Arquivo de setembro de 2010

A LUZ E A BELEZA DO PAMPA

quinta-feira, 30 de setembro de 2010


Walter Galvani

É preciso que se faça alguma coisa, e, nesse sentido, “Netto e o domador de cavalos” entra com uma preciosa contribuição: preservar a beleza, a pureza e a força da paisagem do Pampa, que sem saltar sobre as cercas e muros que, aliás, não existiam, nos deixam atados ao céu, ao campo, rios, coxilhas, os girassóis e os ventos, emudecidos diante da claridade e da vastidão, do galope dos cavalos e da brutalidade dos homens.

É isso que se pode ver e ler nas lentas imagens que desfilam com brilho e precisão, provocando uma catarse histórica nos espectadores nesse filme que faz uma releitura do “Negrinho do Pastoreio”, a nossa lenda. No caso dos porto-alegrenses, além de tudo, uma hipnose múltipla porque podem ver na tela, seus vizinhos de bairro ou seus conhecidos da Rua da Praia, como Milton Flores da Cunha Mattos, Ivette Brandalise, Lu Adams, Werner Schünemann, Fernanda Carvalho Leite e Zé Victor Castiel. Claro, e há a inteligência do diretor Tabajara Ruas por detrás de tudo.

Mas, no caso dos membros do Conselho Estadual de Cultura, a experiência é ainda mais enriquecedora, porque se sabe, pela informação que o filme estampa e até pelos créditos, que um dos integrantes desta nossa instituição, está brilhando por detrás das câmaras com sua sensibilidade, bom gosto e capacidade técnica: não há nada de melhor neste filme do que a fotografia de Ivo Czamanski.

Sentimos, ao verem deslizar suas cenas, de começo ao fim, a lembrança de um nome de tanto significado na história do cinema, quanto do fotógrafo Gabriel Figueroa, e até pelos valores defendidos no filme, também a direção se aproxima, especialmente no ritmo e na inspiração nos costumes das camadas mais populares ou discriminadas, da direção de Emilio Fernandez, completando-se assim a lembrança da dupla que marcou o cinema mexicano das décadas de quarenta a setenta do século passado.

Ver o “Netto e o domador de cavalos” foi uma experiência que nos traz de lá dos recantos mais distantes da memória e da vida, as velhas matinês dos cines Imperial e Central ou Rex.

E assim, foi o mesmo que rever trechos de “Rio Escondido”, “La Perla”, “Los olvidados”, “Flor Silvestre”, “Maria Candelária”. Ou indo mais longe, atrás da obra de Gabriel Figueroa, o gigante da fotografia, que nos brindou com tantos momentos emocionantemente inesquecíveis, os perfis dos velhos templos e modernas catedrais, os “rios escondidos” ou os desertos e também os mares mexicanos. Ele foi adiante, nos Estados Unidos esteve também, e só para lembrar em “A noite do iguana”, dirigido por John Huston ou “O fugitivo”, do grande John Ford.

O céu, o pampa, o perfil dos cavalos, as nuvens, o pôr-do-sol, a hierática solenidade dos personagens, do bem e do mal, tudo está ali, retratado pelas mãos, os olhos e o coração do Ivo Czamanski.

Ele poderia ganhar um “Oscar” por este filme, pela lembrança de Gabriel Figueroa ou até em homenagem também a Emílio Fernandez que, curiosidade, apesar de não ter deixado seu nome grudado à estatueta, foi, em verdade o modelo da escultura criada por Sir Cedric Gibbons para premiar os melhores do cinema. A versão mais corrente para o nome do prêmio é a que se atribui à Margareth Herrick, secretária da Academia que, ao ver a estatueta exclamou: “Parece meu tio Oscar!”

Receba, pois, Ivo Czamanski, o nosso Prêmio “Gabriel Figueroa” pela sua fantástica criação de imagens que sustenta o filme.

DEIXE O CARRO EM CASA…

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

 

Walter Galvani

 

 

Você pretende ir a Porto Alegre nos próximos dias? Pois então, não use seu carro. Vá de ônibus, quem puder pegar o Trensurb que o faça, não vale a pena arriscar-se a passar duas ou três horas imobilizado na BR 116 ou avenida Castelo Branco. Bobagem, perda de tempo, inutilidade.

Desperdício.

É que, por qualquer coisinha agora, o trânsito tranca nas ruas centrais da capital, saturada para o número de veículos que dispõe e mais os dos visitantes.

Hoje é uma obra do Dmae, um cano que se rompeu, amanhã será a manutenção do túnel da Conceição, depois de amanhã as obras da Arena do Grêmio ou um grande clássico de futebol, ou as eleições, ou a ponte móvel do Guaíba que se ergueu e não quis descer, como já ocorreu, enfim, não dá para contar com o tranquilo acesso à Porto Alegre, seja por que lado for.

