Arquivo de novembro de 2009

RIO GRANDE DO SUL, O TEMPO E O VENTO

domingo, 29 de novembro de 2009

Crônica publicada neste 29 de novembro no Diário Popular, de Pelotas

O TEMPO E O VENTO

 Walter Galvani 

Não foi por acaso que Erico Veríssimo, até aqui o maior e indiscutível romancista da história do Rio Grande do Sul, denominou a sua grande epopéia, como “O Tempo e o Vento”. Foi assim mesmo e todos os que o leram, sabem o quanto sintetizava ele neste título marcante, o que se passa na vida dos gaúchos e o que se passou ao longo dos seus pouco mais de trezentos anos de história conhecida. Trezentos se desconsiderarmos os séculos anteriores, por deles não haver restado memória escrita, mas apenas alguns samburás e lendas, elementos pois indicativos do que se passou aqui neste lado do Atlântico.

Nossa matriz é a Europa, mais ainda é Grécia e Roma, e as tribos célticas que com os iberos formaram a península ibérica e o povo que inicialmente se classificava como os “celtiberos”. De lá vieram portugueses e espanhois, açorianos e depois o restante dos colonizadores. De lá para cá um lento mas permanente relacionamento de miscigenação de povos europeus com silvícolas, junto com africanos, chegou-se ao brasileiro de hoje, tanto quanto no lado espanhol, argentinos, uruguaios, paraguaios, etc, e tal.

Mas, ao longo destes séculos todos, a presença mais permanente sempre foi o Tempo, com suas duras variações e o Vento, com sua força por vezes inimaginada ou a chuva, os temporais, as inundações que nenhum muro poderá conter, o granizo, e o limite do mar.

Se este tempinho dos últimos dias já deu para contabilizar 3,5 bilhões em prejuízos, calcule-se isso, ao longo dos tempos. É o preço dos ventos. Só agora se procura meios para tornar alguma parcela deles como produtivos de energia e isso merece nosso aplauso e nossa atenção. Pena que não se tenha feito isso antes, a não ser nas modestas iniciativas dos açorianos com suas azenhas, seus moinhos ancestrais.

Assim foi e assim tem sido. Nem Tupã, nem Jeová, nem Deus dos cristãos, ninguém explica isso, mas apenas relembra a força daquela idéia central do Erico. Leia-se e releia-se “O Tempo e o Vento”, ali está toda a nossa história e a sua explicação. Para tudo. Menos para a poluição e o desmatamento, responsáveis diretos pela crise atual.

CALOTAS POLARES, DEGELO, CHUVA, FURACÕES E A BIENAL DO MERCOSUL

domingo, 29 de novembro de 2009

 

Crônica publicada neste dia 29 de novembro de 2009 no jornal ABC DOMINGO

 

FIM DE BIENAL, CHUVAS E FURACÕES

 

Walter Galvani

 

 

Mesmo que você não seja um entusiasta da arte moderna ou desconfie de muitas obras desta corrente e suas centenas de desvios, em espaços públicos, como o prof. Voltaire Schilling, hoje é a última chance de visitar a Bienal que está no Santander, no Margs e nos armazéns do cais do porto de Porto Alegre. Como manda o figurino, o que há de mais avançado na arte contemporânea, desde instalações até o máximo do figurativo transformado, digamos assim para facilitar a compreensão, até os limites da criação sem limites… Deu para entender? Se não deu, melhor, você está então apto a ir visitar a Bienal e conhecer toda a força da criatividade dos artistas que não querem saber de regras ou cortes.

Muitos apreciarão, outros considerarão brincadeirinhas certos experimentos, outros mais dirão que fariam melhor em casa e outros ainda se sentarão comovidos diante de uma lata de sardinha amassada, contemplando os restos da civilização que oprime os animais e massacra os homens.

(No futuro imediato, talvez surja até um macaco pintor, capaz de produzir obras mais brilhantes que muitos humanos, até porque, se sabe, muitos estão abaixo do Q.I. de algumas espécies animais e correm uma corrida parelha com os símios… Não são poucos os macacos que nos suplantam, só terão evoluído para outro rumo, mas, sem dúvida nenhum deles mata e menos ainda devora, indivíduos da própria espécie.)

Mas, a corrida pela expressão artística é mais solta e desenfreada do que nunca e isso parece bom para todos, especialmente para a própria expressão artística. Todas estas correntes que afloram do consciente e do subconsciente estão presentes na Bienal e os materiais empregados deixaram o lixo da história para um melhor uso por parte dos seres humanos.

