AS PALAVRAS DE SARAMAGO

Acho que vale a pena transcrever aqui algumas coisas do livro sobre “As palavras de Saramago”. Cheio de valiosos ensinamentos.

SARAMAGO

livro “As palavras de Saramago”

na compilação de Fernando Gómez Aguillera,

Edição da Companhia das Letras, São Paulo, 2010

 

O livro abre com quatro epígrafes extraídas de palavras do próprio José Saramago e escolhi a segunda delas, que aparece à pág. 5, como a mais incisiva e forte:

 

Eu sei o que é, – escreveu o grande romancista português, Prêmio Nobel de 1998 – sei o que digo, se por que o digo e prevejo, normalmente, as conseqüências daquilo que digo. Mas não é por um desejo gratuito de provocar as pessoas ou as instituições. Pode ser que se sintam provocadas, mas aí o problema já é delas. A pergunta que faço é por que é que eu me hei de calar quando acontece alguma coisa que mereceria um comentário mais ou menos ácido ou mais ou menos violento. Se andássemos por aí a dizer exatamente o que pensamos – quando valesse a pena – teríamos outra forma de viver. Estamos numa apatia que parece que se tornou congênita e sinto-me obrigado a dizer o que penso sobre aquilo que me parece importante.

José Saramago, em 2008

 

Páginas

12 – O prefácio, de Fernando Gómez Aguillera, logo cita, à pág. 12, uma observação do famoso ensaísta inglês Harold Bloom, também digna de nota:

“Saramago é extraordinário, quase um Shakespeare entre os romancistas. Não há nenhum ficcionista vivo nos Estados Unidos, na América do Sul ou na Europa que tenha a sua versatilidade. Dir-se-ia tão divertido quanto pungente. Sei que é um marxista, mas não escreve como um comissário e opõe-se aos impostores da Igreja católica. O seu trabalho ultrapassa tudo isso.”

 

17 – Ainda no prefácio de Aguillera, esta bela chave para a compreensão da obra de Saramago:

“Avaliadas com o horizonte que o transcurso dos anos oferece, estas declarações fragmentárias constituem hoje uma valiosa mina de informação e de apresentação de idéias e valores éticos, assim como uma estimulante prática de dissidência e de contestação pública. Nelas está Saramago, o testemunho de um livre-pensador no qual ecoam formidavelmente as tensões, anseios e fracassos de nosso tempo. Mas o mosaico oferecido neste livro também agrega um compêndio de sabedoria. Cada peça desse mosaico supõe um facho de luz e de sentido, configurando a imagem de uma personalidade brilhante e complexa, capaz de radiografar o ser humano e sua circunstância, de diagnosticar seus males e sugerir antídotos ou de confirmar decepções e frustrações. Saramago observa, analisa e tira conclusões poderosas, formuladas mediante frases robustas e sugestivas.”

 

27 e 28 –  HABITA-SE A MEMÓRIA

Falando para Sara Belo Luís, revista Visão de 9-11-2007, Saramago disse:

Vivemos num determinado lugar, mas habitamos outros lugares. Eu vivo aqui, em Lisboa, quando cá estou e vivo em Lanzarote quando lá estou. Mas habitar, habitar, habito naquilo que seria ou é – a aldeia. Não se trata porém, desta aldeia, mas a aldeia da minha memória.

 

30 – ASSIM ERA JOSÉ SARAMAGO

Na apresentação do capítulo “Autorretrato”, Fernando Gómez Aguillera, escreve:

“Assim era José Saramago: disciplinado, tenaz, ateu, cosmopolita, austero, melancólico, reservado, militante, coerente, firme em suas convicções, sério, severo, solitário por temperamento, racionalista, áspero, cético, tímido, terno, antipedante, implacável, pessimista, polêmico, seco, leal, sincero, generoso, duro por fora e frágil por dentro, elegante, frugal, compassivo, inconformista, trabalhador, independente, distante, ético, imaginativo, comunista, solidário, orgulhoso, reflexivo, possuidor de um acentuado senso da dignidade, irônico, rigoroso, beligerante, meticuloso, relativista, português, orgulhoso, sóbrio, sensível, honesto, incômodo, sarcástico, individualista…”

 

32 – ATEU E RELIGIOSO…

Ao jornal “Expresso”, de Lisboa, a 8-11-1986:

Sou um ateu com uma atitude religiosa e vivo muito em paz.

