Arquivo de novembro de 2008

A HIPOCRISIA E O CINISMO

domingo, 30 de novembro de 2008

 

 

(Crônica publicada no jornal ABC Domingo)

 

A comoção que gera sinceramente na população uma tragédia como esta que atingiu o estado de Santa Catarina, nos obriga também a refletir sobre o drama maior que é o cinismo generalizado e o egoísmo de pessoas e instituições, governos e empresas que, há anos vem dilapidando o patrimônio de todos e ocasionando a destruição dos eco-sistemas que poderão levar cada vez mais longe a liquidação dos espaços de cultivo, vida e habitação.

Constrói-se, e isso não é só no estado vizinho, mas por aqui mesmo, como em Vitória (Espírito Santo) como no Rio de Janeiro, em qualquer lugar, nas encostas dos morros, abrem-se estradas onde não se deve, desmata-se indiscriminadamente, e não só na Amazônia, como denuncía o “Clarín” de Buenos Aires e depois, ainda querem culpar os meteorologistas por “falta de aviso” sobre catástrofes naturais. Se é isso, então tomem nota: muito mais freqüentes e muito maiores serão os cataclismos que se abaterão sobre o Brasil e não apenas em Santa Catarina, nos próximos anos.

Tornados, tsunamis, furacões, vendavais, secas, enchentes, tudo isso será muito mais presente em nosso dia-a-dia, porque a destruição do meio ambiente continua num processo crescente que levará a um impasse de medo e angústia, e depois revolta e perdas materiais e pessoais.

Não há uma ação governamental, nem do governo central, nem dos estados, muito menos dos municípios, buscando preservar o pouco que ainda resta. Ao contrário, correm os governantes atrás de falsas promessas de desenvolvimento, de plantações de espécies nocivas, por serem exóticas, naturais de outras paragens. Acolhem-se empresas dedicadas a determinados produtos que dos seus locais de nascimento foram compelidas a se retirar para fazer fora a “parte suja” de sua operação e assim completar o interessante e lucrativo hábito de sujar o quintal do vizinho…

E nós, cínicos e hipócritas, acolhemos os dólares e batemos palmas.

O preço de tantas vidas, tantos desabrigados, tanto prejuízo pessoal e material, tanto desgaste, não interessa para estes insensíveis que se beneficiam com as vantagens políticas e econômicas que eventualmente pingam em seus bolsos. 

 

A QUINTA-FEIRA NEGRA…

domingo, 23 de novembro de 2008

Crônica publicada no ABC DOMINGO  

Não, não estou falando do dia 24 de outubro de 1929, quando a Bolsa de Nova York despencou e arrastou o mundo ocidental, primeiro para a Recessão, depois para a Depressão, nem tampouco falo sobre esta segunda queda gigantesca (a de agosto de 2008) que levou de roldão o sistema financeiro globalizado. Falo apenas da quinta-feira passada, 20 de novembro, que imobilizou a Região Metropolitana durante um dia inteiro, por causa de um acidente ocorrido na parte da manhã.

A precariedade da rede rodoviária que circunda Porto Alegre e dá saída a toda a produção e movimentação da população que habita os municípios de Novo Hamburgo, São Leopoldo, Sapiranga, Campo Bom, Dois Irmãos, Morro Reuter, Sapucaia, Esteio, Canoas, e todos os demais, sem falar no acesso ao norte e noroeste do estado, demonstrou com toda a sua clareza.

Ficamos todos parados, percorrendo cinco quilômetros em cerca de uma hora e desistindo dos compromissos, por impossibilidade de cumpri-los.

Enquanto isso, nem sequer as autoridades, nem os concessionários das rodovias, foram capazes de informar, sinalizar ou até obstaculizar o uso das estradas bloqueadas, contribuindo isso sim, com a confusão reinante para o congestionamento geral, arrastando a BR-116 para o mesmo problema.

Não se viu um só agente de trânsito agindo para desestimular os motoristas, fosse no início da Castelo Branco no centro de Porto Alegre, nem sequer no início da av. Farrapos, principais “saídas” da capital e nem ao menos nas proximidades do trevo de acesso à Canoas.

No dia seguinte, como passou a crise com a chegada do final da noite e a madrugada, com a retirada do veículo que tombou no enlace entre as duas rodovias mais utilizadas do estado, nem uma só linha de esclarecimento.

É assim que se trata a comunidade, depois das eleições. Ultrapassada a necessidade de mendigar o voto, esquecem os contribuintes e esperam que nunca mais se repita uma crise semelhante, para não terem de dar explicações. As concessionárias preferiram lembrar que são ecologicamente responsáveis, e até recolhem o lixo ao longo das estradas. Nenhuma palavra sobre o absurdo da quinta-feira negra e nem sequer sobre o fato de não terem feito intervenções mais contundentes.