Sobretudo é bom aproveitar este último domingo de Bienal na capital do estado, para conhecer o que há de mais certo e o que há de mais equivocado na arte atual, mas ver com os próprios olhos e tirar as conclusões que entender como adequadas. Livremente.

É a última chance. Depois, só em 2011. Se resistirmos a mais dois anos de secas, inundações, temporais, tsunamis, furacões, granizo, calor em alta ou daqui a pouco, degelo das calotas polares.

TEMPORAIS, IRRESPONSABILIDADE, E O BICHO-HOMEM

domingo, 22 de novembro de 2009

 

Crônica publicada hoje no jornal ABC DOMINGO

 

OS GUARDA-CHUVAS E 2012

 

Walter Galvani

 

 

Se tudo se der como no filme “2012” não vai adiantar correr muito, nem se preparar psicologicamente, pois todos estaremos dando adeus a este mundo louco. De “apocalipse now” já estamos bem servidos, mas, nunca é demais prestar atenção no que está acontecendo.

Comprava-se um guarda-chuva a 5 reais. Já custa 10. Dobrou a procura e tem gente que já tem em casa um estoque de meia dúzia deles, porque todos os dias é preciso comprar mais um, na rua, para andar duas ou três quadras.

Ainda bem que de um modo geral são produtos da indústria chinesa, que só apresenta aqui utensílios baleados na origem (e tem gente que ainda tem fé no comunismo, paciência, fazer o quê…) e eles acabam antes do fim da primeira semana, ou ao concluir-se o primeiro temporal.

É como estamos vivendo agora. Pobres previsores do tempo, porque não conseguem manter suas informações além da metade do dia, pois, de repente chegam nuvens pesadas, empurradas pela baixa pressão inesperada ou coisa que o valha.

Quem fez isso com o clima?

O bicho-homem, o mesmo que é capaz de matar os da sua própria espécie e o único capaz de destruir com os pés o que fez com as mãos. Este é o mundo que legaremos aos nossos filhos. E vejam bem, estamos diante da última chance, o encontro global para tomar medidas radicais. Numa hora dessas, é sem dúvida a chamada “undécima” hora, ainda tem países e políticos, administradores e administrados, que querem lentidão e reflexão. A canoa em que estamos é a mesma, esqueceram?

Ah, e sabem quem polui mais o planeta? O primeiro lugar do ranking é a China, essa mesma dos guarda-chuvas… O segundo colocado? Estados Unidos. Depois deles vem Japão, Rússia, Índia. O Brasil é o líder da América do Sul, mais um campeonato à vista, mas pelo menos não é a Copa do Mundo. O prazo? Meia dúzia de dias para se conscientizar, pois de 7 a 12 de dezembro, acontece a conferência global sobre o Clima em Copenhague. E o Brasil, saibam, está em “ótima” posição como emissor de CO2 responsável por 1,28% sozinho, de toda a poluição mundial.

Vamos dormir em cima desses dados ou exigir uma imediata virada de mesa? Bem, fica para depois do temporalzinho que está chegando…

MINISSAIAS E PAPEL EM LIVRO

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Crônica publicada neste dia 15 de novembro de 2009 no jornal Diário Popular, de Pelotas (RS)

 

O LIVRO EM PAPEL E A MINISSAIA 

Walter Galvani 

Anda todo mundo “ouriçado” para saber se o “e-book” substituirá o livro em papel e se estará na hora de aposentar este magnífico objeto, primor tecnológico, que atravessou tantos séculos e, desde o papiro, passando por todos os demais sucedâneos, chegou aos nossos dias. Respondo o mesmo que ouvimos quando surgiu a televisão: “Não, o cinema não acabou”. Aliás era a mesma frase que se respondia para o surgimento do cinema, quanto ao teatro: “Não, o teatro não acabou!” E quando surgiu o rádio: “Acabou o jornal impresso? Não o jornal não acabou.”

Nem acabará. Mudanças se farão, é natural que assim seja, mas nem a tevê acabou com o cinema, nem o cinema matou o teatro, nem o jornal matou o livro, nem o rádio matou o jornal, e assim sucessivamente.

Convivência é o nome do jogo. Seguiremos em frente, usando um ou outro produto, de acordo com as circunstâncias e o momento, e, aliás, com o livro sendo muito mais usado do que um produto que exige energia elétrica ou bateria, pesa muito e é incômodo. Ou me digam: levarei o tal e-book para a beira da praia ou para o banheiro ? Ou para dormir com ele?

