COMPRANDO A ILHA DE MANHATTAN

7 de maio de 2012

Crônica publicada a 6 de maio de 2012, no jornal ABC DOMINGO 

Walter Galvani

 

Confesso que me entrego a um humilde exercício diário que é o de saber o que me dizem os gurus eletrônicos e impressos sobre o que vai ser da minha vida durante as próximas horas, eis que os nascidos sob o signo de Touro, são organizados, francos, leais, vaidosos, egoístas, amantes da ordem, conservadores, destemidos e nem sei mais o que. Então quando chega o meu dia, torno-me uma criança, examinando a lista dos nascidos a 6 de maio, para saber quais são os modelos que devo imitar ou pelo menos tentar… Não é isso. Procuro e encontro conselhos de comportamento, nada de adivinhações pueris sobre o que me vai acontecer. E vou vendo os nomes, lendo e aprendendo,

Não me dou mal, porque, se é verdade que a lista começa com Robespierre que nasceu em 1758, também é certo que ela inclui Rodolfo Valentino (ah quem me dera!…) que nasceu perto do final do século XIX, em 1895 e um dos mais ilustres taurinos, Sigmund Freud, que nasceu pouco antes, no dia 6 de maio de 1856. E logo depois, em 1861, o Rabindranat Tagore. Tudo gente que dispensa apresentação.

De orgulho em orgulho, de motivação em motivação, chego a 1915, quando nasceu Orson Welles, autor de várias obras primas do cinema e, para mim o melhor de todos, “Cidadão Kane”, até hoje imbatível. E há o político inglês Tony Blair que viu a luz de “Albion” em 1953. Bem feito para ele que todo cheio de si, como costumam ser os taurinos (os irmãos que me desculpem…) e que caiu do “horse” londrino.

Mas, não apenas pessoas chamam a atenção dos incríveis taurinos em busca de motivos para se sentirem lisonjeados. E assim, descubro que a Torre Eiffel, o símbolo inigualável de Paris, foi inaugurada no dia 6 de maio de 1889. E também o túnel sob o canal da Mancha, este no ano de 1994.

No entanto, de todos os feitos deste dia ao longo da História, catei o mais incrível: no dia 6 de maio de 1626, há 386 anos portanto, o colono holandês Pierre Minuit comprou de nativos norte-americanos a ilha de Manhattan, por 25 dólares, que ele pagou com roupas, um par de botas e alguns trocados.

Desperdiçou tudo, como se sabe, pois aquele pedaço de terra acabou se transformando no coração de Nova York e hoje, por 25 dólares talvez não se compre nem um sanduíche com cerveja ou uma taça de vinho, coisa que nós, os taurinos, apreciamos muito. Estamos muito zangados com Pierre Minuit que malbaratou aquele tesouro adquirido dos amáveis peles-vermelhas que talvez tenham ficado “encantados” com o negócio feito. Afinal, aquela porcaria de ilha!

Acho que este sim é um fato digno de registro. Imaginem se a herança fosse transmitida ou se pagasse alguma coisa tipo rendimento de poupança antes que os políticos brasileiros resolvessem meter o nariz onde não são chamados, não é mesmo? Estaríamos todos os taurinos da vida, alegres e felizes, beneficiados pelo fato histórico que ajuda a marcar esta data e torná-la, de fato, inesquecível.

  

 

O SUCATEAMENTO

28 de abril de 2012

Crônica publicada em outubro de 2010 e repetida aqui a pedido de leitores e amigos

 

Walter Galvani

 

 

Lendo uma entrevista do cineasta português Manoel de Oliveira, dei-me conta do quanto andamos afastados da felicidade. Ele, que acaba de completar 101 anos e se encaminha não tão lépido, mas sim, muito faceiro, para os 102, diz que o que o encanta é que “o presente é o guia para o futuro”. Vejam, ele que passou o centenário e se alinha entre os menos de cinqüenta mil no mundo que se deram a esse luxo, fala com tal propriedade do momento que vive que até transmite uma certa frustração a esses jovens que andam por aí, ingressando no mercado de trabalho com seu mau humor e incompetência.

Por que é o sucateamento da vida em sociedade, a ignorância, a má educação, a péssima formação e a raiva e o desleixo, que caracterizam um certo contingente que está chegando e, espantosamente, ocupa posições no atendimento ao público, nas repartições, lojas, bares, restaurantes, escritórios e bancos.

Costumo me regozijar quando ao fim de um dia, escapei de ser mal tratado ou mal atendido, e isso sem falar no trânsito. Ali então, a má educação brasileira está batendo todos os recordes. Não há quinhentos metros sem palavrão, não há ultrapassagem polida, não existe preferência sem violência, não se sinaliza para informar o que se vai fazer, mas sim já na metade da operação, não se passa por alguém por necessitar de fato andar mais depressa, mas sim por não se suportar uma posição secundária, andar atrás, com calma, prudência e perícia.

Nas lojas, de um modo geral, se topa com indivíduos (de qualquer sexo) mal humorados, insatisfeitos com seus empregos, ardendo pelo fim do expediente e o momento de irem embora e a certeza de que atendendo bem ou mal, o dinheiro está garantido.

Claro que há exceções e para tanto, o procedimento de alguns profissionais liberais nos acena como verdadeiros faróis do saber e da educação. Vai-se ver, aprenderam no estrangeiro.

Por que no Brasil não foi. O sucateamento das relações sociais é uma conseqüência direta do embrutecimento individual e a ignorância coletiva, a estupidez cultivada pelos que tem matriz autoritária e acham a prepotência a única forma de agir em suas pobres, opressivas e minúsculas vidas.

