Arquivo de março de 2009

Um basta aos excessos e exageros…

sábado, 28 de março de 2009

Crônica publicada no jornal Diário de Canoas, do Grupo Editorial Sinos

FUMAÇA NA ESTRADA

 

Walter Galvani

 

 

Agora que se sabe que a bosta das vacas é tão ou mais poluente do que o escapamento dos automóveis, agora que se sabe que a fumaça na estrada causa danos irrecuperáveis que significam um mês inteiro de gás metano subindo de aparelhos eletrodomésticos impróprios, agora que se sabe que os automóveis elétricos só estarão disponíveis para a massa de compradores no ano de 2011 e que custarão mais de cem mil reais, portanto beneficiando apenas os compradores de elite, agora que se sabe que Barack Obama talvez não possa assinar o Tratado de Copenhague que comprometeria os Estados Unidos com uma série de medidas para termos o ar mais limpo e que isso talvez só se concretize lá pela metade de 2011, agora que se sabe… enfim agora que se sabe quase tudo instantaneamente, e que, inclusive, não é fácil varrer a poeira dos cérebros e a fumaça das estradas, começo a transformar o meu apêndice nasal num importante instrumento de compreensão do pior que está por vir.

Assim sendo, imagino que está na hora de um basta definitivo aos excessos, aos gastos perdulários, ao luxo, à ostentação, à economia de esforços físicos. Sei que está na hora de evitar tudo o que é supérfluo, mas também sei que é preciso manter funcionando “a máquina do mundo”. Se todos se perturbarem com o aquecimento global, com o derretimento dos grandes icebergs nos pólos, com os gastos com armamentos, com a corrida espacial, com as discussões estéreis ou com as emissões dispensáveis, já teremos feito alguma coisa.

E que Deus tire do aperto o pobre Barack Obama que, deveria ter desconfiado que estavam elegendo o primeiro negro para governar os Estados Unidos, lá onde seus irmãos de raça já foram proibidos de viajar no mesmo ônibus com os brancos e isso há menos de cinquenta anos, era alguma coisa parecida com laranja madura na beira da estrada… Ou está verde ou bichada…

Temos uma obrigação como membros do grupo dos seres humanos: propiciar aos nossos descendentes uma qualidade de vida superior a que herdamos. Por isso, rezar é, de manhã cedo agradecer pelo novo dia e trabalhar para criar as melhores condições, evitar a poluição, o gasto inútil, o desgaste de todos. E o nosso próprio.

TODOS OS DIAS… SEM MUDANÇA

domingo, 22 de março de 2009

Publicado no jornal ABC DOMINGO:

CAPÍTULOS DE NOVELA…

 

Walter Galvani

 

Entre a história do jovem negro, com nome árabe e avô muçulmano que ascendeu ao posto máximo da nação americana, a professora paulista que fez rápida e brilhante carreira política no seu estado de adoção, o Rio Grande, aquele estado da federação que costuma abominar os “estrangeiros” e dificulta a absorção deles em seus tecidos sociais e a aventura do jovem técnico metalúrgico que cursou a escola do Senai e virou presidente da república, e os soluços da “Bolsa”, os capítulos empolgantes e promissores que falam no fim da crise e ainda as promessas federais de extensão do Trensurb e nova estrada,  com número e tudo, 448, (que até dá para “fazer uma fezinha”), resolvendo o horror em que se transformou viajar na região metropolitana na hora do pique, quase perco o fôlego. Principalmente por causa desta longa frase de abertura, que tira a respiração de qualquer um, apesar de que eu não seja um José Saramago que costuma não usar pontuação… Feito este preâmbulo, vejo que eu já disse quase tudo e pouco resta para acrescentar, a não ser que, neste fim de semana surjam novos e desafiadores capítulos em que se saberá ou nada se ficará sabendo, mas o destino deles, do jovem negro, da professora de economia que deu uma lição aos gaúchos (aprendam a conviver com o déficit zero) e o homem que perdeu um dedo na máquina e agora sabe apontar os buracos como ninguém, continua tomando o pensamento e ocupando lugar em nossos cérebros, nos dois lóbulos, o que sedía a imaginação e o que acolhe a memória.

