Crônica publicada no jornal ABC DOMINGO
do Grupo Editorial Sinos
no dia 27 de setembro de 2009
SELEÇÃO PESSOAL
Walter Galvani
A coisa mais preciosa que temos é o tempo e só a nós mesmos cabe a tarefa de administrá-lo. Se este bem valioso, inigualável, for desperdiçado, a culpa não cabe aos governos, aos políticos, a ninguém mais. Quando acabamos de amadurecer – se é que algum dia concluiremos esta angustiante tarefa em nossas vidas! – precisamos tomar decisões que encaminham a real utilização dos minutos em nosso proveito, seja isso visto diretamente ou através dos benefícios que nos tocam ao cuidarmos de terceiros, nossos parentes, amigos, filhos, netos, pais e mães, primos e animais de estimação e os iguais pelo gênero humano, com os quais vamos fazendo esta travessia. E, portanto, hesitar entre ler, ouvir e ver uma tragédia em nossas estradas, nas ruas de Honduras ou nos Emirados Árabes Unidos, escutar nossos políticos ou folhear uma revista, ler um livro ou assistir a um filme, ver televisão ou dormir ouvindo música, postam-se as opções que precisamos, a cada momento adotar. Depois que o tempo passar, os anos voarem e com os cabelos encanecidos e os membros entorpecidos estivermos placidamente adormecidos nos braços do Alzheimer, será tarde demais.
Por isso, a seleção pessoal é uma questão contínua de maturidade, civilidade e inteligência. Todos os nossos sentidos precisam estar constantemente alertas para estas decisões que implicarão na melhor utilização do tempo que corre. Fugir à elas é adiar o próprio desfrute da vida. Se os chamados “mídia” (apropriação incorreta da versão do latim para o inglês de um termo expressivo), se os “meios de comunicação de massa” trabalham em cima de percentuais de leitura, visão, audição, simplificando seu pacote de oferecimentos por um nivelamento por baixo, precisamos saber escolher. Temos que ser seletivos no tipo de veículo, no horário, no conteúdo e na forma, e aprender a criticar, rejeitar, aceitar e analisar ou descartar a mensagem.
Somos donos do tempo. O que significa, mais do que nunca, não desperdiçá-lo. Assim, se o Senado dispensa funcionários, se assaltantes fazem sequestros ou acidentes mostram a falta de fiscalização ou má qualidade das estradas, é bom saber de tudo, mas não devemos nos empanturrar com certas inutilidades.