OSSÉTIA, GEÓRGIA… e amanhã?
Os ideais olímpicos arranhados, como sempre, logo depois do espetáculo da inauguração. Mas, há sinceridade nisso?
Crônica publicada no jornal ABC DOMINGO
A CAIXA PRETA
Walter Galvani
Desde o terceiro século da chamada Era Cristã, o Ocidente, representado sempre por suas superpotências que vem se sucedendo, Roma, Grécia, Rússia, Alemanha, Inglaterra, Espanha, França, Holanda, Estados Unidos, tem se dedicado a um curioso, ambíguo e interesseiro esporte que é “descobrir a China”. Em determinados momentos a situação se inverteu e a velha China andou equipando naus e organizando viagens para “o lado de cá”, demonstrando que o eixo das descobertas poderia se deslocar para o oeste e permitir o mergulho numa cultura que veio acumulando, desde a invenção da pólvora e do papel, dos tipos móveis e da impressão, da bússola e de tanta coisa mais. O tempo passa, e o Ocidente volta-se outra vez para a China na esperança de conseguir “abrir a caixa preta” e descobrir-lhe os mistérios entremostrados nas visitas importantes, como Marco Pólo e outros navegadores que lá chegaram. E assim chegamos às Olimpíadas, quando, finalmente o mundo todo está de olho na China que permanece atrás da sua Cortina de Bambu, aliás de poluição agora, embora se saiba que até a urina é aproveitada como fonte de energia. Tudo serve, pois, de exemplo para o Ocidente que busca se abeberar até nos ensinamentos de Confúcio que, se aprende rapidamente enquanto um narrador de televisão vai lendo os “scripts” que lhe colocaram a frente, foram esquecidos até que o regime comunista julgou interessante trazê-los de volta, porque falam em respeito ao poder e à disciplina. Sem isso, como conduzir um país de um bilhão e trezentos milhões de habitantes, não é mesmo, Jin-Tao?
Pois é assim mesmo e lá vamos nós tentando decifrar o dragão chinês abrindo a caixa preta, esquecidos que do lado de cá os tentáculos são tantos e o caixote é bem maior, cheio de orifícios e janelas, mas também com tantos guizos e holofotes.
“Eu e você, o mesmo mundo, para sempre a mesma família”, a mensagem dos Jogos Olímpicos, forte demais, lindo demais para ser verdade, sabemos que “sobre a nudez crua da verdade – como disse Eça de Queiroz – estendemos o manto diáfano da fantasia”. Nessa brincadeira do “tomara que seja verdade”, a Paz levanta vôo. Até a próxima guerra.