O PERTURBADOR ENTRA E SAI DA CADEIA
Crônica publicada hoje no jornal ABC DOMINGO, do Grupo Editoial Sinos, que circula em Porto Alegre, região metropolitana, Encosta da Serra, Vale do Rio dos Sinos.
A sede da empresa é em Novo Hamburgo, a grande “cidade industrial” da área de colonização alemã que se produziu no Rio Grande do Sul, a partir de 1825.
NA TERRA DA ENCENAÇÃO
Walter Galvani
“Banqueiro volta para a cadeia”, “banqueiro também vai preso”, “ex-prefeito vai para a prisão de pijama”, “hábeas libera ex-prefeito”, “grande investidor vai preso”, “banco perde um bilhão” e tudo dito e impresso, apresentado e lembrado assim, cria, na cabeça do humilde, do modesto, do pequeno, a ilusão de que o mundo é feito de tais encenações. Enfim, só é real o que “passa na televisão” ou é divulgado na “mídia”.
Esta “realidade” do mundo moderno é uma das maiores distorções provocadas pelo tipo de efeito que a difusão causa na mente das pessoas que precisam aprender a ler, ver e discernir o que é falso do verdadeiro, o que é permanente do que é fugaz, o que é justo do que é injusto, o que é concreto do que é fictício.
De uns tempos para cá, e naturalmente num processo vertiginoso e vertical que será aprofundado neste ano eleitoral, o brasileiro se defronta cada vez mais com esta alteração no que lhe é apresentado, uma vez que a verdade, manipulada desde o seu nascimento não deixa de se encaminhar para o paradoxo popularizado pelo escritor Marshall Berman. Repescado no “Manifesto Comunista” de 1848, redigido por Karl Marx, de que “tudo o que é sólido, se desmancha no ar”, a dúvida agora se aloja no espírito de todos. O pior é que se desmancha mesmo a “realidade”, que antes era apregoada por Aristóteles como o resultado da ação dos cinco sentidos do homem, e hoje vem em pacotes prontos, congelada ou resfriada, conforme o caso, para uso imediato ou reservada para utilizações futuras.
Fica difícil para o habitante do morro ou do subúrbio, da vila ou do bloco habitacional ou até mesmo das grandes e confortáveis residências dos “paraísos artificiais” dos condomínios fechados, entender o que se passa nos atapetados corredores dos altos escalões. E o que de fato acontece, antes ou depois da noite cair, ao amanhecer ou nas frias madrugadas, pois de pijama e pantufas andam todos de cá para lá e de lá para cá. E quem dorme nas prisões pode acordar nos cinco estrelas, e vice-versa. Está na hora de um “chega pra lá” severo e cortante. Nossa esperança é que isso aconteça antes da hora das decisões pessoais no silêncio e na privacidade das urnas.