Só pelo lago. Era rio. Agora é lago. Daqui a pouco ele se rebela também. Uma senhora dessas que escreve para os jornais perguntando isso e aquilo e reclamando, muitas vezes com razão, perguntou qual o motivo de não existirem mais barcas fazendo a travessia, pelo menos para safar as estradas na hora em que a ponte se nega a cumprir o seu serviço e antes que saia do papel a prometida segunda.

Pois é, já houve isso, barcas ligavam a zona sul de Porto Alegre com Guaíba, desde o tempo em que aquela cidade se chamava Pedras Brancas.

As pedras escureceram pela sujeira das empresas papeleiras, desde os tempos da Borregaard, o topônimo da localidade mudou, mas as dificuldades só cresceram, até porque, 70 novos veículos por dia são emplacados na capital e basta fazer a conta,  para saber que, não vai dar certo…

O que está acontecendo agora é pouco do que virá por aí nos próximos meses, e o remanejamento do tráfego já começa nesse mesmo fim de semana, agora por causa das obras de recuperação do túnel.

Então, como aliás ontem “festejou-se” o Dia Nacional do Trânsito, o melhor é prevenir-se para não perder a hora dos compromissos. Não engrosse as correntes de tráfego, use coletivos quando puder, táxis quando for conveniente e economize sua gasolina, o valor dos estacionamentos, seu tempo e sua paciência.

 

Para o jornal ABC DOMINGO de 26/9/2010

A REVOLUÇÃO QUE NÃO ACABOU…

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Walter Galvani

 

 

A paz foi assinada em Ponche Verde, as escaramuças cessaram em 1845, mas a Revolução ou a “Guerra dos Farrapos” ainda não acabou. Gerada pelo espírito da Revolução Francesa e influenciada pela Independência Americana, que deixara de ser colônia americana em 1776, descontente com os rumos do Império brasileiro e com as medidas que afetavam a economia do sul, através do protecionismo às importações da Argentina, mais o espírito do Iluminismo que custava a viajar da Europa para cá, mas chegava, a República Rio-Grandense, que começara a nascer com a tomada de Porto Alegre a 20 de setembro de 1835, ainda vive no coração dos gaúchos.

Isso é inegável e se constata a cada 20 de setembro, com direito a desfiles, acampamentos farroupilhas, cultivo de tradições, canto e dança e consumo de alguns milhares de quilos de costelas e lombinhos. Não se pense que a discussão se limita a estes piquetes e palcos, pois invade gabinetes e salões, mesmo os mais rebuscados, pois tem coisas que ainda não foram entendidas nem por um, nem pelo outro lado.

Agora mesmo, diante do fato social inegável que é o cultivo das tradições, nascido com o desenvolvimento empolgante dos CTGs hoje difundidos pelo mundo todo, praticamente onde haja brasileiros emigrados ou seus descendentes, ainda persistem certas incompreensões, bem como grande é o espanto dos demais irmãos brasileiros ao perceberem a extensão deste fenômeno, o que facilita a reação de nos carimbarem como separatistas e portanto, usarem de toda e qualquer discriminação. “Pois – alegam eles – esses não querem ser brasileiros!”

Nada adianta toda a argumentação de que a “grande revolução” buscava a implantação de uma República e a ela queria converter toda a nação brasileira. E, com o folclore que se criou, aqui usada a palavra no sentido de “pitoresco”, “exclusivamente regional”, criticam os rio-grandenses por saberem de cor e cantarem o hino, que, como todos sabemos diz que “sirvam nossas façanhas, de modelo à toda a Terra!”

É demais para “eles” e como, além disso, impusemos durante anos presidentes e ditadores ao resto do Brasil, e até no futebol frequentemente fazemos predominar uma superioridade que é reflexo de métodos e comportamentos, fica difícil a compreensão da nossa Revolta.

CASA, COMIDA E… CULTURA…

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Crônica publicada nesse domingo no jornal ABC DOMINGO

por Walter Galvani

 

 

Participei dia desses de um encontro de alto nível, promovido pelo Conselho Estadual de Cultura, com os candidatos ao governo do estado ou seus representantes para tratar desse tema, que deveria se constituir no prato principal de suas  plataformas, se vivêssemos num país desenvolvido como todos sonhamos Projetos Culturais. Mas, sabemos que as preocupações dos eleitores transitam hoje entre casa, comida e roupa lavada e pouco mais do que isso, como emprego e aposentadoria. Depois, talvez obras viárias e um pouco de patriotismo e regionalismo, o que também não deixa de ter um certo cunho cívico.

A platéia que se concentrava no evento só queria saber o que os programas incluíam de atenção às artes, à dança, ao cinema, à literatura, ao teatro, aos espaços culturais e à defesa do patrimônio histórico.

Um político mais experiente resumiria “tudo o que não enche barriga”, assim como outros, ainda mais experientes ou pelo menos mais atilados, diriam que é preciso que a Cultura passe também a ter significado econômico, para tê-lo político. Pois não é que tem? Basta pesquisar para descobrir o quanto o cinema e o teatro movimentam, a música, e até também o turismo e a gastronomia, resultantes do que instiga e provoca a atividade artística.

