Crônica publicada no jornal ABC DOMINGO
Walter Galvani
Basta percorrer a lista dos presidentes da república desde a sua instalação em 1889 até os nossos dias, para saber porque ao se referir a um escritor gaúcho, por exemplo, os meios de comunicação, os intelectuais do centro do país, digam assim mesmo: “o escritor gaúcho fulano de tal…”
Se fosse um mineiro, um paulista, um carioca, um pernambucano, a referência seria ao “escritor brasileiro”, exemplo Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, etc. etc. Já o Erico Veríssimo, é “o escritor gaúcho”, o poeta Mario Quintana, é “o poeta gaúcho”. Penso que o subconsciente dos nossos coleguinhas lá de cima, aponta para esta solução, imaginando que a regionalização de que eles lançam mão, funcionaria como uma espécie de “gradação”, digamos, uma “desclassificação hierárquica”. Tipo assim: “vocês lá, fiquem no paraíso particular do Sul”…
Isso explica porque, assim que se anunciou a possibilidade de Dilma nomear um novo gaúcho para o seu ministério, imediatamente passaram a contar, na ponta dos dedos, quantos dos nossos conterrâneos já lá estão em Brasília e a quantos cargos já estaríamos chegando.
Começou até a circular em Brasília, uma piadinha que qualificava o ministério de Dilma Roussef como “o gauchério”…
É o mesmo processo de esvaziamento que contra nós é dirigido quando se alcança destaque em artes ou literatura ou até futebol. O Ronaldinho, por exemplo, é o “Gaúcho”, e por aí vai.
Isso só tende a mudar, pelo menos no caso dos intelectuais, quando o homem de letras concorda em abandonar a “província” e ir refestelar-se nas areias de Copacabana, ou morrer de tédio e frio nos salões paulistanos.
E no caso dos políticos, imediatamente o eleito ou nomeado, se sente no dever de preterir cautelosamente seus companheiros de estado em favor de originários de outros rincões para não sofrer o apupo e a pecha de regionalista.
É óbvio que o Rio Grande do Sul não detém o primeiro lugar na “fabricação” de líderes ou na preparação de destaques em qualquer ramo de atividade. Mas, o sucesso de muitos de seus filhos, ao longo da História, explica e justifica as reações de medo e reserva, pois elas não passam disso, uma tentativa de vacina contra a ascensão dos naturais aqui do extremo do generoso mapa brasileiro.