que a juventude gera (no caso, 21 anos) acham que nada os poderá deter.

Nesse “nada mais além”, incendiado pelo comportamento do estádio inteiro, um jovem estudante de Medicina, portanto... jogou-se para a morte, por imprudência, descuido ou crime.

Há já algum tempo que o comportamento das torcidas de futebol vem se tornando de tal forma violento que os próprios clubes e federações adotam punições severas. Pouco severas, talvez. O mau exemplo nasceu na Inglaterra e na Holanda, onde multidões de bêbados, denominando-se “hooligans”, se infiltram nos grandes estádios, naturalmente em dias de decisões importantes, para perturbar os adversários. Alguns jogam pedras, outros radinhos, outros mais ousados “sinalizadores” de fogo, bombas. E outros se atiram para a morte, em honra dos seus clubes. Esta identificação infeliz pode levar à perdas como a deste jovem torcedor do Grêmio Porto-Alegrense, um clube honrado, que em 1903, quando foi fundado, não imaginaria que cumpriria tão definidora trajetória, a ponto de identificar em si, em sua camisa, seu passado, seu presente e por certo seu futuro, todo um sentido simbólico de representação local e regional.




O PAPA NO BRASIL, OS POBRES ESCONDIDOS
Walter Galvani, em 09/05/2007

Esta é o símbolo do
descaramento nacional:
retira-se das ruas
os "sem teto". Até que
o Papa vá embora...


DOZE MIL SEM TETO

Walter Galvani


É muito ou pouco, doze mil sem teto numa cidade como São Paulo?
Acho até que é pouco. Trata-se de uma estatística parecida com esta que apresentam do analfabetismo brasileiro. Há os analfabetos totais e os “analfabetos funcionais”. E então a conta pode subir de oito para oitenta... No Brasil é assim mesmo, e depende do que se quer demonstrar, como ouvi, certa vez, quando um grande instituto de pesquisa de opinião havia procurado o Dr. Breno Caldas, então diretor do “Correio do Povo”: - “Mas o que o senhor quer demonstrar, doutor Breno? A gente produz as respostas.”
“Produzir” no caso era um eufemismo, queria dizer “a gente ajeita” as respostas...
Não “ajeitaram” nada porque ele correu com o pessoal do tal instituto. Mas, isso já é historinha para o livro que o Antônio Goulart e o Vilnei Herbstrith estão preparando. Na certa terão muitas “histórias, historinhas e historionas” de imprensa para contar.
Voltando aos 12 mil sem teto da cidade de São Paulo, este é o dado que a administração municipal da capital paulista, sem nenhum pejo apresentou a respeito da visita do Papa. E o que é pior: eles recolheram esta gente, durante a madrugada para que o “Santo Padre” não visse o panorama vergonhoso nas ruas da maior cidade brasileira.
O pior é que eles divulgam isso sem nenhum rubor a lhes tingir o rosto descarado...
Por que não aproveitam o recolhimento e transformam, de vez, os “sem teto” em alegres “com teto novo”? Com esta fórmula, assim que acabar a visita do Papa eles estarão nas ruas outra vez. Sem teto, naturalmente. Nem almoço.
A vida em sociedade tornou-se um desfile de cinismos e hipocrisias. Não importa a religião que queiram homenagear ou o grau de importância do visitante. Pode até não ser ele mesmo, o portador do tal cinismo ou nem imaginar o que de fato ocorre, se for mal informado, é claro. Às vezes a notícia não chega ao centro do poder, como diria Luis XIV...
De qualquer maneira, sim, sabe-se que é difícil resolver um problema como este, mas bem que se poderia tentar! Ainda mais na capital do estado mais rico da federação que recolhe icms do que produz pelo país todo.
Minha contribuição à visita do Papa Bento XVI é esta: sejamos sinceros. De nada adianta ocultar as favelas com painéis de publicidade (como já foi feito no Brasil), nem remover os pobres das ruas (como fizeram com Luis XIV na França do século quinze...)




UM DIA, HÁ 62 ANOS
Walter Galvani, em 08/05/2007

O que foi, para um menino
de onze anos,
o chamado "Dia da Vitória"


UM DIA EM 1945, O DIA DA VITÓRIA

Walter Galvani


Canoas, 8 de maio de 1945, 10.000 habitantes. Na prática, todos se conheciam. Sabia-se onde morava o prefeito, quem era o delegado de polícia, o agente dos Correios, e onde residiam os colegas e amigos.
Já há seis anos, os canhões ribombavam na Europa, e em alguns casos, os moradores tinham que suportar a hostilidade ou o preconceito.
Lia-se nos sobrenomes, por vezes, uma possível inclinação favorável aos alemães e italianos, leia-se nazistas e fascistas, que pretendiam dominar o mundo sob a liderança de Adolf Hitler e Benito Mussolini.
É o que se chamava a “Segunda Guerra Mundial”.
E foi num dia 8 de maio, naquele 1945, quando eu recém retornara das aulas no Colégio São Luiz, dos Irmãos Lassalistas, que ouvi a vizinha, dona Angelina Herzer da Silva, que havia corrido até os fundos do seu terreno, que vizinhava com o nosso, gritar para minha mãe:
“Julieta! Julieta! A Guerra acabou!”
Dentro em pouco os sinos da igreja São Luiz badalavam com força, a rádio Farroupilha já transmitira em edição extraordinária um “Repórter Esso” com a informação, daqui a pouco parece que todos sabiam o que se passara na Europa.
O que se passara?
A Alemanha, através do Almirante Doenitz, assinara a Rendição Incondicional.
Cessaram os canhoneios, os bombardeios, as prisões, deportações. Logo se ficou sabendo, abriram-se as portas dos campos de concentração, milhões de prisioneiros magérrimos, reduzidos pela fome, pelas torturas, e que foram vendo suas famílias minguarem e desaparecerem.
Seis milhões de vítimas aqui, seis milhões ali. Números absurdos e inacreditáveis.
Para um menino de onze anos como eu, apenas um acontecimento bizarro naquela meia tarde de maio de 45. Eu completara, dois dias antes, 11 anos, ainda estavam em meu pensamento os momentos agradáveis, uma tarde de futebol, a visita dos colegas de primeira série ginasial.
Sabíamos com quem estávamos. Era a “Segunda Guerra Mundial”, havíamos “ajudado” a combater o nazismo e o fascismo. Com nossas primeiras e aventurosas incursões pelo Latim e pelo Francês, tínhamos certeza de que nosso lado era o dos “Aliados”.
Pensávamos: nunca mais haverá nada igual ou parecido.
Os homens são “irmãos”, o impossível seria repetir-se tal injusta mortandade.
Mas, tudo era tão distante.
Não havia televisão, eram os jornais cinematográficos que nos trariam as imagens, atrasadas, antes de algum filme da “matinée” de domingo no cinema Central. Ou o rádio, ou o “Correio do Povo” na sua sisudez, o imenso jornalão, que meu pai assinava.
E em cujas páginas, anos antes, aprendera a ler. (Não muitos anos antes, na certa entre os seis e os sete.)
Agora poderíamos respirar e pensar em viver em paz, planejar o que faríamos no futuro. Quem sabe conhecer Paris?
Esta discreta euforia, de fato vivemos, ou será uma mitificação que faço agora, 62 anos depois?
Três ou quatro anos mais tarde eu estava no mercado de trabalho, 9 anos depois eu começava no jornalismo.
E agora?
Conhecer o que? São Petersburgo ou Pequim, que até já mudou de nome para Beijing? Ou voltar a Paris, Berlim?
O menino do La Salle de 1945 ainda existe e resiste, tantas guerras adiante?








PENSANDO BEM...
Walter Galvani, em 06/05/2007

Crônica publicada
no ABC DOMINGO deste
dia 6 de maio de 2007


A CULTURA DA CORRUPÇÃO



Walter Galvani





Nascemos, crescemos e vivemos dentro de um caldo de cultura que tem como ingrediente indispensável a corrupção. Seja ela passiva ou ativa, nós aprendemos a praticá-la desde os mais verdes anos e seguimos vida em fora, desempenhando a mesma atuação, como se fosse absolutamente normal. E é sob este ponto de vista de nossa sociedade que agimos até que por azar ou conveniência, ao desembocarmos em um ato mais amplo e que fira os limites, digamos “aceitáveis”, para usar um eufemismo, uma concessão discutível, botamos a cabeça acima da linha de flutuação. O resultado é uma cassação, uma exposição à condenação pública, um par de algemas nos pulsos, uma noite na carceragem da Polícia Federal e uma chegadinha aos tribunais. Não estou defendendo o ato de grandes ou pequenos empresários tentarem fazer andar seus projetos com o uso de propinas, mas muitas vezes eles não dispõem do mesmo poder de barganha das multinacionais ou de grandes e “patrióticas” empresas que apenas pela pressão política e ou pelas ameaças de retirada de investimentos e conseqüente redução no número de empregos facilitados no mercado, obtém as mudanças nas leis, regulamentos, instruções normativas ou decisões políticas.

Você dá vinte reais ao funcionário que faz um pequeno
trabalho em nome das prestadoras de serviço, para que ele “tome uma cervejinha”. O que você está praticando? Corrupção ativa ou passiva, como queira ver, mas você desejava apenas “acelerar o processo”.

Quando grandes empresários aplicam vinte mil reais ou vinte milhões para “acelerar” ou modificar uma decisão governamental, para que seus projetos não sejam vistos como danosos ao Meio Ambiente, por exemplo, o que é que estão fazendo? Praticando a mesma cultura de corrupção com que se acostumaram desde que nasceram.

Pergunto: você acha, sinceramente, que um político “começou a roubar” quando chegou à Câmara, à Assembléia, ao Senado, ou a algum posto executivo, ou ele praticava a sua desonestidadezinha pessoal desde os tempos em que tinha um armazém qualquer numa esquina de vila? Passou do varejo ao atacado, talvez... não mais do que isso.

Mudar as regras do jogo com a partida em andamento, isso também é uma espécie de desonestidade, sem dúvida uma falta de respeito pela ética.

A crise no Meio Ambiente no Rio Grande ou em Santa Catarina, em Jurerê Internacional ou no frágil Pampa gaúcho tem as mesmas raízes. Se existem leis, elas precisam ser respeitadas e não mudadas.




ESCREVER É COMO APAIXONAR-SE
Walter Galvani, em 04/05/2007

A escritora espanhola
Rosa Montero, também
jornalista, é o que
há de bom hoje em dia.
Leia o que ela diz
sobre escrever em seu livro
"A Louca da Casa", editado
pela Ediouro,
Rio de Janeiro, 2004



“Nós inventamos nossas lembranças o que é o mesmo que dizer que inventamos a nós mesmos, porque nossa identidade reside na memória, no relato da nossa biografia. Portanto, poderíamos deduzir que os seres humanos são, acima de tudo, romancistas, autores de um romance único cuja escrita dura toda a existência e no qual assumimos o papel de protagonistas. É uma escrita, naturalmente, sem texto físico, mas qualquer narrador profissional sabe que se escreve sobretudo dentro da cabeça. É um rum-rum criativo que nos acompanha enquanto estamos dirigindo, ou levando o cachorro para passear, ou na cama tentando dormir. A gente escreve o tempo todo.”
“Há muitos anos que venho fazendo anotações em diversos caderninhos com a idéia de escrever um ensaio sobre o ofício de escrever. O que é uma espécie de mania obsessiva dos romancistas profissionais: quando não morrem prematuramente, todos eles padecem, mais cedo ou mais tarde, da imperiosa urgência de escrever sobre a escrita, de Henry James a Vargas Llosa, passando por Stephen Vicinczei, Montserrat Roig ou Villa-Matas, para citar alguns dos livros que mais me agradaram.”
“Eu também senti a furiosa chamada desta pulsão, ou desse vício, e dizia que vinha anotando idéias há um bom tempo quando fui percebendo, pouco a pouco, que não podia falar da literatura sem falar da vida; da imaginação sem falar dos sonhos cotidianos; da invenção narrativa sem levar em conta que a primeira mentira é o real. E, assim, o projeto do livro foi ficando cada vez mais impreciso e mais confuso, coisa por outro lado natural, ao ir-se misturando com a existência”.
“De fato, escrever romances é a coisa mais parecida com apaixonar-se que já encontrei (ou melhor, a única coisa parecida), com a apreciável vantagem de que na escrita não se precisa da colaboração de outra pessoa. Por exemplo: quando você está mergulhado na paixão, vive obcecado pela pessoa amada a ponto de ficar o dia inteiro pensando nela; escova os dentes e vê seu rosto flutuando no espelho, está dirigindo e confunde a rua porque foi perturbado por essa lembrança, tenta dormir à noite e, em vez de deslizar até o interior do sono, você cai nos braços imaginários do seu amante. Pois bem, enquanto está escrevendo um romance você vive nesse mesmo estado de espírito de delicioso alheamento: seu pensamento é inteiramente ocupado pela obra, e toda a vez que dispõe de um minuto, mergulha mentalmente nela. Também se engana de esquina no trânsito, porque, igualzinho ao apaixonado, sua alma está entregue e em outro lugar.”
Pgs. 8, 9 e 10

Gostou?
É uma boa reflexão
para o fim de semana.




SEGURANÇA, SEGURANÇA
Walter Galvani, em 29/04/2007

Crônica publicada
na edição do ABC DOMINGO,
jornal do Grupo Editorial Sinos


ENTUSIASMO É UM DEUS



Walter Galvani



Já tivemos de tudo, mas em matéria de segurança, estamos sempre presos à esperança. Vejam, numa semana em que, mais uma vez, se produziram seqüestros (alguns relâmpagos, outros temporais de longa duração) e assassinatos, uma dúzia de execuções, importamos também o sistema da morte de crianças e adultos por balas perdidas e as orações na hora da posse do novo secretário de segurança. (Parece que a Yeda não gostou muito do anterior porque ele ajeitava o nó da gravata toda a vez que relampejava, pois pensava que eram os “flashes” dos fotógrafos ou as luzes da televisão)... Brincadeiras. Esqueçamos. Vamos à oração do novo secretário Mallmann. (Tomara que tenha razão e se saia melhor do que o antecessor de tão curta duração).

Pois leu ele para seus funcionários que “a palavra entusiasmo vem do grego e significa ter um deus dentro de si. A pessoa entusiasmada é aquela que acredita na sua capacidade de transformar as coisas, de fazer dar certo. Entusiasmada é a pessoa que acredita em si. Acredita nos outros. Não é o sucesso que traz o entusiasmo, é o entusiasmo que traz o sucesso. Conheço pessoas que ficam esperando as condições melhorarem, a vida melhorar, o sucesso chegar, para depois se entusiasmarem. A verdade é que jamais se entusiasmarão com alguma coisa. O entusiasmo é que traz a nova visão da vida. Nessa semana gostaria de perguntar a você e a seu pessoal como vai o seu entusiasmo? Como vai seu entusiasmo pelo Brasil, pela sua instituição, pela sua atividade, pela sua família, seus filhos, pelo sucesso dos seus amigos?” Depois desta breve introdução ao manual de auto-ajuda do novo secretário, posso responder, bem, ele não me perguntou mas respondo, vai bem, tenho o maior entusiasmo pelo sucesso dos meus amigos, pela minha família, pelos meus filhos e netos, pelo que faço, pelo Brasil, pelas instituições onde trabalho, pela minha atividade, só não tenho é segurança. Não tenho segurança de ir até à esquina comprar uma cerveja depois das nove da noite, de trafegar de carro e parar nos sinais vermelhos depois das dez, de parar numa estrada para trocar um pneu furado, não tenho, senhor secretário, confiança nenhuma em ir a um banco e retirar algum dinheiro para pagar uma conta e às vezes me acordo durante a noite pensando que não devem ser ratos ou gambás que estão fazendo suas correrias, mas algum “mão-leve”e”pé-ligeiro” que adentrou minha casa.

E jamais farei como aquela senhora de Mariluz que era natural de Novo Hamburgo e se aposentou e foi para a “santa paz” da praia onde foi estrangulada e incendiada. Tenho muito entusiasmo, mas também tenho muito medo. E nenhuma segurança.




UMA HISTÓRIA INTIMISTA
Walter Galvani, em 24/04/2007

Em meio a tantos horrores
do dia-a-dia, prefiro
hoje mergulhar na felicidade
que, às vezes, não é
"uma casinha pequeninba com gerânios em flor na janela", mas
um... "Fusca" com 32 anos de idade.


UM CASO DE AMOR

Walter Galvani


Tenho um caso de amor com um “Fusquinha” (sim, todo mundo de determinada faixa etária já o teve...) mas, o meu existe a pleno. Como não poderia deixar de ser, minha relação com ele é pontilhada de beijos, abraços e rusgas. Hoje tive uma dessas.
Trata-se de um “Fusca-75”. Ele não foi adquirido por desvelos automobilísticos ou paixões mecânicas. Nada disso: teve a sua compra um fim bastante utilitário, embora não o negue, azeitado pelo amor. No caso de amor meu (e de minha companheira) pela netinha Isabella, cujas aventuras verbais e comportamentais, cansei de narrar aos meus alunos de Crônica ou de Biografia, por aí, pelo mundo, na Unisinos, na Uergs, nas feiras de livro.
Acontece que morando em Guaíba, decidimos (eu e Carla, minha amada companheira de jornada nesta vida) que a melhor maneira de transportá-la para a escolinha ou para a pracinha, seria comprando um carro de menor preço. Foi quando nos deparamos, em mãos de um amigo, mas por acidente de procura nos classificados, com um Volkswagen 1300, modelo 1975. O preço era bom, compramos. E desde então ele tem recebido carinho e atenções, em nome da Isabella, afinal é o “carro dela”.
Com o deslocamento dos familiares para uma pequena estada fora, tocou-me por alguns dias, ficar com o “Fusquinha”. Coisa que fiz com o desvelo que ele merece como “objeto do desejo” dos colecionadores, embora não seja o meu caso, mas repito, como conservador daquela preciosidade. Ele nunca me traiu, durante todo este tempo, até que semanas atrás um pneu arriou e tive de tomar providências à distância. Problema resolvido com um vizinho que “não existe” (mandou fazer o conserto e recolocou o pneu no lugar) eis que esta manhã, dia 24 de abril, o Fusca resolveu não atender meu apelo e “morreu”. Quero dizer, “morreu o arranque”. Não precisei empurrá-lo, para tanto me ajudaram os responsáveis pela garagem onde ele dormiu, mas ele já vinha me avisando, com engasgos inesperados no trânsito que algo ia mal com seu sistema digestivo, a gasolina estava intragável, parece e, finalmente, com a teimosia em tossir e negar o arranque ontem no final da tarde.
Dormi profundamente e me esqueci do problema até que, pouco antes do banho e do café, voltou-me à consciência o problema da véspera e alojou-se em minha mente o medo de que ele se recusasse a me transportar nesta manhã de terça.
“Levá-lo-ei ao médico, digo mecânico – pensei comigo mesmo. (Aliás, que expressão é esta, não é mesmo, com quem mais poderia pensar, a não ser comigo mesmo?)
Pois foi o que tive de fazer. Fui lá na garagem, precisei de auxilio, e os rapazes, atenciosos, me ajudaram sorridentes, até fazendo brincadeira um com o outro, julguei-os felizes por aquela ocorrência matinal e me mandei para o mecânico.
Lá está o Fusca da Isa, agora. Se ela me falar ao telefone, direi que o “Fusca” foi ao medico. Dormirá lá na oficina esta noite. Amanhã estará rodando impávido pelas ruas da capital (e de Guaíba) chamando a atenção pela sua limpeza, estado técnico e aparência. Não liguem, não se trata de paixão ou “volksmania”, mas de um caso de amor pela neta e pelo “carro dela”.




SÃO 507 ANOS DE CONSTRUÇÃO DO BRASIL, COMO NAÇÃO NO CONCEITO E VISÃO NASCIDOS NA EUROPA OCIDENTAL
Walter Galvani, em 22/04/2007

Cinco séculos mais alguns
dias que assinalamos
a existência e construção
de uma herança
cultural. Somos
"gregos". somos "romanos"
somos "europeus". Mas
nos misturamos produtivamente com africanos (afinal isso todos somos...)( e aborígenes.
A propósito: quando e de onde
vieram os indígenas
pré-cabralinos?
Crônica publicada neste dia
22 de abril no
ABC DOMINGO, jornal
do Grupo Editorial Sinos


507 ANOS, NAU CAPITÂNIA

Walter Galvani


Quando acabou o império romano, suas antigas províncias e colônias foram se libertando, se emancipando, começando a construir seus processos de liberdade política. Em alguns casos a consolidação levou tanto tempo que os movimentos nacionais, então emergentes, acabaram engolfados pelo crescimento dos vizinhos. E aos poucos foi se desenhando um mapa da Europa e da Ásia, mais tarde África, em que as casas nacionais se sobressaiam e garantiam o desenvolvimento local, com seus exércitos próprios, suas bandeiras, suas lendas e tradições, sua língua e sua cultura. Aliás, por falar em língua, a maioria destes resultantes da atomização do império, barbarizaram o latim. Aos poucos nasceram o francês, o italiano, o espanhol, o português, o romeno, o provençal, o galego e também o ramo germânico e saxônico que, embora recebendo contribuições do latim bárbaro e seus descendentes, seguiram outro caminho. Isso tudo é para lembrar que todos vieram da mesma árvore.

Quando Portugal cimentou o seu caminho e acumulou os efeitos da cultura e da tradição, da experiência e do conhecimento que lhe vinha da herança romana como um todo, tornou-se o país mais adiantado do mundo ocidental. De posse das ferramentas e de um pouco de audácia, os portugueses lançaram-se ao mar que os estreitos limites de sua terra já não os continham.

A saga é por demais conhecida. E depois de abrir o caminho marítimo para as Índias, depois de estabelecer-se em toda a costa africana, depois da conquista e ocupação dos Açores, da ilha da Madeira, do arquipélago do Cabo Verde, chegou a vez do Brasil, cuja existência era bem conhecida deles, desde os tempos de Dom João II. Rei morto, rei posto, Dom Manuel I no poder, armou-se a maior esquadra jamais vista em Portugal e entregou-se o seu comando a Pedro Álvares Cabral.

Depois de uma longa jornada de 44 dias, de bordo de sua “nau capitânia” avistou-se terra. Batizada de “Ilha de Vera Cruz”, sua denominação mudada pelo rei, mais tarde, quando teve conhecimento em Lisboa. Dom Manuel, conhecido como “O Venturoso” rebatizou-a de “Terra de Santa Cruz”. O resto sabemos: como aqui havia muito “pau brasil”, acabamos recebendo esta denominação e para cá vieram descendentes de portugueses, galegos, espanhóis, mais tarde alemães, italianos, franceses, poloneses etc. e tal.

Já teremos acabado de construir o país de 507 anos, vamos resgatar a experiência pré-cabralina, que sentido terá toda esta gigantesca miscigenação e intercâmbio que estivemos construindo?

De qualquer maneira o dia da festa é hoje: 22 de abril. Ainda haverá lugar para festas? E o resgate histórico não será uma forma de atualização cultural?




COMO SE FAZ POLÍTICA E COMO SE USA A ARTE DA PUBLICIDADE
Walter Galvani, em 20/04/2007

Mistérios da comunicação e da política se entrecruzam na
capital do Rio Grande do Sul,
apontada como a sede
do estado mais politizado do BRasil.
Não parece...


ENCONTROS E DESENCONTROS


Não sei, a bem da verdade, em que canal devo classificar o tipo de ocorrência que agita a política do Rio Grande. Existem encontros ou desencontros de Yeda com os partidos que a acompanharam nesta insólita aventura de chegar ao poder, trazendo em seu topo, pela primeira vez, uma mulher ao Palácio Piratini?
Pois bem, isto posto, fico vendo que há um partido que neste ínterim trocou de nome, o PFL que agora se chama no maior lance de insensibilidade publicitária que se poderia imaginar, DEM (mas Dem o quê? Que sigla ineficaz!) e o que será que dizem ou “dêem” ou não? Talvez pelo choque do inusitado e do enigmático possa o tal DEM sensibilizar mais uma meia dúzia de eleitores... Por outro lado, os mesmos DEMocratas estão fora do governo e apesar de haverem conquistado a posição pela eleição do Paulo Feijó estão distantes de Yeda e pela palavra do líder Ônix Lorenzoni parece que não querem se comprometer sentando a seu lado.
Tudo é novo, pois, a partir da chegada de Yeda. Sob o ponto de vista positivo, é uma ótima lição a que a professora de economia nos dá, mandando pagar as contas só quando se tem saldo favorável. Isso é bonito, mas para quem pode.
Por enquanto estou aplicando, mais adiante vou ver se tenho cacife para manter-me e se a Yeda, no governo gaúcho, também.
Também, atrasar salários, embora não seja novidade absoluta (lembremos os tempos de Ildo Meneghetti) principalmente para os professores, não será uma forma lá muito afetuosa de lidar com a máquina governamental.
Como pressão política até pode ser válido agir assim, mas isso demonstraria apenas que o governo não tem entranhas sociais, apenas veias e artérias de aço como ocorre com as máquinas.





MAIS UM MATADOR AMERICANO
Walter Galvani, em 17/04/2007

A cultura da violência produz assassinos
nos Estados Unidos, apesar
da procedência ser da Coréia do Sul ou de qualquer parte.
O bilhete revelador deixado pelo assassino dos estudantes
abre um portão sobre
a psicologia dos desajustados:


Cho Seung-Hui, 23 anos, sul-coreano. Dono de um “green-card” podendo, portanto, morar e trabalhar indefinidamente nos Estados Unidos. Estudante da Universidade Técnica de Virgínia.
Matou 29 colegas e matou-se. Deixou um bilhete dizendo: “vocês me forçaram a fazer isso!”
Mas, como?
Armado com uma pistola e um revólver primeiro matou dois, e duas horas mais tarde levou adiante seu plano macabro e assassinou os demais estudantes-colegas que foi encontrando pela frente.
O que há por trás de uma cara aparentemente tranqüila, espiando sorridente seus colegas de aula?
Diariamente se registra, pelo mundo afora, o desfile das atrocidades, que vão desde um atirador solitário e com melhor pontaria do que John Wayne nos velhos filmes de faroeste, até a imolação diária em Bagdá, passando pelos absurdos brasileiros, como a troca de tiros entre traficantes e passantes, polícia e consumidores e o caso do homem que esqueceu o filho dentro do carro. Claro, a criança morreu e agora aparecem os que vem dizer que ele era um bom pai...
Que Deus me livre de um bom pai desses, imaginem se ele fosse um mau pai...
O desfile de horrores do cotidiano não tem mais fim.
Estou esperando para ver o que será o menu de amanhã ou depois. Já não há mais lugar para a imaginação.
A cada dia que passa, mais se esmeram os humanos em produzir horrores. E imaginem que havia uma frase no tempo dos romanos que dizia assim: “Homo homini lupus”, ou seja que o “o homem é o lobo do homem”. Que bela ofensa ao digno lobo que só caça para sua subsistência e só ataca os humanos, quando é atacado.
Que belo exemplo estamos deixando para os que vierem substituir esta fracassada raça humana aqui na Terra!




A SEGURANÇA NOSSA DE TODOS OS DIAS...
Walter Galvani, em 16/04/2007

Sobre o polêmico assunto da segurança pública, crônica divulgada no jornal
ABC DOMINGO


VITÓRIA DA BANDIDAGEM?



Walter Galvani





O jornalista é o historiador do presente, o historiador é o jornalista do passado, cansei de escrever esta frase com primeiras, segundas e terceiras intenções. Às vezes para me defender de acusações de invasão do campo alheio, outras para explicar objetivamente o que estava a fazer, e outras ainda para que me entendessem como um dos tantos bem intencionados, os quais, como se sabe, preenchem todas as vagas do inferno.

Este preâmbulo, antigamente chamado de “nariz de cera” na gíria jornalística, é para dizer que ainda é cedo para qualquer pronunciamento sobre a primeira (ou segunda?) grande crise política do governo Yeda Crusius. Demitir o deputado Ênio Bacci, perder ou não o apoio do PDT, confessar o fracasso da política de segurança de “tolerância zero” ou reafirmá-la, será uma coisa que só os próximos dias, meses ou mais, poderão nos informar com certeza.

A tentação de escrever que a queda do secretário de segurança quer dizer “vitória da bandidagem”, é muito grande. Mas, falar sem saber é um perigo e um privilégio dos jornalistas. Apressados que somos, muitas vezes, cometemos equívocos ou injustiças. Um pouco mais de reflexão, não faria mal a ninguém.

A gente aprende todos os dias com todo o mundo. Não por acaso gosto de conversar com os motoristas de táxi ou meus companheiros de viagem de ônibus ou avião (aliás, não é só Brasil que tem o privilégio de ter uma greve de controladores de tráfego aéreo, veja-se a França!...) - escutam-se frases preciosas, comentários jocosos ou radicalmente desesperançados, mas ouve-se a “voz das ruas”... E um desses companheiros fortuitos de viagem me dizia esta semana que nunca se deve fechar as contas e contar vitória depois de um mês de trabalho. Sempre é bom fazer a contabilidade após dois ou três meses para se tirar uma conclusão correta.

De minha parte, precipitadamente talvez, adotei o sistema da Yeda Crusius: só trabalho agora com o sistema de “caixa”. Entrou dinheiro, paguei as contas... Não entrou, fica para depois, adio, negocío. Boa, professora Yeda!

Assim sendo, vamos esperar um pouco mais para saber se houve mesmo uma vitória da bandidagem, ou se a bandidagem foi derrotada. Se a política de “tolerância zero” terá continuidade, se foi aprovada e se terá mais severidade ainda na sua aplicação. E, feitos os balanços, vamos saber se os resultados foram mesmo favoráveis.

Quer dizer: a História ainda está se escrevendo e de nada adianta um jornalista metido a historiador tentar colocar a carreta na frente dos bois.








UMA CRISE AO SUL...
Walter Galvani, em 12/04/2007

Crônica publicada no Diário de Canoas, jornal do Grupo Editorial Sinos, que circula em minha terra natal.
Antes da crise que derrubou o
secretário de segurança
do governo da Yeda Crusius,
a primeira mulher
a governar os
gaúchos...


DORMIR EM SEGURANÇA





Walter Galvani





O sonho de todos, mesmo dos ladrões perseguidos pela polícia, é dormir em paz. Umas quatro ou cinco horas já são suficientes, pelo menos para os mais idosos. Os policiais, por seu turno, também querem dormir em paz depois da jornada de trabalho, e o secretário de Segurança, mais ainda. Em Nova Iorque, onde descobriram o regime da “tolerância zero”, já estão dormindo depois do extenuante dia de combate aos delitos, por mínimos que sejam. Estacionar em local proibido, furtar um jornal do mostrador da esquina, bater uma carteira ou levar um pão, “distraidamente”, já não valem a pena na maior cidade americana, pois as punições são sérias e pesadas. Desde multas até prisões, passando pela fiança para libertações. Tudo isso gera uma gorda arrecadação que vai para os cofres municipais. E lá os salários não atrasam.

Aqui vivemos uma crise nesta área porque todos querem dormir em paz. Alguns prefeririam, naturalmente, nem sequer serem perturbados. Mas a “tolerância zero” exige atenção permanente e, por vezes, alguém se torna “incômodo”. No mundo da Máfia, tais procedimentos costumam ser punidos, com a eliminação ou, pior ainda, com represálias sérias que costumam atingir amigos e parentes. Por isso a Máfia tem uma formulação compacta de “família”. Não invejo a idéia italiana que nasceu na Sicília, mas, indiscutivelmente funciona. Pelo menos entre os seus membros.

Um desempenho forte na área de segurança pública fatalmente mexe com interesses estabelecidos, aliás, qualquer desempenho forte na área pública tem este resultado.

Daí que compreendo bem que os delegados de polícia, o chefe de polícia, o secretário Enio Bacci e a governadora Yeda Crusius, todos queiram dormir em paz depois da jornada de trabalho, como nós também o desejamos.

O relógio despertador tem só um rival: a consciência. Quem está em paz com ela muitas vezes dorme além da conta e o despertador então passa a desempenhar um papel fundamental para alertar o vivente para seus compromissos do dia.

Quem não comete pequenos delitos ou grandes, quem age de acordo com as normas adequadas de conduta, quem não fere a ética e respeita as amizades e ama ao próximo como a si mesmo, como determina a formação religiosa, seja ela cristã, israelita, muçulmana ou alternativa... dorme em paz e segurança.... Não interessa quem seja o titular desta ou daquela área. E quem não brinca com fogo, não se queima nem faz xixi na cama....








O VERDADEIRO SENTIDO E AS DIFERENÇAS DAS PALAVRAS...
Walter Galvani, em 09/04/2007

Um mundo perigoso. As palavras tem significados diversos
de acordo com a região que se habita.
E como se fala.
As vezes dentro da
própria língua. Na hora
da tradução, maior
é o perigo ainda...
Crônica publicada no
jornal ABC DOMINGO, neste domingo de Páscoa.


LIBERALISMO E LIBERALISMOS...



Walter Galvani





Nós, que lidamos com a palavra, sabemos o quanto ela pode nos trair. Quando por vezes a traduzimos, mais perigosa se torna ainda a lida com esta versátil e volúvel arma. Não é por acaso que os italianos costumam utilizar a expressão “tradutore, traditore” para exemplificar esta situação terrível entre o que se quer transmitir e o texto original, portanto, “tradutor, traidor”. Uma palavra sempre está carregada de conotações, de experiências históricas, de significados adquiridos, coados e transmitidos através da experiência dos povos, nações, tribos. Carlos Ascenso André, escritor português, falava sobre isso ao comentar a sua tradução de “A arte de amar” do poeta latino Ovídio, onde o exercício profissional colidiu com o dever de ser fiel tanto quanto possível, mas trabalhando em cima de um texto que tem dois mil anos de interpretações, transcrições, entendimentos e mudanças de hábitos e comportamentos. Pobres palavras! Ele conta que muitas vezes hesitou, pois aonde cabia uma palavra aparentemente grosseira ou de baixo calão, foi preciso substituir por algo mais sugestivo em língua portuguesa e menos agressivo e desviado do sentido original.

Liberalismo é uma palavra da moda política que passa, no Brasil e de um modo geral na América Latina, por tantos problemas como outras que por aí navegam cheias de incompreensões e enganos. Guy Sorman, intelectual francês, esteve esta semana em Porto Alegre, falando na série “Fronteiras do Pensamento Contemporâneo” e acendeu esta pilha no auditório, mas que nem sei se foi suficientemente compreendido ou melhor, se foi convenientemente “traduzido”. Mas ele foi claro: “Liberalismo como o entendemos na França, não é como se entende no Brasil!”

Isso pode gerar uma montanha de mal-entendidos. Por exemplo: ele não quis dizer que o modelo é o sistema de governo pregado pelos chamados “liberais” no Brasil, porque os chamados “liberais” não tem nada a ver com o Partido Liberal do tempo do império, ou com o Partido Libertador de Raul Pilla e Paulo Brossard no Rio Grande do Sul, porque estes sim, defendiam uma liberdade de ação política e econômica, com um estado “enxuto” –como gostaria o vice-governador Paulo Feijó – e menos intervencionista, mas com ampla liberdade de ação política (e isso é que é ser “liberal”) e sem radicalismos. E isso, repito, é que é ser liberal. Não estamos falando de costumes sociais ou individuais e essa é outra confusão do sentido das palavras.

Quando se diz que determinada mulher é muito “liberal”, no seio da sociedade brasileira já se sabe que se quer dizer que ela tem costumes sexuais, diríamos “avançados” pra não usar outra expressão mais contundente.








O CAOS AÉREO CONTINUARá?
Walter Galvani, em 02/04/2007

Crônica publicada ontem no
ABC DOMINGO,jornal do
Grupo Editorial Sinos


MOTIM, GREVE, CAOS...

Walter Galvani

Classificar o que houve, deixou de haver, e haverá no setor dos transportes aéreos do Brasil, desde que alguns sargentos da Aeronáutica iniciaram greve de fome na quinta-0feira passada até o Domingo de Páscoa, é uma questão do Ministro da Defesa e do presidente da república. Waldir Pires e Lula tentarão descalçar esta bota, enquanto o povo brasileiro se amotina nos aeroportos e vê o passeio, o cumprimento de missões de trabalho ou os contatos com a família, transformados em pesadelo.
A população pichou alguns vidros nos aeroportos, mas isso é para mostrar apenas a dificuldade de comunicação que se vive, paradoxalmente, neste chamado mundo globalizado e que se assinala justamente pela facilidade... das comunicações.
Trata-se de uma greve? Houve um motim? Qual será o resultado de tudo isso? Prisões? Fica muito chato para um presidente que construiu sua carreira sobre as greves do ABC paulista e abriu seus espaços com as vitórias obtidas.
Lula, um dedo a menos perdido na atividade de metalúrgico, e com os galões de presidente,sobre os ombros, conquistados com as greves que liderou, assentado sobre a sólida estrutura do PT, o partido que ajudou a fundar, talvez inspirado pelo "Solidarnosc" de Lech Walesa que ajudou a derrubar a Cortina de Ferro,está diante do maior desafio: "decifra-me ou te devoro", lhe diz a História.
Enquanto isso, as pessoas amargam nos aeroportos, a conseqüência de uma estrutura anacrônica, que ainda entrega, sob a desculpa da segurança nacional, aos militares o controle de vôo, ao mesmo tempo que os submete aos regimes mais retrógrados que se possa imaginar, resultantes de sua condição específica.
Competência, capacidade, independente do tipo de vinculação de trabalho, eis a questão.
Como modernizar o país que tanto depende do transporte aéreo por suas condições continentais?
Na Semana de Páscoa ameaçada pelas dúvidas, transformada em tormento pela adrena lina gasta, e a gastar pelo que virá, é preciso pensar e muito sobre o futuro imediato, a médio e a longo prazo. A transferência do lider, Edileuso Cavalcante, o "mobilizador" dos controladores de vôo, para Santa Maria, perturba,adia talvez a solução do problema, mas não o resolve. Pode dar efeito contrário.
Eu já decidí: irei de ônibus



O CAOS AÉREO CONTINUARÁ?
Walter Galvani, em 02/04/2007

Crônica publicada ontem no
jornal ABC DOMINGO,
do Grupo Editorial Sinos


MOTIM, GREVE, CAOS...

Walter Galvani

Classificar o que houve, deixou de haver, e haverá no setor dos transportes aéreos do Brasil, desde que alguns sargentos da Aeronáutica iniciaram greve de fome na quinta-0feira passada até o Domingo de Páscoa, é uma questão do Ministro da Defesa e do presidente da república. Waldir Pires e Lula tentarão descalçar esta bota, enquanto o povo brasileiro se amotina nos aeroportos e vê o passeio, o cumprimento de missões de trabalho ou os contatos com a família, transformados em pesadelo.
A população pichou alguns vidros nos aeroportos, mas isso é para mostrar apenas a dificuldade de comunicação que se vive, paradoxalmente, neste chamado mundo globalizado e que se assinala justamente pela facilidade... das comunicações.
Trata-se de uma greve? Houve um motim? Qual será o resultado de tudo isso? Prisões? Fica muito chato para um presidente que construiu sua carreira sobre as greves do ABC paulista e abriu seus espaços com as vitórias obtidas.
Lula, um dedo a menos perdido na atividade de metalúrgico, e com os galões de presidente,sobre os ombros, conquistados com as greves que liderou, assentado sobre a sólida estrutura do PT, o partido que ajudou a fundar, talvez inspirado pelo "Solidarnosc" de Lech Walesa que ajudou a derrubar a Cortina de Ferro,está diante do maior desafio: "decifra-me ou te devoro", lhe diz a História.
Enquanto isso, as pessoas amargam nos aeroportos, a conseqüência de uma estrutura anacrônica, que ainda entrega, sob a desculpa da segurança nacional, aos militares o controle de vôo, ao mesmo tempo que os submete aos regimes mais retrógrados que se possa imaginar, resultantes de sua condição específica.
Competência, capacidade, independente do tipo de vinculação de trabalho, eis a questão.
Como modernizar o país que tanto depende do transporte aéreo por suas condições continentais?
Na Semana de Páscoa ameaçada pelas dúvidas, transformada em tormento pela adrena lina gasta, e a gastar pelo que virá, é preciso pensar e muito sobre o futuro imediato, a médio e a longo prazo. A transferência do lider, Edileuso Cavalcante, o "mobilizador" dos controladores de vôo, para Santa Maria, perturba,adia talvez a solução do problema, mas não o resolve. Pode dar efeito contrário.
Eu já decidí: irei de ônibus



O CAOS AÉREO CONTINUARÁ?
Walter Galvani, em 02/04/2007

Crônica publicada ontem no
jornal ABC DOMINGO,
do Grupo Editorial Sinos


MOTIM, GREVE, CAOS...

Walter Galvani

Classificar o que houve, deixou de haver, e haverá no setor dos transportes aéreos do Brasil, desde que alguns sargentos da Aeronáutica iniciaram greve de fome na quinta-0feira passada até o Domingo de Páscoa, é uma questão do Ministro da Defesa e do presidente da república. Waldir Pires e Lula tentarão descalçar esta bota, enquanto o povo brasileiro se amotina nos aeroportos e vê o passeio, o cumprimento de missões de trabalho ou os contatos com a família, transformados em pesadelo.
A população pichou alguns vidros nos aeroportos, mas isso é para mostrar apenas a dificuldade de comunicação que se vive, paradoxalmente, neste chamado mundo globalizado e que se assinala justamente pela facilidade... das comunicações.
Trata-se de uma greve? Houve um motim? Qual será o resultado de tudo isso? Prisões? Fica muito chato para um presidente que construiu sua carreira sobre as greves do ABC paulista e abriu seus espaços com as vitórias obtidas.
Lula, um dedo a menos perdido na atividade de metalúrgico, e com os galões de presidente,sobre os ombros, conquistados com as greves que liderou, assentado sobre a sólida estrutura do PT, o partido que ajudou a fundar, talvez inspirado pelo "Solidarnosc" de Lech Walesa que ajudou a derrubar a Cortina de Ferro,está diante do maior desafio: "decifra-me ou te devoro", lhe diz a História.
Enquanto isso, as pessoas amargam nos aeroportos, a conseqüência de uma estrutura anacrônica, que ainda entrega, sob a desculpa da segurança nacional, aos militares o controle de vôo, ao mesmo tempo que os submete aos regimes mais retrógrados que se possa imaginar, resultantes de sua condição específica.
Competência, capacidade, independente do tipo de vinculação de trabalho, eis a questão.
Como modernizar o país que tanto depende do transporte aéreo por suas condições continentais?
Na Semana de Páscoa ameaçada pelas dúvidas, transformada em tormento pela adrena lina gasta, e a gastar pelo que virá, é preciso pensar e muito sobre o futuro imediato, a médio e a longo prazo. A transferência do lider, Edileuso Cavalcante, o "mobilizador" dos controladores de vôo, para Santa Maria, perturba,adia talvez a solução do problema, mas não o resolve. Pode dar efeito contrário.
Eu já decidí: irei de ônibus



OS IRMÃOS LASSALISTAS COMPLETAM 100 ANOS DE BRASIL
Walter Galvani, em 29/03/2007

E o colégio onde fiz os estudos
fundamentais, o La Salle de Canoas
hoje Universidade,
no começo apenas um modesto
colégio.
Os irmãos lassalistas eram carinhosamente chamados
assim, de "urubus do papo branco".
Esta crônica foi publicada hoje no "Diário de Canoas",
onde fica o La Salle:


OS URUBUS DO PAPO BRANCO



Walter Galvani



Não se assustem, era uma expressão carinhosa. Assim mesmo é que chamávamos os Irmãos Lassalistas e eles não se importavam, até achavam graça e não puniam ninguém por se exceder na linguagem. Desrespeitar o Irmão Diretor, desobedecer, não fazer silêncio, responder de maus modos, isso sim era pecado e pecado grave.

Eu mesmo, não poderia esquecer, recordo um dos artigos do regulamento da casa de La Salle: “O silêncio é de rigor nas fileiras, salas de aula e mudanças de exercício”.

Fumar também era proibido e mais ainda pichar os muros.

“Devo respeitar o caríssimo irmão diretor”, com quarenta toques, tive que escrever mil vezes e eis que isso me ajudou a melhorar a letra, coisa que o seu Álvaro e a dona Julieta não conseguiam, pois o aluno era rebelde demais.

Também não aprendi matemática, pois as contas não me entravam na cabeça e até hoje não entram. Respeito, e olhe lá, as colunas do crédito e do débito, e procuro manter ao longo da vida, os números do lado direito mais gordos do que os da esquerda...

Mas, era um deslumbramento ver os “urubus do papo branco”, ou seja os irmãos lassalistas com suas longas batinas jogando futebol com a garotada no meio do pátio de areão e atacando nos arcos com a capacidade ampliada por elas. Muitas vezes a bola que tinha o endereço certo das redes amortecia na batina e se aninhava aos pés do Irmão Evaristo ou do Amadeu ou do Albano.

Não canso de contar que o Irmão Henrique cuidava do nosso intelecto e para tanto fundou um grêmio literário quando ele não tinha mais do que 23 anos e nós 13 ou 14 e olhe lá. E que produzíamos incríveis ensaios literários, poesias, crônicas, artigos e esboços históricos e críticos.

Também veio o Irmão Mauricio Isaac, direto de Paris, e tentou meter em nossa cabeça a pureza da língua francesa e os conhecimentos sobre “la Gaulle avant la conquête romaine”... Ficamos devendo notas para ele. Que chance perdida.

Mas ficaram as sementes. Hoje, quando olho ao meu redor, vejo que os antigos alunos do La Salle progrediram, de um modo geral, e não é por acaso que nos reunimos duas ou três vezes por ano para matar a saudade.

Quando me elegem patrono de uma feira do livro ou algo do gênero, costumo dizer que estou usurpando o lugar do Irmão Henrique. O que é verdade.

O que se fizer por ele ainda será pouco. Felizmente, na mocidade dos seus oitenta e poucos anos, ele continua habitando o velho prédio do La Salle.

Obrigado aos irmãos Germano (o Batista) e Alfredo, que se encheram de coragem e apareceram com as românticas e belas batinas e os colarinhos duros, para nos lembrar que eram legítimos “urubus do papo branco” no dia em que se deu a largada para o centenário do nosso colégio (que comemoraremos no ano que vem) e se assinalou a chegada dos lassalistas ao Brasil, começando pelo Rio Grande do Sul.

Bons tempos? Sim, bons tempos, mas como diria o Irmão Henrique, as sementes até que caíram em terra fértil. Nossos pais estavam certos. E nossos amados “urubus.”






ENSINO, CULTURA E AMOR COM LIMITES E SEM LIMITES...
Walter Galvani, em 26/03/2007

Crônica publicada neste dia 25 de março de 2007 no jornal ABC DOMINGO

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AMOR, LIMITES E CULTURA





Walter Galvani





Um dos maiores acontecimentos da aérea cultural no Rio Grande do Sul, começou esta semana no velho Salão de Atos da Reitoria da UFRGS: “Fronteiras do Pensamento Contemporâneo”, que promoverá a vinda ao nosso estado de grandes nomes globais e nacionais, possibilitando um mergulho, do qual, na certa não sairemos iguais. E começou bem, depois que o brilhante Luiz Fernando Cirne Lima, falando em nome da Copesul, que preside, e que patrocina o longo evento que envolverá nossas maiores universidades e um público cativo de mais de 1.000 pessoas por noite, saudou os palestrantes da estréia: Luc Ferry, filósofo francês, o homem do chamado “Humanismo Secular” e o ex-ministro da Educação do Brasil, Paulo Renato Souza.

Como dizem os jovens, Luc Ferry “bombou” na abertura defendendo a sua tese de que a educação se faz em cima de três suportes indispensáveis: Amor, Lei e Cultura.

Para o Amor não se torna necessária uma explicação, todos sabem que é preciso injetar este ânimo nos alunos, crianças, jovens ou adultos e isso é tarefa precípua de pais e professores. O passo seguinte, a ”Lei”, onde se pode ler “Limites”, é a tarefa que ele diz ter copiado do judaísmo e que prevê o estabelecimento claro dos limites, até onde se pode ir e que estabelece as regras da convivência, sem as quais a vida se torna impossível em sociedade. E finalmente, a “Cultura”, em seu sentido pleno, que resume todo o objetivo coletivo e transforma a tarefa em missão.

Dito assim pode parecer o óbvio, mas não é o que praticam nossas autoridades e tanto é isso verdade que os aplausos coroaram a intervenção do ex-ministro da Educação da França e fez com que as pessoas que ainda não leram o seu livro, “Aprender a viver – Filosofia para novos tempos” tenham saído com o firme propósito de fazê-lo.

Pode-se dizer que ele nos transformou e este é o poder do pensamento e assim tem sido ao longo dos séculos. Você pode não lembrar mais o nome de nenhum guerreiro ou atleta do passado, mas quem esquece Platão, Aristóteles, Sócrates?

Na semana que vem tem mais: virão ao todo 37 intelectuais de onze países diferentes, e poderemos assim nos abeberar do que há de mais moderno no pensamento contemporâneo, algo invejável e inigualável, que coloca o Rio Grande do Sul, uma vez mais, um passo a frente da comunidade brasileira e nos habilita a olhar para São Paulo e Rio, no mínimo com uma certa compaixão e misericórdia...

O importante é aproveitarmos a lição, tirar dela os resultados. Na semana que vem tem mais.
Nesta terça, dia 27, a palestra é de Robert Darnton. o homem que decifrou as terríveis histórias infantís do medievo europeu e que chegaram até nós.




LULA AGORA BATE PÊNALTIS...
Walter Galvani, em 12/03/2007

E se dá com Bush e faz concessões às multinacionais e diz que entende o mundo econômico moderno e que...
Crônica publicada neste final de semana, primeiro no ABC DOMINGO e depois em A Razão, o grande diário de Santa Maria


LULA GOLEADOR

Walter Galvani

Foram dois pênaltis que Lula converteu em gols no goleiro Sérgio Cabral, governador do Rio. Ampliando a metáfora, foram os gols que ele conseguiu marcar no povo brasileiro, com suas últimas atitudes em que combina a malícia do jogador brasileiro, com a sua habilidade individual e a característica fuga a manutenção de posições. No futebol isso tem feito a glória e o sucesso profissional para nossos jogadores. Na política, não sei... Você votaria hoje em Lula, se ele se apresentasse como paladino dos oprimidos, dos sem-nada? Ou você votaria nele por representar o comedimento, a tolerância, a compreensão dos problemas brasileiros, no molho da adequação e da conveniência?

No gramado do “maior estádio do mundo”, preparado para a final da Copa de 50 que o Brasil perdeu em casa por excesso de confiança e desprezo pelo adversário (Uruguai, 2 x 1, 1950), Lula, sem sapatos, calças arregaçadas, chutou três bolas contra o gol de Sérgio Cabral. Marcou dois e perdeu um. É exatamente o que ele está fazendo com o povo brasileiro. Chuta uma bola daqui, outra dali e vai convertendo umas, perdendo outras, mas vai levando o jogo, agora já no segundo tempo. Há gols perdidos (ou contra) como o da derrubada da Poupança, gol da Febraban, por exemplo, de difícil recuperação. Como é que eu, contribuinte pequenino e ferrenho defensor da minha caderneta, vou agir depois dessa? Ainda bem que ele não expropriou meus recursos como o Fernando Collor que, aliás, é agora seu aliado político.

Há muitos gols perdidos, muita bola fora. Por exemplo: a destruição da Amazônia, a transformação de nossas matas em ninhos da monocultura, de olho nos recursos provenientes do reflorestamento artificial, da “eucaliptação” dos nossos campos! Gol das multinacionais, as mesmas que Lula condenava nos tempos em que ajudou a fundar o PT. Honra e glória para ele, mas os partidos, como as pessoas, mudam. Crescem, envelhecem, vão colecionando rugas, decepções, frustrações e ao final de tantos tropeços, não são mais os mesmos. Nem os homens, nem os partidos. Deveria “incluir-se” no seu “combate à hipocrisia”. Não é só de preconceitos religiosos que se tem feito política no país e Lula, hoje, é um político tradicional no mais castiço sentido brasileiro.

Hipocrisia, por exemplo, é não aprovar medidas mais duras na área de segurança, de olho nos votos que até os presídios produzem. Em resumo, a política em ação no Brasil é a mais hipócrita que se possa imaginar, algo assim como condenar o jogo, o tóxico e apoiar o apadrinhamento das escolas de samba por “bicheiros” e outros “banqueiros”... Mas, livrai-nos do mal, amém, diz a oração cristã.









A LUTA CONTINUA
Walter Galvani, em 05/03/2007

Crônica publicada
no ABC DOMINGO ontem e hoje, segunda, em A Razão, de Santa Maria


DÁ PARA MELHORAR


Walter Galvani


Como já se viu, o policiamento, a farda na paisagem, a intervenção imediata das forças da ordem, o rigor, toda esta soma de providências nascidas na resposta à maior preocupação da população, a Segurança, já deu resultados práticos. Em dois meses de administração da Yeda, que começaram com o desafio dos criminosos roubando os próprios carros dela e de alguns oficiais superiores, transformando o vice-governador em alvo de assalto a duas quadras do colégio Anchieta, numa das avenidas mais movimentadas da capital, os números apontam para a reversão do quadro. Conclusão: embora, daqui para a frente possa se imaginar que vai aumentar a audácia dos criminosos, também é garantido que a Polícia, com o apoio do povo, crescerá em suas condições de defesa da pessoa e do patrimônio.
Embora o crime organizado se sofistique, o crime comum, este sobe ao natural, pelo aumento da população. Mas, com a Polícia na esquina, diminui a falsa "coragem" dos criminosos e estes andam emigrando possivelmente para outros estados.
Já se viu, também pelos números dos dois primeiros meses, que o interior, outrora doce refúgio, convive hoje com inesperadas taxas de violência. Vamos dividir isso, mas vamos também reprtir a atenção da Brigada Militar e da Polícia Civil. Possivelmente com a ajuda da Justiça, pois, se o Senado e a Câmara tremem, diante da pressão das bases e não querem aprovar as medidas de aumento da responsabilidade criminal, esperadas por todo o povo brasileiro, também se sabe que os eleitores saberão responder nas próximas eleições...
Homicídios diminuíram em 5,5%, seqüestros relâmpagos em 13,7%, furtos de veículos em 19,2%, bem como o tráfico e a posse de entorpecentes. Baixou também o índice de furtos em bancos, no percentual de 56,4%
São ótimos números. Queremos saber agora é o índice de prisões, mortes de bandidos, condenações por parte da Justiça, aumento de penas para os que devam ser puni dos. Ou seja: aumentar a pressão sobre o crime.
Tudo isso vai desembocar numa necessidade: que o resto do país imite o Rio Grande. Não somos egoístas e queremos que todo o Brasil se livre dessa violência que nos prejudica sob todos os pontos de vista e desmente (vide Rio de Janeiro, Espírito Santo e outros) a fama do "brasileiro cordial".
Ainda nesta semana, bandidos mataram três turistas franceses no Rio.
Festejar as novidades, como "a queda no roubo de carros", não é a única coisa que deveremos fazer.
Precisamos aumentar as dotações para a segurança pública e para isso as empresas são convidadas a assumir a sua parte. A garantia do patrimônio implica na garantia das vidas humanas dedicadas ao trabalho. Para que se saiba que trabalhar vale a pena, também deveremos lutar pelo aumento dos vencimentos dos trabalhadores.
E por fim, mas não por último, lembrar que os meios de comunicação, com destaque absoluto para a televisão, devem colaborar com esta cruzada d e salvação nacional, deixando de exibir detalhes e dar destaque a criminosos. Basta! Estamos cheios desse procedimento vil e esperamos que o produto sangrento do roubo e do crime, não continue enriquecendo falsos empresários.





Walter Galvani, em 05/03/2007





LIÇÕES DE VIDA
Walter Galvani, em 06/02/2007

Como proceder na áea financeira

BIMESTRAL, UM HÁBITO FINANCEIRO


Tudo o que a nova governadora do estado do Rio Grande do Sul apresenta em sua iniciante administração, serve para modelo dos particulares que, como cidadãos modestos e contribuintes obrigatórios, precisam se adaptar aos sistemas econômicos e financeiros implantados por ela.
Assim, a melhor novidade administrativa, que apenas obedece a Lei da Responsabilidade Fiscal (estranhamente grifada pela Imprensa local, como “nunca cumprida no Rio Grande”) é a de que “a cada dois meses é preciso apresentar um balanço da situação.”
Yeda Crusius já disse que só paga, quando houver dinheiro em caixa. Ou seja: entrou dinheiro, há disponibilidades, paga-se o que se deve. Caso contrário, explica-se ao cidadão, ao prestador de serviço ou funcionário, à instituição ou entidade que estiver cobrando algo, que só será possível pagar quando entrar dinheiro.
Isso se ajusta como uma luva às necessidades particulares. Eu mesmo já estabeleci: só pago quando tiver recebido, trabalho com um rígido orçamento, e dele não me afastarei. Sem essa de deixar que a conta bancária vá pra o vermelho, só para honrar compromissos. Sem o dinheiro tilintar no caixa, não pagarei mais nada. Não me tomem por caloteiro, pois trabalho muito organizadamente e não devo nada a ninguém, mas claro que já tive, como todo bom brasileiro, meus momentos de aperto. Saí das dificuldades arrochando o cinto. Já passei um ano inteiro vivendo do gasto mínimo possível para não ampliar o perfil da minha dívida e não me envergonho disso, até porque aprendi e saí do sufoco.
Quanto ao Modelito Yeda, achei ótimo e já comecei a aplicá-lo: “devo, não nego, só pago quando puder”, é, em outras palavras, a filosofia econômica do novo governo e vou imitá-lo. Copío tudo o que acho certo. E vejam só que modelar posicionamento diante dos fatos econômicos: “A Lei de Responsabilidade Fiscal diz que é preciso esperar dois meses para se ter uma dimensão do realismo entre receitas e despesas.”
Palavra de governadora. Apliquemos isso em nossos mundinhos particulares.




JÁ SE PENSA EM 2010...
Walter Galvani, em 04/02/2007

Crônica publicada hoje
no jornal ABC DOMINGO
do Grupo Editorial Sinos


FOI DADA A LARGADA!



Walter Galvani



Os que acompanhavam nos velhos tempos, as entusiasmadas transmissões de corridas de cavalo, principalmente na voz de Ruy Vergara Correa, sabem o significado desta expressão que intitula a crônica de hoje: “Foi dada a largada! Assume a ponta o cavalo Estensoro...” e por aí seguia o locutor, vibrante a descrever as ultrapassagens ou no caso exemplar, a liderança mantida “de ponta a ponta” (eis outra expressão idiomática que o turfe nos legou) até que os cavalos cruzassem “o disco de chegada”. E, às vezes, apenas uma cabeça (como na letra do tango argentino mundialmente tornado famoso na voz de Carlos Gardel, “por una cabeza”)... separava o vencedor do segundo colocado.

É o páreo, iniciado ontem, com Arlindo Chinaglia na liderança. Ele correrá uma competição que tem dois anos, mas que representarão quatro, pois preparam a eleição presidencial de 2010. Ora, dirão vocês, “mas o Lula recém emplacou o segundo mandato”; é, mas já se fala em emendas constitucionais que poderiam permitir o terceiro, além de que por trás do eleito, estão nomes consideráveis para esta futura corrida eleitoral, José Serra e Aécio Neves, os poderosos governadores de São Paulo e Minas Gerais. Não, não se trata de recordar romanticamente a política do “café com leite”, a que foi expurgada por Getúlio em 30, consolidada pelo amassamento da “revolução constitucionalista de 32” e o longo mandato ditatorial, mas percebe quais são os “cavalos” que se aproximam e procuram se manter no “pelotão de vanguarda”. É claro que poderão surgir outros competidores, a vida reserva muitas surpresas pelo caminho e até, porque não? – “as intermitências da morte” como escreveria José Saramago.

Entre outras coisas, Chinaglia vai preparar o exame da proposta de transformar em voto aberto o que era secreto e em secreto o que era aberto, vai examinar as questões de encaminhamento de “impeachment” do presidente, que sempre podem ocorrer, e mesmo o exame do regime parlamentar que é uma das propostas, e pasmem! – terá apoio até de Fernando Collor que voltou à vida política como senador, depois de 14 anos de cassação dos direitos.

Se a nossa vida política voltasse ao parlamentarismo que já vigorou em duas oportunidades no país, uma brilhante, durante o império, com Pedro II sobretudo e outra, lamentável, porque nela não acreditava nem o presidente, mera solução política para permitir a posse de João Goulart, derrubado pelo movimento militar de 64, que durou menos de três anos e teve vários “primeiros-ministros”. Mas é o regime preferido de “nove entre dez estrelas” da política internacional. Presidencialismo, quase sinônimo de ditadura para a maioria, só em países pobres como os Estados Unidos, digo pobres, não de riquezas materiais, mas de ideais políticos, ou pobres mesmos ou ricos demais, o que talvez seja o caso citado...

“Assim é, se lhes parece”, diria Luigi Pirandello, um dos maiores autores teatrais de todos os tempos, da época em que se respeitava texto no teatro.

