Arquivo de outubro de 2009

JUDAS, LULA E O FARISAÍSMO BRASILEIRO

domingo, 25 de outubro de 2009

 

Crônica publicada hoje, dia 25 de outubro de 2009,

no jornal ABC DOMINGO

 

ACORDO COM JUDAS

 

Walter Galvani

 

Com a sua simplicidade característica e sua indiscutível vocação “midiática”, o presidente Lula garantiu para si as manchetes de sexta, sábado e domingo, colocando lenha na fogueira político/religiosa, ao dizer que “se Jesus Cristo viesse para cá, e Judas tivesse a votação num partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão.” Ora, o personagem bíblico mais demonizado comparece aqui, dois mil anos depois, para servir de parâmetro de uma união política incomensurável, que Lula preconiza como uma justificativa para uniões entre partidos que nem sequer poderiam sentar juntos à mesma mesa. Surgiram fariseus de todo o lado. Gente que jamais esteve associada a qualquer grêmio religioso, desta vez resolveu aparecer publicamente como defensor da “fé cristã”. Como diria Saramago, afinal, “quem é deus?”, com d minúsculo e tudo e quem é o deus dos cristãos?

Teve gente que até em blasfêmia falou, isso esquecendo que ao defender princípios marxistas automaticamente está abrindo mão de “princípios religiosos”, aliás, de quem é a frase “religião é o ópio do povo?” Respondida a questão, já se pode ver onde andam os fariseus e como Lula, atirou no que viu e acertou no que não viu…

Com a fornalha acesa para torrar preceitos e preconceitos durante estes últimos dias e nos próximos, religiões e partidos vão se consumir em discussões estéreis e que só promoverão o presidente por que “Lula é o cara”, como disse Obama.

Aliás, bastaria aprofundar-se na leitura da história bíblica para verificar que Judas, por seu turno, suicidou-se, ao fazer o terrível acerto de contas de sua vida com sua biografia oficial.

“Todos estes passarão, mas minhas palavras não passarão”, teria dito Jesus Cristo, o personagem mais importante da “resistência” aos conquistadores e ao supremo exemplo de mais poderoso império de todos os tempos, o Romano, não o norte-americano por certo.

Pelo menos Lula, o semi-alfabetizado, o tosco, o rude, o metalúrgico, meteu na mesa dos brasileiros uma discussão um pouco acima da sujeira do dia-a-dia, da violência, das inutilidades televisivas e da roubalheira generalizada.

DÓLAR CARO OU CARO DÓLAR?…

domingo, 18 de outubro de 2009

 

Crônica publicada hoje no jornal ABC DOMINGO, o grande veículo dominical do Grupo Editorial Sinos

 

VALORIZAÇÃO VERSUS DESVALORIZAÇÃO

 

Walter Galvani

 

Realmente, para o pequeno, para o trabalhador que não faz mais do que ir ao supermercado cuidadosamente, dar um “chego” diário na padaria, pagar o ônibus e algum telefonema, fica difícil entender o que significa toda esta luta dentro e fora do governo, para prorrogar ou não o fim do IPI, pagar a restituição do IR e até entender bem estas siglas. Mas, para a imensa e crescente classe média brasileira, tudo isso é perfeitamente inteligível e ainda mais, a história da valorização do Real diante de outras moedas e os benefícios e malefícios que isto traz. Quer dizer… inteligível em parte. Agora mesmo começa a se ouvir um murmúrio de protesto que poderá se transformar em grita geral, dos setores brasileiros beneficiados pelo turismo, como, por exemplo, Bahia, Norte e Nordeste, Rio de Janeiro em parte e Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Costumamos receber de braços abertos ondas e ondas de “hermanos” argentinos e uruguaios que adentram nossas fronteiras para passar as férias de verão. Somos capazes até de torcer por Maradona em certos momentos, desde que não seja na hora do confronto direto com o Brasil. Futebol aparte, queremos a presença dos nossos vizinhos, pois eles nos deixam uma farta contribuição em dólares (e pesos…) que ajudam a irrigar a economia de regiões normalmente asfixiadas pelos nossos hábitos e costumes. O verão é uma bênção anual que às vezes chega bem cedo, pode começar até em outubro e se prolonga até à Páscoa, quando é sempre benvinda a “ola” de uruguaios que comemoram a sua “Semana del Turismo” invadindo pacificamente a nossa província e arredores.

Desvalorização do Real perante estas “moneditas” vizinhas é, portanto, uma salutar aspiração regional. Agora, se isso prejudica o plano nacional de fortalecimento de imagem, se importações são favorecidas e exportações prejudicadas, como é que isso nos aquece ou nos abala, fica para os “entendidos”. Já o povão fica satisfeito com a entrada de viaturas com “tarjeta” estrangeira, pois sabe que na guaiaca dos visitantes vem, na certa, muitas e interessantes pelegas que ficam nos restaurantes, postos de gasolina, pedágio, hotéis, bares e na compra de “recuerdos” artesanais ou produzidos em massa. Assim, divididos, vamos para mais um verão.

QUE VENHA A “OLA”

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Crônica para o jornal Diário Popular, de Pelotas

de  Walter Galvani

 O governo se divide e ainda vai se dividir mais com a chegada do ano eleitoral, entre as inúmeras posições divergentes que formam a sua convergência política, diante da conveniência de medidas como “o fim do IPI da linha branca” ou a valorização do Real, diante do dólar, do euro e de todos os pesos. Enquanto isso, o que pode parecer fraqueza é discordância.

