Arquivo de abril de 2010

FOLHA DA TARDE, 74 ANOS

quarta-feira, 28 de abril de 2010

FICAMOS  DEVENDO

 

Walter Galvani

 

 

Jamais pensei.

Acho que, é um sinal dos tempos.

Ontem foi 27 de abril e, não só não tivemos comemorações, como nada foi divulgado nem eu publiquei nada para falar do aniversário da Folha da Tarde.

O nosso jornal, de toda uma geração de jornalistas e de leitores, nasceu a 27 de abril de 1936.

Morreu a 15 de junho de 1984.

Dia 16, circulou sua última edição.

Um sábado.

De lá para cá, todos os 27 de abril, ou nas proximidades, houve festa.

Esse ano de 2010, nada.

Esqueci, esquecemos.

O Benito Giusti, o Joseph Zukauskas, o Castelo Branco, a Vera Marina, a Núbia Silveira, o Jurandir Soares, o Vanderley Soares, o Jayme Copstein, a Hedi Moema Bauer, a Jurema Josefa, a Ema Belmonte, o Ribeiro Pires, de São Leopoldo, o Vinícius Bossle, de Novo Hamburgo, o Mário Gardelin, de Caxias do Sul,  quantos, meu Deus!

Se eu continuar com a lista, chegaremos a trinta, cinqüenta!

O Luiz Carlos Vaz, o Elton Jaeger, o Marco Antonio Birnfeld, a Núbia Silveira, o Marco Antonio Kraemer, o que fizemos?

Nada.

É o primeiro ano, desde que o jornal parou que nada fizemos.

Ele morreu?

Não.

Foi um descuido…

FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE É MEMÓRIA IMATERIAL DA CIDADE

segunda-feira, 26 de abril de 2010

MEMÓRIA IMATERIAL

DO PATRIMÕNIO CULTURAL

 

Esta crônica escrevi e publiquei dia 23 de outubro de 2003

(Há quase sete anos portanto…)

No final da semana passada, o Conselho Municipal de Cultura transformou a Feira do Livro de Porto Alegre em parte integrante oficial do nosso Patrimônio Imaterial

 

Walter Galvani

 

 

No palácio da Procuradoria Geral do Estado, na Praça da Matriz em Porto Alegre, participei ontem da abertura do seminário inteligentemente criado pela Comissão de Educação, Cultura e Esportes da Câmara Municipal da capital, presidida pela vereadora Clênia Maranhão, dedicado à discussão da Cultura Imaterial, mais propriamente da Memória da Cidade, do patrimônio cultural intangível.

Falei como patrono da 49a. Feira do Livro, embora tivesse sido convidado bem antes disso, como jornalista que tenho me dedicado à defesa desses insubstituíveis valores culturais. Mas, já que cheguei ao dia 23 como patrono eleito da Feira, falei sobre a própria Feira e também sobre a Praça da Alfândega, onde se desenrola este acontecimento que há muito extrapolou os limites da objetividade, para incorporar-se como um feito integrante desta memória imaterial de Porto Alegre.

Mesmo que hoje a Câmara Riograndense do Livro resolvesse se extinguir, a Feira continuaria. Há muito que dela apropriou-se a população e transformou-a num ato de reverência anual a este objeto sagrado de culto e devoção, que é o livro.

O ano se desenrola com suas cerimônias, seus ritos, seus prazos e suas datas marcadas e específicas que vão permitindo que se saiba, pelos cheiros e pelo perfume das flores, pelas chuvas ou pelos calorões, pelos frios ou pelas geadas, a quantas andamos. E assim chegamos à última sexta-feira de outubro. Não é preciso ter um calendário à mão. Basta perceber que os jacarandás floriram, que os sabiás estão cantando e que o ruído dos martelos se escuta por toda a Praça da Alfândega. Estão montando a Feira do Livro.

E assim chegamos à 49a. edição. Para imensa felicidade minha, fui eleito o patrono. E assim, assumo, como assumi hoje de manhã no seminário da Memória Imaterial desta cidade, a defesa do espaço-tempo, da ágora porto-alegrense, da Praça da Alfândega que, em sendo o local da feira, precisa ser bem tratada o ano inteiro. Ela tem habitantes, freqüentadores, trabalhadores, crianças de rua, aposentados que desfrutam o sol e o bate-papo dos amigos, ambulantes que não deambulam, pois são fixos e até comércio de sexo. Mas, é preciso que a praça tenha, o ano inteiro, as atenções que recebe no final do ano, com a Feira do Livro.