CUBA VAI MELHOR DO QUE NÓS?

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

 

Walter Galvani

 

Sinto muito pelos defensores da livre iniciativa, entre os quais me incluo. Sinto muito pelos defensores do capitalismo, embora, depois dos tais “derivativos”, eles devam ter diminuído bastante… Mas, leiam os números do desenvolvimento cubano e sua comparação com o Brasil e os demais países da América Latina, depois de cinco décadas de revolução e bloqueio por parte dos Estados Unidos, em dados fidedignos, fornecidos pelo Affonso Ritter, um colunista de economia muito justamente estimado por todos e, logicamente, pelos defensores do capitalismo:

“Cuba está hoje em 52º lugar no ranking de desenvolvimento humano da ONU, muito à frente do Brasil e da maioria dos países latino-americanos. Sua taxa de mortalidade infantil é de 5,4 por mil nascidos vivos, menor que a dos EUA. A mortalidade materna é de 32,5 por cada 100 mil e a esperança de vida de 77 anos. Estes alguns indicadores recolhidos naquele país pela comitiva gaúcha de deputados estaduais, autoridades estaduais da saúde e educação, operadores do direito e sindicalistas. A economia cubana cresceu 7,5% em 2007, acima dos 5,6% alcançados pela América Latina e 5% do Brasil. A agropecuária cresceu 24,7%; a indústria, 7,8%; transportes, 7,9%, e serviços, 11,7%. Entre os setores que se destacaram estão o petróleo cru e gás, cuja produção cresceu 2,7%; a geração elétrica, 7%; o transporte de carga, 10,1%; setor de software, 8%; a produção de leite de vaca, 16,8%; a produção de carne,11,7%; a produção pesqueira, 6,9%; a indústria farmacêutica, 21%: e a pecuária, 40,5%. O salário médio ficou em 5,4%, e o desemprego em 1,8%. Em Cuba, a educação e a saúde pública são totalmente gratuitas. Há um médico para cada 100 pessoas. No ensino primário, do pré-escolar ao sexto grau, há um professor para 20 alunos e o estudo é obrigatório até o final do ensino médio. De cada 100 cubanos, 7,5 têm formação superior.

Estive duas vezes em Cuba nestes cinqüenta anos. Vi de tudo: miséria e solidariedade, transporte até por carroças e velozes BMWs e Mercedes. Desemprego e crítica ao governo de Fidel. E sempre muita esperança. Isso é para lembrar que Cuba chega ao Cinqüentenário da sua Revolução no dia l° de janeiro de 2009. E voltem atrás e releiam para saber bem, como chega.

Crônica publicada no Diário de Canoas, neste dia 20 de novembro de 2008

 

FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Recebi do escritor Alcir Nicolau Pereira, a seguinte crônica que decidí editar aqui no meu “site”, por entendê-la adequada e inteligente:

 

 

 

“A Feira do Livro é um mundo contagiante. A vida e a cultura acontecem sob as sombras dos Jacarandás. Isso se o povo souber se defender dos pombos. Lembrei disto, pois vi um distinto cavalheiro que reclamava, até com certo humor, dizendo: cinco mil visitantes, dezenas de guardas, centenas de atendentes de barracas, diversos escritores, cinco pipoqueiros, alguns vendedores clandestinos e, por incrível que pareça, um raio de pomba passou voando e acertou exatamente em cima do livro que acabei de comprar. Eita pontaria certeira, tchê! Mas a Feira é soberba. Recordar os patronos Walter Galvani e Antônio Hohlfeldt, dois escritores famosos que – enquanto Patronos – modestamente percorriam os corredores da Praça da Alfândega, conversando com o povo. Escritores na acepção total da palavra e Patronos de Fato. Exatamente como achamos que este representante do livro deve ser. O Walter, porquanto, enxergando um escritor solitário no Pavilhão dos Autógrafos, pegava um livro e ia ao encontro, solicitando um autógrafo. Além de conversar com os atendentes das barracas diversas vezes. O Hohlfeldt – na 52º feira do Livro – pegando meu singelo livro, “A Guerra das Letras” e, posteriormente, mostrando-o na televisão, fazendo com que um funcionário onde trabalho comentasse: Pô, hein! O vice-governador mostrou teu livro na tv. Perto dos livros pode-se conversar com escritores famosos, como por exemplo, o Airtom Ortiz, aquele cara das viagens radicais que a gente vê diariamente, de maneira humilde, conversando com populares. Voltamos ao passado quando o último lambe-lambe desta Leal e Valerosa Cidade de Porto Alegre tirava um retrato – era assim que se dizia – de uma linda senhora, sob os protestos do filhote que, afoito para ir à Praça Infantil, avisava: mãe, não seria melhor uma foto com o telefone. Pois é, agora até telefone tira foto. E não precisa nem lamber o aparelho. Olhar o senhor José Alves Valêncio, simplesmente o Zé da Pipoca, que faz a guloseima com a maestria e fornece, como ninguém, receitas maravilhosas de culinária. Duvidam, vão lá e conversem com ele e, entre uma pipoca e outra, peçam uma receita. Experimente, experimente. Eu já o fiz. Ah! O Moacir Scliar que se cuide! O seu Zé anda escrevendo por aí. A Feira faz com que sintamos vontade de um chimarrão. Pois na Feira do Livro tem. Dê uma chegada no Galpão Crioulo e ceve o amargo dos pampas. Garimpar os balaios, a procura de um livro que tanto queríamos, é uma boa pedida, tal e qual um guri que gritou: achei! E ergueu nas mãos o “Anedotário da Rua da Praia”, do Renato Maciel de Sá Junior. Passar ao lado do restaurante grã-fino – aquele que vocês sabem ao qual me refiro – dar uma bisolhada nas gurias bonitas e sair de fininho porque os pilas não estão à altura dos manjares. Acatar ordens emanadas do Salvador Laporta, enérgico xerife que vigia as barracas, parecendo o mocinho John Wayne. Correr da chuva – tão tradicional – que inunda os corredores e afasta os clientes/leitores. Por sinal, quedê a chuva? Ver o Governador Olívio Dutra passar e solicitar um autógrafo a este humilde escritor. E avisar que é para o filho: coloca aí, Espártaco!