O que pode aparecer perante os olhos do público como indecisão ou discórdia, é apenas consequência do fato de que a política não é uma ciência exata, mas sujeita às oscilações das pessoas, dos partidos, e dos humores dos que a praticam.

Pelotas nem precisa pensar nos dólares que o turismo traz, mas porque não bateria palmas para uma generosa avalanche de argentinos e uruguaios? Só que, com o Real em alta, da maneira que está, se bate palmas à uma possível desvalorização, pois assim o desejam, com toda a razão, os exportadores. Em resumo, estamos com uma moeda tão forte, como jamais sonhamos, mas isso não interessa à maioria. Vejam como são incertos e duvidosos os caminhos do senhor das ovelhas. E, no entanto, por mais que as estimemos, é preciso vende-las… Ou tosquiá-las, metaforicamente ou não.

Enquanto isso, ficamos torcendo para que os “hermanos” consigam condições de atravessar a fronteira e visitar-nos. Teremos a maior paciência e compreensão para recebê-los, pois não é de hoje que esta gloriosa princesa do extremo sul brasileiro mostra internacionalmente seu alto grau de cultura e civilidade.

“Así es, se les parece” como diriam Calderon de la Barca, Tirso de Molina, Lope de Veja, Shakespeare e outros que tais.

 

O BURRO DO PADRE

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

 

 

Crônica para o jornal DIÁRIO POPULAR, de Pelotas

 

por Walter Galvani

 

Antigamente, muito antigamente, quando as pequenas comunidades do interior nasciam e existiam graças à comunidade católica, lideradas pelo vigário que era mais ou menos juiz, advogado, portavoz e intermediário ante o prefeito (nomeado) e também conselheiro e arauto das novidades importantes, o burro era o automóvel, às vezes único e importante e ainda mais decisivo em doenças terminais. Mas, isso foi muito antigamente quando o burro do padre era o que havia de mais rápido naquelas pequenas comunidades que depois se transformaram em vilas, cidades e pólos regionais.

Hoje tem a televisão, o rádio, a internet, o blog, o twitter e nem sei mais lá o quê, pois todos os dias aporta uma novidade que vai mudar e muda mesmo a vida das comunidades. O burrico do padre ficou na saudade.

E então, o costume de dar uma escapada, fazer feriado ou feriadão, fugir do massacre do dia-a-dia, nem existia. Hoje faz parte. Não há quem não aproveite greve dos bancários, feriado nacional, Dia da Criança, fim-de-semana, Dia do Professor, Dia do município e nem sei mais lá o quê, tudo emendado, para garantir-se umas miniférias e fugir para a praia ou para a serra ou lá para o fundão do interior em busca do… padre e seu burrico saudoso.

Até conheço gente que começa o ano de olho no calendário para planejar suas escapadas e vai lutando semana por semana para ir concretizando-as e assim vencer a luta contra o ferro do trabalho e dos compromissos.

Psicólogos, psiquiatras, médicos, pais-de-santo, bruxas, adivinhos, uni-vos! Parece que em plena era do cientificismo, da modernidade e do objetivismo, ainda não se resolveu o conflito maior, aquele entre o homem e seus sonhos. Boas miniférias…

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OLIMPÍADA, COPA DO MUNDO, ECONOMIA

domingo, 4 de outubro de 2009

Acabaremos todos otimistas…

Crônica para o grande Diário Popular,  da maravilhosa Pelotas, a “Princesa do Sul”:

VAMOS LÁ, OTIMISTAS!

 

Walter Galvani

 

Ufa, passou! Estamos quase chegando a 2010 e o pior já passou. Resta-nos apenas segurar a respiração enquanto mudamos de ano e já estará aí a redenção. Depois, em dois ou três saltos chega-se à Copa do Mundo e depois dela, a Olimpíada e assim, este país de 190 milhões, e em quatro ou cinco, de 200 milhões, estará transmitindo sua maior mensagem à toda a Terra: integração, amizade, nenhum preconceito.

Estarei escrevendo sobre uma utopia? Sim, mas um sonho digno de ser perseguido. Veremos então que é possível acreditar no imenso poder de realização deste povo mestiço de velhas castas européias, selvícolas, negros, amarelos, e todas as colorações resultantes da imensa mistura que veste a camisa verde-amarela.

Povos europeus de memória curta, poderão se lembrar que seus excedentes populacionais, para usar uma expressão pelo menos “delicada”, foram recebidos aqui e ajudaram a construir o gigante em que todos vivemos. Mas, será preciso não esquecer, por exemplo, que, ao derrubarem as árvores, enriqueceram com o desfrute de um bem que deveria ser coletivo.

Também não se pode desprezar a idéia de que os contingentes populacionais de pele negra contribuíram com a mão de obra gratuita, em muitos casos, para edificar esta grande nação, e que os índios, não eram preguiçosos, como rezavam os antigos compêndios escolares, mas rebeldes porque prezavam sua liberdade. Quando lembrarmos de tudo isso, poderemos curtir mais e melhor a grandeza que está chegando, sem remorsos, vinganças, revanches, retaliações. O que, aliás, é também uma questão de grandeza. E essa, parece, veremos nos próximos anos, parece que temos também. E então, poderemos festejar todas as conquistas, celebrar igualmente Sepé Tiarajú ou Pedro Álvares Cabral, Garibaldi e Bento Gonçalves, Pedro I ou Tiradentes, Zumbi ou Getúlio.