O CHOQUE DA REALIDADE

1 de março de 2010

O CHOQUE DA REALIDADE

 

Walter Galvani

 

 

Há cinquenta e cinco ou cinquenta e seis anos, tempo da minha atividade como jornalista, que escrevo sobre o “choque da realidade” que costuma ser o mês de março, quando afinal cessa a chamada “temporada de verão” e todos refluem para a cidade, para os seus afazeres, para o dia-a-dia. Com o passar do tempo modificou-se um pouco esta disposição física e mental das pessoas, entidades, empresas e instituições, mas ainda este ano ouvi uma dezena de vezes que, tal e tal assunto, seria retomado em reunião EM MARÇO. Bem, aqui estamos, praticamente chegados ao novo mês e podemos já, portanto, deixar de lado a temperatura da água do mar e a sujeira ou limpeza de suas areias, para entrar fundo em assuntos sérios.

Isso é o que acontece com cidades não litorâneas, pois, no caso de Rio Grande, por exemplo, o mar está ali, beirando suas ruas ou com a praia à meia dúzia de quilômetros. Sempre há, como é o caso de Pelotas, o convite desta remansosa lagoa (ou laguna?) para um passeio ao Laranjal em qualquer fim de tarde.

Mas, o velho costume de mudar-se com malas e bagagens, filhos e empregados, cães e passarinhos, para o Litoral, se não está arquivado, pelo menos em parte revogado está.

No entanto, o período de instabilidade e indecisão, de suspensão temporária de decisões, parece que continua em nosso “Rio Grande amado”. E eu poderia dizer que é remar contra a maré, tentar mudar esta atitude.

Portanto, aquilo que não foi realizado, pensado, decidido ou programado antes do Natal, fatalmente só será retomado quando março chegar. Assim é, e assim tem sido, acho que desde os tempos em que os guaranis vinham passar os meses de verão junto ao mar, embora não carregassem folhinhas impressas em seus pertences. Traziam filhos e netos, cães e em certo período, cavalos, que dom Cristóvão de Mendoza já andara por aqui semeando o uso de tais animais. E se não faziam cavalgadas pela areia, pelo menos em direção ao mar viajavam. Na época não havia protestos. Quem mandava era o morubixaba da tribo, e pronto. Ah, e também não havia Carnaval para distrair os mascarados que, se quisessem fazê-lo, cobriam-se de penas mesmo fora do período. E parece que ficava tudo para a “volta”. Para o “grande retorno”. Como agora…

(Crônica escrita para o jornal Diário Popular, de Pelotas)

Walter Galvani

 

 

Há cinquenta e cinco ou cinquenta e seis anos, tempo da minha atividade como jornalista, que escrevo sobre o “choque da realidade” que costuma ser o mês de março, quando afinal cessa a chamada “temporada de verão” e todos refluem para a cidade, para os seus afazeres, para o dia-a-dia. Com o passar do tempo modificou-se um pouco esta disposição física e mental das pessoas, entidades, empresas e instituições, mas ainda este ano ouvi uma dezena de vezes que, tal e tal assunto, seria retomado em reunião EM MARÇO. Bem, aqui estamos, praticamente chegados ao novo mês e podemos já, portanto, deixar de lado a temperatura da água do mar e a sujeira ou limpeza de suas areias, para entrar fundo em assuntos sérios.

Isso é o que acontece com cidades não litorâneas, pois, no caso de Rio Grande, por exemplo, o mar está ali, beirando suas ruas ou com a praia à meia dúzia de quilômetros. Sempre há, como é o caso de Pelotas, o convite desta remansosa lagoa (ou laguna?) para um passeio ao Laranjal em qualquer fim de tarde.

Mas, o velho costume de mudar-se com malas e bagagens, filhos e empregados, cães e passarinhos, para o Litoral, se não está arquivado, pelo menos em parte revogado está.

No entanto, o período de instabilidade e indecisão, de suspensão temporária de decisões, parece que continua em nosso “Rio Grande amado”. E eu poderia dizer que é remar contra a maré, tentar mudar esta atitude.

