O TRECHO DE TODOS E DE NINGUÉM
Walter Galvani
Se uma pessoa de outro estado ou país se deslocar de Novo Hamburgo a Porto Alegre ou vice-versa e não atentar para os cartazes, ou não conhecendo nosso idioma não estiver acompanhada de um tradutor, não perceberá que está atravessando sucessivamente cinco municípios diferentes. Simplesmente, esta pessoa, motorista ou passageiro de algum veículo, imaginará que se trata, talvez da mesma e grande unidade política e administrativa, que se caracteriza unicamente pelo caos e pelo perigo. É o que a mesma rodovia oferece para todos os seus usuários ou transeuntes. É preciso que lhe expliquem que está no trecho mais movimentado (ou o segundo classificado) em todo o país. E que a educação não é o distintivo dos habitantes deste país. Muito menos ao volante.
Só com estes esclarecimentos o nosso visitante se dará por satisfeito com o clima, com os palavrões, com os riscos de batidas e engavetamentos e com as buzinadas e pedidos de ultrapassagem nos locais e momentos mais inconvenientes.
A diminuição de produção que as montadoras fabricantes de automóveis estão oferecendo como uma das saídas para a crise, até poderá ajudar governantes e governados destes povos das cinco cidades que se encarreiram na BR-116 e que serve de artéria importante desde que se apresentou como a primeira ligação pavimentada entre Porto Alegre e esta região, antigamente de lazer e descanso, hoje febricitante área industrial.
Penso que qualquer prefeito que se ativer a personalizar o seu trecho, estará contando inesperados pontos de apoio dentro e fora do seu município. Dia desses, pesquisando em material jornalístico dos últimos cinquenta anos, descobri que um deles chegou a pensar em arborizar o seu pedaço, coisa que, aliás, nunca foi concretizada. Por que não, ainda não consegui descobrir, mas é bem possível que os militares, que dominaram o país de 1964 a 1985, tenham proibido fazê-lo, como aliás procederam com relação a “free-way” onde era não era permitido parar e até abastecer-se de gasolina, o que continua sendo, a não ser por dois ou três desvios que foram “autorizados” mais recentemente.
Crônica publicada no jornal ABC DOMINGO