Arquivo de fevereiro de 2012

COMEÇA O ANO DE 2012

domingo, 26 de fevereiro de 2012

No Diário Popular, de Pelotas, publiquei hoje a crônica que segue:

 

 

COMEÇA

O ANO

DE 2012

 

 

Walter Galvani

 

 

Agora não temos mais nenhuma desculpa: acabou o Carnaval, passou ou está passando o que se chamava antigamente de “Enterro dos ossos”, recomeça o ano escolar e universitário, e os períodos de férias foram devidamente postos em dia.

Quem ainda não se deu conta, logo se verá diante da realidade que esta segunda-feira coloca de forma contundente agora: começou o ano novo. E 2012 chegou com toda a sua força, com vários avisos que costumam ser ignorados pelos brasileiros, pouco afeitos aos sinais de gravidade em terras alheias. Mas, prestemos atenção. Vivemos num mundo só, consolidado pelas relações comerciais internacionais, o Brasil está sendo classificado como a quarta economia ascendente no mundo e, verdade ou meia verdade, isso nos coloca bem à mostra, diante da cobiça e dos interesses mundiais.

A Europa está em crise e a solidez de algumas economias nacionais, a da Alemanha, por exemplo, embora chamuscada pela crise do euro, pois é a líder da zona, e a da Inglaterra que numa atitude tradicional tipicamente  britânica não quis se incorporar ao território da nova moeda, vê países como a Grécia e o nosso amigo e irmão Portugal diante de incertezas.

A crise de emprego em Portugal é algo fora do comum e sem precedentes na história daquele povo que, em outras épocas, diante da crise interna partiu para o desbravamento de outras terras e trouxe o ouro dos descobrimentos, inclusive do Brasil, para restaurar os abalos de sua economia. Dessa vez, a única riqueza que pode ter restado é o valor da língua portuguesa, presente nos cinco continentes e a quinta mais falada no mundo. Mas isso é pouco.

Os Estados Unidos e o seu dólar já andam aos solavancos. Não quero ser profeta da desgraça, mas sugiro que se abram bem os olhos. Os sintomas de enfermidades econômicas andam por aí e o melhor será não se deixar contaminar.

Ficar simplesmente à margem do que sucede no mundo, impossível. Então, o jeito é pilotar bem esse navio e não deixar que ele bata nos rochedos como aquele italiano, o “Concordia”. Aliás, a nossa irmã Itália precisa de atenções também e o sistema financeiro não isenta ninguém nem preserva, nem pela sua simpatia ou capacidade de chutar uma bola…

 

CONSCIENTIZAÇÃO OU FISCALIZAÇÃO…

domingo, 26 de fevereiro de 2012


Os dados divulgados agora, depois dos feriados de Carnaval, são entusiasmantes e as pessoas podem ser levadas à uma espécie de euforia, achando que de fato “tudo melhora” e estamos no caminho certo. Desculpem-me esses otimistas! Também sou um deles, nato, mas para outras coisas e quando a realidade me bate na cara, peço licença para discordar. Não melhorou em nada o comportamento das pessoas quando estão ao volante de um automóvel, essas máquinas maravilhosas desenvolvidas pela indústria tecnologicamente mais qualificada do mundo, o que melhorou foi a simples fiscalização.

Sou do tempo em que se ridicularizava um procedimento comum nos Estados Unidos (e que andou sendo importado parcialmente para cá) de colocar um policial de cartão ou madeira, um boneco pintado, numa curva da estrada ou às margens de um retão. A simples visão à distância do boneco “policial” fazia com que os americanos tirassem o pé do acelerador e isso diminuía o índice de acidentes.

É só isso que aconteceu aqui no Rio Grande e em todo o país produzindo uma diminuição em 18% no índice de vítimas fatais comparado com o mesmo período de 2011. Houve também uma redução no número de feridos (25%) e presidindo a cascata de dados, praticamente mil acidentes a menos do que no ano passado.

Se os carros correm mais, se houve alguma melhora no piso das estradas, construiu-se inclusive alguns milhares de quilômetros a mais, como é que se explica isso? Os motoristas estariam mais “conscientes”?

Não, só você e talvez o seu primo… ou aquele amigo que virou bispo pentecostal. A maioria continua correndo cada vez mais, quando dá e só se assusta quando vê a farda na paisagem, ouve dizer que há um radar no caminho ou é alertado pelos sinais de farol dos motoristas que trafegam em sentido contrário e ou já foram “pegos” ou notaram o dispositivo policial.