Portanto, aquilo que não foi realizado, pensado, decidido ou programado antes do Natal, fatalmente só será retomado quando março chegar. Assim é, e assim tem sido, acho que desde os tempos em que os guaranis vinham passar os meses de verão junto ao mar, embora não carregassem folhinhas impressas em seus pertences. Traziam filhos e netos, cães e em certo período, cavalos, que dom Cristóvão de Mendoza já andara por aqui semeando o uso de tais animais. E se não faziam cavalgadas pela areia, pelo menos em direção ao mar viajavam. Na época não havia protestos. Quem mandava era o morubixaba da tribo, e pronto. Ah, e também não havia Carnaval para distrair os mascarados que, se quisessem fazê-lo, cobriam-se de penas mesmo fora do período. E parece que ficava tudo para a “volta”. Para o “grande retorno”. Como agora…

NO MEIO DO FERIADÃO, RESPIRE UM POUCO

31 de janeiro de 2010

Crônica publicada neste domingo, 31, último dia de janeiro de 2010, no jornal ABC DOMINGO 

Pois é, não é? Voou o primeiro mês de 2010 e amanhã começaremos o segundo, cheio de feriadões e Carnaval. Logo março aí estará. E então, quem pensava que poderia seguir aquecendo os motores para a decolagem do ano, já vai se defrontar com a necessidade de correr para não perder o trem… Aliás, teremos muitas correrias, e Lula que o diga, é preciso aproveitar estes momentos que ainda nos restam para fazer uma pausa para respiração. Tomar um pouco de ar. Não custa nada e traz muitos benefícios. Os médicos que mandaram o presidente “baixar a bola”, sabem das coisas… Correr de um compromisso para outro, como numa espécie de ralí Paris-Dakar é muito bonito, divertido, mas é estressante e derruba qualquer um. E este será um ano de eleições, além dos compromissos normais do nosso dia-a-dia, de recuperação plena (ou mergulho no fosso) da economia, de restauração do que a Natureza revoltada anda derrubando, de fiscalização de estradas, edifícios e pontes.

Nos tempos que correm, sempre que entro numa ponte em nosso estado, seguro a respiração na expectativa de que não seja para mim, que não sei nadar e ando em carro eletrônico, cujas portas, já sei, se bloqueiam automaticamente, que esteja reservada a queda de uma delas. Não me chamem de psicopata, nem de agourento. E se não caírem as pontes, se as águas não levarem os aterros das estradas, ainda corremos o risco de levar uma batida de algum desses malucos que trafegam como se tivessem que chegar a tempo de retirar seu pai da forca ou pegar a mulher nos braços do amante, que buzinam atrás de nosso carro, quando ousamos trafegar dentro dos limites de velocidade impostos pela fiscalização do trânsito. Esses não chegarão à nada e nem ao fim de 2010, mas o que me preocupa é que podem arrastar os outros com a sua loucura…

Enquanto isso vamos praticando como “aprendizes de feiticeiro” ou de Homero, como o quer Nélida Piñon, a brasileira de nome espanhol que acaba de ganhar com seu livro, justamente denominado “Aprendiz de Homero”, o prêmio “Casa de Las Américas” deste ano. Aí está uma boa receita de leitura para o feriadão, ou vá ao cinema assistir ao musical “Nine” (e você tem mais de nove razões para fazê-lo) ou “Invictus” que legaliza a bola do Nelson Mandella e do Morgan Freeman.

Walter Galvani

DO FUNDO DA INTERNET (E DO BAÚ)

24 de janeiro de 2010

 

Crônica publicada no jornal Diário Popular, de Pelotas, diário mais antigo em circulação no estado do Rio Grande do Sul

 

Walter Galvani

 

 

Quando a Internet dava seus primeiros arrancos e surgiu o milagroso “e-mail” e os primeiros “sites” – isso por volta de 1995/96 – apareceu desde Guebvillier, que fica na Alsácia, nordeste da França, próximo a Strasbourg, um correspondente que me deu muita satisfação. Trocamos bem humorados mails, nos quais ele dizia sempre ter pensado que ele era “o único Walter Galvani da face da terra” e eu lhe respondia no mesmo teor. Também me achava o único. Durante um bom tempo mantivemos correspondência eletrônica, mas depois a relação foi se afrouxando, passei algum tempo lutando pela vida num hospital da capital, depois reencetei minha carreira e minha atividade e por aí me perdi do meu homônimo e já um querido amigo. Eu já havia até levantado a hipótese de que o Walter Galvani francês, mas de ascendência italiana como eu, viesse ao Brasil. Acompanhei o crescimento da sua família e sua atividade de professor. Depois disso nos perdemos. Mas nos achamos. Graças ao Facebook, esta nova “rede social” ressurgiu em minha tela eletrônica o meu amigo e homônimo, Walter Galvani.