E para terminar, não querendo ser muito saudosista, já que comecei citando Ruy Vergara Correa e passei por Carlos Gardel, Pirandello, João Goulart e Dom Pedro II, (acho melhor lembrar que Hitler também chegou ao poder pelo parlamentarismo), e num país de difícil compreensão, o PT se une com o PSDB e na semana seguinte desfaz sua união para ligar-se ao PC do B ou desse desligar-se, apesar de considerá-lo “aliado histórico”, fica difícil prever o que aconteceria. Chega de futurologia, vamos aguardar que os atuais “cavalos” cruzem o “risco de chegada”.







A MODA NO BRASIL É TER, A Mão, um plano B
Walter Galvani, em 01/02/2007

Crônica publicada hoje no jornal DDiário de Canoas, do Grupo Editorial Sinos.

O PLANO B



Walter Galvani





Todos sabemos, na gíria que predomina hoje, junto com algumas palavras incorporadas do “economês” como “perfil da dívida” e “pró-ativo”, psicologicamente nos garantimos contra os embates da vida com o “Plano B”. Até a Yeda Crusius já tem (e anunciou publicamente) seu “Plano B”, o que significa que, se não der para governar da maneira que imaginou, lançará mão de outra estratégia. Em nossa vida pessoal, estamos aptos, também, para lançar mão do nosso “Plano B”. O que não dá mais é ficar de braços cruzados esperando que os céus resolvam nossos problemas. De um modo geral, nem Jesus Cristo ajuda, nem São Pedro, nem anjos ou arcanjos. Ninguém, nem aqui nem no plano superior, parece disposto a solucionar as questões para quem não se ajuda de forma, digamos, “pró-ativa”...

Sabendo disso, a Yeda começou a correr também e já fala até em “reavaliação dos benefícios fiscais”, o que significa revisar todos os benefícios porventura ainda franqueados no Rio Grande do Sul, como por exemplo isenções, descontos no pagamento do ICMS e reduções de imposto. Tem gente que ainda acredita que Yeda está assim porque empunha uma vassoura nova e por isso varre com tanta pressa e proficiência (outra palavrinha que veio do economês direto para o nosso dia-a-dia). Ela também fala que vai cobrar o que devem ao estado e nisso inclui particulares, outros parceiros e governo federal, nada que não tenha sido dito pelos governos anteriores, mas seguramente algo que ficou na palavra dos antecessores dela.

O que não é prioritário vai dançar, é claro, e o que é melhor de tudo, o ano que vem, 2008, vai começar (se tudo der certo) com o governo enxuto e realizador, nas mãos do sonhado gerente (razão principal da votação inesperada da Yeda, tão inesperada que derrotou Germano Rigotto).

Mas, não é mesmo uma boa oportunidade de se repensar a própria vida?

Todos nós temos que ter em mãos nosso Plano B e também temos a obrigação de ser pró-ativos e resolver nossas questões pessoais. Se a nossa despesa está maior do que a receita é preciso fazer um corte imediato. Como a Yeda está fazendo, eis uma boa lição que ela nos traz, como professora de Economia que afinal de contas, é.

E também será preciso, tal como a Secretaria de Segurança em mãos do Dr. Ênio Bacci, agir com ”tolerância zero”. Sei que qualquer dia desses posso pagar uma multa por haver parado em local proibido. Foram apenas 30 segundos, para trocar de motorista, mas ali não podia. Não pretendo me defender, mas, sim, cumprir com o que for determinado e não será, por certo, isenção.

É bom que os infratores e os delinqüentes saibam que não há o propósito de “aliviar”. E aos poucos nos acostumaremos, todos, a respeitar o que a coletividade estipulou em suas leis e regulamentos.

Há maus cidadãos? Sim, mas o objetivo é que todos se transformem, nem que isso leve tempo, em bons. Os criminosos se organizam? A Polícia deverá estar mais bem organizada e equipada para reagir em nome da coletividade.

Não cabe discutir questões como a crueldade nos crimes ou os excessos na repressão. Para isso existem as leis. Bem ou mal, elas formam um conjunto de ganhos por parte da sociedade que começou há alguns milhares de anos e veio se consolidando na cultura dos países ocidentais e orientais, estabelecendo um modo de procedimento que só nos engrandeceu.

Você já tem o seu Plano B? Pois é, convém... Pelo menos psicologicamente é preciso estar preparado para o que vem pela frente e em tempos tão difíceis como o nosso, a tendência é pelo crescimento dos problemas.




A MODA NO BRASIL É TER UM PLANO B...
Walter Galvani, em 01/02/2007

Crônica publicada no Diário de Canoas, do Grupo Editorial Sinos.

O PLANO B



Walter Galvani





Todos sabemos, na gíria que predomina hoje, junto com algumas palavras incorporadas do “economês” como “perfil da dívida” e “pró-ativo”, psicologicamente nos garantimos contra os embates da vida com o “Plano B”. Até a Yeda Crusius já tem (e anunciou publicamente) seu “Plano B”, o que significa que, se não der para governar da maneira que imaginou, lançará mão de outra estratégia. Em nossa vida pessoal, estamos aptos, também, para lançar mão do nosso “Plano B”. O que não dá mais é ficar de braços cruzados esperando que os céus resolvam nossos problemas. De um modo geral, nem Jesus Cristo ajuda, nem São Pedro, nem anjos ou arcanjos. Ninguém, nem aqui nem no plano superior, parece disposto a solucionar as questões para quem não se ajuda de forma, digamos, “pró-ativa”...

Sabendo disso, a Yeda começou a correr também e já fala até em “reavaliação dos benefícios fiscais”, o que significa revisar todos os benefícios porventura ainda franqueados no Rio Grande do Sul, como por exemplo isenções, descontos no pagamento do ICMS e reduções de imposto. Tem gente que ainda acredita que Yeda está assim porque empunha uma vassoura nova e por isso varre com tanta pressa e proficiência (outra palavrinha que veio do economês direto para o nosso dia-a-dia). Ela também fala que vai cobrar o que devem ao estado e nisso inclui particulares, outros parceiros e governo federal, nada que não tenha sido dito pelos governos anteriores, mas seguramente algo que ficou na palavra dos antecessores dela.

O que não é prioritário vai dançar, é claro, e o que é melhor de tudo, o ano que vem, 2008, vai começar (se tudo der certo) com o governo enxuto e realizador, nas mãos do sonhado gerente (razão principal da votação inesperada da Yeda, tão inesperada que derrotou Germano Rigotto).

Mas, não é mesmo uma boa oportunidade de se repensar a própria vida?

Todos nós temos que ter em mãos nosso Plano B e também temos a obrigação de ser pró-ativos e resolver nossas questões pessoais. Se a nossa despesa está maior do que a receita é preciso fazer um corte imediato. Como a Yeda está fazendo, eis uma boa lição que ela nos traz, como professora de Economia que afinal de contas, é.

E também será preciso, tal como a Secretaria de Segurança em mãos do Dr. Ênio Bacci, agir com ”tolerância zero”. Sei que qualquer dia desses posso pagar uma multa por haver parado em local proibido. Foram apenas 30 segundos, para trocar de motorista, mas ali não podia. Não pretendo me defender, mas, sim, cumprir com o que for determinado e não será, por certo, isenção.

É bom que os infratores e os delinqüentes saibam que não há o propósito de “aliviar”. E aos poucos nos acostumaremos, todos, a respeitar o que a coletividade estipulou em suas leis e regulamentos.

Há maus cidadãos? Sim, mas o objetivo é que todos se transformem, nem que isso leve tempo, em bons. Os criminosos se organizam? A Polícia deverá estar mais bem organizada e equipada para reagir em nome da coletividade.

Não cabe discutir questões como a crueldade nos crimes ou os excessos na repressão. Para isso existem as leis. Bem ou mal, elas formam um conjunto de ganhos por parte da sociedade que começou há alguns milhares de anos e veio se consolidando na cultura dos países ocidentais e orientais, estabelecendo um modo de procedimento que só nos engrandeceu.

Você já tem o seu Plano B? Pois é, convém... Pelo menos psicologicamente é preciso estar preparado para o que vem pela frente e em tempos tão difíceis como o nosso, a tendência é pelo crescimento dos problemas.




LULA, O PRESIDENTE DA COCA COLA E DAVOS
Walter Galvani, em 28/01/2007

Lula não foi à Nairobi. A crônica hoje publicada no ABC e em outros veículos de comunicação,trata das mudanças do nosso antigo lider operário.

LULA E O PRESIDENTE DA COCA

Walter Galvani

Em Davos, no Fórum Econômico Mundial, estiuvervam presentes mais de 900 diretores de grandes empresas, entre os quais os da Microsoft, da Coca-Cola, da Nestlé e da Renault. Nada mais emblemático do padrão dos homens que se reuniram, e entre eles é claro, o “mais rico do mundo”, com os chefes de estado e nada mais natural do que terem trocado impressões, informações e, como no caso de Lula, almoçado ou jantado juntos. Lá pelas tantas nosso antigo metalúrgico a quem falta um dedo perdido numa operação mecânica que hoje não se faz mais, deve ter comentado com o presidente da Coca, “você viu que delícia estão estas trutas?” Nada mais normal do que isso, num encontro de líderes e portanto aceitável para a convivência de representantes dos estados convidados ao Fórum Econômico na Suíça. São os novos tempos.

Lá pelas tantas vi que Lula disse que é preciso que “os países ricos tenham mais consciência na aplicação de recursos no Terceiro Mundo e saber que isso gera emprego e riqueza, e melhorias na qualidade de vida.” Ele disse também que “é na possibilidade de aumento econômico, na geração de emprego, na distribuição de renda que nós vamos viver um mundo mais tranqüilo.”

Pensei que era o Fernando Henrique falando. Até por isso também: “Eu tenho dito a todos os dirigentes latino-americanos que nós temos de parar de viajar pelo mundo chorando a nossa miséria e apontando culpados pela nossa desgraça.”

Tais declarações não ficariam melhor na boca de vários empresários primeiro-mundistas ou líderes políticos da União Européia, ou Japão, Estados Unidos ou alguns emergentes que se sobressaem? A surpresa é que vieram de Lula, nosso caro fundador do PT, e parece afinar-se pela nova realidade que também atinge os trabalhadores. Com a globalização da economia que não pode ser mais negada ou simplesmente rejeitada como uma excrescência política, nasceu a necessidade de organizações transnacionais dos sindicatos, organizações e reivindicações que, apesar das diferenças nacionais ou regionais procuram agora se instrumentar para agir também globalmente. Conseqüências da modernização.

Precisamos também de novos líderes, de novos sindicatos, de partidos políticos mais atentos ao mundo e menos paroquiais, políticos mais adultos e menos envolvidos em questiúnculas “pontuais”.

A velocidade com que se produzem hoje as mudanças traz em seu processo uma espécie de vertigem a que se submete toda a sociedade. Não é fácil imaginar o futuro, mas a decodificação do que está por vir transformou-se numa tarefa estratégica que pode fazer a felicidade ou a riqueza de um país. Estaremos prontos para isso? Ao invés de ficar lamentando a ausência de Lula no Fórum Social Mundial do Quênia, ou de festejar a sua atuação elegante em Davos, não seria o caso de tentar ler o que está nas entrelinhas dessa sua inesperada “conversão” para a mesma linguagem dos seus antigos opositores?

Em literatura costuma-se chamar de auto-ajuda o tipo de livro que contém conselhos, normas de comportamento ou orientações, para que o indivíduo enfrente melhor os desafios do dia-a-dia, das relações pessoais e familiares. Eis uma linha aberta para os países, partidos, políticos e funcionários públicos...

O que virá por aí, depois da ascensão de Índia e China e do que estão chamando de “segunda camada”, onde nos incluímos ao lado da Coréia do Sul, da nova Rússia ou da Indonésia?

É o que veremos nos próximos capítulos desta empolgante novela que transitou pela impecável e asseada Suíça e terá desdobramentos pelos locais mais inesperados.







O FUTURO DO MERCOSUL PASSA PELAS QUESTÕES POLÍTICAS E DE SUPREMACIA NAS AMÉRICAS
Walter Galvani, em 21/01/2007

Crônica publicada hoje no ABCDOMINGO

BAGUNÇA OU PROGRESSO?
Walter Galvani

Não é preciso lidar com numerologia ou ser adivinho, para perceber que o Mercosul, ou está com os dias contados ou vai acabar num grande impasse que pode ser decisivo para sua existência. A formação de blocos continentais é um caminho irreversível e basta lançar um olhar ao mapa do mundo para compreender que Europa é uma opção, com seus penduricalhos externos tipo ex-colônias ou Estados Unidos da América (que não deixa de ser uma ex-colônia inglesa, aliás...) e o renovado afluxo do leste europeu (antigo conjunto comunista). Outro é a Ásia, pelo extraordinário desenvolvimento do Japão e de alguns outros enclaves de progresso, tipo Indonésia ou Filipinas e finalmente o gigante China, que só pelo número nos assombra.

África é hoje um mercado em potencial, muito distante dos paraísos de consumo que habitamos ou que nos circundam, comparados com os miseráveis países africanos, onde despontam, sim, alguns inesperados bolsões de riqueza, como a África do Sul ou certas regiões do Egito, Argélia, Tunísia, Angola, Moçambique.

Mas e a América do Sul e seu outrora promissor Mercosul? É justamente aí que reside a principal dúvida mundial. A instabilidade política e emocional foi causada pela posição do presidente Hugo Chávez que governa agora amparado pela “Lei Habilitadora” que lhe permite o uso de decretos sem contestação, transformando-o num ditador de fato, assentado ainda sobre os super-poderes do petróleo. Não dou um centavo pela estabilidade política futura da Venezuela que será minada pelos que entendem que só é possível tolerar tal potência e prosperidade se estiver fundamentada no exercício pleno da democracia aos moldes ocidentais, ou seja, dentro dos princípios que aprendemos como palatáveis e que consistem em funcionamento de parlamentos e existência de oposição.

Sem isso não será possível, também, aceitar a existência de um mercado comum e muito menos ainda de uma futura unificação que nos leve, como ocorreu na Europa, à uma moeda única, saudável e livre de inflação e contratempos de golpes e anti-golpes, revoluções e contra-revoluções.

Duvido que o Mercosul tenha longa vida, a menos que se produza uma radical mudança na situação atual.

Os próprios diplomatas brasileiros, em carreira ativa ou aposentados, estão se manifestando para dizer que, do que compreendem de sua profissão, o Mercosul não escapa do fuzilamento ou da forca. Alguns chegam a dizer que “virou uma bagunça”.

As disputas pela liderança do bloco, principalmente entre Brasil e Argentina, viraram figurinhas de histórias em quadrinho, não mais a competente e hostil competição, que nos levou à beligerância em certos momentos, mas também à uniões militares e políticas históricas, como na Guerra contra o Paraguai no século XIX ou na criminosa Operação Condor do século XX para fortalecimento das ditaduras militares direitistas.

Fidel Castro foi a estrela do século passado e o exemplo pesou demais na balança para os Estados Unidos que se apresentam perante o mundo como líderes naturais do continente americano, mas que não toleram subversões da ordem estabelecida pelo capital e pela sua visão de democracia. Por muito menos desembarcaram “mariners” nos paises centro-americanos. Tomem nota: a bacia do Orenoco pode ser o próximo objetivo militar americano, mesmo com o desgaste mundial por causa da fracassada invasão do Iraque, onde o desenlace de Saddam Hussein acabou por se constituir numa pedra a mais no fracasso de Bush.

O pior ainda está por vir. Quanto ao Brasil, será preciso muito equilíbrio, sangue frio e compreensão do seu verdadeiro papel na América do Sul. Qualquer precipitação emocional pode nos colocar numa posição irreversível.







MAIS UMA VEZ, BRASIL, A INSEGURANÇA...
Walter Galvani, em 18/01/2007

Crônica publicada hoje no "Diário de Canoas", do Grupo Editorial Sinos

NINGUÉM MERECE...



Walter Galvani





Os bandidos levantam cedo. Ou não dormem. É a primeira constatação que faço, ao saber que eles chegaram às seis da manhã à agência Bradesco, sabendo que ela só abriria às 10 horas e contando, portanto, com quatro horas para desenvolver o seu plano. Tem mais: eles não ligam a mínima para as declarações do comandante do 15º Batalhão da Brigada Militar que se queixou dos postos de auto-atendimento. Ele não gosta deste modernismo pois facilita a ação dos ladrões... Pelo menos é o que se deduz de suas afirmações. “Deu” no Diário: “É tudo muito bonito, mas facilita a ação dos bandidos, que sabem quem entra e quem sai dos estabelecimentos”.

Em primeiro lugar, o assalto à agência nada tem a ver com postos de auto-atendimento, mas em segundo lugar, é preciso habituar-se ao progresso, ao desenvolvimento tecnológico, até admitir que os bandidos também fazem estudos, planejamentos, que se habilitam, que fazem cursos de pós-graduação em furtos e roubos, enfim, desenvolvem toda uma técnica que nos autoriza a pedir o aumento dos efetivos policiais e a presença, sempre, da farda na paisagem.

O tal bando passou quatro horas dentro da agência do banco escolhido para ser assaltado em Canoas e seus integrantes mostraram-se calmos, com o domínio da situação, até acalmaram duas funcionarias grávidas e nem sequer disfarçavam a voz ou tapavam o rosto.

O nome disso é audácia e impunidade.

Sabem eles que no Brasil não vai acontecer nada, que daqui a pouco, se é que serão detidos, serão libertados para continuar em sua profícua atividade, e nem sequer se dão mais o trabalho de ocultar os rostos.

Afinal de contas não vêem eles na televisão políticos sanguessugas ou gente que esconde o dinheiro nas cuecas e que se exibe para as câmaras? No entanto os ladrões de galinha em geral tapam o rosto com uma camiseta suja e rasgada, pois não querem ser filmados e fotografados.

O assalto se deu na rua Fioravante Milanês, conheci o próprio, o homenageado, e é uma pena que o seu nome seja lembrado numa hora dessas por tal fato. Mas, se vivo fosse, tenho certeza que o “seu” Fioravante ia fazer um comentário mais ou menos assim: “Mas a Brigada não estava fazendo uma “blitz” no centro? Até pararam o carro que mais tarde os bandidos usaram para fugir para Porto Alegre levando o dinheiro!”

É, “seu” Fioravante, mas os tempos são outros... Os bandidos agora andam de cara limpa e fazem o seu “trabalho” com perícia técnica, organização e planejamento. Fogem em carro roubado, levando o dinheiro e passam na frente dos policiais que, cansados da “blitz” em cima dos motoqueiros, festejavam o sucesso da sua “operação”. Os fatos são esses, o que não cabe é ficar fazendo “blitzen” (este é o plural da palavra alemã) ao invés de fiscalização permanente. Quem faz “blitz” é porque não tem condições de atuar de forma contínua. Os bandidos também sabem disso. E quando a BM se cansar de seguir esta linha demagógica que, aliás, orienta as ações de todo o aparato estadual, voltaremos aos tempos de sempre.

O que é preciso é farda na paisagem. Permanentemente e não apenas na hora da “blitz”. Aliás, lembrem-se que os inventores da palavra, os criadores da “blitz-krieg” perderam a guerra...

Não há de ser com aparições bombásticas ou intervenções espetaculares que se dominará o território que a bandidagem ocupou. Pague-se mais e melhor aos soldados, aumente-se o efetivo, criem-se leis mais duras e que possam ser aplicadas. Só o fim da impunidade em todos os níveis, tornará o Brasil no famoso paraíso que todos, os que trabalham, modestos e humildes, ambicionam.











GUERA E PAZ
Walter Galvani, em 14/01/2007

Crônica a ser publicada na edição do ABC Domingo

O CONCEITO DE PAZ

Walter Galvani

É inacreditável que o presidente de uma nação desenvolvida proponha como plano de paz, o aumento do efetivo numa guerra de intervenção, distante de sua sede, para defender indiscutíveis interesses econômicos – leia-se reservas e preços do petróleo – e, no entanto, mantenha-se no poder. Por maiores que sejam os apoios políticos que possa ter – e não é o caso de Bush, nos Estados Unidos, pois já alcançou o poder capengueando, com votos recontados em plena madrugada – nada justificaria uma atitude de continuar bombardeando e metralhando, matando e fazendo vítimas entre os inocentes, matando mulheres e crianças, para sustentar-se no poder como Senhor da Guerra e amparar as firmas americanas que trabalharão na “reconstrução do Iraque”, leia-se subsidiadas pelo próprio governo para fazer grandes negócios.

Trata-se de uma coisa tão nojenta, tão despida do mínimo de racionalidade e ética, de tanto primarismo, que chego a me perguntar: mas e os cidadãos americanos, o que fazem, se é que podem fazer alguma coisa? Pois, não fazem nada. Talvez batam palmas, no recesso dos seus lares, assistindo suas televisões gigantes, amortecidos pela burrice e pela tradicional ignorância das coisas do mundo que os caracteriza.

É incrível, mas, sem fazer generalizações, é um espanto que uma nação tão poderosa se mantenha na face da terra e com governantes tão idiotas como Bush e um povo tão alienado quanto esse. Mas, assim é, e o pior é que nos tocou assistir à esta avalanche de burrice.

Pergunto-me se durante o Império Romano sucedeu a mesma coisa. Terá sido também a prevalência da lei do mais forte e só isto, ou o império nascido no Lacio conseguiu levar alguma civilização e procedimentos urbanos à longínquas povoações? A História nos diz que não, que não é seguramente o americano uma repetição do romano. Apenas na pretensão de ser Império, isso sim, mas o pior é que não estamos livres deles. (Todos os dias se lê na Internet a tal história de que a Amazônia já é identificada como uma área internacional e não menos do que isso.) Havia então o conceito de Pax Romana, é verdade, e isso queria dizer aceitar as condições de dependência, colaborar para a cobrança de tributos, aceitar as leis romanas e conservar as estradas. Lembram do provérbio, “todos os caminhos conduzem à Roma”? Sim, Roma era a capital do império. Teria sido melhor ou pior?

Não estamos aqui para escolher dominadores melhores ou piores. São dominadores e pronto. Ocupadores, Invasores de território, como é o caso do Iraque.

O que poderíamos dizer a Bush? Tire as suas mãos sujas daí? No caso do futuro da Amazônia, o que poderemos dizer? Ou vamos fechar os olhos ao que acontece no Iraque, ou ao que ocorre agora em Cuba, onde se “festejam” cinco anos da prisão política e cruel de Guantanamo?

Mais soldados americanos para morrer no Iraque significa mais um eufemismo, pois quem vai morrer lá serão os latino-americanos que, em troca de um “green card”, permissão de moradia e trabalho, arriscam-se a engrossar as fileiras das tropas de ocupação.

Condenados pela ONU, pela opinião pública do mundo inteiro, mesmo assim, conduzidos por um títere das grandes forças industriais e comerciais do país, Bush, os americanos continuam praticando o mal de todos os males. Até quando? Talvez até o fim dos tempos, não tenho muitas ilusões. O pior é que o domínio dos segredos atômicos difundiu-se e daqui a pouco uma Coréia do Norte ou um Irã decidem desestabilizar o mundo de uma vez por todas. A solução é força à ONU, nosso destino está em mãos da Organização das Nações Unidas, a única salvação.








SEGURANÇA, SEGURANÇA, SEGURANÇA
Walter Galvani, em 12/01/2007

Preocupação número 1 do povo gaúchop.
Crônica publicada
no jornal "A Razão"
de Santa Maria:


FARDA NA PAISAGEM

Walter Galvani

Freqüentemente as autoridades que assumem funções se enganam na apreciação dos problemas, na maioria dos casos de propósito, ou por ainda não terem o distanciamento necessário para enxergar as questões mais urgentes ou pertinentes, ou por, casos raros de má fé, preferirem fazer de conta que elas estão mal colocadas pela população. O caso da Segurança é claro, pois, em qualquer levantamento de opinião pública, vai aparecer como o mais preocupante para todos. Depois da Segurança é que vem a Saúde e o Emprego.

Historicamente, sabemos que a presença da farda na paisagem é o maior inibidor de assaltos, furtos e roubos, mais ainda do que equipamentos eletrônicos, pois esses podem ser eventualmente danificados. Já o guarda inspira respeito, armado ou desarmado, a pé ou a cavalo, de automóvel ou helicóptero.

Assim sendo, é, pelo mínimo, curiosa a reação de um autoridade pública do governo da Yeda Crusius, que vem a público dizer que, pela estatística se percebe que num cruzamento qualquer ou praça pública, não ocorrem há muito tempo delitos, portanto, não se justifica mais a presença ali de policiais. Ledo engano, visão errônea, ou má fé. Se não há delitos ali, é justamente porque os bandidos sabem que há guardas nas proximidades e o que a estatística demonstra é, justamente, que esse fato constrangeu-os.

Ora, o que se quer é que não ocorram atos delituosos em qualquer esquina das cidades, mesmo na sinaleira da Av. Nilo Peçanha com Mal. Andréa, onde o divergente vice-governador Paulo Feijó teve que deixar o celular, alguns trocados e os documentos. Longe de mim pensar que o assalto foi “oficial”, mas sem dúvida parece encomendado por quem acha que a Segurança é fundamental para um bom governo. Tanto que já haviam furtado o carro de Yeda, na campanha política, e inauguraram o novo governo com o roubo do carro do vice-comandante da Brigada Militar. O que os bandidos querem dizer, mesmo acertando o alvo involuntariamente, é que estão dispostos a continuar roubando, matando, seqüestrando, pois não acreditam na eficiência do aparelho do Estado.

Pagando mal seus funcionários, atrasando os salários, ameaçando seus colaboradores é que ficará difícil para Yeda governar, mas é preciso que ela tenha bons assessores e não apenas gente disposta a dizer “sim senhora!”

Ora, dizer que vão retirar os guardas dos pontos mais visados, é informar a bandidagem que pode agir impunemente naqueles locais que, naturalmente surgirão em próximo levantamento, como os mais perigosos da cidade.

O que é preciso é que, em todo o estado, e não apenas na capital, se tenha um correto levantamento dos pontos mais frágeis, para estabelecer ali o sistema preventivo.

Mas, é sempre assim quando se começa um governo. Como o único caminho é o sistema de testar e aprender errando, pois não há pontes entre os governos, mesmo quando são da mesma tiragem, há uma perda de tempo, recursos e esforços.

O jeito é esperar que em Santa Maria ou Porto Alegre, São Lourenço ou São Sepé, Caxias ou Tramandaí, a atenção do estado se distribua pelos pontos mais sensíveis e consiga fazer uma aplicação coerente e equilibrada dos seus serviços.

Só assim será possível atender o ponto número 1 das reivindicações populares, mesmo que tenha que se chamar o “exército nacional”. Sem isso, uma vez que a ética naufragou nos meandros da corrupção da política no país, não há como garantir a paz e a tranqüilidade que necessitamos todos, para os próximos anos.












UM BASTA À INSEGURANÇA
Walter Galvani, em 07/01/2007

No Brasil, não é mais possível conviver com a falta de segurança.
É preciso agir hoje.
Eis a crônica que publiquei hoje no jornal ABC DOMINGO, do Grupo Editorial Sinos:


TOLERÂNCIA ZERO

Walter Galvani

Desculpe leitor amigo, se estou escrevendo o óbvio. Peço que não me abandone. É que estes primeiros dias de governo novo (ou não tão novo) no país e no estado, me obrigaram a mergulhar no lago imenso do já ocorrido e a trazer de lá a idéia de que ou se martela no óbvio, ou nada vai acontecer. Fala-se numa Força Nacional no Rio de Janeiro, onde assaltam adoidado (mas não só lá e eis o óbvio de volta...)e isto, que é o mesmo que pedir a intervenção do Exército e é também o óbvio, já nem chama mais a atenção. O importante é que se concretize, mas não apenas na antiga cidade maravilhosa (antes faltava água de dia e luz de noite, hoje ninguém pode caminhar pelas ruas e avenidas, praias e outros locais de lazer. Todo dia o noticiário se enche de informações sobre assaltos a turistas e não-turistas, sendo que agora queimar passageiros indefesos fechados nas gaiolas de ferro dos ônibus, armadilha insuperável, passou a ser trivialidade .
No entanto, o furto, o roubo, o assalto, o seqüestro foi exportado para o país inteiro. Bons tempos em que se exportava a bossa nova e a última do malandro.
Chegamos ao Rio Grande do Sul, onde o novo governo, pela primeira vez entregue à uma mulher, estabelece um especialista no combate ao crime na pasta da Segurança, o dr. Enio Bacci, e embora no primeiro dia tenha havido o roubo emblemático do carro do sub-comandante da Brigada Militar, antes disso o carro que Yeda usava na campanha e agora o próprio vice-governador é assaltado numa sinaleira, ansiamos pela presença nas ruas, não só da BM, como do Exército Nacional.
Qualquer pesquisa feita aponta para paz e segurança, como itens prioritários nos desejos gaúchos. Depois é que vem o emprego, a educação e a moradia. Como a Segurança é uma questão exclusivamente do Estado, pertence ao Palácio Piratiní a primeira palavra.
Queremos, por pior que isso possa significar, tolerância zero. Como em Nova York que se tornou milagrosamente uma das cidades mais seguras do mundo, graças ao sistema implantado pelo então prefeito Juliani, de estabelecer penas para as mínimas faltas. Nada de concessões.
Isso quer dizer: estacionou em local proibido, guincho, multa pesada. Porque? Ora por que se forem toleradas as pequenas faltas, as médias e as grandes seguirão sendo cometidas.
Cuspir na rua, jogar lixo no chão, pequenos pecados veniais que passaram a ter tratamento radical.
E só assim a grande cidade americana alcançou o status atual de lugar seguro para se viver.
Com o exemplo que recebemos diariamente através da televisão, por exemplo, dos sangue-sugas, mensalões e outros "pequenos deslises" fica difícil, mas acho que a oportunidade é única: chegamos ao limite, usando uma expressão popular, "fundo do poço".
Portanto, é a hora. Mas é a hora de punir tudo, desde trafegar com alto-falantes acima do nivel de decibeis permitido, até bater a carteira do passante.
Cadeia, prisão sumária, formação de processo com prisão preventiva como acontece nos maiores países do mundo, como Inglaterra, França, Estados Unidos, Alemanha ou Japão. Ou seja, detenção sem culpa formada. Um perigo? Sim, um perigo, mas caminho único para restabelecer o reinado da paz e da segurança.
Para quem dúvida da eficácia disso, vamos lembrando o fato de que em certos casos, aplica-se. E aí, pode? Por quanto tempo ficaram detidos os pilotos americanos do Legacy, sem que se provasse a parcela de culpa que tinham eles na derrubada do avião da Gol?
Ano novo, vida nova, governo novo, vida nova.
É a vez da Yeda mostrar que é "macho" e ajudada pelos seus auxiliares começar a cortar de cima para baixo.
Sem o regime de tolerância zero, que precisa ser imposto, pois o caminho da Educação é longo e tortuoso, a nada chegaremos, mais uma vez.
E já que um baixinho disposto assumiu a pasta mais visada e controvertida, que ele tenha todo o apoio da sociedade para realizar o que é preciso.
Basta ler o noticiário dos jornais, antigamente abrigado nas chamadas colunas de "faits divers", mais adiante classificadas como "Editoria de Polícia" para saber que todo dia é dia de atrocidades no antigo país da cordialidade.
Não há po rtanto, mais tempo a perder.
Trata-se de uma guerra, uma guerra civil, sim, na qual estão empenhados os que perderam totalmente os conceitos de ética e só pensam em traficar, matar, roubar, ganhar dinheiro fácil e que agem com a maior naturalidade.
Não há mais cadeias suficientes, é verdade. Mas, é preciso provocar um imediato "boom" da construção civil, produzindo estabelecimentos adequados para a prisão de todos os indesejáveis.
Quanto à propagação do mau exemplo, nesse caso deve vigorar uma espécie de controle e responsabilidade dos próprios emissores.
Sem esta rigidez luterana de conceitos éticos, vamos acabar de volta no fundo da floresta. Só que, não esqueçam, os exemplos de corrupção já chegaram lá também...
Começar quando? Hoje. agora, já.




O QUE ADIANTOU, PARA A HUMANIDADE, O ENFORCAMENTO DE SADDAM ?
Walter Galvani, em 04/01/2007

Acho que, nada. Como de nada serviu a invasão do Iraque, afiliada à mentira das mentiras...
Esta crônica foi publicada hoje no jornal "Diário de Canoas" (minha terra natal) do Grupo Editorial Sinos:


A MENTIRA DAS MENTIRAS
Walter Galvani

Não estou aqui para defender um tirano, ditador, assassino de opositores, nem tampouco para celebrar as qualidades de um fundamentalista. Respeito as opiniões alheias, mas a tal ponto, que não posso aceitar que me determinem (ou a quem quer que seja) qual deva ser a religião, credo político, preferência esportiva ou sexual. Sou contra ser contra. Portanto, não é Saddam Hussein a figura que gostaria de reverenciar. Justamente ele, um prepotente, arrogante, um tirano, como tantos outros que por aí pintam de democratas. O povo também erra e muito. É uma pena, mas apesar de que a democracia seja a melhor coisa que os gregos inventaram, não tem sido no seu aperfeiçoamento que temos trabalhado. Acho que nós, ocidentais, só a temos piorado. Adolf Hitler (lembram?) chegou ao poder pelo voto, eleito deputado e escolhido como líder do Partido Nazista. E tantos outros. Ainda está bem viva em minha memória a lamentável ação dos nossos militares (gente respeitável) quando foram empurrados por uma pressão popular, insuflada por grandes redes nacionais de televisões, a tomar o poder em 1964. Nem foi apenas no Brasil. Por outro lado, lembro a simpatia com que foram recebidos os guerrilheiros de Fidel Castro, entre os quais até padres havia e falo porque estive no estádio do River Plate em Buenos Aires em 1959, quando o povo gritava em uníssono “Fidel, Fidel! Viva Cuba Libre”. Por ingenuidade ou conveniência, aderimos. Dias depois, vi uma multidão subir a Calle Maipu no centro da grande capital argentina, gritando “Ditadura si, Democracia no!”...

Saddam foi julgado e condenado por um tribunal farsesco, amparado pelos invasores condenados pela ONU, usando a razão da força. Bush mentiu, todo mundo sabe disso, não havia armas nucleares no Iraque, alegada causa da ocupação. Saddam cometeu lá as suas, mas seus problemas eram internos, de sunita contra xiitas. O Iraque foi dividido e mais dividido ainda está agora. De qualquer jeito, Saddam Hussein merecia um tratamento mais adequado, como qualquer bandido recebe no Brasil. Aqui, mesmo confessando um crime hediondo, um assassino tem o direito de receber defesa pública, paga pelo povo, julgamento imparcial, corpo de jurados e até mesmo relaxam sua prisão preventiva se provar que tem moradia e ocupação ou família. Não acho que deva ser assim, mas condenar alguém a morte, executá-lo, filmar o enforcamento, colocar isso na Internet, é muito mais do que a imaginação pode aceitar. O comprometimento americano é indiscutível. Que diferença do país que acabou com nazismo na II Guerra que todos apoiamos.

Se Bush ainda não enxergou, espero que passem algum bilhetinho para ele, pode ser até coisa da Condoleeza Rice, que ponha na frente do “dono do mundo” a informação de que a melhor coisa seria voltar a criar gado no Texas a continuar o papelão de mais odiado de toda a humanidade.

Quanto a Saddam, um crime não se apaga com outro crime; já o disse até o Papa alemão, este que serviu a Juventude Hitlerista e aparentemente não se arrependeu,.

Exibir o crime cometido em nome da “mais poderosa nação da terra”, que não explicou como o prisioneiro que estava sob sua custódia pôde ser condenado naquele arremedo de julgamento e ainda exposto e humilhado com a divulgação do enforcamento pela Internet, é um absurdo contra a Humanidade. O que nos permite imaginar ao que estamos expostos, todos nós. Que Deus, Alá, Jeová e o Supremo Arquiteto do Universo nos livrem do mal, amém.









Walter Galvani, em 04/01/2007





BONS TEMPOS, QUANDO AINDA SE VIAM AS ESTRELAS...
Walter Galvani, em 30/12/2006

Antes da poluição, da corrida insana contra o tempo e da idéia de "matar o tempo"...
Leiam este belo texto de Rômulo de Carvalho,um autor português:


OBSERVATÓRIO DO MUNDO

Rômulo de Carvalho como professor de Física e Química durante 40 anos em Portugal e António Gedeão (pseudônimo), como poeta, começou a escrever suas memórias ao completar 80 anos em julho de 1985 em Lisboa e concluiu-as aos 90, pouco tempo antes de falecer no dia 19 de fevereiro de 1997. Em pouco tempo, portanto, teremos dez anos do seu falecimento. Ele deixou suas “Memórias” em 1100 páginas de papel antigamente dito “de almaço”, algo como hoje denominaríamos “A-4”, com apenas uma frase com espaços em branco, a última, onde escrevera: “Morria a de de “ e termina com uma palavra: “Adeus”. Sua viúva, Natália Nunes, também professora e escritora, nem sabia da existência do material que é riquíssimo de dignidade humana, observações pertinentes e reflexões instigantes.

É justamente com os títulos de “Memórias” e “A varanda, observatório do mundo” que o “Jornal de Letras” de Lisboa, edição do dia 5 de dezembro de 2006, publica alguns trechos, que julguei oportuno extrair para presentear meus alunos de oficinas de Crônica e de Biografia e Autobiografia.

Na Introdução que Rômulo de Carvalho/António Gedeão escreveu, diz ele:

“Pois queridos filhos dos netos dos meus netos, são queridos quando é certo que nunca teremos trato pessoal. É fácil amarmos as pessoas à distância e por isso nos condoemos dos que padecem quando temos notícias dos seus sofrimentos através dos meios de comunicação social. Se as conhecemos pessoalmente diríamos que tinham tido o que mereciam, e voltávamos a página. Eu amo-vos por princípio, mas como já haverá tanto sangue diverso entrecruzado nas vossas veias, pouco teremos em comum.

Saí há dias do hospital onde fui sujeito a uma intervenção cirúrgica. Não sei se lá para meados do século XXI precisarão de consultar uma enciclopédia para saberem o que é um hospital. É um estabelecimento onde se recolhem as pessoas necessitadas de cuidados médicos que exigem vigilância ativa e o emprego de aparelhagem que não se tem em casa. Recorri ao hospital porque o meu coração (sabem o que é?) precisava de conserto. Enquanto os corações normais funcionam ao ritmo de 70 pulsações por minuto, o meu, pobrezinho, tímido, inadaptado, envergonhado, trabalhava com metade daquele valor. Vinha assim decrescendo, em freqüência, desde anos atrás, e preparava-se para dar-me uma morte suave, com um suspiro, mais dia, menos dia. NO hospital estenderam-me numa cama, abriram-me o peito com um golpe, à frente, à esquerda e em cima, quase a tocar no ombro, e por aí introduziram uma caixinha misteriosa, pequenina e complexa, superiormente sábia, que lá ficou escondida debaixo da pele e do tecido muscular.

Da caixinha sai um tubo fininho que foi enviado ao longo de uma veia até que a ponta tocasse no coração, metendo-o na ordem, fazendo-o pulsar com a freqüência devida. Que métodos tão atrasados! Como era aquilo naquele tempo! – dirão vocês. E eu direi: Que extraordinário progresso!

Agora, durante algumas semanas, terei que ser cauteloso, não fazer esforços físicos, evitar os transportes públicos, o que me aconselha a não me entregar às habituais investigações que prossigo em bibliotecas e arquivos, que me deixam assim um pouco desamparado, obrigando-me a ficar em casa mais tempo do que o habitual. E então como ocupá-lo?

Resolvi ocupá-lo de um modo que há muito projetava, a escrever as minhas memórias com o pensamento em vocês. É claro que isso só interessa a mim, e quando nisso falo aos filhos dos netos dos meus netos é na vaguíssima esperança de acharem graça em imaginar a figura de um antepassado movimentando-se num ambiente que muito pouco se deverá parecer com o seu, expondo sentimentos que o tempo tornará ridículos. Por mim o projeto é extremamente agradável porque tudo o que familiarmente vivi, as pessoas com que lidei, os objetos onde pousei os olhos, os sons que me chegavam aos ouvidos, os cheiros, os tactos, os sabores, tudo isso existe em mim e assim permanece. Tudo isso, e todos esses morreram provisoriamente e só morrerão definitivamente quando me fecharem os olhos, a mim.

Dir-se-ia que a minha vida particular não tem história, mas tem-na. Todos construímos essa história e dela participamos, mas sono os apercebemos disso quando os anos começam a pesar, porque só então nos observamos, como éramos, seres estranhos, nada parecidos exteriormente como o que somos depois.



(Nota: aqui se vê o quanto é possível a autobiografia, o que se pode daí tirar, mesmo que o “autor” não seja um grande personagem da História...”



Vêmo-nos crianças, depois adolescentes, guiados pelas mãos dos pais ou com a sacola da escola às costas, ágeis, curiosos, faladores, brincalhões, seres que nada tem que ver conosco que somos bisonhos e temos ossos que rangem. Os velhos retratos, porém garantem-nos que já existimos assim, realmente, e que a nossa memória dá-lhes vida. Depois morremos todos juntos, de um só golpe. E antes que isso aconteça vou escrevendo estas páginas.

Gostaria imenso (adoraria, como se diz hoje) que algum dos meus trinta e dois tetravôs se tivesse lembrado de mim e se dispusesse a deixar-me um maço de folhas bolorentas e amareladas onde me descrevesse a sua vida, o que o alegrou e o que o fez sofrer, o meio em 2que viveu e tudo quanto o rodeava. Eu, embora da mesma família, sou doutra natureza e estou pensando no gozo que poderei proporcionar-vos dando-vos notícias de mim e deste meu tempo tão distante do vosso. Adeus, meus queridos tetranetos. Até o dia em que pegarem estas páginas.

Julho, 1985.



(Até aqui a introdução; a seguir, sob o título de “A varanda, observatório do mundo”, alguns trechos do trabalho de Rômulo de Carvalho/António Gedeão, a começar da página 21.)



Naquela longa varanda suspensa no espaço, pista de corridas, parque infantil, observatório do mundo, passei horas inesquecíveis. Recordo particularmente as noites de Verão, cálidas, cheirosas das flores da vizinhança, na meia obscuridade. Apagava-se a luz da casa de jantar, para poupar o gás e porque nem sequer se justificava o seu consumo. A mãe trazia uma cadeira para a varanda, e sentava-se, permanecendo com os olhos fechados e o seu sorriso de todas as horas. O pai ficava lá dentro a ressonar na sua cadeira de braços. A avó estava na cozinha a lavar a louça e as irmãs andavam por cá e por lá.

Cálida e cheirosa, a noite. O céu, azul-escuro repleto de estrelas cintilantes. Espetáculo maravilhoso de um firmamento que a civilização aniquilou. Não é saudosismo. Juro! Já não se vêem estrelas, à noite, nem nos céus de Lisboa, nem nos céus dos grandes aglomerados populacionais. Os gases da combustão da gasolina dos automóveis, dos óleos dos caminhões, do combustível dos aviões, a incessante fumarada das chaminés das fábricas, cobriram a cidade de um capacete denso que não se deixa atravessar pela fraca luz das estrelas.




BRASIL, PAÍS DO FUTURO
Walter Galvani, em 28/12/2006

Estamos trabalhando. Por onde devemos começar?

QUAL A SOLUÇÃO PARA A VIOLÊNCIA
NAS GRANDES CIDADES?

Esta pergunta, em geral é respondida com a tradicional resposta: é a Educação.
Trata-se da Educação, com E maiúsculo, única fórmula possível de restabelecer o equilíbrio na sociedade brasileira, abalada em seus alicerces pela miséria absoluta, pela falta de ética generalizada através dos exemplos dos líderes políticos da nação que não se envergonham de se auto-atribuir polpudos vencimentos, enquanto o povão subsiste com migalhas e a classe média aos poucos migra das estatísticas para a geléia geral da pobreza. Os números enganam e são enganosos. Por vezes, a notícia é de que os índices melhoraram, mas, vai se ver houve um desencontro de informações. A estatística é um terreno muito perigoso – Nelson Rodrigues já dizia que ela é “como o biquíni, mostra tudo menos o essencial”.
Sem números exatos fica difícil administrar uma sociedade. Por vezes, um belo programa, um plano trienal ou quadrienal é criado em Brasília, mas Brasília se situa, como se sabe, longe demais das capitais...
É como projeto arquitetônico feito sem a visita do arquiteto/artista ao local... Porto Alegre tem um exemplo disso: há um Museu de Arte em construção, à beira do imenso lago (ou rio?) Guaíba e que não aproveita a paisagem.
Ah, sim, pode ser que o acervo não possa ser atingido pelo calor ou pela luz do sol. Mas, nesse caso, por que não um terraço (uma varanda, como se diz na metade norte do país ou uma esplanada como se usa lá em Portugal) com bares e restaurantes?
O fato é que planos e projetos, por melhores que sejam, por mais competentes que sejam os seus autores, morrem na praia quando se ajustam à realidade. Ninguém compra luvas sem experimentá-las. Impossível.
Então, dizer que se socorrerá o povo com a melhora da Educação é simplista. Antes disso, o pobre precisa sentir o quentinho da comida no estômago, o miserável precisa ter uma pequena casa, uma pobre maloca que seja, mas ele tem que ter um abrigo para as noites de frio ou chuva. Para que tudo isso se viabilize, claro que o melhor caminho é dar um emprego a esses necessitados. Mas, como fazê-lo se eles, os pobres, os miseráveis, não tem qualificação para obter e manter um emprego?
Aí estão, portanto, os desafios para qualquer governo.
Saúde, Alimentação, Habitação, Emprego.
Resolvidas estas quatro pendências, pensa-se então em Educação.
Afirmam, os teóricos da questão social, que é preciso começar pela Educação.
Ótima idéia, mas quem tem tempo para esperar?
Lula, Yeda Crusius no Rio Grande do Sul, ou quem quer que seja em qualquer estado da federação brasileira, se depara com isto, de saída. Este é o problema básico, fundamental.
Então, por qual ponta do novelo se começa?
Se eu tivesse a resposta, na certa me elegeria qualquer coisa nesse país. Por não ter a resposta, jamais tive coragem para candidatar-me.
Mas, ofereço o tema à reflexão.
Durante 2007, se não formos engolidos pelas vagas da inconformidade crescente ou da criminalidade que só quer levar vantagem dos desníveis da sociedade, (veja-se os 18 mortos de ontem no Rio de Janeiro) e do descontrole político, pela falta de seriedade e austeridade, pela ausência de ação efetiva, de combate à corrupção, é o que teremos de fazer.
O velho poeta Gonçalves Dias já dizia que “a vida é combate, que os fracos abate, e os fortes, os bravos só pode exaltar”. Mas, são quinhentos anos de luta.
Estamos construindo o país do futuro. Lembram Stefan Zweig? “Brasil, o país do futuro”.







MUDARIA O NATAL OU MUDEI EU?
Walter Galvani, em 26/12/2006

A pergunta que o
velho Machado de
Assis fazia no
início do século
passado, continua
de pé...


UM POBRE NATAL

Walter Galvani

Não sei onde ficou o tal “espírito de Natal” tantas vezes citado e lembrado a todo o momento como capaz de assinalar um momento ímpar das relações humanas. Acabo de percorrer detidamente o noticiário dos jornais a respeito do fim-de-semana que culminou ontem com o feriado natalino e só encontrei acidentes, crimes, tragédias, desgraças. Balas perdidas levaram vidas, dez homicídios marcaram o “feriadão” rio-grandense, fora os afogamentos, desastres rodoviários, o terror e a perda de tempo dos passageiros que pensaram em optar pelo transporte aéreo, evidentemente mais solicitado à medida que as distâncias do país imenso que é o Brasil obrigaram a uma democratização dos serviços. Execuções criminosas de outros tantos criminosos.
Enfim, nem as renas conseguiram salvar o Papai Noel da balbúrdia dos aeroportos brasileiros e a sociedade civil mal e porcamente sobreviveu ao ambiente que mora nos corações brasileiros. Uma pena.
Mais um Natal de fossa nesse país.
Agora, estamos na reta final do fim-de-ano e esperamos que o Reveillon venha lavar e purificar os corações maltratados que pulsam no fundo das nossas carcaças corpóreas danificadas pelo passar do tempo, nossos atribulados esqueletos que tentam suportar a oxidação que os alimentos errados e os remédios em excesso produzem.
Assim sendo, acho que escapamos. Sim, escapamos das bombas, dos tiros, da miséria, da fome, da infelicidade, das guerras, dos erros administrativos, da política errônea e estamos nos dando por privilegiados por podermos chegar ao final deste ano de 2006.
O homem não aprende, a humanidade não progride. Infelizmente, é o que temos a registrar, nesse intervalo de balanço antes que chegue o novo desafio que o 2007 nos reserva.
Ah, sim podemos historiar algumas alegrias... No esporte, por exemplo, mais um clube gaúcho, desta vez o S.C.Internacional chegou ao campeonato mundial. Em Iokohama, no Japão, batendo o poderoso Barcelona, da Espanha.
Uma eleição, aliás reeleição, de Lula para a presidência do Brasil e Yeda Crusius, a primeira mulher a dirigir os destinos do Rio Grande do Sul, como governadora.
Pois é. Vamos ver, no final de 2007, se teremos algo a comemorar além do esporte...




O QUE ESPERA O RIO GRANDE
Walter Galvani, em 24/12/2006

Crônica publicada hoje no jornal ABC DOMINGO, do Grupo Editorial Sinos, que circula na Região Metropolitana de Porto Alegre:

MENOS IMPOST0S, MAIS TRABALHO

Walter Galvani

O deputado que utilizou este lema publicitário que intitula esta crônica, elegeu-se e agora, constrangido, não aceitará cargo no governo de Yeda Crusius, porque a primeira mulher (paulista, aliás) que assume o governo no Rio Grande do Sul, pretende editar um pacotaço de medidas, no primeiro dia de poder, em que se incluem, aumento de tarifas. Tem mais: ela convida os senhores deputados, entre os quais pode estar o próprio presidente da Assembléia, a não se incorporarem ao novo governo, se discordarem destas propostas. A coisa vai mais longe: Yeda sai em “férias de Natal” e só volta na terça-feira, dia 26.

Bem, as miniférias não merecem reparo, porque até o carteiro da minha rua já avisou que só voltará na metade da semana que vem e o pessoal da “limpeza urbana”, o time da “coleta”, deixou o seu envelopezinho de natal, pedindo adiantado. Motivo: estão saindo e só retornam na próxima semana.

Fico em dúvida, mas ainda tenho algumas coisas a fazer e, sobretudo, completar alguns projetos que deverão estar em condições de execução em 2007, sem falar no balanço do ano, que passei a adotar depois que alguns balancetes mensais me “balançaram” o coração e as estruturas financeiras. No mais, já estive nos consultórios médicos dos drs. João Carlos Fernandes e Lorival Cardoso e ambos me asseguraram que posso seguir em frente, tranqüilo, que para o ano que vem estou pronto. Só falta agora fechar as contas do ano, o que farei no próximo fim-de-semana. Espero continuar com boa saúde financeira e então me dedicar ao vôo da palavra, coisa aliás que venho fazendo há mais de cinqüenta anos.

O “enxugamento da máquina com a extinção de cargos” e o verbete “a porta da rua é a serventia da casa” assinalam os rumos do vôo do Rio Grande do Sul a partir de primeiro de janeiro. Deixa-se para trás o sistema “endurecer sem perder a ternura” que consagrou seu antecessor e fez com ele deixasse o Piratini com o seu círculo de amizades ampliado, apesar de todas as dificuldades econômicas do estado. Resta saber se o que vem pela frente é um procedimento ou se apenas teremos uma vassoura nova varrendo os céus do Rio Grande até que as coisas se acomodem, pois é no andar da carreta que as abóboras se ajeitam, como se sabe.

O primeiro já saiu, à esta altura outros estão fazendo o mesmo e ainda outros fatos surpreendentes devem ocorrer. Alianças se desfazem, partidos mudam e pessoas mudam suas posições. Às vezes, nem a eleição passou bem e já temos renúncias.

Este não será, pois, um Natal de amor e ternura, mas sim de preocupação e dificuldades principalmente para quem está, de alguma forma ligado ao governo do estado, seja como simples funcionário, seja como fornecedor, como beneficiário de subsídio ou dependente de alguma forma.

Com o olho na Cultura, coisa que faço também há mais de cinqüenta anos, preocupa-me saber se as leis de incentivo prosseguirão impávidas, o que duvido ou se vai surgir algum outro tipo de benefício, o que é mais improvável ainda. Em todo o caso, não me importo e até aplaudo se a Secretaria da Cultura receber verbas generosas. O mecanismo se chama Fundo de Apoio à Cultura, conhecido como FAC. Sem “facadas”, espera-se, o Rio Grande do Sul precisará seguir mostrando “suas façanhas à toda a Terra”. Para que sirvam de modelo.

No mais, como se diria na Fronteira, é “cautela e caldo de galinha” para esperar o que vem pela frente. E lembrar que todos concordamos com aquele “slogan”: “Menos impostos e mais trabalho!”










OS GRANDES LADRÕES ESTÃO SOLTOS
Walter Galvani, em 21/12/2006

Os pequenos, estes vão para a prisão...
É o Brasil de 2006;
Esta crônica está publicada hoje em "A Razão" de Santa Maria.


MANTEIGA OU MARGARINA ?

Walter Galvani

Por diversas razões, uma delas por efeito da propagação de outro produto e a publicidade qualificada, a manteiga sumiu da mesa de muitas famílias brasileiras, substituída pela margarina, com milhares de argumentos a favor, inclusive a de que se produziriam melhores resultados com relação à saúde. Não sei se é verdade. A margarina é que está sob ataque agora, porque produz “gordura trans” que “inibe a ação das enzimas específicas do fígado, o que favorece a síntese do colesterol”. Pior: a manteiga, a velha manteiga que provém, afinal de contas, do úbere da vaca, porque “é a nata do leite batida até se transformar em emulsão para poder ser utilizada sobre pães, bolachas, etc...” não é que ela virou símbolo de crime hediondo ? ...

Tanto é assim que uma pobre desempregada paulista, ao ver o filho com fome, conforme alegou na Justiça, furtou um potinho de manteiga, no valor de R$ 3,20. A doméstica Angélica Aparecida Souza, de 19 aos, foi condenada pela justiça de São Paulo, a quatro anos de prisão em regime semi-aberto e, por causa do delito, perdeu a guarda do filho de três anos. Para recuperá-la, teria que vencer uma maratona na qual se envolvem anualmente 4 milhões de brasileiros: conseguir um emprego com carteira assinada.

Sorte dela que um empresário de uma firma de terceirização de serviços de limpeza penalizou-se com a sua situação e carimbou o primeiro milagre: assinou-lhe a carteira. Agora, falta o segundo milagre: converter os membros da Justiça paulista ao gênero humano e fazer com que se comovam com a sua situação.

Talvez, na seqüência, o terceiro milagre seria o supermercado que a denunciou por “roubo” (não teria sido furto, apropriar-se de algo que não lhe pertence, sem violência?) retirar sua queixa. Numa seqüência dessas, de milagre em milagre acabar-se-á concretizando o maior de todos eles que seria reconverter a sociedade brasileira ao tão apregoado jeito de ser que faz nosso prestígio no mundo, muito além do futebol.

Enquanto criminosos imperdoáveis são absolvidos ou vivem como marajás em celas isoladas, ligados ao “mundo exterior” por celulares, televisões, internet, desfrutando o ar condicionado e cozinha especial sob a alegação de que poderiam ser mortos pelos inimigos, seguem comandando de dentro dos presídios o negócio de tóxicos, seqüestros, assaltos, do crime por atacado ou varejo, quem furta um pote de manteiga passa por isso. Não se podem tolerar os pequenos furtos, os roubos, é lógico que só um sistema de “tolerância zero” pode levar a sociedade ao paraíso possível. Mas, e os ladrões que conhecemos através dos meios de comunicação que continuam a infelicitar o país, mamando nas tetas da nação, os mais do que conhecidos integrantes das máfias que mancham nossas instituições, esses, o que se faz com eles?

A propósito: a manteiga é composta por cerca de 80% de gordura, sendo o restante água e resíduos de lactose ( o açúcar do leite) e de lecitina, a proteína do leite. Tudo isso ajuda a produzir Vitamina A em grande quantidade e como componentes secundários, vitaminas D e E. Produz uma ação suave sobre as vias biliares. Angélica não sabia de nada disso, provavelmente, mas eis que seu “crime” nos lembra a velha manteiga que na certa acompanhou a meninice a adolescência de muitos de nós.

Não querendo transformá-la em heroína ou exemplo a ser imitado, bem que está chegando a hora de punir os verdadeiros ladrões da nossa honra e da nossa integridade como nação. Com o mesmo rigor com que se tem para os pequenos delitos como esse, da manteiga.







INTERNACIONAL EM SUA CASA: PORTO ALEGRE
Walter Galvani, em 19/12/2006

Desde o início da tarde deste dia 19 de dezembro que o S.C.Internacional , recepcionado por sua imensa torcida, está em casa.
Agora, será preciso estar à altura da sua nova imagem


INTER, EM CASA

Walter Galvani


Depois da demonstração de poderio, caracterizada especialmente pelo controle sobre os nervos do adversário, a utilização de um momento excepcional da partida para decidi-la a seu favor, com seus jogadores demonstrando adesão ao esplêndido plano tático do treinador Abel Braga, fundamentado no respeito ao adversário famoso e o aproveitamento de qualquer deslize, o Internacional venceu por 1 x 0, conquistou o título mundial interclubes e agora festeja em casa.
Foi preparada uma recepção que botou nas ruas de Porto Alegre cerca de meio milhão de pessoas e por onde a equipe transitou, como tradicionalmente se faz com os vencedores de jogos modernos, em cima de um caminhão do Corpo de Bombeiros, e a cidade se vestiu de vermelho.
Mesmo os meio-fios das calçadas apareceram pintados de vermelho e branco, as cores do Inter, por determinação do prefeito José Fogaça, tradicional torcedor do... Grêmio Portoalegrense, o grande rival.
Nessa hora, felizmente, não há divisões. Só se somam interesses e simpatias. Mesmo lembrando que o Grêmio também foi campeão mundial, em 1983, há 23 anos portanto, e que na época os meio-fios foram pintados de azul e branco, e os jornais fizeram a manchete “A Terra é Azul” (como desta vez escreveram que “A Terra é Vermelha”, os colorados festejam há três dias o feito do seu clube, preferencialmente “flauteando” em cima do adversário tradicional.
As rivalidades esportivas se fazem assim.
E é justamente esta rivalidade que acendeu a competição porto-alegrense, hoje a cidade que festeja seus dois campeões. Como São Paulo, a maior cidade do Brasil, ou Buenos Aires, a capital argentina.
Haverá o “dia seguinte”, com a conseqüente ressaca. E então, será importante o Internacional, como clube, dar-se conta do avanço que realizou em campo, através dos seus atletas que tiveram o respaldo do apoio de uma torcida tão grande que até conseguiu deslocar um percentual representativo até o Japão, e agora contabilizar estes efeitos em matéria de imagem.
Hoje não há mais nenhum amadorismo, os funcionários, dirigentes, jogadores e equipe técnica são todos profissionais, e saberão projetar este novo efeito que torna o Inter num clube de expressão mundial, já que carrega o Internacional em seu próprio nome.




INTERNACIONAL CAMPEÃO MUNDIAL
Walter Galvani, em 17/12/2006

Representando a terra onde trabalho, o estado onde nasci, o país onde vivo, o Internacional de Porto Alegre chegou ao ponto mais alto do pódio.
É preciso examinar o que isso significa para o Brasil e para os brasileiros:


O FENÔMENO FUTEBOL BRASILEIRO

Walter Galvani


Não há como fugir ao comentário, depois da brilhante vitória de hoje de manhã, domingo, 17 de dezembro de 2006, do Internacional de Porto Alegre sobre o Barcelona da Espanha. Com isto, o “Colorado”, como é conhecido entre seus torcedores, tornou-se Campeão Mundial de Futebol Interclubes, no terceiro título oficialmente reconhecido pela FIFA, o que não tem muita importância, porque os demais, mundiais anteriores, embora conhecidos sob o nome do patrocinador (montadora de automóveis Toyota) também valeram. Mas, o Coríntians, o São Paulo e agora o Inter, tornaram-se os primeiros campeões oficiais pela entidade internacional que controla e administra o “soccer”.
O Internacional controlou o jogo. Primeiro, resistiu bravamente. Diante do poderoso Barcelona, comandado por dois brasileiros extraordinários, Deca (que joga em Portugal e lá se naturalizou português) e Ronaldinho Gaúcho, o excepcional jogador que transformou nosso toponímico num apelido de luxo, não se entregou. Cedeu onze escanteios, mas resistiu. Perdeu durante o jogo três titulares, mas tinha suplentes que se mostraram dignos e capazes. No início do segundo tempo começou a crescer e a buscar o resultado.
Durante pelo menos quinze minutos dominou totalmente ao Barcelona, para, depois permitir que a partida se tornasse outra vez um choque de campeões. Fora do comum.
Foi uma grande partida que ocupou a atenção de torcedores e telespectadores do mundo todo (alguns afirmam que chegou a transmissão a 200 países ou mais). Seja o que for, a partir de hoje a marca “Inter”, o nome Sport Club Internacional ganhou as manchetes, as páginas, os espaços de rádio e teve, a Internet, o mundo todo.
Trazendo outra vez a certeza de que o futebol brasileiro é a maior demonstração de capacidade do seu povo. É incrível que em outras atividades, o brasileiro não consiga elevar-se a estes níveis de supremacia mundial.
Fica uma esperança. Uma certeza. Uma convicção. Se trabalharmos em todos os ramos, com a mesma dedicação, entusiasmo e competência, seremos campeões mundiais em outras modalidades, e falo do teatro, ao cinema, da música à literatura, do vôlei ao automobilismo, da produção eletrônica à informática.
Brasil.
Ou como diz o hino riograndense, do estado que é representado pelo S.C.Internacional, “sirvam nossas façanhas, de modelo à toda a Terra!”




