ONDE RESIDE A SABEDORIA?
Crônica publicada no jornal Diário Popular, de Pelotas, o diário mais antigo em circulação no Rio Grande do Sul, sem interrupções há 120 anos.
O glorioso Correio do Povo de Porto Alegre entra no ano 115 no dia 1º de outubro, completando portanto o 115º ano de circulação em 2010
MAS, SALVEM OS LIVROS
Walter Galvani
Há uma garí em Porto Alegre que alfabetiza quem se apresenta em seu pequeno rancho, outro varredor de rua formou uma biblioteca com os livros que achou no meio do lixo e um terceiro que constrói instrumentos musicais com os restos que salva e coleciona. A situação “institucionalizou-se” em Caxias, onde a Companhia de Desenvolvimento da Cidade criou um “Programa de Idéias” para estimular a criatividade dos seus funcionários e as ações daí resultantes passaram a servir de exemplo para outras comunidades. Biblioteca e Museu surgiram do lixo. Que bom, afinal de contas, que não é só de corrupção, escândalos, crimes e acidentes que vive a sociedade que formamos na melhor das intenções aqui neste sul do Brasil…
Por falar em Sul, Pelotas é exemplar, sempre reverenciada como templo da cultura e do saber, da elegância e do “savoir vivre” ao longo destes séculos em que marcou a região como muito mais do que uma simples sentinela.
Só o fato de possuir o teatro mais antigo do Rio Grande do Sul já seria disso um atestado, não o fora também este jornal o de mais tempo em circulação diária e ininterrupta no estado, entrando no ano 120, atestam que a capital da cultura pode muito mais estar aqui do que em qualquer outro sítio. Alinhe-se o resto, fale-se em Lobo da Costa ou João Simões Lopes Neto, enfim, tantos extraordinários nomes que ajudaram a consolidar o nome e o respeito pela cidade de Pelotas.
Assim se sabe que o caminho é simplesmente imitar o que é bom e Pelotas, nesse sentido, tornou-se um farol e uma indicação.
E uma boa demonstração de amor aos livros é também salvar os exemplares descartados pelos insensíveis que os ensacaram de madrugada para abrir espaço para um aparelho novo qualquer que não lhes dá sabedoria, pois esta, como escreve Harold Bloom, somente neles reside.