De vez em quando um “vulcão no fundo do mar”, um corte de 50 diretores no Senado ou a perda de carros, quase que escrevo bigas, o que nos faz lembrar que estamos ainda vivendo num país que descende diretamente do império da república de Roma, e eis que a realidade ultrapassa a ficção em carreira desenfreada e não há novela de televisão ou programa de “bbbs” que consiga suplantar a loucura estabelecida nas ruas pelo simples desfilar dos acontecimentos reais. Eu disse…“reais”? Bem, pelo menos são apresentados como tal, e se produzem ou não efeitos concretos, já é outra coisa.

AFINAL COMEÇOU O NOVO ANO…

sábado, 21 de março de 2009

Crônica publicada no mais antigo diário do Rio Grande do Sul, “Diário Popular” de Pelotas

por Walter Galvani

(com o beneplácito de Clayr Lobo Rochefort)

 

 

Tenho uma amiga chamada Amanda Costa, que é especializada nestas coisas hoje tão divulgadas, de astrologia e outros “que tais”. No último dia 20, ela me enviou uma mensagem astral, via computador é claro, muito animada, mandando que eu me preparasse para o Ano Novo, já que ano após ano acabo escrevendo uma crônica destinada aos que vivem por aqui, desejando com a mensagem tradicional de “Feliz Ano Novo”, uma cesta cheia de felicidades, mas sempre a partir de março.  Eis o que ela me enviou:

Todo mundo fala que o ano só começa em março, depois do Carnaval… A voz do povo é a voz do cosmos. Nesta sexta-feira, dia 20, às 8h43min38s, inicia-se o Ano Novo Solar, este sim ligado à mecânica celeste e às forças da natureza. Abre um calendário genuíno, relato da dança entre o espaço e o tempo. O Sol alcança o ponto vernal (intersecção de sua órbita com o equador) e ilumina igualmente as duas partes do globo, assinalando, aqui no hemisfério sul, o Equinócio de Outono e o início desta estação. Astrologicamente, o Sol ingressa no signo de Áries e inaugura o ciclo zodiacal.

Em sintonia com essa energia, é hora de limpar os porões emocionais, eliminar os fantasmas clandestinos da cabeça e renascer para novas luzes.

Celebremos o aniversário da Terra! Celebremos a nossa recriação! E con-frater-nizemos, abraçando o terráqueo aí do lado, passageiro desta mesma barca em que nos vamos, navegantes do infinito. Zum!

Amanda Costa

E eu que nem sabia o que era “ponto vernal”? E lá vamos nós, nesta carroça do tempo, abraçando os terráqueos aqui ao lado.

E fazendo votos que a nossa mãe-terra comum vá resistindo aos estragos que nela mesma fazemos, voamos pelo espaço, integrados no sistema solar, rumo à uma estrela cujo nome me esqueci agora e por isso não passaria em nenhum exame de recuperação de conteúdos do ensino fundamental… Paciência! Bom Ano Novo e Boa Viagem! Estamos em plena aventura espacial e a contagem do ano nem precisa obedecer ao calendário israelita, nem o muçulmano, nem ao católico. É certo que são muito mais do que 2109 anos, mais de 7 mil, mais que tudo que anda por aí na cabeças desavisadas dos que não sabem (e nem querem saber, conforme o caso) pois estamos há milhões de anos girando pelo espaço.

