Crônica publicada no jornal Diário Popular, de Pelotas
Walter Galvani
Não é por nada que em mil setecentos e alguns, os portugueses e seus descendentes, já muitos deles brasileiros natos, se fixaram aqui nestes campos e matas, e foram fundando povoações dedicadas a São Pedro, padroeiro sabiamente escolhido, porque era preciso reverenciá-lo e assim garantir a produção da agricultura e a saúde da pecuária. Só com São Pedro mesmo, administrando o clima, seria possível resistir a tantas inundações entremeadas com secas, chuvas e trovoadas misturada com sol de rachar e vento de arrepiar. Isso desde o Minuano que cortava as coxilhas e os campos, até o Nordestão que vinha do mar, trazendo o cheiro de sal e o alívio para as queimaduras de quem se aventurava ao longo do Litoral.
Isso sempre foi o Rio Grande de São Pedro e toda a tecnologia trazida pelo progresso não pôde mudar esta matriz cultural. Somos o que somos.
Rios caudalosos, a imensa lagoa dos Patos, o Guaíba, a Lagoa Mirim, as enseadas, os campos de pastagem, as matas, o gado em criação extensiva, os cavalos que ajudaram a vencer estas distâncias, os avanços e recuos, o confronto com os “castelhanos”, sim, a gente de Castela que andou por aqui até meados do século XVIII, os confrontos que nos levaram até a desembocadura do Rio de La Plata, que não tem esse nome por acaso, a Colônia do Santíssimo Sacramento e o refluxo para nossas divisas atuais, trazendo os Sete Povos das Missões para se integrar aqui, no que já era e logo se consolidaria a nação brasileira.
Sempre sob o amparo do enorme guarda-chuva de São Pedro. Com o olho no céu e outro na terra, os gaúchos se modelaram como cavaleiros e cavalheiros, construindo cidades como Pelotas e Rio Grande, mantendo as portas abertas para o mundo e produzindo cultura em nível europeu, não é mesmo João Simões de Lopes Neto?
E assim chegamos a 2012, sempre de olho nas nuvens, medindo os ventos e a intensidade do sol, as estiadas e as chuvaradas. Como em 2005, ou como em 1805, convivendo com a tensão e a dúvida. Já deveríamos ter nos acostumado, e os governos já deveriam ter se habituado a manter um gabinete de crise, igualmente habitado por economistas, produtores rurais e meteorologistas, políticos e mágicos. A receita é difícil, mas seria bom começar a fazê-lo, pelo menos agora que a província de São Pedro está chegando perto dos trezentos anos.