Infelizmente, amigos leitores, é o que preciso dizer a vocês: não melhorou em nada a educação dos motoristas e os atropelamentos em massa que se produziram tem a ver também com o estado anímico das pessoas que pensam “que vão ser chacinadas” ou que os pedestres vão danificar seu carro e quebrar-lhe a cara… Pena, mas é o que temos para oferecer neste 2012, véspera do “fim-do-mundo” prometido por uma civilização que também já foi embora. 

 

Walter Galvani em 26/2/2012

PORQUE ESTE CLIMA DE VIOLÊNCIA NO BRASIL

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
  • Como é que num país tão lindo, onde as pessoas convivem com tanta descontração, acontecem tantos problemas por fruto da violência? Assassinatos, mortes no trânsito, discussões que evoluem para o uso de armas como “no velho Oeste”… drogas, bebedeiras, tráfico! Porque não dar-se as mãos como irmãos? Ou estarei sendo idiota ou como diriam, “bunda-mole”?
     ·  ·  · Compartilhar · há 3 horas próximo a Porto Alegre

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      • Serenella Orti Perchè viviamo in un’epoca in cui siamo tutti impazziti….

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      • Walter Galvani Il peggio è che il Brasile è campione mondiale della criminalittà! Ed della violenza!

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      • Marcia Camarano Acho que estamos em plena crise de humanidade…

        há 2 horas ·  ·  2
      • Sandra Maria Tu não está sendo idiota coisa nenhuma , infelizmente essa é a realidade de nosso Brasil.

        há 2 horas ·  ·  1
      • Caio Riter Por vezes, meu querido Galvani, creio que vivemos numa época de barbárie.

        há ± 1 hora ·  ·  2
      • Serenella Orti Chi più chi meno tutto il mondo è un paese.

        há ± 1 hora ·  ·  1
      • Walter Galvani Brasile ed Italia sono paesi fratelli, figlii della stessa mamma Roma…

        há ± 1 hora ·  ·  2
      • Polibio Braga Tornar as leis mais restritivas aos abusos, melhorar as condições sociais do povo mais pobre, punir com rigor os que mais roubam, implementar noções firmes de ética, moral e respeito às leis dentro e fora de casa, eleger gente do bem e não do mal. Nada disto é utópico. Japão, Países nórdicos, Canadá e até o Chile, aqui ao lado, mostram que este é o ideal desejável e possível.

        há ± 1 hora ·  ·  1
      • Walter Galvani FacebookÉ por aí, amigo Polibio Braga, grande jornalista que sempre fui buscar para melhorar o local onde eu estava, mas será que viveremos para ver esta mudança?
        abraço
        Walter Galvani

        há 47 minutos via  ·  ·  2
      • Walter Galvani FacebookPrego, Serenella
        Analizzare c’ é due zz e non uno come ho scritto oggi.
        baccio
        Walter Galvani

        há 31 minutos via  ·  ·  1
      • Marta Rossi Amigo Walter não é em nosso país. É no mundo. Por ambição, pobreza, vicíos, egoísmo, o homem divide os seus entre o bem e o mal.

        há 19 minutos ·  ·  2
      • Claudete Rihl não viveremos, mas, a vida é plantar, colher, nem sempre; costumo dizer que abrimos caminhos para os que não terão consciência, tivemos que ter pq não havia caminhos…

LEIS PARA FICAR E “LEIS”…

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

A Ficha Limpa que escrevi para o Diário Popular, de Pelotas, a seguir:

 

Temos de tudo aqui no Brasil. Para divertir os estrangeiros (o Carnaval por exemplo), para ajudar a imagem no exterior (o futebol…) e temos a política. Para surpreender e ninguém entender.

Então se torna necessária uma lei, que chamam de “da ficha limpa”… quando isso sequer deveria ser cogitado. Se o cidadão é limpo, limpo é, ninguém precisa de garantias ou aval. Mas isso deve ser na Suécia.

Aqui no Brasil o cara tem que ser honesto, provar que é honesto, usar carteira de honesto, de vez em quando ir carimbar a sua caderneta e no momento em que se apresentar candidato, mais uma vez, registrar sua pureza.

Todos sabemos que “candidato” nasceu etimologicamente com esta definição, a candidez era exigida para que o sujeito pudesse concorrer. Muito tempo e muitas eleições mais tarde, se pede de novo que o candidato vista a túnica alva para que se possa votar nele.

