CALOTAS POLARES, DEGELO, CHUVA, FURACÕES E A BIENAL DO MERCOSUL

29 de novembro de 2009

 

Crônica publicada neste dia 29 de novembro de 2009 no jornal ABC DOMINGO

 

FIM DE BIENAL, CHUVAS E FURACÕES

 

Walter Galvani

 

 

Mesmo que você não seja um entusiasta da arte moderna ou desconfie de muitas obras desta corrente e suas centenas de desvios, em espaços públicos, como o prof. Voltaire Schilling, hoje é a última chance de visitar a Bienal que está no Santander, no Margs e nos armazéns do cais do porto de Porto Alegre. Como manda o figurino, o que há de mais avançado na arte contemporânea, desde instalações até o máximo do figurativo transformado, digamos assim para facilitar a compreensão, até os limites da criação sem limites… Deu para entender? Se não deu, melhor, você está então apto a ir visitar a Bienal e conhecer toda a força da criatividade dos artistas que não querem saber de regras ou cortes.

Muitos apreciarão, outros considerarão brincadeirinhas certos experimentos, outros mais dirão que fariam melhor em casa e outros ainda se sentarão comovidos diante de uma lata de sardinha amassada, contemplando os restos da civilização que oprime os animais e massacra os homens.

(No futuro imediato, talvez surja até um macaco pintor, capaz de produzir obras mais brilhantes que muitos humanos, até porque, se sabe, muitos estão abaixo do Q.I. de algumas espécies animais e correm uma corrida parelha com os símios… Não são poucos os macacos que nos suplantam, só terão evoluído para outro rumo, mas, sem dúvida nenhum deles mata e menos ainda devora, indivíduos da própria espécie.)

Mas, a corrida pela expressão artística é mais solta e desenfreada do que nunca e isso parece bom para todos, especialmente para a própria expressão artística. Todas estas correntes que afloram do consciente e do subconsciente estão presentes na Bienal e os materiais empregados deixaram o lixo da história para um melhor uso por parte dos seres humanos.

Sobretudo é bom aproveitar este último domingo de Bienal na capital do estado, para conhecer o que há de mais certo e o que há de mais equivocado na arte atual, mas ver com os próprios olhos e tirar as conclusões que entender como adequadas. Livremente.

É a última chance. Depois, só em 2011. Se resistirmos a mais dois anos de secas, inundações, temporais, tsunamis, furacões, granizo, calor em alta ou daqui a pouco, degelo das calotas polares.

TEMPORAIS, IRRESPONSABILIDADE, E O BICHO-HOMEM

22 de novembro de 2009

 

Crônica publicada hoje no jornal ABC DOMINGO

 

OS GUARDA-CHUVAS E 2012

 

Walter Galvani

 

 

Se tudo se der como no filme “2012” não vai adiantar correr muito, nem se preparar psicologicamente, pois todos estaremos dando adeus a este mundo louco. De “apocalipse now” já estamos bem servidos, mas, nunca é demais prestar atenção no que está acontecendo.

Comprava-se um guarda-chuva a 5 reais. Já custa 10. Dobrou a procura e tem gente que já tem em casa um estoque de meia dúzia deles, porque todos os dias é preciso comprar mais um, na rua, para andar duas ou três quadras.

Ainda bem que de um modo geral são produtos da indústria chinesa, que só apresenta aqui utensílios baleados na origem (e tem gente que ainda tem fé no comunismo, paciência, fazer o quê…) e eles acabam antes do fim da primeira semana, ou ao concluir-se o primeiro temporal.

É como estamos vivendo agora. Pobres previsores do tempo, porque não conseguem manter suas informações além da metade do dia, pois, de repente chegam nuvens pesadas, empurradas pela baixa pressão inesperada ou coisa que o valha.

Quem fez isso com o clima?