 

33 – DIZER NÃO E INGRATIDÃO

Jornal de Letras, de Lisboa, edição de 18-24 de abril de 1989:

Tenho uma coisa péssima que é uma grande dificuldade em dizer que não, porque acho que dizer que não é demonstrar uma certa forma de ingratidão.

 

35 – SOBRE CASAMENTOS E DESCASAMENTOS…

Para a revista Máxima, de Lisboa, em outubro de 1990:

Não acho que a biografia duma pessoa seja interessante. O que é que interessa eu ter me casado uma vez e ter me divorciado? Quando falamos da nossa vida pessoal, inevitavelmente estamos a falar da vida de outras pessoas. Acho que tem de haver um recato. Se eu disser que fui casado e me divorciei, não falo só de mim, falo de alguém que não tem o direito de ser chamado a essas questões.

38 – SER IBÉRICO

Em entrevista ao jornal “La Nación” , de Buenos Aires, a 21 de janeiro de 1996:

Primeiro sou português, segundo sou ibérico, e só em terceiro lugar e quando me dá vontade, sou europeu.

 

54 – ELE E O TRABALHO

Falando ao “La Jornada”, do México, em 27-11-2006:

Sou alguém que trabalhou, que nunca teve ambições – embora isso possa soar falso. Nunca tive ambições, nunca disse que vou fazer isso para chegar àquilo, e quando o obtiver vou dar mais um passo para chegar ao final. Não, eu vivi meus dias com o que tinha de fazer. Creio que tive sorte, porque as pessoas me descobriram, quando eu já havia feito algo que valia a pena, mas poderia ter ocorrido que eu houvesse feito isso e que as pessoas não houvessem visto.

 

64, 65 e 66 – MINI-BIOGRAFIA

O coordenador do livro apresenta uma síntese biográfica com os dados desde o nascimento em Azinhaga, a ida para Lisboa com um ano e meio e o falecimento a 18 de junho de 2010 em Lanzarote.

 

67 – LISBOA NA HISTÓRIA. E NA VIDA DO ESCRITOR

Falando a diversos jornais, inclusive o “La Vanguardia”, de Barcelona, “Expresso” de Lisboa, o “Jornal Ilustrado” de Lisboa, nos anos de1987 al989, Saramago fala de tudo sobre a capital portuguesa e inclusive diz:

Lisboa é na minha obra um pequeno universo pelo qual vou circulando.

e

Lisboa nasceu pelo Tejo, sem o Tejo não haveria Lisboa e até o século passado Lisboa sempre esteve à beira do rio. A cidade e o rio e do rio ao mar foi o caminho dos descobrimentos.

 

71 e 72 – A PROFISSIONALIZAÇÃO COMO ESCRITOR

Fernando Gómez Aguillera, o organizador do livro, usa as páginas 71 e 72 para resumir como seu deu a profissionalização de Saramago como escritor.

 

73 – DISCIPLINA E SAÚDE

Quem quiser viver do que escreve tem de ter uma disciplina de ferro. (…) a par de uma obra própria, depende da disciplina e da saúde.

Para o jornal “O Ferroviário”, Lisboa, 1982.

 

74 – RESPEITAR O TEMPO INTERIOR

Falando ao jornal “El Independiente”, de Madri, a 29-8-1987, disse ele que:

Uma coisa que não devemos fazer é forçar o tempo interior. Cada coisa tem o seu momento de maturação e, apressá-la, significaria debilitá-la, uma fatal distorção. Num segmento do teu tempo, tens um conjunto de coisas que estão desorganizadas, e subitamente se introduz aí um elemento que organiza tudo.

 

79 – A ALCUNHA DE SARAMAGO

Falando para o jornalista José Castelo, para a edição de 21-9-1996 de “O Estado de São Paulo”, o escritor contou que a sua família tinha a alcunha de Saramago, “o nome de uma plantinha silvestre que dá uma florzinha de quatro pétalas e cresce pelos cantos, quase sempre esquecida.” E então quando seu pai fez o registro de nascimento do menino, o empregado do cartório colocou “José de Sousa Saramago” o que deixou seu pai furioso, mais adiante, quando descobriu, mas já não pôde ser mudado.

 

Seguirei com as transcrições. O livro, que já acabei de ler, é imperdível.

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