Arquivo de março de 2010

QUADRILHA DE ÍNDIOS…

segunda-feira, 29 de março de 2010

 

Walter Galvani

 

 

Nestes momentos em que se discute a ética das investigações policiais, estética das comemorações de aniversário da capital do estado, o conteúdo das declarações dos políticos que se preparam para a grande corrida eleitoral, e até Fernando Collor surge em cena para pedir desculpas pelo “afano oficial” que representou o congelamento das poupanças a 16 de março de 1990, dia imediato à sua posse, vem um fato novo do fundo dos matos castelhanos, ou melhor, do município que adotou o nome de Mato Castelhano.

Inacreditável, mas os antigos donos da terra, descendentes daqueles que desalojamos para dela nos apropriar a partir do século XVI, combateram essa semana, armados de espingardas, facões e pedaços de pau. Eram duas tribos rivais, ou dois bandos, ou como os classificou a polícia, “quadrilhas”.

A acusação que pesa sobre os índios, que, como se sabe, foram assim impropriamente chamados porque Cristóvão Colombo os denominou “índios” pensando que havia chegado à Índia em 1492 (e não a outro futuro continente que acabou batizado de América por causa do seu imediato, Américo Vespucci) pois agora, em 2010, a polícia lançou mão de uma terminologia inacreditável, que demonstra que se eles não estão integrados, tem gente que pensa que eles estão… Diz a peça que os índios estão sendo acusados de “Formação de quadrilha, rixa qualificada e tentativa de homicídio”.

Ops, perdoem-nos os Nardoni da vida, não queríamos tocar no assunto. Mas, “formação de quadrilha” para nossos “índios” de Mato Castelhano? Para eles deve estar soando mais ou menos assim: “Porque vocês estão agrupados em tribos? Expliquem-se.”

Os astrônomos andam dizendo que a Terra pode ter escapado do eixo com os safanões que andou sofrendo e os especialistas em terremoto garantem que cidades chilenas se moveram até 7 centímetros para algum lado. Algo aconteceu para que os cérebros humanos sofressem tal sacudida a ponto de se produzirem disparates primorosos como esses.

Só para concluir: se o Collor se permite pedir desculpas pelos estragos que causou há vinte anos, bem que o Colombo podia, numa dessas memoráveis sessões espíritas, “descer” para se desculpar pelo erro de identificação há 518 e assim abrir caminho para outros equívocos mais recentes.

CINQUENTA ANOS DO NH

sábado, 27 de março de 2010

 

 

Walter Galvani

 

 

Eu deveria ter estado presente dia 25 no NH Hall, junto aos meus amigos Mário Gusmão e Carlos Eduardo Gusmão e junto à lembrança do Paulo Sérgio Gusmão, para bater palmas pelos 50 anos do NH.

Quem trabalha em jornalismo, e nele consome dias e noites, às vezes não tem tempo para as obrigações mínimas com os amigos ou com as comemorações indispensáveis. Faz parte desta vida atribulada, de vez em quando, ser até ingrato, porque não me foi possível estar em dois lugares ao mesmo tempo.

Foi o que me sucedeu nessa última quinta-feira. Envolvido com os problemas do Conselho Estadual de Cultura, onde estou atuando como conselheiro (e ainda o farei por mais algum tempo) me vi impedido de fazer o deslocamento até Novo Hamburgo, para abraçar pessoalmente os amigos.

Lembro bem, estava no início do meu trabalho no Correio do Povo, mas assisti os irmãos Mário e Paulo Sérgio, desdobrando dificuldades e enfrentando descrenças, lançarem e logo obterem a aprovação da opinião pública para o seu hoje tão exitoso projeto. Havia dúvidas, ceticismo, e como de hábito, alguma inveja, afinal competição é competição.

Mas, eles seguiram em frente e hoje aí está esta grandiosa realização que orgulha não só a região, mas todo o Rio Grande e o país inteiro.

E uma coisa logo brotou, se impôs e caracterizou-se como a grande marca do NH: Inovação.

E inovação pra valer, inovação técnica, mercadológica, redacional. E isso da impressão off-set à notícia sintética, do apoio ao município à extensão da defesa dos interesses dos seus habitantes.

