FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE

Recebi do escritor Alcir Nicolau Pereira, a seguinte crônica que decidí editar aqui no meu “site”, por entendê-la adequada e inteligente:

 

 

 

“A Feira do Livro é um mundo contagiante. A vida e a cultura acontecem sob as sombras dos Jacarandás. Isso se o povo souber se defender dos pombos. Lembrei disto, pois vi um distinto cavalheiro que reclamava, até com certo humor, dizendo: cinco mil visitantes, dezenas de guardas, centenas de atendentes de barracas, diversos escritores, cinco pipoqueiros, alguns vendedores clandestinos e, por incrível que pareça, um raio de pomba passou voando e acertou exatamente em cima do livro que acabei de comprar. Eita pontaria certeira, tchê! Mas a Feira é soberba. Recordar os patronos Walter Galvani e Antônio Hohlfeldt, dois escritores famosos que – enquanto Patronos – modestamente percorriam os corredores da Praça da Alfândega, conversando com o povo. Escritores na acepção total da palavra e Patronos de Fato. Exatamente como achamos que este representante do livro deve ser. O Walter, porquanto, enxergando um escritor solitário no Pavilhão dos Autógrafos, pegava um livro e ia ao encontro, solicitando um autógrafo. Além de conversar com os atendentes das barracas diversas vezes. O Hohlfeldt – na 52º feira do Livro – pegando meu singelo livro, “A Guerra das Letras” e, posteriormente, mostrando-o na televisão, fazendo com que um funcionário onde trabalho comentasse: Pô, hein! O vice-governador mostrou teu livro na tv. Perto dos livros pode-se conversar com escritores famosos, como por exemplo, o Airtom Ortiz, aquele cara das viagens radicais que a gente vê diariamente, de maneira humilde, conversando com populares. Voltamos ao passado quando o último lambe-lambe desta Leal e Valerosa Cidade de Porto Alegre tirava um retrato – era assim que se dizia – de uma linda senhora, sob os protestos do filhote que, afoito para ir à Praça Infantil, avisava: mãe, não seria melhor uma foto com o telefone. Pois é, agora até telefone tira foto. E não precisa nem lamber o aparelho. Olhar o senhor José Alves Valêncio, simplesmente o Zé da Pipoca, que faz a guloseima com a maestria e fornece, como ninguém, receitas maravilhosas de culinária. Duvidam, vão lá e conversem com ele e, entre uma pipoca e outra, peçam uma receita. Experimente, experimente. Eu já o fiz. Ah! O Moacir Scliar que se cuide! O seu Zé anda escrevendo por aí. A Feira faz com que sintamos vontade de um chimarrão. Pois na Feira do Livro tem. Dê uma chegada no Galpão Crioulo e ceve o amargo dos pampas. Garimpar os balaios, a procura de um livro que tanto queríamos, é uma boa pedida, tal e qual um guri que gritou: achei! E ergueu nas mãos o “Anedotário da Rua da Praia”, do Renato Maciel de Sá Junior. Passar ao lado do restaurante grã-fino – aquele que vocês sabem ao qual me refiro – dar uma bisolhada nas gurias bonitas e sair de fininho porque os pilas não estão à altura dos manjares. Acatar ordens emanadas do Salvador Laporta, enérgico xerife que vigia as barracas, parecendo o mocinho John Wayne. Correr da chuva – tão tradicional – que inunda os corredores e afasta os clientes/leitores. Por sinal, quedê a chuva? Ver o Governador Olívio Dutra passar e solicitar um autógrafo a este humilde escritor. E avisar que é para o filho: coloca aí, Espártaco!

Com tudo isso, na verdade, a Feira do Livro é trilegal. E sabem o motivo? Ora essa! Lá tem gente, gente! Esfervilha de gente! E tem livros à beça.”

 

Alcir Nicolau Pereira


 

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