O AUMENTO DOS DEPUTADOS E SENADORES BRASILEIROS
Walter Galvani, em 15/12/2006

Um pouco de irritação me leva a escrever esta crônica no dia de hoje, uma sexta-feira, quando quase estamos chegando ao final do ano de 2006:

OS 91,7 POR CENTO

Todos nós, brasileiros, levantamos escandalizados hoje. Aqueles que não souberam ontem, através do rádio e da televisão, tomaram conhecimento esta manhã, pelas manchetes de todos os jornais, que os deputados, senadores e conseqüentemente, deputados estaduais e vereadores, terão, a partir de agora, um aumento de 91,7 por cento em seus proventos. Efeito cascata, só a vergonha na cara e o respeito pelos desníveis sociais do Brasil, é que não estarão em causa.
De minha parte, acho pouco o que ganham deputados e senadores, gostaria eu de receber o salário (nos novos níveis) mas, o problema é que os brasileiros que trabalham de sol a sol, carregando tijolos ou levantando colunas, escrevendo, digitando, recebendo os doentes, tratando deles, cuidando dos anciãos e das crianças, não ganham nem perto disso.
Acho uma chatice falar desse assunto.
E verdade tenho coisas muito mais sérias para tratar, livros para ler, presentes para meus filhos e netos, enfim, tanta coisa a fazer nesta corrida insana do fim do ano que este é um assunto absolutamente dispensável. Mas, não posso calar.
Acho que os senhores deputados e senadores deveriam, por uma questão ética, refletir e considerando que eles e o poder executivo dizem que a inflação é de menos de 3% ao ano, que estabeleçam então, que os aumentos salariais não podem ultrapassar este nível. Quem sabe com mais 1% de ganho real? Mas, os 88 por cento na frente da inflação oficial que eles trazem para os seus salários é um desrespeito ao povo brasileiro.
Perda de tempo, leitor amigo, ainda mais que os meus leitores podem estar espalhados pelo mundo todo, seguramente pelos países de língua oficial portuguesa, e querem saber de coisas mais úteis, construtivas, significativas.
Em homenagem ao tempo precioso das pessoas, encerro aqui.
Basta.

Walter Galvani, jornalista há 52 anos, escritor há mais de trinta, conselheiro do Conselho Estadual de Cultura do RGS, membro da Academia Riograndense de Letras, premiado com o prêmio “Casa de Lãs Américas” e detentor do prêmio de “livro do ano em não ficção” em Porto Alegre, nesse 2006, com o seu livro “Crônica: o vôo da palavra”, editado pela Editora Mediação.




INTER X BARCELONA
Walter Galvani, em 14/12/2006

Duas mentalidades em confronto. Mas, muitas semelhanças em jogo...
E uma rivalidade grenal que se projeta para o mundo!


PASSANDO A LIMPO

Walter Galvani


Não é a primeira e provavelmente não será a última vez que no futebol se confrontam Europa e América, no caso deste domingo Internacional x Barcelona, nem tampouco haverá uma pureza absoluta de representações já que se mesclam jogadores de vários países e, mesmo brasileiros, no clube oposto ao nosso legítimo representante.
Não será por acaso, porém, que os torcedores colorados verão no Barcelona o fantasma mais ou menos concreto do seu maior rival, o Grêmio Porto-Alegrense, até porque o principal jogador do clube catalão é justamente Ronaldinho, aquele que começou nas categorias de base do Grêmio e chegou ao estrelato mundial.
Na mesma manhã em que o Barcelona goleava o América do México por 4 x0, classificando-se assim para a finalíssima de domingo, quando enfrentará o Internacional de Porto Alegre, Ronaldinho era escolhido pela FIFA, como o melhor jogador de 2006.
Serão duas escolas de futebol em desafio direto? Até que não, pois nada é mais sul-americano do que o sistema de jogo do Barcelona. Mais do que isso, será o choque entre dois tipos de mentalidade e preparação. De um lado, ainda confiamos no improviso, de outro acreditamos na força da habilidade individual, e até por isso se respeita, no Inter, a capacidade de Ronaldinho Gaúcho, que carrega, pois, em seu sobrenome projetado mundialmente, o topônimo que designa o habitante dos Pampas.
Nada melhor do que transformar Ronaldinho, que já é embaixador da ONU, em defensor da região ameaçada pela proliferação da monocultura do eucalipto, pois o plantio desta árvore exótica como saída para os agricultores e pecuaristas quebrados na região sul do Brasil, abala o nosso meio ambiente e ameaça o bioma. Tal como no Uruguai e Argentina onde se digladiam contra e a favor de “papeleras”, como o demonstra a briga Gualeguaychú x Fray Bentos. Mas, isso é outro futebol...
Domingo será a vez de tirar as dúvidas entre as duas formações esportivas que se caracterizam pelo respeito à habilidade individual, mas também o cultivo da exigência de marcação e seriedade e respeito a um plano tático.
Apesar de que, cada jogo é um jogo, será muito bom prestar atenção a este confronto decisivo que poderá mostrar o grau de evolução deste esporte que significativamente tem sua final interclubes no Japão (talvez numa última oportunidade), o que assinalou ao longo do tempo, também a chegada ao país oriental desta febre que se apossou do mundo todo, praticamente.
Acho que só os esquimós não jogam este jogo, por falta de gramados, pode ser... Ou já terão desenvolvido algum tipo de arena?
De qualquer forma, o Internacional é um digno representante do Brasil, país maior número de vezes campeão mundial, e o Barcelona que já foi mais longe do que a seleção da Espanha, pois a famosa “Fúria” jamais conseguiu fazer com que sua “ferocidade” representasse a conquista da Copa do Mundo.
Domingo saberemos. Ou melhor: veremos e escutaremos. E tentaremos extrair a lição do duro embate.
Alexandre Pato e Luis Adriano, dois jovens, de 17 e 18 anos respectivamente, tentam repetir o sonho-Pelé, sempre presente na cabeça dos brasileiros, como maiores revelações do Inter que são eles, lembrando que Pelé conquistou a Copa na Suécia aos 17 anos e alguns meses.
E Ronaldinho Gaúcho é um Pelé, sem dúvida, pela expressão e repercussão mundial de sua arte e técnica.
O Rio Grande do Sul, metade gremista, metade colorado, ou seja se dividindo entre a torcida pelo Grêmio ou pelo Internacional, provavelmente, para mostrar que o futebol une e divide, vai estar a favor dos vermelhos ou dos espanhóis. Digo, catalãos... Catalanes.
PASSANDO A LIMPO

Walter Galvani


Não é a primeira e provavelmente não será a última vez que no futebol se confrontam Europa e América, no caso deste domingo Internacional x Barcelona, nem tampouco haverá uma pureza absoluta de representações já que se mesclam jogadores de vários países e, mesmo brasileiros, no clube oposto ao nosso legítimo representante.
Não será por acaso, porém, que os torcedores colorados verão no Barcelona o fantasma mais ou menos concreto do seu maior rival, o Grêmio Porto-Alegrense, até porque o principal jogador do clube catalão é justamente Ronaldinho, aquele que começou nas categorias de base do Grêmio e chegou ao estrelato mundial.
Na mesma manhã em que o Barcelona goleava o América do México por 4 x0, classificando-se assim para a finalíssima de domingo, quando enfrentará o Internacional de Porto Alegre, Ronaldinho era escolhido pela FIFA, como o melhor jogador de 2006.
Serão duas escolas de futebol em desafio direto? Até que não, pois nada é mais sul-americano do que o sistema de jogo do Barcelona. Mais do que isso, será o choque entre dois tipos de mentalidade e preparação. De um lado, ainda confiamos no improviso, de outro acreditamos na força da habilidade individual, e até por isso se respeita, no Inter, a capacidade de Ronaldinho Gaúcho, que carrega, pois, em seu sobrenome projetado mundialmente, o topônimo que designa o habitante dos Pampas.
Nada melhor do que transformar Ronaldinho, que já é embaixador da ONU, em defensor da região ameaçada pela proliferação da monocultura do eucalipto, pois o plantio desta árvore exótica como saída para os agricultores e pecuaristas quebrados na região sul do Brasil, abala o nosso meio ambiente e ameaça o bioma. Tal como no Uruguai e Argentina onde se digladiam contra e a favor de “papeleras”, como o demonstra a briga Gualeguaychú x Fray Bentos. Mas, isso é outro futebol...
Domingo será a vez de tirar as dúvidas entre as duas formações esportivas que se caracterizam pelo respeito à habilidade individual, mas também o cultivo da exigência de marcação e seriedade e respeito a um plano tático.
Apesar de que, cada jogo é um jogo, será muito bom prestar atenção a este confronto decisivo que poderá mostrar o grau de evolução deste esporte que significativamente tem sua final interclubes no Japão (talvez numa última oportunidade), o que assinalou ao longo do tempo, também a chegada ao país oriental desta febre que se apossou do mundo todo, praticamente.
Acho que só os esquimós não jogam este jogo, por falta de gramados, pode ser... Ou já terão desenvolvido algum tipo de arena?
De qualquer forma, o Internacional é um digno representante do Brasil, país maior número de vezes campeão mundial, e o Barcelona que já foi mais longe do que a seleção da Espanha, pois a famosa “Fúria” jamais conseguiu fazer com que sua “ferocidade” representasse a conquista da Copa do Mundo.
Domingo saberemos. Ou melhor: veremos e escutaremos. E tentaremos extrair a lição do duro embate.
Alexandre Pato e Luis Adriano, dois jovens, de 17 e 18 anos respectivamente, tentam repetir o sonho-Pelé, sempre presente na cabeça dos brasileiros, como maiores revelações do Inter que são eles, lembrando que Pelé conquistou a Copa na Suécia aos 17 anos e alguns meses.
E Ronaldinho Gaúcho é um Pelé, sem dúvida, pela expressão e repercussão mundial de sua arte e técnica.
O Rio Grande do Sul, metade gremista, metade colorado, ou seja se dividindo entre a torcida pelo Grêmio ou pelo Internacional, provavelmente, para mostrar que o futebol une e divide, vai estar a favor dos vermelhos ou dos espanhóis. Digo, catalãos... Catalanes.




MORTE POR ENVENAMENTO ATÔMICIO
Walter Galvani, em 12/12/2006

Ninguém mais dorme em paz na Europa. Desse jeito vamos acabar exportando o terror da Linha Vermelha como uma espécie de "pausa sabática"...

POLÔNIO 210

Walter Galvani


Se bem me lembro, o nome é o mesmo do pai da Ofélia. Lembram Shakespeare?. Ofélia, a amada de Hamlet que acabou se suicidando, descendo um regato envolta em flores, depois que perdeu a razão, assistindo ao início da carnificina na corte da Dinamarca (“Há algo de podre no reino da Dinamarca”, recordam essa assertiva do príncipe Hamlet que se aplica a (quase) todos os reinos antigos e modernos?
Polônio, era o pai de Ofélia e acabou apunhalado pelo próprio “genro” quando este percebeu uma saliência atrás de um reposteiro (que bela palavra, reposteiro, há anos que eu não conseguia usá-la...) espionando as conversas que se produziam em palácio.
Não terá sido ele o primeiro, nem o último a ser apunhalado por escutar conversas palacianas, afinal nunca se sabe que uso os espiões farão do que ouvem E talvez seja por isso que o ex-espião russo Alexander Litvinenko, com todo este nome dostoiewskiano, foi despachado desta para melhor (ou pior, depende do ângulo)...
Já existem outros suspeitos de contaminação com o elemento radiativo que não recebeu como batismo o nome do velho e sábio (mas não tanto) cortesão do “Hamlet” de William Shakespeare, mas sim o país cuja origem lhe denota o nome: Polônia. Descansem em paz o velho William, Hamlet e o Polônio do teatro.
A paranóia que atinge a Europa, com focos em Moscou e Londres e também na Alemanha, onde seguiram o rastro do Polônio 210, não se refere à podridão de Elsinore, mas as radiações por emissão de partículas alfa que produzem “um certo fulgor azulado” e que teria contaminado outros ex-espiões russos, como André Lugovoi e Dimitri Kovtun, ambos atingidos pelos 84 proctons e outro tanto de electrons que o “polônio 2010” é capaz de emitir.
Dizem que a sua expectativa de vida é de 103 anos e que, descoberto em 1898 pelo casal Maria e Paul Curie e por isso recebendo o nome de homenagem à Polônia, então, para variar sob o domínio russo, foi ao longo destes quase cem anos utilizado, para o bem e para o mal.
Pior que a gripe aviária, a sua má fama expandiu-se pela Europa e hoje o Hotel Millenium, em Londres, onde o ex-espião Alexander Litvinienko se hospedou e teria sido atingido pela luz azulada da radiação está na lista dos prédios condenados... Nem cobrando apenas uma libra de hospedagem alguém quererá viver a experiência.
Estamos diante do crime tecnológico. Futuro da Humanidade.
Bons tempos, não é mesmo Hamlet amigo, quando se resolviam pendengas com meia dúzia de punhaladas ou uma representação teatral que fazia o Rei sentir-se mal com sua consciência. Hoje em dia são necessárias bombas, aviões ou “polônios”... Mesmo que os fantasmas custem a morrer, como Pinochet cuja longevidade o transformou de salvador da pátria a trambolho e só a visita intermitente da Morte salvou do último ato.
Este ficou em mãos do povo chileno que carregará as cinzas para sempre. Foi ele mesmo, ele Pinochet, quem conspurcou o magnífico estádio da Copa de 62, transformando-o em depósito de presos, local de mortes e torturas. Mas, se a moda pega, não haverá “polônio” suficiente para evitar o terceiro ato de tantas tragédias encenadas pelo mundo afora. Palcos que a mortandade do último ato do “Hamlet” não conseguiria apagar da face da Terra.
Chit, Chit bicho, Brasil! Não sei porque temos passado por cima de tais ajustes de contas. Talvez seja pelo fato de nossas tragédias, ao longo dos tempos, terem se travestido em comédias. Se isso é bom ou ruim, só o velho William Shakespere pudesse nos esclarecer.




PINOCHET
Walter Galvani, em 11/12/2006

Sem deixar saudades entre os democratas do mundo inteiro... faleceu o ex-ditador do Chile, Augusto Pinochet

Aos 91 anos. Desde setembro de 1973, quando, ao bordo de uma revolução militar (ou golpe?) conquistou o poder no país andino, derrubando o governo do socialista Salvador Allende, quemorreu em combate no Palacio de La Moneda.
É hora de reflexão: o que será que estão pensando os amigos americanos de Pinochet que apoiaram o golpe de 73?
Vamos prestar atenção nbo futuro do Chile, do Equador, da Bolívia e do ... Brasil.
Nunca é demais...
Temos experiência histórica do assunto.
Em verdade, nestes ppaíses em rota de desenvolvimento, como é o caso do Brasil,é preciso estar sempre de olho aberto. Ainda mais lembrando que aqui temos petróleo, temos a floresta a floresta amazônica, temos cobre, ferro, mercúrio, temos tudo.
E problemas sociaisio imensos.
Um desnível inacreditável.
Enquanto a Europa luta por remunerar as mulheres que quiserem ficar em casa cuidando dos filhos, nós aqui lutamos para não aumentar o número de descendentes. Já estamos quase chegando aos 200 milhões.




ADEUS PINOCHET
Walter Galvani, em 11/12/2006

Nunca se deve chutar os caídos, mas que já vai tarde, isso é indiscutível...

O QUE NÃO ESCREVI EM 1973

Walter Galvani


Eu tinha muitas informações a respeito do golpe que se chocava no Chile, até porque o Brasil da época afinava seu comportamento pelos entendimentos entre os militares do continente. Como se sabe (e se sabia na época, mas era proibido publicar...) a frota americana estivera na altura de Salvador da Bahia, quando da derrubada de João Goulart, em março de 64.
A mesma estratégia, digamos “continental” foi aplicada no Chile, naquele mês de setembro de 1973, quando ainda não se sabia o quanto o mês 9 do ano ficaria marcado por acontecimentos incríveis. Mais tarde, setembro de 2001, por exemplo, conheceu a força do terror internacional que abalou as estruturas americanas, com a derrubada das Torres Gêmeas.
Quem com ferro fere, com ferro será ferido, diz a Bíblia. Mas, não quero justificar uma atrocidade com outra.
Mas, não deixa de ser um momento de alívio este em que se assinala a despedida e a cremação de Pinochet. Adeus. Mas é hora de lembrar, também, a atuação do extraordinário juiz espanhol Baltazar Garzón, que determinou a sua detenção.
Sem aquela ação, internacional, e oriunda da pátria-mãe da colonização espanhola no Chile, não teríamos tudo o que se seguiu, as inúmeras condenações do ex-ditador e finalmente sua morte, cercado pelo desprezo do mundo inteiro.
Não se deve nunca chutar os caídos. Mas, que ele já foi tarde, isso é indiscutível.




ATÉ OS PROGRAMAS RURAIS TRATAM DE CRIMES...
Walter Galvani, em 10/12/2006

Não sei se a sociedade brasileira adoeceu já, até este ponto, mas o fato é que até os programas rurais de domingo de manhã, que até aqui eram os melhores justamente pela imocência que transmitiam, agora falam de crimes, roubos, assaltos, golpes. Há o cidadão que vendia falsos tratores pela Internet, há de tudo. Gente algemada, como os ridículos programas normais de noticiário diário.
Esqueceram-se que o que é rotineiro, não é mais notícia e contaminaram até a pureza da cultura da maçã e da acerola...
Ainda bem que os animais não assistem tevê...
Esta que segue, é a crônica que publico hoje no ABC DOMINGO, o grande jornal dominical (os outros circulam no sábado) do Grupo Editorial Sinos.
E falo também de Política e das cassações de deputados no Rio Grande do Sul.
Os homens dos albergues...


CASSADOS E CAÇADOS

Walter Galvani

Finalmente a política brasileira dividiu-se entre cassados e caçados, o que não significa um julgamento, mas uma constatação. Já não se sabe mais o que vale e o que não vale, o que é e o que não é, mas sim o que aparece nas grandes redes de televisão. Novelas? Ah, sim, novelas. Desperdiçam-se diariamente, grandes oportunidades de resgatar a massa ignorante, pois entendem os dirigentes de sistemas de comunicação de âmbito nacional que é melhor dar espaço ao crime, à desgraça, à infelicidade, para tentar talvez a catarse geral da sociedade, que se purga diante do altar do pequeno deus ditoso da “telinha”, do que fornecer divertimento, lazer de qualidade, cultura e educação à distância sem o selo do didatismo. Complicado.

Mais complicado ainda se torna enxergar em meio ao vendaval de más notícias, o que é somente ópio para o povo e o que pode funcionar como um farol para arrancar populações da ignorância e repensar um país que assiste em rede nacional, a enchente de São Paulo, a cassação dos deputados gaúchos que defendem a idéia do “albergue do eleitor” como uma contribuição social e os que os condenam por compra de votos, o caos dos aeroportos.

Depois, fala-se em sanguessugas, daqui a pouco surgirão outros epítetos, veremos os índios que sobraram da chacina histórica (que não foi muito diferente da vitoriosa “marcha para o oeste” dos americanos, endeusada pelo cinema de Hollywood) de sunga e tanga vendo tevê no meio da selva, cobrando pedágio, porque não são só os “civilizados” que se modernizam, ou se “civilizam”, diríamos nós.

E em meio à esta selva de atrocidades ainda temos que respirar fundo e cantar “Noite Feliz”, imaginando que o Papai Noel virá trazer todos os presentes que imaginamos, inclusive a “paz na terra entre os homens de boa vontade”, uma boa bicicleta, quem sabe um carro novo, o refrigerador, o sofá, a boneca e a cura de todos os nossos males. E o saco de presentes, furado.

Depois disso tudo, iremos aos jantares de fim-de-ano, festas do amigo-secreto, casa da sogra, casa da avó, e docemente nos deixaremos envolver na alegria do “ano que vai chegar”.

Ah, se der tempo e jeito, pagaremos todas as contas, se o 13º der para isso e entraremos no primeiro dia do novo ano com tudo zerado.

Poderemos então começar novas contas, como cinicamente nos sugerem as promoções que garantem que só começaremos a pagar lá bem adiante.

Esquecia-me do verão e das férias.

Já os índios que habitavam esta região do planeta, vindos como se sabe da Ásia, suas feições, crenças e comportamento o confirmam, que utilizaram a passagem das Aleutas, a “pequena escada de assalto” do arquipélago que foi redescoberto em sua eficiência estratégica pela Segunda Guerra Mundial, praticavam o nomadismo em busca do verão eterno. No caso do Rio Grande do Sul, encontraram-no no Litoral, que o digam os sambaquis que se acumulam ao longo da costa, de Torres ao Chuí. Quinhentos anos depois, aqui vamos nós, dando seqüência este costume histórico e então, só nos cobrem posições, decisões e trabalho, depois do verão. Faremos uma longa pausa sabática de três meses...

Até lá, fica tudo em suspenso, aguardando que o espírito mergulhe no acolhedor Atlântico, junto com o corpo, e ressurja esplendorosamente recuperado, banhado e renovado.

Muito tempo? Pouco tempo?

Preparem seus corações. E não esqueçam, já temos todas as indicações, o ano só começará mesmo, como sempre, em março. Aliás, no dia 5. Não tenhamos ilusões. Até lá, o céu pode esperar.








































































































































PERMANÊNCIA DA SECRETARIA DA CULTURA
Walter Galvani, em 07/12/2006

Ainda há esperanças de que Yeda Crusius mantenha a Secretaria da Cultura, que significou uma conquista do mais importante setor do estado: embora seja super-estrutura, representa o estágio mais elevado de uma administração. Eis a crônica que publico hoje no jornal de minha terra natal, o "Diário de Canoas", uma cidade de mais de 300 mil habitantes, servida pelo Grupo Editorial Sinos com este importante diário:

EM DEFESA DA CULTURA

Walter Galvani


Não se pode criticar um futuro governante por tratar de fazer economia, colocar a casa em ordem, fazer cortes, por mais dolorosos que possam parecer, simplificar, fundir pastas, eliminar gastos desnecessários. É o seu dever. No caso de Yeda Crusius, primeira mulher a governar o Rio Grande do Sul, é o que mais se espera, afinal de contas ela deve mostrar, além de tudo, ao elenco masculino, que uma casa se controla discutindo preços, comparando ofertas, caminhando muito, batendo pernas pela cidade. Portanto, condená-la por pensar em medidas dessa natureza, é incoerência, precipitação e inconseqüência.

Porém, fazer a economia através da eliminação da Secretaria de Cultura, ou pelo menos pela sua fusão com coisas tão díspares quanto Turismo, Esportes, talvez algo como Lazer ou Assistência Social, tudo isso é equívoco e representa um passo atrás.

Um dos orgulhos do Rio Grande, nascido das arrancadas épicas em patas de cavalo, o furor na defesa do Pampa, hoje ameaçado pela invasão das “papeleiras”, o delineamento de nossas fronteiras quando o Brasil recém se consolidava como nação independente e ainda precisava resolver a Questão Ibérica através da Questão Platina, é o de haver construído, ao longo deste tempo, uma sólida posição na área cultural. Com justiça dizemos aqui que lemos duas ou três vezes mais do que o resto do Brasil, que a Feira do Livro de Porto Alegre é “a maior feira a céu aberto da América Latina”, que temos mais escritores por metro quadrado que qualquer outro estado da federação, dois dos teatros mais antigos do Brasil, um na capital, outro em Pelotas, as melhores universidades, enfim, nossos motivos de orgulho são muitos.

A Secretaria da Cultura, nascida depois de longa batalha reivindicatória de todos os setores produtores de cultura do Rio Grande, tornou-se um símbolo a ser defendido. Ela é apenas a difusora de cultura, através de sua atuação catalizadora, mas não é e nunca foi a financiadora. Alem disso possui um quadro de funcionários restrito e nem sequer sob sua dependência estão os setores principais do equipamento do estado. O que está, encontra-se sucateado porque a secretaria não tem verbas.

Ao longo do tempo, pela atuação do Conselho Estadual de Cultura, tornou-se o mecanismo difusor da LIC (Lei de Incentivo à Cultura) que, aliás, se acha defasado. Mas não é quem distribui verbas, estas nascem do aproveitamento através da LIC dos recolhimentos de ICMS, portanto plenamente realizados pelos organismos arrecadadores do próprio estado.

Que economia seria feita com a extinção da Secretaria da Cultura? Talvez o aluguel, aliás desnecessário, de um palacete na Praça da Matriz. Muito pouco para quem quer arrumar a casa e Yeda sabe disso, embora talvez não lhe tenham ainda revelado em números o que significaria a medida proposta da extinção. Também, ainda não lhe foi descrito o que significaria em prejuízo de imagem e em procedimento político.

Fundir Cultura com Turismo, Esporte e adjacências, é apenas uma visão ecnomicista da Cultura quem imagina que o espetáculo, o lazer, o entretenimento, sejam de fato os elementos fundamentais do setor. Um engano trágico. Cultura é o próprio substrato da civilização e não suas superficialidades, seus resultados aparentes ou as verbas promocionais que dela nascem. É preciso ir muito mais fundo, Yeda, e esperamos que seus assessores sejam menos precipitados e ansiosos por cortar números e demonstrar preocupações com o Tesouro do Estado, através da abordagem enganosa do corte pelo corte.










Walter Galvani, em 05/12/2006





UM TEXTO ANTOLÓGICO DE AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA
Walter Galvani, em 05/12/2006

Leiam esta crônica maravilhosa que está transitando pela Internet, com a vantagem que é mesmo de autoria dele:

Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos seus próprios filhos. É que as crianças crescem independentes de nós, como árvores tagarelas e pássaros estabanados. Crescem sem pedir licença à vida.
Crescem com uma estridência alegre e, às vezes, com alardeada arrogância.Mas não crescem todos os dias de igual maneira. Crescem de repente.

Um dia sentam-se perto de você no terraço e dizem uma frase com tal maturidade que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura. Onde é que andou crescendo aquela danadinha que você não
percebeu? Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário com palhaços e o primeiro uniforme do Maternal?
A criança está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência civil. E você está agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela não apenas cresça, mas apareça! Ali estão muitos pais ao volante, esperando que eles saiam esfuziantes sobre patins e
cabelos longos,soltos. Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas,
lá estão nossos filhos com o uniforme de sua geração: incômodas mochilas da moda nos ombros.Ali estamos, com os cabelos esbranquiçados. Esses são os filhos que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas,das notícias, e da ditadura das horas. E eles crescem meio amestrados, observando e aprendendo com nossos acertos e erros. Principalmente com os erros que esperamos que não repitam.

Há um período em que os pais vão ficando um pouco órfãos dos próprios
filhos. Não mais os pegaremos nas portas das discotecas e das festas.
Passou o tempo do ballet, do inglês, da natação e do judô.
Saíram do banco de trás e passaram para o volante de suas próprias vidas.
Deveríamos ter ido mais à cama deles ao anoitecer para ouvir sua alma
respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância, e os
adolescentes cobertores daquele quarto cheio de adesivos, pôsteres,
agendas coloridas e discos ensurdecedores. Não os levamos
suficientemente ao Playcenter, ao Shopping, não lhes demos suficientes
hambúrgueres e cocas, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas
que gostaríamos de ter comprado. Eles cresceram sem que esgotássemos
neles todo o nosso afeto.

No princípio subiam a serra ou iam à casa de praia entre embrulhos,
bolachas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscina e amiguinhos.

Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de chicletes e cantorias sem fim. Depois chegou o tempo em que viajar com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar a turma e os primeiros namorados.

Os pais ficaram exilados dos filhos. Tinham a solidão que sempre desejaram, mas, de repente, morriam de saudades daquelas "pestes".
Chega o momento em que só nos resta ficar de longe torcendo e rezando
muito (nessa hora, se a gente tinha desaprendido, reaprende a rezar) para que eles acertem nas escolhas em busca de felicidade.
E que a conquistem do modo mais completo possível.
O jeito é esperar: qualquer hora podem nos dar netos. O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer conosco. Por isso os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável carinho. Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto. Por isso é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que eles cresçam.

Aprendemos a ser filhos depois que somos pais. Só aprendemos a ser
pais depois que somos avós..."







EXTINÇÃO DA SECRETARIA DA CULTURA É DAR UM PASSO ATRÁS
Walter Galvani, em 03/12/2006

Yeda Crusius, nova governadora do Rio Grande do Sul, informou que estuda a extinção da secretaria da Cultura e sua fusão com o Turismo.
Isso reflete uma visão errada da Cultura, algo que passa pelas páginas de variedades da maioria dos jornais e revistas, que não conseguem divisar a importância de uma para a própria formação da pessoa e da outra, para a atividade econômica.
Quem confunde Cultura com Renda, perigoso atalho que conduz à prática do neo-liberalismo econômico, não alcança a verdadeira dimensão da Cultura, com C maiúsculo.
É preciso que todas as entidades do setor se manifestem, para que não se concretize mais este retrocesso.
Quanto a LIC (Lei de Incentivo à Cultura) em si, da forma que está sendo praticada no Rio Grande do Sul, esta sim precisa um reexame. E um recomeço.
Assim como precisamos do Fundo de Apoio à Cultura que pode se sustentar desde verbas governamentais até doações individuais, descontáveis do Imposto de Renda (já que estamos falando também com os neo-liberais ou lamentavelmente convertidos à posições economicistas).
É o que se pode dizer, hoje, na véspera de dias decisivos para a Cultura no Rio Grande do Sul, estado que se destaca (va) pelo seu desempenho no setor, diante da comunidade brasileira.


E no ABC Domingo de hoje fiz um registro auspicioso. Leiam sobre o Dia do Gaúcho, internacionalizado, o que também é tema para a reflexão dos novos governantes e dos leitores de domingo, de um modo geral.
O ABC é editado pelo Grupo Editorial Sinos e circula na região metropolitana de Porto Alegre.

DIA DO GAÚCHO

Walter Galvani

Em meio ao terror dos assaltos, seqüestros, violências no trânsito, assassinatos, sempre há alguma coisa para nos alegrar, ainda mais nesta reta insana do fim-de-ano, que transformou as festas da amizade e da mansidão em maratonas da impostura e do consumismo. Pincei no meio destas ocorrências, a grande notícia que fez a felicidade do meu vôo de gaivota em busca do assunto para a crônica da semana, a transformação do “Dia do Gaúcho” numa data internacional. Foi um primeiro passo apenas, mas, como diriam os personagens de “Casablanca”, (o inesquecível clássico cinematográfico anterior aos ridículos “efeitos especiais”), de Michael Curtiz, “o começo de uma grande amizade”. É obra e graça do Departamento de Rivera, no Uruguai, vizinho de porta e janela com Livramento, como se sabe, que num decretaço de se comemorar, decidiu que o dia “20 de Setembro”, também lá será feriado.

Como se sabe, até hoje tentam os defensores e os detratores da Revolução Farroupilha transformá-la ao mesmo tempo num marco da luta pela implantação de uma república moderna, fundamentada nos ideais da Revolução Francesa (que fica bem claramente estatuído no lema “Liberdade, Igualdade e Humanidade”) e a idéia da secessão, da separação do Império do Brasil, que aqui restou por efeito da permanência da monarquia através da família Bragança. Não interessa agora discutir se os republicanos acertaram ou falharam em 1889 ao expulsar o doce monarca das barbas compridas e da curiosidade científica, Dom Pedro II, e embarcá-lo de madrugada para que o povo não ficasse sabendo do que ocorrera e quem sabe, reivindicar a sua volta. A nostalgia ficou de tal forma implantada aqui que não há Carnaval ou concurso de “miss” sem a eleição de uma Rainha com a corte de suas Princesas, nem baile à fantasia que não seja povoado de “reis, rainhas e piratas”.

Muito propício ao carnavalismo, o povo brasileiro promove desfiles comemorativos que lembram as “entradas” dos monarcas lusitanos, por qualquer razão. Mais ainda por datas dignas de serem comemoradas pelo significado mítico que assumam. É o caso do “20 de Setembro” que se transformou num renovado “7 de Setembro” e provoca agora uma competição acirrada entre os municípios gaúchos pois, cada qual quer assinalar com mais brilho a chamada “epopéia farroupilha”, da qual nem todos participaram e muitos à ela se opuseram. Mas, hoje “é da hora” apoiar os farrapos e a despeito de algum “Capitão Gay” que provoca o renascimento do machismo gaúcho ou seus desvios.

Rivera, por se constituir num departamento (o mesmo que nossas províncias do tempo do império ou estados republicanos) e pela sua condição de cidade mais do que irmã de Livramento, pois com ela divide avenidas, pátios e metade de apartamentos e casas, aporta o primeiro reconhecimento internacional ao orgulho gaúcho.

Já se sabe que o dia 20 de setembro terá, pois, uma repercussão que começa justamente no lado de lá da Fronteira, a mesma linha generosa e flexível que sempre acolheu os gaúchos aqui perseguidos por suas idéias, pelas suas atitudes, pelos seus ideais, assim como nós procedemos com os irmãos uruguaios.

É um momento histórico que nos faz estremecer de emoção, justamente quando a descaracterização pela globalização, a invasão do nosso sagrado território da língua pelos anglicismos inúteis, nos obriga a pensar nos fundamentos da nossa opção nacional e nos princípios que nos levaram à aventura do século dezenove. Nada mau para o século XXI.




O PAPA E OS TURCOS
Walter Galvani, em 28/11/2006

Só para entrar na briga... estou metendo minha colher torta nesta aventura de Bento XVI na terra dos muçulmanos.
Muitas coincidências e uma tentativa de distrair as atenções.
E um objetivo comercial à vista.


VÉUS, DIÁLOGO, CRUZADA...

Walter Galvani


O Papa Bento XVI, supremo pontífice do catolicismo, visita a Turquia, como todo mundo sabe. Há tempos ele condenou a entrada da Turquia na Comunidade Econômica Européia. Agora, é a favor...
No dia exato em que começava sua viagem de Roma para Istambul, assinalava-se (ou comemorava-se?) os 1051 anos da Primeira Cruzada.
O cardeal Martino se manifestou na Itália, contra o uso de “certos tipos de véus” pelas muçulmanas se quiserem viver nos países da CEE.
O Papa Bento XVI pediu melhor diálogo entre católicos e maometanos.
São pedras do mesmo jogo de xadrez que assinala a visita do mandatário da igreja cristã a seus irmãos do Oriente.
Estão previstos vários encontros e as ameaças de morte ao Papa por haver “ofendido” aos seguidores de Maomé ficam perdidas no tempo, até porque um interesse maior se levanta para a Turquia. O ingresso na Europa.
E a própria memória do profeta, dessa vez, ficará sem vingança imediata.
Mas, os católicos não perdem por esperar.
Não está tudo solucionado para permitir uma assimilação completa dos costumes turcos e permitir-se assim, seu assento entre os países da região mais desenvolvida do mundo.
Os benefícios para a comunidade turca seriam imensos.
Não sei o que se diz no coração de Ankara (aliás “Angorá” saiba-se...) e portanto, esta visita pode se transformar numa frustração a mais.
O papa alemão já se especializou em mancadas internacionais, todos sabem. Seria ótimo que ele contratasse um serviço de relações públicas e não sei se o cardeal gaúcho Cláudio Hummes, que vai dirigir a “Congregação da Fé” tem este cacife.
Prefiro aguardar um pouco.
Além do mais, “Alá, Jeová, Deus e Tupã” estão acima dos humanos e destas questiúnculas. Ainda bem




TEMA PARA UM DOMINGO
Walter Galvani, em 26/11/2006

Reflexão sobre o estado da república de Piratiní. Crônica publicada hoje no jornal ABC DOMINGO, do Grupo Editorial Sinos:

COMPREENSÃO E ÉTICA

Walter Galvani

As coisas tem que funcionar assim, para que a república ande: há um conceito de ética, que deve presidir todas as ações e há um modelo de respeito e compreensão, que deve formatar (para usar um termo moderno...) todas as atitudes. Portanto, não se pode aceitar que uma assembléia que não vai atuar sobre o futuro orçamento, que não vai “governar” no ano que vem e daí em diante, use do seu poder para votar ou vetar, ou sequer influir sobre o que virá.

É uma questão de compreensão e de ética. No ano que vem, a partir do momento em que Yeda Crusius se tornar governadora do estado do Rio Grande do Sul, “esta” Assembléia Legislativa que aí está operando, nada mais terá a ver com os assuntos de estado. Terá sido substituída por outra formação, eleita pelos votantes no último pleito. Portanto, quem disse que os futuros deputados rejeitariam a proposta da Yeda? Além disso, brigar por 0,08%? Parece demais.

Mesmo não tendo votado na Yeda, o que você deseja para a nova governadora do Rio Grande do Sul? Que ela governe bem, que tenha condições de montar um aparelho de poder executivo que possa ter um bom desempenho. Só os ignorantes, os radicais (ou seja, ignorantes mesmo) podem querer que ela fracasse. Respeito o trabalho da Oposição, mas penso que Oposição se faz, também, com inteligência, coerência e boa vontade, embora com firmeza e discordância. Espero que seja assim que se conduza a oposição no Rio Grande do Sul. Isso é uma oposição legítima e legitimada pelo voto, em nosso estado, onde o fio de bigode ainda vale como prova testemunhal.

Não posso entender o Rio Grande de outra forma. Portanto, o que se apontou como “primeira derrota política” de Yeda Crusius, não é precisamente isso, pois derrotados foram os que a derrotaram...

Lamentavelmente, aconteceu. Pior para todos.

Faltou compreensão e ética.

Fica muito difícil, num país como o nosso, dedicar-se a interpretar acontecimentos, decifrar sonhos e apontar caminhos da coletividade, principalmente quando aqueles que, eleitos para representá-la, se apresentam com enganos públicos e equívocos particulares em tal dimensão. Mas, não é preciso ficar devendo nada a ninguém e muito menos fazer concessões para aceitar os pequenos erros e os monumentais desvios.

Não é preciso apoiar este ou aquele governante, mas só assistir o que se produz por aí, ao nosso redor. E então, esquecer a mudez pública e conveniente para não tomar posições políticas. Vamos lembrar: não fazer política é, também, uma atitude política.

Esta assembléia, cujo procedimento criticamos hoje, é a mesma assembléia que ocupava o edifício mais antigo da Avenida Duque de Caxias, e onde pontificava Bento Gonçalves da Silva. Eram outros cenários e outros personagens.

Podemos, assim, promover em nosso imaginário, o retorno dos nossos queridos fantasmas farroupilhas, mas infelizmente, na vida real, não podemos promover a ocupação das mesas e cadeiras do palácio que lhes herdou o nome e os arquivos e a lembrança das atitudes.

Vamos esperar pela nova constituição e esperar que se tenha a mudança política determinada pelo voto. O ano novo está chegando, e como dizia Shakespeare, a propósito, “deixemos que o sol de um novo dia ilumine os nossos pensamentos”.

Muita coisa pode e deve mudar. Ou então, “mudar tudo, para não mudar nada”... como lembra “Il Gattopardo”, Giuseppe Tomaso di Lampedusa, na Sicília do século XIX.

Os cento e poucos milhões poupados, estabelecidos pelo Pacto pelo Rio Grande, salvariam as finanças estaduais? Não. Mas, representariam uma tomada de posição. Que não houve.













GLOBALIZAÇÃO DIGITAL BATE DE FRENTE COM A CULTURA INDÍGENA
Walter Galvani, em 25/11/2006

Lembram da velha história de que notícia é quando o homem morde o cão? Qualquer dia desses teremos a inversão de mão, com o surgimento de uma dia completamente atípico, em que não aconteceu coisa nenhuma... Leiam:

OS MAPUCHES VERSUS MICROSOFT


Walter Galvani


Pensei que já havia visto tudo, que já tinha lido, que já haviam me contado tudo... Mas, que nada! O dia a dia nos reserva muitas surpresas.
Amanheço neste sábado, portanto, sabendo que os Mapuches, rica comunidade indígena chilena, atualmente com uma população estimada em torno de 400 mil indivíduos, vai processar a Microsoft e o Ministério da Educação do Chile, pois a empresa americana e o ministério chileno promoveram a criação de um “software” em língua mapuche, com a integração de integrá-los à comunidade internacional através da Internet.
“Não fomos consultados” – dizem os mapuches, que preferem ficar, ao que parece, alheios à rede mundial.
O ministério chileno disse que a intenção era retirar os mapuches do isolamento digital e promover o conhecimento das riquezas culturais que são a sua herança histórica.
Julguem como quiserem.
Acho apenas que o amanhecer nos reserva muitas surpresas. Já nem falarei sobre a violência, sobre os crimes, os acidentes e as loucuras da Natureza.
Qualquer dia desses vamos nos surpreender com a notícia de que tudo corre na mais absurda normalidade... Que noticião, hein?




ENCONTRANDO AFINAL O CAMINHO
Walter Galvani, em 23/11/2006

Esta crônica, que publico hoje na edição impressa do Diário de Canoas, (minha terra natal), faz parte da série "insista, encontre o seu caminho; sempre há tempo"... O meu amigo e parente Darwin Longoni, grande empresário que ajudou a criar a Iriel, empresa hoje integrada à multi-nacional Siemens Schuckert da Alemanha, afinal chegou à capital, como merecia e transferiu para Porto Alegre a sua Casa Arte. Um sonho que nossa terra natal não conseguiu concretizar...

CASA ARTE


Walter Galvani


Todos os que conhecem Darwin Longoni têm acompanhado ao longo do tempo, os esforços que aquele canoense tem desenvolvido ao longo do tempo para, de certa forma, devolver à sua terra natal, um pouco do que ela lhe deu em brilho e inquietação intelectual, em preocupação comunitária e atividade empresarial. Tanto é assim que, depois de criar uma grande empresa, que nasceu de modesto começo numa garagem, com Jandir Capoani e outros canoenses que o ajudaram desde o início, Darwin se desfez de sua marca e instalações, negociando-a com multinacional alemã e se dedicou então em levar adiante o sonho de uma galeria de arte qualificada, em sua terra natal.

Depois de anos de insistência, pode-se dizer agora que “não deu certo”. Inúmeras vezes Darwin levou Porto Alegre à Canoas, seja convidando artistas importantes a exporem em sua casa, seja levando homens de comunicação e marketing a descobrirem a casa que emblematicamente se situava na Rua La Salle ou artistas importantes de toda a parte, que colocaram Canoas no mapa das artes.

Pode-se dizer, e isso acompanhei de perto, que não houve uma resposta mais concreta dos canoenses e Darwin agora iniciou o caminho inverso: vai colocar Canoas em Porto Alegre.

A Casa Arte já abriu suas portas na Rua Cel. Bordini, antigamente uma via residencial, hoje coalhada de empreendimentos comerciais, e, sobretudo, artísticos.

Está ele esperançoso na resposta dos porto-alegrenses e talvez dos canoenses que prefiram deslocar-se até à capital, afinal não mais do que 16 quilômetros, para aferir o acerto do novo empreendimento.

Não é fora de propósitos a idéia de propiciar um ambiente favorável ao contato entre os artistas e ou público especializado e, sem dúvida, a capital possui melhores condições de abrigar tal idéia, embora toda a questão da repercussão e concorrência. Darwin Longoni vai poder exercitar agora, nesta terceira etapa da sua atividade como empresário e promotor de eventos, a sua extraordinária capacidade de fazer amigos que o trouxe amparado ao longo do seu tempo de atuação pública, que começou com a fundação do “Clube da Flecha”, saudosa agremiação da juventude canoense dos anos cinqüenta que “habitava” o espaço favorecido de sua residência, até os dias atuais com a aventura da casa de arte.

Aventura, escrevi, mas gostaria de não tê-lo feito. Gostaria de estar hoje aqui registrando a excepcional resposta dada pelo povo canoense, imaginem, uma cidade de mais de 300 mil habitantes, que teria possibilitado a existência de um empreendimento desta natureza. Mas, não foi isto que aconteceu e hoje, Darwin Longoni está iniciando uma nova jornada, na capital, onde se fixou e onde fez amigos e favorecedores.

Não se trata propriamente de uma iniciativa fácil, mas é bom lembrar que se não se ousar, nada se alcança. Longoni soube fazê-lo e lá no alto da Cel. Bordini, 920, situou seu novo passo. O Diário de Canoas, que sempre apoiou sua atividade na Casa Arte Canoas, irá, na certa, como muitos canoenses o farão, deslocar-se nos dias e noites de inauguração, ou nos momentos em que a calma propicía a tranqüilidade para apreciar uma bela coleção ou o aprofundamento na obra de algum artista importante. Sim, porque dentro do projeto há cursos e oficinas e isso não só vai propiciar o encontro entre artistas, como com o público em geral, com estudantes de todas as idades que hoje, lembre-se, o estudo não está limitado à idade. Aliás, o aprendizado é permanente.

O ensino continuado se produz em vários níveis e este é um deles.




ATÉ FERIADO É...
Walter Galvani, em 18/11/2006

Mas, fora do Rio Grande do Sul.
No entanto,achei oportuno em minha crônica do ABC DOMINGO, homenagear o Dia da Consciência Negra.
Começando pelo título da matéria. Leiam:


CONSCIÊNCIA NEGRA

Walter Galvani

Nos últimos tempos foram levantadas algumas dúvidas sobre a morte de Zumbi, se ocorrera mesmo num dia 20 de novembro, se de fato existiu, e todas aquelas questões que costumam surgir de tempos em tempos a respeito dos verdadeiros heróis e dos santos da humanidade. A humanidade é tão débil em suas convicções, tão pusilânime e tão cheia de incertezas que não é novidade quando se duvida de Maomé ou Jesus.

Ora, Zumbi escaparia? Por que?

Assim, nesse 20 de novembro que abre a nova semana, deve servir sua lembrança para uma reflexão, para uma tentativa a mais de compreensão e respeito, de entendimento do problema do negro no Brasil do que para qualquer outro fim.

Vamos começar fazendo as contas: de 1888 para cá, ou seja, da assinatura da chamada Lei Áurea pela Princesa Isabel, atendendo aos justos reclamos que agitavam o país, até 2006, temos mais de um século, exatamente 118 anos transcorridos. E os negros constituem, como se sabe, a parcela mais pobre da população, não que não existam alguns deles ricos ou bem situados na vida, mas a imensa maioria constitui a faixa mais atingida pela miséria, pelo analfabetismo, pela doença.

Esta triste sina, denunciada por Castro Alves na primeira metade do século XIX, ainda perdura e de lá para cá quantos governos se sucederam? De 1889, portanto, da República em diante, daquela que viria “luminosa” libertar a todos da escravidão?

E o que tem feito os políticos, os administradores?

Criaram-se recentemente algumas faixas de favorecimento, o regime de oportunidades especiais nas universidades, reservas de mercado inúteis porque o negro não tem como chegar ao ensino superior, a não ser em casos raríssimos.

Ainda ontem comemorou-se o Dia da Bandeira. Nunca é demais relembrar uma vez mais, Castro Alves. Foi ele que escreveu:

“Mas, existe um povo

Que a bandeira empresta

Pra cobrir tanta infâmia e cobardia.

Que povo é esse, que bandeira é essa

Que impudente na gávea tripudia?

Dizei-me vós, senhor Deus,

Se é infâmia ou se é pecado,

Tanto horror perante os céus?

Auriverde pendão da minha terra

Que a brisa do Brasil beija e balança

Pendão que a luz do sol encerra

As promessas divinas da esperança”...

E por aí vai nosso grande poeta. Só que se passou o século XIX, passou o XX, estamos no XXI e os negros continuam esquecidos, perdidos, lutando desde os primeiros e minúsculos passos para fugir do gueto da miséria e da infelicidade.

E o que temos feito?

O que os presidentes da república, os ministros, os administradores, os deputados, senadores, enfim, a não ser por esforços isolados de um ou outro representante da raça, o que tem sido feito pelos irmãos negros?

O sistema de quotas?

Ainda bem que não vivemos aqui a separação, o “apartheid”, que vigorou na África do Sul.

Mas, se a nossa bandeira aniversariante quase ao lado de Zumbi ainda não se envergonhou e continua agitada pela “brisa do Brasil”, não seria o caso de pedir um pouco mais de vento?

Quem sabe acumular forças, energia, capacidade de ação? Quem sabe acabar com todos os preconceitos? Quem sabe eliminar da nossa linguagem os tropos aparentemente bem sucedidos, tipo “negrão”, “alma branca”, os conceitos do gênero “ele é negro, mas”... Mas, o que?

Difícil? Mas bem pode ser uma proposta para o Brasil do século XXI.






LULA E O PRECONCEITO
Walter Galvani, em 14/11/2006

Para o mundo:
A BBC de Londres em sua página brasileira, assim examina "o preconceito contra Lula", que se compara a Chavez:


"Lula se diz vítima de preconceito e se compara a Chávez
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez nesta segunda-feira um duro discurso de críticas à imprensa brasileira e disse que, assim como o presidente venezuelano Hugo Chávez em seu país, foi vítima de preconceito no Brasil.

O discurso de Lula ocorreu durante a cerimônia de inauguração de uma ponte rodoferroviária construída pela empreiteira brasileira Odebrecht sobre o Rio Orinoco, no sul da Venezuela. Dezenas de milhares de militantes chavistas participaram da cerimônia.

Lula falou que tem certeza que, da mesma forma que aconteceu com ele no mês passado, Chávez será reeleito nas eleições de 3 de dezembro. "Eu sei que tem eleição aqui dia 3. Eu não sou venezuelano, então não posso dar meu palpite nas eleições venezuelanas", disse o presidente.

Em seguida, no entanto, Lula começou a traçar um paralelo entre a situação brasileira e a venezuelana e a maneira como os dois presidentes são vistos em seus países.

"Neste país, acontece exatamente o mesmo que acontece no Brasil", disse Lula. "Eu conheço o tipo de críticas que fazem aqui, como fazem a mim também", afirmou o presidente.

Gafe

O discurso de Lula começou com uma gafe. O presidente brasileiro chamou o povo venezuelano de "boliviano".

A primeira frase de Lula - "homens e mulheres da Bolívia" - foi repetida em espanhol pelo tradutor oficial, que, em seguida, corrigiu para "homens e mulheres da Venezuela".

Lula disse que se os banqueiros e alguns empresários tiverem que fazer uma opção, apesar de ganharem muito dinheiro tanto no Brasil como na Venezuela, "o preconceito fará com que, na hora de escolher, eles estejam do lado de lá".

O presidente afirmou que ficou assustado com a dureza das críticas da imprensa venezuelana quando esteve no país em 2003, para o início das obras da ponte que inaugurou agora. "Eu pensei que isso nunca poderia acontecer no Brasil", disse. "E isso aconteceu no Brasil", acrescentou.

"O mesmo povo que elegeu a mim, que elegeu Kirchner, que elegeu Daniel Ortega, que elegeu Evo Morales, certamente irá te eleger presidente da República da Venezuela", afirmou Lula, dirigindo-se a Chávez.

O presidente disse ainda que, assim como ele, Chávez se preocupa com os pobres, que, para eles, não são apenas estatíticas.

"Para muita gente na América do Sul e na América Latina, pobre é apenas um número estatístico, pobre não é levado em consideração na divisão da riqueza do país. Para nós, pobre não é um número estatístico, é um ser humano com alma, com consciência e com coração e que não reivindica nada que não possa ser atendido", afirmou.

Integração

Tanto Lula como Chávez destacaram em seus discursos a importância de se aumentar os investimentos em infra-estrutura para aumentar a integração na região. "No segundo mandato, temos que aumentar a integração", disse o presidente.

Chávez afirmou que a terceira ponte sobre o Rio Orinoco, cuja construção foi oficialmente lançada nesta segunda-feira, vai se chamar Mercosul e também será construída pela Odebrecht.

O presidente venezuelano já convidou Lula para a inauguração e disse que é preciso acelerar as obras para que ela fique pronta em menos de quatro anos, "antes da campanha eleitoral no Brasil".

Lula disse que deveria ter acompanhado a inauguração da obra em julho, mas foi impedido pela legislação eleitoral, que proíbe inaugurações, mesmo em outros países.

Em conversa com a imprensa, o presidente disse que o trabalho da Odebrecht é motivo de orgulho para toda a América do Sul e que o Brasil quer fazer mais obras em parcerias com os governos da região.

Lula citou Bolívia, Uruguai, Paraguai, Colômbia, Equador, Argentina e Chile e disse que o investimento na infra-estrutura da região vai permitir que a América do Sul sonhe com um processo de integração semelhante ao que aconteceu na União Européia.

O presidente também procurou afastar a impressão de que estaria mais distante de Chávez por ações como o apoio que o venezuelano deu ao presidente Evo Morales, da Bolívia, no processo de nacionalização que prejudica interesses da Petrobras no país.

"Não se preocupe, presidente Chávez, que de vez em quando vão tentar fazer intriga entre Chávez e Lula. Mas eu já aprendi há muito tempo a conhecer a pessoa não só pelos olhos, mas pelo coração", afirmou.

Petróleo

Lula e Chávez também visitaram a poço de Carabobo, na Faixa Petrolífera do Orinoco, onde a Petrobras e PDVSA, a estatal venezuelana de petróleo, vão fazer uma exploração conjunta. Lula e Chávez observaram a sonda de perfuração e participaram de uma cerimônia de certificação das reservas de Carabobo 1, avaliadas em 30 bilhões de barris.

As duas empresas também vão fazer um investimento conjunto na construção de uma refinaria no Estado de Pernambuco. De acordo com o governador eleito Eduardo Campos, que integrou a comitiva, as obras começam em julho do ano que vem e a Petrobras vai tocar o projeto mesmo antes de obter a concordância da PDVSA.

O presidente deixou a Venezuela às 17h10 (19h10 de Brasília), quase uma hora antes do horário previsto e deve chegar em Brasília por volta de 23 horas.
Lula se diz vítima de preconceito e se compara a Chávez
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez nesta segunda-feira um duro discurso de críticas à imprensa brasileira e disse que, assim como o presidente venezuelano Hugo Chávez em seu país, foi vítima de preconceito no Brasil.

O discurso de Lula ocorreu durante a cerimônia de inauguração de uma ponte rodoferroviária construída pela empreiteira brasileira Odebrecht sobre o Rio Orinoco, no sul da Venezuela. Dezenas de milhares de militantes chavistas participaram da cerimônia.

Lula falou que tem certeza que, da mesma forma que aconteceu com ele no mês passado, Chávez será reeleito nas eleições de 3 de dezembro. "Eu sei que tem eleição aqui dia 3. Eu não sou venezuelano, então não posso dar meu palpite nas eleições venezuelanas", disse o presidente.

Em seguida, no entanto, Lula começou a traçar um paralelo entre a situação brasileira e a venezuelana e a maneira como os dois presidentes são vistos em seus países.

"Neste país, acontece exatamente o mesmo que acontece no Brasil", disse Lula. "Eu conheço o tipo de críticas que fazem aqui, como fazem a mim também", afirmou o presidente.

Gafe

O discurso de Lula começou com uma gafe. O presidente brasileiro chamou o povo venezuelano de "boliviano".

A primeira frase de Lula - "homens e mulheres da Bolívia" - foi repetida em espanhol pelo tradutor oficial, que, em seguida, corrigiu para "homens e mulheres da Venezuela".

Lula disse que se os banqueiros e alguns empresários tiverem que fazer uma opção, apesar de ganharem muito dinheiro tanto no Brasil como na Venezuela, "o preconceito fará com que, na hora de escolher, eles estejam do lado de lá".

O presidente afirmou que ficou assustado com a dureza das críticas da imprensa venezuelana quando esteve no país em 2003, para o início das obras da ponte que inaugurou agora. "Eu pensei que isso nunca poderia acontecer no Brasil", disse. "E isso aconteceu no Brasil", acrescentou.

"O mesmo povo que elegeu a mim, que elegeu Kirchner, que elegeu Daniel Ortega, que elegeu Evo Morales, certamente irá te eleger presidente da República da Venezuela", afirmou Lula, dirigindo-se a Chávez.

O presidente disse ainda que, assim como ele, Chávez se preocupa com os pobres, que, para eles, não são apenas estatíticas.

"Para muita gente na América do Sul e na América Latina, pobre é apenas um número estatístico, pobre não é levado em consideração na divisão da riqueza do país. Para nós, pobre não é um número estatístico, é um ser humano com alma, com consciência e com coração e que não reivindica nada que não possa ser atendido", afirmou.

Integração

Tanto Lula como Chávez destacaram em seus discursos a importância de se aumentar os investimentos em infra-estrutura para aumentar a integração na região. "No segundo mandato, temos que aumentar a integração", disse o presidente.

Chávez afirmou que a terceira ponte sobre o Rio Orinoco, cuja construção foi oficialmente lançada nesta segunda-feira, vai se chamar Mercosul e também será construída pela Odebrecht.

O presidente venezuelano já convidou Lula para a inauguração e disse que é preciso acelerar as obras para que ela fique pronta em menos de quatro anos, "antes da campanha eleitoral no Brasil".

Lula disse que deveria ter acompanhado a inauguração da obra em julho, mas foi impedido pela legislação eleitoral, que proíbe inaugurações, mesmo em outros países.

Em conversa com a imprensa, o presidente disse que o trabalho da Odebrecht é motivo de orgulho para toda a América do Sul e que o Brasil quer fazer mais obras em parcerias com os governos da região.

Lula citou Bolívia, Uruguai, Paraguai, Colômbia, Equador, Argentina e Chile e disse que o investimento na infra-estrutura da região vai permitir que a América do Sul sonhe com um processo de integração semelhante ao que aconteceu na União Européia.

O presidente também procurou afastar a impressão de que estaria mais distante de Chávez por ações como o apoio que o venezuelano deu ao presidente Evo Morales, da Bolívia, no processo de nacionalização que prejudica interesses da Petrobras no país.

"Não se preocupe, presidente Chávez, que de vez em quando vão tentar fazer intriga entre Chávez e Lula. Mas eu já aprendi há muito tempo a conhecer a pessoa não só pelos olhos, mas pelo coração", afirmou.

Petróleo

Lula e Chávez também visitaram a poço de Carabobo, na Faixa Petrolífera do Orinoco, onde a Petrobras e PDVSA, a estatal venezuelana de petróleo, vão fazer uma exploração conjunta. Lula e Chávez observaram a sonda de perfuração e participaram de uma cerimônia de certificação das reservas de Carabobo 1, avaliadas em 30 bilhões de barris.

As duas empresas também vão fazer um investimento conjunto na construção de uma refinaria no Estado de Pernambuco. De acordo com o governador eleito Eduardo Campos, que integrou a comitiva, as obras começam em julho do ano que vem e a Petrobras vai tocar o projeto mesmo antes de obter a concordância da PDVSA."

E agora?
Que pensam vocês?
De minha parte, vou fazer uma pequena pausa sabática para refletir por alguns dias. Até à volta.




COMO A BBC TRATA A POLÍTICA AMERICANA DEPOIS DAS ELEIÇÕES COM DERROTA DE BUSH
Walter Galvani, em 13/11/2006

Vamos começar tentando entender se haverá paz no Oriente Médio onde morreram mais de cinqüenta no domingo e o dobro nesta segunda-feira sangrenta.
Assim a BBC de Londres em sua página para o Brasil, tratou o assunto:




"Entenda como fica a política americana depois das eleições


O Partido Democrata passa a controlar o Congresso americano
Na última terça-feira, foram realizadas as eleições parlamentares nos Estados Unidos.
Depois de 12 anos, os republicanos perderam o controle tanto da Câmara dos Representantes como do Senado, que passaram para as mãos dos democratas.

Esse resultado deverá ter um forte impacto nos dois anos finais do republicano George W. Bush à frente da presidência dos Estados Unidos.

Entenda as principais mudanças e o que está em jogo.

Por que as eleições parlamentares dos EUA foram importantes?

O controle do Congresso estava em jogo. Os republicanos controlavam ambas as Casas do Congresso - a Câmara dos Representantes e o Senado - desde 1994, com exceção de um breve período em que os democratas tiveram o controle do Senado depois que um senador abandonou o Partido Republicano.

Neste pleito, os eleitores escolheram os ocupantes de todos os 435 assentos da Câmara dos Representantes e de um terço dos 100 assentos do Senado.

O que aconteceu?

O Partido Democrata obteve o controle tanto da Câmara dos Representantes como do Senado.

O partido conquistou a liderança no Senado depois de uma vitória apertada em duas disputas-chave (nos Estados da Virgínia e de Montana). Isso, condiderando-se que os dois senadores eleitos independentes - Joe Lieberman, em Connecticut, e o socialista Bernie Saunders, em Vermont - votem com os democratas.

O novo Congresso, no entanto, só vai tomar posse no dia 3 de janeiro de 2007.

O resultado das eleições representa uma notável rejeição às políticas do presidente republicano George W. Bush, que ainda tem dois anos de mandato pela frente.

Esse resultado também reflete o decontentamento da população americana com uma série de escândalos que abalaram os republicanos no Congresso.

