Um presente para os meus leitores, uma pequena pesquisa sobre Biografia e Autobiografia, matéria que ministrei na Unisinos em 2009:
BIOGRAFIA E AUTOBIOGRAFIA
1 – Primeiros passos
A leitura das cinco linhas iniciais do premiado “Machado de Assis, um gênio brasileiro”, de Daniel Piza (Editora Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, São Paulo, 2006) nos abre os caminhos para os primeiros passos em qualquer esboço de biografia ou autobiografia, a menos que a escolha tenha recaído sobre um gigante da historia, um personagem mítico ou que ele próprio, o nosso aluno, o futuro autor, o jovem ou o maduro escritor, contar com uma história pessoal dramática, vibrante, terrífica ou patética, cinematográfica diríamos hoje.
Vamos à estas preciosas considerações do biógrafo sobre a história daquele que para muitos é “o maior escritor brasileiro”:
“Sempre ouvi dizer que a vida de Machado de Assis (1839-1908) desvaloriza uma biografia, por ele ter sido um homem de cotidiano supostamente pacato, funcionário público, escritor recluso, que mal deixou a cidade do Rio de Janeiro, foi casado por 34 anos e não participou de nenhuma espécie de aventura ou tragédia.”
Esta será sempre a primeira preocupação de quem vai escrever. “Afinal que tenho eu de especial para prender a atenção de um leitor? O que interessa minha vidinha insignificante para a Humanidade?”
Esqueçam.
A leitura das quatrocentas e tantas páginas seguintes do livro de Daniel Piza, contando a história “tranquila” do nosso grande e criativo Machado, desmontaria qualquer temor de monotonia ou desinteresse.
Leiam.
Esta é a primeira leitura que recomendo, e depois me digam alguma coisa.
Antes disso reflitam sobre a epígrafe do referido trabalho:
“Ninguém sabe o que sou quando rumino” – Machado de Assis, em crônica de 21/1/1889.
Ou como escreveu Gabriel Garcia Márquez, na epígrafe do seu “Viver para contar” (Editora Record, Rio de Janeiro, 2002):
“A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la”.
É nisso, diria, que entra o toque, aquilo que transmuda os fatos, que os transforma em verdades ou mentiras, mitos ou fantasias, mas sem dúvida atraentes “verdades” para o leitor que embarca no carro da imaginação do escritor.
Leiam comigo as dez primeiras linhas de Garcia Márquez:
“Minha mãe pediu que fosse com ela vender a casa. Havia chegado a Barranquilla naquela manhã, vinda do povoado distante onde morava minha família, e não tinha a menor idéia de como me encontrar. Perguntando aqui e ali entre os conhecidos, indicaram que procurasse na Livraria Mundo ou nos bares vizinhos, onde eu ia duas vezes por dia conversar com meus amigos escritores. Quem deu a indicação avisou: “Vá com cuidado porque são uns doidos varridos.” Chegou ao meio-dia em ponto. Abriu passagem com seu andar ligeiro entre as mesas repletas de livros, plantou-se na minha frente olhando-me nos olhos com o sorriso pícaro dos seus melhores dias, e antes que eu pudesse qualquer reação disse:
- Sou sua mãe.”
Claro, ele sabia muito bem quem era sua mãe, mas agora a recordava, transfigurada pela passagem da sua vida e do tempo comum a eles, e a inseria como se a encontrasse num desfiladeiro nas montanhas de regresso ao tempo vivido.
Foi inspirado no livro de Garcia Márquez, e nessas verdades tão claras defendidas por Daniel Piza que resolvi me arriscar nestas sugestões/ orientações/indicações, ou naquilo que poderia atrevidamente denominar de “aulas” e, por outro lado narrar meu próprio caminho, se é que isso ajuda alguém… Acredito que sim.
Tem mais:
Para os que defendem a tese de que “nada é por acaso”, encontrei como marcador nas páginas deste livro citado de Garcia Márquez, cuja releitura me tomou uma quente noite de verão em Canasvieiras, em fevereiro de 2010, refrescada por uma oportuna e desejada chuvarada (quase uma “hojarasca”) que mesmo assim não conseguiu cortar o som “bate-estaca” de uma dúzia e meia de jovens numa casa próxima, mas afinal me manteve o suficientemente acordado para terminar a leitura e alinhar minhas próprias recordações.