Com que satisfação, vi a mensagem perguntando se eu gostaria de fazer parte do seu rol de amizades. Claro que sim, fui logo respondendo e neste final de semana recebi a resposta direta dele: “A quei tempi facebook non c’era ancora! Sono felice di ritrovarti dopo tanti anni!! E assinou: Walter Galvani, “the french one”. Hoje sei que ele é um “guebvillerois”, um dos 11.525 habitantes da bela cidade. Feliz.

É assim mesmo, através dos serviços do Facebook que estão instalados em Palo Alto na Califórnia retomo minha ligação com o Walter Galvani francês que mora lá pertinho da Alemanha, no nordeste da França. E eu aqui, em Guaíba e Porto Alegre, escrevendo agora para um glorioso jornal de Pelotas, a capital da zona sul do Rio Grande, o mais antigo diário em circulação no estado.

E assim como ele demonstra felicidade em me reencontrar depois de tantos anos, como escreveu, também eu vibrei com o reencontro. Quer dizer, são os milagres fantásticos da tecnologia e da boa vontade entre os povos e as pessoas. Porque não fazermos um gesto desses em relação ao Haití? Como disse eu no programa com o Armando Burd, na rádio Bandeirantes de Porto Alegre, se eu fosse presidente da república abriria as portas para todos os haitianos que quisessem se abrigar e trabalhar no Brasil.

Em 24 de janeiro de 2010

MELHOROU ? PIOROU ?

24 de janeiro de 2010

 

Crônica publicada hoje, 24 de janeiro de 2010, no jornal ABC DOMINGO, órgão dominical do Grupe Editorial Sinos

Walter Galvani

 

 

Quem está por aí, vivendo e aprendendo, lutando e produzindo, procurando melhorar sua vida particular e suas relações com amigos e familiares e não mora no Haiti, dificilmente poderia escrever que a vida piorou. Estamos do lado de cá, novo ano, nova década, alguns cresceram centímetros, outros diminuíram, muitos na certa engordaram, mas isso quer dizer que tiveram comida em excesso. Outros ampliaram seus conhecimentos, leram alguns livros a mais, assistiram à dezenas de espetáculos ruíns na televisão e nos palcos da vida, outros nem sequer isso e alguns se entregaram a seus amores, aos seus ódios e a seus dissabores.

Foi assim mesmo, um ano como todos os outros, e estamos num ano igual, mas, o que todos queremos é que seja melhor. Os paulistanos, por exemplo, 56% deles responderam a uma enquete dizendo que gostariam de mudar de cidade… E nós, cá no Sul? Acho que a maioria esmagadora diria que pretende continuar aqui, pois são felizes, a despeito das pontes que não estão resistindo à força das águas e à falta de uma remuneração adequada. Outros tentam as loterias acreditando na sorte, mas é a maneira como procedem para manter um percentual de confiança e esperança. Quando tudo ao redor parece desabar e é recomendável que se leia o poema IF (o Se) de Kipling.

Não dá para saber com certeza desde quando se registram terremotos, além de alguns que ficaram na lembrança coletiva da humanidade, a começar por Sodoma e Gomorra, 4.000 A.C., (ou não terá sido?), passando por Lisboa (1755), e Esparta, uma das causas da Guerra do Peloponeso em 464 A.C., mas este do Haiti foi o pior naquele país em 200 anos, antes houve outros, enquanto no Brasil se produziram tremores com resultados de rachaduras em edifícios ou casas e nada mais. “Mas vocês vão ver o povinho que eu vou botar lá!” – diz a piada caracteristicamente autopunitiva inventada pelos próprios brasileiros. Então, enquanto as pontes continuam caindo e alguns compatriotas seguem roubando dinheiro em meias e cuecas, outros assaltanto ou tomando os recursos dos outros, para a maioria a vida melhora. Menos para os paulistas, é claro, que dizem que tudo piorou, mas mesmo esses acostumados a levar o pau pela cabeça, seguem confiantes, achando que 2010 será melhor. Tomara.