Em pouco tempo, a marca NH se impôs e hoje brilha como distintivo básico do Grupo Editorial Sinos e distingue a região da qual Novo Hamburgo é também uma força e um símbolo.

Logo depois que comecei meu trabalho no Correio do Povo, isso há cinquenta e cinco anos, pouco depois de haver fundado meu próprio jornal, com alguns amigos, e que “auto-afundou-se” sem deixar vestígios depois de sete meses de ação em Canoas, o “Expressão”, passei a acompanhar a batalha dos irmãos Gusmão e aplaudi-los, como admirador e amigo.

Hoje, passados cinquenta anos daquele momento prodigioso da imprensa gaúcha, posso congratular-me com o grupo e abraçar o amigo Mário que conduz, com maestria, elegância e inteligência este grupo que está acima das rivalidades regionais e que conquistou com seus méritos o espaço próprio.

Parabéns, companheiros do NH!

 

O FANTÁSTICO JOSE ABRAHAM, O ESPANHOL

quinta-feira, 25 de março de 2010

 

 

Walter Galvani

 

 

Hoje à noite estarei na sede do Memorial do RGS para assistir à inauguração da exposição das fotografias de José Abraham, numa exposição organizada pelo seu filho Alfonso, que eu vi nascer e que hoje é, também, um grande artista da fotografia.

Começamos praticamente juntos eu e o Abraham. Ele era o laboratorista, o homem que ficava dentro do laboratório da Caldas Jr., revelando e copiando as fotos e eu, repórter do setor de esportes do Correio do Povo, um “foca” iniciante, isso lá pelos anos cinquenta.

Foi uma tromba d’água que caiu em Pelotas, inundou o bairro Fragata e destruiu estradas e pontes, deixou milhares de desabrigados e matou dois, reduziu a zero patrimônios de humildes moradores da região, que nos uniu na primeira missão externa: eu,  fora do esporte, porque até então só cuidava de Grêmio, Internacional, Força e Luz, São José, Nacional e outros mais ou menos votados, integrantes da 1ª. Divisão Porto-alegrense de Futebol e o Abraham, fora da “casinha” ou seja do laboratório onde se escondia e onde as “estagiárias” mais adiante iam conhecer o “Papito”. O Alfonso ainda não havia sido encomendado…

Fomos juntos, eu e ele, com a chefia do José Bacchieri Duarte, que é de Piratini, mas viveu longo tempo em Pelotas, para fazer a cobertura da inundação extraordinária que, em poucas horas havia devastado e ocupado bairros e vilas da maior cidade da Zona Sul do estado.

Como éramos ligados ao futebol, o Bacchieri Duarte foi em nosso jipe (sim este era o transporte da reportagem naqueles tempos…) cantando o tempo todo o hino do Farroupilha. O clube pelotense G.A.Farroupilha chamava-se Regimento, porque tinha nascido praticamente dentro de um estabelecimento militar, mas teve o nome mudado porque ganhou o campeonato estadual do centenário farroupilha (1935) batendo o Grêmio Porto-Alegrense.

Daí que o Bacchieri sabia o hino de cor, que começava assim:  “No vasto campo lá da Redenção…” e por aí continuava.

E seguíamos nós, alegremente, para Pelotas, porque era sábado de Carnaval e nada mais atraente do que o carnaval pelotense naquela época.

Matérias especiais imediatas para o Correio do Povo de domingo, naquele fevereiro de 1956, matérias para a edição esportiva da Folha da Tarde de segunda-feira e matéria para a Folha da Tarde de segunda, todos foram redigidas por mim, em busca do espaço e da aprovação dos meus chefes, Adail Borges Fortes da Silva e Breno Caldas, é claro. E com a bênção do Bacchieri e ilustradas pelas fotos sensacionais de Jose Abraham.

No meio disso, nossa intenção era, minha e do Abraham, que bateu fotos fantásticas, que se moveu pendurado numa corda para atravessar o arroio Retiro e que mergulhou no lodo, ajudou a levantar uma casa que estava caindo e salvou um menino que caiu de uma canoa, um pequeno caíque, depois de cumprir nossa missão participar do glorioso carnaval de Pelotas.

Não deu.