O que o resultado das eleições representa para a política?

Pelo sistema de governo norte-americano, com sua separação de poderes, o Congresso propõe e aprova leis, que o presidente têm de implementar.

Já houve diversos períodos na história americana em que o comando da presidência e o controle do Congresso estiveram com partidos diferentes, como durante a maior parte do governo de Bill Clinton, nos anos 90.

Se o presidente e o Congresso estiverem preparados para trabalhar juntos em uma base bipartidária, as leis podem continuar a ser aprovadas.

Mas caso os dois lados discordem em questões fundamentais, chega-se a um impasse.

O presidente pode obstruir a legislação usando seu poder de veto, que só pode ser derrubado no Congresso por uma maioria de dois terços.

No entanto, o presidente geralmente prefere usar seu poder com moderação.

O presidente Bush usou o veto em apenas uma ocasião durante seu mandato.

Qual o papel do presidente da Câmara, cargo que deverá ser ocupado por Nancy Pelosi?

O presidente da Câmara dos Representantes tem o poder de reconhecer líderes legislativos, colocar leis em votação e designar membros de comitês.

É também o segundo na linha de sucessão presidencial, depois do vice-presidente.

Se for eleita em janeiro, Nancy Pelosi será a primeira mulher presidente da Câmara dos Representantes.

O papel do presidente também é partidário, e Pelosi será a lider dos democratas na Câmara, apoiada pelo líder da maioria na Câmara, Steny Hoyer, cuja função é arrecadar votos para as leis apoiadas pela liderança.

Pelosi também irá dividir o papel de líder dos democratas com Harry Reid, líder democrata no Senado, e, em menor proporção, com Howard Dean, líder do Comitê Nacional Democrata.

E quanto à política externa?

O presidente Bush ainda terá o poder de determinar a política externa dos Estados Unidos e ainda será o comandante de todas as forças militares americanas.

Mas ele estará sujeito ao "conselho e consentimento" do Senado, que deverá aprovar tratados e a designação de cargos, como de embaixadores.

O Congresso também pode usar seus poderes de fiscalização promovendo debates sobre assuntos importantes para a política externa e chamando funcionários do governo para prestar declarações.

O Congresso tem também controle sobre o orçamento e pode aumentar ou reduzir o orçamento militar ou os gastos em segurança interna.

No entanto, o novo secretário de Defesa indicado pelo presidente Bush, Robert Gates, que é membro de uma comissão bipartidária encarregada de criar uma nova estratégia para o Iraque, poderá sinalizar uma nova abordagem para a política externa.

Na maior parte do período pós-guerra, os presidentes sempre tiveram o cuidado de construir uma base de apoio multipartidária para sua política externa"





O FIM DO ANO ESTÁ CHEGANDO
Walter Galvani, em 12/11/2006

Aqui no sul do Brasil estamos acostumados a alguns acontecimentos que vão sinalizando que o ano está a terminar.
Expointer, Feira do Livro e depois... Natal e Ano Novo. Uma sucessão inexorável de pequenos e grandes acontecimentos.
Disso e de outras coisas que a crônica cobre, trato neste artigo publicado hoje na edição do ABC DOMINGO, que circula em Porto Alegre e sua região metropolitana.


ADEUS ANO VELHO!...

Walter Galvani


Passou a Expointer, passaram as eleições, passou a Feira do Livro de Porto Alegre, a Primavera já entrou com seus ventos sibilantes, novembro vai quase em meio, e agora, o que falta para o ano acabar? Nada, praticamente. Em seguida começará o corre-corre de dezembro, as festas do “amigo secreto”, e pronto! – estará aí o Natal e o Ano Novo, os dois grandes feriadões e iremos todos para a praia. Todos? Nem todos, nem todos, pois os tempos mudaram. Lembro quando chegava esta época e as famílias se deslocavam para Tramandaí, Torres, Capão da Canoa e Cidreira e abriam suas casas de veraneio, enquanto os chefes ficavam atordoados, enfrentando o sol terrível e o verão escaldante aqui na capital e na região metropolitana. Hoje, não temos mais, nem verões como antigamente, nem abnegados maridos lutando na cidade enquanto a mulher e os filhos se refestelam na praia, até porque muitas mulheres são chefes de família e ninguém mais tem dois meses de férias para gozar em janeiro e fevereiro. Alguns vão por quinze dias, outros por alguns dias, uma semana ou duas ou apenas nos fins-de-semana.

Diminuiu o número dos que tem carteira assinada, muitos trabalham por conta própria, outros nem emprego tem. A maioria das famílias abandonou o hábito das duas residências e não poucos se dividiram, indo morar na praia porque estão aposentados ou porque não tem mais dinheiro para sustentar duas moradias.

Os tempos são outros. Temos que reinventar nossos hábitos que procedem lá de trás, lá da época dos silvícolas nômades que – os sambaquis aí estão para prová-lo – se deslocavam para a beira do Atlântico e ficavam até o verão acabar e chegarem as águas de março.

Depois, os bons tempos em que se acreditava piamente na necessidade de tomar banhos na água com iodo do mês de março, que era preciso reciclar-se, ler bastante durante o verão e voltar só depois do Carnaval!

As coisas se complicaram, a vida ficou muito mais complexa e hoje é preciso que todos contribuam para que as famílias tenham alguma coisa para enfrentar no inverno.

Até a fábula da cigarra e a formiga foi aposentada...

Na praia, todos continuam vendo televisão, curtindo as novelas da rede Globo ou da Record, consumindo os jornais que são vendidos na esquina ou que transferem para a orla as assinaturas e não chegam mais de avião.

Lembra-se alguém do aviãozinho da Folha? Pois é, o comandante Caleffi percorria o litoral jogando pacotes da cabine do seu teco-teco e assim subia, sem escalas, de Cidreira a Torres. Depois o “NH” seguiu a mesma rota.

Havia campeonato de futebol de praia, jipes atolando na areia, Miss Atlântico Sul, sucursais de praia, políticos recebendo correligionários para o churrasco de fim-de-semana, caronas, controles rodoviários para evitar excessos de velocidade, a prova de “carreteras” Porto Alegre-Capão da Canoa, José Asmuz, Catarino e Julio Andreatta, Orlando Menegás e Diogo Ellwanger e, naturalmente, Pedro Carneiro Pereira.

Que será o homenageado de hoje no último dia de feira em Porto Alegre, no começo da noite, quando Leandro Martins, autor do livro, eu, amigo e colega e Gilberto Menegás Spode, o editor, reunidos em torno à uma mesa, falaremos de um passado nem tão distante e num evento que ainda antecede o fim-de-ano que está chegando rápido, na velocidade que Pedrinho correria em Tarumã. Onde foi parado pelo destino aos 35 anos. Foi ali que acabou o “Narrador de emoções”. Depois, o xerife Julio La Porta baterá o sino e todos dirão adeus, prometendo reencontrar-se no ano que vem. E adeus Ano Velho! Feliz Ano Novo...

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Um registro final que não está na crônica de hoje do ABC, mas torno público aqui em minha página ou sítio na Internet:

Meu livro "Crônica - o vôo da palavra" acaba de ser agraciado pela AGES (Associação Gaúcha de Escritores) com o título de "Melhor livro do ano em não ficção". É uma abordagem técnica da Crônica, nascido nas oficinas do gênero que tenho ministrado. Trata-se da ampliação da apostila e sua transformação em livro, o que me foi recomendado pela escritora portuguesa Inês Pedrosa que dela tomou conhecimento. Deu certo, ao que parece. Obrigado Inês e obrigado à Carla Irigaray, minha companheira desde sempre, que me amparou, ajudou e colaborou para que minha atividade pudesse ter algum êxito e que, com seu permanente espírito de análise, comenta com propriedade o que produzo.








BUSH
Walter Galvani, em 11/11/2006

Sinceramente, o que ficará para a Humanidade, depois do mandato deste triste "lider" (???) americano?

A derrota no Iraque, provavelmente. Por mais que eles (os americanos) tentem agora mudar a sorte do que praticaram lá, nada mais devolver-lhes-á o respeito da Humanidade.
Basta dizer o que os seus soldados fizeram com os tesouros da cultura árabe que foram destruídos, já na chegada, nos primeiros minutos da ocupação.
Condenar Saddam Hussein, usando um tribunal fantoche, usar a forca ou o fuzilamento, nada disso importa.
O que explicar sobre os quase 600 mil civís mortos no Iraque, segundo dizem fontes as mais diversas.
Ou que fossem 10.000 ou dois ou três.
O retrato da injustiça, a vergonha de uma intervenção armada e ocupação de um país e o fracasso da ação ofensiva do mais poderoso país do mundo, tudo isto é o bastante, mais do que bastante.
De minha parte, não perderia mais tempo com o assunto, não fosse pelos iraqueanos.
Pobres iraqueanos.
Pobres americanos.



PANTALHA, APENAS UM ESPANHOLISMO
Walter Galvani, em 09/11/2006

Em verdade, vem de "pantalla", tela em espanhol. De uso corrente na fronteira com o Uruguai e a Argentina.
Lembrando peça de roupa, só pantalona, que no mundo da moda todos conhecem, calça comprida que cai sobre os pés, que entrou em nossa língua em 1813.
Quanto à obrigatoriedade de conhecer regionalismos... trata-se de uma regra mesquinha que nada constrói.
Alguém aí ainda assiste ao programa do Jô Soares? Então, julguem os que viram o programa em que ele entrevistou a governadora eleita do Rio Grande do Sul, Yeda Crusius.
Esta crônica, publiquei hoje no jornal "Diário de Canoas", do Grupo Editorial Sinos.


BUENAS, TCHÊ!



Walter Galvani





Ora, ora, será que alguém, para governar o Rio Grande, precisa mesmo saber quais são as nossas pilchas e quando usá-las? Ou bastaria uma boa assessoria capaz de informar o que se deve e pode fazer? Ou será que é preciso mesmo, para administrar, saber de cor, também o nome das peças de roupa que um gaúcho da época da revolução farroupilha portava no dia a dia?

Ou seria melhor conhecer os princípios defendidos no hino farroupilha e tão lindamente cantados todos os dias, em qualquer solenidade no Rio Grande do Sul?

Acho que, falando em modernização, está na hora de deixarmos de lado tais questões, que, governadas pela maldade e pelas diferenças políticas, podem mesmo ajudar a desorganizar a cabeça e perturbar o bom estado das coisas do estado...

Podem sim. Vejam só a repercussão da entrevista da governadora eleita no programa do Jô Soares, que usou e abusou do fato dela ser paulista e vir a governar o Rio Grande do Sul eleita, afinal de contas, pela maioria dos gaúchos.

Não tem nenhum significado o fato dela haver nascido no estado de São Paulo. A Dilma Roussef, a super-ministra, que também é representante oficial do Rio Grande no governo federal, não nasceu aqui e tampouco a “leopoldense” Ellen Grace Northfleet que preside o Supremo e tem nome inglês, mas nasceu no Rio de Janeiro.

Assim é a vida, portanto nada contra a Yeda Crusius que, não tem o bigodão do Olívio Dutra mas pode vir a ser uma boa administradora. Aliás, esperamos que o seja.

O que á pantalha?

Você sabe?

A Yeda pensou que era uma peça das nossas pilchas e o Paixão Cortes já explicou que, pelo menos ele, o incontestável conhecedor dessas coisas, nunca ouviu falar. “Pantalha é a cúpula do abajur” – corrigiu-a Jô. Bem, e quem é que sabe, hoje em dia o que é isto e o que é, aliás, abajur?

É pena, mas são algumas coisas em extinção. O pior é o desrespeito pela língua portuguesa, exercido por quase todos os brasileiros e não para construir uma nova linguagem, mas para criar talvez uma espécie de “latim bárbaro”... Isso pode levar adiante à depravação da língua, mas a reforma do ensino, esta sim importante, sempre prometida e nunca concretizada, está aí para operar como vigilante da fala e da escrita do vernáculo.

Feita de ninharias, a crítica exercida pelo apresentador à governadora do Rio Grande do Sul tem apenas o ranço da antiga forma de criticar.

Claro que um programa de tal audiência tinha que repercutir. O erro de Yeda foi não se munir de assessores competentes para numa oportunidade como essa, firmar um acordo prévio com a produção do programa para evitar perguntas embaraçosas e sabe-se muito bem que isso pode ser feito, ainda mais que a maioria de tais apresentações são pré-gravadas.

Como Yeda deixou-se levar nesta canoa furada?

“Salto alto”, dizem os esportistas sempre que uma equipe menospreza o adversário e acaba levando os gols que não devia.

Ainda temos tempo pela frente, quase dois meses inteiros, e Yeda precisa deixar de pensar que é aceita universalmente, até porque aqui no Rio Grande, basta alguém chegar ao poder para começar a levar laranjadas.

Já dizia Paulo Autran que temos o público mais difícil para o teatro em todo o Brasil e que basta acender as luzes para que o gaúcho pare de aplaudir...

É isso mesmo: dói muito ver uma pessoa no mais alto cargo do estado e não é por nada que o nosso eleitor nunca reelege ninguém, Rigotto que o diga.

Basta haver uma possibilidade e pronto, lá vai a Oposição para o governo. E isto é sério e histórico no Brasil, ao contrário de conhecer bobagens.









LÍNGUA E CULTURA: A pobreza de vocabulário asfixia o pensamento
Walter Galvani, em 07/11/2006

Devo esta preciosidade ao amigo e colega Sílvio Rockembach, cujo site, neues@brasilalemanha.com.br presta exzcelentes serviços à cultura do país.
Hoje, por exemplo, apresento este artigo de Paulo Ferreira da Cunha, de Portugal, cujo título não poderia ser mais adequado ao Brasil:


Língua e cultura: a pobreza de vocabulário asfixia o pensamento

Paulo Ferreira da Cunha*
de Portugal

A clamorosa falta de vocabulário de hoje asfixia a capacidade de pensar. Sem palavras para distinguir, sem palavras para tornar as coisas coloridas, pensa-se a preto-e-branco. Pensa-se mal, de forma dicotómica, maniqueia, rasteira, bárbara.

Um discurso mais elevado, um pouquinho mais cuidado e inteligente que o coloquial e o do calão, é logo interpretado como pedante e é, realmente, ininteligível para muitos. Quem não se lembra de que o discurso de alguns políticos, ainda recentemente na ribalta, era tão injustamente apelidado de complicado? Quando simplesmente se tratava de um discurso não populista....
O populismo joga por vezes no discurso passional, inflamado, simplista. E por isso tem todo o interesse em que o público seja inculto e incapaz de distinguir subtilezas. Pode até, aqui e ali, dizer coisas complicadas. Porém, no contexto, tal pesa apenas pela sonoridade. O público, embalado, comenta: "Não entendi nada do que disse; mas falou muito bem. Que inteligência!"... Em contrapartida, não faz o mínimo esforço para entender uma palavra que não conste do seu dicionário particular, quando alguém sério a pronuncia.
A falta de um ensino do Português que dote todos de um verdadeiro conhecimento da Língua-Mãe não é uma reivindicação de luxo. É o clamor por um produto de primeira necessidade. Não é a promover a leitura de textinhos de quinta categoria que se ensina o bom Português. É pelos grandes exemplos da nossa Literatura. O que nada tem de nacionalismo: tudo aconselha que, como noutros Países, se ensine também Literatura alheia nas disciplinas de Português, devidamente traduzida. A propósito, muitas das nossas traduções correntes estão cheias de erros de aprendiz. E frequentemente não por desconhecimento das línguas-fonte, mas da nossa própria.
O Português não pode estar desacompanhado. As recentes más notícias para a Filosofia, neste mesmo jornal denunciadas por um lúcido artigo do Dr. Rui Pedroto, não são motivos para optimismo. Depois de eliminada a necessidade da Filosofia para aceder à Universidade, o passo seguinte só poderia ser a erradicação da Filosofia do próprio ensino secundário, sonho de há muito dos tecnocratas.
Sem conhecimento filosófico, sem História, sem Cultura, de pouco adianta a aridez da gramática (contudo importantíssima: desde logo como auxílio à aprendizagem das línguas estrangeiras).
Só saberemos realmente falar e dialogar se soubermos interpretar. E só saberemos interpretar se conhecermos os contextos, os referenciais dos outros.
Uma ideia só encontra eco no nosso espírito se encontrar aí algo de afim. Essas amarras culturais que permitem progredir no saber estão hoje lassas, desertificadas. A Cultura pouco eco encontra nos jovens. Dar hoje uma aula universitária de matéria não simplesmente técnica e meramente apta a decorar, sem pressupor conhecimentos prévios, pré-universitários, é uma aventura perigosa.
Deixou de haver um consenso sobre o que todos deveríamos saber. Se se evoca uma fábula, se se ilustra com um filme, se se cita um livro, se se recorda uma música que não esteja no top da semana, pode estar-se certo de que para uma boa parte do auditório essa referência nada diz. A causa foi o estilhaçamento dos cânones culturais, e desde logo literários, no ensino básico e secundário.
Durante séculos, as fábulas, os contos infantis, os clássicos greco-romanos, a Bíblia e mais alguns livros de cada cultura e da cultura universal eram uma base comum para exemplificar, para, sobre eles, solidificar conhecimentos novos. Hoje, essa cultura de base desapareceu. Poderia ser essa, ou outra. Mas terá que haver alguma, com difusão universal, se nos quisermos entender. Ainda que se torne obrigatória a telenovela...
A falta de treino na leitura e nas suas subtilezas leva também a um grande empobrecimento das vivências comunicativas. A ironia, o sarcasmo, a ambiguidade e tantos outros momentos de claro-escuro da linguagem estão a tornar-se tragicamente opacos para as jovens gerações. Levam tudo a sério e com o mesmo peso. A falta de humor é dos piores déficits culturais de um povo. Estamos a perder o humor, e a perder o humor na Cultura, o que é um sinal de alarme.
Essa falta de capacidade de distinguir já tem levado a absurdos conflitos e mesmo a processos judiciais. Não compreendendo os limites da verbalização da violência e as boas maneiras da agressão simbólica, tudo passará a acabar em tribunal.
E se nos tribunais não houver também juristas capazes de traduzir e interpretar?















EM ALGUM MOMENTO SERIA DEMAIS PARAR PARA PENSAR?
Walter Galvani, em 06/11/2006

O mundo gira...

FORCA PARA SADDAM HUSSEIN

Walter Galvani


Adianta alguma coisa? Para que serve? Para atiçar ainda mais os ânimos orientais contra os ocidentais? Para agravar a possibilidade de uma guerra religiosa? Para satisfazer os vencedores como George Bush? Para que os “falcões” americanos saboreiem a derrota dos iraqueanos?
Provavelmente a execução de Saddam Hussein não irá ressuscitar os milhares de iraqueanos mortos nesta guerra sem justificativa, que agora se transformou numa guerra de ocupação com cheiro de Vietnam.
Não sei para que, nem porque, mas vejo que a humanidade não muda. Eu ia escrever, não melhora.
Talvez seja utopia pura imaginar que em algum momento o homem deixará de ser o algoz dos outros homens.
A inutilidade da condenação à morte de Saddam Hussein, pela forca e não pelo fuzilamento como ele mesmo pediu, salta tanto aos olhos de quem assiste o que se passa no mundo que até mesmo entre os vencedores, quero dizer os norte-americanos, há gente que não se conforma com esta decisão do tribunal, diga-se de passagem, iraqueano.
Há ódio por toda a parte, entre sunitas e shiitas, entre os invasores e os ocupados e entre os próprios conquistados ou invadidos, como se queira chamar ao pobre povo do Iraque.
Enquanto isso, o mundo gira...




NÓS QUEREMOS AVIÃO!
Walter Galvani, em 05/11/2006

Nunca pensei, sabendo como todo mundo que o avião é um meio de transporte elitista por natureza, que um dia viria o povo (?) ululando num aeroporto, gritando, "Queremos avião".
Pois é o que sucedeu no Brasil esta semana e é o assunto que trato, entre outras atualidades e ninharias do dia a dia do nosso país em minha crônica de hoje no ABC DOMINGO, jornal do Grupo Editorial Sinos.
Aqui vai a crônica:


QUERO AVIÃO!



Walter Galvani





Quando se pensa em algo inacreditável, costuma-se dizer no Brasil (e em Portugal, naturalmente), “quem viver, verá!” – pois, por mais incríveis que possam ser as coisas, acabam acontecendo. Mas, palavra que nunca imaginei que um dia assistiría à uma multidão gritando num aeroporto “Quero avião! Quero avião!” O antigo privilégio de poucos tornou-se de tal forma, digamos, popular, com a facilitação do crédito, cartões, os cheques pré-datados e talvez somando-se a isso a diminuição da oferta, mais o hábito consagrado dos “feriadões” e a crise da Varig.

Pois a tal multidão ululante em vários aeroportos do país mostrou mais uma dimensão incrível do Brasil, país de dimensões continentais e com quase 200 milhões de habitantes e que, a cada minuto, vê esta população crescer, tanto que ninguém parece ou pareceria preparado para enfrentar o problema dos controladores de vôo.

O problema foi precipitado com o choque do Boeing da Gol e o Legacy pilotado por americanos e agora se sabe que ao menos uma torre de controle determinou que eles, os norte-americanos, deveriam prosseguir “até Manaus a 37 mil pés”. Se, depois daquele contato, é que pode ter se intrometido uma importante (pelo menos em tempos de Feira do Livro) questão de tradução instantânea, pois parece que nem nossos operadores dominam o inglês (cuidado, eles reagirão imediatamente dizendo que isso não é verdade) e nem os americanos conseguem compreender bem o “inglês” deles e pronto, lá se foram 154 pessoas. A precisão também foi assassinada naquele desastre, pois, no primeiro momento informou-se que seriam 155, os mortos. Não eram. Foi preciso fazer um abatimento na lista divulgada. Eram 154. E aí o caso não foi de tradução.

O governo declarou-se “refém” dos controladores de vôo, o feriadão virou um inferno para quem pensou em passar alguns dias com os familiares ou relaxar numa praia com a mesma descontração do presidente Lula na praia de Inema, sob o sol baiano e parece que a greve mostrou aquilo que os grevistas de qualquer categoria costumam almejar como o ideal para seus movimentos: a oportunidade.

Mostrando que esta foi uma greve bastante “oportuna”, quaisquer outros grevistas podem começar a pensar nos próximos feriadões previstos, principalmente o de 15 de novembro, Natal e Ano Novo. Um preço duro para a reeleição de Lula que nem sequer aterrissou e já está tendo que tomar atitudes contra trabalhadores que fizeram o mesmo que ele fez nos tempos do ABC paulista.

Sem dúvida estamos diante de novos tempos. A prosperidade brasileira transformou amáveis pequeno-burgueses em ululantes operários com fome de... avião! E nós, espantados, buscando a calma e a tranqüilidade para poder enfrentar a leitura de meia dúzia de títulos que a Feira do Livro de Porto Alegre em sua 52ª. edição, cumprindo seu abnegado papel de promotora de vendas embora sem tirar o olho dos índices de comercialização, vemos que não é possível nem fugir do bulício das cidades, sem a preocupação de verificar se será possível ir e voltar a tempo para os compromissos.

Difícil ano, mas o que é ruim pode ainda piorar. Ou por outra: ou melhoramos nós, ou mergulharemos todos no caos.

Um acordo com os operadores de vôo não resolverá todas as questões e Lula, operário, sabe bem disso. Resta saber se Lula-presidente ainda se lembra e se o Congresso, cheio de gente que nunca passou por dificuldades, imagina o que seja a extensão e profundidade de uma crise social como esta que o país atravessa. Se descobrirem, tudo bem. Caso contrário, a coisa vai “bombar”...











LAIKA NO ESPAÇO
Walter Galvani, em 02/11/2006

Lembram dela?
A cachorrinha russa "Laika" é enviada ao espaço exterior, a bordo de um foguete "Sputnik".
Eram os velhos tempos de glória do comunismo e da União Soviética.
Mas, o dia tem mais coisas para facilitar a vida dos cronistas em busca de assunto e que não queiram falar, nem na Feira do Livro de Porto Alegre, nem na greve branca dos controladores de vôo.
Ou dos que não podem ou não querem falar sobre as instruções da Torre de São José dos Campos que mandou o Legacy manter-se nos 37 mil pés até Manaus...
Vejam a lista dos fatos de hoje:


Data nacional do Panamá. Dia de São Martinho de Porres e dos mártires de Saragoça
361 DC – Morre Constantino, imperador romano
1220 – Morre Dona Urraca, rainha de Portugal
1493 – Cristóvão Colombo em sua Segunda viagem, avista a ilha de Dominica, nas Antilhas
1801 – Nasce Vincenzo Bellini, compositor italiano
1901 – Nasce André Malraux, escritor francês
1927 – Turquia adota o alfabeto romano, abolindo o uso do árabe
1954 – Morre Henri Matisse, pintor francês
1957 – - A cadela Laika é o primeiro ser vivo a bordo de um satélite espacial (russo no caso) o Sputnik 2
1992 – Bill Clinton é eleito presidente dos Estados Unidos





GAÚCHO LÊ EM MÉDIA 5,5 LIVROS/ANO
Walter Galvani, em 31/10/2006

Claro que aí se incluem os didáticos, também. Mas é um número respeitável.
O IBOPE realizou esta pesquisa, a primeira da história, a pedido da Câmara Riograndense do Livro.
Alguns ítens são discutíveis. Como por exemplo, a configuração dada pelo instituto de pesquisas à região metropolitana de Porto Alegre.
Mas, como primeiro esforço, trabalho inédito, vale.
Eis, a seguir, a íntegra da nota distribuída à imprensa, pela assessoria da Feira do Livro de Porto Alegre. Leiam, para estarem informados:


"O leitor gaúcho já tem um retrato fiel e formal. Os resultados da pesquisa sobre os hábitos de leitura da população gaúcha, encomendada pela Câmara Rio-Grandense do Livro (CRL) ao Ibope, foram divulgados hoje em coletiva para a imprensa realizada na Sala dos Jacarandás do Memorial do RS. A metodologia da pesquisa, que está sendo aplicada também no México, na Colômbia e na Venezuela, foi desenvolvida pelo Centro Regional para o Fomento do Livro na América Latina e no Caribe (CERLALC). Estiveram presentes o presidente e o vice-presidente da CRL, Waldir da Silveira e Tuchaua Rodrigues, o gerente de projetos do Ibope, Maurício Garcia, e o diretor da comissão de comunicação da CRL, João Carneiro. A Organização dos Estados Ibero-americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI) realizou uma análise aprofundada da pesquisa, e o material está disponível no site da Feira (www.feiradolivro-poa.com.br). O Rio Grande do Sul foi o p rimeiro Estado brasileiro em que a pesquisa foi realizada.

De 22 a 26 de outubro, o Ibope realizou 1008 entrevistas em 60 municípios do Estado, levando em conta a população a partir de cinco anos de idade. O gaúcho lê, em média, 5,5 livros por ano. A cifra é muito superior à média de 1,8 livros lidos anualmente pelo brasileiro, revelada pela Câmara Brasileira do Livro entre 2000 e 2001.

Por estar associada ao processo de aprendizagem educacional, a leitura de livros tem seu pico na população de 11 a 15 anos de idade (88%). Entre os gaúchos com 50 anos ou mais, o percentual cai para 44%. A grande maioria dos entrevistados (50%), declarou que lê por prazer. O segundo motivo de leitura mais citado foi por exigência escolar ou acadêmica (12%). Quanto aos temas dos livros lidos, Religião aparece em primeiro lugar (24%), seguida por Livros Infantis, Literatura (romance ou conto) e Poesia, cada um com 20% da preferência entre os leitores consultados. A população evangélica e a menos escolarizada são as que mais lêem por motivações religiosas.

Quanto à forma de obtenção dos livros lidos, a maioria dos entrevistados declarou que realiza empréstimo, tanto de bibliotecas (33%) quanto de particulares (33%). A compra de livros aparece como a segunda forma mais freqüente de obtenção (32%). Em média, o gaúcho tem em sua casa 44,2 livros.

A ida dos gaúchos às bibliotecas (35% declarou freqüentá-las) está fortemente relacionada com os estudos: 24% das pessoas consultadas declararam que vão à biblioteca para pesquisar e 22% para estudar. Quando indagados sobre o que é leitura, 33% dos entrevistados responderam que a leitura é uma fonte de conhecimento para a vida. Para 15% deles, a leitura é uma atividade prazerosa. Poucas pessoas deram respostas negativas: apenas 2% consideram a leitura entediante e 1% a vêem como prática obrigatória."






NA PRAÇA MAIS ANTIGA DE PORTO ALEGRE
Walter Galvani, em 29/10/2006

Foi em meados do século XVIII que nasceu Porto Alegre, primeiro como uma sesmaria de Jerônimo de Ornelas, depois o Porto d!Ornelas, depois Porto dos Dornelles, finalmente Porto dos Casais, pela chegada dos casais de imigrantes açorianos e finalmente, Porto Alegre.
E sua praça mais antiga é a Praça da Alfândega, onde ficava o porto da cidade.
É lá que estão os livros.
A crônica que segue é a que publico hoje no jornal ABC DOMINGO, do Grupo Editorial Sinos e que circula em Porto Alegre e toda a sua região metropolitana.
A sede da empresa é em Novo Hamburgo, sólida cidade da zona de imigração alemã.


CINQÜENTA VEZES COM OS LIVROS



Walter Galvani



Quantas vezes já terei escrito a frase que se tornou lugar comum, mas que à época de suas primeiras utilizações julgávamos “um achado literário”, narrando aos leitores que a “Feira do Livro de Porto Alegre abrira à sombra dos jacarandás em flor”? Depois, sob a chuva que teimava em comparecer a todas as inaugurações, ou quase todas, tanto que gerou uma polêmica que indignava o principal “inventor” do encontro do povo com os livros, o livreiro Maurício Rosenblatt, percorríamos os estandes, no começo pouco numerosos, hoje mais de cento e cinqüenta?

É que estou junto com os livros, os livreiros, os editores, os escritores, os jornalistas, os vendedores, os promotores de venda, os leitores, há cinqüenta e dois anos. Tal como a Feira de Porto Alegre que começou, este ano com o patrono Alcy Cheuiche na batuta, e se estenderá até o dia 12 de novembro.

Pois é, lá estaremos, mais uma vez “à sombra dos jacarandás em flor”, protegidos agora da chuva porque utilizamos os armazéns do cais do porto e as alamedas cobertas pelos sistemas idealizados e desenvolvidos ao longo do tempo para proteger a carga preciosa dos livros expostos ao público.

O professor Eugênio Hackbarth, que é o mais profundo conhecedor dos mistérios da meteorologia em nosso meio, já avisou que estamos entrando num período de muitas precipitações pluviométricas, expressão que disfarça, como se sabe, o anúncio de chuvas, as chuvaradas da primavera. Como todos os anos, neste meio século que nos separa da doce aldeia que era Porto Alegre em 1955 até se transformar na trepidante e por vezes assustadora metrópole de hoje em dia.

Lembro-me que ir a Novo Hamburgo era como uma aventura naqueles tempos e mesmo nós, que morávamos em Canoas, dizíamos que “ir a Esteio, Sapucaia ou São Leopoldo” era “ir ao estrangeiro”. E íamos e como! Ao restaurante Capri, por exemplo, onde dona Hilda e o “seu” Colla, sempre desenvolveram uma simpática aproximação com a comunidade dos escritores. Basta ver a coleção de fotos que enfeita suas paredes. Lá estamos nós, todos mais jovens e exuberantes, mas com a confiança estampada nas faces alegres de quem “fora para um piquenique”, como disse Maurício Rosenblatt do pensamento dos livreiros, quando da primeira feira: “fomos para a praça como guris a um piquenique, cheios de alegria, sem saber o que iríamos encontrar!”

Ficaram todos felizes. Os guris-livreiros e nós, jornalistas e escritores. A chuva nem nos importa mais. No começo, Maurício ficou tão indignado que chegou a dizer que se tratava de uma “invenção dos jornalistas”. Não era. Chovia mesmo. Hoje se cobrem as alamedas e a preciosa mercadoria suporta bem a exposição, o manuseio e as transferências necessárias de saída de estoque e ida e vinda da praça.

E muitos milhares de exemplares seguem seu mais nobre destino: para as mãos dos leitores-consumidores e daí para suas estantes.

Sou de um tempo – que ainda não passou – que era motivo de orgulho ostentar uma biblioteca. Aliás, este tempo vem desde a Grécia, do Egito e de Roma. Felizmente, uma linha que se salvou na cultura ocidental. Pena que a ignorância, por vezes, como uma enchente, inunde as cabeças e nos faça retroceder.

Ah, esquecia-me: neste domingo, depois do voto necessário e consciente, dê um pulinho a Porto Alegre e faça seu estoque para o fim-de-ano e para as férias de verão. Inclua “Machado de Assis, um gênio brasileiro” do jornalista e escritor Daniel Piza em sua cesta de compras. E ou algum clássico imortal, como “Crime e Castigo” de Dostoiewski.











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A IMPORTÃNCIA DAS FEIRAS DE LIVRO
Walter Galvani, em 26/10/2006

Frankfurt que o diga, que tem a mais antiga do mundo. A mais antiga do Brasil é a do Rio de Janeiro e depois vem a de Porto Alegre, que estará inaugurando amanhã sua 12a. edição.
Sobre o tema, relembranças, presente e futuro, escrevo hoje, assim, no jornal do Grupo Sinos, Diário de Canoas, minha terra natal:


A MÃE DAS FEIRAS





Walter Galvani





Lembro-me bem, morava em Canoas ali na rua Cel. Vicente, no então número 376, de onde saía todos os dias, subia a “lomba”, ultrapassava a praça da Bandeira e na esquina da Vitor Barreto, pegava o ônibus que me levaria até o centro de Porto Alegre. Descia na Praça Parobé, atravessava a Praça XV, subia as escadarias da Galeria Chaves e descia a Rua da Praia até chegarse à redação do “Correio do Povo”, na rua Calas Júnior. Com isso eu passava pela Praça da Alfândega e numa bela tarde de outubro de 1955, vi que os operários estavam levantando barraquinhas. Para vender livros, eu soube. Contei quantas eram, conversei com alguns titulares de livrarias que já chegavam com os livros e foi assim que tomei contato com a 1ª Feira do Livro do Rio Grande do Sul.

Mais tarde ela restringiu seu alcance e passou a se chamar “de Porto Alegre” porque aos poucos o interior foi despertando, primeiro Pelotas, depois Rio Grande, mais adiante Canoas e outros municípios e assim se transformou na unidade geradora de todas as manifestações desse tipo.

Hoje são muitas as feiras, o pessoal do interior até toma lições objetivas com a Câmara Riograndense do Livro que começou lá naquele longínquo 1955 como “Câmara Brasileira do Livro – Seção RS”, e aos poucos se tornou um fecundo hábito regional que segue se espalhando pelo estado.

Municípios, escolas, universidades, enfim todos os setores da sociedade se sentem envolvidos e participam efetivamente da realização das esperadas feiras. Alguns municípios vão ainda mais longe, como o exemplar Morro Reuter que até um Monumento ao Livro tem, na entrada da cidade.

E assim o Rio Grande do Sul procura aprofundar a sua vocação pelo livro, a leitura e a escrita. Corremos na frente do resto do país, em que termos nem sabemos bem, mas vamos ficar sabendo ao final desta edição da Feira de Porto Alegre que será a 52ª edição, que produzirá pesquisa sobre o tema.

Minha história com o livro e a leitura nasceu no velho Externato São Luiz do Instituto São José, dos Lassalistas, aqui em Canoas, onde o Irmão Henrique Justo nos ensinou os primeiros passos e guiou os então jovens para o caminho certo. Fundou o nosso Grêmio Literário, mobilizou a garotada que, mesmo com o futebol dos sábados, deixava o esporte por algumas horas para discutir Camões, Machado de Assis, José de Alencar, Castro Alves ou Erico Veríssimo e Vianna Moog.

E assim foram passando os anos e eu sempre ligado às feiras que foram se sucedendo em minha vida, acabei o Patrono da 49ª. Feira do Livro de Porto Alegre, fui patrono no La Salle e no município de Canoas, assim como em Guaíba onde resido ou em Taquara, ainda este ano.

A Feira do Livro tornou-se um fenômeno na vida dos porto-alegrenses e dos rio-grandenses de um modo geral e quando florescem os jacarandás na Praça da Alfândega, já se sabe: os livros vão chegar. Em geral chegam chuvas também, mas aos poucos a Câmara do Livro decidiu-se a cobrir as alamedas para que não se molhassem estes preciosos receptáculos da sabedoria e assim deu-se continuidade, sempre com alegria e criatividade, transformando as feiras num momento de encontro e reencontro.

Vamos para outra: nesta sexta-feira, no final da tarde, começa mais uma edição, a 52ª, levando escritores para 668 sessões de autógrafos e lançamento de suas obras. E dizer que, quando tudo isso começou, eles ficavam constrangidos em tomar parte nas sessões e assinar dedicatórias como se fossem “cantores de rádio”, como comentara Mario Quintana.

Enfim, lá vamos nós, outra vez.







O TERROR ATÔMICO
Walter Galvani, em 22/10/2006

A bomba, os mísseis, as ogivas nucleares, tudo isso que a gente por vezes julga esquecidos pela humanidade, voltam a nos tirar o sono.
Eis a crônica que publico hoje no ABC DOMINGO,jornal do Grupo Editorial Sinos, que circula em toda a região metroppoilitana e encosta da serra de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul, extremo sul do Brasil:


OS RISCOS



Walter Galvani





A entrada da Coréia do Norte para o “clube atômico” é um risco na medida em que o seleto grupo de nações que detém o controle e a tecnologia para explodir o mundo, pode ser alterado com a entrada deste sócio indesejado. Mas, nada nos garante que a China, os Estados Unidos, a França - lembram o “atoll de Bikini” onde a França testou sua bomba, celebrizada com o maiô de Brigite Bardot? – a Índia e o Paquistão, que possuem sim a “varinha de condão” para reduzir a população mundial sem controles de natalidade... ou a Rússia que emergiu dos escombros da ex-União Soviética, não acordem de mau humor um dia desses e... Ah, tem mais a Inglaterra, “United Kingdom”, a mesma e simpática “Albion”, aquela que foi tratada assim pelo nosso grande poeta Castro Alves: “O inglês, marinheiro frio, porque a Inglaterra é um navio que Deus na Mancha ancorou”. Pois é: o porta-aviões está cheio de ogivas nucleares, o que torna o seu mau humor respeitável.

Entretanto, Alemanha, Japão e Itália, os integrantes do extinto “Eixo Roma-Berlim-Tóquio”, o mesmo que sustentou o mundo fascista dos anos trinta até 1945, primeira metade do século passado, não podem, pelo acordo do fim da II Guerra Mundial, dispor dos mecanismos e do conhecimento para chegar à fissão nuclear.

Por isso todo o espanto global que não desejaria que o novo “perigo amarelo” se estendesse mais ainda para os lados dos desmanchados regimes comunistas, que fizeram o favor aos capitalistas de se converterem (como o suspeito regime chinês que é explosivamente capitalista no exterior e duramente comunista no seu interior) ou voarem aos cacos como os vermelhos da antiga URSS que se desfizeram numa volúpia inacreditável em busca de novas riquezas e de vez em quando pelos caminhos da corrupção.

O século vinte ficou sendo assim o grande experimentador dos dois lados e dos dois extremos. Nem o socialismo, com sua variante congeladora, o comunismo, nem o capitalismo, com suas escancaradas versões de proteção selvagem ao “status quo” através do fascismo, venceram a corrida de obstáculos que o século apresentou. Naufragaram ambos, mas seus subprodutos alcançaram os novos tempos.

Assisti em 1973 a expulsão da China chamada então de “nacionalista”, ou melhor, a ilha de Formosa que abrigava os resquícios do poder de Chiang-Kai-Shek na ONU, para receber a “China Popular”, ou República da China, de Mão-Tse-Tung, o da “longa marcha” que, como se viu alcançou Nova York. Empoleirou-se no galho e, de poder atômico nas mãos, forçou sua entrada no clube exclusivo, onde quer penetrar agora a Coréia do Norte.

O problema é mais sério do que se possa pensar e nos cabe, nesta tranqüila manhã de domingo, lendo o ABC aqui em nossa zona, pensar com seriedade no caleidoscópio de absurdos em que virou o mundo.

Estamos falando de guerra. De aviões de combate, de bombas, de mísseis e de tropas de ocupação, de helicópteros e tanques, carros armados e guerrilha de resistência. Mas, sobretudo de invasões, de derrubada de fronteiras, de muros inúteis e de diplomacia emudecida pelo pavor.

De terrorismo de estado. De alianças de conveniência, de destruição de valores e de desprezo pela cultura, pelos símbolos, pelas crenças, pelos desejos e pelos sonhos alheios. Nas vidas perdidas e nas que se perderão. Falamos de soberba e prepotência, de belicosidade e crueldade. Lembramos Hiroshima e Nagasaki, monumentos mortos e inúteis, distantes no passado, na bruma de seus sessenta e tantos anos.







A PALAVRA E A CONTRAMÃO DA PALAVRA
Walter Galvani, em 21/10/2006

Na Feira do Livro de Porto Alegre que inaugura no dia 27 de outubro às 17 horas, na Praça da Alfândega, acontecerá mesa redonda sobre "a palavra e a contramão da palavra".
Eis os integrantes da mesa:


Maria Carpi (poeta)
Walter Galvani (escritor)
Juarez Guedes Cruz (psicanalista)
Janaína Pereira Claúdio (professora de LIBRAS)
Izabel Bellini Zielinsky (filósofa)- coordenação

Será no Santander Cultural, Sala Leste, no dia 5/11/2006, às 18 horas. Haverá datashow para quem quiser usar. Cada participante poderá compor a sua apresentação e reflexão de forma livre, dispondo de aproximadamente 15 minutos, para que ainda possa haver algum tempo de discussão com o público ao final.




O VOTO PODERÁ MUDAR O PAÍS?
Walter Galvani, em 18/10/2006

Escrevi este artigo em setembro.
Agora, leiam e, se por acaso acharem que sou adivinho, direi que não...
Apenas vivo aqui no Brasil há muito tempo: 72 anos...


COMO MUDAR O PAÍS



Walter Galvani





Pelo voto, pelo voto, sussurram ao nosso ouvido palavras otimistas. Pelas armas, pelas armas, lembram velhos revolucionários. Pela educação, pela educação, está inscrito em nossa memória. Abrangemos com o olhar o que nos rodeia, visitamos “sites” na Internet, percorremos os jornais, escutamos o rádio, vemos televisão. Tomamos conhecimento das declarações dos lideres, do presidente da república, dos que se candidatam, Além do país, além dos nossos horizontes, há um “Pacto pelo Rio Grande”, existem os sacrifícios que se erguem em nosso caminho, temos a esperança e a certeza de que tudo se conseguirá, mas os dias passam. O vento faz rolar o calendário, o ano está chegando quase à metade. Daqui a pouco começarão os jogos da Copa do Mundo e nos dividiremos entre a vigília nervosa pela constituição da equipe e as informações sobre os adversários, o que normalmente nos é omitido pela rotina ufanista habitual dos brasileiros, depois o dia do jogo, a expectativa ansiosa, os primeiros minutos, o primeiro gol e depois a ressaca cívica que se estende noite adentro e chega até o dia seguinte.

Depois virá justamente o dia seguinte e mais outro e mais outro e novamente a rotina da expectativa, o jogo, a ressaca. E assim iremos até o dia 9 de julho, pois não passa pela cabeça de nenhum brasileiro que a Seleção não esteja na finalíssima marcada justamente para aquela data.

Os problemas nacionais? Estes ficarão adiados, pois, se não foram solucionados até agora passarão para um pouquinho mais adiante e isso não tem importância nenhuma, pois estaremos empenhados nestes jogos modernos que valem mais do que a olimpíada para os antigos gregos e depois é que falaremos.

E então, chegarão os jogos sérios das eleições.

Será outubro já e mais algumas distorções, acusações, escândalos e calúnias inundarão nossas ruas, “como um mar de lama”, tal como nos habituamos a ouvir aqui neste sul do mundo e depois terá chegado a hora de fechar os cadernos do ano, que 2007 estará à nossa porta.

E assim será.

De nada vai adiantar então o ranger de dentes ou rolar na grama, pois estará chegando a hora do verão e, como se sabe, durante o verão tem Carnaval e só depois de tudo isso é que colocaremos outra vez o pé na realidade.

Ah, a propósito, anteciparam o início das atividades escolares no Rio Grande do Sul para o dia 21 de fevereiro. Já é alguma coisa. Começaremos mais cedo, não tão cedo como São Paulo, Santa Catarina ou Paraná, mas, pelo menos mais cedo um pouco do que de costume aqui neste Rio Grande, onde herdamos dos nossos nômades antepassados indígenas, a idéia de que o verão nesta altura dos paralelos em que habitamos, é feito para vagabundear e não para plantar.

E então, já estaremos metidos num ano novo e praticaremos o que for possível, carregando ou não o peso das escolhas que fizemos nas eleições passadas e os resultados que obtivemos na Copa do Mundo.

E nos daremos conta de que o mundo girou, que a globalização continua, que os poderosos continuam mandando, que os fracos tiveram que ceder mais um pouco, que as nossas contas não fecharam, que será preciso correr atrás de soluções.

Mudará o Natal ou mudaremos nós? – como perguntaria Machado de Assis.

Nunca mais seremos os mesmos, o vento terá batido pelos campos afora, mais alguns milhares de hectares do Pampa terão sido sacrificados em nome de interesses pecuniários, mais algumas árvores terão sido derrubadas, mais alguns rios e regatos estarão sendo conspurcados, mais alguns pobres terão morrido de fome, mais alguns bandidos terão assassinado inocentes ou assaltantes terão roubado e matado e mais alguns apenados estarão desfrutando das vantagens da tecnologia posta à sua disposição pelo capital do mal.









É IMPORTANTE SER PRÊMIO NOBEL?
Walter Galvani, em 15/10/2006

Jean-Paul Sartre achou mais interessante rejeitar a premiação... Foi o único na história de 105 anos do prêmio.
Trato hoje, em meu artigo no jornal ABC DOMINGO, do Grupó Editorial Sinos de Orhan Pamuk, a que chamo:
"Um turco das arábias", fazendo um "jeu de mots" com a nossa ignorância sobre política, economia e literatura do Médio, do Extremo e de qualquer Oriente...


UM TURCO DAS ARÁBIAS



Walter Galvani





Como não sabemos nada do Extremo Oriente e muito menos do Oriente Médio e menos ainda “das Arábias”, esta semana estreamos um espanto novo ao saber que um escritor turco estava ganhando o Prêmio Nobel de Literatura, aquele mesmo que o Brasil tem ambicionado tanto e que apenas um escritor de língua portuguesa (José Saramago, de Portugal, em 1998) alcançou.

Pior para nós que dois chilenos já o conquistaram (Gabriela Mistral em 1945) e Pablo Neruda (em 1971), e vários de língua espanhola também e pelo menos mais um sul-americano (Gabriel Garcia Márquez em 1968).

Continuamos carentes, reservando-nos grandes alegrias internacionais através do futebol, pois parece que estão fechados os caminhos da literatura. Já candidatamos em variadas oportunidades, nomes como Jorge Amado, Erico Veríssimo, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, mas nada. Chegaremos lá com Chico Buarque de Holanda, Luis Fernando Veríssimo ou Moacyr Scliar?

O pior para todo mundo é que na hora de dizer quem é Orhan Pamuk, nascido em 1954 em Istambul, a poeira tomou conta dos meios de comunicação nacionais. Parece que nem o moderno mecanismo de busca “Google” ajudou, pois houve até jornal que disse que Orahn é um dos “principais autores de ficção de seu país e chegou a ir aos tribunais turcos, acusado de ofender a identidade nacional”. Dito assim, parece que se trata de um traidor do seu país ou pelo menos um superficial que não sabe nem o que é importante para uma terra milenar como a Turquia.

Pois é justamente o contrário. Orhan Pamuk nasceu em Istambul, nome moderno da antiga e gloriosa Constantinopla. A cidade ali está até hoje, tal como foi consagrada justamente pelo imperador que dividiu o império romano em duas capitais, ela e Roma. Constantino deixou a sua marca e a sua compreensão da divisão do poder mundial que Roma exercia e o significado da encruzilhada que a brilhante cidade ocupava. Istambul continua nesta mesma encruzilhada...

A Turquia pleiteia hoje o seu ingresso na União Européia e na certa o lance de ter um Prêmio Nobel ajudará muito o país.

Não apenas como propaganda, mas justamente pela brilhante interpretação que ele faz do sentido desta oposição e fusão de culturas. Não por acaso, o que os ocidentais (muitos) não entenderam é que este “turco das arábias” fez pronunciamentos públicos, escreveu e assinou, manifestos, artigos e crônicas, condenando o massacre dos curdos (cerca de 30.000) e armênios (por volta de um milhão) que a Turquia realizou. Por isso o acusaram de “ofender a identidade nacional”.

Pois bem: hoje, ao contrário, o governo da Turquia acaba de emitir comunicado dizendo que a escolha de Orhan Pamuk para o Prêmio Nobel de Literatura de 2006, é “motivo de orgulho nacional”.

Nós gostaríamos, também, de nos sentirmos orgulhosos com uma escolha dessas. De certa forma o estamos, como membros do gênero humano. E continuaremos esperando que um compatriota engorde a lista que começou em 1901 com o francês Sully Prudhomme, aproveitando a herança do inventor da dinamite...Alfredo Nobel.

Como se vê, o prêmio é dinamite pura... Em Portugal, há quem prefira outros nomes ao de Saramago e que na verdade seu sobrenome quer dizer “sal amargo”...

Maldades aparte, continuamos torcendo para que depois do turco, a sétima língua mais falada no mundo, o português, volte a ser contemplada.

Orhan Pamuk começará agora a ser lido para valer. Isso sempre é bom para o escritor e para a literatura de um modo geral. Tem dois livros editados no Brasil (“O castelo branco” e “Meu nome é vermelho”) e basta encomendá-los. Hoje em dia é fácil o atendimento.






ORHAM PANUK É O PREMIO NOBEL DE LITERATURA DE 2006
Walter Galvani, em 12/10/2006

Foi anunciado esta manhã em Estocolmo, o nome do escritor turco Orham Panuk, como o premiado com o Nobelde Literatura de 2006.
Ainda não tive tempo, nesta manhã do dia 12 de outubro, Dia de Cristóvão Colombo (o que poderia ter sido português,leia-se "Codex 614" de José Rodrigues dos Santos) - de traduzir do espanhol o que pensa Orham Panuk do terrorismo, do islamismo, da pobreza terceiro-mundista e do sentimento de impotência que aflige
os pobres do mundo:


"Quien aprueba sin límites
las operaciones militares que ejercita hoy el poder guerrero americano para
enseñarles a 'portarse bien' a los terroristas, quien discute con placer
los juegos de video sobre cuál objetivo los aviones norteamericanos
bombardearán hoy, debe saber que las medidas militares tomadas en forma
irresponsable producen en millones de seres de los países islámicos y en
regiones pobres del mundo el odio contra Occidente, y los envuelve en un
sentimiento de inferioridad y de desamparo. Lo que alimenta al terrorismo
no es ni el Islam ni la pobreza sino los sentimientos de desvalimiento y de
impotencia ante tanto poder. Hoy, el problema de Occidente no es tanto
descubrir en qué carpa, en qué lejana ciudad, en qué callejuela, el
terrorista está preparando su nuevo explosivo, para cubrirlo de bombas o de
misiles, sino que el verdadero problema está en comprender el estado
anímico de los pobres y los humillados, de la mayoría del Tercer Mundo,
siempre la injusticia como norma. Por eso, los discursos prepotentes y las
operaciones militares con todo el poderío tienen justo el efecto contrario.
Debo decir que el egoísmo arrogante y vanidoso de Occidente obliga al resto
del mundo a decir –como el personaje de Dostoievski, por el agujero del
sótano– que dos más dos son cinco. Lo que más ayuda a esos islamitas que
arrojan ácido nítrico en el rostro de sus mujeres que no quieren cubrirse,
es precisamente la incomprensión agresiva de Occidente".



ORHAN PAMUK, NOVO NOBEL
Walter Galvani, em 12/10/2006

Um turco leva para Istambul o Nobel e com isso o interesse, a curiosidade, a admiração do mundo inteiro.
E não esqueçamos: Istambul é o nome com que foi rebatizada Constantinopla, em 1453, quando invadida (no dia 29 de maio) pelo sultão Memet III. num episódio que é considerado o fim da Idade Média e o início da Idade Moderna.
Nascer numa cidade dessas, já é um compromisso. Acompanhemos agora, Orhan Pamuk.


ORHAN PAMUK, ESCRITOR TURCO,
GANHA O PRÊMIO NOBEL
DE LITERATURA DE 2006


Desde manhã cedo, busca eu nas páginas de noticiário internacional, a escolha do novo Prêmio Nobel de Literatura: o escolhido foi Orhan Pamuk, escritor nascido em Istambul, a antiga Constantinopla, a encruzilhada entre a Europa e a Ásia, tal como é historicamente seu país, a Turquia.
A indicação de Orhan Pamuk não deixa de ser uma referência à esta situação política. A Turquia vai ingressar na União Européia. Há muitas resistências, pelo que ela pode representar religiosamente, fortalecimento do islamismo, politicamente pela grande quantidade de cidadãos do leste da Europa que significará o aporte da população turca, enfim, tudo o que significa ao longo dos tempos, o jogo entre atração e aversão, dos orientais e os ocidentais.
Pamuk nasceu em Istambul (em 1952), a antiga Constantinopla, sede do Império Romano do Oriente e isso não é pouco...
Por vezes, o lugar onde você abre os olhos, tem um imenso significado para si mesmo e para os que o acompanham.
É o primeiro turco a ganhar o Prêmio Nobel. Por falar nisso, o único Nobel em língua portuguesa continua sendo José Saramago que conquistou o galardão em 1998.
Latino-americanos, somente três: dois chilenos, Gabriela Mistral em 1945 e Pablo Neruda em 1971.
Gabriel Garcia Márquez, da Colômbia, em 1968.
O mais recente premiado é Harold Pinter (Ingaterra), dramaturgo, em 2005.
O turco Orhan Pamuk é o autor de “Os jardins da memória”, “A cidadela branca” e “A Neve”, entre outros.
O prêmio tem o valor de 10 milhões de coroas suecas. Só um autor recusou-o: Jean-Paul Sartre em 1964. O valor representa hoje pouco mais de 1 milhão de euros, cerca de 2 milhões e novecentos e setenta e um mil reais.
Valores financeiros aparte o Nobel significa o coroamento de uma carreira e a promoção, ao longo dos anos de uma obra.
Só lembrando, Rabindanath Tagore, o único indiano até hoje premiado, em 1913, transformou-se em nome internacionalmente conhecido. Não há cultor de literatura que não o tenha na lembrança.
Para nós brasileiros, o Nobel de Literatura tem sido sempre uma frustração. Já candidatamos no passado Jorge Amado, Erico Veríssimo, João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade. Mas, à cada ano, o anúncio do escolhido deixa-nos uma pontinha de decepção.
Temos certeza, porém, que logo logo, esta esperança será correspondida, pois temos escritores produzindo em altíssimo nível. Preferimos não citar nomes, neste momento.
Antes, nos candidatamos, a leitores. Em língua portuguesa, já há traduções de “A cidadela branca” e “Os jardins da memória”, lançados em Portugal e “A neve” que deverá estar sendo lançada agora. Já as editoras brasileiras devem estar a preparar também as suas edições.
Orhan Pamuk é a grafia mais aproximada da correção. E correção mesmo tem as suas atitudes políticas. Ele defende tradicional as minorias, foi o que fez com os armênios e os curdos, o que lhe valeu inclusive dificuldades e perseguições em seu próprio país.
E foi o primeiro escritor “oriental” a se manifestar contra a “Fatah” que os muçulmanos emitiram contra o escritor Salman Rushdie.




MÊS DAS FEIRAS DO LIVRO
Walter Galvani, em 08/10/2006

Estamos em outubro, mês em que se dão a maioria das feiras do livro no Rio Grande do Sul. E no mundo: a de Frankfurt, a maior e mais antiga, 58 anos de realização, termina no dia 10.
Dois dias depois, dia 12, a Fundação Nobel anuncia o Prêmio Nobel de Literatura de 2006.
Pode dar o americano Philip Roth. Mas, também pode sair um poeta sueco...
Veremos.
Enquanto isso, de São Leopoldo a São Sebastião do Caí, onde fui escolhido o Patrono, estão em andamento as feiras do livro.
A de Porto Alegre, que realizará a edição nº 52, inaugurará no dia 27 de outubro.


FEIRAS, BENDITAS FEIRAS



Walter Galvani





Tornei-me, ao longo do tempo, um batalhador pela leitura e uma espécie de protetor do livro. O que muito me honra. Ainda nessa semana que passou, estive em São Sebastião do Caí, onde fui eleito Patrono da 9ª. Edição da Feira do Livro. Nesse meio tempo, visitei Novo Hamburgo onde se desenvolvia a sua chamada Feira Regional. Fiquei muito satisfeito com o convite que me fizeram Magda Azeredo e Lucimaura Rodrigues, do SESC, o que me propiciou a oportunidade de estar em contato com a simpática gente do livro de Caí, conhecer a dedicação, o envolvimento com que se entregam à realização desta encantadora feira, tão lindamente paroquiana que até ao lado da igreja ocorre, o que, sem dúvida demonstra o interesse vivo do município. Parabéns prefeito, secretária de educação, também meus cumprimentos pela competência, extensiva a seus assessores e funcionários.

E foi bom rever Elena Quintana, que por notórias ligações com a região, lá compareceu também para homenagear o “Tio” Mário, de cuja obra e figura, se tornou a “bastante curadora”. E vejam que não lhe falta trabalho, pois há todo o tipo de proposta buscando, por vezes, usar o nome do grande poeta gaúcho em especial agora no ano de 2006, por ser o do centenário do seu nascimento.

Reencontrá-la e lembrar os velhos tempos em que fui companheiro de redação do poeta Mario também foram úteis para que eu pudesse citar e sempre que posso faço este registro público, que ele não era apenas o suave e etéreo poetinha de todos os dias, mas um competente e eficiente redator que exercitava sua capacidade profissional cumprindo tarefas que hoje assombrariam quem as pesquisasse. Mario, além do Caderno H e outras colaborações inesquecíveis, dos artigos e crônicas literárias que preenchiam espaços especiais no Caderno de Sábado e mais tarde no Letras & Livros, era também um especialista que traduziu durante anos e anos o material informativo que chegava à redação do Correio do Povo por intermédio das agências de notícias, France Presse, United Press International e The Associated Press, ou seja em inglês, francês e espanhol.

Agrada-me fazer este registro porque vejo nisso uma forma de justificar minha convivência de trinta anos com o poeta, o que aliás não me transformou em poeta... Poesia, não se aprende por osmose. Sorte da literatura brasileira que não seguí este caminho. Havia outros e muito melhores nomes e eu “fiquei na prosa”, aliás atendendo o sábio conselho que me deu o também poeta e, sem duvida atilado crítico literário, Paulo Hecker Filho.

Mas, não foram poucas as vezes que vi o nosso nobre poeta deixar a redação do “Correio do Povo”, órgão onde então trabalhávamos, com as mãos ainda sujas do manuseio das tiras de telex, que chegavam em várias cópias e que tinham de ser trabalhadas pelos diversos redatores, multiplicadas por carbonos. Como eu, que atuava na seção de esportes.

Mario fazia diligentemente as traduções que lhe pediam, ele que, aliás, era dos poucos redatores de então que dominavam estas três línguas.

Claro, depois sobrava tempo e vontade para produzir ainda as valiosas laudas (laudas datilografadas, ainda não existiam computadores, digitação, disquetes, etc) onde inseria suas idéias, seus poemas, cortava palavras, acrescentava, modificava até que chegassem ao estado ideal de publicação.

Quem pensa que é leve a vida do poeta, não sabe destas agruras todas, muito menos do dolorido processo de criação literária. Mas, nunca ouvi Mario Quintana reclamar... O que já foi uma lição e tanto.





E JÁ QUE SE FALA EM FEIRA DO LIVRO...
Walter Galvani, em 06/10/2006

Uma vez é Frankfurt, daqi a um pouco, Porto Alegre, hoje é em Novo Hambuergo, Caí, Estância Velha e
São Leopoldo.
Todas valem a pena
porque a ala não é pequena...
perdão Fernando Pesoa
mas a língua portuguesa te deve muito.
Vais nos perdoar de usar teu santo nome em vão...


Feira do Livro de Frankfurt: Estande brasileiro com 41 editoras



A Índia é o país-tema deste ano
Tendo como país-tema a Índia, Feira Internacional do Livro de Frankfurt celebra sua 58ª edição. Estande da Câmara Brasileira do Livro reúne 41 editoras.

O maior evento do mercado editorial em escala planetária não tem o mesmo poder de sedução sobre as massas que a feira anual do automóvel, sediada nos mesmos pavilhões da Messe de Frankfurt, mas os números apresentados pelos organizadores do meio literário também impressionam pelo gigantismo.



Inaugurada no dia 4 de outubro e com duração de quatro dias, a Feira Internacional do Livro bate neste ano o recorde de países presentes, com 113 nações de todos os continentes. Cerca de 400 mil títulos estarão expostos nas prateleiras das 7.272 editoras que marcam presença na feira, como um verdadeiro espetáculo cultural que deve atrair por volta de 300 mil visitantes. Os alemães se reconhecem como a nação onde mais se comercializam livros.



