Arquivo de abril de 2009

A FORÇA INCRÍVEL DAS PALAVRAS

domingo, 26 de abril de 2009

É de que trato nesta crônica,

A GUERRA DAS PALAVRAS, publicada hoje

no jornal ABC DOMINGO

 

Walter Galvani

 

Uma palavra pode matar. Isto sabemos. Não existe arma mais poderosa do que a palavra, seja ela transmitida pelos “meios de comunicação de massa”, seja proferida frente a frente, pronunciada ao telefone, enviada pela Internet ou dita por um apresentador diante das câmeras de televisão. Qualquer que seja o suporte utilizado, o homem ainda não inventou nada mais forte, perigoso, significativo ou cheio de sentimento, emoção, força, do que ela. Em tempo de guerra é muito mais poderosa do que uma bomba e em tempo de paz só uma única palavra, ou uma expressão construída com algumas delas, gera amor ou morte, amizade ou crime, alegria ou depressão. Só ela vale e é com ela que se constroem todas as tentativas de comunicação humana, muitas delas fracassadas, mas é com ela, a humana palavra que se retomam as construções, que se refazem os caminhos, que se restabelecem as relações rompidas. Ou se rompem de vez as relações, se destroi o que foi feito.

É por isso mesmo que tudo o que é feito com as palavras, não são apenas “words, words, words”, como dizia Hamlet, que bem sabia sua força, tanto que pretendia com esta pequena desmoralização, esvaziar de sentido o que ele próprio prometia fazer, antes de chegar ao fim da trama para fazer o Rei confessar o seu crime.

Agora mesmo, assistimos pela televisão e lemos nos jornais, as tentativas de fazer com os políticos confessem seus crimes e se desmoralizem e não voltem a tentar a reeleição, lançando em seu rosto as piores acusações, que vão desde a pecha de mercenários à acusação de racistas. Todos temem as palavras e não confessarão nada. Criarão burlas, desvios para que o leitor, o telespectador, o ouvinte, para que todos nós enfim, nos percamos nos desvios.

A palavra muda até o caráter dos fatos ou explica o caráter das pessoas. O ex-presidente americano Bush pregava a “Guerra ao Terror”, e o mundo sabia ou ficou sabendo o que isso significava. Como hoje compreendemos que aquilo era a própria demonstração do fracasso americano, Obama denomina as intervenções do seu país como “Operações de contingência no exterior”. E quando dois ministros do Supremo brigam diante da “mídia”, metade do que dizem, por não querer dizer nem a metade do que nos transmitem…

 

VIAGEM A RODA DO MEU QUARTO…

sábado, 18 de abril de 2009

ADRIANO, MOTOS E A OSPA

 

Walter Galvani

 

“Tempos difíceis ainda não acabaram” disse, apropriadamente, Barack Obama na metade de uma semana absolutamente louca, talvez por influência da lua cheia que andou passeando sobre nossas cabeças. Tanto que fez Fidel Castro, depois de cinquenta anos de isolamento americano, dizer que Cuba não aceita esmolas, justamente quando o novo presidente americano tenta descongelar as relações e determina a liberação das visitas e da remessa de dólares. Depois disso, fica fácil entender como o jogador Adriano, a quem chamam impropriamente de “imperador”, recusa os milhões da Itália e quer encerrar precocemente a carreira, enfurnando-se em sua favela para jogar futebol de botão… Tem mais, a Câmara dos Deputados anuncia que sua Comissão de Justiça aprovou uma lei que determina que “os motoqueiros estão proibidos de serpentear entre os automóveis nas ruas e estradas brasileiras”!

Depois de tantas perfeitas besteiras, vemos a cidade que se orgulha tanto da sua orquestra que levou Erico Veríssimo a exclamar “moro numa cidade que tem orquestra sinfônica!” reclamar que faltará espaço para os piquetes tradicionalistas por causa da sede que se quer construir para a OSPA, quando na verdade é preciso organizar o trânsito e determinar a proibição de produtos que nada tem a ver com o nosso folclore. E que a OSPA se exercite para tocar o Hino Rio-Grandense, é isso que queremos.