A UNIÃO PARA FAZER FORÇA

25 de abril de 2012

A propósito da vinda de Gabriel, o Pensador, à Feira do Livro de Bento Gonçalves

por Walter Galvani 

Já rolou bastante tinta, papel, tempo de rádio e televisão, sobre o assunto que só ganhou notoriedade porque envolveu um personagem do chamado “show business” (uso este americanismo em voga por falta de expressão melhor em nossa língua), o cantor Gabriel, o Pensador.

Diga-se de passagem que ele se auto-intitula “o Pensador”, mas até que tem razão porque costuma dizer coisas coerentes em seus pronunciamentos e que aparentemente foram “pensados” antes, ao contrário do muitos “intérpretes” de música popular, que  parecem repetir à exaustão, refrãos sem sentido e ou comerciais. Ah se eu te  pego, Gabriel, o Pensador e te boto a orientar as crianças a ler, e também os adolescentes e, sim, muitos adultos! Aí sim!

Mas, enquanto isso não acontece a polêmica que se acendeu porque ele receberia 170 mil reais por uma ida à Feira do Livro de Bento Gonçalves, foi muito útil porque na discussão veio à tona a miserabilidade dos cachês normalmente pagos ao pessoal da literatura e a insuficiência de meios com que as feiras do livro se defrontam.

Por trás da feira de Bento, no entanto, estava além de tudo uma instituição poderosa, a própria municipalidade e um prefeito disposto a chamar a atenção para sua cidade e sua  promoção, talvez por de fato acreditar nelas.

Mexeu até com o Tribunal de Contas que não sabe o que se paga a um patrono ou um conferencista e é natural que assim o seja. O que o TCE tem que fazer mesmo é desconfiar de tudo até  prova em contrário, ainda mais num país como o nosso onde o dinheiro rola em cachoeiras e a gente não tem muita certeza da honestidade da vizinha que sobe no mesmo elevador perfumada e vestida à moda de Paris ou o dono da banca da esquina que sempre nos pergunta se não vai uma “fezinha” no “bicho” proibido.

Nossos cachês são pequenos sim, mas os grandes astros da literatura não costumam se queixar. O incensado Moacyr Scliar sempre me dizia que, nos valores atuais, a gente deve começar pedindo 1.500,00 que não ofende ninguém e deixa uma palestra em nível de dignidade ao lado de médicos e agentes de “marketing” (ah, outro estrangeirismo!) sem envergonhar ninguém.

Fora disso, só Mario Vargas Llosa, Gabriel Garcia Márquez ou figuraços internacionais trazidos até nós pelo fantástico “Fronteiras do Pensamento”. Falou português, o cachê desce de nível e se for “brasileirês”, será menor ainda…

Estou de acordo com os que pregam que está na hora da união e, nesse sentido, até a elaboração de uma tabela sería uma boa solução.

O velho dito popular, “a união faz a força”, vale nesta oportunidade como em tudo, porque até as “gangues” (outro americanismo, este digno de sua origem) sabem o acerto deste provérbio. Vamos ver até que ponto as entidades de classe se movimentam ou podem se movimentar. E o que podem conquistar. No mais, é mudando um pouco o provérbio, mas confirmando sua expressividade, a “união para fazer força” é o jeito. 

DIA INTERNACIONAL DO LIVRO

22 de abril de 2012

COMO LIDAR COM O LIVRO

(Crônica publicada hoje no jornal ABC DOMINGO)

por Walter Galvani

Sucessivas mudanças, dificuldades naturais daí decorrentes, falta de dinheiro de um modo geral para quem optou por uma carreira no jornalismo e na literatura, fizeram com que a minha forma de lidar com o livro, cuja data internacional desde que a UNESCO assumiu-a em 1996, ficou estabelecida para o dia 23 de abril, tivesse sido variável. Digo isso, porque tive que optar, ao longo do tempo, entre guardar todos os livros que compro e recebo e aqueles que acabo doando, pensando que serão mais úteis à comunidade em geral, numa biblioteca pública ou em alguma entidade.

Assim que, os volumes sobre jornalismo, afora um ou outro que decidi manter sob minha guarda por estar realizando um trabalho especial, ou por devoção confessa, doei-os todos à biblioteca da ARI, Associação Riograndense de Imprensa, e não me arrependo disso. Sei que estão em boas mãos e que serão usados pelos jovens e pelos velhos jornalistas. Em  benefício próprio e da comunidade.

Já uma ampla coleção sobre Teatro, setor em que fui dedicado repórter e cronista, me  fez chamar à minha casa o professor José Renato Leão e a ele entreguei-a. Com dó pela perda, mas com a certeza de que estaria em melhores mãos, pois vai usar os volumes para transmitir seu amor pelo teatro e seu conhecimento de causa eventualmente enriquecido por eles.

Os livros de literatura, de um modo geral, eu os tenho conservado comigo para poder emprestá-los aos meus alunos e assim fazer eu próprio de “biblioteca pública”.

Isso é o que eu gostaria de dizer quando comento aqui a data de 23 de abril, a ser lembrada todos os anos e a provocar esta demonstração de carinho para com os livros, quando, cada leitor que os lê com os olhos, os lábios, a inteligência e também com os dedos, com os dentes em alguns casos e com o nariz, eis que tem cheiros especiais, possa apreciar como um manjar dos deuses, cada um deles.