O bicho-homem, o mesmo que é capaz de matar os da sua própria espécie e o único capaz de destruir com os pés o que fez com as mãos. Este é o mundo que legaremos aos nossos filhos. E vejam bem, estamos diante da última chance, o encontro global para tomar medidas radicais. Numa hora dessas, é sem dúvida a chamada “undécima” hora, ainda tem países e políticos, administradores e administrados, que querem lentidão e reflexão. A canoa em que estamos é a mesma, esqueceram?

Ah, e sabem quem polui mais o planeta? O primeiro lugar do ranking é a China, essa mesma dos guarda-chuvas… O segundo colocado? Estados Unidos. Depois deles vem Japão, Rússia, Índia. O Brasil é o líder da América do Sul, mais um campeonato à vista, mas pelo menos não é a Copa do Mundo. O prazo? Meia dúzia de dias para se conscientizar, pois de 7 a 12 de dezembro, acontece a conferência global sobre o Clima em Copenhague. E o Brasil, saibam, está em “ótima” posição como emissor de CO2 responsável por 1,28% sozinho, de toda a poluição mundial.

Vamos dormir em cima desses dados ou exigir uma imediata virada de mesa? Bem, fica para depois do temporalzinho que está chegando…

MINISSAIAS E PAPEL EM LIVRO

16 de novembro de 2009

Crônica publicada neste dia 15 de novembro de 2009 no jornal Diário Popular, de Pelotas (RS)

 

O LIVRO EM PAPEL E A MINISSAIA 

Walter Galvani 

Anda todo mundo “ouriçado” para saber se o “e-book” substituirá o livro em papel e se estará na hora de aposentar este magnífico objeto, primor tecnológico, que atravessou tantos séculos e, desde o papiro, passando por todos os demais sucedâneos, chegou aos nossos dias. Respondo o mesmo que ouvimos quando surgiu a televisão: “Não, o cinema não acabou”. Aliás era a mesma frase que se respondia para o surgimento do cinema, quanto ao teatro: “Não, o teatro não acabou!” E quando surgiu o rádio: “Acabou o jornal impresso? Não o jornal não acabou.”

Nem acabará. Mudanças se farão, é natural que assim seja, mas nem a tevê acabou com o cinema, nem o cinema matou o teatro, nem o jornal matou o livro, nem o rádio matou o jornal, e assim sucessivamente.

Convivência é o nome do jogo. Seguiremos em frente, usando um ou outro produto, de acordo com as circunstâncias e o momento, e, aliás, com o livro sendo muito mais usado do que um produto que exige energia elétrica ou bateria, pesa muito e é incômodo. Ou me digam: levarei o tal e-book para a beira da praia ou para o banheiro ? Ou para dormir com ele?

Além do mais, todos estes arquivos que estão aqui no meu computador, os importantes naturalmente, e os copiei em papel. Porque? Por que não quero ou não posso perdê-los e quero lançar mão deles quando necessitar. Portanto, não os quero apenas virtuais.

Ainda recentemente alojou-se em meu computador um vírus enviado por alguém idiota, aliás uma espécie em expansão e que tão cedo não será removida da face da terra, e todos os meus e-mails recebidos de 2008 até junho de 2009, sumiram da memória.

Não quero e não posso, pois, ficar dependente desta única espécie de mídia. Respeito opiniões, mas lembro ainda, como advertência: os oftalmologistas recomendam que se trabalhe vinte minutos e se descanse vinte, diante de um computador. E os especialistas em postura, os que tratam de males da coluna, doenças degenerativas, também.