O mundo vai e vem e aprendemos pouco. E agora, foi preciso o STF se pronunciar, foi necessário um abaixo assinado dos cidadãos, foi preciso um ano para entrar em vigor e ainda não se sabe bem como isso sairá deste carnaval de dados, contestações, afirmações e loucuras que passam pela caneca de quem habita o reinado de Momo.

Antigamente era mais simples. “Leis mal redigidas – explica um juiz – às vezes corrompem o próprio sentido do que foi aprovado.”

E o povo não as entende. Pois seria muito mais fácil, nesse caso, que não houvessem leis. Para isso já se sabe, para ser eleito e empossado, é preciso uma folha corrida, uma justa prestação de serviços à comunidade e nenhuma culpa no cartório.

Convive-se, por vezes, com coisas mais simples e não é necessário que os juizes do STF venham a público explicar o que vai entrar em vigor com tanto atraso. Um ano…

E tem gente que apresenta sua renúncia quando descobre que foi “descoberto”. Já dizia, “Brasil, país do futuro”, o escritor austríaco Stefan Zweig, que não suportou a loucura e acabou com a vida em Teresópolis, com um tiro final.

Se ele estudasse nossas leis, inclusive esta da “Ficha limpa”, iria querer cometer suicídio novamente, se fosse possível.

Walter Galvani, em 19 de fevereiro de 2012

O PAÍS DA “FICHA LIMPA”…

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Incrível, inacreditável, mas nesse país precisa uma lei que exija FICHA LIMPA dos candidatos. Funcionará?

Crônica publicada neste domingo de Carnaval, 19 de fevereiro, no jornal ABC DOMINGO, do Grupo Editorial Sinos

 

Walter Galvani

 

Pode ser que em outros países, outras culturas, a idéia de se apresentar como candidato com a “ficha limpa” fosse uma espécie de condição primeira, uma “sine qua non”. No Brasil não, tanto que agora é lei, votada na véspera do Carnaval. E em nosso país, ainda mais nessa época, a gente precisa ver “se pega ou não pega”… É assim mesmo. Esta é a que chamamos “cultura” brasileira, ou seja, o conjunto de normas e procedimentos, comportamentos e hábitos e costumes que vão se propagando, se repetindo e se transmitindo de uma geração à outra.

Depois deste mergulho no esquecimento que representarão hoje, amanhã, depois, e talvez o resto da semana, um período que se abriu no sábado, e a “palavra de ordem” que se impôs a partir do gesto simbólico de entregar “as chaves da cidade” ao Rei Momo, vamos voltar à tona lá adiante e começar a medir, se a Lei da Ficha Limpa começa a pegar. Ou não…

Ela deixa uma porção de furos, mas pelo menos disciplina algumas questões elementares, que deveriam ser pré-requisitos, mas não o são. No Brasil.

Por isso tornou-se necessária uma lei que foi votada e aprovada, e recordo aqui porque no meio dessa confusão de Carnaval, você possa ter sido atropelado, ou tenha esquecido.

Os ministros do STF decidiram por 7 x 4 que a lei da Ficha Limpa vale para as eleições deste ano.

Já é alguma coisa. Examinando bem a lei, vai se ver que ela tem buracos e que muita gente vai forçar o rompimento da rede. “É uma das leis de pior redação dos últimos tempos – diz o juiz do Supremo, Dias Toffoli. Leis mal redigidas – afirma ele – às vezes corrompem os propósitos dos legisladores.” Ficam inelegíveis pelo período de 8 anos, os que forem condenados por abuso de poder, corrupção, improbidade, crimes eleitorais, contra a economia e o patrimônio, lavagem de dinheiro, tráfico, crimes contra a vida, formação de quadrilha, contas rejeitadas pelo TCU, for excluído do exercício da profissão, demitido do serviço público.

Bom, amigo leitor: vamos esperar o fim do Carnaval, a devolução das chaves das cidades pelo Rei Momo e a decantação desta água toda provocada pelo calor imenso. E então vamos ver se a lei que foi pedida em abaixo assinado por mais de um milhão de cidadãos, tem força para “pegar”.

