A MENTE E A MENTIRA…

Walter Galvani

 

Quero falar da peça teatral de um americano, Sam Shepard, que está sendo apresentado como um fenômeno da dramaturgia, o mais novo e legítimo sucessor de Tenessee Williams, e que escreve, como Shakespeare de forma sempre capaz de resistir impavidamente às atualizações necessárias. (Ou seja: ele escreve “cada vez melhor” como se diz de Shakespeare apesar de haver falecido há 394 anos.) “A lie of the mind” no original, “A mente e a mentira”, como os brasileiros resolveram para a temporada no Brasil, que começou em junho com o ator Malvino Salvador, que é também produtor e com a direção de Paulo Moraes. Mas quero falar dessa peça, porque ela estará como nunca em cartaz no Brasil, no momento em que se aprovam coisas inacreditáveis no Congresso, como, por exemplo, as duas leis que se metem na vida íntima dos casais: aquela que determina seis meses de licença-maternidade e essa de que a paternidade é atribuída, sem dúvida, a quem se recusar a fazer um teste de DNA.

Ora, os mentirosos de plantão estão por aí mesmo. Imaginem um desses tipos se apresentar como pai do filho de uma atriz famosa ou de uma filha de banqueiro rico e se recusar a fazer o teste de DNA? Já pensaram nesta hipótese? Por outro lado, tenho pena das mulheres que dizem adeus ao mercado de trabalho, ficando seis meses fora do seu posto, deixando assim, bem claro, que não são necessárias e aquelas que, sem culpa, ajudarão a fechar as vagas para mulheres, pois, seis meses fora? “Então, será melhor não contratar mulheres.” E os senadores que aprovaram estas leis, dizem quer estavam trabalhando a favor delas…

Vejam a peça, sugiro, que começa pelo sugestivo título de “A mente e a mentira”… Sam Shepard, grande ator, autor de 45 peças, detentor de 11 prêmios, sabe muito bem porque escreveu este drama que enovela mentiras familiares e sociais e traça um panorama do cinismo e da hipocrisia na sociedade mundial. Sim, esta não escapa da globalização, não tem regime político, nem nacionalidade.

Mentirosos de plantão! Ao Teatro, por favor! Mas, não mintam que foram, quando ficaram apenas fumando no “foyer” ou aproveitaram para ir a algum espetáculo ridículo em qualquer outro lugar.

 

 

Especial para o ABC DOMINGO de 8 de agosto de 2010)

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