Até uma lenda tem valor, assim como as tradições gaúchas, como o demonstram os tantos acampamentos farroupilhas que até o dia 20 pontilham o Rio Grande.

E a nossa preocupação ontem e ante-ontem ia para o Cerro do Jarau, ali perto de Quarai, longe dos olhos e perto do coração, onde ardia em chamas a cova onde poderia ter aparecido a Salamanca. Sim, a “Salamanca do Jarau” e, consequentemente, vinha a nossa lembrança, João Simões Lopes Neto e com esse nome, a literatura, a memória, a tradição, e até a “teiniaguá encantada” e as diferenças culturais e religiosas, a vida, a língua e o Pampa.

Isso tudo faz parte das veias e artérias, vértebras e vísceras que compõem o organismo cultural. Portanto, fiquem tranqüilos e convencidos, senhores eleitores, que os candidatos que estão pensando em Cultura, em ativar e fortalecer organismos da área, podem e devem, se eleitos forem, ativar seus planos pois até resultados econômicos ela produz.

“LAÇOS FORA!”

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

 No dia 7 de setembro de 1822, às margens

do riacho Ipiranga, então um belo curso

d’água, hoje um arroio imundo que quase

não se vê, mas fede, Pedro,  herdeiro do trono

português, depois Dom Pedro IV, e antes

disso Dom Pedro I, do Brasil, exclamou:

“Laços Fora, soldados! Camaradas! As côrtes de

Lisboa, querem mesmo escravizar o Brasil!

cumpre portanto declarar já a sua

independência!

Estamos definitivamente separados de Portugal.

Independência ou morte, será a nossa divisa!”

UM BANQUETE NO CAMPO

domingo, 5 de setembro de 2010

por Walter Galvani

 

1752 – Grande banquete, em pleno campo, marcando a confraternização dos estados maiores e das tropas de Gomes Freire de Andrade, o nobre português, Conde de Bobadela e o do Marquês de Valdelirios, da Espanha, para assinalar o final da demarcação das fronteiras americanas de Portugal e Espanha, em cumprimento ao Tratado de Madrid, assinado a 13 de janeiro de 1750.

Todo dia há um fato digno de registro ou que nos faz vibrar ou, às vezes, entristecer com a Humanidade.

Que beleza isso aí, que aconteceu em 1752!

O CIRCO DOS HORRORES

domingo, 5 de setembro de 2010

Walter Galvani

 

Pois é, gente, instalou-se diante de nós, neste pobre começo de século, pressagiando por isso mesmo que o pior está por vir, um verdadeiro “circo de horrores”, com tortura “asiática”, pobreza “africana”, crime “à moda americana” e insensibilidade, digamos… “européia”, ou indigna até das velhas civilizações, aquelas que “já viram tudo” e não esperam nada mais.

Usando uma expressão corrente, poderia dizer-se que os que ainda tinham alguma fé no futuro, tratem de fazer as suas malas. Ou, usando uma expressão gauchesca muito em moda nestes momentos de Expointer, “apeiem-se”… Não dá mais.

Fraudes, roubos, apropriações indébitas, desvios de contas, mistura de dinheiro legal com ilegal, publicação de dados sigilosos, tudo isso faz parte do nosso prato do dia e essa comida toda, mal temperada e deteriorada, acabará fazendo mal ao paciente. Ou impaciente, conforme o ângulo de visão.

Isso é o que nos tocou viver e é preciso ter muita calma e aceitar que estamos assistindo, com a cortina do palco aberta, a luta que se imaginava apenas de bastidores, pelo Poder. Sim, Poder com P maiúsculo, e – pobre língua portuguesa – estou abusando dela para conseguir interpretar o que se passa, aqui e ali, nos palácios e em seus porões e na sociedade como um todo.

Ladrão de casaca, que antes era coisa de cinema, agora é um tipo encontrável em qualquer lugar e podemos ser assaltados tanto na rua como no chamado “recesso dos nossos lares”, ou no banco onde depositamos nosso rico dinheirinho, ganho com o suor do nosso rosto, ou até por meios virtuais.

A nova bossa é furtar, meter a mão no bolso alheio, surrupiar, qualquer termo antigo – mais uma vez nos valendo da boa, forte e expressiva língua que nos legaram.

Atentos, parecemos todos. Desde a Polícia Federal até o Ministério Público e quando menos se espera até por quem deveria mesmo se preocupar e cuidar dos seus “filhos” ou “súditos”. Antigamente, era o Rei que cuidava de tudo. Agora, somos nós mesmos que temos de estar tomando providências, eis que a vida se tornou tão complexa que poderemos até ser soterrados e ficar a depender de um socorro que poderá ou não, chegar no prazo de quatro ou cinco meses.

Crônica publicada hoje no

jornal ABC DOMINGO