Consigo, com dedicação e esforço continuado, manter a média de leitura de um livro por semana e acho que é, no mínimo isso que se deve fazer. Mantenho meus compromissos, trabalho em literatura, jornalismo e também como membro do Conselho Estadual de Cultura, graças à confiança do Secretário de Cultura escritor L.A.Assis Brasil que é outro dedicado cultor do Livro e leio muito.

Acredito em todas as formas de leitura e acho que a Internet veio ajudar, possibilitando a comunicação, a troca de textos, o intercâmbio de informações, notícias e a apreciação crítica. Acho que o livro impresso não vai morrer, ao contrário, mais e mais vai se afirmar, porque é um ser que merece nosso amor. Escrevi “ser” porque não posso vê-lo como objeto. O livro não é apenas um objeto, como uma mulher amada também não o é. E assim, peço perdão às minhas amadas, possíveis e impossíveis, mas elas continuarão dividindo o meu altar particular com as obras completas de William Shakespeare e o último lançamento de algum amado amigo. 

 

 

CIENTISTA, PINTOR, DIPLOMATA, MATEMÁTICO

15 de abril de 2012


Artigo publicado hoje no jornal Diário Popular, de Pelotas

15-4-2012 

Walter Galvani

 

Alinhamos cinco profissões, mas poderíamos encontrar mais uma dezena de definições, que todas elas se aplicariam a Leonardo da Vinci, um gênio da Humanidade, que nasceu há 560 anos, num dia 15 de abril. Enquanto tivermos paciência para pesquisar, generosidade para lembrar e amor para reverenciá-lo, estaremos ano após ano, registrando este aniversário de um ser extraordinário. Fico pensando assim: quem não gostaria de ter nascido num dia como esse?

Leonardo da Vinci, um gênio do Renascimento, um orgulho para a Itália, para o Ocidente, para a cultura internacional, para sua pequena aldeia de Anchiano, para o mundo.

Também poderia acrescentar que foi também e ao mesmo tempo, poeta e músico, pintor e escultor, que tanta coisa ele foi capaz de mostrar com sua genialidade. Ah, sim, é bom citar os ícones mais populares que são a sua “Última Ceia” e a “Mona Lisa”. Todos conhecem a história destes trabalhos magníficos e quem não sabe que aproveite o “Tio Google” e vá atrás.

Você sabia, por exemplo, que a Santa Ceia ou Última Ceia, pintada numa parede do refeitório do convento de Santa Maria Delle Grazie, em Milão, resistiu ao bombardeio da cidade pelos nazistas na guerra 39-45, protegida que ficou pelos sacos de areia que os italianos ali colocaram? “Miracolo, Miracolo!” Milagre ou não, graças à esta sábia providência é que ainda podemos admirar esta obra extraordinária, a mesma que está reproduzida em milhões de folhinhas da classe B ou C (ou A…) pelo mundo afora. E a “Gioconda”!, descansa no Museu do Louvre em Paris, justificando por si só uma viagem até à capital francesa. .

Então, eis uma data para festejar. Às vezes a gente fica meio desarvorada em meio à pressa e à corrida dos dias atuais, em busca de ícones ou acontecimentos que possam e devam ser memorizados e celebrados. Chega de tanta coisa ruim, não é mesmo?  Para chorar e lamentar, tem todos os dias.

Imaginem comemorar um aniversário de 560 anos! É o que estamos fazendo.

Dia desses consultei um psicólogo que acompanha pessoas com carências psíquicas e ele ficou me relatando o quanto a gente se engana nas escolhas e fica colecionando dramas e tragédias. Por vezes, é uma questão de opções. Claro, não são todos os dias que um conterrâneo nosso se destaca, mas acho que Pelotas tem imensos motivos de orgulho e não é apenas João Simões de Lopes Neto, mas é também ele, é claro. E todo o espetáculo de cultura que tem sido esta cidade ao longo dos anos. Quando fui assinalar o dia 7 de Abril, tive que me referir ao teatro pelotense, assim como em outras oportunidades, assim tem sido. Viva a capital da cultura rio-grandense!

 

 

O NOSSO DIA. SÃO TODOS ELES…

8 de abril de 2012

Crônica publicada no jornal ABC DOMINGO por Walter Galvani

 

Se você pegar um “calendário promocional” vai descobrir que todo dia é dia de alguma coisa… Hoje por exemplo, é “Dia Mundial de Combate ao Câncer”, esta doença terrível ainda não vencida e responsável por 30 por cento das mortes dos que chegam à idade adulta. 8 de abril é também o “Dia Mundial do Artista Plástico”, assim como ontem, 7 de abril, era o “Dia Mundial da Saúde”.

Foi também ontem, esse ano coincidindo com o Sábado de Aleluia (mas sem nenhuma alusão o Dia do Jornalista. A Imprensa, de um modo geral, tem o seu dia, agora é l de junho, data em que começou a circular em Londres (em 1808), por causa do exílio do seu criador, Hipólito José da Costa, o “Correio Braziliense”. Baita título, hoje um homônimo do histórico ‘correio’ do século XIX, circula em Brasília. Mas, e porque 7 de abril, aliás nome do teatro pelotense e nesse caso homenagem à renúncia de Dom Pedro I em 1831 ?