 

HAITÍ

17 de janeiro de 2010

VIVENDO ENTRE FURACÕES

E TERREMOTOS

(Crônica publicada no jornal “Diário Popular”, de Pelotas, o diário mais antigo em circulação no Rio Grande do Sul e um dos mais antigos do Brasil (sem interrupções ao longo de quase 120 anos)

 

Walter Galvani

 

 

A história do Haiti é longa e curta ao mesmo tempo. Afirma-se que data de 7.000 anos a presença de silvícolas, provavelmente oriundos do continente americano,  tribos anauaques ou caraíbas. O nome original do país, encontrado por Cristóvão Colombo em 5 de dezembro de 1492, é Quisqueya, mas os cataclismos políticos, econômicos e geológicos sempre foram uma constante na vida da pequena ilha que ele batizou inicialmente como “Hispaniola”, e que passou pelo domínio dos espanhóis, franceses e mais tarde americanos. No meio disso, viu-se fustigada por tsunamis naturais e importados, políticos, econômicos e geológicos como o terremoto de 7 graus na escala Richter, da semana que passou.

No meio desta trajetória teve até o Papa Doc, um ditador terrível sucedido pelo seu filho Baby Doc, que mantinham o poder apoiado na truculência da guarda pessoal dos “Tonton Macoutes”. Mas, é importante pesquisar para ver como os nativos originais encontrados pela esquadra de Colombo, foram sendo substituídos pela mão-de-obra escrava trazida da África e que redundou no povo “crioulo” que hoje habita em maioria a pequena ilha, aliás chegando a 8 milhões e poucos mais.

O Brasil está muito presente lá integrando o contingente da ONU, que mantém o seu batalhão denominado “”Minustah” e automaticamente tornou-se o principal organizador da defesa civil depois do terremoto, onde afinal perdeu uma boa parte dos seus representantes, inclusive nomes como a indigenista e missionária Zilah Arns e tantos gaúchos que levaram sua colaboração e seu apoio como soldados da Paz.

Pode-se dizer que nestes seus duzentos anos de independência (desde 1803) e pouco mais de quinhentos de convivência com o mundo coordenado e comandado pelos europeus e seus descendentes, o Haiti nunca foi mais nem menos do que uma colônia explorada. Há uma pequena elite intelectual que emigra obrigatoriamente para os países de língua francesa, (a segunda mais falada no país, 10% da população) e, como em todos os lugares, um grupo que cresceu à sombra da corrupção e das alianças com os conquistadores e ocupantes.

Por tudo isso, pelas semelhanças e diferenças, o Brasil tem a obrigação de liderar o apoio ao país que, aliás, tem como padroeira dos católicos (60% deles), Nossa Senhora do Perpétuo Socorro…

VALORIZANDO NOSSO PRÓPRIO TEMPO

17 de janeiro de 2010

 

Crônica publicada no jornal ABC DOMINGO

do Grupo Editorial Sinos

no dia 27 de setembro de 2009

 

SELEÇÃO PESSOAL

 

Walter Galvani

 

 

A coisa mais preciosa que temos é o tempo e só a nós mesmos cabe a tarefa de administrá-lo. Se este bem valioso, inigualável, for desperdiçado, a culpa não cabe aos governos, aos políticos, a ninguém mais. Quando acabamos de amadurecer – se é que algum dia concluiremos esta angustiante tarefa em nossas vidas! – precisamos tomar decisões que encaminham a real utilização dos minutos em nosso proveito, seja isso visto diretamente ou através dos benefícios que nos tocam ao cuidarmos de terceiros, nossos parentes, amigos, filhos, netos, pais e mães, primos e animais de estimação e os iguais pelo gênero humano,  com os quais vamos fazendo esta travessia. E, portanto, hesitar entre ler, ouvir e ver uma tragédia em nossas estradas, nas ruas de Honduras ou nos Emirados Árabes Unidos, escutar nossos políticos ou folhear uma revista, ler um livro ou assistir a um filme, ver televisão ou dormir ouvindo música, postam-se as opções que precisamos, a cada momento adotar. Depois que o tempo passar, os anos voarem e com os cabelos encanecidos e os membros entorpecidos estivermos placidamente adormecidos nos braços do Alzheimer, será tarde demais.

Por isso, a seleção pessoal é uma questão contínua de maturidade, civilidade e inteligência. Todos os nossos sentidos precisam estar constantemente alertas para estas decisões que implicarão na melhor utilização do tempo que corre. Fugir à elas é adiar o próprio desfrute da vida. Se os chamados “mídia” (apropriação incorreta da versão do latim para o inglês de um termo expressivo), se os “meios de comunicação de massa” trabalham em cima de percentuais de leitura, visão, audição, simplificando seu pacote de oferecimentos por um nivelamento por baixo, precisamos saber escolher. Temos que ser seletivos no tipo de veículo, no horário, no conteúdo e na forma, e aprender a criticar, rejeitar, aceitar e analisar ou descartar a mensagem.