A escolha da Índia como tema da feira se dá pela segunda vez. Em 1986, o segundo país mais populoso do mundo, com suas 24 línguas oficiais, foi o foco de atenção de editores internacionais do evento, que já teve o Brasil como país homenageado em 1994.




DIA DE VOTAR
Walter Galvani, em 01/10/2006

Dia de pensar. Se é que se pode fazer alguma coisa nesse país imenso.
Mas, me orgulho muito dos meus antigos estagiários, dos meus "alunos", formais ou informais, no mercado de trabalho ou fora dele.
Também fui aluno. E amo meus professores.
Maristela Bairros foi minha estagiária e produziu agora este texto que eu gostaria de ter escrito. Leiam. É o Brasil...


A censura em nova forma e o medo vencendo a esperança

por Maristela Bairros

A notícia de que um dono de banca de revistas de Porto Alegre decidiu não vender as revistas Veja e Época merece reflexão. Não concordo com alguns argumentos do moço que, pelo perfil (embora faça questão de se descolar do petismo e do lulismo), é um simpatizante da turma que adora citar o Fórum Social Mundial como referência. A história de que Veja se calou no governo FHC e agora ataca Lula e o "honorável" companheiro Chávez, da Venezuela, é conversa de quem é imaturo demais para entender circunstâncias e balizar diferenças. Também não entendi a bronca dele em relação ao episódio ditatorial do Planalto quando quis expulsar o jornalista americano por ter insinuado que Lula seria alcoolista . Ele também ficou me devendo a razão de estar de bico com Época por causa das matérias sobre o mensalão.

O rapaz, com certeza, é um bom marqueteiro e achou um jeito de ser diferente e virar notícia, como, de fato, ele e sua banca viraram.

Está certo ele. Liberdade de expressão não pode ser apenas papo de seminários entre nós, jornalistas, na hora em que somos agredidos. Tem de existir, assim como nosso exercício constante para aceitar, mesmo sem concordar com, as diferenças de opinião. Houve época em que precisamos subir nas tamancas para combater os que tentavam (e quese sempre conseguiam) nos sufocar em nossa tarefa de informar. O Pasquim é símbolo desta época, especialmente pelo bom humor ferino com que tratava a dor. Mas nem todos eram nanicos e charmosos. Os grandes também reagiram, e bem me lembro das colunas de receita no Estadão substituindo textos censurados.

Isso já passou, é memória. Ninguém pode se queixar, hoje, de não poder escrever e falar o que quer. Muitas vezes, se faz isso sem critério e o moço da banca tem lá seu quinhão de razão – não são um nem dois que foram massacrados por linhas equivocadas. Agora, meu caro amiguinho estudante de História, tão bem intencionado: defender Hugo Chávez é dose! Ele é, de fato, um bufão. Só que um bufão perigoso, que pode detonar reações seriíssimas com esta mania de cutucar leão com vara curta. E a história do mensalão e outras denúncias, isso tem de vir à tona, sistematicamente, são podridões que precisam ser mexidas como se espreme um furúnculo para sair o pus e, depois, tentar a cura.

Falo tudo isso porque ainda estou sob efeito do debate-conversinha doce da Globo, de ontem, quinta, ao qual Lula não foi. No formato eleito como o mais adequado para estes tempos, todos os candidatos conversam como se estivessem sentados tomando conhaque à frente da lareira. E, o mais engraçado, o que um fala serve de gancho para o outro. São as alianças em gestação, porque ninguém é bobo para pensar que vai governar sozinho e majoritário.

Nós, jornalistas, nesta hora, agimos como animadores de auditório, anunciando a atração e, pedindo desculpas, interrompendo textos decorados e padronizados graças à ação de outros jornalistas como nós que vivem do trabalho de assessores de comunicação. O melhor do debate, então, ficou para as perguntas à cadeira vazia, o que me fez lembrar de peças do teatro do absurdo.

Perguntar ao nada pode ser simbólico. Lula não foi, a Globo não ia desmanchar aquele lindo cenário tampouco desfazer a elegante entrada e saída dos candidatos rumo ao púlpito. Optou por deixar a cadeirinha do ausente ali, marcando lugar. Quem sabe, ele mudaria de idéia e irromperia no estúdio, numa ação dramática estudada e capaz de alavancar mais ibope?

Nessa hora, concordo com o moço da banca de revista em sua revolta contra veículos que ele considera não merecedores de seu trabalho de vendedor: ao deixar Alckmin, Buarque e Heloisa Helena falando para a parede, ou melhor, para a cadeira, a Globo tornou mais forte a presença de Lula, aquele que hoje troca a esperança pelo medo ao fugir do combate. Fugir: será mesmo? Sei não. Com a sofisticação das técnicas de marquetingue político e eleitoreiro, já estou achando que foi tudo muito bem arranjado. Eu, aqui, vou continuar lendo a Veja e em especial o Mainardi. E todas as publicações que trazem a lama para o ventilador. E recomendo ao moço da banca que repense a opção dele: ele está, simplesmente, exercendo, pessoalmente, a censura, retomando o velho e horrendo modo dos que, um dia, nos amordaçaram.

















DOCES CORDAS NUM TEMPO DE METAIS E PAULEIRAS
Walter Galvani, em 29/09/2006

As crônicas de Cleci Silveira
nos fazem aterrissar suavemente
em Porto Alegre


O tocador de Saz e o Sultão

Walter Galvani

Esta é a época em que Porto Alegre se exercita, modernamente, na tarefa de festejar seus escritores, novos e velhos, estreantes e veteranos, provocando uma atividade que arranca de todos, todas as noites, a mesma e satisfeita imprecação: “Não dá para ir a tudo. Porto Alegre é assim mesmo! Ou não tem nada, ou tem de tudo no mesmo dia.”
Nem sempre foi assim. Houve tempos que chegaram a provocar num homem como o prof. Guilhermino César, que aqui chegava vindo de outras bandas, lá da sua mineira Cataguazes da revista “Verde” ou de Belo Horizonte e que chegou a cunhar uma frase definidora: “Porto Alegre tem atividade literária, mas não tem vida literária!”
Pois agora tem, caro Guilhermino!
Já mal refeitos de uma sessão de autógrafos de longas e serpeantes filas pelo lançamento de um Luis Fernando Veríssimo, vamos para outra, de Sérgio Faraco ou de Alcy Cheuiche, este agora guindado ao patamar de Patrono da Feira do Livro.
E é justamente a Feira que antecipa seus lançamentos e nos obriga à essa correria de uma livraria para outra, da simpática Livraria do Arvoredo para a Cultura do Bourbon, do IEL para a Siciliano e assim vamos.
Tocou-me o título diferente e a longa amizade com a Cleci Silveira, que me fez atravessar a cidade no final da tarde de ontem e correr para o “shopping” Bourbon-Country, justamente para me alinhar aos pretendentes a um autógrafo dela. O livro, além do título difícil e atraente, “O tocador de Saz e o Sultão”, com bonita capa criada por Maurício Morsch, contém uma bela aventura da autora no mundo das crônicas. E para apadrinhá-la teve a gentileza de me citar e de citar a escritora Valesca de Assis.E eu que não sabia de nada, saí correndo para estar com a escritora Cleci, lembrando que ela foi minha companheira de trabalho na Divisão de Cultura, primeiro passo do estado no campo da promoção da cultura, isto nos idos dos sessenta ou setenta do século XX. Era outro Brasil.
E na leitura descontraída do dia seguinte, descubro que ela me homenageou também com uma crônica, págs. 77,78,79, com “Mensagem a um escritor”.
Retribuo, Cleci: li, de ponta a ponta, de uma sentada só, nesta manhã em que estava me sentindo mais frágil do que de costume, de corpo e espírito, atingido por uma lufada de gripe que me pegou de madrugada e me derrubou.
Estou refeito.
Na leitura dos textos, amáveis e “redondos”, como diria mestre Vinícius, me deliciei e entro na batalha do dia, recuperado, soldado e resgatado.
Ah, e você quer saber o que é “Saz”? Não tem nada a ver com sax, não. É um velho instrumento turco (?) descendente do alaúde.
Vale a pena mergulhar no doce colo de suas cordas.




DOMINGO TEREMOS ELEIÇÕES NO BRASIL, MAS...
Walter Galvani, em 27/09/2006

A sujeira é tanta que me dá
engrulhos...
Ainda prefiro falar
na derrapada do Sumo
Pontífice.
Que falha nas relações
públicas do Vaticanao!


FALTOU SERVIÇO DE IMPRENSA

Walter Galvani

Sinto muito, senhor Papa, mas faltou-lhe estrutura de relações públicas e divulgação. Pode ser que o Vaticano disponha de um serviço de imprensa, mas se dispõe, é fraco e se não tem, pior ainda... Sabe-se que tem.
Sabem todos, Bento XVI falou demais. Misturou aquilo que se costuma chamar de “alhos” com “bugalhos” e procurando demonstrar conhecimento histórico, acabou derrapando e demonstrando publicamente que lhe falta habilidade política.
A citação a Maomé, ao governador de Constantinopla, aos cruzados, à força da espada, tinha tudo para significar uma intervenção forte, mas acabou levando o papado para o acostamento. Por muito menos se dá um acidente na BR-101, com mortos e feridos.
Nesse caso, o único ferido foi o Papa e, de algum modo, a Igreja Católica como um todo, já que foi o seu chefe que foi para aquele lugar que os portugueses chamam de “berma”. Podem olhar no dicionário, trata-se de uma boa palavra da língua portuguesa.
A reunião dos embaixadores de países islâmicos, os cuidados que serão tomados agora, tudo isso teve o seu custo e terá ainda muito mais.
Na verdade, que sirva de lição. Nenhum governo, instituição, empresa, entidade, clube de futebol ou igreja, pode se dar ao luxo, hoje em dia, de atuar na sociedade de massa e comunicação, sem um bom serviço de imprensa.
Mas, não é novo isso não... Napoleão já sabia disso. Leia-se a biografia do “grande corso”, assinada por Alexandre Dumas, uma lição para quem quer se iniciar no gênero.




EXPLICA MAS NÃO JUSTIFICA...
Walter Galvani, em 18/09/2006

O Psps não pretende pedir
desculpas.
A situação é muito complicada, como está em moda dizer no Brasil.
Publiquei este artigo, ontem, no ABC Domingo do Grupo Editorial Sinos.


O PAPA E O ISLÃ



Walter Galvani



Não quero botar lenha em mais uma fogueira, o mundo já tem incêndios demais, precisamos é de bombeiros, mas este papa que anda aí, parece que merece a posição que lhe dá o escritor Günter Grass, Prêmio Nobel de Literatura, lembrando que ambos foram colegas de “Juventude Hitlerista”.

Pois Bento XVI falou em Regensburg, citando o rei cristão de Bizâncio durante período da Idade Média, Manuel II, lembrou a afirmação em que ele dizia, “mostre-me tudo o que Maomé trouxe e encontrarás apenas coisas más e desumanas, como sua ordem de espalhar com a espada a fé que quer propagar!”

Provocação? Chantagem? Histeria? Fascismo? Nazismo? Desconhecimento histórico? Ignorância da situação mundial? Qual a definição adequada para uma trombada destas, quando o mundo se revolve com os confrontos entre árabes e judeus, cristãos e fundamentalistas de toda a espécie, cretinos e débeis mentais...

Numa hora dessas o que um líder religioso tem que dizer, obedecendo aos tempos que vivemos, para não ser anacrônico, é que todas as crenças e religiões se equivalem em suas boas intenções e propósitos e, se desvios há, os demais líderes são suficientemente esclarecidos para fazer as correções.

Isso é o que se chama Ecumenismo, coisa que, aliás, papas anteriores já o ensinaram e que, portanto, não cabe permitir desvios como os que ora se produzem.

Prefiro entender que houve uma falha de comunicação. Um mal entendido, até porque do alemão para o latim, do latim para o português, do espanhol para o inglês, enfim, já que o esperanto não vingou como o esperava Zamenhof, temos que nos conformar com as dificuldades de tradução. Velho provérbio italiano: “Tradutore, traditore”...

E vai ver, o Günter Grass exagerou na conta, e os meninos da Alemanha não podiam mesmo se negar a servir à Juventude Hitlerista ou o faziam no sonho de salvar a própria pele ou, quem sabe, a humanidade inteira mais adiante... Quem diria que um deles acabaria Papa!

Agora, citar Maomé, o Islã, a “JIhad” ou os textos religiosos, sagrados para uma grande parcela da população mundial, para o que pode parecer uma incitação ao conflito e à guerra, não é apenas um erro. É um crime. E, se alguém o faz, que seja punido pela opinião pública mundial, tanto quanto os outros guerreiros que pululam por aí, tipo George Bush ou Condoleeza Rice.

As religiões, a despeito dos exageros fundamentalistas, foram criadas, ou melhor, nasceram das deficiências do homem que não sabe como suprir a própria pobreza de espírito. As cavernas da sua imaginação, dos seus pesadelos, precisam ser preenchidas com ícones capazes de guiá-los, de mostrar-lhes o caminho certo. Uma espécie de facho de luz que ajuda a orientar os espíritos perdidos e que, nesse caso, nada tem a ver com a alfabetização, a cultura, o nível intelectual.

Podem ser padres, pastores, rabinos, freiras, santos, ou o que quer que seja. Até papas ou presidentes. Todos erram e todos são fracos e precisam de apoio e orientação espiritual. Judeus, católicos, espíritas, animistas, muçulmanos, todos os que buscam apoio para sua infinita pequeneza na inspiração de algo maior, o supremo arquiteto do universo, Deus, Jeová, Alá ou deuses, como há 20 séculos atrás guiavam os povos, em suas orações maquinalmente repetidas ou criadas na hora com inspiração e confiança, todos são dignos da mesma consideração.

Precisamos estar à altura dos tempos que vivemos.

Não podemos retroceder nem em vinte séculos, nem em 61 anos. Não queremos nem Paris em chamas, nem Berlim. Nem Hiroshima ou Nagasaki, Washington, Tel Aviv ou Beirute.










LINCHAMENTO, REAÇÃO DE FAROESTE OU REARMAMENTO
Walter Galvani, em 15/09/2006

Será que vale a pena?



LEVANDO A PIOR



Walter Galvani





Não é bom para ninguém o que está acontecendo, embora alguns, apressadamente, estejam a festejar. O fato dos ladrões terem começado a apanhar e a levar tiros, não significa que a situação esteja melhorando, sob o ponto de vista de segurança, ou de melhoria da vida. Quer dizer apenas que a população está armada e com a paciência esgotada. O que é muito ruim para todo mundo. As reações que estão se produzindo, linchamento, tiros, resposta armada ao assalto armado, só pode levar a mais perdas humanas, não importa se entre os agredidos ou entre os bandidos.

Não estou aqui a fazer a apologia do crime ou a defender os que, normalmente, estão em melhores condições de se proteger, pois são os que tomam a iniciativa de praticar a violência.

O preço é alto para todos e será sempre mais alto.

Mas o que isso tudo retrata é o quanto está desorganizada a nossa sociedade, a ponto de muitos comemorarem quando a ação dos fora da lei resultar negativa para eles, como se isso fosse um confronto meramente esportivo. Infelizmente não é. Trata-se do choque inevitável entre os que começaram a se preparar, com os que continuarão ousando, cada vez mais, por nada terem a perder.

É triste e difícil.

Depois de uma aplicação da Lei de Lynch, depois de mandar meia dúzia de bandidos para o hospital ou para o cemitério, depois de frustrar ações de roubo,a população vai partir para outras, mais violentas, uma vez que não encontra amparo na força pública, não por deficiência dessa, mas por incapacidade numérica de colocar um soldado em cada esquina.

As câmaras de televisão expulsão os ladrões e assassinos do centro das cidades, mas eles passam a agir nos bairros, na periferia ou nas pequenas cidades do interior.

O crime organizado ou espontâneo, sempre encontra formas de agir.

É natural, por outro lado, que o povo se irrite, uma vez que até o rosto, os bandidos sabem, podem cobrir na hora das fotos, evitando assim a identificação. Antigamente eles saiam estampados no jornal. Agora, chegam ao cúmulo do deboche, na opinião da maioria da população, pois conseguem se ocultar e manter o anonimato, para continuarem em sua ação perversa.

É triste, mas é o que ocorre.

E enquanto não se chega à uma grande explosão social, a panela fervente das desigualdades e dos problemas, continua a assar o seu grande puchero que vai atirar para o alto todos os ingredientes e mais a tampa, a qualquer momento.

Até lá e muito depois das eleições de outubro, continuaremos assistindo ao espetáculo das irresponsabilidades, das tragédias, dos crimes, da roubalheira, das propinas, das cpis intermináveis e dos roubos e furtos.

No Brasil os números são sempre grandiosos, por causa da população enorme e da incrível desigualdade social. São tão poucos os que desfrutam da maioria do PIB nacional que chega a assombrar. Como também o número dos que ficam de fora da panela dos privilegiados.

Dar esmolas ou esmolar não resolve o problema de ninguém. É aqui que é necessária a intervenção do estado, seja para melhorar a situação dos desvalidos, seja para limitar o desequilíbrio, seja para policiar, mas também para prender, julgar, condenar e manter na prisão os que cometem os crimes.

E não há outro caminho, a não ser endurecer a partir das pequenas infrações e expulsar de cena os grandes criminosos que se aproveitam da “mídia” para ostentar sua impunidade. Aliás, o nome do jogo é um só: o fim de toda e qualquer impunidade. Ou imunidade.




NEI DUCLÓS E "REFÚGIO DO PRÍNCIPE"
Walter Galvani, em 13/09/2006

O jornalista Nei Duclós, gaúcho, que hoje vive em Florianópolis, registra assim em seu blog a visita que lhe fiz, de surpresa, ma Feira do Livro no Beira-Mar Shopping, no dia em que lançava seu novo livro:

"No lançamento ontem do meu novo livro, O Refúgio do Príncipe - Histórias Sopradas pelo Vento (Editora Cartaz, 150 pgs., R$ 25,00), tive o prazer de receber amigos, colegas, parentes e algumas surpresas maravilhosas, como foi o caso da inesperada visita da Professora Elsa, que nos lecionou quando éramos muito crianças. Há anos ela mora em Canasvieiras e ficou muito feliz quando a reconheci. Destaco também outra presença ilustre: Walter Galvani, cronista e romancista, meu primeiro Diretor de Redação e que fez história no jornalismo ao montar uma equipe de primeira na virada dos anos 60 para os 70, entre outros grandes feitos. Galvani me deixou mensagem de congratulações e foi meu convidado de honra na tarde em que coloquei na praça mais um rebento literário."





Walter Galvani, em 12/09/2006

EDGAR POZZER
CIDADÃO EMÉRITO DE PORTO ALEGRE

Na Câmara de Vereadores, hoje, 12 de setembro de 2006, 17 horas, a Câmara Municipal de Porto Alegre resgata uma necessária homenagem: Edgar Pozzer, nascido em Galópolis, cantor que encanta a capital gaúcha desde os anos cinqüenta, tendo atuado junto ao Conjunto Melódico Norberto Baldauf, desde os tempos em que os conjuntos musicais eram realmente melódicos... e posteriormente em sua própria casa, o restaurante “Girasole”, receberá o título de “Cidadão Emérito de Porto Alegre”.
Nada mais justo. Edgar Pozzer vem desde os saudosos (para quem conheceu) tempos dos bailes “da Reitoria”, ou seja, quando o salão de atos da Universidade Federal era utilizado para todas as festas dos jovens e adolescentes da capital gaúcha.
Lá estava, costumeiramente, o conjunto de Norberto Baldauf, ele próprio professor na Faculdade de Farmácia e lá estava como cantor do grupo, o garoto Edgar Pozzer, que, aliás, canta desde os quatro anos de idade, quando começou a atuar em festinhas infantis.
Vivendo o auge da penetração da música italiana em nosso meio, com o nascimento da Rádio Guaíba em 1957, mais ainda estimulado pela divulgação que se deve, sobretudo, à atuação de Fernando Veronezi, tanto o conjunto do Baldauf, quanto o cantor Edgar Pozzer ocuparam o imaginário de gerações e gerações. Hoje, praticamente meio século depois do êxito inicial, não há quem não lembre o grande cantor e o grande conjunto.
Edgar Pozzer, descendente de italianos que para cá emigraram e ajudaram a colonizar o interior gaúcho, sempre cultivou o canto e procurou honrar suas origens étnicas. Recebe hoje a justa homenagem.
Quando jovem ainda, foi eleito “Voz de Ouro do Brasil”, mas não quis deixar o Rio Grande. Tratava-se de um concurso realizado por uma emissora de rádio e tevê do centro do país, Edgar Pozzer no entanto preferiu ficar aqui, com os seus amigos. Que, em grande número estarão hoje à tarde na Câmara Municipal de Porto Alegre, atendendo à proposição do vereador Paulo Odone, que foi jovem nos bons tempos de Edgar e Baldauff.




O RIO GRANDE DO SUL ESTÁ MAIS POBRE: FALECEU TÂNIA FRANCO CARVALHAL
Walter Galvani, em 11/09/2006

Nesta segunda-feira comparecemos à cerimônia de cremação da grande mestra

A PERDA DE TÂNIA

Walter Galvani


Nossos melhores valores humanos, estes cultivamos cuidadosamente. Cercamos de atenções nossos amigos e cuidamos para que eles possam triunfar em suas pequenas, médias ou grandes ambições ou mesmo que não se possam catalogar como ambições, digamos, seus sonhos. Lutamos juntos.
Não aceitamos derrotas ou concessões. Não compreendemos a injustiça dos males físicos, a agressão da doença ou da incompreensão.
Assim foi conosco, com Tânia Franco Carvalhal. Assim foi comigo.
Eu a conheci menina, pouco mais do que uma “debutante” no já distante ano de 1958, mas não tão distante que possamos aceitar a sua morte, digo, a sua ausência, como algo compreensível.
Ela, tão terna, tão rigorosamente amiga dos seus amigos ou dos seus alunos, ela que construiu uma atenta e segura carreira intelectual, ora amparando um velho escritor aqui, ora resgatando a sua obra, para torná-la mais próxima de todos, mais, digamos, imortal. E logo ela foi nos deixar?
Não há resposta racional para isto.
Aos 62 anos, hoje pouco mais do que uma menina, pois nos habituamos já com os novos índices de longevidade e com uma produção tão brilhante e tão valiosa para a cultura gaúcha e no entanto, Tânia dobrou a esquina e nos abanou, com o seu sorriso leve de princesa, sabedora da própria realeza, mas incapaz de impô-la aos demais, apenas uma jovem senhora, mãe de dois filhos fortes, capazes, estimados.
Mario Quintana vai ter companhia. O último grande trabalho de Tânia foi a consolidação de sua obra para a edição completa feita agora, em pleno ano do seu centenário pela Pilar.
Guilhermino César, que quando já não podia mais ler, para ela apelava, terá também companhia.
Tantos que a amavam, respeitavam e admiravam, sem falar em sua família, no marido, nos filhos e netas.
Deixa os amigos, os ex-alunos, perplexos. Lecionou na UFRGS, na Sorbonne (Paris IV) e em Bloomington (Indiana) Estados Unidos.
Era, fruto da sua eficiente, tranqüila e dedicada atuação, a presidência da Associação Internacional de Literatura Comparada.
A beleza do seu corpo e a beleza do seu espírito desafiavam as costumeiras invejas e ciumeiras que acontecem e recebem sempre o nosso desprezo.
Ao aposentar-se recebeu a láurea de Professora Emérita pela UFRGS, a primeira mulher a receber tal distinção.
Adeus, Tânia. Leva o nosso agradecimento pela sua constante boa vontade, sua gentileza, seu bom humor, seu espírito de luta, sua sabedoria. Que teu exemplo nos ajude a todos. Os mais moços e os mais velhos.




UMA SEQÜÊNCIA DE CRAQUES
Walter Galvani, em 06/09/2006

Na mesma família, a de Ronaldinho Gaúcho, uma hierarquia que, no entanto, fere o princípio de defesa e proteção da juventude.

A PERDA DA INFÂNCIA
Walter Galvani

Diego Duran de Assis Moreira será alvo da inveja de seus amigos de 10 ou 12 anos de idade nos próximos dias. Mas, ele não é um herói. Até poderá ser um herói do esporte no futuro. No presente, é apenas uma vítima como as crianças sem pais, as meninas seviciadas (que, segundo dados apurados, são 25% delas), dos garotos que pedem dinheiro nos semáforos.
É pena, mas Diego, filho de Assis, irmão mais velho de Ronaldinho Gaúcho, será apresentado hoje como se fosse um craque de futebol já feito, com direito à fotografia e tudo.
Está mudando de clube, sai justamente do Grêmio onde estava nas chamadas “categorias de base” e está indo para o Internacional.
Além da troca de camisetas do maior rival local para o maior rival local, sacudindo o interesse de quase 100 por cento dos gaúchos, um menino de doze anos ser alvo das atenções que está vivendo, passando provavelmente a ter um salário alto (que possivelmente será negado) é um atentado contra a infância.
O que? Ele não é mais integrante da infância? Então, o que será? Adolescente como se apresentam hoje rapazes de quase trinta anos?
De qualquer forma é uma imensa anomalia e um grito de alerta contra a enormidade do mal que pode ser causado a outros tantos companheiros de... digamos, adolescência. Ou infância, para sermos mais claros.
É pena.
Deve ser um bom jogador, tem DNA, a família toda é de craques, pois tanto seu pai quanto seu tio alcançaram altíssimos níveis. O tio, mais que todos. Ainda ontem atuou na seleção do Brasil.
O meu alerta não é sobre o futuro craque. Espero ter vida e saúde para acompanhar sua brilhante carreira pois, daqui a alguns anos, quando ele estiver chegando à seleção do Brasil poderei contar aos meus netos que eu o vi nascer como jogador profissional. E não será uma fábula, nem uma lenda. Mas verdade verdadeira que, aos 12 anos, posou para fotos e filmes, cinema e televisão, jornais e rádios, como se fosse um super-craque.




QUEM ENCOLHE E QUEM SE EXPANDE NO RIO GRANDE DO SUL
Walter Galvani, em 05/09/2006

Os números, agora colocados na mesa pelo IBGE, ainda poderão ser discutidosatravés de reclamações dos interessados, até até à véspera da eleição: 31 de outubro.
Em todo o caso, é muito difícil que mudem muito a lista dos que crescem e dos que encolhem...


GAÚCHOS EM BUSCA DO MAR

Walter Galvani


Nunca foi o forte dos gaúchos, a residência junto ao litoral. No máximo, os habitantes do Rio Grande do Sul tem feito a migração anual que vem de longe, desde o tempo dos indígenas que viviam nesta região – comprovam-no os inúmeros sambaquis descobertos pelos pesquisadores modernos – em busca de melhor clima, fugindo do inverno.
Pois os últimos números de uma estimativa preliminar do IBGE ao demonstrarem onde vivem os 10.953.136 gaúchos, alinham os municípios que mais cresceram e lá estão, justamente, os litorâneos.
Entre os dez mais, com exceção apenas de Eldorado e Nova Santa Rita, ambos devendo sua expansão aos municípios-mãe, respectivamente Guaíba e Canoas, 80% dos que mais se expandiram estão junto ao mar. São eles, pela ordem:
Balneário Pinhal
Cidreira
Arroio do Sal
Imbé
Chuí
Capão da Canoa
Xangri-lá
Tramandaí
Na verdade, esta classificação ajuda na renda. O Rio Grande recebe uma média mensal de 140 milhões do chamado Fundo de Participação dos Municípios, que resulta da transferência que o governo federal faz de 22,5 % da arrecadação do Imposto de Renda e do Imposto sobre Produtos Industrializados. Cada município é contemplado de acordo com o número de habitantes.
Como interpretar o fenômeno da atração do Litoral Norte?
Alguns vêem os novos números como conseqüência “do fortalecimento dos serviços e da construção civil”.
Para esses interpretadores, é o que significaria o crescimento médio de 3,6% daqueles municípios, abstraindo-se ainda o Chuí, que é litoral sul, extremo, mas que pode creditar uma parcela do seu aumento populacional ao crescimento próprio, autóctone, causado pela intensa atividade comercial de fronteira com o Uruguai.
Nesse caso, levando em conta somente os sete da parte norte do Litoral, são 3.351 habitantes a mais do que no ano de 2005, embora não seja impressionante como número total de crescimento, quer dizer, sim, com a média de 3,6%, uma curiosa predominância que tanto pode ser interpretada como busca de trabalho, como opção por uma residência única, melhores condições de vida com a aposentadoria que permite residir permanentemente no litoral ou ainda, a necessidade de transformar um dos imóveis da família em moradia, enquanto o outro, na capital ou na região metropolitana, possa ser alugado.
Mas, isso só se saberá com certeza após uma pesquisa mais aprofundada, para trazer luz sobre estas opções, sem dúvida curiosas, instigantes e uma vez identificadas, esclarecedoras.
O Rio Grande caminha para o mar, abrindo uma nova frente de expansão, esquecendo os centos e cinqüenta anos de progresso que a imigração européia dos séculos XIX e XX trouxe para o interior, que é hoje uma fronteira esgotada, ou é a busca da solução econômica pura e simples?




BUSCA-SE O MAR OU A MELHORA ECONÔMICA E FINANCEIRA?
Walter Galvani, em 05/09/2006

Estes números,
apresentados pelo IBGE,
ainda podem ser contestados
porque significam dinheiro
e dinheiro grosso, do
governo federal.
A data final é a véspera das
eleições...


GAÚCHOS EM BUSCA DO MAR

Walter Galvani


Nunca foi o forte dos gaúchos, a residência junto ao litoral. No máximo, os habitantes do Rio Grande do Sul tem feito a migração anual que vem de longe, desde o tempo dos indígenas que viviam nesta região – comprovam-no os inúmeros sambaquis descobertos pelos pesquisadores modernos – em busca de melhor clima, fugindo do inverno.
Pois os últimos números de uma estimativa preliminar do IBGE ao demonstrarem onde vivem os 10.953.136 gaúchos, alinham os municípios que mais cresceram e lá estão, justamente, os litorâneos.
Entre os dez mais, com exceção apenas de Eldorado e Nova Santa Rita, ambos devendo sua expansão aos municípios-mãe, respectivamente Guaíba e Canoas, 80% dos que mais se expandiram estão junto ao mar. São eles, pela ordem:
Balneário Pinhal
Cidreira
Arroio do Sal
Imbé
Chuí
Capão da Canoa
Xangri-lá
Tramandaí
Na verdade, esta classificação ajuda na renda. O Rio Grande recebe uma média mensal de 140 milhões do chamado Fundo de Participação dos Municípios, que resulta da transferência que o governo federal faz de 22,5 % da arrecadação do Imposto de Renda e do Imposto sobre Produtos Industrializados. Cada município é contemplado de acordo com o número de habitantes.
Como interpretar o fenômeno da atração do Litoral Norte?
Alguns vêem os novos números como conseqüência “do fortalecimento dos serviços e da construção civil”.
Para esses interpretadores, é o que significaria o crescimento médio de 3,6% daqueles municípios, abstraindo-se ainda o Chuí, que é litoral sul, extremo, mas que pode creditar uma parcela do seu aumento populacional ao crescimento próprio, autóctone, causado pela intensa atividade comercial de fronteira com o Uruguai.
Nesse caso, levando em conta somente os sete da parte norte do Litoral, são 3.351 habitantes a mais do que no ano de 2005, embora não seja impressionante como número total de crescimento, quer dizer, sim, com a média de 3,6%, uma curiosa predominância que tanto pode ser interpretada como busca de trabalho, como opção por uma residência única, melhores condições de vida com a aposentadoria que permite residir permanentemente no litoral ou ainda, a necessidade de transformar um dos imóveis da família em moradia, enquanto o outro, na capital ou na região metropolitana, possa ser alugado.
Mas, isso só se saberá com certeza após uma pesquisa mais aprofundada, para trazer luz sobre estas opções, sem dúvida curiosas, instigantes e uma vez identificadas, esclarecedoras.
O Rio Grande caminha para o mar, abrindo uma nova frente de expansão, esquecendo os centos e cinqüenta anos de progresso que a imigração européia dos séculos XIX e XX trouxe para o interior, que é hoje uma fronteira esgotada, ou é a busca da solução econômica pura e simples?




BUSCA-SE O MAR OU A MELHORA ECONÔMICA E FINANCEIRA?
Walter Galvani, em 05/09/2006

Estes números,
apresentados pelo IBGE,
ainda podem ser contestados
porque significam dinheiro
e dinheiro grosso, do
governo federal.
A data final é a véspera das
eleições...


GAÚCHOS EM BUSCA DO MAR

Walter Galvani


Nunca foi o forte dos gaúchos, a residência junto ao litoral. No máximo, os habitantes do Rio Grande do Sul tem feito a migração anual que vem de longe, desde o tempo dos indígenas que viviam nesta região – comprovam-no os inúmeros sambaquis descobertos pelos pesquisadores modernos – em busca de melhor clima, fugindo do inverno.
Pois os últimos números de uma estimativa preliminar do IBGE ao demonstrarem onde vivem os 10.953.136 gaúchos, alinham os municípios que mais cresceram e lá estão, justamente, os litorâneos.
Entre os dez mais, com exceção apenas de Eldorado e Nova Santa Rita, ambos devendo sua expansão aos municípios-mãe, respectivamente Guaíba e Canoas, 80% dos que mais se expandiram estão junto ao mar. São eles, pela ordem:
Balneário Pinhal
Cidreira
Arroio do Sal
Imbé
Chuí
Capão da Canoa
Xangri-lá
Tramandaí
Na verdade, esta classificação ajuda na renda. O Rio Grande recebe uma média mensal de 140 milhões do chamado Fundo de Participação dos Municípios, que resulta da transferência que o governo federal faz de 22,5 % da arrecadação do Imposto de Renda e do Imposto sobre Produtos Industrializados. Cada município é contemplado de acordo com o número de habitantes.
Como interpretar o fenômeno da atração do Litoral Norte?
Alguns vêem os novos números como conseqüência “do fortalecimento dos serviços e da construção civil”.
Para esses interpretadores, é o que significaria o crescimento médio de 3,6% daqueles municípios, abstraindo-se ainda o Chuí, que é litoral sul, extremo, mas que pode creditar uma parcela do seu aumento populacional ao crescimento próprio, autóctone, causado pela intensa atividade comercial de fronteira com o Uruguai.
Nesse caso, levando em conta somente os sete da parte norte do Litoral, são 3.351 habitantes a mais do que no ano de 2005, embora não seja impressionante como número total de crescimento, quer dizer, sim, com a média de 3,6%, uma curiosa predominância que tanto pode ser interpretada como busca de trabalho, como opção por uma residência única, melhores condições de vida com a aposentadoria que permite residir permanentemente no litoral ou ainda, a necessidade de transformar um dos imóveis da família em moradia, enquanto o outro, na capital ou na região metropolitana, possa ser alugado.
Mas, isso só se saberá com certeza após uma pesquisa mais aprofundada, para trazer luz sobre estas opções, sem dúvida curiosas, instigantes e uma vez identificadas, esclarecedoras.
O Rio Grande caminha para o mar, abrindo uma nova frente de expansão, esquecendo os centos e cinqüenta anos de progresso que a imigração européia dos séculos XIX e XX trouxe para o interior, que é hoje uma fronteira esgotada, ou é a busca da solução econômica pura e simples?




DESFILARAM 1.200 NUMA CAPITAL...
Walter Galvani, em 03/09/2006

Lembrando que a imprensa destacou que 1.200 alunos desfilaram pelo início da semana da pátria, lembro, neste artigo publicado hoje no ABC DOMINGO, que éramos milhares e TODOS queriam ir às ruas, com as cores do Brasil.Agora só somos patriotas na hora do futebol.
E olhe lá...


AINDA SOMOS PATRIOTAS?



Walter Galvani





Ainda vale a pergunta? Somos ou não somos patriotas? Ainda vibramos quando chega o Fogo Simbólico? Ainda cantamos, com fervor, o Hino Nacional? Ainda nos arrepiamos de vibração patriótica quando vemos subir no mastro a bandeira do Brasil?

Vocês sabem como reagem os argentinos diante de fatos semelhantes? Os uruguaios? Peruanos, mexicanos, americanos, ingleses, franceses?

Vocês já viram a concentração e a devoção dos ingleses quando cantam “My country this of thee, sweet land of liberty?”

Lembro-me dos anos quarenta do século passado, quando a Tocha do Fogo Simbólico da Pátria era conduzida pelos melhores atletas de cada cidade e, de mão em mão chegava à Pira da Pátria. Ainda existe esta cerimônia, ou terá desaparecido junto com o seu criador, o jornalista Túlio de Rose?

Pira da Pátria, boa lembrança... Todos os municípios do interior gaúcho ainda possuem a sua Pira da Pátria? Ainda acendem o Fogo Simbólico nesta primeira semana de setembro?

Brasileiros que já assistiram à uma cerimônia esportiva no exterior, em olimpíadas ou copas do mundo, campeonatos internacionais ou apresentações da seleção brasileira, recordam com emoção o momento em que a bandeira do Brasil sobe ao alto do mastro, enquanto os atletas cantam unidos o hino nacional brasileiro. Já vimos todos, nesta era em que a televisão ao vivo minimizou as distâncias, quando e como o fazem os franceses, os americanos, os alemães, os argentinos, os espanhóis, os portugueses.

E então, fica a pergunta: será que ainda somos patriotas? Será que somos tão patriotas quanto eles?

A hora é agora.

Hoje, 3 de setembro, lembram? As bicicletas com as rodas enfeitadas com as cores verde e amarelo, o orgulho de portar as bandeiras, as bandas marciais, os tambores, as cornetas, o fogo, ah sim, o fogo simbólico aceso naquela última noite de agosto, em geral gelada ou chuvosa ou as duas coisas. E a certeza de que o “amor febril pelo Brasil” não era apenas um hino militar ou colegial a ser repetido ano após ano.

Tínhamos inimigos externos? Havia guerras, combates, traidores, colaboracionistas, patriotas, como eram as pessoas?

Parece que isso desapareceu há tanto tempo que nem lembramos mais. Mas, foi na primeira metade do século passado, pouco mais de cinqüenta anos que teve lugar aquela que é chamada “a única guerra justa de todos os tempos”, porque nela nos unimos todos para combater o mal representado pela ideologia fascista e nazista.

O perigo que a Humanidade corre é o esquecimento. Não a anistia, mas a deslembrança, o apagamento da memória. Perdoar é uma coisa, isso é bonito e fortalece os sentimentos humanos, não importa o que tenham nos feito.

Mas, junto com o esquecimento, com o perdão completo, é bom não esquecer os motivos que nos levaram á guerra. E como éramos patriotas, como era lindo ver subir a bandeira brasileira no mastro, ao sol, na primeira semana de setembro, porque estávamos reverenciando naqueles dias, o grito da Independência. Sim, sabemos, foi um príncipe português, o próprio pai dele e rei de Portugal havia aconselhado, “faça a independência do Brasil antes que algum aventureiro o faça.” Boa lembrança. Talvez tenha sido ele o primeiro patriota brasileiro. Ele, Dom João VI, e o filho, Dom Pedro I, do Brasil. Aliás, Dom Pedro IV de Portugal.

Quando só se fala em crimes, quadrilheiros, roubos, mortes, assaltos, pobreza, é bom lembrar um pouco dos bons e puros sentimentos que nos ajudaram a construir este gigante inigualável, cobiçado por todos.










A PRIMAVERA VEM AÍ
Walter Galvani, em 31/08/2006

Para quem já viveu 71 primaveras, o jeito é esperar pela próxima, já que agosto termina hoje.
No Brasil, é mesmo (e no mundo...) agosto, mês do desgosto.
Esta é a crônica que publico hoje noj jornal Diário de Canoas:


UFA, AGOSTO SE VAI...



Walter Galvani





Só quem acompanha a História de um modo geral e a política brasileira, de um modo particular, pode imaginar o que significa virar a última página do mês de agosto. Ufa, graças ao bom Deus!

Imaginem só que as piores tragédias da nossa vida pública, começando pelo suicídio do presidente Getúlio Vargas, se deram neste mês cunhado pelos romanos para homenagear o seu imperador supremo, Augustus, mas para eles também aziago.

Foi num dia de agosto que se deu a pior erupção do Vesúvio em todos os tempos, aquela que destruiu Pompéia e Herculano e foi também num dia de agosto que os bárbaros, comandados por Alarico (“o flagelo de Zeus”) invadiram, saquearam e incendiaram metade de Roma.

Lisboa curtiu dois terremotos ao longo de sua história, sempre em agosto e no dia 24, deu-se a famosa “Noite de São Bartolomeu” em que os hugenotes foram massacrados na França.

E assim foi indo este misterioso mês que, no Brasil gerou as crises da morte de Getúlio, da renúncia de Jânio Quadros, e da cassação de Fernando Collor de Melo, processo iniciado neste fatídico mês.

De desgraça em desgraça, cunhou-se até uma expressão em língua portuguesa: “Agosto, mês do desgosto”. Assim, não é, sem dúvida, uma força de expressão, mas um alívio ver o mês chegar ao final.

No Hemisfério Norte é o mês das férias, mas, nem por isso menos azarado historicamente. Nós aqui no sul, ainda curtimos, além de tudo, este frio terrível e se costuma dizer que, quem escapa de agosto vai até, pelo menos, o agosto seguinte...

Não é por nada não, mas em geral é mesmo o que sucede.

E além de tudo, o dia 31 não é menos azarado do que os demais dias do mês.

Vejam e leiam a coleção de desgraças do dia:

12 – Nasce Calígula, imperador romano

1422 – Morre Henrique V, da Inglaterra e Henrique VI, com nove meses, ascende ao trono...

1867 – Morre o poeta Charles Pierre Baudelaire

1969 – Morre Rocky Marciano, pugilista norte-americano

1973 – Morre o diretor de cinema americano John Ford

1986 – Morre o escultor britânico Henry Moore

1997 – Morre Lady Di, em acidente de carro, depois de uma perseguição por fotógrafos em Paris.



Já o tal de dia 24...



79dc - Vesúvio destrói Herculano e Pompéia

Morre Plínio, o Velho, erudito e escritor romano

410 – Os visigodos, comandados por Alarico I, saqueiam e ocupam Roma

Alarico I o rei dos visigodos, morre no combate

1356 – A cidade de Lisboa é atingida por violento terremoto

1572 - Noite de São Bartolomeu - morte de milhares de inocentes. Carlos IX ordena o massacre dos huguenotes em toda a França; em Paris, milhares foram mortos. Huguenotes era o nome dados pelos cristãos aos protestantes calvinistas. Calvino (1509-1564) partidário da Reforma, lutou pela implantação de uma república teocêntrica. Pregava o retorno à simplicidade do cristianismo primitivo, mantendo apenas dois sacramentos: o batismo e a eucaristia.

1814 – Forças britânicas tomam Wanshington e incendeiam a Casa Branca

1820 – No Porto, início da revolução liberal de Dom Miguel contra seu irmão, Pedro I do Brasil e futuro Pedro IV de Portugal

1954 - Suicida-se o presidente Getúlio Vargas, no Palácio do Catete.

1988 – Um dos maiores incêndios da história destrói em Lisboa parte do Chiado. Queimam os Armazéns do Chiado e os Armazéns da Grandela. Reconstruídos e reinaugurados no ano 2000.

1992 – Fernando Collor de Melo é acusado de corrupção passiva e desprezo à Constituição. Acabou cassado.



Precisa mais? Totofun, agosto!






VIVA O VINHO!
Walter Galvani, em 28/08/2006

Com muita satisfação registrei na edição de domingo do ABC DOMINGO
a redenção da bebida dos deuses...
Em nome da saúde...


QUE VIVAM OS FLAVONÓIDES



Walter Galvani





Palavras mágicas. Agora, só se fala em polifenóis, resveratrol e flavonóides. Misteriosos termos científicos que transformam nosso vinho de todos os dias em poção mágica que nos há de levar até muito além da imaginação, garantindo uma sobrevida inesperada e com alta qualidade. Sem os temores pelo mal de parkinson, o alzheimer e outras ameaças tenebrosas da quarta idade.

Quem o afirma é uma entidade como a Universidade Federal do Rio de Janeiro que pesquisou e apresenta os resultados.

Já sabemos agora que o bom vinho gaúcho, mesmo aquele robusto colonial de garrafão, carrega em seu seio as sementes da longevidade. Tinto, esquecia-me de dizer. Demos preferência aos tintos, embora os brancos não devam ser desprezados, desde que, na sua composição tenham entrado as cascas da fruta. Penso nisso e reflito: uvas, sim, comamos uvas, independente da idéia de consumir (com moderação, é claro) o casto produto engarrafado.

Finalmente estamos diante da absolvição completa da bebida que originou tão medonha discussão que perturbou Noé e seus filhos, para começo de conversa.

No almoço deste domingo, depois da leitura do ABC, me deliciarei com uma boa carga de polifenóis e iniciarei minha tarde com uma bíblica sesta.

Só depois disso vou pensar no Oriente Médio, nas candidaturas brasileiras, no seqüestro de Natasha, no exame do ENEM, no rebaixamento de Plutão, agora um planeta de segunda divisão, na vacinação contra a pólio e outras questões que interferem com a nossa felicidade.

Terei ganho, quem sabe, alguns anos de vida. Afinal, qual a razão para este sofrimento diário, para correr atrás do prejuízo, perseguir o assunto, lutar com as palavras, que, como se sabe, “é luta vã, no entanto lutamos mal rompe a manhã”?

Saber que os festivais prosseguirão, que os bandidos continuarão fugindo das prisões, que continuaremos defendendo os amigos publicamente, mesmo que eles tenham agido errado, que a vida é uma só, que é preciso cantar, que os políticos, bem, a lei eleitoral, enfim...

Faço como aquele amigo que não dorme mais por duas razões: primeiro pela alegria do seu Inter haver conquistado o título de campeão da América e em segundo lugar porque teme que no jogo final com o Barcelona (ele já nem admite o confronto inicial com o campeão da Ásia ou da África), pois, no jogo final, dizia eu, gol de Ronaldinho Gaúcho que corre, abre a camisa e por baixo dela está lá a tricolor, a do eterno rival. Eis o seu pesadelo repetitivo.

Então, é preciso dormir, uma longa sesta, depois do gratificante e tonificante vinho repleto de flavonóides.

Nada mais a fazer neste domingo. A não ser acreditar na humanidade, confiar no progresso, na redenção dos pecados e na vida eterna, amém. Como Noé. Como qualquer outro justo que habitou ou habita esta terra e que não acredita que um irmão de sangue, por questões de crença ou fé religiosa, ou posse da terra, possa defrontar-se com outro irmão. Ou por cobiça, má fé, inveja, ódio.

Só no resta desejar ao irmão/amigo, ao antigo competidor, adversário ou até inimigo, a plenitude do paraíso, que está, sim, ao nosso alcance. Trata-se apenas de uma questão de visão ou, melhor dito, de recepção de polifenóis que podem ajudar a construir uma felicidade inacreditável. Com o benefício extra da saúde.

E depois disso tudo?

Saúde, e que vibrem nossas taças!












O PAPA E GUNTER GRASS ESTIVERAM JUNTOS NA JUVENTUDE HITLERISTA É o que não deixa dúvidas a última entrevista do escritor premiado, Gunter Grass
Walter Galvani, em 27/08/2006

A agência EFE distribuiu hoje esta notícia.
É bom prestar atenção nela e pensar que mesmo um Papa que foi membro da juventude hitlerista, pode ter algo para nos dizer.







Agência EFE


17:35 27/08


O papa Bento XVI pediu hoje aos pais cristãos que "acompanhem de forma exemplar e oração o caminho dos filhos" e às mulheres que mantenham a confiança em Deus em momentos de angústia caso seus filhos estejam seguindo "por caminhos equivocados".



E segue assim a notícia:


"Bento XVI, na tradicional oração do Ângelus em sua residência de férias de Castelgandolfo, fez ainda um apelo em favor da proteção da natureza, para que seus recursos não sejam dilapidados e que possam ser compartilhados de forma solidária.

O papa falou sobre o filósofo Santo Agostinho, que em sua adolescência "se lançou" sobre a beleza mundana, e de sua mãe, Santa Mônica, que realizou um "longo trabalho espiritual, feito de orações e lágrimas, coroado no final com a alegria de ver o filho não apenas abraçar a fé", como "dedicar-se totalmente ao serviço de Cristo".

Bento XVI lembrou que também hoje existem muitas "dificuldades" nas relações entre familiares, assim como mães "angustiadas porque os filhos possam estar seguindo por caminhos equivocados".

Santa Mônica, "mulher sábia e de fé, convida vocês a não desanimarem, a perseverarem na missão de esposas e mães, mantendo firme a confiança em Deus e realizando orações", comentou o papa."

Em seguida, segundo a notícia da agência EFE, Bento XVI pediu que o exemplo de Santa Mônica "encoraje e ajude os pais de família em sua nobre missão de educar seus filhos de forma cristã". O papa lembrou ainda que a Igreja Católica na Itália realizará, no próximo dia 1º, a primeira jornada para a "salvaguarda da natureza", "grande dom de Deus exposto a sérios riscos pelas escolhas e estilos de vida que podem prejudicá-la".

A degradação do meio ambiente "torna insustentável em particular a existência dos pobres da Terra", acrescentou Bento XVI."
Que baita cinismo, hein?
Quem sabe o apoio da Igreja Católica às forças da repressão nos países onde se tentou fazer uma revolução social, deva ser mais responsabilizada?
E finaliza assim a agência:

"O papa disse ainda que, "em diálogo com os cristãos de diversas confissões, é necessário que todos se comprometam a cuidar da natureza, sem dilapidar seus recursos e com o objetivo de compartilhá-los de forma solidária".





LER E ESCREVER
Walter Galvani, em 25/08/2006

Rosa Montero, a grande
escritora espanhola, nos
dá uma pequena lição na
abertura do seu celebrado
livro:


"A LOUCA DA CASA"

Rosa Montero

Ediouro, Rio de Janeiro, 2004


“Nós inventamos nossas lembranças o que é o mesmo que dizer que inventamos a nós mesmos, porque nossa identidade reside na memória, no relato da nossa biografia. Portanto, poderíamos deduzir que os seres humanos são, acima de tudo, romancistas, autores de um romance único cuja escrita dura toda a existência e no qual assumimos o papel de protagonistas. É uma escrita, naturalmente, sem texto físico, mas qualquer narrador profissional sabe que se escreve sobretudo dentro da cabeça. É um runrum criativo que nos acompanha enquanto estamos dirigindo, ou levando o cachorro para passear, ou na cama tentando dormir. A gente escreve o tempo todo.”
“Há muitos anos que venho fazendo anotações em diversos caderninhos com a idéia de escrever um ensaio sobre o ofício de escrever. O que é uma espécie de mania obsessiva dos romancistas profissionais: quando não morrem prematuramente, todos eles padecem, mais cedo ou mais tarde, da imperiosa urgência de escrever sobre a escrita, de Henry James a Vargas Llosa, passando por Stephen Vicinczei, Montserrat Roig ou Villa-Matas, para citar alguns dos livros que mais me agradaram.”
“Eu também senti a furiosa chamada desta pulsão, ou desse vício, e dizia que vinha anotando idéias há um bom tempo quando fui percebendo, pouco a pouco, que não podia falar da literatura sem falar da vida; da imaginação sem falar dos sonhos cotidianos; da invenção narrativa sem levar em conta que a primeira mentira é o real. E, assim, o projeto do livro foi ficando cada vez mais impreciso e mais confuso, coisa por outro lado natural, ao ir-se misturando com a existência”.
“De fato, escrever romances é a coisa mais parecida com apaixonar-se que já encontrei (ou melhor, a única coisa parecida), com a apreciável vantagem de que na escrita não se precisa da colaboração de outra pessoa. Por exemplo: quando você está mergulhado na paixão, vive obcecado pela pessoa amada a ponto de ficar o dia inteiro pensando nela; escova os dentes e vê seu rosto flutuando no espelho, está dirigindo e confunde a rua porque foi perturbado por essa lembrança, tenta dormir à noite e, em vez de deslizar até o interior do sono, você cai nos braços imaginários do seu amante. Pois bem, enquanto está escrevendo um romance você vive nesse mesmo estado de espírito de delicioso alheamento: seu pensamento é inteiramente ocupado pela obra, e toda a vez que dispõe de um minuto, mergulha mentalmente nela. Também se engana de esquina no trânsito, porque, igualzinho ao apaixonado, sua alma está entregue e em outro lugar.”
Pgs. 8, 9 e 10






LEITURA É O ASSUNTO
Walter Galvani, em 22/08/2006

Meu recado de hoje: leitura, leitura e muita leitura.
E se der: escreva todos os dias.


AFETO DE ALUNOS

“Um aluno aprende aquilo que é ensinado por um professor de quem goste.”
Miguel Santos Guerra no livro “Arqueologia dos Sentimentos”, Edições Asa, Lisboa, 2006.

A CONQUISTA DA LEITURA

“Aprendeu também como se deve viver o prazer de ler, estar disponível para a leitura, ler tudo com espírito crítico, ler de novo o que não se compreendeu no momento.”

Luísa Lobão Moniz, no jornal “Jornal de Letras e Artes”, de Lisboa, em junho de 2006.

O PRAZER DA LEITURA

“Não há talvez dias na nossa infância que tenhamos tão intensamente vivido como aqueles que julgamos passar sem tê-los vivido, aqueles que passamos com um livro preferido.”

Marcel Proust, em “O prazer da leitura”, da Editora Teorema, Lisboa.




FUTEBOL, UMA ESPÉCIE DE INDÚSTRIA...
Walter Galvani, em 20/08/2006

Estamos colocando nossos "produtos"
no rico mercado externo. Crônica publicada
hoje no ABC DOMINGO, jornal do
Grupo Editorial Sinos:


PRODUTOS DE EXPORTAÇÃO



Walter Galvani





A alegria, a música, os astros do esporte, são os produtos de exportação legitimamente brasileiros e que tem nos garantido, ao longo destes anos de indiscutível e crescente globalização, um saldo favorável nas contas com o exterior. Por certo não tem sido a produção de armas, aviões, navios e automóveis que isso ocorre e nem tampouco na troca de bens de consumo e muito menos de bens e valores culturais. Nossa balança de pagamentos não se inclina a nosso favor pelos prêmios e medalhas em artes e espetáculos, nem tampouco nas conquistas de títulos no exterior.

Mas, com no mínimo três seleções de jogadores de futebol atuando em clubes no exterior, agora engrossadas por Rafael Sobis (Milan), Tinga (Borussia Dortmund) e Bolívar (Mônaco), os três colorados que chegaram lá valorizados com a conquista da “Libertadores”, mais os respectivos núcleos de torcedores que se formam com nossos estudantes, donas de casa, empregadas domésticas e ainda algumas “dançarinas”, temos uma parcela de remetentes de dólares e euros que podem contribuir para este nosso inesperado patrimônio.

Até aqui tudo bem, o jeito é tentar descobrir até que ponto poderemos alimentar este desequilibrado mercado e assim suprir nossas necessidades.

Já sabemos que, além do esporte, o Brasil pode entrar com a conta do turismo para favorecer suas finanças sempre abaladas pelo descompasso entre geração de riquezas e consumo.

Os países tem suas vocações e, por vezes, leva-se séculos para alterá-las. Muitas vezes, nem em séculos se muda algo que parece haver nascido com o espírito do povo que se consolidou como uma nação. O que é improvável, isso sim, é a eternidade destes conceitos. No entanto, desde que se inventou o conceito de pátrias e se intensificaram com isso os conflitos por territórios, reservas minerais, petróleo, lavouras, campos, e em breve futuro, água e alimentos, tivemos guerras, guerrilhas, agressões, bombas, terrorismo, como forma de forçar o diálogo dos surdos diante dos apelos e dos desprovidos da razão.

O século XXI poderá melhorar este índice de relações e alterar estes conceitos?

A mostra é pobre. O que ocorre no Oriente Médio não parece apontar para uma tendência de melhora. Líbano, Israel, Jordânia, Palestina, Arábia Saudita, Iraque, Síria, são bem a mostra dos “irmãos separados” que jamais irão se entender sobre a herança comum que lhes cabe repartir.

Conseguirão eles dar-se partes iguais do testamento das doze tribos? Não. Eles constituem-se em milhões e milhões de pretendentes, candidatos ao legado religioso e legal e não abrem mão de suas convicções.

E é aqui que entra a maior contribuição brasileira. Um solo tão vasto e tão rico, uma aceitação dos diferentes e separados tão exuberante, que não fica nenhuma dúvida sobre a possibilidade de convivência e trocas, mais uma vez dentro dos critérios absurdos e incompreensíveis para os demais, de tolerância recíproca. Esta é a verdadeira riqueza brasileira. Por mais incompreensível, ilógica ou irreal que nos pareça e não só a nós, principalmente aos melhores estudiosos do mundo inteiro.

E é então que entra a magia do esporte como fator agregador. Todos torcem para seus países nas copas do mundo de seleções ou inter-clubes. Mas, o que parece estar no coração de todos, é sempre o Brasil. Um absurdo, em matéria de lógica, mas um reflexo indiscutível da realidade.

Que fazer? Aproveitar este “sonho” para transformar em ouro, como um alquimista da Idade Média faria com o mais vil metal, tal como os italianos fazem com o “design”.




GRAMADO, POR QUE É IMPORTANTE
Walter Galvani, em 16/08/2006

Volta a falar em Gramado, onde se
desenrola o Festival de Cinema mais importante do Brasil.


Falei,nas duas minhas últimas inserções
neste site, sobre o significado em minha vida e minha atividade profissional,
do festival da pequena cidade serrana
que hoje se transformou num grande
acontecimento cultural, dos maiores
do estado do Rio Grande do Sul, aqui
no extremo sul do Brasil.
Recebi, e quero transcrever aqui, a
manifestação do prefeito municipal daquela cidade, Pedro Bertolucci.
Disse ele em seu ofício:

"Gramado fica honrada em ter um jornalista
de tamanha importância como apoiador e
incentivador do nosso Festival de
Cinema.
O reconhecimento por nossa cidade em sua
coluna mostra aos olhos da sociedade a
força de uma comunidade que batalha
pelo desenvolvimento sócio-cultural.
Gramado agradece."

Publiquei a crônica referida originalmente no jornal ABC DOMINGO, do Grupo Editorial Sinos e reproduzi-a aqui em meu site.

Estendo meu agradecimento e as minhas homenagens a todos os que batalham, sinceramente, pelo engrandecimento de
uma grande comunidade.
E ao "povo do cinema". Que merece isso e muito mais.




FIDEL CASTRO COMEMORA 80 ANOS MAS, FALO DO FESTIVAL DE GRAMADO
Walter Galvani, em 13/08/2006

Devido à importância em nossas vidas, estou falando hoje, no ABC DOMINGO, do Festival de Cinema de Gramado que botou no mapa do mundo, o nome da nossa modesta (outrora) cidade serrana

O FESTIVAL, A LIC E NÓS
Walter Galvani


Um dos primeiros amigos que fiz em Gramado, na década de cinqüenta do século XX, foi um inglês, Mr. George Fox que se tornou meu contato e inspirador de novas amizades ao longo dos anos. Quando morreu, deixara-me um belo ramalhete de relações na então pequena cidade que só ensaiava os primeiros passos como estação turística e sempre alinho entre tantos, o atual prefeito, o Enoir Zorzanello, a Sílvia e a Marta Rossi e tantos outros e tão preciosos seres humanos.

Também fiquei sabendo das disputas e lutas políticas locais, mas isso existe em toda a parte e com 51 anos de jornalismo e quase outro tanto de literatura, dez livros publicados, no quarto ano como conselheiro do estado, professor e viajante inveterado, não iria me admirar das competições, discórdias ou acalorados debates.

O velho Mr. Fox tornou-se meu modelo. Já nem lembro mais das suas doces palavras, pois uma criatura como ele só seria capaz de expelir doçuras, mas sim do conteúdo de algumas observações sobre o trabalho, rivalidades, a separação entre o que importa e o que é dispensável e irrelevante. Sobre Gramado, sempre dizia: “No futuro dirão que isso aqui é uma pequena Suíça ou Alemanha.” Acertou na mosca, Mr. Fox, pena que o senhor não viveu para contemplar a obra que ajudou a nascer. Como o Festival de Cinema que tive a sorte de ajudar também, desde o primeiro dia, quando o jornalista P.F.Gastal, voltando de Punta del Este e Mar del Plata, onde eu o mandara como “enviado especial” da “Folha da Tarde”, cuja redação me tocara chefiar pela primeira vez de 67 a 71, justamente para aprender os “macetes” de um festival, subiu a Serra para trocar idéias com nossos amigos gramadenses, buscando apoios para esta idéia hoje consolidada. Que começou devagar é claro, depois cresceu, desatou numa corrida louca, talvez perdendo a noção da própria grandeza, recuou, foi nacional, internacional, apenas latino, esqueceu o que era ser latino e não teve coragem de incluir certos “cinemas” que se tornariam irremovíveis campeões de “Kikitos”, e anda às vezes, por aí, indefinido.