SOMOS A PRIMEIRA PESSOA DO PLURAL. NÃO DO SINGULAR…

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Excelente crônica publicada na revista “Visão” de Lisboa

por José Luís Peixoto

 

 

(Crônica publicada na edição da revista

Visão (de Lisboa), do dia 8 de dezembro de 2011)

 

 

Estamos tão perto uns dos outros. Somos contemporâneos, podemos juntar-nos na mesma frase, conjugarmo-nos no mesmo verbo e,  no entanto, carregamos um invisível que nos afasta. Ouvimos os vizinhos de cima a arrastarem cadeiras, a atravessarem o corredor com sapatos de salto alto, a sua roupa molhada pinga sobre a nossa roupa a secar; ouvimos a voz dos vizinhos de baixo, dão gargalhadas, a nossa roupa molhada pinga sobre a roupa deles a secar; cheiramos as torradas dos vizinhos do lado, ouvimo-los a chamar o elevador e, no entanto, o nosso maior problema não é não nos reconhecermos na rua. O nosso problema grande é estarmos convencidos que os problemas deles não nos dizem respeito. A nossa tragédia é acharmos que não temos nada a ver com isso.

Há três ou quatro anos, caminhava com um conhecido no aeroporto. De repente, ouviu-se um estalido. Ele agarrou-se ao peito com as duas mãos, caiu de joelhos e, pálido, esperou por morrer. Não morreu. Tinha-lhe rebentado um isqueiro no bolso da camisa. Aliviado, encostado a um balcão, a beber um copo de água, explicou que esse ardor repentino e esse susto pareceram-lhe um ataque cardíaco. Nunca tinha tido um ataque cardíaco antes, por isso confiou em descrições vagas, a que nunca realmente prestado muita atenção.

Há alguns anos também, talvez um pouco mais do que três ou quatro, tinha acabado de participar num jantar cordial, reconfortante. Toda a gente estava bem-disposta, à porta dos anfitriões, longa despedida, graças à espera de táxi. De repente, tocou o telefone de um senhor com quem tinha estado a conversar durante o serão. Ninguém reparou nesse telefonema até ao momento em que o senhor começou a chorar convulsivamente. Ficamos todos a olhar sem saber como chegar até ele. Tínhamos braços, estendíamos na sua direção, mas continuavam distantes.

Irritamos-nos com a existência uns dos outros. Fazemos sinais de luzes aquele homem com setenta anos, num carro dos anos setenta, que anda a setenta quilômetros por hora na autoestrada. Contrariados, esperamos por aquela pessoa que atravessa a passadeira, enchemos as bochechas de ar e sopramos. Impacientes, batemos no volante. Daí a minutos, depois de estacionarmos o carro, somos essa pessoa a atravessar a passadeira. Da mesma maneira, daqui a algum tempo, não muito, seremos esse homem com setenta, dos setenta, à setenta. O tempo passa. Se deitarmos lixo para o chão alguém o apanhará.

Um amigo que teve um AVC, que passou por uma reabilitação profunda, que enfrentou a morte e a paralisia, depois de anos de fisioterapia, depois de esforço gigante e sofrimento gigante, falou-me da forma como esse susto muda tudo. Passa-se a apreciar aquilo que realmente importa.  A imensa maioria das preocupações transforma-se em luxos ridículos, desprezíveis, alimentados pela cegueira. Após essa experiência de quase morte, ganha-se uma nitidez invulgar, que, no entanto, esteve sempre lá. Para percebê-la, basta levar a sério a promessa de transitoriedade de tudo e, também, levar a sério essa palavra, esse planeta: o amor. Ao ouvi-lo, fui capaz de entender o que dizia. Depois fui capaz de entender também quando me disse: mas, sabes, ao fim de algum tempo, esquecemo-nos, voltamos a tomar tudo por garantido e voltamos a cometer os mesmos erros.

Repito para mim próprio: estamos tão perto uns dos outros. Não há nenhum motivo para acreditar que ganhamos se os outros perderem. Os outros, não são os outros porque levam muito daquilo que nos pertence e que só pode existir sendo levado por eles. Eles definem-nos tanto quanto nós os definimos a eles. Eles são nós. Eles somos nós. Se tivermos essa consciência, podemos usar todo o seu tamanho. Mesmo que pudéssemos existir sozinhos, de olhos fechados, com os ouvidos tapados, seríamos já bastante grandes, mas existe algo muito maior do que nós. Fazemos parte dessa imensidão. Somos essa imensidão que, vista daqui, parece infinita.