Além do mais, todos estes arquivos que estão aqui no meu computador, os importantes naturalmente, e os copiei em papel. Porque? Por que não quero ou não posso perdê-los e quero lançar mão deles quando necessitar. Portanto, não os quero apenas virtuais.

Ainda recentemente alojou-se em meu computador um vírus enviado por alguém idiota, aliás uma espécie em expansão e que tão cedo não será removida da face da terra, e todos os meus e-mails recebidos de 2008 até junho de 2009, sumiram da memória.

Não quero e não posso, pois, ficar dependente desta única espécie de mídia. Respeito opiniões, mas lembro ainda, como advertência: os oftalmologistas recomendam que se trabalhe vinte minutos e se descanse vinte, diante de um computador. E os especialistas em postura, os que tratam de males da coluna, doenças degenerativas, também.

Só o que não se pode mudar é a mentalidade de gente (e jovem, hein!) que corre atrás de uma moça de minissaia e uma universidade que a expulsa, punindo a vítima. Mesmo que a tal Uniban tenha voltado atrás, esperamos que ela indenize a Geisy. Antes que as vítimas do “Apagão” entrem na Justiça…

DEPOIS DO APAGÃO E TUDO O MAIS…

sábado, 14 de novembro de 2009

 

Crônica no ABC DOMINGO de 15 de novembro de 2009

MINISSAIA, APAGÃO E PARIS 

Walter Galvani 

Lula está em Paris, longe dos “apagões” e, se for inquirido, responderá que busca “um pouco de luz na Cidade-Luz” para que ela não falte na inauguração das Olimpíadas, como insinuaram os americanos, ou na Copa do Mundo, como na certa lhe jogarão em rosto, perguntando se “jogando no escuro” espera ganhar dos adversários tradicionais. O presidente explicará que não “chuta” uma resposta, mas que provavelmente o clima é o culpado, mas não encontrará culpados da perseguição selvagem à uma garota de minissaia numa universidade do estado que se diz o mais adiantado do país, o que não significa “civilizado”. E nem estamos a salvo no “educado e progressista” Rio Grande, onde os machistas perseguiram pelas ruas de Porto Alegre, as duas primeiras mocinhas que se atreveram a aparecer com minissaias na Rua da Praia por volta dos anos setenta. Isso, lógico, muito depois de Mary Quant sacudir a imperial e imperialista Londres com a invenção que divide com Courréges, mas que ela mesma diz que “nasceu nas ruas”.

“Aluno da Uniban não é taleban” defendeu o vice-reitor Ellis Brown, mas não admitiu que deveriam ser expulsos os trogloditas que perseguiram Geisy, a aluna de minissaia, que, ao contrário, foi punida com expulsão, ato de que a tal universidade se arrependeu, voltou atrás mas ainda não a indenizou pelos prejuízos à imagem e à sua saúde psíquica.

Já quem teve aparelho eletrodoméstico ou industrial pifado pelo “apagão” que, segundo os especialistas do gênero demonstra que o país pode ficar um campo de experimentos tipo “Jurassic Park” a qualquer momento, entrará na Justiça e levará, constituindo-se na grande notícia e no anticabo eleitoral da Dilma Roussef.

Aproveitando a onda, tem gente que defende o fim do livro em papel e o surgimento do “e-book” como a solução, a queima de arquivos e a sua transformação em memória de computador, até o dia em que os dinossauros se soltarem do passado e provarem que a luz elétrica, gerada em Itaipu ou no banhado da esquina, pode, a qualquer momento provar a  incapacidade e a incompetência dos gestores. Prefiro continuar tirando cópias e lendo livro em papiro, copiado a mão ou impresso.

CRÔNICA DE DOMINGO NO ABC

sábado, 7 de novembro de 2009

Crônica publicada neste dia 8 de novembro no jornal ABC DOMINGO

 

GASTRONOMIA FRANCESA

 

Walter Galvani 

Bandidos invadiram uma pousada na ilha de Itaparica, um atraente destino turístico brasileiro e agrediram e roubaram os turistas. Talvez para comemorar o “Ano da França no Brasil” arrancaram um pedaço da orelha de um francês. Enquanto isso, nas estradas, os fins de semana se sucedem como verdadeiros campeonatos de acidentes e mortes, ferimentos e destruição de veículos.