Lembram-se da frase: “Morre um liberal, mas não morre a liberdade”, bonita e cheia de encanto e utopia? Pois ela foi pronunciada por Líbero Badaró, seu nome já era por seu turno uma homenagem à Liberdade. Jornalista em São Paulo, perseguido nas ruas pela polícia estadual, exclamou-a ao ser atingido pelas balas que o abateram no dia 22 de novembro de 1830. Morria o jornalista e médico italiano radicado no Brasil, Giovanni Batista Líbero Badaró, abatido durante uma passeata de estudantes em comemoração à revolução que destronou Carlos X na França. Ele fundou e dirigia o jornal “O Observador Constitucional” e morava na rua São José, centro de São Paulo, a um passo do Teatro Municipal, da prefeitura paulistana e da Praça do Patriarca. Hoje a rua tem o seu nome. Mas, o que isso tem a ver com o dia 7 de abril? Aí é que está: nasceu na data em que foi morto, um movimento de opinião pública, que cresceu até o 7 de abril de 1831, quando Dom Pedro I foi obrigado a renunciar.

Um exemplo e um retrato das injustiças que tem produzido tantas perseguições, prisões e mortes de jornalistas no mundo inteiro, e, é claro, no Brasil.

Talvez outros jornalistas brasileiros merecessem uma homenagem semelhante, mas Líbero tem todo o direito à esta dedicação de data. Nos Estados Unidos, usa-se o 8 de agosto, os chineses adotam outra data, mas lá deve haver isso sim, o “Dia da Imprensa Oficial”… o que vigorou por muitos anos no Brasil, até que a ARI, sob a liderança do Alberto André, descobriu a mais digna, a de 1 de junho.

Bem, são assim mesmo essas escolhas. Digamos que são apenas simbólicas, porque o Dia do Jornalista é sim, “todos os dias”. A própria raiz da palavra vem de “jour”, dia ou “giorno” que seja, jornal e jornalismo, tudo a mesma coisa, hoje com ampliação do campo de trabalho que há muito conquistou o espaço com o rádio, o espaço virtual com a televisão e agora com a internet. O diploma é que anda meio sumido…

(dia 8 /4/2012)

“O GOVERNO DOS NOSSOS SONHOS”

1 de abril de 2012

O GOVERNO IDEAL

(Crônica publicada neste primeiro de abril de 2012, no jornal ABC DOMINGO 

Walter Galvani 

Lá da Índia, a presidente Dilma Roussef confirmou que seu presente de Páscoa a todos os brasileiros está pronto e será editado na semana que vem. Não, nada de coelhinhos de chocolate, nem sequer o anúncio de sua vinda ao Chocofest, visitando assim o seu estado adotivo, o Rio Grande do Sul, onde a presidente namorou, casou, conspirou e apanhou na prisão. Nada disso. Trata-se, isso sim, de uma constelação de medidas ideais, que fariam a felicidade de Franklin Delano Roosevelt ou John Kennedy, Getúlio Vargas ou qualquer um governante de toda a pauta, da Direita à extrema esquerda…

São as “ações de incentivo”, como estão sendo modestamente chamadas as “revolucionárias” medidas transformadoras da nossa economia, como as concebe Dilma. E agora, a ver como o país as recebe, curte e utiliza!  Basta relacioná-las e o leitor já sente trepidar no seu peito a força do que se propõe… “Redução do imposto sobre folha de pagamento”, “Mudança do regime automotivo” e “Sobretaxa sobre produtos importados”.

Se não entendeu bem, leitor amigo, acesse as inúmeras explicações e interpretações que estão povoando as páginas dos jornais, assista na televisão e ouça no rádio (não é necessário sintonizar “A voz do Brasil”…) e descobrirá que os produtos nacionais serão protegidos, que as empresas pagarão 19% menos de impostos, que os carros importados ficarão mais caros e os nacionais mais baratos, que serão atraídos novos investimentos estrangeiros, enfim, um milagre econômico “bolado” no Planalto e regado a molho indiano, tudo “aos poucos”, uma receita insuperável.

Uma utopia? Que seja. Pelo menos serve para temperar nosso sofrido fim de semana, a perspectiva do início do inverno no sul em pleno outono e toda uma cirurgia semântica em nossa economia. Escrevi semântica? Não, eu queria dizer “romântica”…

Fico surpreso com o fato de ninguém ter pensado nisso antes, ou tentado fazer algo do gênero. Ou será que já houve isso, que não é esta uma novidade na história do Brasil começada 512 anos atrás, como colônia da maior potência naval da Europa ou há cento e noventa de uma independência ainda não totalmente consolidada, pelo menos no plano econômico?

Basta a gente ver os últimos governos ou quem sabe mergulhar na história recente, examinar em Vargas, Jango, Juscelino, Fernando Henrique ou Lula, Jânio não porque nem deu tempo, mas olhar atrás das portas, (pena que não dá para revirar o lixo, que já foi reciclado…) ou pelo menos pesquisar o noticiário, reler as atas da política econômica.

Parece que dna. Dilma descobriu a fórmula e eu não vou me meter a discutir a receita. Tomara que a dela esteja certa. Como diria Pablo Neruda, “somos livres para fazer nossas escolhas, mas seremos prisioneiros das suas conseqüências…”

O pior é que se não acontecer nada ou se o bolo desandar, seremos arrastados juntos para a cachoeira…

 

COM SABOR DE CHOCOLATE

25 de março de 2012

Crônica publicada hoje no jornal ABC DOMINGO, do Grupo Editorial Sinos e no jornal “Diário Popular”, de Pelotas

