PEDALANDO UM POUCO MENOS
Walter Galvani
Todo mundo que já andou de bicicleta conhece o provérbio: quem aprendeu uma vez, jamais desaprende e se parar de pedalar, cai. Mas, sempre é possível “pedalar um pouco menos”, e é isso que nos pede a “pausa sabática” da Páscoa cristã e israelita que agora coincidem e nos traz à lembrança a conveniência e a necessidade de refletir um pouco.
O ano apenas começou, sim, já sabemos. O verão se foi, rápido, esfumado nos dois primeiros meses em que, aqui no sul, ficamos nos preparando para o ano sério que estava chegando. Tudo isso temperado com o desastre financeiro do ano passado, aliás desastre anunciado mas que ninguém quis ver. Depois veio o Carnaval, em meio a isso as decisões esportivas, e agora, finalmente, chegou a hora da Páscoa.
Bem, depois disso tudo, não será mais possível ficar adiando nada e dizendo, “espera um pouco, o ano está apenas começando!” Por que, se não nos mexermos, vamos acabar perdendo o trem. A propósito, será que o trem ainda está nos esperando? O trensurb vai mesmo chegar até Novo Hamburgo? A nova estrada, aquela que, dizem, vai aliviar a BR-116 vai acontecer ainda em nossa geração?
Os melhores sábios orientais – para grande desgosto dos ocidentais – recomendam calma e água fresca. Certa vez, propuseram ao rei da Arábia Saudita uma estrada de ferro cruzando uma parte do deserto, para que fosse mais rápido ir de Riad a Bagdá. O velho rei mastigou o seu cachimbo (ou seria um narguilé?) ergueu os olhos para os negociantes ingleses que lhe propunham o tal cavalo de ferro e perguntou: “Mas qual é a vantagem que vou ter com este tal de trem?” Os europeus se entreolharam e responderam com sorrisos de realização pessoal: “Ora, o senhor levará dois dias na viagem e não duas semanas em lombo de camelo!” O monarca cofiou as suas barbas (meu sonho sempre foi conseguir escrever esta frase, mas o que será mesmo “cofiar as suas barbas”?) – pois o rei Ibn Saud depois de alisar suas barbas com as mãos, permitiu que um leve sorriso lhe encrespasse os lábios e perguntou: “Mas, se eu fizer esta viagem em dois dias, o que farei com o meu tempo quando lá tiver chegado tão rapidamente?”
A tal estrada de ferro com capitais sauditas e projetos britânicos não saiu até hoje. É, quem sabe seja a hora de parar, pensar um pouco e depois retomar as pedaladas com um pouco menos de velocidade?
(crônica publicada no ABC DOMINGO em 12 de abril de 2009)
Boa Páscoa!
Era isso mesmo que eu estava pensando!
Mas, será que ficaremos contentes pedalando mais devagar?
É preciso ter a sabedoria do rei Ibn Saud.
Já a grana e o petróleo da família dele me contentaria…
Em todo o caso, Boa Páscoa.
Abraços
Ali Al Ali
Querido Professor!
Pedalar é preciso… assim, seguiremos nos trilhos da Vida, pois mesmo que adiantemos ou atrasemos a viagem, sabemos que o timão está no ar da estrada, feito Pó de gentes, seguimos a pedalAr!!!
Um abraço carinhoso e feliz Páscoa.
Carmen Silvia Presotto
Não adianta, meu caro.
A Humanidade está suficientemente enlouquecida e acenar com a voz da razão termina em nada. Por que ninguém quer ouvir nada e ninguém pensa nos seus semelhantes.
Admiro seu esforço, mas os homens não vão pedalar menos, nem andar mais devagar, nem fazer menos barulho, nem pensar nos outros.
Em verdade, vamos direto para o Apocalipse.
A loucura ultrapassou as barreiras.
Eu lavo minhas mãos.
Chega.
Pôncio Pilatos