Ver a Coréia do Norte perigosamente “fazer beicinho” e bater pé, dizendo que “não brinca mais”, porque o Mundo ousa proibir-lhe que brinque de armas atômicas já não pode nos assombrar. Foi demais esta semana! Se a ULBRA for para o espaço e privar milhares de alunos dos seus cursos e pacientes dos seus tratamentos médicos, também não vamos nos espantar por que afinal um deputado concorda em devolver algum dinheiro, mas não tudo o que gastou com passagens para família de Adriana Galisteo, por que, afinal de contas ela era “sua companheira”. Depois disso, ver o Vaticano vetar Caroline Kennedy porque ela é a favor do direito ao aborto em certos casos e saber que um padre virou presidente no Paraguai, teve um filho e não se sente questionado e os talibans executam um casal que fugiu para casar, punidos pelo amor, não parece nada. Até onde iremos?

A MATA ATLÂNTICA E NOSSOS BUGIOS

segunda-feira, 13 de abril de 2009

MATA ATLÂNTICA

 

Walter Galvani

 

O Rio Grande do Sul abriga 45% de Mata Atlântica em seu território. E falo nisso não é só porque os bugios estão morrendo de febre amarela. Nós, os humanóides, é que estamos sofrendo as conseqüências do menosprezo ao bioma-pampa e a venda indiscriminada de terras às gigantes do celulose, sejam elas simpaticamente nacionais ou grotescamente estrangeiras. Sim, sei que é mais fácil vender ou arrendar para uma empresa destas uma ponta de terra que sobrou, mas também sei que este ato, pessoal e possivelmente solucionador de questões individuais ou familiares, é também potencialmente destruidor da já agora indefesa nave espacial que todos juntos tripulamos.

Barack Obama não é a salvação de todos, mas já se sabe que ele está disposto à medidas radicais, tipo bombardear de volta para o Sol, partículas de aquecimento global que o astro-rei está inadvertidamente nos enviando. Não, a culpa não é dele não, do velho e invencível Sol, deus do calor e da vida, mas sim dos homens que perderam o juízo e querem explorar a Mãe Terra até o último átomo.

Quando não houver mais gelo nas calotas polares, quando o clima estiver total e completamente subvertido pelas medidas progressivas de combustão e destruição do meio ambiente, quando os últimos gelos eternos estiverem derretidos do Ártico ao Antártico, será tarde, muito tarde, irmãos!

Pior é que não ficará registro sobre a Terra, a aventura humana terá chegado ao fim e de nada adiantará lamentar-se, porque não haverá mais ninguém para chorar e nem para ouvir quem chora.

Sim, podem me chamar de alarmista nesta Páscoa em que se festeja/comemora a Ressurreição, se é que isso quer lhe dizer alguma coisa, ou festa da Passagem (ou Pessach, se isto também quer lhe dizer algo).

Vamos aproveitar para refletir um pouco, mergulhar por momentos nesta pausa sabática e deixando de lado a correria de todos os dias, reaparecer  lá na segunda-feira com a mentalidade renovada. E começar a punir quem depreda, quem gasta em excesso, quem não respeita a Natureza e quem enche o ar de gases letais. Ou então, embarquemos para o nunca mais.

(Crônica publicada no jornal Diário Popular, de Pelotas em 12-9-2009)

 

VAMOS PEDALAR MAIS DEVAGAR?

domingo, 12 de abril de 2009

PEDALANDO UM POUCO MENOS

 

Walter Galvani

 

Todo mundo que já andou de bicicleta conhece o provérbio: quem aprendeu uma vez, jamais desaprende e se parar de pedalar, cai. Mas, sempre é possível “pedalar um pouco menos”, e é isso que nos pede a “pausa sabática” da Páscoa cristã e israelita que agora coincidem e nos traz à lembrança a conveniência e a necessidade de refletir um pouco.

O ano apenas começou, sim, já sabemos. O verão se foi, rápido, esfumado nos dois primeiros meses em que, aqui no sul, ficamos nos preparando para o ano sério que estava chegando. Tudo isso temperado com o desastre financeiro do ano passado, aliás desastre anunciado mas que ninguém quis ver. Depois veio o Carnaval, em meio a isso as decisões esportivas, e agora, finalmente, chegou a hora da Páscoa.

