A nossa frota de veículos cresceu 6,74% de 2008 para 2009. (E em 2010?) Só em Porto Alegre foram 73.000 novos carros que se somaram à frota existente, mesmo considerando os 15.000 que foram retirados de circulação (danificados definitivamente, queimados, destruídos de qualquer forma), pois vieram 54.000 de fora e 39.000 foram transferidos para outros estados. Mesmo assim, na conta final, a frota cresceu em média, 200 por dia.
Podemos continuar fazendo as contas e admitindo que se mantivessem os números de 2009, teríamos até aqui, mais 31.800, aumentando a frota de Porto Alegre, só Porto Alegre anotem, em mais alguns sobre os 274.000 que estavam registrados na capital, chegando portanto, aos 378.800.
Acresça-se à esta conta mirabolante o crescimento das unidades usadas em toda a região metropolitana, com Novo Hamburgo e Canoas comandando o espetáculo, cidades onde o aumento em 2009 foi de 12.994 e 9.465 respectivamente e se terá uma idéia do resultado que se espera e a explicação dos repetidos engarrafamentos.
Difícil seria entender o que ocorreu no dia 8 de junho de 2010, quando um acidente entre dois ônibus e dois automóveis na pista de saída, sentido capital/interior, às 4 da tarde, gerou uma tal confusão que todo o centro de Porto Alegre se tornou intransitável até às nove da noite.
É verdade que foi bloqueada a pista para atendimento aos feridos e retirada dos veículos (um dos ônibus precisou ser rebocado), mas difícil seria entender como refluiu tudo para o interior do centro histórico da capital.
Mas, não terá sido a primeira, nem será a última vez.
Não adianta reclamar sobre despreparo dos agentes de trânsito, porque não se trata só disso.
Este crescimento incontrolável da frota teria que ser acompanhado pela adoção de medidas mais radicais, proibição de circulação nas vias centrais para veículos de maior porte (camionetas, por exemplo, não circulam no centro de Paris), construção de serviços de transporte coletivo confiáveis, mas estamos falando de trens, de metrôs, de soluções ousadas.
Fazer uma frase de efeito seria escrever aqui que um dia ficaremos todos parados no grande congestionamento final, mas não estamos longe desta ficção, escrita na primeira metade do século passado.
No Japão, para que se tenha uma idéia, é vedada a compra de carro para quem não comprovar que tem uma garagem, propriedade sua ou alugada, para guarda-lo quando não está em uso, o que, de pronto estabelece uma certa restrição. Mas não é só isso. Lá existem sistemas de transporte coletivo por trem para tudo que é lado.
Por que iria eu de carro até Canoas, por exemplo, se posso fazê-lo pelo Trensurb? Mas, é que o Trensurb é insuficiente, pois suas linhas só me levam ou trazem ao centro da capital.
Precisamos mais, muito mais.
Certa vez, lá pelos anos sessenta, fui à Alemanha e vi um trem suspenso sobre um rio que cruza a cidade de Wuppertal.
Escrevi sobre isso no jornal “Folha da Tarde”. Claro, o jornal não circula mais, foi uma das vítimas da crise que abalou a Cia. Caldas Jr. Em 1984. Parou de circular a 15 de junho daquele ano.
Entre os problemas que afetavam a antiga empresa, havia o agravamento das dificuldades de transporte dos jornais, por causa do crescimento da frota e a falta de medidas visando o transporte coletivo.
Já o trem de Wuppertal, o “Wuppertaller Schwebebahn”, circulando a 12 metros de altura sobre as águas do rio Wuppertal que atravessa a cidade, e a 8 acima do nível das ruas, a velocidade média de 60 quilômetros por hora, nunca teve um acidente de trânsito, claro, não tem interferências com outras vias, nunca parou e nunca sofreu com engarrafamentos…
Conta-se como anedota, que o único desastre ocorreu nos anos 50, quando um elefantinho de um grande circo internacional, que viajava no último vagão especialmente preparado para ele, assustou-se e se atirou lá de cima…
O único.
Nenhum morto, nenhum ferido nestes anos todos e milhões de passageiros transportados.
Porque Porto Alegre não poderia construir algo semelhante em cima do riacho Ipiranga?
Imagine-se: percorrer toda a avenida Ipiranga até Viamão?
Pois é.
Enquanto continuarmos adotando soluções parciais ou esperando o milagre, o milagre não acontecerá é claro e teremos engarrafamentos cada vez maiores e aparentemente inexplicáveis como o desta semana.
Até, repetindo a frase de efeito, o engarrafamento final…
Levem água e bolachas a bordo…
Walter Galvani, em 9 de junho de 2010