Tudo muito interessante, mas que só demonstra a insegurança do aparelho estatal brasileiro que deveria garantir tranquilidade a quem nos visita e vem aqui deixar dólares e euros pagos por uma suposta garantia enquanto se douram ao sol (grátis) e se deliciam com a gastronomia. Lembram do filme, “Como era gostoso o meu francês”? Talvez numa alusão a ele, os assaltantes da pousada “Cacha Pregos” (é assim mesmo que se escreve o nome dela) em Vera Cruz, doce alusão ao primeiro nome de batismo desta terra descoberta “oficialmente” em 1500 e ocupada pelos nossos formadores. Não vamos escrever aqui “colonizadores”, porque isso seria cinismo. Afinal de contas, descendemos todos de nossos supostos “colonizadores” ou seus coirmãos de continente. Quanto aos franceses, talvez para celebrar o fato de que eles tentaram também se adonar desta vasta extensão territorial que acabou em mãos dos portugueses, a sua gastronomia é tão tradicional, qualificada e influente entre nós, até porque comida no seu mais elevado sentido, lembra-nos esta origem. Por isso, esta preferência pela orelha francesa por parte dos assaltantes na Bahia, talvez tenha uma explicação subjetiva, bem ao gosto dos nossos ilustres visitantes.

Brincadeiras aparte, eles predominam na formação da nossa cultura e ainda hoje, atração básica da feira do livro porto-alegrense, transmitem seus ensinamentos e sua cultura.

Mas a falta de educação no trânsito, talvez seja o traço dominante deste momento da civilização, se é que pode se chamar assim, brasileira. Pois, as centenas de mortos nas estradas a cada fim-de-semana, apenas retratam o que sucede permanentemente nas ruas das cidades, quando a má educação, o palavrão e até a pistola na mão, substituem o sorriso e o dar a vez, que deveriam vigorar entre pessoas que desejam conviver em paz com os seus semelhantes.

FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE

domingo, 1 de novembro de 2009

No Rio Grande do Sul, ela é

A MÃE DAS FEIRAS

Crônica publicada hoje no jornal ABC DOMINGO

por 

Walter Galvani

 

 

É mais do que conhecido que este período se caracteriza pela etapa decisiva dos campeonatos de futebol no Brasil e pelas feiras de livros, em suas principais cidades. É a primavera e depois, o inexorável verão, que começa poucos dias antes do Natal. Então, é a corrida de final de ano. O segundo semestre, por isso mesmo, é um período de euforia e muita circulação de capital. Depois vem a safra seca, total, das férias, quando todos vão para o Litoral. Todos é um eufemismo superado. Antigamente era assim. Agora, não vai mais ninguém… na prática, ou por outra, vão muitos, mas as famílias inteiras que para lá se deslocavam, diminuíram muito seu número. Na capital, começou na sexta a 55ª. Edição da Feira do Livro, uma atividade com mais de meio século e que traduz para nossos costumes, o hábito de Lisboa, a antiga capital do império, onde já se vai quase na 80ª. edição. Isso mesmo, em maio acabou a 79ª.

Foi de lá que se trouxe a idéia para o Brasil e do Rio, transplantou-se para Porto Alegre, por obra e graça do jornalista e vereador Say Marques. Aqui logo se incorporaram livreiros locais, os Bertaso é claro, o Maurício Rozemblatt e o livreiro e jornalista Ruy Diniz Netto. Tudo isso, no século passado.

Logo Rio Grande e Pelotas seguiram Porto Alegre e, mais adiante, Santa Maria, Novo Hamburgo, São Leopoldo, Canoas e assim por diante.

No começo só se vendiam livros e nem patrono havia. Tudo isso veio num crescente melhoramento, a cada ano, e agora, quando chega o final de outubro e início de novembro, todo o Rio Grande fica grudado na capital, para saber como a criatividade da Câmara do Livro levou adiante a grande idéia da Feira entre os jacarandás da Praça da Alfândega.

Porto-alegrenses de um modo geral e gaúchos de um modo geral, marcam encontro na praça onde nasceu a cidade de Porto Alegre: “Te encontro na Feira”, dizem e assim, ano após ano, vão se renovando os contatos e se afirmando as novas gerações.

Este ano, então a “mãe de todas as feiras” achou por bem escolher um patrono, o escritor Carlos Urbim que escreve para as crianças. O que se quer é que todos, desde pequenos, leiam. Cada vez mais. Isso é o que faz a grandeza do Rio Grande. A sabedoria está nos livros. No objeto mais avançado e insubstituível de tecnologia inigualável, inventem o que quiserem: Sua Majestade, o Livro!