Compromisso de patrono que gostaria de dividir com as administrações públicas do município e do estado.

 

Crônica escrita em 23/10/2003

A DEUSA DO JACUÍ

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Crônica publicada no jornal DIÁRIO POPULAR de Pelotas, dia 25 de abril de 2010

 

Walter Galvani

 

 

Entre Agudo e Restinga Seca, onde caiu aquela ponte há tempos atrás, deve estar entrando na água uma deusa. É a “Deusa do Jacuí”. Em verdade, uma humilde balsa que fará o transporte, para lá e para cá, dos caminhões, ônibus, automóveis, carroças, cavalos, pessoas, malas, cartas, motos, que pretendem chegar ao centro do estado e que agora passaram a utilizar, todos, a BR 290 até São Sepé e dali retomando à direita ou o sul.

Pois é. Até quando a imprevidência das autoridades fará com que este estado repouse sobre precárias soluções?

Por mais encantadora que seja a “Deusa do Jacuí” como é que ela irá suportar toda esta carga e a cobrança diária que lhe será feita? Marcha a ré. Andamos para trás. E continuaremos andando…

Passaram os tempos de deixa estar para ver como é que fica. O que aconteceu com aquela ponte, assim como os postes de Porto Alegre, “energizados”, que matam quem neles se encosta, é apenas uma questão de trabalho, ou seja, de fiscalização.

E a ponte sobre o Guaíba que já nesta semana deu sinal de suas rugas e velhice? Até quando estaremos então, na dependência do que o tempo e o uso podem nos trazer?

É muito frágil o esquema de transportes e comunicações deste estado. Há soluções centenárias e há improvisações que se eternizam.

Mas, o que se exige hoje em dia é o “check up” imediato. Já que adotamos em tudo palavras inglesas, digo americanas herdadas da metrópole, então vamos andar também “up to date”.

E para isso, torna-se indispensável que, constantemente, os órgãos públicos, num clima de angústia e exasperação, tratem de examinar diariamente o que lhes está afeto.

Se alguém morrer eletrocutado, de quem será a culpa? Se uma ponte cair com mais meia dúzia de gaúchos, quem pagará a conta?

Se ruir um edifício, se pegar fogo uma igreja ou se a ponte do Guaíba não descer mais, depois de haver se elevado, tropegamente, quem será responsabilizado?

Eu, se atuasse na área, não dormiria mais…

Não é mesmo?

Enquanto isso, vamos improvisando e correndo atrás do prejuízo. Tomamos um gol e lá vamos nós, atrás do resultado, primeiro buscando o empate, depois uma pálida vitória.

O BEM ESTAR DO CAVALO

segunda-feira, 26 de abril de 2010

crônica publicada no jornal ABC DOMINGO de 25 de abril de 2010

 

Walter Galvani

 

 

Na capital do estado, e em breve a lei da imitação ditará que assim procedam os demais municípios, estuda-se uma nova lei que deverá limitar a entrada das carroças no perímetro central da cidade e com isso, é o que se diz, pensa-se na melhora das condições de vida do carroceiro e… do cavalo.

Em nome deste último animal, agradeço. Mas é mentira. Não estão pensando no “bem estar do cavalo” e muito menos do seu condutor. O que se pretende é, exclusivamente, facilitar o trânsito para os malucos do volante que não podem perder um segundo e ultrapassam, xingam, ofendem e até agridem os que por acaso obstaculizam o tráfego dos seus automóveis por alguma fração de segundo.

É o que temos. Antigamente, “passeava-se de auto”. Experimentem a fazê-lo, mesmo que seja rodando cuidadosamente no lado direito, e dentro dos limites estabelecidos pela lei, que fala em cinquenta por cento do mínimo, portanto a vinte quilômetros horários dentro das cidades!

Vosso repertório de palavrões será engordado significativamente, isso se não acabarem em algum Pronto Socorro, por haverem “trancado o trânsito”!

