A TRAVESSIA
(Crônica publicada no jornal ABC DOMINGO)
Walter Galvani
Pronto! Este domingo de Páscoa coloca o ponto final no longo feriadão que só terá repetição parecida, lá pela altura do 7 de setembro ou do 15 de novembro. Com isso, depois da circulação inacreditável nas estradas, dos congestionamentos na Serra e no Litoral, dos acidentes, mortes, ferimentos, dos milhões de litros de combustível consumidos, de um modo geral voltaremos todos ao trabalho, amanhã, recuperados ou cansados fisicamente pelos transtornos das viagens, mas com as baterias espirituais recarregadas.
Vamos para a segunda parte do ano e agora é a hora de trabalhar sem mais delongas. Passou aquele momento de “vamos decidir isso depois da Páscoa”, “Faremos uma reunião depois dos feriados!”, “A gente discute isso na volta da praia” e assim por diante. Este tem sido o comportamento típico do Rio Grande do Sul, e de outros estados onde o Litoral ou a Serra são promessas atrativas distantes e improváveis. Nesta segunda parte do ano chegará o inevitável Inverno, aquelas belas manhãs de cerração e frio, depois um solzinho generoso e reconfortador, mas também a necessidade de produzir aportando o seu farol de exigências ali, do outro lado da travessia que fizemos. Sim, travessia, para seguir a etimologia e a origem da palavra Páscoa, que veio para nosso vocabulário e para nosso sistema de vida, importada da Pessach judaica, que marcando um episódio da sua história, segundo alguns, mais virtual do que documentada, assinalou a chegada à Terra Prometida.
Essa tal de “Terra Prometida”, é preciso que se tome no seu sentido simbólico e esquecer a guerra nossa de cada dia, pois do contrário vamos recuar para o segundo século em nosso calendário, quando as tropas invasoras que propugnavam pela “Pax Romana” extinguiram a Judéia e criaram a Palestina e compreender porque continuam lutando e se matando no Oriente Médio.
Aqui no Brasil esse paraíso (por enquanto…) sentamos todos à mesma mesa e comemos e brincamos e torcemos todos pela seleção verde-e-amarela e temos amigos “habibs”, judeus, filhos da África ou de olhos amendoados.
Portanto, irmãos! Todos de mãos dadas, ao trabalho que estamos construindo um gigante, mesmo sem o saber.
“SOMOS UMA FAMÍLIA”
(Crônica publicada neste dia 4 de abril de 2010 no jornal “Diário Popular” de Pelotas
Walter Galvani
Não sei se sou eu o ingênuo, ou o jogador Bolívar do S.C.Internacional, ou somos todos bobos ou estamos no caminho certo. Essa Páscoa, cujo nome provém do Pessach judaico, me parece que estabelece a ligação semântica e idiomática com a idéia de Travessia, que está na raiz da palavra para o povo judeu e, consequentemente, também para os cristãos. Ou Jesus não era judeu? Claro que sim, não é mesmo?
Pois este jogador de futebol, abordou a crise que o clube vivera por maus resultados dos últimos jogos até à vitória sobre o Cerro, na seqüência de matéria publicada pela “Folha de São Paulo” que dizia que “o vestiário colorado estaria rachado entre “gringos” e “pagodeiros”. Na interpretação popular, num certo sentido pejorativo, “gringo” é estrangeiro, no caso uruguaios e argentinos, e brasileiros os “pagodeiros”, naturalmente caracterizados pela batida e canto de música popular brasileira deste estilo. Bolívar disse: “Aqui sai pagode de tudo é que é jeito, de gringo com brasileiro, de brasileiro com gringo. É todo mundo amigo, não tem diferença de cor, credo ou religião. O nosso vestiário é uma família”.
Então, será mesmo que vivemos num país sem restrições de cor, religião, situação social e econômica?
Pois então, a conclusão que tiro, é que o vestiário do S.C.Internacional é um pequeno microcosmo da sociedade em que vivemos, onde, de fato, não há preconceitos e todos somos irmãos. Nada melhor para uma Páscoa, embora possamos todos estarmos envolvidos num processo de cegueira causado pela “inocência” e ou a boa vontade… o que não deixaria também de caracterizar uma declarada ingenuidade…
É assim o Brasil? E o Rio Grande do Sul de um modo especial? Nossas principais cidades como Pelotas ou Porto Alegre são exemplos nacionais de pureza de intenções e elevação de comportamento ou é o vestiário do S.C.Internacional que se destaca em meio a um povo cheio de discriminações e preconceitos?
De vez em quando é bom mergulhar no esporte, pois ele representa, isso sim, uma amostragem do comportamento da população, reprimido ou não, como bem o demonstram nossas arquibancadas, agora não apenas aos domingos, mas quase todos os dias, com suas inequívocas demonstrações de violência e de apoio à ela, quando não praticando atos condenáveis à margem das partidas de futebol.