UMA TRAGÉDIA SUL-AFRICANA

A FATALIDADE E O DRAMA, uma crônica para o Diário Popular, de Pelotas, mais antigo diário em circulação no Rio Grande do Sul

 

Walter Galvani

 

Nelson Mandella, o herói da África do Sul, é, de certo modo, o fiador, o ponto de equilíbrio e o verdadeiro herói do seu país. A realização da Copa no território sul-africano é um preito de homenagem a ele, o grande nome, o inigualável ser que se sacrificou e foi sacrificado, perseguido pelo odioso regime que implantou o “apartheid” e prisioneiro durante 27 anos.

Libertado, comandou a libertação do próprio país, assumiu a presidência, consagrou-se perante o mundo.

Agora, com a Copa do Mundo realizando-se lá, aparece aos olhos de todos os povos como o incomparável e verdadeiro representante de sua terra.

E então, no dia em que apareceria perante todos, focado por todos os canais de televisão, visto por todos os jornalistas e fotografado por todos os fotógrafos profissionais e amadores, no alto de sua glória, morre em acidente, justamente voltando para casa da cerimônia inaugural, sua bisneta.

Só numa  tragédia grega se poderia imaginar tal desfecho trágico, um casamento tão dramático entre o destino da personagem principal e os seus círculos.

A fatalidade deu o braço ao drama e assim, marcou-se, de forma indelével, e só os vazios, os hipócritas e os ignorantes não perceberam que a Copa do Mundo estava cheia de sangue e fel neste seu momento inaugural.

Ele é tão forte que se há de superar, mais uma vez, mas se fraquejasse agora poderíamos entendê-lo.

Nelson, o heróico resumo do próprio país, vai enfrentar com as duas mãos o seu próprio destino e resolver a sua vida. Qualquer desatino que ele cometesse, nós o entenderíamos.

Mas, este robusto carvalho, esta fortaleza não se deixará abater e fará com que a bandeira do seu país tremule vitoriosamente, como organizadora da Copa do Mundo do esporte mais popular de todos os tempos.

Se o time perder ou for desclassificado mais adiante, paciência. O recado já foi dado.

É deste material que se fazem os semideuses.

Se neste momento, fosse fechado o pano, a peça já estaria concluída.

Não há mais nada para retocar ou acrescentar.

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