Aqui já estou entrando na minha própria autobiografia, mas para que vejam como é fácil, produtivo e fértil este mergulho, conto:
Achei no meio das páginas de Garcia Márquez, como marcador, um recorte de um poema de Castro Alves, o nosso verdadeiro herói da Abolição da Escravatura, e, lembrei-me na hora, era o mesmo que usava eu aos dez ou doze anos para amedrontar minha pobre mãe com a minha pretensa grandiloqüência:
“Senhor Deus dos desgaçados!
Dizei-me Vós, Senhor Deus!
Se é loucura, se é verdade,
Tanto horror perante os céus…
Oh Mar, por que não apagas,
Com a esponja de tuas vagas,
Do teu manto este borrão?
Astros! Noites! Tempestades”
Rolai das imensidades,
Varrei os mares, tufão!”
Por estas razões todas denomino, para mim mesmo e para possíveis leitores futuros, esta prática que se constituirá na montagem de pequenas apostilas e no posterior desenvolvimento e transformação em livro, “Escrever a vida”.
Será isso mesmo, assim com o v minúsculo em vida, pretensiosamente generalizante com a afirmação enfática de que se estará “escrevendo a vida”, transformada, idealizada, diminuída, ampliada, mas na certa interpretada, e se houvesse um ponto ideal a ser congelado, modificada.
Esse ponto, tranquilizem-se, não existe. Só na cabeça de cada um, no recinto impenetrável do próprio cérebro, no banco das suas lembranças, onde estão assentadas suas impressões, emoções, recordações, aprendizagens, enganos, acertos, desejos amortecidos, sepultados ou renascidos, ambições, sonhos, saudades.
Vejam agora como trata esse assunto, a extraordinária escritora espanhola Rosa Montero em seu imperdível “A louca da casa” (editora Ediouro, Rio de Janeiro, 2004) ao falar de lembranças:
“Nós inventamos nossas lembranças o que é o mesmo que dizer que inventamos a nós mesmos, porque nossa identidade reside na memória, no relato da nossa biografia. Portanto, poderíamos deduzir que os seres humanos são, acima de tudo, romancistas, autores de um romance único cuja escrita dura toda a existência e na qual assumimos o papel de protagonistas. É uma escrita, naturalmente, sem texto físico, mas qualquer narrador profissional sabe que se escreve sobretudo dentro da cabeça. É um runrum criativo que nos acompanha enquanto estamos dirigindo, ou levando o cachorro para passear, ou na cama tentando dormir. A gente escreve o tempo todo.”
Por vezes surgem discussões em torno da legitimidade de tais procedimentos e mais ainda quando se trata de textos jornalísticos, incorporados ou não à nossa biografia.
Muito recentemente surgiu um questionamento ao excelente jornalista e escritor polonês Ryszard Kapuscinski e que por mais de dez anos cobriu acontecimentos de repercussão internacional em cinquenta países que vão da sua terra à África e à América Latina, e por toda a Europa, é claro. Por muitos ele é considerado “o maior jornalista do século XX”, dono de uma carreira sem paralelo encerrada com sua morte em2007. Acontestação surgiu numa biografia de 600 páginas, escrita por Artur Domoslavski, também polonês, que disse que o seu biografado às vezes “deixava-se conquistar pela idéia literária” e conclui o que é uma crítica, mas também um enorme elogio:
“Ele não estava preocupado em ter cruzado a fronteira entre jornalismo e literatura. Eu ainda penso que seus livros eram maravilhosos e preciosos. Mas, em última análise eles pertencem à ficção.”
Ah bom! Então entendemos…
Kapuscinski nasceu em Pinsk, hoje Bielorússia e sempre manteve dois cadernos de notas. Um que utilizava para suas matérias sobre o que presenciava – ou segundo seu acusador dizia ter presenciado – e outro para registrar as impressões surgidas de suas observações e que seriam a base de seus livros, tipo “A guerra do futebol” (Companhia das Letras, Rio, 2008) ou “O Imperador” (Companhia das Letras, Rio, 2005), o primeiro sobre a guerra entre Honduras e El Salvador, nascida num jogo de futebol e o segundo sobre Hailé Selassié, e para uma análise geral do jornalismo e da escrita, que nunca saiu.
Sua viúva ingressou com uma ação contra o biógrafo que se defendeu dizendo:
“Tentei abrir um debate sobre a relação entre a realidade e a ficção, um biógrafo e seu biografado.”