A nova velocidade que se implantou na cabeça das pessoas, que não permite a reflexão e a educação, não tolera que você seja “diferente” e que pense em proporcionar preferência a alguma pessoa, seja criança, jovem ou velho. Buzine e se duvidarem , atropele! Isso será aplaudido.

Lamentavelmente chegamos a esses extremos de mau comportamento, para que a chamada vida em sociedade continue a se praticar. Empurra-se! O que se quer é ultrapassar, e nas estradas, nas ruas das cidades, nas escadas rolantes, enfim, em toda a parte, é chegar primeiro, como se isso conferisse algum tipo de prêmio ou destaque especial.

Lembro bem da oferta que fizeram os ingleses a um rei da Arábia Saudita para que ele financiasse uma estrada de ferro que estavam construindo e como ele se recusasse, lhe perguntaram: “Mas, o que o senhor acha de chegar lá, em Bagdá ou Riad, um dia antes do que faz hoje?” Ao que ele respondeu: “E aí, o que faço com o tempo? Fico lá esperando que o dia passe?”

Perdemos a noção da vida, da educação, do tempo que as coisas tem e como a vida passa ou deve passar. Todos querem chegar primeiro. Morrendo ou pagando qualquer preço.

O ACERVO DO JORNALISTA ALBERTO ANDRÉ

sábado, 24 de abril de 2010

 

Walter Galvani

 

 

O jornalista vai trabalhando e acumulando livros, recortes, referências sobre isso e aquilo e, além disso, nos tempos contemporâneos, com registros de internet, resultados de pesquisas na “web” e outros meios ou mídias, como filmes, dvds, videos.

Imaginem o volume de itens após cinquenta anos de  trabalho!

Registre-se, é o que sucedeu com Alberto André, um dos maiores nomes do jornalismo rio-grandense, começou sua carreira nos anos 30 e trabalhou até o último dia, praticamente. Faleceu em 2001.

A ARI, Associação Riograndense de Imprensa, que foi inclusive presidida por ele durante meio século, tornou-se uma espécie de herdeira e hospedeira do seu maravilhoso acervo que, como soe acontecer com todos os profissionais que morrem em plena produtividade, se apresenta desorganizado e necessitando catalogação e arquivamento científico, depois da forçosa seleção e higienização.

Com isso, cinco salas do prédio-sede da entidade, na avenida Borges de Medeiros, 915, em Porto Alegre, serão destinados a abrigar o acervo do grande político e jornalista, lembrando que André além de haver presidido a entidade, atuou meio século no jornal Correio do Povo e foi vereador durante doze anos, a partir de 1952.

O projeto está sendo desenvolvido em parceria entre a ARI, a Câmara Municipal de Vereadores de Porto Alegre e a UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul).

Depois disso será franqueado ao uso, pesquisa, por parte dos interessados, mormente os alunos dos cursos de jornalismo. Aliás, Alberto André foi diretor da FAMECOS (Faculdade dos Meios de Comunicação Social da PUC/RS).

Nada mais justo, pois, que este destino ao seu arquivo, como disse o presidente da Câmara, Nelcir Tessaro, “restaurar o arquivo do professor Alberto André é restaurar a memória da cidade, pois é o passado que faz o presente”.

Esta “realização de um antigo sonho”, como acentuou muito bem o presidente da ARI, jornalista Ercy Torma.

E é também o sonho de  todos os jornalistas. São raros os que não acumulam livros, revistas, jornais, documentos, recortes, fotografias, mapas, desenhos, e hoje em dia ainda arquivos eletrônicos, sem dispor de espaços adequados, como ocorre com a maioria.

Por outro lado, a conscientização de que tais coleções, laboriosamente construídas, podem servir a toda a comunidade, deve se espraiar a todas as entidades, para que procedam como a ARI, nesse caso do Alberto André e que se organizem e assim se habilitem a receber tais acervos, muitas vezes desperdiçados pela necessidade e a precipitação dos familiares quando ocorre o falecimento de um profissional.