Beneficiou-se de verbas especiais da cultura, de apoios consagradores de grandes patrocinadores, de pequenos e indispensáveis aportes municipais, descobriu a Lei Rouanet, a LIC, enfim, transitou por onde deu, sempre procurando solidificar-se, até transformar-se num grande fator de desenvolvimento estadual e nacional.

E foi assim que desembocou nesta 34ª. edição, e se viu tolhido por prestações de contas errôneas ou defeituosas, que o Tribunal de Contas investiga. Embora tendo que cortar na própria carne, o Festival de Cinema de Gramado caminhou e o Conselho de Cultura aprovou o projeto que agora participará da sessão de avaliação coletiva.

Soube até que uma patrulha contábil invadirá a cidade serrana disposta a medir, pesar e avaliar a papelada que, por conta de um empreendimento desta natureza, é tão grande.

Estou feliz como conselheiro pela decisão. Tenho a convicção de que não faltarão parceiros para ajudar o projeto e estarei de mãos livres e consciência tranqüila para aclamar os ganhadores, fazendo votos para que o júri proceda com a independência e a lisura que caracterizam as pessoas ora convidadas.

Como Comendador das Hortênsias, não irei, no entanto, até lá. Sinto que o meu velho coração, embora receba o bombeamento de uma válvula há pouco estreada, primorosamente feita de silicone, não resista às pressões, assim como já foi difícil suportar a longa jornada através dos trâmites burocráticos e legais.









GRAMADO PASSOU POR UM TRIS...
Walter Galvani, em 11/08/2006

Tris? O que é isso mesmo? Uma "voz" onomatopaica usada na língua portuguesa para explicar que alguma coisa escapou, por uma fração de segundo, ou algo assim.
O Festival de Cinema de Gramado será levado à avaliação coletiva de setembro e os recursos somente serão liberados se as prestações de conta das edições anteriores estiverem em dia.
O que é correto.
Porém... leiam o que escrevi há três anos e republico hoje:


COMECEI COM GRAMADO

Walter Galvani


Gramado emancipou-se em 1954 e naquele ano, difícil para a vida nacional com o suicídio do presidente Vargas, motivado por este fato que abalou a nação inteira, encaminhei-me para o jornalismo. Foi mais ou menos assim: estávamos pensando em criar um jornal que seria em nossa “modesta” opinião, a “Expressão” de nossa geração. Ganhou este nome, durou seis meses e morreu. Em fevereiro do ano seguinte, entrei para o “Correio do Povo”. Gramado recém se emancipara. E talvez por esta coincidência, logo me senti ligado ao novo município e comecei a apoiar suas iniciativas.
Foi assim que acabei me integrando logo na I Festa das Hortências, opa, das Hortênsias. Não tínhamos lá muita segurança sobre a grafia certa: seria Hortência com C ou Hortência com S?
Pois, antigamente os dicionários registravam as duas formas. Mas, o Houaiss que modernamente usamos, consagrou a forma com S. Sucede que, representando o Dpto. de Promoções da Caldas Júnior, mandei fazer as faixas para a Rainha e as Princesas das Hortências, assim mesmo, com C. Não sei como, mas na hora da coroação, o pessoal de Gramado salvou a gramática e, provavelmente, o meu emprego e as meninas surgiram garbosamente, com a grafia certa...
Os anos se passaram e subi para outras posições nos jornais em que atuava, “Correio do Povo” e “Folha da Tarde”, “Folha Esportiva”, “Folha da Manhã”. Levado pela mão do nosso chefe de sucursal em Novo Hamburgo, o jornalista Vinícius Bossle, comecei a freqüentar Gramado, à cada festa, em vários fins de semana, e a escrever crônicas, artigos, reportagens.
Quando chefiei a redação da “Folha da Tarde” (1967 a 1971),enviei o P.F.Gastal, nosso cronista cinematográfico, à Punta Del Este e à Mar Del Plata para os festivais de cinema. Na volta, peguei-o pelo braço e disse: “Gastal, agora que você sabe tudo de festivais, porque não promovemos um Festival de Cinema em Gramado?”
Aliado com os grandes empreendedores gramadenses, que sempre acreditaram em sua cidade, surgiu o imbatível, o maior do país, o Festival de Cinema de Gramado. Graças ao nosso P.F.Gastal, e aos fantásticos gramadenses.
Mais adiante, aprofundei minhas amizades e relações na cidade, descobri Marta Rossi, Pedro Bertolucci, o Perini, o Eloir Zorzanello e a Sílvia, ah, e o inesquecível Mr. Fox, um inglês que trabalhou anos na Shell e apaixonou-se por Gramado, onde passou uma boa parte de sua vida, até falecer. Lá pelas tantas me deram a comenda da ordem... “das Hortênsias”. E eu que vinha junto desde a Emancipação em 1954, que passara pela I Festa das Hortências, digo das Hortênsias... (1958), a I Mostra de Cinema em 68, o I Festival em 1973 e o I Natal Luz em 85, senti-me gratificado, confortado e agradecido.




CANHÕES E BOMBAS
Walter Galvani, em 07/08/2006

Será que os homens ainda são capazes
de se ouvir uns aos outros?
Esta crônica foi publicada ontem, domingo, antes do fim-de-semana de terror
em São Paulo e no Líbano...
outra vez, no ABC Domingo.
Até quando massacrarão a nossa paciência e
a nossa tolerância?


A VERDADE PERDEU A GUERRA

Walter Galvani


Durante a chamada “Primeira Guerra Mundial”, aquela que envolveu países europeus entre 1914 e 1918, muito se escreveu sobre a grande derrotada no conflito: a Verdade. Depois, entre 39 e 45, na “Segunda”, dizia-se que a Imprensa havia ganho a batalha da informação, mas perdera a da ética, até porque alguns fatos até hoje jazem inexplicados, tombados pelos interesses nacionais. Como, por exemplo, o bombardeio de Dresden em 45, as bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki, o bombardeio de Tóquio, ou, na primeira fase do conflito, a invasão da Polônia, o massacre dos russos e as bombas voadoras alemãs que buscavam seu alvo em Londres guiadas pelo cérebro maquiavélico e privilegiado de Von Braun, o mesmo que migrou no final do conflito e botou os americanos na Lua.
Dia desses, um dos maiores nomes da imprensa brasileira, Alberto Dines, o homem que comandou a reforma do “Jornal do Brasil” que, por seu turno, fez inúmeros filhos e netos pelo restante do país, ajudando a montar um jornalismo comprometido e subjetivo, em resposta a falsa objetividade dos tempos da última guerra, compôs agora o seu “Réquiem para a Era da Informação”. Seu primeiro parágrafo: “A imprensa é um Poder. Porém, impotente. Pode tudo: derrubar tiranias, punir corruptos, denunciar barbaridades, reparar injustiças, persistir na busca da verdade. Também é capaz de proteger déspotas, mascarar crueldades, submeter-se aos demagogos, acobertar a opressão, corromper e confundir. Mas a Imprensa não conseguiu ao longo de 58 anos interromper a carnificina no Oriente Médio. Muito menos desativar os ressentimentos que a produziu.”
O grande mestre da comunicação nacional, enredado na rede que ele próprio criou, cai no fundo do gol, reclamando que não conseguiu a sua arte, através da própria atuação, desmontar a armadilha e produzir a paz.
Quem disse que somos onipotentes?
São, de fato, 58 anos, ou alguns milhares que estão por trás deste desentendimento cruel que gerou e continuará gerando o conflito no Oriente Médio?
Alguém sabe por que lutam hoje os palestinos, israelenses, árabes, sunitas, chiitas, muçulmanos, ateus, católicos ou coptas, israelitas ou grego-sismáticos?
Será pelo rito, pelas cerimônias, pela Pedra da Kaaba, por Meca e Medina, pelo templo de Salomão, pela manjedoura de Nazaré ou pela Cruz do Gólgota?
Não, amigos leitores deste domingo de paz aqui em nossa região, os homens é que não querem ver a amizade e a paz nos olhos dos outros homens. Pois não foram capazes de se engalfinhar numa modesta capital regional como Porto Alegre, num estádio a mais neste país de futebolistas, por causa de uma humilhação esportiva? Imaginem eles com a cruz e o alfanje nas mãos, com a hóstia ou o pão sagrado, com o respeito pela sexta-feira dos muçulmanos, o sábado dos israelitas ou o domingo dos cristãos, com a fixação nos sacrifícios animais dos “filhos da África” como em Cuba e Miami, pela vida ou pela morte de outras pessoas?
Quanto fanatismo, do Santo Sudário ao Código Da Vinci, das hipocrisias e das mentiras, do cinismo e das falsas promessas de amor pelo próximo!
Dia 14 de maio de 1948, quando acabou o mandato inglês na Palestina e, por delegação da ONU, criavam-se dois estados, um palestino, outro judeu, enterrava-se no seio da terra desértica, a semente da bomba que se alastraria por todos estes cinqüenta e tantos anos. No entanto, o que se disse e se fez depois disso? Teria a Imprensa, como o tal de “quarto poder” força suficiente para aplacar a belicosidade e dissolver as injúrias? Ainda lembramos do “Paz na terra aos homens de boa vontade”?




FIDEL CASTRO
Walter Galvani, em 03/08/2006

Ou quem sabe falemos
do bombardeamento do
Líbano?
Esta crônica está publicada
hoje nas páginas do
"Diário de Canoas", jornal
do Grupo Editorial Sinos que circula
em Canoas, minha terra natal


O QUE ACHAS DE FIDEL?

Walter Galvani


O fato de haver conquistado o prêmio “Casa de Las Américas” com o meu “Nau Capitânia” não me torna, automaticamente, súdito de Fidel Castro ou seu eleitor, em caso de uma rápida democratização de Cuba. Propiciou-me, isso sim, duas viagens à Cuba, nas quais tratei de descobrir como funcionavam as coisas na ilha e se as pessoas, acima de tudo, eram felizes ou infelizes depois do furacão que se abateu sobre sua pátria.
Foi assim que lá fui parar no início de 2002 e depois retornei em 2004, primeiro para receber o prêmio e fazer um pronunciamento e depois para integrar o júri que escolheu os melhores de 2003. Tudo isso foi num tempo que já me parece distante pois, depois disso, passei por um “longo e tenebroso inverno” internado num hospital, onde os médicos providenciaram a substituição de uma válvula do meu coração, acreditando eles que o bombeamento estava definitivamente comprometido e que eu iria passar “dessa para melhor”. A troca de peças foi feita, fiquei aqui, mas, estranhamente não mudei.
Pensei que iria deixar de acreditar em Papai-Noel, Coelho-da-Páscoa’ e sinceridade dos homens e não é que não mudei em nada?
E entre os meus ícones pré-operatórios se alinhava Fidel Castro. Consegui vê-lo “de lejos” quando estive em Cuba, conheci os locais onde ele se apresentaria e alguns dos seus amigos e admiradores mais chegados. Não escutei nenhuma crítica, mas, é natural, era de se esperar que não se queixassem dele naqueles círculos que freqüentei. Ao contrário, vi coisas incríveis como automóveis importados andando pelas ruas de Havana, ao contrário da divulgação mais comum de que lá “só há calhambeques”. Não é verdade. Fotografei carros Mercedes e muitos Renault, Toyotas, etc.etc.
Vi pobreza e uma certa riqueza. E aproveitei para assistir ao magnífico documentário “Suíte Habana”, que mostra a desesperança e as dificuldades em que vivem os cubanos.
Ninguém me negou isso. Ao contrário, fiz amigos como todo o pessoal do “Instituto Casa de Las Américas” e aqui estou torcendo por eles. Não quero que Cuba seja transformada em novo Iraque ou Líbano e que os vizinhos poderosos que conhecemos resolvam “treinar” (para eles seria isso, apenas um “treino”) na “caliente” ilha de Fidel.
Acho que, no momento em que ele for substituído – e isso pode acontecer agora – tudo pode mudar. Sim, acho.
Acredito que a ilha possa ser “redemocratizada” nos modelos americanos, ou seja, com o predomínio do capital, algo assim como a implantação de um “liberalismo”, mas temo que o povo perca certas conquistas como o “tratamento total e igualitário de saúde” ou o “livre acesso ao ensino”.
Você sabia que o índice de analfabetismo em Cuba é inferior a 2 por cento?
Pois é.
Li na “Proclama del Comandante em Jefe al pueblo de Cuba” que delega em caráter provisório suas funções de presidente do Conselho de Estado e do Governo da república de Cuba a seu irmão Raúl Castro Ruz e também passa a ele as funções do Progama Nacional e Internacional de Saúde Pública. Passa a Raul “otras cositas” e também cita companheiros como Carlos Dávila, Ramón Ventura, José Ramón Balaguer ou Felipe Pérez Roque. Ponto para mim. Este último, conheci-o pessoalmente. Não sei se lhe sobrará algo do legado. Ou se haverá legado. Mas, recordo a simpatia com que Felipe falou do Brasil e da forma entusiástica com que se referiu, então como Ministro de Relações Exteriores, à união dos povos americanos. Os velhos símbolos e os velhos valores. Será que resistem, se houver mudança?




FIDEL CASTRO OU ORIENTE MÉDIO?
Walter Galvani, em 01/08/2006

A "mídia" internacional
se ocupa de alguns temas
que podem,realmente, modificar
a vida que se leva neste mundo.
Mas, as escolhas, nós também
podemos fazer...


SANGRAMENTO DE FIDEL
OU O SANGRAMENTO
DO ORIENTE MÉDIO?

O que você prefere ver estancado mais rapidamente?
O “sangramiento sostenido que me obligó a enfrentar una complicada operación quirurgica”, provocando “uma crisis intestinal aguda” ou o sangramento do Oriente Médio, onde o Hezbollah e Israel se digladiam?
Onde já morreram mais de 800 civís libaneses e dezenas de israelenses, onde 37 crianças foram mortas no fim-de-semana?
O que você prefere?
Falar de Fidel Castro que completará 48 anos no poder no primeiro dia do próximo ano ou falar sobre os estados fictícios criados pelos ingleses e que resultaram no xadrez complicado do Oriente Médio?
Jordânia, Iraque, Arábia Saudita, países saídos das réguas de cálculo dos britânicos para diminuir-lhes o custo da presença no Oriente e permitir a continuidade do domínio, ou quem sabe, uma Palestina para os palestinos, uma Judéia para os judeus, uma Arábia para os árabes?
Você sabe quem são os shiitas?
Dia 13 de agosto você cantará o “Parabéns a você” para Fidel, quando ele completará 80 anos?
Ou você prefere reservar a força do seu sopro para comemorar a ocupação do Líbano?
Cada um tem suas preferências.
Quanto a ONU, todos sabem o que a Organização das Nações Unidas pediu “aos homens de boa vontade”: Cessar fogo. Imediato.




MARIO QUINTANA, UM POETA Á ALTURA DE FERNANDO PESSOA?
Walter Galvani, em 28/07/2006

Estou defendendo esta tese: o gaúcho Quintana está à altura de Fernando Pessoa.
Entrei nessa agora, como "cuyrador".


ESTRÉIA COMO CURADOR

Walter Galvani


Foi muito agradável para mim, estrear como “curador”, ajudando a construir a exposição sobre Mario Quintana, reunindo alguns dos melhores cronistas porto-alegrenses, para falar sobre a sua interação com ele. “Ao Mestre com Carinho” foi o título escolhido e confesso que passei toda a noite esperando que alguém viesse me dizer: “Adivinhe quem veio para jantar”? Não veio o Sidney Poitiers nem ninguém. Começamos assim a exposição com a participação dos doze convidados (mais eu, o que contabilizou o cabalístico número 13) e alguns puderam comparecer, outros não.
Mas, enquanto durar a mostra, no Centro Cultural Erico Veríssimo da CEEE, ou seja, até o dia 12 de agosto e depois, talvez, visitando o interior, lá estarão as crônicas de Armindo Trevisan, Antonio Goulart, Cláudia Tajes, Fabrício Carpinejar, Jane Tutitkian, Luiz Coronel, Maria Carpi, Martha Medeiros, Moacyr Scliar, Sergio Faraco, Tailor Diniz, Valesca de Assis que mostram raros momentos de interação com o poeta que “passarinhou”, mas ficou entre nós.
Tive muito prazer em fazer a seleção, escolher os convidados, e ainda editar uma crônica minha sobre o poema de Mario, “A morte de Tolstoi”. Um velho de dar inveja a muitos modernos e talvez ao próprio Mario, o conde Leon Tolstoi, poeta máximo, grande escritor de todas as Rússias, que fugiu de casa quando tinha mais de oitenta anos e foi morrer na estação do trem de Astapovo.
Valorizando ainda mais a nossa mostra, o desenho, a força da charge completa de Sampaio, veterano companheiro nosso de Revista do Globo, reunindo todos os ícones do poeta Mario.
Sampaio não esteve presente na inauguração da mostra porque havia ido a Assunção naquela noite, acompanhando o Internacional e comemorando seus gloriosos 69 anos... Valeu.
“Como se vê – escrevi na apresentação – desde acadêmicos mais do que consagrados com fardão e tudo, até jovens talentos que há pouco surgiram, passando pelos velhos companheiros de trajetória não só poética,mas também jornalística. A idéia era montar um time capaz, para levar até o fim a tarefa de reconstituir o Mario Quintana em suas inesquecíveis andanças.”




SALVANDO A PRÓPRIA PELE
Walter Galvani, em 25/07/2006

E o corpo e a alma...

UMA PAUSA SABÁTICA

Walter Galvani


Resolvi me auto-atribuir uma “pausa sabática”, apesar de que esta é de apenas um dia. Vinha de uma vertiginosa escapada ladeira abaixo, cumprindo compromissos, trabalhando na PUCRS num belo projeto que estamos montando, atendendo às necessidades de produzir textos, fazendo contatos, pensando num novo programa de rádio e fazendo a “curadoria” da exposição “Ao Mestre, com Carinho”, representando a ARI junto ao Centro Cultural Erico Veríssimo da CEEE. E ainda lendo, relendo e treslendo, como sempre, agora mais ainda enfurnado em leituras especiais preparando o curso na Unisinos, coordenado pelo Fabrício Carpinejar. E aí, estourei. Literalmente. Se não fosse o pronto socorro da Unimed e do hospital São Lucas da PUC, eu iria comemorar meus dois anos de alta e operação cardíaca, com um perigoso retorno.
Sabático vem de “Shabat”, o sábado, dia em que os seguidores da religião judaica não trabalham. Como a sexta para os muçulmanos e o domingo para os católicos.
Nesse caso aqui, utilizando a terminologia moderna, passou a representar o dia ou os dias em que se interrompe a atividade normal, para dedicar-se exclusivamente a um possível descanso ou desligamento.
Com o computador, a Internet, o celular, um trabalhador intelectual está normalmente “ligado”, preso às notícias (ainda mais se for jornalista) e às solicitações que, a todo o momento, chegam ao seu aparelho.
Este contínuo envolvimento pode levar a um estresse com rapidez e precisão.
Esta semana que passou recebi meu aviso.
Tive lá uma reação nervosa tão explícita que achei melhor procurar auxílio médico.
Depois de visitar os drs. João Carlos Fernandes e Ney Azambuja, no Centro Clínico do Hospital da PUC, tratei de me prevenir, de alguma forma, para um imprevisto perigoso que poderia estar me aguardando poucos passos adiante. Algo assim como se fora um touro, um miura, escarvando a terra e se preparando para me atingir com suas hastes e me jogar para o espaço. Ou pior ainda, me pisotear e esmagar e perfurar meus intestinos.
Antes da queda, achei melhor parar. Por um dia.
Será apenas a pausa sabática de um dia, não completa, porque continuei me informando e recebendo e respondendo e-mails, mas me escondi em casa, com o celular desligado, dormi até mais tarde, levantei e, ao invés de tomar a condução rumo ao trabalho, fiquei fazendo o tempo passar com providências relativas à casa. Depois de um bom café, fui ler. Aos poucos o dia começou a passar, almocei tranqüilo e me dediquei à leitura outra vez, adormeci. Quando acordei, lá pelo meio da tarde, o dia estava inevitavelmente perdido para o trabalho.
Não senti nenhum remorso e até uma certa alegria me invadiu, por estar curtindo o seu transcurso, assim tão molemente, enquanto uma atmosfera invernal se instalava lá fora. (Para os que me lêem em outro hemisfério, relembro que aqui no Brasil estamos no inverno, pelo menos oficialmente...)
Agora está chegando o fim do dia. Lá fora, trevas. Eu, diante do computador, me esqueço da guerra do Oriente Médio, dos problemas profissionais, das medidas urgentes que perderam sua urgência afogadas no charco da minha indolência. Acabou. Quer dizer: quarta será outro dia, terminou a “Pausa sabática” e estarei renovado e em ação. Pelo menos, prometo a mim mesmo.




CHEGARÁ AOS OITENTA?
Walter Galvani, em 23/07/2006

A grande dúvida é saber se a Varig, funda
em 1927, conseguirá chegar aos 80.
Em meio às brumas da dúvida,
relembre-se o que vai pelo ar. Certamente
muito mais do que os aviões da Varig
ou de outras companhias.
Esta que segue é a crônica publicada hoje no jornal ABC DOMINGO, do Gru´po Editorial Sinos, que circula na Região Metropolitana de Porto Alegre:


ASAS BRASILEIRAS

Walter Galvani


Estamos em tempo de comemoração do vôo centenário do “14 Bis” e, portanto, festejar a presença da bandeira brasileira nos céus do mundo. Coincidentemente, desaba sobre nossas pretensões a crise imensa da Varig que andou agonizando de leilão em leilão e parece agora ter encetado um vôo rumo ao futuro. Por enquanto difícil de predizer, mas mesmo se falando em cortes que vão dos 8.000 para os 1.800 funcionarios, pelo menos mantém meia dúzia de aviões inicialmente cumprindo apenas a chamada “ponte aérea” Rio-São Paulo, que não era sua vocação inicial e que, nos bons e dourados tempos era desprezada como “coisa para o Lóide Aéreo e a Panair”, ambas viajando hoje no saco do esquecimento.

Quem não lembra do provérbio gaúcho que tanto espantava os desconhecedores da nossa filosofia regional, aquele que dizia que o “sonho do gaúcho é ser cavalo ou avião da Varig”? ... Pois é, aí estavam apresentados e dignificados, dois dos nossos maiores mitos, aquilo que nos deslumbrava nos anos quarenta, cinqüenta, sessenta. Cavalo, o amado pingo, aquele que conferia ao gaúcho sua suprema identidade de “monarca das coxilhas”, o mesmo adjetivo para caracterizar uma bela mulher no rude dialeto pampeano: “Esta mulher é um cavalo!”. Vejam só, tão linda que poderia ser comparada a um cavalo, o sagrado companheiro do gaúcho.

Melhor do que cavalo, só avião e melhor do que avião, só avião da Varig. Uma coisa ou outra o gaúcho queria ser. Ambas monumentais, indomáveis, belíssima, inextinguíveis, suprema categoria.

Depois disso, ver a Varig se arrastar penosamente antecipa o sofrimento que se terá ao perceber que no pampa não sobrará mais lugar para o cavalo, substituído pelos veículos “off road”, pelas maquinas e pelos sistemas de posicionamento via satélite. Demais para um gaúcho. Levar na mão um rebenque e o celular, tudo bem. Mas, ceder o espaço à esta tecnologia metálica, isso já é demais para uma geração só...

Agora mesmo, brasileiros (que chegam a duzentos mil no Líbano) se aglomeram em aeroportos, dormindo nos sofás das salas de embarque e desembarque ou rodando pelos desertos em ônibus (quase sempre brasileiros, fabricados pela Marco Polo em Caxias) em busca de aviões da FAB ou até mesmo aceitando serem transportados pelo “Sucatão”, querem fugir do teatro da guerra e retornar “à pátria amada, idolatrada, salve, salve”. Mesmo sabendo “que um filho teu não foge à luta”, nada melhor do que dormir “deitado em teu solo esplêndido” ou voando de volta num avião da Varig, aquela que era a campeã da boa manutenção e do “acidente, zero”. Ou então, já que morrer não é preciso, mas “navegar é preciso”, que o fosse sob as asas da Varig.

“Tudo passa sobre a terra”, como diria José de Alencar.

Mas, continuamos aguardando que a “jandaia torne a contar nas frondes da carnaúba” e que este nosso pessoal que foge da Hezbollah e de Israel, apesar de que um se intitule “Partido de Deus” e outro “o povo escolhido por Jeová”, não temos lá muita certeza de que seus métodos tenham a aprovação divina, nem mesmo a ONU aliás, sanciona esta forma de resolver questões. Ou pendengas.

Nossos conterrâneos emigrados em busca de melhores tempos devem estar com os olhos postos no céu. Ou a jandaia ou a Varig-Log, alguém há de cantar no Oriente Médio, daqui a pouco mais. Atravessaremos mais este Mar Vermelho. E daqui a pouco mais, o gaúcho poderá cantar outra vez seu “slogan” e imaginar-se a caminho da salvação. Aliás, com a ajuda do governo federal. Que, ao que consta, não é credor, mas, sim, devedor.







ATÉ QUANDO?
Walter Galvani, em 22/07/2006

Lembram de Cicero, o maior advogado de todos os tempos?
Ele não suportava mais, as coisas se repetiam, e perguntava: "Até quando, oh Catilina, abusarás da nossa paciência?"
Isso vale para o Oriente Médio. Esta crônica que segue, publiquei em agosto de 2002. Estamos chegando a agosto de 2006, falta meia dúzia de dias, passaram-se quatro anos e tudo continua na mesma..
Até quando, oh Catilina, abusarão da nossa paciência?


ONU MANDA ISRAEL RECUAR
Walter Galvani
Ontem à noite houve uma sessão da Assembléia Geral da ONU, dessas inúteis, infelizmente, porque o a sua decisão jamais será cumprida. Foi decidido então que Israel deve recuar para suas fronteiras dez anos atrás, antes da atual Intifada palestina.
Ah, produziram-se quatro votos contrários:
O de Israel mesmo, é lógico, mais o dos Estados Unidos, seu maior aliado, o que também é compreensível. E entre um oceano de abstenções, também votaram contra as Ilhas Marshal e a Micronésia...
Então, nem é preciso pesquisar muito para saber que praticamente o mundo todo condena a ocupação israelense dos territórios palestinos, o que não desculpa os atentados contra cidadãos civis e nem perdoa a retaliação.
Para compreender o que ocorre no Oriente Médio, é preciso pegar a Bíblia e ler os cinco livros do Pentateuco, ou seja, o chamado “Antigo Testamento”. É ali que está escrito que deve se aplicar aos inimigos à pena de Talião, de onde saiu a palavra “retaliação”. Mais fácil ainda de explicar: “Olho por olho, dente por dente!” Precisa mais?
Mas, é preciso fazer uma leitura moderna, atualizada das coisas antigas e superadas.
Caso contrário, não se progredirá nunca.
Penso que é impossível um acordo entre aqueles povos. O objetivo dos dois é a ocupação plena daquelas terras áridas e nem sequer pensam em repartir ou criar uma assembléia nacional com direito a voto, de todos os seus habitantes, sejam judeus, protestantes, cristãos católicos ou coptas, muçulmanos ou animistas.
Não há, nem haverá acordo.
Tenho meus amigos judeus e palestinos, com os quais convivo sem diferenças e isto é um fenômeno brasileiro. Como escrevo aqui para todo o mundo, é bom que se diga que pelo menos por enquanto aqui no Brasil é normal que isto ocorra. Há preconceitos, sim, há dificuldades em casamentos inter-religiosos. Aliás, nada pior do que as religiões, pelo menos algumas delas, é em nome de um deus que se mata, morre, invade, destrói, ocupa e corrompe.
Assim é. Espero que a Humanidade aprenda que o vizinho pode ter um pensamento totalmente distinto. Que o diferente é a característica da gente e que o mundo é um só, com a contribuição de todos.
E que o deus dólar também não é exclusividade de ninguém, nem mesmo dos seus criadores. Necessário, mas que pode ser substituído, como está procedendo por exemplo a Comunidade Econômica Européia, mas que também compara o seu Euro ao Dólar, para saber quanto ele efetivamente está valendo...

(É hora de reler este artigo, que, como escrevi lá acima, tem quatro anos.
Estará na hora de reescrevê-lo?
Mudou o mundo?
"Mudaria o Natal ou mudei eu? - como disse o velho Machado?" E então?)







SERÁ QUE ISSO É PAIXÃO?
Walter Galvani, em 20/07/2006

Ou será desequilíbrio? Indisciplina?
Mau caráter? Não conhecer os limites?


OS FOGUETES DA MADRUGADA

Walter Galvani


Pode parecer que eu esteja me referindo à nova guerra do Oriente Médio, onde Israel e um movimento de guerrilha denominado Hezbollah se defrontam e acumulam mortes, destruição e ódios irreconciliáveis, ao dar este título à minha manifestação de hoje aqui neste website. Pois não é. Falo de futebol... Conseguem entender?
Pois o Internacional de Porto Alegre celebra hoje a façanha de haver eliminado por 2 X O, um competidor, o LDU, do Equador, no rumo das semi-finais da Taça Libertadores das Américas, torneio que dará o direito ao título de “Campeão da América” e à uma disputa com o campeão europeu pela Taça Mundial Interclubes.
Tudo bem no campo de jogo, apoio e participação da torcida, comportamento dos jogadores, desempenho do árbitro, gols, defesas do goleiro Cremer, enfim, todo o panorama honrou o estádio lotado e o interesse despertado pela partida, tanto que até emissoras que atuam pela Internet retransmitiram o que se passou.
Porém, ouvir a afirmativa de que “parece que o LDU sentiu os foguetes da madrugada” e pior ainda, ler que há gente (e jornais) que consideraram esta tremenda demonstração de indisciplina e mau caráter, como “uma mostra da paixão”, isso é demais!
Historiando: a delegação do LDU, clube que aliás é a base da boa seleção do Equador que teve um belo desempenho na Copa do Mundo, indo mais longe do que nunca, ficou num Hollyday Inn da vida, em Porto Alegre. Pois, do instante em que a delegação chegou até sair para o estádio, seus jogadores não tiveram descanso por causa dos foguetes que, noite e madrugada adentro, impediram seu sono e seu descanso.
Não importa que isso tenha sido um revide ou uma “patriótica” atuação. Patriotada e violência, má educação, não mais do que isso.
Lamentável. E digno de pena.
Não vejo como celebrar este “feito” fora do campo.
Se, de fato, isso ocorreu, seria passível até de um pleito na Justiça.
Estamos estarrecidos. Coloquei no plural. Não sei se me acompanham nesta posição. Mas, eu, que como todo menino brasileiro desenvolvi minha paixão pelo futebol e ainda mais, atuei longos anos como cronista esportivo em jornais de Porto Alegre, sinto-me no dever de tornar pública minha, digamos, decepção...




HEZBOLLAH VERSUS ISRAEL
Walter Galvani, em 17/07/2006

O G-8, grupo composto por Alemanha, Canadá, França, EUA,Grã-Bretanha, Italia, Japão e Rússia, leia-se o grande perdedor, os grandes vencedores e mais o poderoso país das miniaturas eletrônicas, o antigo "Império do Sol Nascente", eis os donos do mundo. São eles que mandaram hoje um ultimato para o fim da guerra que se desenha no Oriente Médio, entre Hezbollah e Israel.
Este, todo mundo sabe, é um estado constituído por judeus que voltaram para a sua "terra prometida". Quanto ao Hezbollah, é um movimento rebelde, que atua em forma de guerrilha, em vários países da região, sobretudo Palestina, Líbano e Síria.


Mas, o incrível é que o ultimato do Grupo dos 8, é dirigido ao Hezbollah, como se fora este um estado constituído, reconhecido e organizado e respeitado.
A Israel, os 8 pediram "comedimento".
Já li esta fábula do lobo e o cordeiro em algum lugar. Não importa nem saber de que tamanho é o lobo e quem é um, quem é o outro.
Mas, é certo que o Grupo dos 8 poderia ter sido menos covarde, se pedisse igual "comedimento" aos dois... Ao menos isso.
Não tenho procuração para defender este ou aquele. Por outro lado, imerso no funo dos tempos, vive a minha condição de "cristão novo", embora sem provas.
Tenho um Silveira, dos Açores, muito provavelmente oriundo de uma família de judeus que emigrou da Europa continental, possivelmente da Holanda.
Os Van Der Hagen se estabeleceram nos Açores e na formação inicial de Porto Alegre, entre 25 casais de açorianos, há 8 de sobrenome (apellido, como dizem os espanhois) Silveira.
Nem isso me concede o direito de defener este ou aquele. Mas, sou contra qualquer injustiça que perceba, aqui ou acolá.
Por isso, lembrando a tremenda injustiça de 1496, quando o rei Manoel I, O Venturoso, casou com a filha dos Reis Católicos e prometeu e cumpriu em seu atestado de núpcias, como dote para a princesa espanhola, a expulsão dos judeus de Portugal, ou a sua conversão à fé católica... então, acho que tenho todo o direito para falar.
Até quando, quousque tandem abuttere patientia nostra? - desculpem algum erro de grafia, pois aprendi no ginásio, quando ainda se estudava latim aqui no Brasil, e cito de memória, sem conferência.
Mas, qualquer hora destas, é justo que se perca a paciência.




VIOLÊNCIA, MORTE, CONFUSÃO, TRISTEZA
Walter Galvani, em 16/07/2006

É um domingo sobre a terra.
Em São Paulo, mais uma noite de ação do tal comando clandestino que, de dentro dos presídios,comanda o que quer fora deles.
E dentro, naturalmente.
É a falência do poder da sociedade organizada.
Enquanto isso, finge-se nada estar acontecendo.
Como no Oriente Médio, onde Israel atca a guerrilha no Líbano e esta responde.
Agora, supra-sumo da confusão organizada, um ministro de Israel, Shaul Mofaz, dos transportes e ex da segurança, disse o seguinte, falando sobre a Imprensa e em especial sobre a transmissão ao vivo das destruições também em Israel, onde estão explodindo mísseis "Katiuscha", lançados pela guerrilha do Hisbolá:
"Aconselho que não analisem cada acontecimento durante horas e informem apenas sobre como tudo aconteceu porque isto pode fornecer informação ao inimigo."
Parece que está a falar da Copa do Mundo...
A seguir a crônica que publico hoje no ABC DOMINGO, jornal do Grupo Sinos, que circula na região metropolitana de Porto Alegre, capital do sul do Brasil:


BAILE DE COBRAS

Walter Galvani


Quem é do interior conhece o provérbio: “Nunca se entra em baile de cobras, sem perneiras”. Abstraindo o conceito fantástico de que existiria algum “baile de cobras”, em que as serpentes se divertiriam, é evidente que a metáfora é válida para sinalizar que nunca se deve entrar desprovido de astúcia ou distração, num confronto entre os “grandes”. Já as perneiras constituem-se num componente do vestuário, tão antiquado, que nos remete para os primeiros anos do século vinte, ou, antes disso. Melhor ainda: “não vá de sangue doce” pois, nestes choques decisivos, tudo é possível.

Mas um confronto esportivo assistido por quase dois bilhões de pessoas pela tevê, precisa ser desconstituído até seus mínimos detalhes, para que se possa entender o que, de fato, aconteceu.

Torna-se assim, necessário decodificar o que ocorreu entre Marco Materazzi e Zinedine Zidane. O amoroso “Zizou” dos franceses, foi apresentado até aqui como um doce jogador, amigo dos seus amigos, companheiro dos seus colegas, que não poderia perder a razão e agredir a um deles com uma cabeçada, num final de Copa do Mundo, quando declaradamente jogava o último jogo de sua carreira e, não por acaso, o decisivo da copa, até então com a França em vantagem. Só que ele tem um histórico de 18 expulsões de campo. Os fatos são conhecidos, mas continuam nos devendo o que sucedeu no ventre dos acontecimentos.

Numa entrevista desta semana, Zidane disse que as ofensas de Materazzi se limitaram à questões pessoais. “Ele ofendeu minha mãe e minha irmã” – disse ele. Sua mãe foi mais longe, dizendo que, por “uma questão de honra”, exigia um guisado feito com os testículos do jogador italiano.

Ora, se sabe muito bem o quanto tais discussões no futebol, vão longe e se perdem no irrealismo da fúria e do estresse. Se alguma mãe é atingida numa partida, imaginem a pobre mãe do juiz que ouve as maiores atrocidades disparadas por multidões de milhares de torcedores.

Dia 20, próxima semana, poderá então acabar a Copa do Mundo, com uma acareação entre os jogadores, antigos amigos, hoje colocados em posições opostas por este metralhamento que a “mídia” lhes propôs, representando uma curiosidade mundial: todos acham que deveria haver algo “por trás” das ofensas pessoais. Ninguém acredita que chamar a irmã e a mãe de “putanas” poderia desencadear uma reação descabida por parte de um jogador veterano, 34 anos, encerrando carreira. “Foi racismo!” – dizem uns. “Preconceito”, “anti-árabe”, “anti-muçulmanos”, enfim, busca-se uma justificativa para reação tão despropositada.

Enfim, o pano descerá sobre o episódio provavelmente nesta próxima semana, mas ficará uma lição: protagonistas não podem encerrar sua participação com reservas, ou escondendo uma parte da verdade.

“O que será a verdade?” – talvez alguém levante a questão. Com as câmaras de tevê e com a leitura labial (juramentada, é claro...) nada mais poderá ser escondido ou escamoteado.

Continuam jogando, portanto, Itália e França, pelo título mundial de um jogo que substitui, dramaticamente, uma guerra, mas que não pode esconder picuinhas, agulhadas históricas, ou diferenças nacionais, regionais, raciais, religiosas, políticas. É bom que se lave esta roupa em público.

Quem levantará a Taça?

Como se vê é um assunto que, efetivamente, extrapola os limites puramente esportivos e, nesse caso, de atitudes anti-desportivas, de dois jogadores de futebol. Estamos falando de algo muito mais profundo e que envolve relações internacionais e questões filosóficas, políticas e ideológicas.









ITÁLIA, TETRA-CAMPEÃ DO MUNDO
Walter Galvani, em 10/07/2006

Zidani, o melhor jogador da Copa.
E Materazzi, em sua atitutde anti-desportiva, conseguiu
desfalcar o time francês no
momento mais importante da decisão.


“TUA SORELLA È UMA PUTTANA”

Está comprovado que Materazzi foi o jogador mais importante na conquista do título mundial pela Itália. Num gesto anti-desportivo ele dirigiu comentários sobre a irmã de Zidani ao jogador francês e este, numa explosão de revolta, causado pela sua tensão, o que também não se justifica, meteu-lhe uma cabeçada nos peitos.
Estes dois gestos resultaram na expulsão de Zidani, o que não impediu que o comitê especial da FIFA o elegesse como o “melhor jogador da Copa do Mundo”.
Foi.
Já Materazzi que fez um gol de cabeça, belíssimo, empatou a partida e levou-a a decisão por penalidades máximas. Na sua vez, converteu.
Tudo muito bem, menos o que disse e pior ainda a reação de Zidani.
Torna-se muito difícil manter a calma completa num momento desses.
Imagine-se: é final da Copa do Mundo, no caso de Zidani ainda mais, sua última partida de futebol, anunciada, pois pretende (pretendia) depois da Copa, aposentar-se.
É a finalíssima. A França vencia, com um gol seu. Materazzi empatou.
O jogador italiano acompanha-o por alguns passos no gramado e aproveita para dizer-lhe impropérios. Zidani retruca, pedindo confirmação. Recebe, junto com outra ofensa, mandando-o “longe”, segundo o setor de leitura labial da Rede Globo, provavelmente, adiante da mãe, para o seio da mãe, talvez taxada também com o mesmo e chulo adjetivo.
Nada disso foi construtivo, para um final de Copa em 2006, para apresentar-se como modelo de comportamento, para estimular os mais jovens, para condenar a violência que esteve presente em raros momentos da competição.
No balanço final, saímos ganhando.
E o comitê de escolha dos “melhores” pela FIFA quis situar-se acima dos incidentes e aclamou Zidani, como o “melhor jogador da Copa do Mundo”, a despeito do incidente final.
Ah, o Brasil voltou para casa mais cedo. Portugal, do Felipão, foi quarto. A máquina alemã, campeã da organização, terceiro. E a Itália, um time trabalhador e organizado, com grandes jogadores como Pirlo ou Canavarro, com o grande goleiro Buffon, levou o título. É tetra. Um desafio a mais para 2010, na África do Sul, quando tentará igualar-se ao Brasil.
A França quase chegou lá. Pela segunda vez.
Quanto a Zidane, poderia ter tido mais cabeça fria. Mas, você conseguiria
controlar-se, estando no lugar dele?




O GLOBO CONTINUA A GIRAR...
Walter Galvani, em 09/07/2006

Esta crônica está publicada
hoje no jornal
ABC DOMINGO, editado pelo
Grupo Editorial Sinos e
que se circula em toda a
Região Metropolitana de
Porto Alegre, capital do
sul do Brasil


O MUNDO DESABAVA...



Walter Galvani





Enquanto nos ocupávamos com os quilinhos a mais do Ronaldão, com as meias do Roberto Carlos, as madeixas do Ronaldinho Gaúcho, com o humor do Parreira, com a “Squadra Azzurra” e os gauleses Zidani e Thierry, com os alemães e com o Portugal de Felipão, explodiam bombas pelo mundo afora e por pouco não ia tudo pelos ares.

Começou pelo desaparecimento e pelas buscas ao soldado israelense Gilad Shalit, com a reação do primeiro ministro palestino Ismail Haniya e a invasão da Faqixa de Gaz, mas o pior aconteceu na quarta-feira passada na Coréia do Norte, onde começaram os testes com mísseis. Agora foi a vez da Coréia do Sul informar que vai suspender a ajuda alimentar que fornece aos seus irmãos do norte, se estes não cessarem os perigosos exercícios.

Por um instante, foi possível imaginar que o requintado sistema de pressões e equilíbrios que foi se montando ao longo dos últimos anos, poderia romper-se e o mundo desabaria em instantes, com o clarão de bombas nucleares iluminando o fim da civilização.

Foi-se mais longe ainda: descobriu-se um plano terrorista para inundar o túnel “Holland”, um simpático acesso de 2 quilômetros e meio a 12 metros de profundidade, ligando o resto da ilha ao “downtown”, o centro de Nova York, construído em 1927, no intervalo esperançoso entre as duas guerras mundiais, quando se pensava de longe na primeira Copa do Mundo que seria disputada três anos depois em Montevidéu e que daria ao pequeno Uruguai o seu primeiro título mundial.

Não havia acontecido nada ainda na área deste esporte... Depois é que viriam os primeiros dois títulos mundiais da Itália, a perda da Copa pelo Brasil em pleno Maracanã para o mesmo diminuto Uruguai, na prova prática de que não adianta ser sansão neste esporte de habilidade e inteligência. Enfim, os sucessos e insucessos foram se sucedendo, para uns e para outros, e enquanto mergulhávamos, uma vez mais, nesta história e nestes sonhos, quase que a frágil casca do planeta ia pelos ares.

A semana foi chegando ao fim com a lembrança dos dois anos dos atentados de Londres, e o ministro do Interior britânico, John Reid, não falou do “English Team” desmontado pelo Portugal de Felipão, mas preferiu dizer que os terroristas eram “cidadãos britânicos comuns com visões extremistas e violentas pouco conhecidas” que instauraram definitivamente o medo nos corações ingleses.

Não sei o que é melhor! Se a doce indiferença, a tranqüila ignorância ou a certeza plena de que a ignorância, a intolerância, o desejo do poder e o desprezo pelos semelhantes ainda nos levará a todos para o abismo.

A verdade é que aqui vamos nós, outra vez engolfados nas promessas eleitorais, nos escândalos, na roubalheira, na crise interminável da Varig, no papel de distantes eleitores que precisam cumprir suas obrigações, porque omitir-se seria pior ainda.

Recebemos de volta nossos jogadores milionários, por um momento nos indignamos com a hipocrisia e o cinismo de alguns que nem chorar lágrimas de crocodilo, choraram...

É como um Carnaval a mais em nossas vidas. Acabaram os chamados “festejos momescos”, o rei Momo devolveu as chaves da cidade aos prefeitos e nós continuaremos levantando cedo, viajaremos para o trabalho, pagaremos nossas contas, o banco nos cobrará juros e pela televisão, pelo rádio e pelos jornais, acompanharemos, impotentes, o que sucede por aí afora.

Acordando do nosso sono, sacudimos a cabeça, esbugalhamos os olhos e o espanto se instala em nosso pensamento. E tudo dói em nosso corpo.









ANTES DO JOGO
Walter Galvani, em 08/07/2006

Exemplar a atitude do treinador gaúcho de Portugal, Felipe Scolari,
ao defender Cristiano Ronaldo.
Este ainda dará muitas alegrias ao futebol mundial.
Faço minhas as palavras da BBC de Londres, em seu site, hoje:


Scolari defende Cristiano Ronaldo contra críticas
O treinador Luiz Felipe Scolari defendeu o atacante da seleção de Portugal Cristiano Ronaldo que tem sido alvo de diveras críticas.

O jogador foi criticado porque teria provocado a expulsão do jogador inglês Wayne Rooney e por supostamente fazer "encenações" para conseguir pênaltis e faltas.

As ações do atacante português influíram para que ele não recebesse o prêmio de melhor jogador jovem da Copa do Mundo. O prêmio foi entregue ao alemão Lukas Podolski, de 21 anos.

"Uma de suas maiores qualidades é o drible. Assim como outros jogadores, ele às vezes cai, o que é natural. Mas ele não se joga", afirmou o técnico da seleção portuguesa.

Rooney

Depois do jogo entre Portugal e Inglaterra, Cristiano Ronaldo passou a ser criticado pela imprensa britânica por ter pressionado o juiz a expulsar o atacante inglês Wayne Rooney.

Rooney deu um chute na virlha do zagueiro Ricardo Carvalho, o que fez com que ele recebesse um cartão vermelho. Após o lance, fotógrafos flagraram a imagem de Ronaldo piscando para o banco de reservas de Portugal.

Scolari acredita que "qualquer juiz do mundo teria dado um cartão vermelho a Rooney naquela situação", e acrescentou que a expulsão não foi uma decisão de Ronaldo, mas sim do juiz.

Indagado se as atitudes de Ronaldo contribuíram para que ele não levasse o prêmio, o diretor técnico da Fifa, Holger Osieck, afirmou que a entidade levou em conta o jogo limpo e é crítica em relação a condutas semelhantes às do jogador.

Segundo o ex-jogador alemão Lothar Matthaus, patrono do prêmio de melhor jogador jovem da Copa do Mundo, Ronaldo pode ter "acumulado alguns pontos negativos com o incidente de Rooney, mas às vezes você esquece as regras no auge da luta".

Matthaus atenuou as atitudes do atacante português. "Dêem uma chance a ele. Lembrem que Diego Maradona marcou um gol com 'a mão de Deus'. Aquilo não foi jogo limpo e há vários outros exemplos que poderiam ser citados."

Portugal enfrenta a anfitriã Alemanha neste sábado na disputa pelo terceiro lugar da Copa do Mundo.




A COPA DO MUNDO EM MÃOS LATINAS
Walter Galvani, em 08/07/2006

Alemanha ficou com o terceiro lugar, batendo Portugal por 3 x 1, mas o time luso, dirigido por
Felipe Scolari, transmitiu uma
lição de fidalguia e
espírito de luta.


DEPOIS DO JOGO

Walter Galvani


Portugal resistiu bravamente e acabou tomando diante da melhor disposição tática do rival e algumas diferenças de valores. A Alemanha tinha a obrigação de encerrar sua campanha na Copa do Mundo, ocupando um lugar de honra, pois, como país organizador, diante de sua torcida, com o apoio do seu povo, precisava chegar até um ponto mais qualificado.
Não tinha uma equipe à altura do seu prestígio antigo, afinal de contas já conquistou o título duas vezes e andou perto meia dúzia de vezes, sempre chegando às semi-finais. Ou pelo menos em oito oportunidades.
Mas, Portugal dirigido por Felipão lembrava muito a equipe de Otto Glória em 1966, quando concluiu sua participação em terceiro lugar. Não deu. Chegou em quarto, mas o gol de Nuno Valente serviu para mostrar que o time estava vivo e poderia até ter ido mais longe.
Figo, lesionado, não pudera começar o jogo. Quando entrou, foi o diferencial que faltava. Fica a especulação: o escore teria sido 3 x 1 para a Alemanha se ele houvesse iniciado a partida?
Assim, depois do acontecido não dá para dizer nada. Mas, uma coisa é certa: Luis Felipe Scolari mostrou sua categoria de técnico e ser humano. Sua equipe lutou até o final e não se dobrou diante da maior categoria do adversário que jogava em casa, diante da sua majoritária torcida.
Resta tentar descobrir qual será o destino do Felipão, agora. Volta para o Brasil ou permanece em Portugal? Vai dirigir a Inglaterra ou algum grande clube europeu?
Ele provou que é dos melhores. E mais: tem vergonha na cara. E mais ainda: sabe incutir espírito de luta em suas esquadras.
Domingo é dia de ver França x Itália. Pela tradição e organização da esquadra, dá Itália porém a França, lutadora, tem alguns valores que podem fazer a diferença, como Zidani, por exemplo.
Isso é o que se pode dizer, antes do jogo.




ATÉ QUANDO A VARIG VOARÁ:
Walter Galvani, em 07/07/2006

Passado o efeito da Bola, queremos
saber como se resolverá
o assunto da companhia
aérea gaúcha:


VARIG LOGO

Walter Galvani


Acompanhei anos atrás ao processo de degradação econômica do Grupo Zivi para que acabasse caindo em mãos de poderosos interesses internacionais. Foi uma lenta agonia que culminou com a mudança dos pacotes de ações. Nem vou tentar interpretar se foi melhor ou pior para a economia do Rio Grande do Sul, mas foi diferente.
Nada diferente do que ocorre agora com a Varig.
Temos os funcionários, temos a Varig-Log que necessita dos aviões da Varig voando para se manter no ar, temos os interesses dos fundadores, há de tudo. “Entre o céu e a terra – como dizia o Barão de Itararé – há muito mais coisas que os aviões de carreira...”
E assim, chegamos à décima sétima semana em que se explora a crise respiratória da grande companhia que sucedeu à Panair, por seu turno assassinada, e, portanto, a qualquer momento o pano desce e encerra-se mais um ato. O ato final. O quinto, como nos velhos dramas e tragédias...
E então, vamos saber quem voa mais alto e quem não voa.
Sinceramente, enchi.
O que me preocupa agora é o drama dos pilotos, co-pilotos, mecânicos, recepcionistas, funcionários da reserva e da venda de passagens, as jovens, as idosas e as senhoritas de meia idade que atuaram no serviço de bordo, os comissários, enfim, a multidão que serviu e serve à Varig nos aeroportos do mundo e, em especial, no serviço de manutenção nos hangares do “Salgado Filho”, em Porto Alegre, onde a empresa nasceu.
E o governo brasileiro?
O que fez, de fato, pela Varig?
Boa pergunta.
Nesse momento, alguma lei eleitoral talvez proíba o exame desta questão.
De minha parte, dou-me por satisfeito pelo que assisti nestes 72 anos de idade, 57 de mercado de trabalho, 52 de jornalismo a serem completados em agosto e 35 como escritor, dez livros publicados, alguns prêmios nacionais e internacionais.
Assim, quero Varig Log ou Varig logo, como decidam. Mas logo.




BANDEIRAS, HINOS, BOLAS E CHUTEIRAS
Walter Galvani, em 06/07/2006

O mundo lê a Copa do Mundoi à sua maneira e é assim que descobrimos
as mil faces de dezenas
de espelhos multicores.


O MUNDO E O FUTEBOL


Walter Galvani

Já se escreveu sobre tudo durante esta Copa do Mundo de Futebol que acabará no próximo domingo, opondo dois grandes e tradicionais cultores do esporte, Itália e França. De um lado, o academicismo da “Squadra Azzurra”, de outro o sopro renovador que a abolição do preconceito racial e colonial trouxe para o mundo gaulês.
Somos eternos devedores de ambos. Da Itália pelo que significou o “princípio da dignidade humana”, pelo que nos trouxe com a sua sabedoria transmitida desde o império romano que soube respeitar os valores locais, mesmo em caso de guerra e ocupação, passando pelo Renascimento e pelo fato de ser hoje, a sétima potência do globo sem produzir nem sequer o petróleo que consome.
Já a França tem para nós o significado da sua revolução libertadora de 1789, quando caiu a Bastilha e com ela, simbolicamente, o último bastião do conservadorismo. Depois houve a Restauração, bem o sabemos, mas o título ficou com a França... Como poderá ficar o título deste campeonato mundial, em mãos do algoz do Brasil, desde 98 visto como nosso adversário empedernido. Mas isso é esporte.
A leitura necessária é que de nada adianta apresentar uma população de centenas de milhões como a China ou a Índia, nem a primeira posição na economia, como os Estados Unidos, nem tampouco a segunda ou a terceira, como Alemanha ou Japão. São pouco mais de 60 milhões de franceses, e pouco menos de italianos, que, no entanto, demonstram, pela sua capacidade individual, criatividade, conhecimento técnico e espírito de conjunto, que são os melhores em sua atividade e não por acaso, produzem atraentes campeonatos nacionais, concentrando jogadores oriundos de vários países do mundo.
E para terminar, lembrando a oração de Kofi Annan, que foi capaz de reconhecer que a FIFA é digna da inveja da ONU, pois a entidade esportiva tem mais de 200 países membros e a ONU, 190.
Quando estivermos diante dos televisores, domingo, será muito bom lembrar que a lição que a Copa nos deixa, é a da integração, compreensão e aceitação também da derrota ou da impossibilidade de vencer a tudo e a todos.
Sob este ponto de vista, é oportuno que os brasileiros reflitam. Soberba, prepotência e presunção não combinam com o “fair play” exigido por este jogo histórico.




BOATES, CHORADEIRAS, SÉRIE C, ITALIA X BRASIL
Walter Galvani, em 04/07/2006

Se tudo acabar em pizza, afinal, a Italia é a pátria da pizza, no
sentido culinário...
Mas, e no Brasil?


REBAIXAMENTOS E ESCÃNDALOS

Walter Galvani



Nada está tranqüilo no reino do futebol, plagiando Shakespeare que no Hamlet lembra que “há algo de podre no reino da Dinamarca...” – Dinamarcas aparte, que este ano nem chegou às finais, por sinal, o problema se situa na Itália.
Poucas horas antes da semi-final com a Alemanha, os jogadores ficaram sabendo que o fiscal geral do esporte na Itália pediu o rebaixamento do Juventus para a série C e da Fiorentina, Lazio e Milan para a B, com perda de pontos, títulos, e a condenação a jogar o próximo campeonato, que começará em setembro, nas divisões inferiores.
Isso fica muito dinheiro a menos, mas sem dúvida, seria um impulso para o futebol nas pequenas cidades, pois, a visita de um poderoso destes traria um alento à bilheteria e aos caixas abalados pela pobreza ou pelo desinteresse...
Melhor olhar assim do que imaginar que os clubes darão a volta por cima e que as condenações não serão feitas.
Os crimes são o seguinte: ajeitar resultados.
Tudo muito parecido com o escândalo das arbitragens no Brasil que, lembram? – acabou em pizza... pois ninguém teve coragem de tirar o título do principal beneficiário, o Coríntians Paulista.
O Inter de Porto Alegre seria o campeão.
Não foi e ainda teve que retirar a queixa da justiça comum, sob o perigo de vir a ser ele o rebaixado...
É por isso mesmo que os jogadores brasileiros Adriano e Ronaldinho Gaúcho viajaram no dia seguinte à eliminação e foram fazer festa (balada) na noite espanhola até às 6 da manhã, no dia seguinte.
Ronaldinho disse em entrevista que chorou.
Foi só uma choradinha e já no dia seguinte estava matando a mágoa nas boates espanholas.




NOSSO PRODUTO DE EXPORTAÇÃO FOI PARA O ESPAÇO...
Walter Galvani, em 03/07/2006

O problema é que o Futebol é importante
para o Brasil, pois é ali
nos gramados, que os
brasileiros se realizam...
Seria muito bom aproveitar a lição
e começar a estudar e
trabalhar um pouco mais...


BMWs E MERCEDES

Walter Galvani


É claro que há um certo exagero, mas vale a pena pensar no seguinte: se a Alemanha perder amanhã, o confronto futebolístico com a Itália (o que para ela poderá ser uma decepção, mas não uma novidade, uma vez que é “freguesa de caderno” da “Squadra Azzurra”...) – poderá continuar vivendo e se orgulhando dos seus maiores produtos de exportação. A Organização, o Interesse pela Ciência, a Filosofia, a Música Erudita e, sem dúvida, seus produtos industriais como os automóveis BMW e Mercedes Benz. Poderá, quem sabe, falar sobre os seus feitos em várias áreas e esquecer o pesadelo esportivo. Além disso, festejará a arrecadação enorme que representou esta Copa do Mundo.
Tudo bem. Já o Brasil... Depois do tropeço na França, uma vez mais, restará reconstruir o sonho, aproveitando os escombros que se esparramam pelo chão da dúvida e da frustração.
Hoje, como acontece no Brasil, começaram as primeiras ofensas, as “descobertas” a respeito do procedimento dos jogadores e a raiva se exteriorizando. Amanhã ou depois, esqueceremos.
Em verdade, o Brasil em nenhum momento chegou a se afirmar como uma equipe. Era um ajuntamento de grandes valores e mais meia dúzia de medíocres, incensados pela opinião pública e o técnico Parreira um seguidor das ordens que “vinham de cima”.
Muitos se perguntam hoje se não é verdade que os patrocinadores exigiram a presença de Ronaldão na equipe, depois de vê-lo, após um começo medíocre, um “gordão” inepto.
E por aí vai.
Descobriu-se – maldade ou acaso – que Roberto Carlos abaixou-se para ajustar as meias, exatamente na hora em que a bola viajava para o seu lado, ponto em que se encontrava o francês Henry que enfiou a chuteira na bola para fazer o 1 x 0.
Não há mais nada para dizer, escrever ou perder tempo. Os brasileiros foram soberbos, orgulhosos, preguiçosos, e assinaram embaixo de sua derrota e eliminação.
Agora, o jeito, por aqui, é redescobrir Portugal, onde o gaúcho Felipão impõe o seu jeito de ser.
Nunca se viu uma equipe lusa tão lutadora. Justo o espírito de luta que faltou aos milionários brasileiros...
O pior é que é o Futebol, o nosso primeiro produto de exportação...




BRASIL DEU ADEUS Á COPA
Walter Galvani, em 02/07/2006

Mas, a crônica que
produzi para o ABC DOMINGO,
apenas se aproximava do assunto
pois fora produzida,
24 horas antes dos
aconecimentos...
O tema é... política.
Mas, o esporte também está presente:


MORTE SÚBITA



Walter Galvani





Fidel Castro falou durante cinco horas, esta semana, para os estudantes cubanos, procurando demonstrar que está bem fisicamente, como sempre esteve desde a vitória da revolução cubana no primeiro dia de janeiro de 1959 e que não sofre nem de “mal de Parkinson” nem de “Alzheimer”. Por outro lado, o governo de George Bush propõe que os Estados Unidos apóiem a oposição para derrubá-lo mais depressa, ou pelo menos, para estar preparada a sua sucessão.

O problema é que Fidel Castro parece indestrutível, ao mesmo tempo em que, para quem visita Cuba, como é o meu caso, pois lá estive duas vezes e não como turista, mas sim como escritor premiado pelo “Casa de Las Américas” e posteriormente como jurado do mesmo e valioso galardão internacional, que será muito difícil acostumar o povo cubano a não contar com certas conquistas realizadas neste período de 47 anos.

Como acostumar-se, por exemplo, sem o sistema universal de saúde, sem a aposentadoria garantida, sem o projeto de casas para todos e sem o acesso universal ao ensino? Será possível acostumar-se com índices de analfabetismo iguais aos nossos? Ou o povo cubano habituou-se demais com o “analfabetismo zero”?

Por outro lado, com outras coisas o povo daquele país “se acostumou”... Por exemplo: com o bloqueio comercial decretado pelos Estados Unidos, o que naturalmente leva o pequeno país do Caribe à uma difícil situação econômica e com a falta de liberdade política. Não é que não ocorram fraudes, roubos, dilapidação do erário, tudo isso parece inerente à natureza humana, mas os índices são variáveis...

A liberdade de imprensa e a liberdade de empresa, aparentemente limitadas, devem influir, pelo menos na divulgação de tais crimes...

Com tudo isso o povo se acostuma. O que não dá para ninguém se acostumar é com a fome ou com a invasão estrangeira, pelo menos enquanto perdurar a noção de “pátria”, o que parece se acentuar à cada Copa do Mundo, pois, ao mesmo tempo em que a FIFA festeja seus 210 membros, a ONU fica com 190, invejando a entidade do futebol.

Vejam o que ocorre, por exemplo, no Oriente Médio. A invasão da Palestina por Israel, a invasão do Iraque pelos Estados Unidos e seus aliados, a crise em cima da crise, a faixa de Gaza, o Líbano, enfim, para onde você voltar o olhar, naqueles sítios onde, por escolha da natureza, o combustível jaz em imensos lençóis petrolíferos, no subsolo. Pelo menos até 2025, previsão para o término de tais reservas (data que já sofreu revisão, inclusive) continuará a disputa que não é pela bandeira, pelo território em si, ou pela linda cara dos políticos.