Com as duas mortes, a prefeitura decretou luto oficial e cancelou o carnaval de rua, os clubes seguiram na mesma linha e suspenderam os bailes e nós voltamos no domingo de tarde para Porto Alegre para nos enfiar na redação do Correio do Povo e trabalhar para as próximas edições.

E o Espanhol voltou à sua dura lide de “laboratorista”, quase um anônimo, onde permaneceu até que o sucesso do seu trabalho, tirou-o daquelas quatro estreitas paredes e o transformou num dos astros da fotografia jornalística, de então para cá, até falecer.

Valeu, Abraham! Pena não estares mais entre nós, mas teu nome – e por iniciativa agora do teu filho Alfonso ganhando novo impulso – ficou como exemplo de dedicação à profissão, sempre recheada com um quê de heroísmo que para mim brilhou pela primeira vez lá naquela reportagem em Pelotas. Mas, que, dizias, provinha da tua ligação com o glorioso Atlético de Bilbao, um clube de bascos valentes, cuja escalação sabias de cor e me pedias sempre que incluísse em minhas pretensiosas matérias sobre futebol internacional.

RELIGIÃO, RAÇA, ETNIA?

quinta-feira, 25 de março de 2010

Walter Galvani

 

Lula sabe que está no meio de uma disputa que envolve amigos e inimigos, adversários políticos e “companheiros”, onde que se opõem interesses diversos. O nosso metalúrgico aprendeu muito nestes anos todos, seria menosprezar a sua capacidade de compreensão, que é tão grande que o transformou no principal líder brasileiro dos últimos vinte anos, queiramos ou não, discordemos ou apoiemos. E por isso ele sabe que a dificuldade que opõe palestinos e israelenses não é somente isso, mas também muçulmanos x israelitas, árabes x judeus, ocupantes x ocupados, atrasados x desenvolvidos, antigos donos da terra x recém chegados e tudo o mais que está por trás do conflito do Oriente Médio.

Oferecer-se para mediador é uma jogada de grandeza e risco no xadrez político. Aliás, ao que consta foram os árabes os inventores do grande jogo de xadrez, mas são de origem judaica muitos campeões mundiais… Não interessa, o que está “em jogo” agora não é apenas brilhatura, nem lances de inteligência. É uma questão pura de “dívidas de jogo”… assim mesmo como está escrito e está sendo lido por você, amigo.

Ao longo dos tempos, cada povo ficou devendo ao outro e junto com leves sorrisos ou grandes gargalhadas como eles se tratam aqui no Brasil, lá muito choro, muito suor, sangue e lágrimas.

Sentar-se à mesma mesa é o grande desafio para judeus e palestinos, ou melhor para israelenses e árabes, ou israelitas e muçulmanos. Os cristãos estão fora disso, mas deixaram o rabo preso por causa das Cruzadas, quando invadiram a região e fizeram “das suas”. Segundo os descendentes dos antigos moradores, “horrores”.

Isso é tudo. O Brasil tornou-se a pátria dos sonhos dos emigrantes, fossem eles árabes ou jordanianos, sírios ou palestinos, alemães ou italianos, africanos ou asiáticos. Todos sabem que aqui se vive fraternalmente, por incrível que pareça, em meio à insegurança da ladroagem e da corrupção, que não escolhe cor nem raça, nem religião, para prejudicar a todos com a justiça da sua injustiça… É incrível, mas a falta de vergonha na cada e a impunidade protege a todos. Inclusive ladrões e assassinos, viciados ou cruéis por natureza. E assim, a luz para os povos, vem deste país das desigualdades sociais. Sai dessa, presidente!

O CHOQUE DA REALIDADE

segunda-feira, 1 de março de 2010

O CHOQUE DA REALIDADE

 

Walter Galvani

 

 

Há cinquenta e cinco ou cinquenta e seis anos, tempo da minha atividade como jornalista, que escrevo sobre o “choque da realidade” que costuma ser o mês de março, quando afinal cessa a chamada “temporada de verão” e todos refluem para a cidade, para os seus afazeres, para o dia-a-dia. Com o passar do tempo modificou-se um pouco esta disposição física e mental das pessoas, entidades, empresas e instituições, mas ainda este ano ouvi uma dezena de vezes que, tal e tal assunto, seria retomado em reunião EM MARÇO. Bem, aqui estamos, praticamente chegados ao novo mês e podemos já, portanto, deixar de lado a temperatura da água do mar e a sujeira ou limpeza de suas areias, para entrar fundo em assuntos sérios.