Bem, depois disso tudo, não será mais possível ficar adiando nada e dizendo, “espera um pouco, o ano está apenas começando!” Por que, se não nos mexermos, vamos acabar perdendo o trem. A propósito, será que o trem ainda está nos esperando? O trensurb vai mesmo chegar até Novo Hamburgo? A nova estrada, aquela que, dizem, vai aliviar a BR-116 vai acontecer ainda em nossa geração?

Os melhores sábios orientais – para grande desgosto dos ocidentais – recomendam calma e água fresca. Certa vez, propuseram ao rei da Arábia Saudita uma estrada de ferro cruzando uma parte do deserto, para que fosse mais rápido ir de Riad a Bagdá. O velho rei mastigou o seu cachimbo (ou seria um narguilé?) ergueu os olhos para os negociantes ingleses que lhe propunham o tal cavalo de ferro e perguntou: “Mas qual é a vantagem que vou ter com este tal de trem?” Os europeus se entreolharam e responderam com sorrisos de realização pessoal: “Ora, o senhor levará dois dias na viagem e não duas semanas em lombo de camelo!” O monarca cofiou as suas barbas (meu sonho sempre foi conseguir escrever esta frase, mas o que será mesmo “cofiar as suas barbas”?) – pois o rei Ibn Saud depois de alisar suas barbas com as mãos, permitiu que um leve sorriso lhe encrespasse os lábios e perguntou: “Mas, se eu fizer esta viagem em dois dias, o que farei com o meu tempo quando lá tiver chegado tão rapidamente?”

A tal estrada de ferro com capitais sauditas e projetos britânicos não saiu até hoje. É, quem sabe seja a hora de parar, pensar um pouco e depois retomar as pedaladas com um pouco menos de velocidade?

(crônica publicada no ABC DOMINGO em 12 de abril de 2009)

LULA É O CARA, VOCÊ JÁ SABE

domingo, 5 de abril de 2009

DERRETENDO OS ICEBERGS

 

Walter Galvani

 

Esta reviravolta histórica que vai desde o crack das bolsas, copiando os fatos e os termos de 1929, até a descontração do primeiro preto eleito presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, passando pelo oferecimento de dinheiro ao FMI pelo Brasil, é o sinal dos tempos que só os “congelados” como alguns editores de jornais londrinos não percebem.  O tradicional “The Times”, de Londres, e o “Daily Telegraph” ficaram perplexos diante do fato de Michelle Obama abraçar a rainha da Inglaterra quebrando o protocolo, a tal ponto que registraram suas inúteis e reveladoras críticas. Pois é…. Devem ter ficado ainda mais espantados quando o presidente americano disse que “Lula é o cara, eu adoro esse cara” e registrar que “ele é boa pinta” (coisa que, evidentemente, não interessa, mas revela uma simpatia, um, digamos “approach”) e que o presidente brasileiro “é o político mais popular da Terra”. Naturalmente ele quis se referir ao eleitorado interno e população do país.

Esta troca de influências e costumes, a ascensão da “Bollywood” agora reconhecida e premiada internacionalmente, mais os cinco trilhões de dólares a serem esparramados pelo mundo, tudo isso é o resultado do derretimento da calota polar, o amolecimento dos icebergs que começou há muito tempo e só os empedernidos defensores da velha ordem sacrossanta não entenderam. Os mesmos que acharam engraçado e folclórico ver o príncipe Phillip se atrevendo a passos de samba nas favelas brasileiras, aliás já pela segunda vez em 2009, e demonstrando que, apesar de tudo não aprendeu nada… Poderia ter pedido a algum amigo brasileiro que o ensinasse, não a Lula, por certo, que “passo de urso” não é samba também…

Ironias e brincadeiras excluídas, é certo que o mundo mudou com o choque térmico de setembro do ano passado e nunca mais será o mesmo. Basta ver.

E comemore-se hoje, 5 de abril, esta criação histórica da multinacionalidade que é Novo Hamburgo, um exemplo a ser mostrado às novas gerações, para entender como o trabalho e a dedicação servem sempre para construir, derrubando preconceitos e desviando de enganos.

Crônica publicada no ABC DOMINGO