Como no caso de Cuba, onde o projeto de Fulgencio Batista, interrompido em pleno reveillon de 59, era o de transformar toda a ilha num produtivo cassino flutuante.

Sim, o turismo interessa à Cuba e existe, sim, prostituição.

Mas, como dizia Fidel, o fato de até estudantes de medicina se dedicarem, nas horas vagas, a este perigoso “esporte”, explica-se pelo nível educacional da população. Quer dizer: ser prostituta não quer dizer miséria, mas sim uma opção de carreira, vocação ou desvio de conduta. Veja como queira, o fato é que, custa a entrar em nossa cabeça uma afirmação dessas.

Enquanto isso, Bush continua querendo a “morte súbita” de Fidel, o que em tempos de Copa do Mundo, é muito sugestivo. Uma espécie de “mata-mata”... Você passa ou “fica”. Não há vida inteligente do lado de lá. Bem no final, só um campeão restará de pé.




TV DIGITAL
Walter Galvani, em 30/06/2006

Na era dos aparelhos de plasma, dos telões, dos grandes grupos reunidos assistindo à Copa,quem se lembra dos Televizinhos?
Naqueles tempos ("a escola era risonha e franca..."), sim, eramoutros tempos


TELEVIZINHOS

Walter Galvani

Vocês ainda lembram deste neologismo dos anos cinqüenta, depois pulverizado pelas circunstâncias? Era isso mesmo, “televizinho” queria dizer aquele que vinha com a sua cadeirinha e ocupava um lugar na sala de jantar ou no pátio, dependendo do clima do momento, para se tornar mais um assistente privilegiado da televisão que o amigo conseguira comprar. Estamos falando dos anos cinqüenta e no caso do Brasil, a partir do dia 18 de setembro de 1950, com a entrada no ar da TV Tupi. Com a chegada de Jânio Quadros ao poder e sua visita à Festa da Uva, estamos falando de 1961, tivemos a primeira emissão a cores no Rio Grande do Sul, coisas impensáveis que ocorriam então, e afinal, chegamos a 2005, quando é absolutamente normal que as pessoas disponham de dois, três, até quatro aparelhos em casa e assistam televisão aberta ou paga, do país ou do exterior. Hoje, estamos todos plugados aos mais diferentes sistemas, ou vemos filmes em vídeo-cassete ou dvd, temos acesso à Internet. Bem, os tempos são outros, não é mesmo?
No entanto, sobrou espaço para o cinema, o teatro, o rádio, o jornal, o livro, o telefone fixo, temos aí o celular ou telemóvel como o tratam nossos amigos portugueses. E a Internet.
Anos quarenta e cinqüenta, Canoas:
Tínhamos uma geladeira. Nada de refrigerador como hoje. Comprávamos gelo e colocávamos no aparelho para gelar o sorvete, a coca-cola, a cerveja. Meu pai sempre dizia: “Tempos antigos eram bons? Para quem? Isso só diz quem não tinha que amassar barro para sair à rua e caminhar com uma lanterna porque não tinha iluminação pública...”
Depois chegaram os “televizinhos”, e no entanto havia os felizes, teimosos como ele, que continuavam ouvindo, em meio à uma estática cheia de chiados, a rádio El Mundo de Buenos Aires (“ele-erre-três, ele-erre-uno, ele-erre-equis-uno, rádio El Mundo de Buenos Aires y su cadena gigante de emisoras argentinas!”) ou a Belgrano, (“directo del Teatro Colón”), ou “Rádio Carve de Montevidéu (hablando del Cine-Arte del Sodre).
Em Canoas, éramos “ladrões”, especialistas em furtar os automóveis dos pais dos colegas bem situados na vida. Pessoalmente eu ajudava os irmãos Kessler, Rubens (Binho) e Luiz Fernando (Nando) a movimentar uma camioneta importada Mercury, do “seu” Hugo Kessler, ao lado do Colégio das Freiras. Ficava ali na rua Guilherme Shell, a residência deles, dizem que eles haviam decidido ocupar a casa de fim-de-semana para tentar obrigar os filhos a estudarem no “Colégio dos Irmãos”, do outro lado dos trilhos, na Vitor Barreto, pois em Porto Alegre haviam se transformado em “garotos-problema”. E nós, os colegas “pobres”, só tínhamos mesmo é que ajudá-los no “furto” que nos libertaria e liberaria aventuras noturnas, rumo a São Leopoldo e outros endereços mágicos e proibidos.
O primo deles, Léo Dexheimer, tinha um “Standard Vanguard” apelidado de “Carro-Brahma”. Sempre estava lotado de cervejas no porta-malas...
E esta era a vida. Estudar pouco, jogar algum futebolzinho de fim-de-semana, ter uma ocupação eventual ou que pelo menos rendesse os trocados para os bailes do “Bolão” e do “Comercial”, quando se poderia dançar ao som de Norberto Baldauff nos momentos mais importantes, “bailes de gala” no aniversário do clube, e imaginar que a vida não mudaria nos próximos séculos... Mudou.
Em breve Canoas tinha não mais 10 ou 12 mil habitantes, mas 50, 60 mil, chegaram as fábricas, nasceram as vilas que não eram mais Niterói, Rio Branco ou São Luiz, mas do Santo Operário ou Matias Velho...
Os “televizinhos” foram absorvidos pela matemática do poder aquisitivo e da renda per capita, e pela estatística que “mostra tudo, menos o essencial, como o bikini”. Ah, houve um maiô sim, que era assim mesmo chamado, as mulheres romperam os diques de proteção, chegou-se a 68 e o mundo dançou. Dançamos nós.







O ASSASSINATO DE UM ANIMAL
Walter Galvani, em 26/06/2006

Para quê?
Qual a razão?
O "homo sapiens" precisa disso ainda?
Eis como se comportaram os alemães
fora da Copa.
Quem sabe o que ocorre, às vezes, em campo (como em Portugal x Holanda)
tenha uma explicação no
comportamento selvagem?
Leiam sobre "Bruno" e sobre Portugal 1 x Holanda, 0...


MATARAM O “BRUNO”

Walter Galvani


Tenho uma avó nascida em Neustadt, próxima a Dresden, aqui (no Brasil) chegada no começo do século XX, e que sempre me transmitiu, através do exemplo e de sua dureza, o respeito pela educação germânica. Também, o fato dela haver nascido na região metropolitana de Dresden, me inspirou uma visita aquela região, o que fiz em 2002, sempre lembrando as atrocidades cometidas pelos “Aliados” que foram capazes de bombardear a cidade indefesa, já no final da II Guerra Mundial. Destruíram escolas, hospitais, mataram 70 mil pessoas. Algo parecido, só as bombas atômicas que os americanos lançaram sobre Hiroshima e Nagasaki.
Mas, não falamos falar de atrocidades, mesmo porque seria preciso lembrar também aqui o que os nazistas perpetraram e nesse caso, não ficou pedra sobre pedra que não tenha sido manchada de sangue inocente, nem no leste, nem no oeste da Alemanha.
No entanto, tantos anos passados, guerra finda, Auschwitz esquecida, holocausto posto a margem, e até contestado por alguns, com um papa reinando em Roma depois de ter iniciado sua carreira como membro da Juventude Hitlerista, tudo é possível.
Tudo isso nos leva a formular uma dúvida sobre o procedimento dos humanos, justamente no dia em que, informam os jornais europeus, foi abatido o “Bruno”. Ou melhor, foi assassinado.
Trata-se de um urso selvagem, resultado do trabalho de preservação realizado pelos italianos na região do Trentino-Alto Adige e que, por ignorar as fronteiras nacionais criadas pelos seres humanos, ousou invadir a Baviera, onde encontrou a morte.
Pelo caminho alimentou-se de algumas dezenas de cabras, coelhos, galinhas, nada que fosse capaz de abalar a exuberante produção da terra da minha avó. Sinto muito. De nada adiantaram os apelos das associações conservacionistas. Bruno, um urso pardo de 3 anos e 150 quilos, foi derrubado pelas balas de caçadores finlandeses, especialmente contratados para a ação.
“Bruno” foi morto, quando vagava pela região de Mieszbach, junto ao lago Spitzing.
Na Itália, ficaram sua mãe e seu irmão.
Em meio à Copa do Mundo, quando tantos cidadãos de todo o mundo afluíram à velha Alemanha, esperamos que tais fatos não se repitam.
Quanto a comportamento, bem, é bom começar a gaguejar um pouco... Por exemplo, a ação criminosa de um jogador da Holanda, visando tirar de ação o talento de um jovem como Cristiano Ronaldo, de Portugal, quando atingiu propositadamente, e, pior, diante das câmaras de televisão do mundo inteiro, a perna do jovem, para tirá-lo da competição, não difere muito da ação criminosa. Torna compreensível que se contratem assassinos em potencial para derrubar um pobre urso. Não teria sido mais fácil laçá-lo e levá-lo para uma reserva ecológica?
Bouhlarouz é o nome do atleta holandês que, destemperou-se a ponto de agredir o jovem jogador português nascido na ilha da Madeira.
Bem, os nomes dos assassinos finlandeses que abateram “Bruno”, esses não temos. Fica o urso como lembrança e ponto de orientação para os seres humanos que porventura nos lerem. Os irmãos ursos, esses não lêem, como se sabe.




A VELHA ÓPERA
Walter Galvani, em 25/06/2006

A arte cênica total e completa,
reunindo a música, o canto, a dança, a palavra, a filosofia,
a imaginação. "A flauta mágica", de Mozart, comemorando os
250 anos do grande criador
e ao mesmo tempo, mantendo uma tradição, de mais de um século, numa cidade jovem
(em termos mundiais), como
Porto Alegre. Falo aqui do trabalho operístico do maestro
Frederico Gerling Jr. ma PUCRS, na capital
gaúcha que, como vemos não é apenas
a terra de Felipão e Ronaldinho Gaúcho...
Mas, vale a pena por tudo.
Este artigo foi feito
como editorial do semanário
eletrônico "Conexão Proex",
editado na maior universidade
católica do sul do Brasil


O CULTIVO DA ÓPERA



Há cinco séculos o gênero de teatro cantado, que teve origem no teatro clássico grego e se desenvolveu no Ocidente, assinala um dos pontos mais altos da música e pela sua complexidade técnica e total envolvimento de maestro, músicos, intérpretes, constituindo um desafio fantástico.

Historicamente, Porto Alegre tem sido, desde o século XIX, um dos locais em que a atividade da denominada “música lírica” mais tem tido aceitação por parte do público, devendo-se isso aos espaços especiais, como o Teatro São Pedro, por exemplo, inaugurado em 1858, e a própria formação sociológica da população, com ascendentes na Itália, na Alemanha, na Áustria e em outros países da Europa Central, que estimula a apresentação de tais espetáculos.

A tradição poderia se romper e perder, se não fora modernamente o trabalho do maestro Frederico Gerling Jr., diretor do Instituto de Cultura Musical da PUCRS, que todos os anos mantém este enlace de Porto Alegre com o seu passado e com o melhor da música mundial, através da apresentação de óperas, com a participação da orquestra e do coral da PUCRS. Além disso, a intérprete Adriana de Almeida, receberá justa homenagem ao final da rápida temporada de três apresentações de “A flauta mágica”, ópera que assinalará também os 250 anos de nascimento de Wolfgang Amadeus Mozart.

Adriana que está há 19 anos em nosso meio, será alvo de justa manifestação através da Câmara Municipal de Porto Alegre, em proposta do vereador Adeli Sell.

São todos fatores que se somam para que neste momento, assinale-se a realização destas apresentações de música lírica e ao mesmo tempo se preste uma justa homenagem ao maestro que luta de forma inesgotável pela concretização destes projetos. Somam-se, como pontos de apoio e indiscutível destaque a data comemorativa de Mozart, os cinqüenta anos do Coral da PUCRS e a brilhante carreira de Adriana de Almeida.

Só motivos de júbilo, prevendo-se a lotação completa do Salão de Atos da Universidade.

Porto Alegre agradece.

Walter Galvani




HOLANDA NÃO DEIXOU SAUDADES
Walter Galvani, em 25/06/2006

O jogo dos 16 cartões, 12 amarelos e
quatro vermelhos.
Portugal passou às quartas-de-final
com a estrela do gaúcho Felipão


Todo o mundo, aqui no Rio Grande do Sul, sabe como é que Felipe Scolari monta seus times. Muita união, amor à camiseta, dedicação.
Garra.
A tal de "alma castelhana"...
Pois valeu a fibra, a dedicação, ao mesmo tempo em que a Holanda mostrou num lance de indignidade,
quando teve a posse de bola fornecida pelo adversário, depois de uma interrupção. Ao invés de devolver a cortesia, tentou correr para o empate.
Não conseguiu e caiu no desfavor do estádio inteiro. E do mundo, que
hoje com as transmissões diretas pela tv, corações e mentes do globo
estão centrados no acompanhamento à Copa do Mundo.
Pois bem. A Holanda foi para casa mais cedo.
Ótimo, é bom que corra para casa...
Portugal caminha então para
as quartas-de-final.
O adversário será a Inglaterra.
Depois, seja o que Deus quiser.
É possível que o encontroseja com o Brasil, mas será um belo e
valente choque.
Copa do Mundo é assim mesmo.
Parabéns, Portugal!
Agora, será a vez do Brasil
fazer a sua lição de casa. Terça-feira contra Gana.
Vamos ver se a nossa seleção mostra o mesmo valor que a equipe comandada por
Felipão. Valores individuais e técnica, parece que tem mais.
Vamos ver se aquele outro tipo de valor,
aquele mesmo que Felipão implantou na seleção na hora do penta, estará presente para chegarmos ao hexa.



UM REI PRESO, PRINCIPAIS CLUBES AMEAÇADOS DE REBAIXAMENTO, UMA RETA FINAL DA COPA
Walter Galvani, em 23/06/2006

Como é difícil ser italiano, devem estar dizendo hoje meus ancestrais.
Esta coluna é uma homenagem ao meu
"nonno" que nasceu no Veneto (? - terá sido mesmo?)e pelo menos um antepassado ilustre é "dono de praça" e muitas ruas na Italia, o dottore Luigi Galvani, idealizador da galvanoplastia, diretor da Faculdade de Medicina de Bolonha.


ISSO É QUE É CRISE

A Itália, campeã mundial três vezes, duas delas ainda na época de Mussolini (34 e 38), mas quando tinha um timaço constituído entre outros por Viola, Bertucelli e Manente; Mari, Parola e Piscinini; Biavatti, Meazza, Piola, Mazzola e Ossola, está chegando às finais, como sempre, enquanto vive crise doméstica sem paralelos: o neto do último rei Vittorio Emanuele, que aliás porta o mesmo e digno nome do avô, está em prisão domiciliar por exercício de crimes de exploração sexual e o Juventus, mais famoso e mais antigo clube de futebol italiano, conhecido como “La Vecchia Signora”, e mais o Lazio, a Fiorentina e Milan, inegavelmente os clubes onde atua a maioria dos craques atuais e passados da “Squadra Azzurra” estão sob ameaça de rebaixamento por manipulação de resultados.
Como pátria da pizza, pode ser que tudo termine numa... na “Vera pizza napoletana” como anunciam os restaurantes italianos e, vai-se ver não é nada disso...
Mas rebaixar quatro dos mais importantes clubes italianos e prender, mesmo que seja em “domiciliária” como é o caso decretado pela justiça, um neto do rei, é demais para os pobres corações peninsulares, acostumados a sofrer liricamente ou fora da ópera...
Entrando nas oitavas de final, rumo a um futuro confronto com a idéia de reconquistar a Copa do Mundo “di cálcio”, futebol em terras italianas é o “cálcio”, como se sabe, é um momento de grande comoção nacional.
Para os brasileiros que pensam que só no Brasil é que o futebol tem a importância e o poder para paralisar tudo enquanto nossos representantes se desdobram ou não correndo atrás da bola, visitem a Itália durante uma copa mundial, como agora...
Nem tudo é futebol. Mas, quase tudo.
Até nas igrejas, troca-se o silêncio das sacristias pela acalorada discussão de quem é o melhor no esporte que, afinal de contas era jogado nas ruas das cidades italianas, apesar de que os ingleses continuem apregoando que são os inventores do jogo.
Veremos. Ou melhor: veremos ao menos pela tevê e escutaremos pelo rádio. E ficaremos sabendo que não é o número de habitantes que reflete a habilidade por este jogo empolgante que tem a admiração do mundo inteiro. E a paixão.




ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS HOJE É O SEU DIA
Walter Galvani, em 21/06/2006

A entidade foi criada por Machado de Assis, para, entre outros objetivos,
criar "uma unidade literária"
dentro da federação política.


Instituição idealizada por um grupo de escritores, sob a liderança de Machado de Assis que foi seu primeiro presidente. No discurso inaugural, pronunciado em 20 de julho de 1897, ele expressou o desejo coletivo de conservar, no meio da federação política, a unidade literária, exortando os demais fundadores: Passai aos vossos sucessores o pensamento e a vontade iniciais, para que eles os transmitam aos seus, e a vossa obra seja contada entre as sólidas e brilhantes páginas da nossa vida brasileira



CRÔNICA, O VÔO DA PALAVRA
Walter Galvani, em 20/06/2006

Estou realizando uma oficina de crônica, para alunos da UERGS,
este é o módulo 2.
O recado é para todos
os tantos, os muitos, que
querem escrever crônica.
O gênero mais livre e
mais característico do Brasil e da
língua portuguesa:


CRÔNICA:
DO DIÁRIO ÍNTIMO AO JORNALISMO
EM BUSCA DA SALVAÇÃO PELA QUALIDADE

Walter Galvani


Comecemos com Aristóteles: “Somos aquilo que fazemos consistentemente. Assim, a excelência não é um ato mas sim um hábito.”
E aqui temos um programa de vida. Vale tanto para a nossa produção literária possível, quanto para nossa vida particular, digamos assim, pelo menos aquilo que se refere aos nossos atos diários.
Qualquer coisa, desde o planejamento de uma pequena viagem, até à participação num congresso, falar num encontro como esse ou dedicar-se à criação de uma série de contos para inscrever num concurso.
Ou, quem sabe? – escrever um romance histórico. Você terá que fazer antes a pesquisa, dedicar-se a fundo a levantar os dados sobre determinado assunto. Aliás, tema que terá de ser escolhido antes, talvez com muita antecedência. E então dedicar-se, como e aquele fosse o último ato de sua vida, do qual ficariam recordações indeléveis no futuro. Escreva. Mas, escreva como se fosse o irretocável testamento pessoal.
No meu caso, escolhi para falar a vocês sobre a “Crônica, o vôo da palavra”, É que ao longo de uma carreira de 50 anos de jornalismo, tantas foram as vezes que assentei-me à máquina, depois ao computador para escrever uma crônica, que poderia, pelo meio do caminho, ter abandonado este caminho básico traçado por Aristóteles e que citei no início. Não, não tenho produzido obras-primas, mas fico com os recursos que Deus me deu.
Escolhida a Crônica, um gênero bastante definido e conhecido dos brasileiros e de todos os falantes da língua portuguesa, mas até contestado por cultores do espanhol e do inglês. Em sua própria etimologia, definindo-se como uma filha do deus Kronos, ela começa a se perfilar com suas características básicas. Para nós, trata-se de algo simpático e comovente, significativo digamos, como o é a Crônica, na forma como a conhecemos hoje no Brasil.
E não só no Brasil, diga-se de passagem, mas nos países lusófonos.
Existe, bastante difundido no coração e nas mentes, a convicção de que este é um gênero brasileiro. Não é.
Acredito que, garantido pelo acolhimento da língua portuguesa, ele freqüenta com igual desenvoltura, Portugal, Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Guiné Bissau, Timor Leste, os enclaves indianos de Goa, Damão e Diu e Macau na China, onde ainda se pratica alguma coisa do nosso idioma e, claro, céus e terras brasileiras. Também possui algumas aflorações em diversos pontos onde a diáspora portuguesa dos dois últimos séculos foi mais fecunda, como a costa leste dos Estados Unidos, França, Inglaterra e até na Argentina. Nesses lugares, a existência de jornais e revistas em língua portuguesa assegurou automaticamente o cultivo do gênero crônica que, embora tenha começado em nossa língua como um registro a serviço dos poderosos, a história dos reinados e suas conquistas e descobertas, evoluiu para o comentário, a colaboração, e, graças a Deus, à crítica.
De Pero Vaz de Caminha, um grande repórter, para cá, não foram poucos os que se destacaram, individual e isoladamente ou na atividade jornalística, para encontrar no cintilar das asas de uma borboleta amarela, no entrechoque de raças ou povos, nos eventuais banhos de corrupção e seus mares de lama, ou num arco-íris que subitamente entrelaça os corações dos habitantes de uma cidade, a oportunidade do texto que esclarece ou encanta e une os homens ou os divide.
Assim, embora seja uma valiosa pretensão, não podem os brasileiros cobiçar a exclusividade da Crônica.
É justo que se diga que, assim como há Machado de Assis, há Eça de Queiroz, e como há Carlos Drummond de Andrade, há Antônio de Lobo Antunes, como tantos outros, como Affonso Romano de Sant’Anna ou Fernando Sabino do lado de cá do Atlântico, como temos irmãos transatlânticos do porte de Antônio Mega Ferreira, Inês Pedrosa ou José Carlos de Vasconcelos.
Com o acesso aos jornais editados nos chamados “Palops” (Países africanos de língua oficial portuguesa) ou mesmo dos demais citados como o asiático Timor Leste ou colônias espalhadas pela Europa e Estados Unidos, torna-se fácil acompanhar o tipo de trabalho que por lá realizam os cultores da Crônica e... da língua portuguesa.
Uns mais outros menos, todos se aproximam deste modelo consagrado pelos escritores brasileiros. Nunca é demais relembrar aquilo de que somos capazes de fazer, ou registrar sentimentos e emoções, até o comentário sobre os acontecimentos da cidade, do país e do mundo.
E agora, não mais apenas da cidade, pois está desfeita a dúvida, a suspeita que se tinha de que o campo, definitivamente incorporou a comunicação, a informação e os enlaces tecnológicos através da televisão por satélite, o celular e a Internet. Ninguém mais vive isolado dentro dos limites de sua fazenda, sua estância, seu pedaço de campo. Aqueles que tem alguma possibilidade, naturalmente, devido aos custos e a não existir estabelecimentos públicos facilitando os contatos, como os há nas cidades, estão interligados. Mais do que nunca, se constata também no campo, que o mundo globalizou-se.
Os dados da mais recente pesquisa são irrefutáveis: dos produtores rurais rio-grandenses, por exemplo, 96% deles possuem aparelhos de rádio, 95,5% aparelhos de tv, sendo 60,5% conectados por antena parabólica, 28,5% possuem computadores conectados à Internet, 62,5% tem telefones fixos e 81,5%, telefones celulares.
Como se vê, o antigo argumento de que na roça não nasce crônica, está destruído. Hoje, todos sabem o que ocorre no mundo inteiro, instantaneamente e se comunicam com precisão e velocidade. Grandes cidades, capitais, megalópoles e ranchos perdidos no pampa podem, igualmente se integrar e saber o que sucede em Londres, Paris, Nova Iorque ou Brasília.
Mesmo que os aparelhos estejam situados na “casa grande” das fazendas, sempre sobra a possibilidade dos contatos telefônicos, o convite para assistir esse ou aquele programa de tevê e eventualmente desenvolver a atividade via Internet, através da qualificação dos capatazes ou seus familiares. Estamos diante de fatos que mostram que a vida moderna mudou o perfil dos moradores que se dedicam à agropecuária.
Esse aprofundamento ajuda a facilitar a vida dos cronistas e até permitir que alguns deles se isolem em regiões antes inalcançáveis e improváveis para exercer esse tipo de atividade.
O enriquecimento da linguagem, com a integração dos interioranos, provoca o debate e o estudo das possibilidades que se abrem. Antigamente ainda se discutia, ou seja, na primeira metade do século XX e daí para trás, em oposição ao citadino, tínhamos no Brasil, o campino, o habitante rural, ou camponês.
O local de moradia ainda pode influir nesta denominação, mas há de se perder rapidamente na opção da linguagem e na seleção dos assuntos.
Agora a qualidade própria, peculiar, enfim aquilo que é específico do gênero Crônica está na cabeça e no DNA dos cultores da língua portuguesa e hão de praticar o mesmo ofício, estejam eles no Rio de Janeiro, diante da praia, sol e mar, ou no lombo do cavalo, trotando pelos descampados. Na hora da volta para casa, sentar-se-ão diante de seus computadores e poderão, não só travar contatos e relações, tomar conhecimento de fatos ou informações, como poderão redigir suas crônicas, lançar seu “olhar sobre o cotidiano”, com a mesma segurança com que o fazem os moradores das capitais.
Resumindo, (e oferecendo o tema para uma crônica...) nada agora é “longe demais das capitais”...
Nas tentativas de definição do gênero Crônica é que se expõem, sem sortilégios, as características básicas, aquelas que formam a sua especificidade de texto literário, tornando-a com segurança, bem diversa do Conto, do Romance, do Ensaio.
Não se trata de um estudo (nem mais ou menos) científico. Não poderá ser classificado como ensaio, portanto. Não se preocupa em contar uma história completa, não será conto, e também não se alinha no complexo campo do romance, hoje em dia aberto a todas as experiências, linhas e possibilidades que a ficção, ou a história, (pessoal ou dos países e das comunidades), escancaram para o romance moderno. Ela é e será a crônica, e pronto. Será uma “janela através da qual a literatura contempla o mundo”, como escreveu Moacyr Scliar, ou como diria outro mestre do gênero, Fernando Sabino, “a crônica é a busca do pitoresco e do irrisório no cotidiano de cada um”. Ou, no dizer do veterano mestre, presidente da Academia Rio-Grandense de Letras, Irmão Elvo Clemente, “fazer crônica tornou-se a ação lúdica das palavras, das figuras, dos tropos literários”.
Poderíamos arriscar dizendo que escritor brasileiro que se preze não recua diante de nenhum tema. Uma vez escolhido o rumo, é capaz de escrever sobre a chuva, a corrupção, o futebol, a economia, o amor, a falta dele, as atrocidades contra os animais ou as que praticam os seres humanos contra os iguais, enfim, encaminha qualquer questão, sem receios. Aprendemos isso com os nossos antepassados, aqueles que ajudaram a formar esta língua que marca nosso espírito e conforma nossa cultura.
O DNA vem de longe. Podemos começar com Fernão Lopes, lá em Portugal e chegar aos grandes do século XIX e começo do XX, época que se deu ao luxo de ostentar gente como os já citados Eça e Machado, ou Lima Barreto ou Garrett. E o melhor para todos nós, é que continuadamente se viu, ao longo do tempo, o surgimento de nomes irretocáveis. Lembro-me de uma revista a “Manchete” da editora Bloch, que durou mais de trinta anos, e que alinhava, numa mesma edição, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Otto Lara Rezende, Adolfo Bloch, Henrique Pongetti.
Hoje não há grande ou pequeno jornal, revista, rádio ou emissora de tevê, que não mantenha em seus quadros alguém com a tarefa de fazer o comentário diário, isso sem falar naqueles que se enquadram no termo “colunistas”, por transformarem suas crônicas na “coluna diária” sobre sua especialidade ou sobre os mais variados temas. Assim, vamos, do esporte ao meio ambiente, da economia à política, da religião ao esoterismo, da sociedade ao turismo, do cinema à literatura. Assunto é o que não vai faltar.
Inês Pedrosa, escritora portuguesa de grande sucesso, cronista de primeira, assim se referiu ao gênero, cuja especificidade nos interessa:
“Ao contrário do que a atual profusão de cronistas pode, à primeira vista, fazer crer, a crônica é uma das mais difíceis disciplinas da arte literária. Trata-se de captar essa coisa inefável a que chamamos “o espírito do tempo” num espaço limitado e segundo normas implícitas de legibilidade. Ainda por cima, a crônica exerce-se como ginástica regular de coreografias sempre diferentes. Exige-se-lhe lógica e imaginação, surpresa e essa intuição da verdade a que damos o nome de perspicácia.”
E mais adiante: “A crônica é, afinal, a busca deste terrível e fascinante resíduo da infância chamado “verdade” (...) a realidade funciona como um engrenagem de memórias sobrepostas, uma espécie de máquina do tempo forjada no rigor e na complexidade da infância, apagando a ilusória distância entre o vivido e o imaginado.”
Agora, é sentar-se diante do computador ou caneta e papel na mão como nos velhos tempos e começar a experiência, sempre gratificante, de transformar o material que a realidade nos presenteia com a reflexão sobre o passado, o presente e o futuro.
Durante alguns minutos, faça aquilo que defino como o passo inicial do ofício do cronista: o vôo da gaivota. Faça como aquele simpático pássaro que povoa os litorais por aí afora: voando rente às ondas, com o olho no mar ou na areia, até o ponto e a hora de fisgar o peixe. E então voar mais e mais sem deixá-lo cair.
Fisgue o assunto; mas não deixe cair...
Em busca da excelência. Na luta pela qualidade. Que devem ter todos os seus textos: do diário íntimo à crônica que irá ou não ser publicada.




SEGUIMOS NA COPA
Walter Galvani, em 18/06/2006

Esta crônica foi publicada hoje
no jornal ABC DOMINGO', que circula
na região metropolitana
de Porto Alegre:


NINGUÉM MERECE ESSA PRESSÃO

Walter Galvani

Todos os maiores de trinta anos são do tempo em que os jogadores de futebol diziam em suas entrevistas que “tudo farerei pra defender as nossas cores do meu clubeo” e alguns até, são do tempo em que um ou outro agradecia as “brahmas que a antártica mandou”. Hoje, raríssimos cometeriam tais erros de linguagem em entrevistas e muito menos confundiriam os patrocinadores. Aliás, tem gente que diz que a Seleção tem que cumprir formalidades na escalação, para obedecer ao que determinam certas grifes exclusivas. Tomara que isso seja mentira. Pena que nesse caso, fica difícil descobrir-se a verdade, a “verdade verdadeira”, como diriam as crianças que são inocentes. Ninguém merece essa pressão.

Por outro lado, os profissionais de futebol, ao mesmo tempo em que aprenderam, a maioria através do ouvido, a falar mais ou menos certo, temerosos do ridículo pelos humoristas de rádio e televisão, descobriram que junto com os milhões de euros que passaram a ganhar, sofrem cobrança. A mesma que qualquer profissional em qualquer ramo de atividade. Desapareceu, em parte, aquela admiração basbaque por alguém que é capaz de marcar gols ou fazer misérias com a bola e no fim do mês, passar na tesouraria do clube para buscar seus milhões. Hoje é preciso participar com afinco dos treinamentos físicos, estar com o peso adequado e não beber, nem praticar noitadas como d.j. ou participante da “balada”. Não pode comer demais nem no sentido pantagruélico do termo, nem no adotado por extensão, com relação ao sexo oposto. Em campo é preciso obedecer às ordens do técnico, cumprir a função tática, e só depois disso mostrar seu brilho pessoal pelo menos até o limite do que é conhecido como o seu nível.

Assim é o futebol de hoje em dia, que evoluiu desde uma romântica atividade, através da qual os grandes craques recebiam alguns trocados nem muito secretos, os bons tempos do chamado “amadorismo marrom” e a imensa maioria era constituída de figurantes que ganhavam, no máximo, a passagem do ônibus. Hoje todos ganham, alguns mais, outros menos, os mais famosos muito mais do que os deputados e senadores e alguns deles possuem carrões que só os barões do café possuíam antigamente e hoje ficam reservados aos donos dos petro-dólares.

Então o que a sociedade deles exige é, no mínimo, um flagrante esforço máximo em campo, quando vestidos com os calções, a camiseta e as chuteiras, ainda mais quando a camisa é a “canarinho”, inventada pelo nosso bom escritor Aldir Garcia Schlee, e que já ganhou cinco copas mundiais. Estamos agora na perseguição da sexta, não se trata de “hexa”, pois este prefixo latino quer dizer em série, ou seja, bi, tri, tetra, penta e hexa se referem a títulos consecutivos. E os nossos, não o são. Mas, vamos esquecer a gramática e a semântica, já que o título mundial é tão importante e se disputa de quatro em quatro anos. Nada disso nos absolve dos exageros, nem o de cultuar os jogadores como deuses, sejam eles Ronaldo “Fenômeno”, Ronaldinho “Gaúcho”, Kaká ou tantos outros da linhagem que vem de Domingos da Guia e passa por Ademir, Garrincha, Zico, Zagalo e Pelé não passa, seguramente, por Felipão ou Parreira...

O que é preciso levar em conta, hoje em dia, é que todos aprenderam a jogar futebol, mesmo que seja de ouvido como nossos jogadores aprenderam a língua portuguesa. Assim, até os cangurus descem a campo sabendo o que devem fazer. A Austrália é, sim, um grande adversário, e o respeito é bonito e fortalece as possibilidades.




TODO MUNDO DE CUECAS
Walter Galvani, em 17/06/2006

Achei ótimo que os holandeses
tenham assistido ao jogo
de sua equipe contra a
Costa do Marfim, de cuecas
porque a FIFA proibiu
que aparecessem com calças
promovendo uma outra cerveja
que não a patrocinadora
oficial, Budweiser


É esse o problema de uma competição
que se tornou altamente "midiática".
O que importa mesmo agora
não é mais o futebol, mas a promoção
do esporte, através das gordas verbas
de publicidade.
Milhões.
Quinze companhias conquistaram
o direito de patrocinar quotas
de publicidade da Copa, o que significa
50 milhões de dólares.
Inocentemente, ou nem tanto, os holandeses chegaram sexta-feira para assistir ao jogo de sua
seleção, usando as tradicionais
calças cor de laranja, cor de sua equipe.
Só lá esytava estampado
o nome de uma cerveja.
A censura da FIFA é tão forte
que o noticiário que vem
da Alemanha nem sequer menciona
a marca preferida dos
holandeses.
Só vale a Budweiser.
Anotem para compreender
os males do exagero.
Assim é a Copa.
Há de tudo.




EQUILÍBRIO E ISENÇÃO
Walter Galvani, em 16/06/2006

É tudo o que se pede, quando
metade do mundo, ou será todo? -
se incendeia e se divide
com o futebol.
Paixão demais... isso
também é perigoso.
Esta crônica foi publicada
hoje no semanário
eletrônico da Pró Reitoria
de Extensão da PUCRS:


O SIGNIFICADO DO FUTEBOL

O esporte, sadiamente praticado, mesmo que em níveis profissionais como se verifica hoje em dia, longe do romântico amadorismo de outros tempos, tem um importante e muitas vezes desmesurado significado para a sociedade, que se traduz através do exagero da cobertura “midiática” e da paixão que move os torcedores.

Como conseqüência disso, vai-se muitas vezes, além do que seria aceitável, prudente ou compreensível, elevando o nível de exigência a padrões que não se pedem de profissionais, de outros ramos de atividade. Hoje se pode ser, mais ou menos atendido, uma prestação de serviços corresponde ou deixa a desejar, e mesmo quando a atividade é fornecida pelo estado, não se assistem reações à altura do que os consumidores poderiam exigir.

Mas, cobra-se, e muito, dos profissionais de futebol. Tanto que alguns deles se rebelam com tal pressão, relatando episódios que consideram injustos para um ser humano. É compreensível, não é correto que se pense ou proceda dessa maneira. O resultado, no entanto, é inevitável, se levarmos em consideração o endeusamento a que são levados os chamados craques, os salários que recebem, embora se levando em consideração, quanto é curta uma carreira de futebolista, no caso de dez a doze anos em média, e as exibições exteriores de riqueza que são feitas, tanto por interesse próprio, para valorizar o próprio “passe”, quando para elevar-se no altar da reverência popular.

O interesse da “mídia” pode ser desproporcional com relação a qualquer outro nome de destaque, seja na atividade científica, cultural, de ensino ou pesquisa, ou desempenho artístico, o que gera um sentimento de injustiça e depreciação.

É preciso aprender a conviver com tal desequilíbrio e continuar selecionando suas preferências de acordo com os ditames da própria inteligência. Rebelar-se com tal estado de coisas, seria o mesmo que ignorar a fama dos gladiadores do Império Romano. Mas sempre é bom recordar que o nome de Cícero, Platão, Sócrates ou Aristóteles está sempre presente, inclusive na “mídia” e os gladiadores ou o próprio império, esfumaram-se no passado, jazem no poço escuro do esquecimento.




SAPOS, CURURUS E CALANGOS...
Walter Galvani, em 08/06/2006

Esta crônica está publicada hoje
hoje no jornal Diário de Canoas,
minha terra natal.
O DC é do Grupo Sinos,
em Canoas e outras localidaes da região metropolitana
de Porto Alegre


ENGOLINDO SAPOS

Walter Galvani

O resultado das pesquisas demonstra que Lula detém as preferências, situação que pode se alterar ou não, dependendo de fatores que vão, do valor do dólar até o desempenho da seleção brasileira na Copa do Mundo e passa pelo clima, pela falta de dinheiro, pelas safras agrícolas e pelas bobagens que os políticos ainda terão chance de dizer até outubro. Mas, sendo ele o presidente, tudo o que sai de sua boca merece ser esmiuçado, pois não tendo acesso ao seu lixo particular, precisamos saber o que anda lendo, ouvindo, comendo ou bebendo. Agora mesmo se soube que ele está comendo “sapos, cururus e calangos”. E que isso se faz, opinião dele, a partir dos 60 anos, e que portanto ele continuará com esta dieta, no mínimo curiosa, até que o povo decida se deve continuar sentado no trono de Dom Pedro I. Não poucas vezes, ao longo da História, o povo se manifestou. Houve o episódio do “Fico”, aquele que falava na “felicidade geral da nação”, houve a república implantada de madrugada com o seu proclamador elegantemente montado a cavalo (na tinta dos artistas), mas em verdade sem saber o que estava fazendo ali e nem o que estava proclamando – refiro-me ao marechal Deodoro – e , depois disso, outras oportunidades em que o povo não foi consultado e acordou com novos governantes, como em 30, em 45, em 64, etc. etc. E nós, comendo sapos, cururus e calangos...
De uns anos para cá até que nos acostumamos (mal) com eleições e temos que preparar nosso voto, portanto, depois de ouvir o que o eventual ocupante da cadeira que Juscelino transplantou para Brasília, na linha de sucessão no trono do príncipe português. Este é o caso do torneiro-mecânico que elegemos e se fosse hoje nem torneiro-mecânico seria, pois essa, como se sabe, é uma profissão praticamente extinta, substituída por operador de computador que faz todo o serviço antigo sem arriscar o profissional a perder um dedo no torno...
Assim sendo, só nos resta decifrar o “código Da Vinci” do presidente, encontrar algum “criptex” ou aparelho semelhante, que nos permita descobrir a que ele se refere e quem são os batráquios que cita pelo nome popular, pois estes é que estão sendo engolidos pelo supremo mandatário da nação. E nós que pensávamos que ele vivia de churrasco e buchada de bode, pois, ao que consta não é chegado a “strogonoff” ou algum modesto “fricassée” de galinha que faz o encanto das pequenas cidades e das donas de casa sem imaginação!
Pois, da mesma forma como estão anunciando perigosamente a seleção brasileira, que só teria como adversário à altura nesta Copa, a seleção B do Brasil, agora nos apresentam Lula A (atenção, não é Lulalá...) contra Lula B, pois, somando-se as preferências ele vai além dos 62% inimagináveis para quem viu seu partido se destroçar diante do “mar de lama” que já inundou outros palácios em outros momentos da história do Brasil.
Entre o Leilão da Varig diante de um governo inerme e que não se mexe para pagar sua dívida que na certa salvaria a empresa, e a Copa do Mundo com nossos jogadores expostos à execração pública por comparecerem à “balada” tipo até seis da manhã, e o menu inusitado do presidente, ficamos nós, os membros do “pobre povo brasileiro”, um time de heróis que gasta mais do que ganha para pagar suas contas e ainda vê sua aposentadoria ameaçada pelos absurdos cometidos por anti-administrações sucessivas que sequer pagam o que tem que recolher oficialmente. Devedores relapsos, corruptos e ladrões existem às centenas, todos os dias os jornais noticiam. Já houve gente até que construiu uma ponte com o dinheiro da nação e roubou outra e foi assistir a Copa do Mundo na Espanha! De lá para cá, parece que melhoramos apenas nosso time, crescendo o espírito de equipe, nem que seja para jogar junto na madrugada, consumindo 680 euros de uma sentada só.
Teremos que solucionar isso tudo na hora do voto, quer dizer, na hora do jogo, da bola rolar e ver quem é mais competente, com bolhas ou baladas.




O MELHOR E PIOR DO BRASIL
Walter Galvani, em 05/06/2006

Nossa oferta vai do mais emocionante ao mais terrivelmente humilhante....

Estamos a um passo da estréia na
Copa do Mundo. Dia 13, jogaremos com
a Croácia.
Até aqui fizemos treinamentos
agradamos à população das cidades por onde andamos, de Weggis à Lucerna,
nomes que adicionamos
aos nossos endereços emocionais
habituais.
Na terça-feira, dia de Santo Antônio para os crentes, dia 13 de junho, desceremos finalmente aos gramados alemaes
para jogar a partida de estréia na Copa do Mundo.
E então, por um momenti,
seremos um povo unido - aquele que
nos refrões da esquerda
dos anos 60 ou 70, jamais será vencido.
Mentira. Mentira política, quero dizer.
Dentro do campo seremos
um onze unido. Deixaremos
de lado todo o nosso individualismo - e Ronaldinho Gaúcho foi bem o
intérprete deste sentimento, ao afirmar que jogará para propiciar
oportunidades aos companheiros Ronaldo e Adriano ou quem esteja à frente
para fazer os gols.
Que lição, não é mesmo?
Que belo conselho aos políticos e aos homens de ação deste Brasil!
Pois o humilde negrinho que
saiu das divisões inferiores
do Grêmio Porto-alegrense, hoje o melhor jogador do mundo, manda uma lição de
procedimento aos nossos
pró-homens.
Terça-feira, cessa tudo o que a antiga musa canta - como diria
Camões - e a bola é que passa a mandar
Em campo, trataremos de
vencer qualquer complexo antigo de
inferioridade e resolveremos
como se fosse numa batalha
as diferenças que possam nois
inferiorizar.
Unidos venceremos - diziam os
Três Mosqueteiros e
o amigo D'Artagnan.
Pois é.
Enquanto isso continuam
assaltando e matando nos
campos do Brasil.
Preparamos um engenheiro
e ele é assaltado e morto
por causa de um áutomóvel.
Formamos um músico e ele
é assaltado e morto, por nada.
Até quando assistiremos, passivos, de braços cruzados, esta
inútil e devastadora
guerra civil?
Francamente, é melhor
então, pensarmos mesmo
só no futebol...
Pelo menos, por enquanto,
a bola não mata e a paixão apenas nos opõe.
É verdade que há
comportamentos impróprios
pr parte de torcidas
organizadas.
Mas, isso também é coisa
de se esquecer numa hora dessas.
Estaremos, pelo menos, todos os que se irmanam pelo mesmo hino que fala
da brava gente brasileira,
lutando pelos mesmos ideais.
Ou seja: mostrar ao mundo
do que o Brasil é capaz.
Prá frente, Ronaldinho!




A NOJEIRA QUE HÁ POR AÍ...
Walter Galvani, em 04/06/2006

Esta é a crônica publicada
hoje no jornal ABC DOMINGO
que circula na região
metropolitana de Porto Alegre,
Rio Grande do Sul, província
mais meridional do Brasil


DIREITOS NOSSOS (E OS DELES)



Walter Galvani





Quando um tribunal decide em nosso nome o que deve e o que não deve ser transmitido pela tv, nossa primeira reação é de protesto, porque entende-se que houve censura. Mas, quando se fica sabendo qual foi a proibição, dá vontade de pedir que se continue proibindo. Quando uma filha mata os pais, com ajuda de irmãos bandidos ou não, o que se pensa em fazer é pedir a pena de morte para o Brasil e igualmente estendê-la a todos os que matam crianças. Com requintes de crueldade ou não. Mesmo quando o filho morto não é mais criança, como o jovem de 19 anos assassinado em São Paulo com uma facada no peito, pelo pai alcoólatra. Que dizer então da sádica e miserável cidadã alemã que matou 8 bebês e enterrou-os cinicamente no jardim de sua casa?

É demais para assunto de um domingo em que deveríamos estar placidamente sentados em nossas cadeiras de praia ou jardim a ler o ABC e imaginar que o mundo que sonhamos, com prosperidade e segurança para todos, com emprego, automóveis, casa no litoral e na cidade, muita comida, felicidade, saúde, estaria chegando.

Acordem. Não chegou.

Continuamos andando sobre bombas atômicas como o “Dr. Strangelove” e voando, indormidos, pelas rotas estelares, esperando ver a qualquer momento a explosão nuclear que a ignorância promoverá em comemoração aos sonhos de independência a que todos tem direito.

Ainda bem que o “show-bizz” tem outras bobagens para mostrar e talvez nos poupe de ver as lágrimas crocodilescas de produtos sub-humanos que no entanto são apresentados como filhos de “homo sapiens”.

E o que é pior: continuamos lendo, ouvindo e vendo no jornal, no rádio e na televisão, o desfile das monstruosidades que produz este “mundo-cão”, embora não surjam classificados por uma vinheta explicativa de que a partir daquele momento, veremos, escutaremos ou leremos as atrocidades que o homem foi capaz de criar. Homo homini lupus, o velho provérbio latino, transformou-se numa ofensa ao bom e generoso lobo que, como se sabe, só ataca quando tem fome ou quando é atacado.

Será mesmo que não tem as pessoas outra coisa para fazer do que tomar conhecimento de tais absurdos? Quem sabe abrir bom livro? Façam alguma coisa de útil para a humanidade. Divirtam-se um pouco com algo que não seja a miséria alheia ou a coleção dos pequenos e grandes crimes.

Veja-se: o presídio central do RGS é o que terá o maior número de presos do Brasil. E daí? Adianta para quem isso? E de que serve também para a população este informe?

Você sabe qual é o último livro do Armindo Trevisan? Sabe da idéia de espetáculo que está brotando na cabeça da Miriam Spritzer? Conhece o texto do mais recente poema do Fabrício Carpinejar? E a última invenção do Ronaldinho Gaúcho com o seu talento e sua dedicação ao futebol? Já sabe a escalação do time do Brasil ou por acaso conhece o mais recente livro do Harold Bloom?

Ahn, quantos acidentes no fim-de-semana? Quantos mortos? Quantos assassinatos? Quanto de droga se consumiu na festa de ontem?

A culpa nos cabe.

Não é por nada que de vez em quando um poeta “passarinha” como o Mario Quintana, abandonando a nau e doando-nos, integralmente, este mundo enlouquecido. Certa vez, um famoso médico português que ganhou o Nobel de Medicina (o que nenhum brasileiro conseguiu até agora...) sugeriu que se cercasse uma ilha para transformá-la de vez em hospital de alienados. Mais fácil que expurgar os loucos e tratá-los. Quem sabe chegou a hora de passar um alambrado em redor do tal mundo globalizado?















MARIO QUINTANA SERIA IGUAL A FERNANDO PESSOA?
Walter Galvani, em 02/06/2006

Para uma reflexão, no ano em que
se comemora o centenário
do poeta gaúcho que, aliás,.
não aceitava que seu nome fosse grafado
com acento agudo.
Leiam este solau à moda antiga, que será comentado pelo poeta
Luiz Coronel, em crônica inédita
na exposição do Centro Cultural
Erico Verissimo da CEEE,
mostra que inaugura antes do final de
junho:


SOLAU Á MODA ANTIGA

Senhora, eu vos amo tanto
Que até por vosso marido
Me dá um certo quebranto...

Pois que tem que a gente inclua
No mesmo alastrante amor
Pessoa, animal ou coisa.
Ou seja lá o que for,
Só porque os banha o esplendor
Daquela a quem se ama tanto?
E sendo desta maneira
Não me culpeis, por favor,
Da chama que ardente abrasa
O nome de vossa rua,
Vossa gente, vossa casa.

E vossa linda macieira
Que ainda ontem deu flor...

Mario Quintana




UMA NOVA CRISE EM PORTUGUÊS
Walter Galvani, em 30/05/2006

Timor Leste passa por sérias dificuldades
Será que o Brasil
vai tomar a iniciativa
de socorrê-lo
ou ficará aguardando
um pedido de socorro?


Milhares de pessoas deixaram
suas residências por medo
de saques e muitos se refugiaram
onde foi possível.
Brasileiros, inclusive,
que foram para o Timor
ajudar em sua recuperação
estão sendo atingidos
pela violência.
Ontem destruíram os
arquivos referentes ao
período de ocupação do país
pela Indonésia, o que
indica o que há por trás
do problemão.
Vamos ficar de braços cruzadops?
Será que a língua em
comum não motivaria
os brasileiros a entrar
em ação ou vamos
nos contentar com as
fotos mostrando os timorenses
de camisa amarela
torcendo pelo Brasil em
português na Copa do
Mundo?
Chega de folclore! Ação,
governo Lula!




Walter Galvani, em 29/05/2006





O PAPA BENTO XVI VISITOU AUSCHWITZ
Walter Galvani, em 29/05/2006

Deve ter sido duro para
um antigo membro da
"Juventude Hitlerista"
testemunhar e convencer-se
do que significou
a ação do Nazismo.
"Nevermore", como diria
o corvo de Allan Poe...


"ONDE ESTAVA DEUS NAQUELES DIAS?”

Boa pergunta.
O papa visitou Auschwitz e ficou escandalizado com o que viu e que apenas lembra o que foi a instalação de fornos crematórios para liquidar com o “problema judaico” durante a II Guerra Mundial. Adolf Hitler entendeu, e da mesma forma pensava todo o seu estado maior e, na certa, os eleitores e fanáticos do Partido Nazista, que o caminho para acabar com o predomínio judeu sobre o capital na Alemanha e em vários países da Europa, era um só: acabar com eles.
Quando jovem, o cardeal Joseph Ratzinger teve lá suas dúvidas e mais ainda quando bem jovem, por volta dos 12 anos, chegou a integrar a Juventude Hitlerista. No retoque de sua biografia, apresentado no momento em que ele concorreu a papa, afirma-se que a sua participação foi resultado de algo “compulsório”. Habitantes de sua cidade natal, disseram então, que não era lá tão compulsório assim, mas que os que não quiseram participar, afinal estão mortos. Ou melhor: foram mortos pela Gestapo.
Ratzinger fez a escolha pela vida.
Hoje ele é papa e tem o direito de se espantar com a indústria da morte estabelecida por Hitler, onde morreram 1.100.000 judeus, aproximadamente, sendo 150 mil deles, poloneses, 23 mil ciganos, 15 mil russos e alguns milhares de outras nacionalidades.
O Papa Bento XVI rezou ontem pelas vítimas do complexo Auschwitz-Birkenau, no norte da Polônia, a 60 quilômetros de Cracóvia.
Mas, vamos ser humanos. Teríamos tido coragem de fazer a escolha aos doze anos, pressionados por todos os lados, sabendo que a Morte, a Senhora Morte, nos esperava do outro lado da rua?
Teríamos tido forças para a opção?
Difícil de dizer, hoje, cinqüenta e tantos anos depois, não é mesmo?
Então, vale a pergunta: “Onde estava Deus naqueles dias?”




ESTÁ CHEGANDO JUNHO. A BOLA VAI ROLAR E NADA MAIS TERÁ IMPORTÂNCIA...
Walter Galvani, em 28/05/2006

O mundo do futebol tornar-se-á
o único mundo real...
Crônica publicada hoje
no jornal ABC DOMINGO
do Grupo Editorial Sinos


NÃO FALTA MAIS NADA



Walter Galvani



Na metade da semana que vem começa o mês de junho e então, poucos dias para a estréia do Brasil na Copa. Esta semana a Federação Brasileira dos Bancos divulgou a medida que permitirá com que os bancários também assistam aos jogos, pois os bancos, nos horários dos jogos, estarão fechados. Será uma corrida para chegar em casa antes da hora em que a bola for movimentada, mas eles darão um jeito - na casa dos primos, num motel, num bar – e estarão alinhados com a torcida brasileira. Acrescente-se que já foram vendidos 11 mil pacotes de viagens, fora os demais torcedores brasileiros moradores na Europa e que acorrerão aos jogos na Alemanha. Nossa seleção estará, portanto, apoiada pela torcida no estádio e pela torcida brasileira que, através da televisão seguirá os acontecimentos. Alguns com os olhos na tevê e os ouvidos no rádio, mas o certo é que, experimentem a trafegar durante o horário dos jogos e perceberão que ninguém estará indo a lugar nenhum...

É o Brasil e apesar de que, se sabe, não são muito diferentes pelo mundo afora, em nosso caso específico a auto-estima é tão acentuada na hora do futebol que, nisso somos campeões incontestes. No gramado em si, tentaremos o hexa-campeonato, que seria o título seis vezes consecutivo, mas no caso da Copa, de tão importante que é, mudamos o significado. Hexa é campeão seis vezes, não importa que tenham ocorrido malogradas interrupções.

Posta de lado esta dúvida semântica, estaremos todos vestindo as cores amarelo, azul, verde e branco do Brasil, sentindo a emoção descer a coluna vertebral no instante em que o hino for executado nos campos da Alemanha – reforçaremos nossa opinião de que em matéria de hino só há para temer a “Marselhesa”, pois a França conseguiu com que, em nome da liberdade, sua belíssima “Marselhesa” se tornasse mais ou menos universal e por alguns dias, mandaremos também para o inferno qualquer prurido de que deveríamos trabalhar e estudar mais e torcer menos... Enlouqueceremos, como todos os brasileiros e só nos interessarão os joelhos e tornozelos dos Ronaldos da vida e ficaremos também enfurecidos com as arbitragens parciais, com os erros, os preconceitos europeus e os miseráveis gandulas alemães que custam a devolver as bolas que nos interessam e o fazem apressadamente, quando gostaríamos que retardassem sua ação.

É o futebol, paixão nacional que é também a mesma em muitos sofisticados e desenvolvidos países, como também nos pobres e subdesenvolvidos como Angola e Brasil. Pela vez primeira teremos três times falando português na Copa e esperamos apenas não nos encontrarmos com eles, nem com os times dirigidos pelos brasileiros. O azar do sorteio já nos colocará diante do Japão, onde Zico é o técnico. Que Deus nos afaste do Portugal do Felipão.

De qualquer maneira, de saída teremos a Croácia e a Austrália e o citado Japão. Nem sabemos o que é a Croácia, obteremos informações básicas agora, mas, da Austrália sabemos é a terra dos cangurus. Pouco mais. Anote-se que há por lá uma imensidão de brasileiros, em especial gaúchos, estudando e trabalhando. Serão nossos agentes infiltrados nas linhas inimigas.

Quanto ao futebol em si, estaremos cegos, usando uma espécie de colírio nos olhos que nos permitirá enxergar apenas o que nos for favorável.

Assim é e assim tem sido no Brasil, desde que em 1950 deixamos escapar a primeira “Jules Rimet” de nossas mãos, no estádio do Maracanã, construído especialmente para a nossa glória, no Rio de Janeiro, que então era nossa capital federal. Pois, deixou de sê-lo, por castigo.









PERPLEXIDADE
Walter Galvani, em 25/05/2006

Esta crônica foi publicada
hoje no jornal
"Diário de Canoas",
editado pelo Grupo Editorial Sinos
e circula na região metropolitana
de Porto Alegre:


COMO MUDAR O PAÍS



Walter Galvani





Pelo voto, pelo voto, sussurram ao nosso ouvido palavras otimistas. Pelas armas, pelas armas, lembram velhos revolucionários. Pela educação, pela educação, está inscrito em nossa memória. Abrangemos com o olhar o que nos rodeia, visitamos “sites” na Internet, percorremos os jornais, escutamos o rádio, vemos televisão. Tomamos conhecimento das declarações dos lideres, do presidente da república, dos que se candidatam, Além do país, além dos nossos horizontes, há um “Pacto pelo Rio Grande”, existem os sacrifícios que se erguem em nosso caminho, temos a esperança e a certeza de que tudo se conseguirá, mas os dias passam. O vento faz rolar o calendário, o ano está chegando quase à metade. Daqui a pouco começarão os jogos da Copa do Mundo e nos dividiremos entre a vigília nervosa pela constituição da equipe e as informações sobre os adversários, o que normalmente nos é omitido pela rotina ufanista habitual dos brasileiros, depois o dia do jogo, a expectativa ansiosa, os primeiros minutos, o primeiro gol e depois a ressaca cívica que se estende noite adentro e chega até o dia seguinte.

Depois virá justamente o dia seguinte e mais outro e mais outro e novamente a rotina da expectativa, o jogo, a ressaca. E assim iremos até o dia 9 de julho, pois não passa pela cabeça de nenhum brasileiro que a Seleção não esteja na finalíssima marcada justamente para aquela data.

Os problemas nacionais? Estes ficarão adiados, pois, se não foram solucionados até agora passarão para um pouquinho mais adiante e isso não tem importância nenhuma, pois estaremos empenhados nestes jogos modernos que valem mais do que a olimpíada para os antigos gregos e depois é que falaremos.

E então, chegarão os jogos sérios das eleições.

Será outubro já e mais algumas distorções, acusações, escândalos e calúnias inundarão nossas ruas, “como um mar de lama”, tal como nos habituamos a ouvir aqui neste sul do mundo e depois terá chegado a hora de fechar os cadernos do ano, que 2007 estará à nossa porta.

E assim será.

De nada vai adiantar então o ranger de dentes ou rolar na grama, pois estará chegando a hora do verão e, como se sabe, durante o verão tem Carnaval e só depois de tudo isso é que colocaremos outra vez o pé na realidade.

Ah, a propósito, anteciparam o início das atividades escolares no Rio Grande do Sul para o dia 21 de fevereiro. Já é alguma coisa. Começaremos mais cedo, não tão cedo como São Paulo, Santa Catarina ou Paraná, mas, pelo menos mais cedo um pouco do que de costume aqui neste Rio Grande, onde herdamos dos nossos nômades antepassados indígenas, a idéia de que o verão nesta altura dos paralelos em que habitamos, é feito para vagabundear e não para plantar.

E então, já estaremos metidos num ano novo e praticaremos o que for possível, carregando ou não o peso das escolhas que fizemos nas eleições passadas e os resultados que obtivemos na Copa do Mundo.

E nos daremos conta de que o mundo girou, que a globalização continua, que os poderosos continuam mandando, que os fracos tiveram que ceder mais um pouco, que as nossas contas não fecharam, que será preciso correr atrás de soluções.

Mudará o Natal ou mudaremos nós? – como perguntaria Machado de Assis.

Nunca mais seremos os mesmos, o vento terá batido pelos campos afora, mais alguns milhares de hectares do Pampa terão sido sacrificados em nome de interesses pecuniários, mais algumas árvores terão sido derrubadas, mais alguns rios e regatos estarão sendo conspurcados, mais alguns pobres terão morrido de fome, mais alguns bandidos terão assassinado inocentes ou assaltantes terão roubado e matado e mais alguns apenados estarão desfrutando das vantagens da tecnologia posta à sua disposição pelo capital do mal.









CRIANÇAS MAL EDUCADAS
Walter Galvani, em 22/05/2006

Mas, e qual é a salvação?
Vejam o que aconteceu depois do jogo
entre Coríntians e Vasco.
O pior de tudo foi ouvir
a torcida gritando:
"Ahahan. Menor é taliban!"...
Ao que chegamos.
Num país em que não há mais res´peito
por nada, seria tolice imaginar
que ainda existisse algum
valor a preservar, na área da educação.
Por isso, o mínimo que se
pode dizer é que se tratava de
"crianças mal educadas".
Mas, isso resolve?
E escrever isso aqui, tambem,
resolverá alguma coisa?
Vejam o que diz a notícia vei
veiculada através da agência
"Lancepress":







Crianças vascaínas agridem corintianos após derrota


Lancenet!

09:23 22/05

LANCEPRESS

Assim que o árbitro Clever Gonçalves apitou o fim do jogo entre Vasco e Corinthians, neste domingo, dezenas de crianças invadiram o gramado de São Januário.



Leia abaixo o texto


O meia Carlos Alberto dava entrevistas, ainda no campo, quando levou um tapa de um dos menores. A torcida do Vasco aplaudiu, e as crianças se viram incentivadas a continuar.

Carlos Alberto, então, continuou sendo agredido, tendo levado até uma chinelada. O meia preferiu não reclamar da confusão.

- Teve um que me deu até um chute. Estava bravo porque o time dele perdeu (4 a 2 Corinthians). Mas está tudo bem. É do jogo. Comigo não tem problema, não - disse Carlos Alberto.

Quando os jogadores do Corinthians entraram no túnel inflável que leva ao vestiário, cerca de vinte crianças começaram a chutá-los pelo lado de fora. Os jogadores correram para o vestiário.

Da arquibancada, vinha o grito: "Hã, ahã, ahãm hã, os menor são talibã". Alguns policiais militares correram atrás dos garotos, que, mais velozes, escapavam e riam.

No ano passado, no jogo entre Vasco e Palmeiras, pelo Brasileirão, também em São Januário, o técnico do Verdão, Emerson Leão, passou por situação semelhante. Um garoto passou a mão em suas nádegas durante uma entrevista. Leão reclamou, dizendo que, se tivesse alguma reação contra o menor, seria o único criticado.