Isso é o que acontece com cidades não litorâneas, pois, no caso de Rio Grande, por exemplo, o mar está ali, beirando suas ruas ou com a praia à meia dúzia de quilômetros. Sempre há, como é o caso de Pelotas, o convite desta remansosa lagoa (ou laguna?) para um passeio ao Laranjal em qualquer fim de tarde.

Mas, o velho costume de mudar-se com malas e bagagens, filhos e empregados, cães e passarinhos, para o Litoral, se não está arquivado, pelo menos em parte revogado está.

No entanto, o período de instabilidade e indecisão, de suspensão temporária de decisões, parece que continua em nosso “Rio Grande amado”. E eu poderia dizer que é remar contra a maré, tentar mudar esta atitude.

Portanto, aquilo que não foi realizado, pensado, decidido ou programado antes do Natal, fatalmente só será retomado quando março chegar. Assim é, e assim tem sido, acho que desde os tempos em que os guaranis vinham passar os meses de verão junto ao mar, embora não carregassem folhinhas impressas em seus pertences. Traziam filhos e netos, cães e em certo período, cavalos, que dom Cristóvão de Mendoza já andara por aqui semeando o uso de tais animais. E se não faziam cavalgadas pela areia, pelo menos em direção ao mar viajavam. Na época não havia protestos. Quem mandava era o morubixaba da tribo, e pronto. Ah, e também não havia Carnaval para distrair os mascarados que, se quisessem fazê-lo, cobriam-se de penas mesmo fora do período. E parece que ficava tudo para a “volta”. Para o “grande retorno”. Como agora…

(Crônica escrita para o jornal Diário Popular, de Pelotas)

Walter Galvani

 

 

Há cinquenta e cinco ou cinquenta e seis anos, tempo da minha atividade como jornalista, que escrevo sobre o “choque da realidade” que costuma ser o mês de março, quando afinal cessa a chamada “temporada de verão” e todos refluem para a cidade, para os seus afazeres, para o dia-a-dia. Com o passar do tempo modificou-se um pouco esta disposição física e mental das pessoas, entidades, empresas e instituições, mas ainda este ano ouvi uma dezena de vezes que, tal e tal assunto, seria retomado em reunião EM MARÇO. Bem, aqui estamos, praticamente chegados ao novo mês e podemos já, portanto, deixar de lado a temperatura da água do mar e a sujeira ou limpeza de suas areias, para entrar fundo em assuntos sérios.

Isso é o que acontece com cidades não litorâneas, pois, no caso de Rio Grande, por exemplo, o mar está ali, beirando suas ruas ou com a praia à meia dúzia de quilômetros. Sempre há, como é o caso de Pelotas, o convite desta remansosa lagoa (ou laguna?) para um passeio ao Laranjal em qualquer fim de tarde.

Mas, o velho costume de mudar-se com malas e bagagens, filhos e empregados, cães e passarinhos, para o Litoral, se não está arquivado, pelo menos em parte revogado está.

No entanto, o período de instabilidade e indecisão, de suspensão temporária de decisões, parece que continua em nosso “Rio Grande amado”. E eu poderia dizer que é remar contra a maré, tentar mudar esta atitude.

Portanto, aquilo que não foi realizado, pensado, decidido ou programado antes do Natal, fatalmente só será retomado quando março chegar. Assim é, e assim tem sido, acho que desde os tempos em que os guaranis vinham passar os meses de verão junto ao mar, embora não carregassem folhinhas impressas em seus pertences. Traziam filhos e netos, cães e em certo período, cavalos, que dom Cristóvão de Mendoza já andara por aqui semeando o uso de tais animais. E se não faziam cavalgadas pela areia, pelo menos em direção ao mar viajavam. Na época não havia protestos. Quem mandava era o morubixaba da tribo, e pronto. Ah, e também não havia Carnaval para distrair os mascarados que, se quisessem fazê-lo, cobriam-se de penas mesmo fora do período. E parece que ficava tudo para a “volta”. Para o “grande retorno”. Como agora…