Com tudo isso, na verdade, a Feira do Livro é trilegal. E sabem o motivo? Ora essa! Lá tem gente, gente! Esfervilha de gente! E tem livros à beça.”

 

Alcir Nicolau Pereira


 

O PRETO NO BRANCO

sábado, 8 de novembro de 2008

 

Tudo já foi dito e escrito e resta agora rezar para que as boas intenções e os significados, desde os mais rasos aos mais profundos, se concretizem e Barack Obama consiga realizar o que prometeu a si próprio, à sua avó havaiana, à sua mãe branca e ao seu pai preto, para que se consolide a maior transformação imaginável na maior potência da terra.

Não é adequado prever uma integração racial forçada e que desembocou numa certa democracia como no Brasil, porque é um pouco de cinismo achar que fizemos a nossa lição de casa. As mulatas continuam sendo admiradas, mas quem nos garante que o sentimento de supremacia branca se atenuou com o passar destes quinhentos anos? Não será também isso uma forma de racismo? Lembram da tentativa de transformar índios em escravos, tanto quanto os negros importados como gado nos porões dos navios lusitanos e brasileiros? Vá a um grande restaurante, a um shopping center da moda e faça pessoalmente a sua pesquisa sobre o progresso social dos negros. Freqüente um clube de brancos, destes que não fazem constar no seu estatuto, porque isso é proibido, que negros não podem se associar, e veja qual é o percentual de pele escura em alguma festa?

É, estamos muito longe, tão ou mais distantes que os Estados Unidos da América que, afinal acabam de eleger seu primeiro presidente negro. Vamos torcer para que lá se produzam os resultados esperados (e os inesperados) e logo saberemos que caminho nos será sinalizado.

Também é preciso levar em conta que Barack não é um comunista ou socialista histórico, não esperem dele uma virada de mesa do capitalismo, porque mesmo com a crise histórica dos inacreditáveis “derivativos” que quebrou as bolsas e desnudou a especulação, isso não vai acontecer. Os interesses são grandes demais e já chegaram à China. (Como é que se pode chamar aquele regime implantado na terra de Confúcio e Mao Tse Tung? Comuno-capitalismo? Capi-Comunismo?)

Vamos ver no que vai dar o picadinho americano e torcer para que não aconteça a Obama o que sucedeu com o branco, católico e aristocrático John Kennedy no dia 23 de novembro de 1963. Há 45 anos portanto. Quando na certa ele ousou muito menos do que terá de fazê-lo, para ser fiel a si mesmo, ao seu sangue, sua formação, sua herança e suas crenças, Barack Obama.

Crônica publicada no jornal ABC DOMINGO

dia 9 de novembro de 2008

O prazer de ler jornal

sábado, 8 de novembro de 2008

 

Certamente foi em Canoas que despertou o meu prazer de ler jornal, renovado todos os dias e que não se abala nem sequer com a quantidade de notícias negativas que, infelizmente, é preciso veicular. Sempre sobra um espaço para as coisas boas e assim vai se temperando a vida dos leitores, pelo menos lutando para oferecer um texto mais legível e generoso em meio às barbaridades de sempre. É esta busca do melhor que faz com que eu não perca a perspectiva e me liga com os velhos tempos em que meu pai, meu iniciador na leitura diária dos jornais, aqui mesmo em Canoas, me dava para ver o que o “Correio do Povo”, aquele velho jornal em formato standard, trazia. Era o seu exemplar de assinatura e ele não permitia que eu metesse a tesoura antes dele, pois o seu hábito, que também me transmitiu era exatamente o de selecionar o que lhe dava prazer e guardar para ler depois ou nunca mais, para acumular numa gaveta entre os seus tesouros, num móvel feito por ele, e que se estendia para abrigar sua pequena mas indiscutível biblioteca de preciosidades.