Mais uma vez recorro a Rosa Montero que conta que há muitos anos vem fazendo anotações com a idéia de escrever um ensaio sobre o ofício de escrever, “o que é uma mania obsessiva dos escritores profissionais” diz ela e entra nesta discussão do real e o imaginário de cada um:
“Eu também senti a furiosa chamada desta pulsão, ou desse vício, e dizia que vinha anotando idéias há um bom tempo quando fui percebendo, pouco a pouco, que não podia falar de literatura sem falar da vida; da imaginação sem falar dos sonhos cotidianos; da invenção narrativa sem levar em conta que a primeira mentira é o real. E, assim, o projeto do livro foi ficando cada vez mais impreciso e mais confuso, coisa por outro lado natural, ao ir-se misturando com a existência.”
Os primeiros e decisivos passos serão pois, a escolha do tema, o que o levará a trabalhar em Biografia ou Autobiografia, e a certeza de que não se deixará amedrontar por alguma possível preocupação com a grandeza do biografado.
Seja você mesmo, Barack Obama ou Sophia Loren, sempre haverá espaço para “escrever a vida” e é isso o que importa realmente.
2 – As providências iniciais
O nome verdadeiro desse segundo capítulo é “a pesquisa”.
Sem ela nada será possível fazer e o seu trabalho não se sustentará, qualquer que seja o perfil do biografado ou o seu domínio sobre sua própria história, se for o caso de autobiografia.
O que é que você sabe sobre o dia em que seu pai morreu, a única doença de sua mãe ou… o dia da sua iniciação sexual?
Que documentos, fotografias, filmes, anotações, certidões você possui sobre o personagem central do seu próprio romance, que é você mesmo?
E o que você tem sobre Pedro Álvares Cabral, por exemplo?
Alinho aqui o nome do “descobridor oficial do Brasil” – e estou falando desde o ângulo que nos toca na História, o “eurocêntrico” – porque, antes de me atrever a escrever a “Nau Capítânia – Pedro Álvares Cabral, como e com quem começamos” (Editora Record, Rio de Janeiro, 1999), fiz uma pesquisa que só viria para confirmar aquilo que todos temos inconscientemente na cabeça, “ QUAL É O NOME MAIS CONHECIDO DA HISTÓRIA DO BRASIL?”
Resposta na ponta da língua: “PEDRO ÁLVARES CABRAL!”
E o que sabemos sobre ele, o que temos de documentos sobre ele?
- Nada.
Fomos para Portugal, eu e minha companheira Carla I. Irigaray, pesquisar e do desembarque até o dia do retorno, isso em 1998, dois anos do que deveria ter sido a grande comemoração dos 500 anos do Brasil, repetimos a pergunta dirigida aos portugueses.
Resposta: Pedro Álvares Cabral.
Mas, sobre ele, nada se sabia, a não ser a terra de nascimento e o lugar do sepultamento.
Assim, munidos de ignorância completa, consagrada pela mesma e total e igual falta de conhecimento em Portugal, nos dedicamos à pesquisa, em todas as fontes possíveis, buscando uma luz que iluminasse o rastro daquele que foi decisivo para o surgimento do nosso país, primeiro como colônia, depois a próspera dependência lusitana, em seguida a sede do reino e finalmente o Brasil independente.
Quem era Pedro Álvares Cabral, quem eram aqueles homens que o acompanhavam, “aqueles famosos navegadores, a elite da navegação internacional como Mestre João Farras, Pero Vaz de Caminha, Bartolomeu Dias, Sancho de Tovar, Gaspar da Gama, Nicolau Coelho, Duarte Pacheco Pereira e na tripulação os humildes mas obstinados Nunos, Peros, Franciscos, Henriques de cinco séculos atrás ?” – conforme registrei em artigo publicado na Revista da Academia Rio-Grandense de Letras, nº 17, página 170, ao contar a minha própria saga da escrita.
Ao retornar para o Brasil em setembro de 98, trazíamos malas cheias de reproduções de documentos, contatos, registros, mapas, referências, enfim material suficiente para um balizamento do que fora a viagem de 1500 e seus reflexos imediatos ou posteriores na vida do país que nos abriu os caminhos e mais tarde nos povoou e preparou para a convivência internacional. Já teríamos como responder à pergunta insistente: Pedro Álvares Cabral, homem do Renascimento, estudante de Direito em Lisboa, navegador inexperiente e guerreiro experiente com passagem pelo norte da África, casado com Isabel de Gouveia, pai de cinco filhos, tanto que encontramos um descendente direto seu na direção do Museu Nacional Torre do Tombo em Lisboa, o professor e historiador Bernardo Vasconcelos e Sousa.
