Tudo já foi dito e escrito e resta agora rezar para que as boas intenções e os significados, desde os mais rasos aos mais profundos, se concretizem e Barack Obama consiga realizar o que prometeu a si próprio, à sua avó havaiana, à sua mãe branca e ao seu pai preto, para que se consolide a maior transformação imaginável na maior potência da terra.
Não é adequado prever uma integração racial forçada e que desembocou numa certa democracia como no Brasil, porque é um pouco de cinismo achar que fizemos a nossa lição de casa. As mulatas continuam sendo admiradas, mas quem nos garante que o sentimento de supremacia branca se atenuou com o passar destes quinhentos anos? Não será também isso uma forma de racismo? Lembram da tentativa de transformar índios em escravos, tanto quanto os negros importados como gado nos porões dos navios lusitanos e brasileiros? Vá a um grande restaurante, a um shopping center da moda e faça pessoalmente a sua pesquisa sobre o progresso social dos negros. Freqüente um clube de brancos, destes que não fazem constar no seu estatuto, porque isso é proibido, que negros não podem se associar, e veja qual é o percentual de pele escura em alguma festa?
É, estamos muito longe, tão ou mais distantes que os Estados Unidos da América que, afinal acabam de eleger seu primeiro presidente negro. Vamos torcer para que lá se produzam os resultados esperados (e os inesperados) e logo saberemos que caminho nos será sinalizado.
Também é preciso levar em conta que Barack não é um comunista ou socialista histórico, não esperem dele uma virada de mesa do capitalismo, porque mesmo com a crise histórica dos inacreditáveis “derivativos” que quebrou as bolsas e desnudou a especulação, isso não vai acontecer. Os interesses são grandes demais e já chegaram à China. (Como é que se pode chamar aquele regime implantado na terra de Confúcio e Mao Tse Tung? Comuno-capitalismo? Capi-Comunismo?)
Vamos ver no que vai dar o picadinho americano e torcer para que não aconteça a Obama o que sucedeu com o branco, católico e aristocrático John Kennedy no dia 23 de novembro de 1963. Há 45 anos portanto. Quando na certa ele ousou muito menos do que terá de fazê-lo, para ser fiel a si mesmo, ao seu sangue, sua formação, sua herança e suas crenças, Barack Obama.
Crônica publicada no jornal ABC DOMINGO
dia 9 de novembro de 2008