Só o que não se pode mudar é a mentalidade de gente (e jovem, hein!) que corre atrás de uma moça de minissaia e uma universidade que a expulsa, punindo a vítima. Mesmo que a tal Uniban tenha voltado atrás, esperamos que ela indenize a Geisy. Antes que as vítimas do “Apagão” entrem na Justiça…

DEPOIS DO APAGÃO E TUDO O MAIS…

14 de novembro de 2009

 

Crônica no ABC DOMINGO de 15 de novembro de 2009

MINISSAIA, APAGÃO E PARIS 

Walter Galvani 

Lula está em Paris, longe dos “apagões” e, se for inquirido, responderá que busca “um pouco de luz na Cidade-Luz” para que ela não falte na inauguração das Olimpíadas, como insinuaram os americanos, ou na Copa do Mundo, como na certa lhe jogarão em rosto, perguntando se “jogando no escuro” espera ganhar dos adversários tradicionais. O presidente explicará que não “chuta” uma resposta, mas que provavelmente o clima é o culpado, mas não encontrará culpados da perseguição selvagem à uma garota de minissaia numa universidade do estado que se diz o mais adiantado do país, o que não significa “civilizado”. E nem estamos a salvo no “educado e progressista” Rio Grande, onde os machistas perseguiram pelas ruas de Porto Alegre, as duas primeiras mocinhas que se atreveram a aparecer com minissaias na Rua da Praia por volta dos anos setenta. Isso, lógico, muito depois de Mary Quant sacudir a imperial e imperialista Londres com a invenção que divide com Courréges, mas que ela mesma diz que “nasceu nas ruas”.

“Aluno da Uniban não é taleban” defendeu o vice-reitor Ellis Brown, mas não admitiu que deveriam ser expulsos os trogloditas que perseguiram Geisy, a aluna de minissaia, que, ao contrário, foi punida com expulsão, ato de que a tal universidade se arrependeu, voltou atrás mas ainda não a indenizou pelos prejuízos à imagem e à sua saúde psíquica.

Já quem teve aparelho eletrodoméstico ou industrial pifado pelo “apagão” que, segundo os especialistas do gênero demonstra que o país pode ficar um campo de experimentos tipo “Jurassic Park” a qualquer momento, entrará na Justiça e levará, constituindo-se na grande notícia e no anticabo eleitoral da Dilma Roussef.

Aproveitando a onda, tem gente que defende o fim do livro em papel e o surgimento do “e-book” como a solução, a queima de arquivos e a sua transformação em memória de computador, até o dia em que os dinossauros se soltarem do passado e provarem que a luz elétrica, gerada em Itaipu ou no banhado da esquina, pode, a qualquer momento provar a  incapacidade e a incompetência dos gestores. Prefiro continuar tirando cópias e lendo livro em papiro, copiado a mão ou impresso.

CRÔNICA DE DOMINGO NO ABC

7 de novembro de 2009

Crônica publicada neste dia 8 de novembro no jornal ABC DOMINGO

 

GASTRONOMIA FRANCESA

 

Walter Galvani 

Bandidos invadiram uma pousada na ilha de Itaparica, um atraente destino turístico brasileiro e agrediram e roubaram os turistas. Talvez para comemorar o “Ano da França no Brasil” arrancaram um pedaço da orelha de um francês. Enquanto isso, nas estradas, os fins de semana se sucedem como verdadeiros campeonatos de acidentes e mortes, ferimentos e destruição de veículos.

Tudo muito interessante, mas que só demonstra a insegurança do aparelho estatal brasileiro que deveria garantir tranquilidade a quem nos visita e vem aqui deixar dólares e euros pagos por uma suposta garantia enquanto se douram ao sol (grátis) e se deliciam com a gastronomia. Lembram do filme, “Como era gostoso o meu francês”? Talvez numa alusão a ele, os assaltantes da pousada “Cacha Pregos” (é assim mesmo que se escreve o nome dela) em Vera Cruz, doce alusão ao primeiro nome de batismo desta terra descoberta “oficialmente” em 1500 e ocupada pelos nossos formadores. Não vamos escrever aqui “colonizadores”, porque isso seria cinismo. Afinal de contas, descendemos todos de nossos supostos “colonizadores” ou seus coirmãos de continente. Quanto aos franceses, talvez para celebrar o fato de que eles tentaram também se adonar desta vasta extensão territorial que acabou em mãos dos portugueses, a sua gastronomia é tão tradicional, qualificada e influente entre nós, até porque comida no seu mais elevado sentido, lembra-nos esta origem. Por isso, esta preferência pela orelha francesa por parte dos assaltantes na Bahia, talvez tenha uma explicação subjetiva, bem ao gosto dos nossos ilustres visitantes.

