TOLERÂNCIA ZERO

Crônica publicada hoje no jornal ABC DOMINGO

 

BOMBOM DE LICOR

 Walter Galvani

Não pensem que é só no Brasil, mas é em países intelectualmente subdesenvolvidos, (e não é a riqueza per capita nem algum prodigioso investimento industrial que evitam este padrão), que floresce certo tipo de lei, como essa, que visa acabar com os acidentes nas ruas, avenidas e estradas, criando a tolerância zero para a ingestão de bebida alcoólica para quem dirige.

Em primeiro lugar, a fiscalização será aleatória, isso é lógico, porque seria impossível abordar todos os motoristas que conduzem veículos no país. Em segundo lugar, porque, a única “fiscalização” possível é o amadurecimento das pessoas que passam a agir… como se vivessem numa nação de primeiro mundo.

Costumo lembrar sempre o que sucedeu comigo ao visitar um amigo diplomata que então vivia em Estocolmo, Suécia, e estou falando em tempos de 1972, que foi ao centro da cidade comigo, onde comemos sanduiches e tomamos uma cerveja e ele deixou o carro numa garagem e voltou para casa de táxi. Na época espantei-me, pois, vivendo aqui no Brasil, jamais me passaria pela cabeça que o fato de beber uma cerveja poderia interditar o uso da direção. Quarenta e seis anos depois, chega como lei, esta proibição que deveria estar dentro da cabeça das pessoas. Ou seja: o nome do jogo é educação.

Porém, como em tudo no Brasil, querem impor à força o novo comportamento e a lei chega draconiana, radical. Duvido que se cumpra, embora torça por ela… Deram já uma aliviada e agora “bombom de licor” já pode, assim como algum tipo de medicamento. Cuidado, hein, ao liberar o que não podem controlar, enganam mais uma vez a população, porque o mais grave, os produtos utilizados pelos motoristas para correrem como loucos nas estradas, bem como as drogas ingeridas pelos jovens notívagos, que pelo volume e multiplicidade também se tornam tão comuns que não há efetivo policial que consiga controlar.

Sabem a que hora a “vida noturna” nos países mais adiantados da Europa tem que terminar? Meia noite, em alguns casos muito liberais, uma hora da manhã. Só Madri, com sua “loca movida” está fora disso. Assim mesmo com uma Polícia que chega “dando”, nada de amaciar como se gosta de dizer. Falei em Educação, antes de tudo. Com E maiúsculo, como investimento do governo, em todos os níveis.

 

2 comentários para “TOLERÂNCIA ZERO”

  1. Almiro Zago disse:

    Walter Galvani:

    Esta aí uma lei nascida de bons propósitos, de generosidade. Porém, para o nosso estágio cultural, para os nossos hábitos, falta-lhe razoabilidade. Dada a impossibilidade de fiscalização eqüitativa, os resultados pretendidos poderiam ser alcançados pela aplicação das pesadas sanções a todo o condutor de veículo que cometesse infração de trânsito - qualquer infração -, mediante prova de presença de substância alcoólica em seu sangue. Como está, oficializa-se a iniqüidade, pois estar-se-á punindo pessoas sensatas, moderadas e responsáveis, a pretexto de alcançar os contumazes infratores.
    Almiro

  2. admin disse:

    Passam os dias e a gente fica sabendo mais coisas, se é que é possível saber alguma coisa no meio dessa safadeza toda que se chama Brasil…
    Por exemplo: a lei ainda não foi regulamentada, diz o ministro Tarso Genro.
    Então, não pode ser aplicada, não é mesmo?
    Assim é o Brasil, naturalmente “país do futuro”, por que ainda não é do presente…
    Tolerância zero? Não resistirá à nenhuma ação que for movida por uma empresa, associação, entidade. Particulares não, o melhor mesmo é náo beber, caso contrário pagarão o pato. E mais: não tomem seus remédios e, de preferência, náo comam bombons de licor…

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