Walter Galvani

Gramado desenvolveu ao longo de sua história, relativamente recente, uma vocação turistica e cultural que vale sempre a pena ser observada. Mas, os resultados são entusiasmantes, em especial para quem, como este cronista, acompanha desde o nascimento, determinadas promoções que assinalam esta, digamos pequena cidade, pequena grande hoje em dia, no concerto dos quase quinhentos municipios gauchos.
Foi assim que eu a conheci, como tambem conheci alguns dos principais nomes locais e descobri Marta Rossi e Silvia Zorzanello, então iniciando também, elas ainda quase meninas, uma atividade que aos poucos cresceu e se solidificou, espraiando-se por vários ramos de atividade, mas abarcando sempre o lazer, o turismo e a cultura.
Se eu disser aos leitores que mesmo tratando de chocolate foi possível montar alguma coisa alem de saborosa, atraente e digamos, sólida, pesquisando como fez a Marta Rossi e seus comandados, viajando pelo interior desta bela ideia, trazendo seus efeitos para um terreno tão sedutor como este.
Como que começou o ovo de chocolate, o coelho da Pascoa, os habitos e costumes que toda a sociedade ocidental cultiva hoje, eis uma boa pergunta.
Pois tudo isso foi pesquisado e transformado em ingrediente da festa que transforma Gramado com o titulo de Chocofest.
Assim como o chocolate, porem, a promoção de Marta e Silvia tem os seus misterios.
Para saber se deu certo, basta contemplar a cara de felicidade dos gramadenses e visitantes, tanto uns quanto os outros, pois a animação e a alegria são o mais visivel resultado.
E agora, com a descoberta deste caminho, esta festa so cresce.
Não tem como não dar certo. A receita do bolo naturalmente de chocolate, esta dada.
E Gramado pode seguir por este e outros caminhos, como ja o demonstrou tambem atraves do Festival de Cinema, hoje uma realidade internacional e que começou modesto, tantos anos atras, quando P.F.Gastal ainda era vivo.
Sinceramente, tenho uma especie de modesto orgulho por haver apostado em Gramado e especialmente no escritorio criativo da Marta Rossi.
E vi entrar prefeito e sair prefeito, vi apoios do governo do estado, vi apoios federais, como este ano e tenho certeza de que esta historia ainda vai muito longe.
Gramado serve de exemplo. Os mais de quatrocentos municipios do interior, tem um modelo a seguir.
Caminho certo.

BIOGRAFIA E AUTOBIOGRAFIA

20 de março de 2012

Um presente para os meus leitores, uma pequena pesquisa sobre Biografia e Autobiografia, matéria que ministrei na Unisinos em 2009:

BIOGRAFIA E AUTOBIOGRAFIA

 

 

1 – Primeiros passos

 

A leitura das cinco linhas iniciais do premiado “Machado de Assis, um gênio brasileiro”, de Daniel Piza (Editora Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, São Paulo, 2006) nos abre os caminhos para os primeiros passos em qualquer esboço de biografia ou autobiografia, a menos que a escolha tenha recaído sobre um gigante da historia, um personagem mítico ou que ele próprio, o nosso aluno, o futuro autor, o jovem ou o maduro escritor, contar com uma história pessoal dramática, vibrante, terrífica ou patética, cinematográfica diríamos hoje.

Vamos à estas preciosas considerações do biógrafo sobre a história daquele que para muitos é “o maior escritor brasileiro”:

“Sempre ouvi dizer que a vida de Machado de Assis (1839-1908) desvaloriza uma biografia, por ele ter sido um homem de cotidiano supostamente pacato, funcionário público, escritor recluso, que mal deixou a cidade do Rio de Janeiro, foi casado por 34 anos e não participou de nenhuma espécie de aventura ou tragédia.”

Esta será sempre a primeira preocupação de quem vai escrever. “Afinal que tenho eu de especial para prender a atenção de um leitor? O que interessa minha vidinha insignificante para a Humanidade?”

Esqueçam.

A leitura das quatrocentas e tantas páginas seguintes do livro de Daniel Piza, contando a história “tranquila” do nosso grande e criativo Machado, desmontaria qualquer temor de monotonia ou desinteresse.

Leiam.

Esta é a primeira leitura que recomendo, e depois me digam alguma coisa.

Antes disso reflitam sobre a epígrafe do referido trabalho:

“Ninguém sabe o que sou quando rumino” – Machado de Assis, em crônica de 21/1/1889.

Ou como escreveu Gabriel Garcia Márquez, na epígrafe do seu “Viver para contar” (Editora Record, Rio de Janeiro, 2002):

“A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la”.

É nisso, diria, que entra o toque, aquilo que transmuda os fatos, que os transforma em verdades ou mentiras, mitos ou fantasias, mas sem dúvida atraentes “verdades” para o leitor que embarca no carro da imaginação do escritor.

Leiam comigo as dez primeiras linhas de Garcia Márquez:

 

“Minha mãe pediu que fosse com ela vender a casa. Havia chegado a Barranquilla naquela manhã,  vinda do povoado distante onde morava minha família, e não tinha a menor idéia de como me encontrar. Perguntando aqui e ali entre os conhecidos, indicaram que procurasse na Livraria Mundo ou nos bares vizinhos, onde eu ia duas vezes por dia conversar com meus amigos escritores. Quem deu a indicação avisou: “Vá com cuidado porque são uns doidos varridos.” Chegou ao meio-dia em ponto. Abriu passagem com seu andar ligeiro entre as mesas repletas de livros, plantou-se na minha frente olhando-me nos olhos com o sorriso pícaro dos seus melhores dias, e antes que eu pudesse qualquer reação disse:

- Sou sua mãe.”

 

Claro, ele sabia muito bem quem era sua mãe, mas agora a recordava, transfigurada pela passagem da sua vida e do tempo comum a eles, e a inseria como se a encontrasse num desfiladeiro nas montanhas de regresso ao tempo vivido.