A SABEDORIA DOS BANCOS E O ESPÍRITO SANTO…

segunda-feira, 19 de abril de 2010

 Walter Galvani

 

Espírito Santo, no Brasil é nome de estado da federação e uma lembrança para os cristãos de uma das manifestações divinas. Até aí tudo bem, aprendemos no ensino fundamental. Ou primário, como se dizia antigamente. Em Portugal é nome de banco. Sábia decisão do país dos ancestrais da maioria brasileira e pátria da nossa língua que, tal como ensina o poeta Fernando Pessoa, a “língua é nossa pátria”. E eis que em tempo de destruição do ambiente e corrosão das relações inter-pessoais, de terremotos políticos e decadência de costumes, fica bem mergulhar na sabedoria dos… bancos. Tenho em mãos um folheto do Banco Espírito Santo, português, que resolveu presentear as pessoas com algumas lembranças de outros tempos, indiscutíveis e preciosas lições. Vejam só:

“O nosso gasto mais dispendioso é o tempo.” – Teofrasto, filósofo grego.

“Nada perdura, senão a mudança.” – Heráclito, filósofo grego.

“Na guerra, os acontecimentos importantes resultam de causas triviais.” – Julio César.

“Os deuses ajudam aqueles que se ajudam a eles próprios.” – Esopo, fabulista grego.

“Somos aquilo que fazemos consistentemente. Assim, a excelência não é um ato mas sim um hábito.” – Aristóteles, filósofo grego.

“Tememos as coisas na medida em que as ignoramos.” – Tito Lívio, historiador romano.

“Agir rapidamente, pensar lentamente.” – provérbio grego.

“Não é por as coisas serem difíceis que não temos ousadia. É por não termos ousadia que as coisas são difíceis.” – Sêneca, escritor romano.

“Um cavalo nunca corre tão depressa como quando tem outros cavalos para perseguir.” – Ovídio, poeta latino.

“Aquele que foge na altura certa, pode voltar a lutar.” – Marco Terêncio Varão, escritor romano.

Agindo rapidamente e pensando lentamente, vamos recordar quantas e quantas vezes tivemos oportunidade de aplicar tais ensinamentos, muitos deles entranhados em nosso dna de memória ou cultura, ou que nos sensibilizaram até de forma epidérmica, ao longo do nosso crescimento. Por vezes, lições esquecidas ou preteridas, por soberba ou ignorância. Ou puro desconhecimento de uma herança de sabedoria das civilizações orientais e ocidentais, lentamente acumuladas.

Se alguém nos houvesse soprado ao ouvido, em determinados instantes de nossa vida, quem sabe teríamos achado antes as soluções pelas quais ansiamos. Mas, vamos vivendo aos tropeções. Batemos num obstáculo, levantamos a cabeça, desviamos de outro ali adiante, seguimos, sob a névoa da perturbação, achando que poderemos chegar aos nossos objetivos. No entanto, quanto tempo perdido, quanta hesitação inútil, quanta energia desperdiçada, quanta economia não feita, quanto desgaste. E os anos passam, irremediavelmente. Nem nós, nem a cidade, nem o país, ninguém caminha com certeza e garantia no rumo certo, sem equívocos. No entanto, quando toda a sociedade, pelo menos aquela que nos toca mais de perto pelas origens geográficas, raciais, emocionais, integrada por indivíduos que, como nós, se emociona com as palavras perdidas de um hino que fala em “nossa mãe gentil” ou que explode nas tardes e noites de futebol ao escutar o trovoar dos gols feitos e perdidos, alguns sofridos, ah tão sofridos! – ou se permite acreditar nos resultados eleitorais e que a voz do povo, expressa pela maioria, será “a voz de Deus”, enfim que até crê  num Deus ou num “supremo arquiteto do universo”, se sente desorientada ou perdida, ou parece sê-lo, temos que buscar mais forças no fundo da nossa difícil passagem por aqui.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A TERCEIRA ONDA

 

Walter Galvani

 

 

Temos que estar preparados para a “terceira onda”, quem avisa é a Organização Mundial da Saúde. Como se já não bastassem a realidade e a neurose, a displicência e a descrença, a ignorância e a negligência, que cercaram o surgimento, a chegada e a propagação da tal gripe. Impropriamente batizada de suína, mas que teve origem sim, numa granja multinacional expulsa dos Estados Unidos e que se relocalizou no México, onde um menino foi contaminado pelo resultado da mistura da sujeira com os danos ao meio ambiente e gripou-se, iniciando a ciranda toda.