Brincadeiras aparte, eles predominam na formação da nossa cultura e ainda hoje, atração básica da feira do livro porto-alegrense, transmitem seus ensinamentos e sua cultura.

Mas a falta de educação no trânsito, talvez seja o traço dominante deste momento da civilização, se é que pode se chamar assim, brasileira. Pois, as centenas de mortos nas estradas a cada fim-de-semana, apenas retratam o que sucede permanentemente nas ruas das cidades, quando a má educação, o palavrão e até a pistola na mão, substituem o sorriso e o dar a vez, que deveriam vigorar entre pessoas que desejam conviver em paz com os seus semelhantes.

FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE

1 de novembro de 2009

No Rio Grande do Sul, ela é

A MÃE DAS FEIRAS

Crônica publicada hoje no jornal ABC DOMINGO

por 

Walter Galvani

 

 

É mais do que conhecido que este período se caracteriza pela etapa decisiva dos campeonatos de futebol no Brasil e pelas feiras de livros, em suas principais cidades. É a primavera e depois, o inexorável verão, que começa poucos dias antes do Natal. Então, é a corrida de final de ano. O segundo semestre, por isso mesmo, é um período de euforia e muita circulação de capital. Depois vem a safra seca, total, das férias, quando todos vão para o Litoral. Todos é um eufemismo superado. Antigamente era assim. Agora, não vai mais ninguém… na prática, ou por outra, vão muitos, mas as famílias inteiras que para lá se deslocavam, diminuíram muito seu número. Na capital, começou na sexta a 55ª. Edição da Feira do Livro, uma atividade com mais de meio século e que traduz para nossos costumes, o hábito de Lisboa, a antiga capital do império, onde já se vai quase na 80ª. edição. Isso mesmo, em maio acabou a 79ª.

Foi de lá que se trouxe a idéia para o Brasil e do Rio, transplantou-se para Porto Alegre, por obra e graça do jornalista e vereador Say Marques. Aqui logo se incorporaram livreiros locais, os Bertaso é claro, o Maurício Rozemblatt e o livreiro e jornalista Ruy Diniz Netto. Tudo isso, no século passado.

Logo Rio Grande e Pelotas seguiram Porto Alegre e, mais adiante, Santa Maria, Novo Hamburgo, São Leopoldo, Canoas e assim por diante.

No começo só se vendiam livros e nem patrono havia. Tudo isso veio num crescente melhoramento, a cada ano, e agora, quando chega o final de outubro e início de novembro, todo o Rio Grande fica grudado na capital, para saber como a criatividade da Câmara do Livro levou adiante a grande idéia da Feira entre os jacarandás da Praça da Alfândega.

Porto-alegrenses de um modo geral e gaúchos de um modo geral, marcam encontro na praça onde nasceu a cidade de Porto Alegre: “Te encontro na Feira”, dizem e assim, ano após ano, vão se renovando os contatos e se afirmando as novas gerações.

Este ano, então a “mãe de todas as feiras” achou por bem escolher um patrono, o escritor Carlos Urbim que escreve para as crianças. O que se quer é que todos, desde pequenos, leiam. Cada vez mais. Isso é o que faz a grandeza do Rio Grande. A sabedoria está nos livros. No objeto mais avançado e insubstituível de tecnologia inigualável, inventem o que quiserem: Sua Majestade, o Livro!