Então já sabíamos e tínhamos como informar aos nossos leitores quem fora o navegador que desembarcaraem Porto Seguronos últimos dias de abril de 1500 e que daqui se deslocara para a Ásia e no retorno, sudoeste da África, até a volta ao Tejo acolhedor, de onde saíra a 9 de março daquele ano.
E que depois fora viver para Santarém onde acabou morrendo, aguardando num exílio dentro do próprio país, um novo chamado do rei, que nunca se produziu…
Hoje teria sido ainda mais fácil coletar tais documentos porque as chances de reprodução se multiplicam com os sistemas modernos de coleta de dados, mas em 1998 era ainda um tanto difícil obter permissão e copiar ou xerocar, sendo que a maioria das vezes foi o papel e a caneta que salvaram nosso trabalho.
Ainda hoje conservo parte do que trouxe e esse é um problema de todo pesquisador… Onde armazenar o material usado e o não utilizado, onde guardar tanta coisa aparentemente imprestável e que pode, a qualquer momento, vir a ser chamado a entrar em ação?
Mas não pensem que tanto carinho e respeito ao que se poderia chamar de “verdade” nos eximiria de contestação e das tentativas de esvaziamento!
Ainda hoje guardo em minha lembrança, quando do lançamento da edição portuguesa desse livro, “Nau Capitânia” (Editora Gradiva, Lisboa, 2000) ocorreu uma entrevista coletiva e um jornalista português perguntou-no como havíamos colocado à páginas tantas do livro que “houvera uma missa a bordo”, se tínhamos documentos para garantir esta afirmativa.
Veja-se que inutilidade e que pergunta capciosa, mas não deixei sem resposta. Lembrei-me imediatamente do meu aprendizado de catolicismo noLa Sallede Canoas e tasquei a resposta que ele não esperava:
- Quantos padres havia a bordo da armada de Cabral?
- ?
- Oito! Dom Henrique de Coimbra e mais sete franciscanos.
O jornalista empalideceu e retirou-se discretamente, mexendo em suas folhas de anotações.
Bem, joguei naquele momento com alguma coisa que minha intuição e meus discretos estudos da área me forneceram, assim como naturalmente arrisquei outras teses e até de “democrata” classifiquei nosso bom Cabral, tendo em conta as reuniões que fazia a bordo da “Nau Capitânia” para tomar decisões, e consagrei-o como “bom moço” por haver cuidado para que os índios que subiram a bordo dormissem descansados e não fossem perturbados pelos marinheiros…
Sabemos que aquele relacionamento elegante mudou e não subsistiu na história do Brasil, mas o começo era bom… No prosseguimento da viagem, Cabral destruiu sua imagem com o canhoneio e destruição de uma cidade na Índia (Calicute) para onde se dirigiu ao sair daqui.
Mas, tudo isso é a biografia do nosso descobridor oficial.
E assim é que é preciso agir. Gostando ou não gostando do que o prefeito faz, o cantor famoso, o jogador de futebol, o escritor, é preciso colecionar tudo o que surge a respeito do nosso biografado e desse material fazer o uso apropriado.
Quando é o caso de Autobiografia, não vale esconder, omitir ou esquecer… mas, quem não o faria?
É sempre um risco o retoque, o polimento da imagem, ou pelo menos a explicação, a tentativa de elucidação, e até a defesa, diria eu.
Mas, é preciso dispor de documentos, e estou falando nos tempos modernos em que é praticamente impossível que não se disponha dos dados necessários para descrever um fato ou atestar um ato.
Então é a pesquisa que se cristaliza como o segundo e importante passo, a providência indispensável, que ajudará a produzir um bom resultado. E não declarar nunca o processo encerrado, a não ser na hora da publicação, quando se torna indispensável faze-lo.
Às vezes, um simples comentário público, uma entrevista, uma notícia de jornal, provoca o aparecimento de testemunhos, documentos, papéis interessantes, curiosos ou até fundamentais, que ajudarão na consolidação da figura retratada.
E não importa que sejam favoráveis ou desfavoráveis, pois para a composição do personagem, tudo será válido, útil, necessário.