Agora, nos avisam, e é um organismo sério, vem aí a Terceira Onda, tal como nas pandemias anteriores (1918, a famosa espanhola e a asiática de 87). Pois, tal como nas outras, esta pandemia está aí fazendo estragos.

Por aqui, a Yeda deu uma boa “paulada” no governo federal e, esperamos que tenha acertado na “mosca”: a devolução dos trechos de estradas pedagiados, aos cuidados da União. Algo me diz que isto será apenas um “round” a mais, na briga que nasce um ano antes e será resolvida, se for, ou pelo menos organizada nas próximas eleições.

É a mesma coisa que sucedeu com o absolvido senador José Sarney, a candidatura provável da antiga ministra de Lula, Marina Silva, as possibilidades da candidata Dilma Roussef e assim se terá o quadro, o xadrez incompleto da república. Incompleto e imperfeito, mas novos lances acontecerão, com movimento de peões, bispos, cavalos e até reis e rainhas… Quem joga xadrez, sabe.

Os suínos não virão a Expointer, aqui no Rio Grande do Sul, e os perús, já atingidos pela gripe em Valparaíso, no Chile, não fazem parte do elenco dos animais que comparecem ao Esteio.

Mas, entre estradas, gripes, suínos e outros animais, pedágios e atos secretos do senado, baixa de um sem-terra em São Gabriel, acho que o ambiente estaria muito favorável à presença de Cícero, o célebre orador, escritor e político romano, que foi capaz de editar há mais de 2.000 anos, sua indignação com as famosas “Catilinárias”. Enquanto ele não vem, vamos tratando de colocar nossas barbas de molho, como se dizia ao tempo da gripe espanhola…

SONHANDO COM 2011

domingo, 18 de abril de 2010

 

Crônica publicada hoje no ABC DOMINGO

Walter Galvani

 

 

Não acredito! O governo federal projetou um salário mínimo de R$ 535,91 para o ano de 2011! Não me contenho, sou capaz de explodir de alegria, naturalmente imagino a satisfação das pessoas que serão beneficiadas com tão magnânima medida! Imaginem só, hein! Meter no bolso esta quantia toda, representando um aumento a partir de 1º de janeiro, de tal volume, que os trabalhadores terão que refazer suas programações. Quem sabe a compra de um apartamento? Férias em Acapulco? Uma “escapada” a Buenos Aires e Montevidéu, para ser um pouco mais modesto? Ou zerar as prestações em atraso?

Falando sério: acho que esta informação escapou do Palácio do Planalto com a intenção de catapultar o prestígio do governo para regiões insondáveis do espaço exterior!

Quem é que vai resistir ao charme de um aumento desses?

Se eu fosse presidente do TSE tomaria imediatas medidas para evitar que se tornasse inviável qualquer corrida eleitoral, por desnecessária.

Sim, sabemos que o salário mínimo para a economia funciona mais como parâmetro e gatilho do que propriamente como indicador do que deve ganhar um empregado sem maiores qualificações. Mas, e os milhões de empregados “sem maiores qualificações”, os estreantes na carreira do trabalho, as empregadas domésticas, como é que fica esta gente?

O erro, de fato, é permitir que o SM funcione como a base de cálculo para ene atividades, ressarcimentos, indenizações, e o percentual do seu aumento anual como ponto de partida para reposições e cálculos atuariais. Esta é que é a situação errônea que vem sendo utilizada como padrão há muitos anos e é, portanto, responsável pelo efeito sanfona ou “geringonça”…

A única providência válida que a sociedade poderia tomar seria estabelecer a reação paulada, o “efeito safanão” que, para quem não sabe, quer dizer passar do pensamento à ação e cobrar dos eleitos desaforos como esse e outros que se praticam nesse país.