Somos donos do tempo. O que significa, mais do que nunca, não desperdiçá-lo. Assim, se o Senado dispensa funcionários, se assaltantes fazem sequestros ou acidentes mostram a falta de fiscalização ou má qualidade das estradas, é bom saber de tudo, mas não devemos nos empanturrar com certas inutilidades.

HAITÍ, HAITÍ, HAITÍ

17 de janeiro de 2010

Crônica publicada neste domingo, 17 de janeiro, no jornal ABC DOMINGO, o órgão de circulação dominical do Grupo Editorial Sinos

 

Walter Galvani

 

Haití (nas mãos de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro…) 

Ou Quisqueya, como era conhecida pelos nativos arauaques e caraíbas, hoje completamente desaparecidos, talvez com alguns traços genéticos entre os descendentes de escravos que formaram a maioria maciça da população, enquanto o Haiti era administrado, desde 1492, por espanhóis ou franceses (1697). Café, cacau e açúcar fizeram a prosperidade relativa do século XVIII, quando proclamou-se sua independência (1803) ou dependência como veio acontecendo até agora. Este é o Haiti, e além de lembrar aos brasileiros o bom café por causa da marca que se celebrizou por aqui (“tá fazendo na cozinha, tá cheirando aqui!”), está na presença de todos porque o Brasil comanda o “Minustah” desde 2004, batalhão de estabilização da ONU e agora vai liderar o socorro por causa do terremoto ocorrido esta semana. Este é o destino da ilha “Hispaniola” como a batizou Colombo quando lá chegou a 5 de dezembro de 1492, quando ele se confundiu e pensou que tinha aportado na Índia ou próximo dela….

Não é por nada que os católicos, que hoje constituem a maioria da população lá chegaram, deram à ilha como padroeira, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro… É isso mesmo o que necessitam os haitianos, porque depois da rápida prosperidade econômica de colônia francesa, quando viviam da exportação do café e outros produtos primários, só tem passado por cataclismos políticos, econômicos, sociais e geológicos. Já vivera, tudo, inclusive a ditadura de François Duvalier, que foi sucedido pelo seu filho Baby Doc,  que tinham na guarda-pessoal dos Tonton Macoutes, a segurança na violência.

Pode-se dizer que não tem tido sorte o Haiti (assim como outras ex-colônias dos europeus, fossem eles franceses, ingleses, espanhóis ou portugueses, os grandes conquistadores dos séculos XV, XVI e XVII e XVIII, apenas substituídos ou sucedidos pelos americanos nos anos subsequentes.

O terremoto é tudo e não é nada comparado com os cinco séculos de exploração que a pequena ilha sofreu, mas os brasileiros tem mais do que obrigação de continuar exercendo sua influência e semeando a esperança de que um dia aquele país também se emancipe dos seus colonizadores e se liberte da exploração internacional, o que é mais difícil, mas deve ser um objetivo a ser perseguido.

CAIM

16 de janeiro de 2010

Acabei de ler o “Caim”, de José Saramago, minha sexta leitura de 2010. Achei chato, confuso, pretencioso, desculpe-me o Prêmio Nobel, mas em alguns momentos a idéia vertiginosa desenvolvida por ele torna-se até interessante, mas o livro se perde…

O resultado final me pareceu abaixo do imenso talento do mais importante escritor da língua portuguesa.

Para facilitar, uso o termo da moda: “é complicado”…

Leiam, em todo o caso, formem suas opiniões e me escrevam.

A edição é da “Companhia das Letras”, o formato é próximo do “pocket” e o texto é curto. Está em 172 páginas.

E ENTÃO É NATAL…

6 de dezembro de 2009

 

Crônica publicada neste dia 6 de dezembro no jornal

ABC DOMINGO

 

UM PAÍS MUITO RICO

 

 

Walter Galvani

 

 

Pela pregação contínua do cristianismo, qualquer que seja a versão que sigamos, do catolicismo às igrejas modernas de confissão evangélica, passando pelas luteranas, calvinistas, enfim, oriundas de todos os quadrantes europeus e que nos foram trazidas pelos imigrantes, formadores da maioria absoluta da população brasileira, o Natal é a festa máxima brasileira. Disso ninguém duvida. Os valores espirituais, culturais, pregados pelo cristianismo, lembrando a figura de Jesus Cristo, sua “passagem pela terra”, procuram transmitir o que ficou assinalado na doutrina retratada nos evangelhos: amor ao próximo, perdão aos que nos ofenderam, e mais alguns dogmas, discutidos ou não ao longo dos tempos, e que o caracterizam.

