Convivendo com o hífen

Walter Galvani

 

 

Durante muitos anos, enfrentamos a crase, protegidos por uma frase consoladora: “A crase não foi feita para humilhar ninguém”. Alguns se acostumaram, outros foram deixando, prudentemente, a cargo dos revisores, a dura tarefa de “acertar” na ocasião para usá-la, outros fizeram como a maioria fez com o “maldito” trema: aboliram-na.

Preparem seus corações, estamos iniciando a vida com o novo acordo ortográfico, já se sabe que muitas coisas vão “pegar” e outras, não, que teremos até 2012 para uma adaptação completa, mas é bom começar a exercitar-se desde já, e mais adiante, ver o que sobrou.

E agora, tratemos de estabelecer um bom regime de convivência com o hífen. Será preciso aprender a hifenizar dentro das novas regras. Isso pode parecer um contrassenso, mas não adianta bancar o suprassensível. E será assim aquém-oceano e além-mar, pois o acordo que entra em vigor, veio para unificar a norma escrita da língua portuguesa entre todos os países que a praticam oficialmente: Brasil, Portugal, Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, e Timor Leste. Com as populações somadas, passando os 240 milhões de habitantes, mais os resultados das emigrações, só a diáspora portuguesa vai além dos dois milhões de indivíduos, consolidamos com segurança a posição de quinta língua mais falada do mundo, perdendo para o espanhol e o inglês no Ocidente e no total, ainda para o mandarim que é a língua predominante na China, a primeira no mundo e o hindi, que predomina na Índia, a segunda, mas estas duas restritas à suas comunidades nacionais. Já prestaram atenção quando joga a seleção do Brasil, em Paris ou Adis Abeba, Londres ou Atenas, sempre tem uma boa torcida verde-amarela. Pois é, são os nossos emigrados e eles também contam nesta soma total que vai fácil, além dos números oficiais.

Todos aboliremos o trema, todos aprenderemos a hifenizar, todos esqueceremos quase todos os acentos diferenciais, enfim, mantendo nossas expressões idiomáticas e nossas diferenças vocabulares, escreveremos do mesmo jeito. Começamos por aqui, pelo ABC DOMINGO. O que nos escapa, a rede salva-vidas nos protege, como aos mais ousados trapezistas.

 

Crônica publicada hoje no ABC DOMINGO

Um comentário para “Convivendo com o hífen”

  1. admin disse:

    Caro Galvani:

    Gostei do estímulo à boa convivência com o HÍFEN e a outras modificações mais.
    Se poupado serei de ver grafadas coisas como UNISINOS, Unesul, a reforma já terá valido a pena.
    Agora, se hifenizar é preciso, hifenizarei, fazendo acenos de adeus para o trema.
    Todavia, como não tenho revisores e, ao menos por enquanto, nenhuma rede salva-vidas, espero a benevolência dos leitores.
    Almiro Zago

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