Ah, mas não vai funcionar nada neste 2010. Esquecía-me que a Copa do Mundo começa logo ali, na metade do ano e a partir do instante em que a bola rolar, só falaremos sobre ela e sobre os craques que ganham 466 salários mínimos por mês…

É O BRASIL 2010…

terça-feira, 13 de abril de 2010

 

Ladrões roubam caixas eletrônicas, assaltam cargueiros nas rodovias, furtam cidadãos que caminham displicentemente, ou os agridem para levar celulares, cartões bancários, cédulas ou até moedas… Outros preferem transferir do erário público para suas contas particulares e outros ainda fazem extorsões através de ameaças. Esta é a vida que temos em 2010 no Brasil.

Será muito diferente do que ocorria durante as chamadas “trevas da Idade Média”? Claro que não. Naquela época havia salteadores de estrada, bandidos que invadiam castelos e até bandoleiros na floresta, havia. Lembram de Robin Hood que roubava dos ricos para dar aos pobres?

De qualquer maneira, as regras do jogo eram conhecidas e o número de assaltos e roubos, na certa era menor.

As estatísticas da época – em que não havia estatísticas para fraudar a verdade, aliás – apontam para um crescimento consentâneo com o aumento da população.

A diferença é que o mundo cresceu e continua crescendo muito rapidamente, e a evolução geométrica da pirâmide da má fé e da fraude, bate todos os demais indicadores.

No Brasil, país exemplar da convivência pacífica, a coisa é ainda pior.

Vamos ter, contudo, uma oportunidade única este ano: teremos eleições gerais. Então, se tivermos dúvida sobre determinadas personalidades, será a hora de excluí-los da vida pública.

Nunca é tarde para mudar. Quer dizer: tarde é, mas ainda é possível, sempre é possível.

Como o colega Braga Gastal, que assim encerrava seus comentários diários, “é o que vos tenho a dizer, amigos, nestes dois dedos de prosa”…

Walter Galvani

A CULPA É NOSSA E DE MAIS ALGUÉM…

segunda-feira, 12 de abril de 2010

A CULPA É NOSSA

Crônica publicada no jornal ABC DOMINGO

no dia 11 de abril de 2010

 

Walter Galvani

 

 

 

Não adianta fingir que não é conosco, nem rezar para que a tragédia não se estenda até aqui, nem tampouco dizer que não temos nada com isso. Temos sim, e o nosso silêncio, é que estabelece a cumplicidade com os maus governos que tem se sucedido, por toda a parte. Se agora foi no Rio de Janeiro ou Niterói, amanhã ou depois poderá ser em Porto Alegre ou Novo Hamburgo. Olhem ao redor, levantem a vista! Estão vendo aqueles magníficos morros cheios de casas dependuradas? Pois é. São candidatos a deslizamentos.

As alterações climáticas, em todo o mundo, são o resultado dos maus governos, da demagogia e do desleixo, da ignorância das pessoas e dos crédulos que se deixam envolver pela lábia dos espertos que lhes vendem os terrenos e ou autorizam a construção dos barracos precários ou das casas improvávelmente equilibradas sobre as encostas ou nos locais de fácil alagamento. Que bela paisagem, que maravilhosa visão de vales, encostas, mar e céu, conforme o caso! Só que, a ocupação de terras que deveriam estar proibidas e serem alvo de policiamento constante, redunda em mortes.

Vamos lamentar, por certo, essas centenas de mortos, mas, a culpa cabe às autoridades que agora se espantam e dizem: “Mas este lixão estava desativado há cinquenta anos!”

Pois é, a poesia da música popular brasileira já consagrara a visão beatífica dos morros cariocas: “O morro não tem vez, e o que ele fez, já foi demais!”

Foi demais, sim. Mas, é claro que no Brasil, a impunidade continuará garantindo a incolumidade dos que autorizam a ocupação de tais terrenos e só quem pagará por isso é o próprio ocupante, invasor ou comprador, não interessa. Locais que o estado urbaniza e coloca redes de água, luz e em certos casos até esgoto. Ou isso não significa a legitimação do erro?

Entrem em massa na Justiça, por favor, acumulem os corredores dos tribunais, pode ser que esta ação coletiva assuste os que estão no Poder. Aliás, eleitos por nós…

E essas tragédias, serão cada vez maiores, por que a ocupação se multiplicou nos últimos anos, a população continua crescendo de forma assustadora e assim, cada vez morrerá mais gente e culparão a Natureza…