Foi inspirado no livro de Garcia Márquez, e nessas verdades tão claras defendidas por Daniel Piza que resolvi me arriscar nestas sugestões/ orientações/indicações, ou naquilo que poderia atrevidamente denominar de “aulas” e, por outro lado narrar meu próprio caminho, se é que isso ajuda alguém… Acredito que sim.

Tem mais:

Para os que defendem a tese de que “nada é por acaso”, encontrei como marcador nas páginas deste livro citado de Garcia Márquez, cuja releitura me tomou uma quente noite de verão em Canasvieiras, em fevereiro de 2010, refrescada por uma oportuna e desejada chuvarada (quase uma “hojarasca”) que mesmo assim não conseguiu cortar o som “bate-estaca” de uma dúzia e meia de jovens numa casa próxima, mas afinal me manteve o suficientemente acordado para terminar a leitura e alinhar minhas próprias recordações.

Aqui já estou entrando na minha própria autobiografia, mas para que vejam como é fácil, produtivo e fértil este mergulho, conto:

Achei no meio das páginas de Garcia Márquez, como marcador, um recorte de um poema de Castro Alves, o nosso verdadeiro herói da Abolição da Escravatura, e, lembrei-me na hora, era o mesmo que usava eu aos dez ou doze anos para amedrontar minha pobre mãe com a minha pretensa grandiloqüência:

 

“Senhor Deus dos desgaçados!

Dizei-me Vós, Senhor Deus!

Se é loucura, se é verdade,

Tanto horror perante os céus…

Oh Mar, por que não apagas,

Com a esponja de tuas vagas,

Do teu manto este borrão?

Astros! Noites! Tempestades”

Rolai das imensidades,

Varrei os mares, tufão!”

 

Por estas razões todas denomino, para mim mesmo e para possíveis leitores futuros, esta prática que se constituirá na montagem de pequenas apostilas e no posterior desenvolvimento e transformação em livro, “Escrever a vida”.

Será isso mesmo, assim com o v minúsculo em vida, pretensiosamente generalizante com a afirmação enfática de que se estará “escrevendo a vida”, transformada, idealizada, diminuída, ampliada, mas na certa interpretada, e se houvesse um ponto ideal a ser congelado, modificada.

Esse ponto, tranquilizem-se, não existe. Só na cabeça de cada um, no recinto impenetrável do próprio cérebro, no banco das suas lembranças, onde estão assentadas suas impressões, emoções, recordações, aprendizagens, enganos, acertos, desejos amortecidos, sepultados ou renascidos, ambições, sonhos, saudades.

Vejam agora como trata esse assunto, a extraordinária escritora espanhola Rosa Montero em seu imperdível “A louca da casa” (editora Ediouro, Rio de Janeiro, 2004) ao falar de lembranças:

 

“Nós inventamos nossas lembranças o que é o mesmo que dizer que inventamos a nós mesmos, porque nossa identidade reside na memória, no relato da nossa biografia. Portanto, poderíamos deduzir que os seres humanos são, acima de tudo, romancistas, autores de um romance único cuja escrita dura toda a existência e na qual assumimos o papel de protagonistas. É uma escrita, naturalmente, sem texto físico, mas qualquer narrador profissional sabe que se escreve sobretudo dentro da cabeça. É um runrum criativo que nos acompanha enquanto estamos dirigindo, ou levando o cachorro para passear, ou na cama tentando dormir. A gente escreve o tempo todo.”

 

Por vezes surgem discussões em torno da legitimidade de tais procedimentos e mais ainda quando se trata de textos jornalísticos, incorporados ou não à nossa biografia.

Muito recentemente surgiu um questionamento ao excelente jornalista e escritor polonês Ryszard Kapuscinski e que por mais de dez anos cobriu acontecimentos de repercussão internacional em cinquenta países que vão da sua terra à África e à América Latina, e por toda a Europa, é claro. Por muitos ele é considerado “o maior jornalista do século XX”, dono de uma carreira sem paralelo encerrada com sua morte em2007. Acontestação surgiu numa biografia de 600 páginas, escrita por Artur Domoslavski, também polonês, que disse que o seu biografado às vezes “deixava-se conquistar pela idéia literária” e conclui o que é uma crítica, mas também um enorme elogio:

 

“Ele não estava preocupado em ter cruzado a fronteira entre jornalismo e literatura. Eu ainda penso que seus livros eram maravilhosos e preciosos. Mas, em última análise eles pertencem à ficção.”

 

Ah bom! Então entendemos…

Kapuscinski nasceu em Pinsk, hoje Bielorússia e sempre manteve dois cadernos de notas. Um que utilizava para suas matérias sobre o que presenciava – ou segundo seu acusador dizia ter presenciado – e outro para registrar as impressões surgidas de suas observações e que seriam a base de seus livros, tipo “A guerra do futebol” (Companhia das Letras, Rio, 2008) ou “O Imperador” (Companhia das Letras, Rio, 2005), o primeiro sobre a guerra entre Honduras e El Salvador, nascida num jogo de futebol e o segundo sobre Hailé Selassié, e para uma análise geral do jornalismo e da escrita, que nunca saiu.

Sua viúva ingressou com uma ação contra o biógrafo que se defendeu dizendo:

 

“Tentei abrir um debate sobre a relação entre a realidade e a ficção, um biógrafo e seu biografado.”