 

 

OS MASSACRES

domingo, 15 de março de 2009

Crônica publicada hoje no jornal ABC DOMINGO

Walter Galvani 

Os nomes, não importam. Esta semana, por exemplo, foi em Winnenden, Alemanha, na quinta-feira, e dois dias antes havia sido num condado de Alabama, Estados Unidos. Num deles, 17 pessoas, no outro nove mortos. E se você se interessar em mapear os locais onde tais crimes múltiplos se sucedem, faça uma pesquisa rápida na Internet e descobrirá que esta “guerra civil” protagonizada por malucos desajustados pontilha todos os continentes. Onde menos se espera, alguém puxa o gatilho e detona conhecidos e desconhecidos, colegas de aula, esposas, amantes, maridos, concorrentes e outros desafetos de um modo geral. No Brasil, por exemplo, matar a mulher e os filhos, a sogra e algum vizinho que tentou intervir para salvar a vida de inocentes, é notícia de quase todos os dias neste imenso território. Tais desatinos se cometem sob as mais variadas desculpas, se é que tirar a vida de outrem comporta escusas ou explicações. Mas é assim mesmo que as coisas transcorrem aqui, lembrando que já tivemos o maluco que disparou dentro de um cinema e assim por diante. Com a divulgação que tais assassinatos múltiplos encontra, como consequência da intensificação e variedade dos meios de comunicação social, não é de estranhar que a lei da imitação produza outro tanto de atos tresloucados.

Por efeito das frustrações individuais, da solidão e da rejeição por parte da sociedade, da falta de integração e desvios psicológicos de conduta produzidos por problemas inatos, contraídos na deseducação ou na inadaptação aos choques produzidos pela socialização mal feita, por todas as incompreensões filtradas pelos defeitos contraídos ou herdados, ou por inesperados desvios psicológicos, arma-se o braço assassino que produz estes efeitos devastadores. Mas, esse massacre tem que parar com medidas preventivas eficazes. Vamos começar pelo desarmamento. E não é fora de propósito que o estado tome providências no acesso aos seus departamentos e a seus representantes. É o caminho. Cobrar contas com sequestro e cárcere privado é apenas um primeiro passo. Daqui a pouco, vale tudo. Que o homem é inimigo do homem, de há muito se sabe. Que o homem é o lobo do homem conforme o provérbio latino, é apenas uma injustiça… para com o lobo.

O DIA INTERNACIONAL DA MULHER…

domingo, 8 de março de 2009

DIA INTERNACIONAL DO HOMEM

(Crônica publicada no jornal ABC DOMINGO, do Grupo Editorial Sinos)

 

Walter Galvani

 

E você, não fica nem vermelho? Para usar um verbo antigo, não se ruboriza mais? O Dia Internacional da Mulher não resgata nem um milionésimo do que o homem fica devendo à sua companheira por todos estes milhares de anos de exploração sem compensações, só de dívidas, nenhuma vantagem. E, no entanto, ainda há quem diga que seria necessário criar um “dia internacional do homem”. Talvez se trate de ironia pura, que não entendi muito bem. Não sou muito esperto. Mas, de um modo geral, os homens, como gênero, o são e são espertíssimos até.

Desfrutam das melhores posições no mercado de trabalho e até são melhor remunerados, de um modo geral. Isso depois que as mulheres, galgaram alguns degraus, dificílimos, desde que iniciaram no século XIX, há dois séculos atrás, a caminhada para conseguirem, na sociedade ocidental, alcançar posições semelhantes as que seus companheiros masculinos ocupam. Nas sociedades orientais, no chamado Oriente Médio, onde predominam determinadas religiões, nem se fala, porque lá, as chaves da inferioridade feminina ainda estão com os membros do outro sexo.

Os que me lêem, de um modo geral, sabem o que significa a longa história desta luta em busca da igualdade, em nosso meio e também possuem informações suficientes sobre o que sucede além da cortina de bambu ou de petróleo, o que ocorre tanto nas sociedades subdesenvolvidas, também sabem o quanto é injusto e desleal para com as mulheres e a maioria conhece a história destas pequenas aspirações e grandes sonhos, um procedimento egoístico, iníquo e injusto que os do outro sexo, historicamente adotam.