OS NOMES E OS GOLPES E OS GOLPISTAS…

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Homenageamos heróis, bandidos, atletas, gênios, idiotas, burros, ladrões… e assim vamos pela vida afora…

Crônica publicada nesse domingo, 12 de fevereiro de 2012, no jornal “Diário Popular”, de Pelotas

Walter Galvani

 

República, Deodoro, Mal. Floriano: golpes e golpistas. XV de novembro? Data do golpe. Castelo Branco? Ditador, golpista. Borges de Medeiros? Ditador provinciano. Júlio de Castilhos, até me falta o ar para classificá-lo também como ditadorzinho. E Duque de Caxias? Um invasor., o  “pacificador” ou o usurpador da Revolução Farroupilha? E por aí vai. Pegue o mapa da sua cidade e vá percorrendo, uma por uma, como fiz um dia desses com Porto Alegre, as principais ruas, avenidas, praças e monumentos. Querer agora tirar o nome do ditador e golpista general Castelo Branco da avenida de entrada da capital: é só um novo golpe. Baixo e barato. Então mudem tudo. Acabem com a Av. Duque de Caxias que, ironicamente passa pelo Palácio Piratini, acabem com a Borges de Medeiros, sei lá.

O Cel. Vicente, para que saibam, era um baiano partidário dos caramurus q ue foi assassinado pelos farroupilhas, na fazenda de sua mulher, em Canoas, que tinha o apelido de “Brigadeira”. Lá mesmo, em Canoas, há uma rua Cel.Vicente, comoem Porto Alegreque aliás corre pelos antigos terrenos de sua mulher, a doadora, portanto.

E agora? Vamos continuar prestando homenagens e mudando os nomes quando saem de moda ou se descobre que os ídolos tinham pés de barro? Vai sobrar pouca coisa…

O esporte moderno é, inclusive, o de destronar heróis e apear generais consagrados, remexer nos baús e nos túmulos, desfazer mitos ou tentar reduzir prestígios a pó de mico…

Pegue a sua cidade e vá, rua por rua, pesquisando e tentando descobrir as razões pelas quais certos nomes estão nas placas.

O certo seria criar um hiato, de pelo menos dez anos, antes de homenagear algum vulto famoso. Deixe o nome sentar um pouco, criar uma certa imunidade que só o tempo traz. Agora, nomear sítios, avenidas, praças e ruas (e até cidades) e querer mudar de dois em dois anos, isso é que se chama esporte caro, inútil, mistificador.

Não, não pensem que isso é só aqui. E se cometem equívocos históricos imensos, como a Piazza Dante Alighieri, em Caxias, que homenageava o grande poeta do Renascimento e por um mau passo político, durante o período do fascismo, recebeu o nome de Ruy Barbosa, para eles inatacável. Pois voltou a ser Dante. Então, é melhor deixar o Castelo Branco, o Bento Gonçalves, o Júlio de Castilhos, o Borges e outros “heróis” ou não, descansando no alto de seus monumentos, ao abrigo de suas placas. Pena: meu herói era o juiz espanhol Baltasar Garzón.

MUDAR O NOME DAS RUAS…

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Processo infindável e inútil. É melhor deixar as “marcas” do passado da comunidade… Crônica publicada neste dia 12 de fevereiro de 2012, no jornal ABC DOMINGO 

Walter Galvani

 

O juiz espanhol Baltasar Garzón foi praticamente destituído com a suspensão de atividades por onze anos. A decisão do Supremo Espanhol fez o povo sair às ruas, na defesa dele, que prendeu Pinochet, combateu o terrorismo da ETA, a corrupção e o tráfico de drogas. Eu estava lá em meio aos manifestantes que condenavam a punição do seu herói, pelo menos de forma virtual, e eu estou hoje aqui praticando isso que importa que é a minha liberdade de protesto.

Mas, vocês não me viram dizer ou escrever a favor nem contra a proposta de mudar o nome da Castelo Branco, via de entrada de Porto Alegre, tão importante quanto a Av. Farrapos, porque não acho que se deva ficar deletando homenagens, mesmo que elas nos pareçam equivocadas.

E pensava isso, uma manhã dessas, quando saí de uma casa na rua Coronel Fernando Machado, subi a rua General Cipriano Ferreira, que começou como Cova da Onça, depois Rua Direita, atravessei a rua Duque de Caxias, sim aquele mesmo que esmagou a Revolução Farroupilha, desci a rua General Canabarro, sim, o que mandou o Massacre de Porongos, e peguei a av. Siqueira Campos, (participou da Coluna Prestes e da Revolução de 30) e por ela fui caminhando até contornar o belíssimo Mercado Público que ajudei a segurar de pé porque o prefeito de então, (anos 70), queria ligar a Siqueira com a av. Julio e derrubá-lo porque “atrapalhava o trânsito” e assim desemboquei na avenida que homenageia um tirano a quem faltou o “ar” nos últimos instantes de sua vida de ditador da província, o já citado “Júlio de Castilhos” que é também nome de praça no Moinhos de Vento. Isso é Porto Alegre.