PARA ONDE VAMOS?
Walter Galvani, em 21/05/2006

As dúvidas são válidas neste
domingo, 21 de maio,
quando o país parece
estancar, em perplexidade.
Esta é a crônica publicafda
hoje no ABC DOMINGO,
jornal do Grupo Sinos que
circula na região metropolitana
de Porto Alegre:


PRISÕES, LÍNGUAS E MUROS



Walter Galvani





Aparentemente nada tem a ver entre si, questões como prisões no Brasil e prisões americanas em território alheio, muros que se constroem para separar países e decisões elitistas de estabelecer línguas nacionais. Mas, em verdade, são todos componentes do mesmo quebra-cabeças que se armou no mundo, onde muitos querem viver isolados, fechados em seus limites de condomínios exclusivos ou fronteiras nacionais.

Todos querem segurança, privacidade, emprego, educação, tratamento de saúde e ninguém quer dividir estas benesses com os miseráveis do terceiro e do quarto mundo.

Usa-se de tudo. Desde os custos dos planos privados até as religiões, procurando centralizar as vantagens e benefícios e impedir o acesso desta multidão de pobres e ignorantes, de “diferentes” porque não tem a mesma cor da nossa pele ou as mesmas convicções políticas e religiosas.

A discriminação chega ao ponto de um congresso, como o americano, haver aprovado uma lei que torna o inglês sua única “língua nacional”, mesmo que se saiba que há trinta por cento de latinos em sua composição étnica, que falam espanhol, sem falar nos outros, menos salientes, mas presentes no mosaico, como o português, o italiano, o alemão, o francês.

Alem disso, os Estados Unidos da América do Norte, recusam até relatórios da ONU, quando são criticados, como este publicado há um par de dias, em que a Organização das Nações Unidas condenou prisões secretas, pois isso é sinônimo de tortura.

Não importa então que seja no quintal do vizinho, como a prisão de Guantanamo no território cubano ou Abu Dhabi, em terras ocupadas no Iraque.

Simplesmente, não interessa aos norte-americanos dar satisfações de suas ações no exterior, ao mesmo tempo em que tratam de construir um muro para separá-los do México.

De nada adiantou o dia de paralisação dos latinos, que procurou demonstrar há menos de um mês, a importância que tem a sua mão-de-obra para o funcionamento da nação que outrora foi por todos admirada como a “líder dos aliados, dos países democráticos”. Isso ficou para trás, em 1945, final da II Guerra Mundial.

Língua nacional única, muros, prisões no exterior, invasões, ocupações, passaram a se constituir em normas de procedimento, comportamento padrão do “Império” na tentativa de construção de um sonho de indestrutibilidade. Lições sobre isso estão escritas na Bíblia, só para citar um livro antigo que narra acontecimentos já vividos pela humanidade, e que não cabe repetir. Desde a Babilônia, desde Nínive, desde Roma, tudo sempre foi igual.

A própria Europa abriu mais um pouco sua constelação de possibilidades e nações que se integram para receber os excedentes dos subdesenvolvidos que sobraram dos projetos frustrados de socialismo ou promoção de regiões empobrecidas.

Mas, por certo, não será limitando-se dentro das próprias fronteiras, reduzindo os meios de participação, estabelecendo muralhas tão impenetráveis como vistos diplomáticos ou exercício de uma “língua nacional” que se vai progredir nestes difíceis caminhos.

Vai ser mesmo o grande desafio do século XXI, talvez junto com a luta pelo silêncio e pela privacidade em termos individuais, o que teremos de enfrentar sem rodeios e sem desistência. Difícil, trata-se de um programa de construção de um mundo melhor, sem demagogias políticas, mas sujeito a todas as tempestades que se possa imaginar.





















MARIO QUINTANA, CENTENÁRIO DO NASCIMENTO
Walter Galvani, em 19/05/2006

Na sessão da Academia Riograndense de Letras,
ontem realizada, falei assim
sobre o poeta Mario Quintana,
cujo centenário de
nascimento o Rio Grande comemora:


IDENTIFICAÇÃO POLÍTICA E PESSOAL

Walter Galvani


Na primeira metade do século XX, os jornais ainda se caracterizavam pelo posicionamento político e ideológico, herança do “Século das Luzes”, rastro que se perdeu de lá para cá, especialmente na entrada deste vinte e um. Não cabe aqui especular até onde e até quando iremos, mas hoje em dia parece consagrada a convicção de que é possível ser “objetivo”, em meio ao vendaval de opiniões, divergências, colisões e interações que a imprensa, em todas as suas formas, enfrenta. Até que ponto se poderá manter esta linha? E quanto de verdade haverá nisso?
Não era o caso de Mario Quintana. Começando que a opção que o Mario fez, era uma escolha claramente política e ideológica. Ele era “maragato”, ou seja, em 1926, um seguidor das idéias de Raul Pilla e Assis Brasil. O Partido Libertador que representava no cenário político rio-grandense as posições destes políticos, era proprietário de um jornal em Porto Alegre, “O Estado do Rio Grande”.
Em 1926, Mario perdeu sua mãe e logo depois seu pai: “Eu me vi sem saber o que fazer – disse ele, historiando esta passagem de sua vida – O meu pai, quando faleceu estava sem dinheiro. Uma crise havia derrubado todo mundo. Então eu resolvi vir trabalhar no jornal “O Estado do Rio Grande”, com Raul Pilla, afinal, como ele, eu era maragato. Naquele tempo, já se nascia maragato. Eu tenho as melhores recordações de Raul Pilla, foi o maior patrão que eu tive.”
Mario começou a fazer no “Estado”, o mesmo que viria a fazer no “Correio do Povo”, em 1953. Ele traduzia telegramas, naqueles tempos chegados via agências de notícias, como a Reuter, a Associated Press, a United Press e a France Presse.
Quintana fazia no “Estado”, também, uma seção que era uma espécie de “jornal dos jornais”. Ele verificava o que estava acontecendo, lendo todos os jornais de Porto Alegre, Rio e São Paulo e preparava um resumo, uma análise, algo como o Jotabê (jornalista João Bergmann) fez mais adiante (anos cinqüenta e sessenta) na “Folha da Tarde”.
Aproveitava-se do talento de Mario, apenas a sua capacidade de tradução do francês, do inglês e do espanhol, atividade que ele exerceu mais adiante na Editora Globo, vertendo para a língua portuguesa, alguns dos maiores nomes da literatura mundial, como Virgina Woolf, Marcel Proust, Balzac, Joseph Conrad, Charles Morgan, Aldous Huxley e outros que integraram a famosa “Coleção Nobel”, dirigida por Erico Veríssimo.
Mario atuou no “Estado” até 1932, quando Flores da Cunha, o interventor federal no Rio Grande do Sul, fechou o jornal por ordem do governo central.
Então “emigrou” para o Rio de Janeiro, onde foi atuar como colaborador no suplemento literário do “Diário do Rio de Janeiro”, dirigido pela poeta Cecília Meireles.
Já então colaborava nos demais jornais gaúchos. Inclusive, havia publicado bem antes, em 1923, uma crônica-poema no “Correio do Povo”.
Mas, só quando voltou do Rio, que se incorporou para valer ao “Correio”, tornando-se a partir de 1953, algo de mais significativo para o grande jornal, primeiro como redator-tradutor do serviço internacional, mesma função que desempenhara no “Estado do Rio Grande”, até que afirmou seu prestígio de poeta e cronista e passou a ocupar-se apenas disso, com o beneplácito do diretor Breno Caldas.
Aliás, conta-se uma história pitoresca. Havia um diretor de pessoal, recursos humanos, que resolveu “enquadrar” o poeta e quis determinar que ele assinasse ponto. Ou que marcasse “cartão-ponto”...
Foi assim:
Um novo chefe de recursos humanos resolveu determinar que Mario teria que “bater o cartão ponto” na entrada e na saída do expediente.
O poeta se queixou na redação e o Dr. Breno Caldas mandou chamar seu funcionário do setor de pessoal e lhe disse:
“Olha, o “ponto” do Mario aqui no Correio é o que ele produz, poesia, crônica, conto ou o que quiser fazer. Nós muito nos orgulhamos dele.. Não precisa outro tipo de controle.”
Mario Quintana continuou trabalhando no “Correio do Povo”, produzindo o seu “Caderno H” e outras colaborações, como poemas, crônicas, no corpo do jornal ou nos cadernos especiais como o “Caderno de Sábado” ou o “Letras & Livros” enquanto o antigo “Correio” durou em mãos da família fundadora. Ou seja: até 14 de junho de 84.
Mas nem mesmo a sua relação de respeito pelo Dr. Breno Caldas impediu que Mario fizesse greve, a única da história da Caldas Júnior, de dezembro de 83 a fevereiro de 84. Claro que foi usado seu nome, como uma bandeira, pelos grevistas. Mario se manteve firme na greve.
Quando a empresa foi adquirida pelos novos proprietários, família Ribeiro, Mario voltou a colaborar e assim se manteve até seu falecimento.
Mas, nunca deixou de colaborar, a pedido, com os demais órgãos de imprensa e principalmente com os mais frágeis., com os alternativos. Ajudava com o seu nome a promover e sustentar o que podia os empreendimentos dos colegas jornalistas.
E, sobretudo, nunca deixou de receber na redação do “Correio do Povo” , os estudantes, as crianças e os jovens. Permanecia horas a fio batendo papo com a criançada e representava com perfeição a figura do “vovô” carinhoso que desejava ser, para todos eles.
Com os “grandes” é que era muito seguro, severo e às vezes até áspero.
Mas isso tem a ver com a necessária proteção da sua figura como jornalista, posição de que nunca se desligou de 26 até sua morte em 1994. Ou seja, durante seus 68 anos de jornalismo.






GUERRA CIVIL OU CONFRONTO ENTRE O BEM E O MAL
Walter Galvani, em 15/05/2006

PCC versus autoridades
paulistas em busca do caos e
da conquista de direitos
pela força e pela barganha?
Sociólogos, correi! O que sucede
em São Paulo?
Políticos, correi!
O que ocorre em São Paulo
poderá reproduzir-se
no resto do Brasil?


PCC, SÃO PAULO, O QUE ESTÁ ACONTECENDO?

Há uma perplexidade generalizada no país. Afinal, o que está ocorrendo na maior cidade do país? O que lá sucede, pode ser exportado para o restante do território brasileiro? O que e por que ocorre o que lá se produz agora?
Afinal, o que é que está acontecendo?
Já foram chamados os sociólogos de plantão, os políticos, os especialistas em segurança, os jornalistas e ninguém até o presente momento produziu uma explicação plausível, algo que derrube os muros da imaginação e as fortalezas das convicções de um plano de subversão permanente, baseados na idéia da teoria da suspeita universal...
As sublevações, a tomada de reféns, os ataques à polícia, aos bancos, aos ônibus, tudo se integra num mesmo projeto político: provar que o Estado não tem condições de garantir a segurança da sociedade.
Mas, seria um “ataque nihilista” ou uma gigantesca manobra para provar que não há como garantir a prisão dos infratores, ou seja, que fora do crime não há salvação ou simplificadamente, o crime compensa...
Por enquanto, as forças ainda estão em plena ação, os fatos estão em desenvolvimento.
A qualquer momento vai se produzir a intervenção de algo superior às forças em jogo. Mas, enquanto isso não acontece, a população encastela-se em casa – quem pode – e tumultua-se completamente a vida na grande cidade.
Até onde iremos?
Trata-se de uma simples contestação de autoridade?
Uma revolta dos oprimidos?
Uma busca de justiça?
Uma demonstração de que o poder está em mãos do PCC?
Segurem a respiração.




AS MÃES
Walter Galvani, em 14/05/2006

Não há como fugir: é o Dia das Mães, embora, nesse caso mais do que em qual2quer outro,
sempre é dia das mães...
Todos os dias.
Esta é a crônica que publico
hoje no ABC Domingo, jornal do
Grupo Editorial Sinos


UM DIA (AO MENOS) PARA AS MÃES

Walter Galvani

As mulheres modernas, de um modo geral, rejeitam estas datas promocionais, alegando que não são mais que eventos comerciais, e que dispensam manifestações. Chocam-se, contudo, com as demonstrações de carinho que, induzidas ou não pela farta publicidade, se produzem em todos os círculos da população, dos mais ricos aos mais carentes. E não são poucas as que espionam discretamente os filhos que as visitam nesse dia, e embora dizendo que não atentam para datas impostas, ficam amuadas se eles não trouxeram um pacote embelezado com algum cartão ou com papéis alusivos.

Esta é a realidade. Depois de importada a comemoração e transformada em oficial através de decreto, passou a ser cultivada como um costume indispensável.

Indiscutivelmente, é bom que os marmanjos e marmanjas sejam lembrados nesse dia, o quanto devem de sua vida a quem os gerou, amamentou, e encaminhou na vida com amor nos seus primeiros passos neste planeta hostil, tão agressivamente adverso que a ele chegamos chorando...

Então, é desnecessária a anuência das mães para que elas sejam festejadas neste domingo.

Muitos, no entanto, bem que precisariam de um corretor puxão de orelhas, tanto para que se lembrassem da data, como para que retomassem os princípios de respeito à vida, à dignidade alheia, aos valores éticos do trabalho e da dedicação, que certamente lhes foram insuflados nos primeiros meses e anos de crescimento.

Nunca vi, não conheço mães que hajam transmitido conceitos errôneos e tampouco, de propósito, hajam procurado inocular em seus rebentos, defeitos ou vícios. Inadvertidamente podem, algumas delas, equivocar-se ou confiar demais em seus lindos filhinhos e, em conseqüência, criar uma expectativa que jamais será correspondida. Mas, errar por errar, de propósito, não é humano, nem próprio de mães. A não ser nos casos de desvio de conduta por doença mental.

Assim que, escrevendo aqui, estamos nos dirigindo às mães normais que constituem naturalmente a imensa maioria das que nos lêem. Ou a sua totalidade.

Isso nos alegra e encanta. Mesmo sabendo que não será tão fácil assim que engolirão todos a tal data, também é certo que não nos fará mal visitá-las neste domingo e levar, sim, um pequeno embrulho debaixo do braço, transformando o ato da nossa chegada à sua casa, num inesperado momento de alegria. Mesmo aqueles, principalmente, que delas tem divergido ou com elas tenham tido alguma inútil discussão. Como diz minha netinha de três anos que constantemente me dá lições úteis de vida, "não é preciso brigar". Converse-se.

Já dizia uma antiga publicidade nascida em velho provérbio, "é conversando que a gente se entende". Em meu caso particular, já não tenho mais minha mãe em seu invólucro terreno para que com ela pudesse debater os rumos de minha vida, depois que há setenta e tantos anos me empurrou para a alegria desta vida, apesar da indefectível choradinha inicial, depois da primeira palmada.

Aproveitem, aqueles que tem a felicidade de ainda terem a "amada velha" presente: agradeçam as atenções iniciais que possibilitaram vencer a coqueluche, o sarampo, a teimosia, a ignorância, a soberba, e tratem de safar suas consciências, enquanto é tempo.

Não liguem para as conotações comerciais da data. Até que é bom ter propiciado, mesmo que forçadamente, um momento de reflexão.
















VAI ACABAR O GÁS...
Walter Galvani, em 12/05/2006

Será que Evo Morales ganha queda de braço com o Brasil?
Torcerão os bolivianos pelo Brasil na "Copa do Mundo"?
Ora, ora...


BOLÍVIA...

Walter Galvani

Lula está chocado. Evo Morales disse que o Brasil comprou o Acre pelo preço de um cavalo... A Petrobrás foi acusada, publicamente, de ser controlada por capitais “transnacionais”.
Com as eleições à vista, não se sabe o que pode ser mais contundente para o PT: Lula partir para a agressão, o repúdio ou agir diplomaticamente. Já se fala em chamar o embaixador de volta.
Enfim, tudo se tornou difícil, na obscura luta pelo poder no íntimo dos pobres. Quem é que disse que não há competição social nas favelas e malocas?
Pois entre os pobres da América do Sul, também.
Não é só nos sofisticados corredores dos palácios europeus, não é apenas em Viena, Londres, Paris, Roma.
Também não é apenas entre os que se candidatam a receber mais dólares do petróleo ou de Bush.
A Bolívia, de onde sai muito do gás consumido no Brasil, resolveu fechar as torneiras, bem como o ex-presidente Geisel dissera por volta de 78.
Agora, aí temos, de repente, a possibilidade de uma intervenção no continente, não se iludam, porque entre apoiar Argentina e Brasil ou abraçar a Bolívia e a Venezuela, claro que os poderosos “irmãos do norte” nem pensarão duas vezes.
Vamos ver, e isso é o mais importante agora, para que lado irá o Brasil nas próximas eleições.







IMPREVIDÊNCIA BRASILEIRA
Walter Galvani, em 10/05/2006

Só nós, somente nós, somos os culpados pela crise do gás da Bolívia.
Amanhã será um dia chave. Eles, os bolivianos, vão decidir se fecham ou não a torneira, se indenizam ou não a Pètrobrás e a empresa do Elke Machado.


Silas Rondeau é o nome que os brasileiros precisam decorar agora. Ele é o ministro de Minas e Energia da Bolívia e está com a espada de Dâmocles na mão, dependendo é claro da autorização de Evo Morales, outro nomezinho que está agora em nossas cabeças.
Se o presidente Morales autorizar, a Petrobrás verá sua cabeça boliviana rolar como a de um "subversivo" francês do século XVIII. Esclareça-se que, à época, subversão era ser monarquista...
Pois os representantes do imperialismo serão devidamente decapitados e a Bolívia não pagará um tostão de indenização às empresas estrangeiras.
Claro que no meio do caminho ainda há tribunais internacionais, Haia, acordos de livre comércio, relações bilaterais.
Mas, parece que a Bolívia, apesar de ter as mesmas cores verde e amarelo do Brasil, este ano não torcerá pela nossa Seleção na Copa do Mundo...
Se tudo sair bem, ainda haverá uma fórmula de continuarmos a receber o gás boliviano.
Mas, razão mesmo tinha o General Geisel, quando disse que era muito ruim ficar dependente de uma fonte só e esta fonte, pior de tudo, ser a pobre Bolívia. Porque - dizia ele - no instante em que a tal Bolívia acordasse, fecharia as torneiras.
Pois, fechou-as.
Ou pelo menos, ameaça fechá-las, a não ser que paguem o que pede pelo seu gás.
Imprevidência é o nome do jogo.



SEM NOME
Walter Galvani, em 09/05/2006

O título escolhido para p
livro que o escritor Helder Macedo
(nascido na África do Sul, albvabetizado em Moçambique, educado
em Portugal, professor
na Inglaterra) e que conhece
metade do mundo, pode não informar
bem a beleza que é o seu mais
recente romance, editado
agora pela Record no Brasil.



"Sem nome" estava encaixado
em meu projeto de leitura.
Participei da mesa de lançamento, ontem,
no Instituto Estadual do Livro.
E assim que deu, me peguei na decifração agradável do romance de Helder.
Já se foram 67 páginas e
estou ansioso pela hora em
que vou poder retomar
a leitura.
É tão cativante que no
primeiro momento cheguei
a pensar que ele escrevera
o livro na primeira pessoa.
Adoro este estratagema.
Mas, não, é o narrador mais do que
onisciente.
Helder sabe tudo e não
esconde nada.
E, além disso, escreve de maneira
absolutamente moderna.
Sua linguagem, os temas e sub-temas
que aborda, tudo faz
parte de tal maneira da nossa vida
que nos surpreende como
ele salta sobre as pedras
e compõe a sua envolvented narrativa.
Parabéns, Helder.
Logo quero terminar a leitura
e em seguida irei atrás dos outros livros
de Helder. Em especial daquele,
"Vícios e virtudes", em que aborda
o sebastianismo, o mal de que
padecem portugueses e seus aparentados,
brasileiros...
Mas, primeiro vamos ao
"Sem nome".




HELDER MACEDO HOJE EM PORTO ALEGRE
Walter Galvani, em 08/05/2006

Estarei ainda hoje na sede do Instituto
Estadual do Livro, ao lado
dos escritores Luis Antônio
de Assis Brasil e Jane
Tutikian, conversando com
Helder Macedo, autor de "Sem nome", seu mais recente
romance, que estará sendo apresentado
na oportunidade.
A edição é da Record.


1ª Edição de Conversa com o Autor conta com a participação de Helder Macedo

Neste dia oito de maio deste mês, o Instituto Estadual do Livro e a Associação Ligia Averbuck promovem a primeira edição de Conversa com o Autor, com a participação de Helder Macedo, renomado escritor e poeta, natural de Moçambique

O debate sobre suas obras contará a presença de Jane Tutikian, Walter Galvani e Luis Antônio de Assis Brasil.

Helder Macedo, além de ser o autor do livro Pedro e Paula e Sem Nome, publicado recentemente, também é crítico, investigador literário e especialista das obras de Camões, Bernardim Ribeiro e Cesário Verde.

O evento será realizado na sede do IEL (Rua André Puente, 318) a partir das 18h30min, e terá entrada franca. Maiores Informações pelos telefones 3311 7299/3311 7311 ou pelo site www.iel.rs.gov.br .






HELDER MACEDO, HOJE EM PORTO ALEGRE
Walter Galvani, em 08/05/2006

Correção: ele não nasceu em Moçambique, como
muitas vezes se supõe.
Morou em Moçambique, quando
adolescente. Nasceu na África do Sul,
numa pequena cidade próxima à Johannesburg.
Foi para Moçambique, depois
Portugal, depois Inglaterra, esteve em
São Tomé e Príncipe, Guiné Bissau,
Cabo Verde, é um homem de
múltiplas geografias, carregando
em seu calda cultural, o próprio lusitanismo
Não por acaso escreveu um livro sobre
a saga do rei Dom Sebastião.
Seu mais recente trabalho, chama-se "Sem nome".
Ele irá nos explicar isso
à noite, no IEL.
Quase que se faz o evento
sem o livro...
Mas, a representação local da
Record, Oswaldo Santucci,
moveu-se rapidamente e
conseguiu colocar alguns
exemplares à venda, na
sede do IEL, a rua André Puente.
Pertinho do "Shopping" Total.






AMÉRICA DO SUL, 2006
Walter Galvani, em 07/05/2006

Esta crônica está publicada
hoje no jornal "ABC DOMINGO".
Circula na região metropolitana
de Porto Alegre.
Eu poderia tê-la batizado
de "Os astutos" ou qualquer
outro título de fábula de Esopo
ou Lafontaine...
Mas, preferí o romance
"de capa e espada" de
Alexandre Dumas, pai.
Aliás, no caso, "o pai
de todos"...




UM POR TODOS, TODOS POR UM

Walter Galvani


Não há quem não conheça a divisa dos “Três Mosqueteiros” que firmaram este pacto de apoio mútuo junto com o super-amigo D’Artagnan, em pleno século XIX nos livros vitoriosos de Alexandre Dumas. Lula, Hugo Chaves, Kirchner e Evo Morales, eles mesmos, em sua essência, demonstrativos das diversidades e semelhança de objetivos representativos dos seus povos, fizeram o mesmo diante das câmaras espantadas das televisões, em Puerto Iguazú nesta semana. Até que ponto poderão cumprir o que juraram, beijando simbolicamente suas espadas, só o futuro o dirá e pode ser que neste mesmo plácido domingo em que o leitor me acompanha aqui no ABC, já tenham se rompido as juras de amor eterno que levaram nossos quatro amigos ao altar.

A “nacionalização” do petróleo boliviano foi um belo golpe de cena e por trás disso haverá, quem sabe, um rearranjo comercial, e pouco mais do que isso. A Petrobras há de estrilar, como deve fazê-lo qualquer empresa, pois é sabido que elas não foram criadas para produzir efeitos beneficentes. Nisso, trabalham entidades bem intencionadas, especificamente criadas para isso, ou quadrilhas de ex-deputados que apenas centram sua produção de benefícios em si e em suas famílias.

Os quatro países, Bolívia, Brasil, Venezuela e Argentina, aparam suas arestas para tentar consolidar um mercado razoavelmente funcional neste sul da América, mas todos eles, os socialistas explícitos e os amadores, sabem que necessitam da participação dos poderosos continentinos do norte. Sem os Estados Unidos da América continuarão a produzir faíscas de liberdade e gravetos de poder. Leia-se nas entrelinhas deste acontecimento que mobilizou a opinião pública de nossos quatro países, a olímpica indiferença americana que, através de Condoleeza Rice, a linda chanceler, sequer mencionou o que ocorria lá, ao sul do Equador, na simpática cidade argentina que também possui a sua visão das Cataratas de Iguaçu, mas naturalmente sob o ângulo deles.

Mais importante, aliás, é a tratativa em curso por parte da Argentina, de uma denúncia do seu vizinho Uruguai, pela manipulação e mau uso das águas do Rio Uruguai, como conseqüência da instalação de duas “Papeleras” em Fray Bentos. Também nesta semana, o presidente argentino Kirchner liderou uma “demonstração” contra a “poluição do ar e das águas” por parte do seu vizinho Uruguai.

Os três mosqueteiros e D’Artagnan não fizeram referência a isso no seu encontro, eis que o assunto que os levara ao almoço era o petróleo da Bolívia e a exploração dos estrangeiros, no caso especial duas firmas brasileiras, e entre essas, aquela que leva a assinatura do governo brasileiro, nossa amada Petrobrás.

Claro que a Petrobrás está certa em preservar seus bens e seus negócios, é aliás sua obrigação e claro que temos razão em acompanhar com desprazer o acontecimento que nos mobilizou. Mas não se pode perder com isso a visão da realidade e imaginar que nossos heróicos mosqueteiros irão conseguir ultrapassar as dificuldades e de mãos dadas e espada na mão, gritando juntos seu empolgante lema, chegarão ao êxito. O mais provável é que os poderosos vençam mais este confronto, talvez por trás estejam os interesses da espanhola Repsol que atua também na Bolívia, ou que as antigas sete irmãs do petróleo estejam mexendo os cordéis. Daqui a algum tempo se saberá.

A História nos ensina, infelizmente, a sermos cínicos e hipócritas. As urnas eleitorais, que estão à vista no Brasil, nos ajudam a compreender que muitas concessões ainda serão feitas e muito teatro será encenado sem que se saiba quem é o autor do texto, aliás.

Ainda bem que estamos lembrando “os três mosqueteiros”. O “filme” poderia ser outro... “Os três patetas” por exemplo, para lembrar outra produção americana...











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150 ANOS DE FREUD
Walter Galvani, em 06/05/2006

O dia, hoje, 6 de maio,
serve para assinalar os
150 anos de nascimento
do desbravador da alma
humana, Sigmund Freud.
E festejar que se está em boa companhia.
Vejam a lista dos nascidos
nesta data, sob o signo de Touro,
conforme os analistas
de comportamento humano,
gente que tem os pés no chão
e os olhos no infinito.
Vamos lá:


1501 Marcelo II, papa.

1574 Inocêncio X, papa.

1756 André Massena, militar francês.

1758 Maximiliam François Robespierre, líder revolucionário francês.

1856 Robert Edwin Peary, explorador norte-americano do Árctico.

1856 Sigmund Freud, psicanalista austríaco.

1861 Rabindranath Tagore, filósofo e poeta indiano.

1895 Rudolfo Valentino, actor e bailarino italiano.

1915 Orson Welles, realizador e actor norte-americano.




NESTE DIA 6 DE MAIO, CELEBRAM-SE OS 150 ANOS DE SIGMUND FREUD
Walter Galvani, em 05/05/2006

Transcrevo o editorial
do boletim eletrônico "Conexão Proex"
que situa Freud, a psicanálise
e explica a atividade
de uma universidade.
(Estou desenvolvendo intensa atividade
junto a Proex)


FREUD EXPLICA

Durante anos conviveu-se com esta frase que era quase uma brincadeira, mas que no entanto, bem adequada ao assunto, continha em seu bojo todo uma carga explicativa: “Freud explica”. Com isso, o curioso, o enfermo, o psicanalista, o psicólogo, o psiquiatra, o escritor, o artista, era remetido para as teorias de Sigmund Freud, nascido no dia 6 de maio de 1856, e, portanto, nosso aniversariante de 150 anos neste final de semana.
À certa altura se dizia que “Freud explicava tudo” e mais adiante, como acontece, passou a ser debatido, discutido e não tão aclamado assim, mas de qualquer maneira, sempre contribuindo com suas teses para a “psicanálise da humanidade”.
Há algum tempo entrou-se na fase da contestação pura e simples, da negação dos seus méritos. Mas, felizmente hoje, no Sesquicentenário do chamado “Pai da Psicanálise”, chegou a hora de situá-lo com perfeição, como “um homem além do seu tempo”, como foi denominado nosso seminário sobre ele. Não por acaso a PUCRS realiza uma discussão sobre o tema “A Psicanálise na atualidade e a atualidade da Psicanálise”, justamente na manhã do dia 6 de maio.
Este é o papel mais significativo que pode desempenhar uma universidade no campo cultural. Não apenas sendo a sede de eventos, mas interferindo como entidade produtora de cultura na mais pura acepção do termo, através de todos os seus institutos, faculdades, departamentos, para a ebulição entusiasmante que é a sua própria atividade.
Assim como encontramos este ou aquele setor empenhado na produção de fatos, seminários, simpósios, apresentações, discussões, logo adiante se vê que a PUCRS está procurando, como sempre e cada vez mais, assinalar a sua posição como a instituição capaz de abrigar todas as correntes, todos os pensamentos e todas as posições, embora sem abdicar da sua orientação confessional, política, científica e pedagógica.
Nem precisamos de Freud para explicar este enfoque, pois é mais do que conhecido o resultado positivo, para mais de cinqüenta anos, que assinala o engajamento da PUCRS nas principais questões que animam e agitam a vida riograndense e brasileira.




"DEPLORÁVEIS E INQUIETANTES'
Walter Galvani, em 03/05/2006

O jornal 'ABC' de Madri,
considerou as medidas
adotadas pelo governo boliviano,
na área do petróleo, como
dignas de muita atenção,
por serem, ao mesmo tempo,
"deploráveis e inquietantes".


Nesta quinta-feira, o presidente
do Brasil, Lula, e os
presidentes da Argentina,
da Bolívia e da Venezuela,
reunir-se-ão em Puerto Iguazú,
território argentino,
para conversar sobre o perigoso
tema. Quanto ao fato da
ocupação por soldados munidos
de submetralhadoras, as instalações das
empresas estrangeiras,
tomemos isso como um golpe teatral
demagógico, por parte de Evo Morales,
o presidente da Bolívia.
No entanto, a experiência nos indica
que nunca se deve desprezar um
jovem ditador ou candidato a ...
Ele foi eleito, mas não se sabe
o que o cacique tem na cabeça ou
o que lhe inspira ou transmite
o espírito de algum antepassado, expoliado pelos conquistadores espanhóis...
Em princípio, a Petrobrás
terá 180 dias para se manifestar se aceita o novo contrato
que estabelece 50 mais 1 % de ações
em mãos do governo da Bolívia.
Ou seja: o comando acionário
da operação.
A Argentina terá que dizer o que
pensa da proposta e também o sr. Elke Batista, empresário brasileiro,
que possui grandes investimentos
na área petrolífera da
Bolívia.
"Já vi este filme" terão dito
os petroleiros da Shell, da
aniga Exon pou Esso e outros
mais ou menos votados.
De qualquer forma, dar tapa em cego é sempre
deplorável e inquietante...



ARGENTINA DENUNCIARÁ O URUGUAI/
Walter Galvani, em 02/05/2006

É a "Guerra das Papeleras", resultado da construção de uma unidade industrial que, segundo os argentinos, irá poluir o Rio de La Plata.


Reunidos no município de Gualeguaichú,., os argentinos decidiram ontem continuar pressionando o governo central par denunciar o Uruguai à Corte de Haia. Concentrados em Fray Bentos, onde serão instaladas as unidades industriais de produção de celulose, os uruguqios mandam dizer que o seu país "não é mais colônia há muito tempo."
Não é uma guerra do futebol, nem das garoupas... Resta saber atéaté que ponto os argentinos estão, de fato, trabalhando pela defesa do meio ambiente, ou, quem sabe, or hipocrisia protestam apenas porque as fábricas não estarão em seu território, mas sim no do vizinho.
O problema é seríssimo, e é preciso que o Brasil comece a enxergar a devastação do pampa como próximo e evidente passo.
A Guerra do Rio da Prata póderámnos ensinar alguma coisa.




UMA BOA MÃE BRASILEIRA...
Walter Galvani, em 01/05/2006

Hoje é Dia do Trabalho, com a grande paralisação dos "latinos" nos Estados Unidos. Mas, aqui no Brasil ainda repercute a escolha de uma mãe para o STF, e, portanto, ocupante da cadeira presidencial no Dia das Mães.
A crônica que segue foi publicada na edição de ontem do ABC DOMINGO


MÃE NA PRESIDÊNCIA

Walter Galvani


Já se sabe, desde quinta-feira, a carioca Ellen Gracie Northfleet, gaúcha de coração por ter sido educada aqui onde viveu longos anos, é a nova presidente do Supremo Tribunal Federal, no ponto mais alto de uma longa carreira construída no Ministério Público Federal e no Judiciário. Ela esta apta a substituir o presidente Lula em suas ausências daqui até às eleições de outubro. O vice-presidente José Alencar, o presidente da Câmara, Aldo Rebelo e o presidente do Senado, Renan Calheiros, caso viessem a assumir a cadeira de Lula, ficariam impossibilitados de concorrer à reeleição, tema predileto de todos os políticos e ao qual acabou de render-se também o governador Germano Rigotto. As coincidências se somam, mas é para outro acontecimento inédito tendo Ellen Gracie como protagonista. Há anos se comemora, cada vez com mais intensidade, o Dia das Mães no segundo domingo de maio, no caso deste ano, dia 14. Pois, no dia 10, Lula embarca para a Áustria. O que significará isso? Pois teremos, pela primeira vez na história republicana do Brasil, uma mãe no cargo mais elevado em pleno “Dia das Mães”.

Tomara que ela seja uma mãe daquelas bem bravas, toda a sua tradição ligada a São Leopoldo também a credencia como uma mãe disciplinadora e poderosa. É disso que o país está precisando.... Um pouco de disciplina e muito mais educação.

E vejam, não é para mamar nas tetas da nação, que isso todos já estão acostumados a fazer ao longo dos tempos. Tenho certeza que ela terá carinho com os brasileiros, mas também aquele precioso sentimento de que é preciso encaminhar os filhos no caminho certo, fugindo às facilidades que a política às vezes oferece, as verbas gostosas, os fartos úberes de Brasília alimentando desde os espertos até os corruptos.

Como chegou a hora de darmos um basta a tudo isso, nada mais oportuno do que o surgimento de uma boa mãe.

Para garanti-la na posição de “mãe do ano”, a advogada Clara Northfleet, que milita no foro de Porto Alegre, está aí para ninguém discutir a validade da lembrança. Na certa, não serão poucas as entidades que correrão para serem os primeiros a lembrar a indicação de Ellen Gracie para o mais alto posto da Justiça no país e a feliz coincidência que a leva à posição de presidir, pelo menos por alguns dias, esta difícil república que, como se sabe já está em sua quarta edição e continua perigosamente a fazer água desde que foi inventada por engano pelo Marechal Deodoro na manhã de 15 de novembro de 1889 no bairro de São Cristóvão, Rio de Janeiro.

A rigor a “mãe do ano” não terá muito a fazer, a não ser corrigir algumas eventuais distorções e, quem sabe, desvios que lhe passarem pela mesa durante os poucos dias em que exercerá a presidência. Mas, sem dúvida estará atenta e atuante no Supremo. Preparem-se. Quem duvida da pertinácia e da segurança de uma mulher que usa um coque enfeitado tradicionalmente por três presilhas marrons? Vocês verão o que é ser inflexível e se alguém ainda duvidava da altivez dos gaúchos, saiba que esta foi uma das nossas qualidades tradicionais por ela adotada, como conseqüência da sua longa vivência e formação no sul.

Sinceramente, estou disposto a comemorar o “Dia das Mães”, esquecendo que esta é uma data de origem comercial, mas pensando na hora de fazer um reconhecimento e encomendar um Brasil melhor do que o que temos aí. Os pais nunca deram muito certo nestas questões de educação; de fato, historicamente, as mulheres são um pouco melhores.




CAIO FERNANDO ABREU E O JORNALISMO
Walter Galvani, em 28/04/2006

Falei no dia 27, no Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa em Porto Alegre, sobre o cronista e poeta Caio Fernando Abreu.
A base da minha palestra transcrevo a seguir:


O POETA PERDIDO NO MEIO DOS LOUCOS DA OBJETIVIDADE

Walter Galvani


Caio Fernando Abreu, o poeta perdido e reencontrado.
Talvez eu pudesse, assim denominar este pequeno esforço de resgate do que era a figura de Caio Fernando Abreu e os jornalistas, todos malucos perdidos, por seu turno, buscando alguma coisa que não existia e não existirá jamais, a objetividade, a falsa objetividade que a tantos derrubou e continuará derrubando.
Fazia-se um esforço, Buscava-se estabelecer aquelas premissas tradicionais do “quem, o que, onde, quando, como e porque” e com isso se pretendia responder as questões fundamentais que talvez afligissem os leitores. Nem era isso que os interessava e nem sequer conseguia-se responder talvez alguma reivindicação mais plana, meridiana, clara.
Nem era, na certa, o que Caio buscava numa redação de jornal, além de uma necessária sobrevivência financeira ou a esperança de fazer um bom trabalho e tornar-se um pouco mais útil aos amigos e à sociedade de um modo geral.
Em nosso encontro pessoal ainda houve o mais grave e significante em nossas relações que, habilmente ele procurou contornar e que, prudentemente consegui apoio para estabelecer uma relação adequada e gratificante.
Caio era tudo menos um repórter destes, ávidos por informações em primeira mão, talvez atento aos fatos, digamos, objetivos. Não era isso o que preocupava Caio Fernando Abreu, não era isso o que ele queria demonstrar em sua singela, honesta e preocupada atuação no jornalismo.
Quando o encontrei, a “Folha da Manhã” onde ele estava acabara de sofrer um baque político considerável. Fui chamado às pressas, num final de semana, para substituir o prof. Ruy Carlos Ostermann, meu querido e fraterno amigo, que acabara de perder a sua posição de chefia da redação, por ordem do presidente da empresa Caldas Júnior, dr. Breno Caldas. Por motivos circunstanciais, pessoais, que me impediam de me negar a assumir o posto, lá fui para o sacrifício, do qual só recentemente, em 2003 quando fui eleito patrono da Feira do Livro de Porto Alegre, foi possível fazer a catarse pública, com a presença do próprio Ruy e do Luis Fernando Veríssimo, então personagem também daqueles difíceis momentos. A “Folha da Manhã”, na seqüência de 22 demissões de editores e sub-editores, todos importantes, perdeu o cronista Luis Fernando Veríssimo, cujo renome já então poderia nos deixar imaginar as dimensões da crise institucional em que mergulhamos.
Tentei atrair Moacyr Scliar, como cronista, para substituir Luis Fernando, mas ele não quis e fui para a redação disposto a tapar os buracos para impedir o naufrágio que privaria uns cinqüenta profissionais do emprego de que necessitavam.
Entre eles, Caio Fernando Abreu.
Era, quem sabe ? – o cronista que nos restava, alguém com talento e honestidade intelectual, com “fina estampa” e bom gosto.
Quando cheguei à redação, encontrei, no entanto, um Caio, com seus grandes olhos esbugalhados de espanto e susto, esperando pelo pior.
Passei pelo gabinete do Dr. Breno Caldas que me assegurou garantias especiais para que os que ficassem e entre eles, Caio, é lógico.
Lembrei-me do que acontecera certa vez com Mário Quintana, quando um diretor de recursos humanos, querendo talvez promover-se a custa dele, quis obrigar o grande poeta a assinar o ponto, entrada e saída na redação.
O Dr. Breno me havia dado carta branca para contornar a imensa crise e a primeira coisa que fiz, lembro-me bem, foi sentar-me ao lado do poeta e cronista Caio, que admirava tanto pela sua sensibilidade como por sua aproximação com o Teatro, arte que sempre me fascinou, (setor que cobri como “repórter do setor cultural” da “Folha da Tarde”, outro jornal da Caldas Jr. na época) e colocando a mão em seu ombro, tranqüilizá-lo.
Não foi fácil. Caio estava assustado e acabou, mais adiante, deixando a “Folhinha” e depois disso, o país. Bem, o país que sonhávamos, este já nos deixara há tempos...
Mas, naquele primeiro e desgastante momento, tentei mantê-lo, como jornalista e como intelectual, em nosso grupo. Ele foi grato a isso, precisava do emprego naquele momento e, por pensamento e posição pessoal e, em outro patamar pela garantia da posição do presidente da empresa, tive a honra de lhe garantir a estabilidade enquanto dela e do emprego necessitou.
Foram momentos de agradável convivência, pois afinal de contas com ele foi possível trocar informações e comentários sobre companheiros preciosos como Nei Duclós, então jovem poeta, que fora nosso estagiário de redação na “FT” e que, também ele um desajustado com aquele jornalismo bronco e que buscava de forma incipiente compreender e incorporar-se aos caminhos do chamado “Novo Jornalismo”, habitava então nossos corações e mentes.
O susto de Caio é explicável naquele outubro de 1976. Ele recém fora admitido, a 15 de setembro, praticamente um mês antes. Conosco ficou até 21 de março de 1978, mas foram meses duros. Vivia-se o auge da repressão da ditadura militar, e ele, desde seu primeiro livro, “Limite Branco” publicado em 70, ou do premiado livro de contos, “Inventário do Irremediável”, então premiado pela União Brasileira de Escritores, iniciava já uma trajetória nacional e mais adiante, internacional.
Caio já era um “nome” e como tal me interessava, como chefe de redação, sua manutenção em nossos quadros. Ele já havia lançado “O ovo apunhalado” (1973) e foi naquele momento que apresentou “Pedras de Calcutá”, isso em 1977.
Bem no epicentro, portanto, da sua carreira e da sua definição política, claramente contrária à repressão que assolava o país.
Era difícil sustentar sua posição sem sofrer ameaças, mas fez-se o que era possível. Certa vez desloquei o peso e o prestígio do presidente da ARI (Associação Riograndense de Imprensa), jornalista Alberto André, para tentar impedir uma devassa e talvez prisão de Caio e seus livros. Sim, os livros, os mesmos que vem causando tantas prisões, torturas, e até mortes, na história da Humanidade. Tiradentes teria ido para a forca, se não tivesse um exemplar do “Contrato Social” de Jean Jacques Rousseau e a Carta da independência dos Estados Unidos da América?
A sociedade, de um modo geral já picada pelo consumismo, não merecia a pureza de Caio Fernando Abreu. Por isso talvez ele tenha nos deixado tão prematuramente, há dez anos agora, quando morreu com apenas 47 anos, no dia 25 de fevereiro de 1996. A “Folha da Manhã” e a “Folha da Tarde” já haviam morrido, por seu turno, o mundo mudara, como seguiu e seguirá mudando.
A “cidade está podre”, a cidade “está doente”, escrevia ele. Todos sabemos. Não só a cidade... A sua metáfora estava mais do que certa.
“Urbanóides cortam sempre meu caminho à procura de cigarros, fósforos, sexo, dinheiro, palavras e necessidades obscuras que não chego a decifrar em seus olhos metafóricos” – como ele escreveu.
Os olhos, sempre os olhos! Caio para mim, eram seus olhos. Primeiro, espantados, depois ternos, depois assustados, logo adiante, acolhedores.
Inesquecível Caio.
Quero aproveitar para pedir-lhe desculpas. Se fosse hoje talvez não o tivesse obrigado a sair de um espetáculo e vir para a redação aprontar uma crônica para a edição do dia seguinte da “Folha da Manhã”, rivalizando em atenção e assiduidade com os cronistas esportivos, que saem do estádio e “cobrem” o jogo da noite!
Talvez ele pudesse ter ido mais longe do que dizer aquilo a que se obrigou, por exemplo: “(...) que bom que a vida também pudesse ser assim, bela, plástica, apesar de suas misérias, que o balé não acabasse e pudéssemos varar a noite e entrar o dia seguinte adentro, olhos e ouvidos bem abertos para, o que se passa no palco, que é preciso, urgente, redescobrir nosso corpo massacrado pelos ônibus repletos e ruas superlotadas das brandas cidades, reinventar cada gesto para que assim – quem sabe – a vida, pelo menos por alguns momentos tivesse esse mesmo impacto de beleza pura, sóbria e forte.”
Que belo texto, onde anda você nos duros dias de hoje em que a cidade piorou, ficou mais cega, mais surda, mais objetiva? Quem sabe?








TODOS OS DIAS DEVE SER O DIA DO LIVRO
Walter Galvani, em 27/04/2006

Esta crônica está nas páginas do Diário de Canoas, jornal do Grupo Editorial Sinos e circula na minha terra natal, Canoas, e na região metropolitana de Porto Alegre.
A propósito de jornal e jornalismo, hoje o antigo vespertino da cidade (de Porto Alegre), o jornal "Folha da Tarde" estaria completando 70 anos, entrando no 71. ano de circulação.
Parou em 1984... assassinado por medidas errôneas da sua empresa-mãe e pelo trânsito e pela crise financeira.


O DIA DO LIVRO
Walter Galvani


Na verdade, é como o “Dia Internacional da Mulher”: todo o dia deveria ser “o dia do livro”, pois, nenhum invento, ao longo da história da Humanidade foi ou é mais importante do que o precioso volume em que reunimos uma parcela dos conhecimentos acumulados e transmitidos ao longo dos séculos, ou propomos o debate, a negação, a dúvida, a interrogação, a pesquisa, o ensino, o lazer.

Sabe-se a gênese da data comemorativa: por iniciativa da UNESCO, que estabeleceu 23 de abril para assinalar a coincidência entre a passagem de Miguel de Cervantes e William Shakespeare para a vida eterna, no dia 23 de abril de 1616. Trezentos e noventa anos depois estamos aqui a lutar para encontrar uma brecha nas agendas para fazer a comemoração ou render nosso preito de admiração por ele, pelo livro, desde o produto do mais modesto escriba de aldeia até os consagrados mundialmente como “best-sellers”, na acepção da perigosa praga lingüística que afinal de contas tem curso global.

Esta semana mesmo andamos nessa luta. Como o dia em si caiu no domingo, em meio a um feriadão brasileiro, agravou-se a falta de espaço. Nem deu para assinalar que o próprio feriado, homenagem a um herói da luta pela independência do Brasil, Tiradentes, afinal marcava a morte de alguém que morreu pelo livro. Sim, é bom não esquecer que Tiradentes defendia as idéias que leu no “Contrato Social” de Jean Jacques Rousseau e os ideais dos enciclopedistas franceses e a revolucionária constituição dos Estados Unidos da América, 1776.

Foi em 1792, em pleno Terror na França, que a denúncia de traidores levou Tiradentes à forca. Morreu pelo Livro, ou melhor, por suas leituras e sua pregação daí resultante. Um herói e tanto, para não esquecermos.

Nestes anos todos, não foram poucos os que torturados, condenados, degredados, exilados ou mortos e tantos e tantos mais ao longo dos trinta séculos em que os “volumens”, códices, pairos, pergaminhos, manuscritos, impressos, tem se sucedido na admiração e no respeito e também no medo e no terror dos fortes e dos fracos.

Sabemos também que somos todos um pouco “Quixotes”, lembrando o nosso mais autêntico herói, e talvez representativo daquilo que gostaríamos de sempre ser.

Sempre aproveitamos esta data também para nos orgulharmos dos nossos índices de leitura, trocar receitas de como aproveitar melhor o tempo e colecionar marcas de excelência. Defendemos o Rio Grande do Sul onde se lê o dobro da média do resto do país, esquecendo que o dobro de nada, nada é... em verdade. Mas, tomemos como um bom começo e a certeza de que falta muito para fazer. Muitíssimo.

Quantos livros você já leu este ano? Porque não aproveitou as filas de banco, as esperas de condução, o ônibus, o trem, a chegada do sono ou um fim de tarde de domingo? E assim, lutamos. Por termos a certeza de que “a sabedoria está nos livros”, como escreve Harold Bloom, e que o “livro se escreve por si só, independente do autor”, como diz Antônio Lobo Antunes.

Enquanto isso, festejar o Livro se tornou em algo tão imperativo entre nós, que a Câmara Rio-Grandense do Livro escolheu a noite de terça-feira, para eleger seus “Amigos do Livro” do ano de 2006 no teatro São Pedro, o Conselho Estadual de Cultura entendeu que o início da tarde de quarta-feira seriam hora e dia adequados, algumas instituições particulares ou públicas foram fazendo o mesmo e alguns ficaram sem ar e sem data.

Mas, quem pôde falou ou escreveu, comunicou sua admiração por este objeto sagrado. Encerro transcrevendo Flaubert, autor de um dos maiores livros de todos os tempos, o incrível “Madame Bovary”. Dizia o velho Flaubert que o seu “ideal, o que me parece belo, o que gostaria de fazer, é um livro sem amarra exterior que se sustentaria pela força interna do seu estilo.”









FALANDO SOBRE CAIO FERNANDO ABREU
Walter Galvani, em 26/04/2006

Nesta quinta-feira às 19 horas, no
Museu de Comunicação Social "Hipólito José da Costa", Andradas esquina Caldas Jr., estarei falando sobre o poeta e cronista Caio Fernando Abreu.
Abordarei a figura do jornalista com que convivi na redação da "Folha da Manhã", da Cia. Caldas Jr. de 76 a 78.


Durou pouco. Mas foi uma boa experiência.
Lembro até hoje de quando sentei-me ao seu lado pela primeira vez na redação da "Folhinha" e ele me ouviu dizer, incrédulo, que sua posição estava preservada e que seria protegido como poeta e cronista.
Ele não sabia que eu tinha instruções diretas do diretor-presidente da empresa, Dr. Breno Caldas, que me orientara para proceder com ele, como o próprio Breno fizera uma vez com Mário Quintana.
Disse a Caio que ele ficaria o tempo que quisesse.
Bem, ele não quis ficar muito...
Mas, de qualquer forma, durou dois anos aquela doce convivência e jamais permiti que ele fosse pressionado por motivos políticos ou ideológicos.
No entanto, Caio estava assustado e acabou emigrando.
Afinal, mais adiante se saberia, Caio estava em constante migração...
Falarei isso e muito mais, no encontro de amanhã, promovido pela Secretaria de Cultura do estado do Rio Grande do Sul.



ADIADA OFICINA DE CRÕNICA NA UERGS
Walter Galvani, em 25/04/2006

Começará somente dia 10 de maio a oficina de crônica que ministrarei para a UERGS, Universidade Estadual do Rio GRande do Sul.
Ela terá o seguinte espírito:


DOMAR UMA PALAVRA ?
>
>
>
>
>
> Rosa Montero, em "A louca da casa", edição no Brasil pela Ediouro, > Rio de Janeiro, 2004.
>
> Capítulo Dois
>
> Página 13:
>
>
>
> "O escritor está sempre escrevendo. Nisto consiste a graça de ser > romancista: na torrente de palavras que borbulham constantemente em seu > cérebro. Já redigi muito s parágrafos, inúmeras páginas, > incontáveis artigos enquanto estou passeando com meus cachorros, por > exemplo: na minha cabeça vou deslocando as vírgulas, trocando um > verbo por outro, afinando um adjetivo. Muitas vezes escrevo mentalmente > a frase perfeita e volta e meia, se não a anoto a tempo, ela me escapa > da memória. Resmunguei e me desesperei muitíssimas vezes tentando > recuperar aquelas palavras exatas que por um momento iluminaram o > interior da minha cabeça e depois tornaram a mergulhar na escuridão. > As palavras são como peixes abissais que só nos mostram um brilho de > escamas em meio às águas pretas. Se elas se soltarem do anzol, o > mais provável é que você não consiga pescá-las de novo. São > manhosas as palavras, e rebeldes, e fugidias. Não gostam de ser > domesticadas. Domar uma palavra (transformá-la em clichê) é acabar > com ela."






Walter Galvani, em 00/00/0000






Walter Galvani, em 00/00/0000





REAÇÃO E LINCHAMENTO
Walter Galvani, em 00/00/0000

Como agir?

LEVANDO A PIOR



Walter Galvani





Não é bom para ninguém o que está acontecendo, embora alguns, apressadamente, estejam a festejar. O fato dos ladrões terem começado a apanhar e a levar tiros, não significa que a situação esteja melhorando, sob o ponto de vista de segurança, ou de melhoria da vida. Quer dizer apenas que a população está armada e com a paciência esgotada. O que é muito ruim para todo mundo. As reações que estão se produzindo, linchamento, tiros, resposta armada ao assalto armado, só pode levar a mais perdas humanas, não importa se entre os agredidos ou entre os bandidos.

Não estou aqui a fazer a apologia do crime ou a defender os que, normalmente, estão em melhores condições de se proteger, pois são os que tomam a iniciativa de praticar a violência.

O preço é alto para todos e será sempre mais alto.

Mas o que isso tudo retrata é o quanto está desorganizada a nossa sociedade, a ponto de muitos comemorarem quando a ação dos fora da lei resultar negativa para eles, como se isso fosse um confronto meramente esportivo. Infelizmente não é. Trata-se do choque inevitável entre os que começaram a se preparar, com os que continuarão ousando, cada vez mais, por nada terem a perder.

É triste e difícil.

Depois de uma aplicação da Lei de Lynch, depois de mandar meia dúzia de bandidos para o hospital ou para o cemitério, depois de frustrar ações de roubo,a população vai partir para outras, mais violentas, uma vez que não encontra amparo na força pública, não por deficiência dessa, mas por incapacidade numérica de colocar um soldado em cada esquina.

As câmaras de televisão expulsão os ladrões e assassinos do centro das cidades, mas eles passam a agir nos bairros, na periferia ou nas pequenas cidades do interior.

O crime organizado ou espontâneo, sempre encontra formas de agir.

É natural, por outro lado, que o povo se irrite, uma vez que até o rosto, os bandidos sabem, podem cobrir na hora das fotos, evitando assim a identificação. Antigamente eles saiam estampados no jornal. Agora, chegam ao cúmulo do deboche, na opinião da maioria da população, pois conseguem se ocultar e manter o anonimato, para continuarem em sua ação perversa.

É triste, mas é o que ocorre.

E enquanto não se chega à uma grande explosão social, a panela fervente das desigualdades e dos problemas, continua a assar o seu grande puchero que vai atirar para o alto todos os ingredientes e mais a tampa, a qualquer momento.

Até lá e muito depois das eleições de outubro, continuaremos assistindo ao espetáculo das irresponsabilidades, das tragédias, dos crimes, da roubalheira, das propinas, das cpis intermináveis e dos roubos e furtos.

No Brasil os números são sempre grandiosos, por causa da população enorme e da incrível desigualdade social. São tão poucos os que desfrutam da maioria do PIB nacional que chega a assombrar. Como também o número dos que ficam de fora da panela dos privilegiados.

Dar esmolas ou esmolar não resolve o problema de ninguém. É aqui que é necessária a intervenção do estado, seja para melhorar a situação dos desvalidos, seja para limitar o desequilíbrio, seja para policiar, mas também para prender, julgar, condenar e manter na prisão os que cometem os crimes.

E não há outro caminho, a não ser endurecer a partir das pequenas infrações e expulsar de cena os grandes criminosos que se aproveitam da “mídia” para ostentar sua impunidade. Aliás, o nome do jogo é um só: o fim de toda e qualquer impunidade. Ou imunidade.






UM TEXTO MARAVILHOSO DE AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA
Walter Galvani, em 00/00/0000

Eis uma bela oportunidade para aproveitar bem sua visita a este site:
estou transcrevendo um texto belíssimo que está transitando pela Internet.
Com a vantagem que este texto é mesmo dele, o grande poeta e cronista excepcional.Leiam:


Há um período em que os pais vão ficando órfãos dos seus próprios filhos. É que as crianças crescem independentes de nós, como árvores tagarelas e pássaros estabanados. Crescem sem pedir licença à vida.
Crescem com uma estridência alegre e, às vezes, com alardeada arrogância.Mas não crescem todos os dias de igual maneira. Crescem de repente.

Um dia sentam-se perto de você no terraço e dizem uma frase com tal maturidade que você sente que não pode mais trocar as fraldas daquela criatura. Onde é que andou crescendo aquela danadinha que você não
percebeu? Cadê a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversário com palhaços e o primeiro uniforme do Maternal?
A criança está crescendo num ritual de obediência orgânica e desobediência civil. E você está agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela não apenas cresça, mas apareça! Ali estão muitos pais ao volante, esperando que eles saiam esfuziantes sobre patins e
cabelos longos,soltos. Entre hambúrgueres e refrigerantes nas esquinas,
lá estão nossos filhos com o uniforme de sua geração: incômodas mochilas da moda nos ombros.Ali estamos, com os cabelos esbranquiçados. Esses são os filhos que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas,das notícias, e da ditadura das horas. E eles crescem meio amestrados, observando e aprendendo com nossos acertos e erros. Principalmente com os erros que esperamos que não repitam.

Há um período em que os pais vão ficando um pouco órfãos dos próprios
filhos. Não mais os pegaremos nas portas das discotecas e das festas.
Passou o tempo do ballet, do inglês, da natação e do judô.
Saíram do banco de trás e passaram para o volante de suas próprias vidas.
Deveríamos ter ido mais à cama deles ao anoitecer para ouvir sua alma
respirando conversas e confidências entre os lençóis da infância, e os
adolescentes cobertores daquele quarto cheio de adesivos, pôsteres,
agendas coloridas e discos ensurdecedores. Não os levamos
suficientemente ao Playcenter, ao Shopping, não lhes demos suficientes
hambúrgueres e cocas, não lhes compramos todos os sorvetes e roupas
que gostaríamos de ter comprado. Eles cresceram sem que esgotássemos
neles todo o nosso afeto.

No princípio subiam a serra ou iam à casa de praia entre embrulhos,
bolachas, engarrafamentos, natais, páscoas, piscina e amiguinhos.

Sim, havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de chicletes e cantorias sem fim. Depois chegou o tempo em que viajar com os pais começou a ser um esforço, um sofrimento, pois era impossível deixar a turma e os primeiros namorados.

Os pais ficaram exilados dos filhos. Tinham a solidão que sempre desejaram, mas, de repente, morriam de saudades daquelas "pestes".
Chega o momento em que só nos resta ficar de longe torcendo e rezando
muito (nessa hora, se a gente tinha desaprendido, reaprende a rezar) para que eles acertem nas escolhas em busca de felicidade.
E que a conquistem do modo mais completo possível.
O jeito é esperar: qualquer hora podem nos dar netos. O neto é a hora do carinho ocioso e estocado, não exercido nos próprios filhos e que não pode morrer conosco. Por isso os avós são tão desmesurados e distribuem tão incontrolável carinho. Os netos são a última oportunidade de reeditar o nosso afeto. Por isso é necessário fazer alguma coisa a mais, antes que eles cresçam.

Aprendemos a ser filhos depois que somos pais. Só aprendemos a ser
pais depois que somos avós..."







UM DIA PARA COMEMORAR COM MUITA ATENÇÃO
Walter Galvani, em 00/00/0000

Crônica publicada neste final de semana no jornal A Razão, de Santa Maria:

DIA DAS MÃES E DOS FILHOS

Walter Galvani

Foi, no início uma promoção comercial. Mas, agora se tornou uma obrigação sentimental. Não há como escapar. Neste domingo visite sua mãe e não esqueça de levar um presentinho. Faz parte. Incorporou-se ao nosso dia-a-dia. Não há mãe que não fique feliz, principalmente com a visita do filhinho ou do filhão, tenha ele 5 ou 50.

Então, este domingo não esqueça. Arme-se de um belo sorriso, para a “velha” não desconfiar que o amigo está apertado ou tem problemas e compareça. Poupe-a de dramas. Nada de comentar o assunto da menina paulista jogada pela janela. Nem das mães assassinadas por maridos desvairados.

Procure passar um domingo perfeito, falando sobre os tempos em que ela lhe dava feijão na boca, já que o amigo não tem memória para o tempo das mamadas...

Ah, e nada de trazer à tona questões irresolvidas ou mágoas que ficaram dependuradas. Faça de conta que tudo passou e nada restou para discutir e também, não esqueça, dê o exemplo na frente dos netinhos.

Como se dá e recebe, aqui se planta e então vem o retorno, é importante transformar esta data, sem dúvida comercial, num acontecimento inesquecível.

Se você não tem mamãe vá a um asilo e dê um reconfortador abraço numa daquelas senhoras que, possivelmente, não vá receber a visita de ninguém.

Nesse caso estará o amigo contando pontos para sua caminhada no lado de lá e, ninguém está livre disso.

Vamos aproveitar para comemorar uma porção de coisas, como o fim da crise do dossiê do FH, a promoção do Brasil pela agência americana que classifica os países onde se deve investir, enfim, são presentes que qualquer mãe aprecia.

O friozinho que aí está é sempre agradável, bem melhor do que a ameaça de enchentes, e nossos produtos, valorizados por este clima que nos deram aqui no Rio Grande, baterão recordes este ano, de produção e colocação no mercado. O momento é excepcional. Coisa para mãe, mesmo.

Não vamos deixar que assaltantes, criminosos, ladrões, papagaios ou pais amaldiçoados e madrastas de Cinderela continuem nos tirando o sono. Pelo menos um dia, vamos brincar de melhor dos mundos...