A HIPOCRISIA E O CINISMO
domingo, 30 de novembro de 2008
(Crônica publicada no jornal ABC Domingo)
A comoção que gera sinceramente na população uma tragédia como esta que atingiu o estado de Santa Catarina, nos obriga também a refletir sobre o drama maior que é o cinismo generalizado e o egoísmo de pessoas e instituições, governos e empresas que, há anos vem dilapidando o patrimônio de todos e ocasionando a destruição dos eco-sistemas que poderão levar cada vez mais longe a liquidação dos espaços de cultivo, vida e habitação.
Constrói-se, e isso não é só no estado vizinho, mas por aqui mesmo, como em Vitória (Espírito Santo) como no Rio de Janeiro, em qualquer lugar, nas encostas dos morros, abrem-se estradas onde não se deve, desmata-se indiscriminadamente, e não só na Amazônia, como denuncía o “Clarín” de Buenos Aires e depois, ainda querem culpar os meteorologistas por “falta de aviso” sobre catástrofes naturais. Se é isso, então tomem nota: muito mais freqüentes e muito maiores serão os cataclismos que se abaterão sobre o Brasil e não apenas em Santa Catarina, nos próximos anos.
Tornados, tsunamis, furacões, vendavais, secas, enchentes, tudo isso será muito mais presente em nosso dia-a-dia, porque a destruição do meio ambiente continua num processo crescente que levará a um impasse de medo e angústia, e depois revolta e perdas materiais e pessoais.
Não há uma ação governamental, nem do governo central, nem dos estados, muito menos dos municípios, buscando preservar o pouco que ainda resta. Ao contrário, correm os governantes atrás de falsas promessas de desenvolvimento, de plantações de espécies nocivas, por serem exóticas, naturais de outras paragens. Acolhem-se empresas dedicadas a determinados produtos que dos seus locais de nascimento foram compelidas a se retirar para fazer fora a “parte suja” de sua operação e assim completar o interessante e lucrativo hábito de sujar o quintal do vizinho…
E nós, cínicos e hipócritas, acolhemos os dólares e batemos palmas.
O preço de tantas vidas, tantos desabrigados, tanto prejuízo pessoal e material, tanto desgaste, não interessa para estes insensíveis que se beneficiam com as vantagens políticas e econômicas que eventualmente pingam em seus bolsos.