É de que trato nesta crônica,
A GUERRA DAS PALAVRAS, publicada hoje
no jornal ABC DOMINGO
Walter Galvani
Uma palavra pode matar. Isto sabemos. Não existe arma mais poderosa do que a palavra, seja ela transmitida pelos “meios de comunicação de massa”, seja proferida frente a frente, pronunciada ao telefone, enviada pela Internet ou dita por um apresentador diante das câmeras de televisão. Qualquer que seja o suporte utilizado, o homem ainda não inventou nada mais forte, perigoso, significativo ou cheio de sentimento, emoção, força, do que ela. Em tempo de guerra é muito mais poderosa do que uma bomba e em tempo de paz só uma única palavra, ou uma expressão construída com algumas delas, gera amor ou morte, amizade ou crime, alegria ou depressão. Só ela vale e é com ela que se constroem todas as tentativas de comunicação humana, muitas delas fracassadas, mas é com ela, a humana palavra que se retomam as construções, que se refazem os caminhos, que se restabelecem as relações rompidas. Ou se rompem de vez as relações, se destroi o que foi feito.
É por isso mesmo que tudo o que é feito com as palavras, não são apenas “words, words, words”, como dizia Hamlet, que bem sabia sua força, tanto que pretendia com esta pequena desmoralização, esvaziar de sentido o que ele próprio prometia fazer, antes de chegar ao fim da trama para fazer o Rei confessar o seu crime.
Agora mesmo, assistimos pela televisão e lemos nos jornais, as tentativas de fazer com os políticos confessem seus crimes e se desmoralizem e não voltem a tentar a reeleição, lançando em seu rosto as piores acusações, que vão desde a pecha de mercenários à acusação de racistas. Todos temem as palavras e não confessarão nada. Criarão burlas, desvios para que o leitor, o telespectador, o ouvinte, para que todos nós enfim, nos percamos nos desvios.
A palavra muda até o caráter dos fatos ou explica o caráter das pessoas. O ex-presidente americano Bush pregava a “Guerra ao Terror”, e o mundo sabia ou ficou sabendo o que isso significava. Como hoje compreendemos que aquilo era a própria demonstração do fracasso americano, Obama denomina as intervenções do seu país como “Operações de contingência no exterior”. E quando dois ministros do Supremo brigam diante da “mídia”, metade do que dizem, por não querer dizer nem a metade do que nos transmitem…