Natal o que é e o que deveria ser? Para essa imensa maioria da população, portanto, o culto das virtudes máximas apontadas em Jesus: humildade, generosidade, modéstia, pobreza, divisão de todos os bens materiais para que ninguém sofra com sua falta.

Jesus, um comunista? Sim, um comunista ideal como nunca houve. As tentativas políticas de comunismo, todos sabemos no que deu… Voltemos ao Natal cristão. Festa máxima, portanto, comemorando o nascimento de Jesus, marcada para o dia 25 de dezembro, consagrada pelo tempo, (embora críticos digam que houve um engano histórico na contagem dos dias, mas isso é irrelevante.)

Os homens festejam pois o nascimento do “filho de Deus”. Com toda a pompa e circunstância, gastando o que tem e o que não tem. Nem vamos falar hoje na corrida consumista dos presentes. Fale-se nos 126 milhões por uma árvore de Natal na “Ponte Estaiada Otávio Frias” em São Paulo, na árvore de Florianópolis de 3.700.000,00 ou no cachê (a idéia é ótima, mas o preço é altíssimo) de Andréa Bocelli cantando para o povo na capital catarinense. Lá, aqui, qualquer ponto do país, gastando fortunas por dez dias. Todos devastados pelos últimos furacões (que não serão os últimos pois passamos anos e anos derrubando matas) ou pelas inundações, que também não serão as últimas. Este é um país rico, que não quer, em verdade saber de nada, só carregar dinheiro nas meias e cuecas e roubando  e assaltando por toda a parte. Viva Jesus! Viva o Natal!

“Pai, perdoai-os porque não sabem o que fazem…”

RIO GRANDE DO SUL, O TEMPO E O VENTO

29 de novembro de 2009

Crônica publicada neste 29 de novembro no Diário Popular, de Pelotas

O TEMPO E O VENTO

 Walter Galvani 

Não foi por acaso que Erico Veríssimo, até aqui o maior e indiscutível romancista da história do Rio Grande do Sul, denominou a sua grande epopéia, como “O Tempo e o Vento”. Foi assim mesmo e todos os que o leram, sabem o quanto sintetizava ele neste título marcante, o que se passa na vida dos gaúchos e o que se passou ao longo dos seus pouco mais de trezentos anos de história conhecida. Trezentos se desconsiderarmos os séculos anteriores, por deles não haver restado memória escrita, mas apenas alguns samburás e lendas, elementos pois indicativos do que se passou aqui neste lado do Atlântico.

Nossa matriz é a Europa, mais ainda é Grécia e Roma, e as tribos célticas que com os iberos formaram a península ibérica e o povo que inicialmente se classificava como os “celtiberos”. De lá vieram portugueses e espanhois, açorianos e depois o restante dos colonizadores. De lá para cá um lento mas permanente relacionamento de miscigenação de povos europeus com silvícolas, junto com africanos, chegou-se ao brasileiro de hoje, tanto quanto no lado espanhol, argentinos, uruguaios, paraguaios, etc, e tal.

Mas, ao longo destes séculos todos, a presença mais permanente sempre foi o Tempo, com suas duras variações e o Vento, com sua força por vezes inimaginada ou a chuva, os temporais, as inundações que nenhum muro poderá conter, o granizo, e o limite do mar.

Se este tempinho dos últimos dias já deu para contabilizar 3,5 bilhões em prejuízos, calcule-se isso, ao longo dos tempos. É o preço dos ventos. Só agora se procura meios para tornar alguma parcela deles como produtivos de energia e isso merece nosso aplauso e nossa atenção. Pena que não se tenha feito isso antes, a não ser nas modestas iniciativas dos açorianos com suas azenhas, seus moinhos ancestrais.

Assim foi e assim tem sido. Nem Tupã, nem Jeová, nem Deus dos cristãos, ninguém explica isso, mas apenas relembra a força daquela idéia central do Erico. Leia-se e releia-se “O Tempo e o Vento”, ali está toda a nossa história e a sua explicação. Para tudo. Menos para a poluição e o desmatamento, responsáveis diretos pela crise atual.