NO MEIO DO LIXO, OS LIVROS…

Crônica publicada no jornal ABC DOMINGO

no dia 6 de setembro de 2009

O AMOR AOS LIVROS

 

Walter Galvani

 

 

A expressão “amor aos livros” desgastou-se com o tempo, agora que as pessoas foram vendo reduzirem-se seus espaços e as prioridades de uma vida de correrias, e se acabaram os longos momentos quase lúdicos de leitura e contemplação. Assim, nas grandes e nas pequenas cidades, nas capitais como Porto Alegre ou Londres, ou até em bairros e vilas, os apartamentos, solução multiplicada para milhões como única saída econômica. Mais de 60 metros quadrados é luxo e isso para dividir por quartos, sala, cozinha, banheiro e uma minúscula área de serviço para colocar o botijão de gás. Garagem? Impensável para a maioria, a não ser no Japão, onde é proibido comprar um automóvel se você não demonstrar que tem onde abrigá-lo, fora das ruas.

Mas um dos aspectos mais surpreendentes desta mudança de mentalidade foi o desprezo pelos livros, pois não é considerada prioritária nem uma modesta estante nas paredes da sala, reservando-se o local de destaque no altar doméstico, isso sim, para o aparelho de televisão, alguns de tal imensidão que parecem maiores do que a casa toda… O ritmo que agora domina o pensamento e as ações das pessoas, passou a ser fornecido pelos meios eletrônicos, misturando trechos de ação com a publicidade, daqui a pouco a chamada para alguma notícia que a insensibilidade escolheu como “a melhor” e apenas se refere a mais uma ação de criminosos ou um acidente espetacular, a morte de alguém ou o novo escândalo de corrupção.

E os livros ganharam o caminho do lixo… Não são poucos os garis, que demonstrando mais sensibilidade que a maioria dos políticos e administradores em suas manifestações públicas, formaram verdadeiras bibliotecas públicas com os volumes salvos dos detritos.

Mas agora vejo que em Caxias, uma das maiores aglomerações urbanas do estado, foi a própria Companhia de Desenvolvimento da Cidade (Codeca) responsável pela coleta do lixo orgânico e reciclável que decidiu criar uma biblioteca e um museu com o material retirado das ruas. Foi um varredor, cujo nome precisa ser preservado, Wolney Luiz dos Santos, que sugeriu melhor aproveitamento para livros e objetos dignos que surgiam todos os dias em meio aos detritos. É preciso que se registre seu nome para que seu exemplo frutifique.

 

3 comentários para “NO MEIO DO LIXO, OS LIVROS…”

  1. flaviao disse:

    Oi …. fiz uma atualização de emergência no Wordpress …

  2. Ana Luisa Nascimento disse:

    Seu Walter, em pesquisa na internet vi que o senhor escreveu sobre o Fernando Kroeff. Estou coletando informações sobre a família Kroeff para uma publicação sobre a Casa Branca do Parque da Expointer. Gostaria de, se possível, de um contato com o senhor.
    Desde já agradeço pela atenção,
    Abraços,
    Ana Luisa
    05132104213

  3. Almiro Zago disse:

    Excelente reflexão, Galvani.

    Pois é, houve um tempo de amor ao livro – o objeto e seu conteúdo. E também de apreço ao livro como… elemento de decoração de ambientes. Na casa nova, do novo rico, sempre havia lugar destacado para a estante ou armário de livros. A preferência recaía sobre volumes em ricas capas, especialmente de enciclopédias.
    Atualmente, se acabaram os longos momentos quase lúdicos de leitura e contemplação, como dizes, Galvani. E suspeito que nem mais para fins decorativos sejam lembrados os livros.

    Almiro

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