O ideal seria, pois, que não fosse mais necessário um dia internacional para lembrar que as mulheres só diferem dos homens em alguns detalhes que caracterizam o sexo e as capacitam a contribuir para a perpetuação da espécie. Ficar lembrando os grandes nomes das ciências e das artes, do trabalho é muito pouco, mesmo porque durante muitos anos elas foram impedidas de chegar ao primeiro plano, ao destaque. .

Lembrar das mulheres num só dia e continuar procedendo de forma igual no dia seguinte, não resolve nada.

 

O PRAZER DE LER JORNAL – da Acta Diurna ao blog

quinta-feira, 5 de março de 2009

 

O que nos faz continuar a comprar jornal e a lê-lo na versão impressa, quando as notícias estão disponíveis gratuitamente e em tempo real na internet? Estará a versão impressa dos periódicos com os dias contados? Qual o desafio dos jornalistas e proprietários das empresas jornalísticas diante da nova realidade tecnológica? Qual o papel dos blogs para os jornais?

Essas e outras questões são tratadas no livro O prazer de ler jornal – da Acta Diurna ao blog do jornalista e escritor Walter Galvani, lançado na Feira do Livro de Porto Alegre em 2008, pela Editora Unisinos.

O autor, em linguagem acessível e agradável, analisa a evolução da mídia impressa. Os ensaios são ricos em pesquisa e dados atuais acerca do comportamento das empresas jornalísticas através dos tempos e das ações adotadas para enfrentar um mundo globalizado e tecnológico, onde a informação circula à velocidade da luz.

A par do talento de Galvani para a escrita, reconhecido pelos diversos prêmios literários que obteve, da atualidade do tema e da bagagem empírica angariada em seus 54 anos de jornalismo, qual não foi minha surpresa em encontrar, em um dos ensaios, tratando sobre as recentes inovações introduzidas no ramo jornalístico, menção acerca da criação do blog do ZH Moinhos e de sua pertinência como veículo de participação dos leitores – inclusive mencionando como exemplo o post da bicicleta Vermelha, da Taís Seibt -, acompanhando tendência já adotada por outros importantes jornais do cenário mundial, como os americanos The New York Times, Washington Post, o espanhol El Mundo, ou mesmo a Folha de São Paulo, colocando Zero Hora na vanguarda do aproveitamento profícuo dos recursos da internet.

Conforme explicado por Marcelo Rech, diretor de redação da Zero Hora na época da criação do blog, também referido por Galvani no livro, o modelo é o do “hiperlocalismo”, isto é, “a cobertura de assuntos que dizem respeito a grupos restritos de leitores, seja por similaridade gráfica ou cultural, recuperando a tradição dos jornais de se ocuparem de questões menores do dia-a-dia, mas que, no seu conjunto, formam algo tão grandioso como a própria vida.”

Acrescenta, Galvani, que o sucesso da fórmula se dá pelo fenômeno da identificação dos leitores, na medida em que se sentem próximos dos assuntos tratados, que muitas vezes podem ter ocorrido na frente ou na esquina de sua casa, quando não consigo mesmos.

É muito fácil para nós que contribuímos e somos leitores do blog entendermos do que fala Galvani: cada um se sente participante do processo de construção e registro da história. As pessoas se dão conta de que suas vidas e atividades adquirem relevância e viram notícia, o que explica o êxito da iniciativa. Some-se a isso a interatividade do blog, que permite sejam os textos comentados, num franco diálogo entre os destinatários e o editor.

Concordo com o autor quando diz que o prazer de ler jornal não está na busca da informação, por si só, mas no diferencial de qualidade que é oferecido, seja por meio da crônica jornalística, onde a opinião qualificada é expressa sobre um assunto, seja pelas alternativas encontradas para dar destaque a assuntos de importância restrita a certos grupos – a exemplo do ZH Moinhos – e que de outra forma não encontrariam espaço na pauta regular de um grande jornal.

Fica a dica de leitura e o convite aos leitores de aproveitarem o espaço do blog, cujo mérito se dá pela contribuição de pessoas comuns, como eu e você, e que, por isso mesmo, fazem-no tão especial.

Angela Dal Pos