SARAMAGO E A LÍNGUA PORTUGUESA

 

 

Walter Galvani

 

Ele era áspero pela própria natureza e a maneira como tratava a língua e a vida, também. Não fazia concessões e isso lhe  custou muitas perdas pessoais. Sofreu censura e também a exerceu como diretor do “Diário de Notícias” de Lisboa, segundo muitos jornalistas portugueses. Casou-se com uma espanhola (Pilar del Rio)  e foi morar numa ilha espanhola, Lanzarote, no arquipélago das Canárias e não quis voltar a morar em Portugal. Era um apaixonado pelo Brasil, era quase um brasileiro, mas criticava-nos também.

Esteve aqui uma dezena de vezes e pelo menos cinco no Rio Grande do Sul. Era detentor do título “Honoris Causa” da UFRGS, recebido em 1999. Em certo momento aboliu a tradicional pontuação usada em nossa gramática, mas Saramago, para muitos portugueses “o sal amargo”… podia tudo, pois era o único Prêmio Nobel em nossa língua e, portanto, o que mais fez por ela ao longo de sua vida. Longa, que chegou aos 88 anos, mas poderia ter ido além, não fora uma leucemia que chegara nos últimos anos. Viverá mais, pois viverá para sempre. Pela franqueza de suas opiniões políticas, criticou inclusive o seu partido político de opção, o Partido Comunista português. Agora “ele é eterno”, como disse Nélida Pìñon. “Escrever é fazer a morte recuar ou ficar parada, congelada – escreveu ele – é dilatar o espaço da vida!”.

Então o principal é o que vem agora com a sua partida: Saramago se tornou um símbolo da afirmação e da vitória da língua portuguesa, tanto que sua marca maior ficará no fato de ter sido o primeiro escritor que dela fez uso a alcançar o mais significativo prêmio literário, o Nobel de Literatura, (1998), e que ficará para sempre mostrando que é possível sim, alguém escrevendo neste humilde descendente do latim popular, chegar à consagração mundial. E além de abrir caminhos e dar-lhe relevância, rompeu com certas estruturas, rasgou suas costuras e evidenciou que ela está aberta aos modernismos. Uma porta larga pela qual poderemos ingressar, acompanhando o féretro de Saramago, rumo à eternidade.

E humildes servos da língua, poderemos comemorá-la, mesmo que um dos seus “padrinhos” maiores tenha partido, a cada ano, no “Dia da Língua Portuguesa”, dia 5 de maio, instituído pelos países que integram a Comunidade Lusófona, ou seja Brasil, Portugal, Angola, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique, São Tomé-e-Príncipe, Timor Leste., e onde quer mais que se cultive a 5ª. língua mais falada do mundo.

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