Vamos deixar assim mesmo, senão vamos ter que mudar muita coisa por aí afora… Os adversários de Getúlio Vargas, João Goulart e Leonel Brizola vão querer aproveitar a oportunidade, e poderá surgir até um contestador de Cristóvão Colombo alegando que ele não sabia o que descobriu, onde estava e nem fez mais nada do que levar o milho para a Europa e propiciar o surgimento da polenta…

Tem mais, basta olhar em roda, tanto na capital, quando em Novo Hamburgo, São Leopoldo, Sapiranga, Campo Bom, Bento, Caxias do Sul, Gramado ou Canela. Façamos um plebiscito, derrube-se tudo sem atentar para o custo ou quem sabe a gente institui uns dez anos depois da morte para imortalizar os “heróis” em ruas e monumentos? Meu herói, o juiz Garzón, vai ter que provar a sua substância agora…

O SÓTÃO VAZIO

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Crônica publicada neste dia 5/2/2012, no jornal ABC DOMINGO

 

Walter Galvani

 

Sherlock Holmes, o imortal personagem criado por Connan Doyle em 1887, dizia, justamente no ano de sua aparição em público pela primeira vez, que o “cérebro é como um sótão vazio, mas a gente deve escolher como mobiliá-lo” e não, simplesmente abarrotando-o com informações, indiscriminadamente.

Vivemos justamente num tempo em que somos obrigados a ir fazendo uma seleção do que vamos “guardar” e do que vamos eliminar daqui a pouco. Sherlock tinha razão em dizer que não haveria espaço para tudo e olhe que isso foi escrito no século XIX, quando o mundo ainda dependia de telégrafos, não haviam surgido rádios e televisões.

Havia em Londres meia dúzia de jornais vespertinos que atualizavam as informações que os matutinos colocavam cada manhã nas caixas de correios e portarias das casas e apartamentos ou vendia-se na esquina. E assim é que as pessoas se atualizavam.

Imaginem só hoje em dia com o rádio e a televisão podendo a qualquer momento transmitir uma nova notícia, confirmando, desmentindo ou aprimorando qualquer coisa, com a Internet dentro das casas, com a possibilidade de comunicação com o mundo inteiro, com as chamadas “redes sociais”, com os “e-mails”, com os aparelhos celulares que você carrega na cintura (ou na bolsa, onde as mulheres nunca os encontram enquanto estão chamando…) enfim com todas estas possibilidades de instantaneidade, como ficaria Mr. Sherlock?

“Ora, elementar meu caro Watson” – diria ele – “Acumule só o que interessa. Toda esta montanha de informação pode morrer logo, pelo óbvio ou pela insignificância. Dá mais trabalho,  mas é assim que funciona!”

Portanto, mande para os seus arquivos só o que vale a pena. Seja um poema de Mário Quintana, o filme “O Concerto” do romeno Radu Mihaileanu, o último livro de Orham Panuk ou Mario Vargas Llosa, a lembrança do por-do-sol no Guaíba, uma letra do Chico Buarque ou a voz de Frank Sinatra. Ou Amy Winehouse.

Mas escolha a mesa certa, as cadeiras adequadas, os cristais, os quadros, as lembranças.

E esqueça o calor insano, os acidentes evitáveis, a imprudência, o roubo, o furto, a apropriação indébita, as mentiras, os engodos. Somos mais valiosos do que “eles” possam pensar…

O PRIMEIRO AMOR

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

É o poema da polonesa Wislawa Szymborska

Prêmio Nobel de 1996, que morreu esta semana:

O primeiro amor

Dizem
que o primeiro amor é o mais importante.
É muito romântico,
mas não é o meu caso.

Algo entre nós houve e não houve,
deu-se e perdeu-se.

Não me tremem as mãos
quando encontro pequenas lembranças,
aquele maço de cartas atadas com um cordel,
se ao menos fosse uma fita.

O nosso único encontro, passados anos,
foi uma conversa de duas cadeiras
junto a uma mesa fria.

Outros amores
continuam até hoje a respirar dentro de mim.
A este falta fôlego para suspirar.

No entanto, sendo como é,
não lembrado,
nem sequer sonhado,
consegue o que os outros não conseguem:
acostuma-me com a morte
.
Wislawa Szymborska