Escrever este livro para a Editora da Unisinos, a convite do editor Carlos Gianotti, foi também um grande prazer, pois foi a melhor oportunidade para mergulhar nas minhas próprias reservas e percorrer os “guardados”, mexer em papéis, amarelecidos alguns, outros estalando de novos e tentar compor a travessia de vinte e dois séculos entre a Acta Diurna e os blogues e sites que pontuam nossos dias.

Exatamente hoje vou falar sobre isso a partir das 15h30min no Centro Cultural Erico Veríssimo da CEEE e a partir das 18h30min autografar para os possíveis amigos que forem à Feira do Livro de Porto Alegre e prometem não me deixar sozinho. Será meu 12° livro, sendo este, tema da profissão que escolhi e na qual estreei em agosto de 1954, aqui mesmo nesta cidade e onde ainda me mantenho, inclusive com esta participação aqui no Diário de Canoas. E o título escolhido é esse mesmo: “O Prazer de Ler Jornal – Da Acta Diurna ao Blog”. Então, quero que saibam que mantenho o inexcedível “prazer de ler jornal” com a mesma dedicação com que um nadador sobe à superfície para respirar. É assim que se sobrevive, sem receio de afundar.

PELA LUZ DE UM SEMÁFORO…

domingo, 2 de novembro de 2008
FEIRA E ESTRADA
 
Walter Galvani
 
Todo mundo sabe que a Feira do Livro de Porto Alegre, desde sexta-feira em sua 54a. edição, é a mãe de todas as feiras do Rio Grande do Sul e, geralmente é apontada como a maior a céu aberto da América Latina. Assim sendo e tendo crescido desde 1955, foi se distinguindo por um decidido combate à chuva, característica deste período do ano e acabou vencendo, sem dobrar-se, através do uso de inteligente cobertura para maioria dos locais e agora já para todos os sítios envolvidos no belo espaço da Praça da Alfândega.
Isso quer dizer que não haverá nem a tranqüilidade típica de fim-de-semana para as estradas que ligam a capital com o interior do estado. A BR 116, o mais antigo caminho calçado, depois asfaltado, duplicado e ampliado, que atravessa a Região Metropolitana e prossegue integrando populações e alcançando a divisa com Santa Catarina, saturada como se pode observar em qualquer dia de trabalho, não vai ter refresco.
Cidades como Novo Hamburgo, São Leopoldo, Sapucaia do Sul, Esteio e Canoas sabem muito bem disso.
Quem não sabe é o governo federal que administra esta estrada e que continua relutando em começar logo a construção da Rodovia do Parque e outras alternativas previstas, pois alega falta de recursos. Esta falta de dinheiro vai se tornar mais clara agora com a crise financeira internacional, pois é sabido que alguns diretores financeiros, que se pensavam mais espertos do que os outros, andaram aplicando o dinheiro de suas companhias na ilusão do lucro fácil. Quebraram e quebraram as suas companhias. Alguns deles quebraram a cara também e como em 1929, estamos ainda na expectativa de que confessem publicamente seus erros, para não deixarem seus maus exemplos.
O que não se admite, no entanto, é que o tal governo federal leve uma semana ou mais para consertar uma sinaleira. É inacreditável. Um acidente ocorrido há uma semana, ainda sete dias depois atrapalhava a vida dos usuários da BR pois não havia sido ainda resolvido o problema de uma infeliz sinaleira que deveria facilitar a vida dos milhares de alunos da Unisinos que moram em cidades ao longo da tal estrada.
É assim que os governos costumam lidar com os usuários: lixem-se.
Em tempo de Feira do Livro, quando milhares de condutores dela se utilizarão também, imaginem o quanto seria adequado que lhes fosse dedicada maior atenção.
Mas, não há este carinho extra.
Aliás, o que de melhor poderiam criar era uma Brigada permanente de atendimento ao trânsito nesta rodovia, como nos países mais adiantados do mundo. Qualquer batidazinha, atualmente, engarrafa em segundos a estrada e provoca novos acidentes.
Infelizmente, é como tratam os cidadãos no Brasil, principalmente quando não há eleições à vista, nem pesquisas de preferências de voto…
Crônica publicada no ABC Domingo, semanário do Grupo Editorial Sinos