 

Mais uma vez recorro a Rosa Montero que conta que há muitos anos vem fazendo anotações com a idéia de escrever um ensaio sobre o ofício de escrever, “o que é uma mania obsessiva dos escritores profissionais” diz ela e entra nesta discussão do real e o imaginário de cada um:

 

“Eu também senti a furiosa chamada desta pulsão, ou desse vício, e dizia que vinha anotando idéias há um bom tempo quando fui percebendo, pouco a pouco, que não podia falar de literatura sem falar da vida; da imaginação sem falar dos sonhos cotidianos; da invenção narrativa sem levar em conta que a primeira mentira é o real. E, assim, o projeto do livro foi ficando cada vez mais impreciso e mais confuso, coisa por outro lado natural, ao ir-se misturando com a existência.”

 

Os primeiros e decisivos passos serão pois, a escolha do tema, o que o levará a trabalhar em Biografia ou Autobiografia, e a certeza de que não se deixará amedrontar por alguma possível preocupação com a grandeza do biografado.

Seja você mesmo, Barack Obama ou Sophia Loren, sempre haverá espaço para “escrever a vida” e é isso o que importa realmente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2 – As providências iniciais

 

O nome verdadeiro desse segundo capítulo é “a pesquisa”.

Sem ela nada será possível fazer e o seu trabalho não se sustentará, qualquer que seja o perfil do biografado ou o seu domínio sobre sua própria história, se for o caso de autobiografia.

O que é que você sabe sobre o dia em que seu pai morreu, a única doença de sua mãe ou… o dia da sua iniciação sexual?

Que documentos, fotografias, filmes, anotações, certidões você possui sobre o personagem central do seu próprio romance, que é você mesmo?

E o que você tem sobre Pedro Álvares Cabral, por exemplo?

Alinho aqui o nome do “descobridor oficial do Brasil” – e estou falando desde o ângulo que nos toca na História, o “eurocêntrico” – porque, antes de me atrever a escrever a “Nau Capítânia – Pedro Álvares Cabral, como e com quem começamos” (Editora Record, Rio de Janeiro, 1999), fiz uma pesquisa que só viria para confirmar aquilo que todos temos inconscientemente na cabeça, “         QUAL É O NOME MAIS CONHECIDO DA HISTÓRIA DO BRASIL?”

Resposta na ponta da língua: “PEDRO ÁLVARES CABRAL!”

E o que sabemos sobre ele, o que temos de documentos sobre ele?

- Nada.

Fomos para Portugal, eu e minha companheira Carla I. Irigaray, pesquisar e do desembarque até o dia do retorno, isso em 1998, dois anos do que deveria ter sido a grande comemoração dos 500 anos do Brasil, repetimos a pergunta dirigida aos portugueses.

Resposta: Pedro Álvares Cabral.

Mas, sobre ele, nada se sabia, a não ser a terra de nascimento e o lugar do sepultamento.

Assim, munidos de ignorância completa, consagrada pela mesma e total e igual falta de conhecimento em Portugal, nos dedicamos à pesquisa, em todas as fontes possíveis, buscando uma luz que iluminasse o rastro daquele que foi decisivo para o surgimento do nosso país, primeiro como colônia, depois a próspera dependência lusitana, em seguida a sede do reino e finalmente o Brasil independente.

Quem era Pedro Álvares Cabral, quem eram aqueles homens que o acompanhavam, “aqueles famosos navegadores, a elite da navegação internacional como Mestre João Farras, Pero Vaz de Caminha, Bartolomeu Dias, Sancho de Tovar, Gaspar da Gama, Nicolau Coelho, Duarte Pacheco Pereira e na tripulação os humildes mas obstinados Nunos, Peros, Franciscos, Henriques de cinco séculos atrás ?” – conforme registrei em artigo publicado na Revista da Academia Rio-Grandense de Letras, nº 17, página 170, ao contar a minha própria saga da escrita.

Ao retornar para o Brasil em setembro de 98, trazíamos malas cheias de reproduções de documentos, contatos, registros, mapas, referências, enfim material suficiente para um balizamento do que fora a viagem de 1500 e seus reflexos imediatos ou posteriores na vida do país que nos abriu os caminhos e mais tarde nos povoou e preparou para a convivência internacional. Já teríamos como responder à pergunta insistente: Pedro Álvares Cabral, homem do Renascimento, estudante de Direito em Lisboa, navegador inexperiente e guerreiro experiente com passagem pelo norte da África, casado com Isabel de Gouveia, pai de cinco filhos, tanto que encontramos um descendente direto seu na direção do Museu Nacional Torre do Tombo em Lisboa, o professor e historiador Bernardo Vasconcelos e Sousa.

Então já sabíamos e tínhamos como informar aos nossos leitores quem fora o navegador que desembarcaraem Porto Seguronos últimos dias de abril de 1500 e que daqui se deslocara para a Ásia e no retorno, sudoeste da África, até a volta ao Tejo acolhedor, de onde saíra a 9 de março daquele ano.

E que depois fora viver para Santarém onde acabou morrendo, aguardando num exílio dentro do próprio país, um novo chamado do rei, que nunca se produziu…

Hoje teria sido ainda mais fácil coletar tais documentos porque as chances de reprodução se multiplicam com os sistemas modernos de coleta de dados, mas em 1998 era ainda um tanto difícil obter permissão e copiar ou xerocar, sendo que a maioria das vezes foi o papel e a caneta que salvaram nosso trabalho.

Ainda hoje conservo parte do que trouxe e esse é um problema de todo pesquisador… Onde armazenar o material usado e o não utilizado, onde guardar tanta coisa aparentemente imprestável e que pode, a qualquer momento, vir a ser chamado a entrar em ação?

