Crônica publicada hoje, 24 de janeiro de 2010, no jornal ABC DOMINGO, órgão dominical do Grupe Editorial Sinos
Walter Galvani
Quem está por aí, vivendo e aprendendo, lutando e produzindo, procurando melhorar sua vida particular e suas relações com amigos e familiares e não mora no Haiti, dificilmente poderia escrever que a vida piorou. Estamos do lado de cá, novo ano, nova década, alguns cresceram centímetros, outros diminuíram, muitos na certa engordaram, mas isso quer dizer que tiveram comida em excesso. Outros ampliaram seus conhecimentos, leram alguns livros a mais, assistiram à dezenas de espetáculos ruíns na televisão e nos palcos da vida, outros nem sequer isso e alguns se entregaram a seus amores, aos seus ódios e a seus dissabores.
Foi assim mesmo, um ano como todos os outros, e estamos num ano igual, mas, o que todos queremos é que seja melhor. Os paulistanos, por exemplo, 56% deles responderam a uma enquete dizendo que gostariam de mudar de cidade… E nós, cá no Sul? Acho que a maioria esmagadora diria que pretende continuar aqui, pois são felizes, a despeito das pontes que não estão resistindo à força das águas e à falta de uma remuneração adequada. Outros tentam as loterias acreditando na sorte, mas é a maneira como procedem para manter um percentual de confiança e esperança. Quando tudo ao redor parece desabar e é recomendável que se leia o poema IF (o Se) de Kipling.
Não dá para saber com certeza desde quando se registram terremotos, além de alguns que ficaram na lembrança coletiva da humanidade, a começar por Sodoma e Gomorra, 4.000 A.C., (ou não terá sido?), passando por Lisboa (1755), e Esparta, uma das causas da Guerra do Peloponeso em 464 A.C., mas este do Haiti foi o pior naquele país em 200 anos, antes houve outros, enquanto no Brasil se produziram tremores com resultados de rachaduras em edifícios ou casas e nada mais. “Mas vocês vão ver o povinho que eu vou botar lá!” – diz a piada caracteristicamente autopunitiva inventada pelos próprios brasileiros. Então, enquanto as pontes continuam caindo e alguns compatriotas seguem roubando dinheiro em meias e cuecas, outros assaltanto ou tomando os recursos dos outros, para a maioria a vida melhora. Menos para os paulistas, é claro, que dizem que tudo piorou, mas mesmo esses acostumados a levar o pau pela cabeça, seguem confiantes, achando que 2010 será melhor. Tomara.