Mas não pensem que tanto carinho e respeito ao que se poderia chamar de “verdade” nos eximiria de contestação e das tentativas de esvaziamento!

Ainda hoje guardo em minha lembrança, quando do lançamento da edição portuguesa desse livro, “Nau Capitânia” (Editora Gradiva, Lisboa, 2000) ocorreu uma entrevista coletiva e um jornalista português perguntou-no como havíamos colocado à páginas tantas do livro que “houvera uma missa a bordo”, se tínhamos documentos para garantir esta afirmativa.

Veja-se que inutilidade e que pergunta capciosa, mas não deixei sem resposta. Lembrei-me imediatamente do meu aprendizado de catolicismo noLa Sallede Canoas e tasquei a resposta que ele não esperava:

- Quantos padres havia a bordo da armada de Cabral?

- ?

- Oito! Dom Henrique de Coimbra e mais sete franciscanos.

O jornalista empalideceu e retirou-se discretamente, mexendo em suas folhas de anotações.

Bem, joguei naquele momento com alguma coisa que minha intuição e meus discretos estudos da área me forneceram, assim como naturalmente arrisquei outras teses e até de “democrata” classifiquei nosso bom Cabral, tendo em conta as reuniões que fazia a bordo da “Nau Capitânia” para tomar decisões, e consagrei-o como “bom moço” por haver cuidado para que os índios que subiram a bordo dormissem descansados e não fossem perturbados pelos marinheiros…

Sabemos que aquele relacionamento elegante mudou e não subsistiu na história do Brasil, mas o começo era bom… No prosseguimento da viagem, Cabral destruiu sua imagem com o canhoneio e destruição de uma cidade na Índia (Calicute) para onde se dirigiu ao sair daqui.

Mas, tudo isso é a biografia do nosso descobridor oficial.

E assim é que é preciso agir. Gostando ou não gostando do que o prefeito faz, o cantor famoso, o jogador de futebol, o escritor, é preciso colecionar tudo o que surge a respeito do nosso biografado e desse material fazer o uso apropriado.

Quando é o caso de Autobiografia, não vale esconder, omitir ou esquecer… mas, quem não o faria?

É sempre um risco o retoque, o polimento da imagem, ou pelo menos a explicação, a tentativa de elucidação, e até a defesa, diria eu.

Mas, é preciso dispor de documentos, e estou falando nos tempos modernos em que é praticamente impossível que não se disponha dos dados necessários para descrever um fato ou atestar um ato.

Então é a pesquisa que se cristaliza como o segundo e importante passo, a providência indispensável, que ajudará a produzir um bom resultado. E não declarar nunca o processo encerrado, a não ser na hora da publicação, quando se torna indispensável faze-lo.

Às vezes, um simples comentário público, uma entrevista, uma notícia de jornal, provoca o aparecimento de testemunhos, documentos, papéis interessantes, curiosos ou até fundamentais, que ajudarão na consolidação da figura retratada.

E não importa que sejam favoráveis ou desfavoráveis, pois para a composição do personagem, tudo será válido, útil, necessário.

 

 

 

 

 

PONTAPÉ NO TRASEIRO

18 de março de 2012

Crônica publicada hoje no jornal ABC DOMINGO 

Walter Galvani

 

Fez efeito o que o francês secretário geral da FIFA, Jerôme Valcke disse há uma semana e que tanto “frisson” causou no Brasil. Depois de uma conversa de presidente com presidente, o chute no traseiro nos pegou… O sonho de proibir bebida alcoólica nos estádios esfumou-se, a Comissão Especial da Câmara, como se sabe, aprovou a exceção e na semana que vem o Legislativo vota sabendo que Dilma e Joseph Blatter se acertaram. Então, a Copa sai no Brasil e como a cerveja é o produto de um dos principais patrocinadores da FIFA, vai rolar nos estádios com permissão governamental. Em recipientes especiais de plástico, como se isso tirasse a sua periculosidade. Ah, sim, é verdade, agora ninguém vai se pegar “à garrafadas”, pois só poderá vender-se a bebida em garrafinhas ou copos de plástico. Já beber, se pode…

Bem que o francês tinha razão e assim, daremos uma demonstração internacional da nossa autoridade: “Quem manda dentro de nossas fronteiras, somos nós!” Expulso pela conveniência, o homem do tal pontapé não virá aos jogos no Brasil, e dará gargalhadas em Paris, tomando a sua “ceva” gelada ou quente. Sabem, os ingleses por exemplo, tomam cerveja quente! Bem que estão precisando de um bom pontapé no traseiro…

E o sonho de expulsar o álcool dos nossos estádios fica limitado aos joguinhos baratos de campeonatos locais.

Ainda pode ser que criem vergonha pelo caminho e entornem o caldo (digo o copo de bebida) na próxima semana. Mas, por enquanto, está nascendo uma nova indústria: o engarrafamento do uísque e da caipirinha em “recipientes de plástico”. Será válido para a Copa das Confederações e para a Copa do Mundo.

“Muito bem solucionada a questão” e nem vamos nos assustar com o que pode acontecer, pois se sabe muito bem que plástico se amolga e não quebra a cabeça de ninguém. Quanto ao mais, haverá fila nos banheiros, ou “toaletes” para seguir a etiqueta francesa, onde os torcedores poderão dar vazão à sua raiva e sua inconformidade.

Teria sido melhor não terem inventado esta bobagem que só inferniza a renda da “copa” que, sabem os que conhecem o futebol amador ou o “interiorano” de um modo geral, integra a perspectiva de renda…

18 de março de 2012