JUDAS, LULA E O FARISAÍSMO BRASILEIRO

25 de outubro de 2009

 

Crônica publicada hoje, dia 25 de outubro de 2009,

no jornal ABC DOMINGO

 

ACORDO COM JUDAS

 

Walter Galvani

 

Com a sua simplicidade característica e sua indiscutível vocação “midiática”, o presidente Lula garantiu para si as manchetes de sexta, sábado e domingo, colocando lenha na fogueira político/religiosa, ao dizer que “se Jesus Cristo viesse para cá, e Judas tivesse a votação num partido qualquer, Jesus teria de chamar Judas para fazer coalizão.” Ora, o personagem bíblico mais demonizado comparece aqui, dois mil anos depois, para servir de parâmetro de uma união política incomensurável, que Lula preconiza como uma justificativa para uniões entre partidos que nem sequer poderiam sentar juntos à mesma mesa. Surgiram fariseus de todo o lado. Gente que jamais esteve associada a qualquer grêmio religioso, desta vez resolveu aparecer publicamente como defensor da “fé cristã”. Como diria Saramago, afinal, “quem é deus?”, com d minúsculo e tudo e quem é o deus dos cristãos?

Teve gente que até em blasfêmia falou, isso esquecendo que ao defender princípios marxistas automaticamente está abrindo mão de “princípios religiosos”, aliás, de quem é a frase “religião é o ópio do povo?” Respondida a questão, já se pode ver onde andam os fariseus e como Lula, atirou no que viu e acertou no que não viu…

Com a fornalha acesa para torrar preceitos e preconceitos durante estes últimos dias e nos próximos, religiões e partidos vão se consumir em discussões estéreis e que só promoverão o presidente por que “Lula é o cara”, como disse Obama.

Aliás, bastaria aprofundar-se na leitura da história bíblica para verificar que Judas, por seu turno, suicidou-se, ao fazer o terrível acerto de contas de sua vida com sua biografia oficial.

“Todos estes passarão, mas minhas palavras não passarão”, teria dito Jesus Cristo, o personagem mais importante da “resistência” aos conquistadores e ao supremo exemplo de mais poderoso império de todos os tempos, o Romano, não o norte-americano por certo.

Pelo menos Lula, o semi-alfabetizado, o tosco, o rude, o metalúrgico, meteu na mesa dos brasileiros uma discussão um pouco acima da sujeira do dia-a-dia, da violência, das inutilidades televisivas e da roubalheira generalizada.

DÓLAR CARO OU CARO DÓLAR?…

18 de outubro de 2009

 

Crônica publicada hoje no jornal ABC DOMINGO, o grande veículo dominical do Grupo Editorial Sinos

 

VALORIZAÇÃO VERSUS DESVALORIZAÇÃO

 

Walter Galvani

 

Realmente, para o pequeno, para o trabalhador que não faz mais do que ir ao supermercado cuidadosamente, dar um “chego” diário na padaria, pagar o ônibus e algum telefonema, fica difícil entender o que significa toda esta luta dentro e fora do governo, para prorrogar ou não o fim do IPI, pagar a restituição do IR e até entender bem estas siglas. Mas, para a imensa e crescente classe média brasileira, tudo isso é perfeitamente inteligível e ainda mais, a história da valorização do Real diante de outras moedas e os benefícios e malefícios que isto traz. Quer dizer… inteligível em parte. Agora mesmo começa a se ouvir um murmúrio de protesto que poderá se transformar em grita geral, dos setores brasileiros beneficiados pelo turismo, como, por exemplo, Bahia, Norte e Nordeste, Rio de Janeiro em parte e Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Costumamos receber de braços abertos ondas e ondas de “hermanos” argentinos e uruguaios que adentram nossas fronteiras para passar as férias de verão. Somos capazes até de torcer por Maradona em certos momentos, desde que não seja na hora do confronto direto com o Brasil. Futebol aparte, queremos a presença dos nossos vizinhos, pois eles nos deixam uma farta contribuição em dólares (e pesos…) que ajudam a irrigar a economia de regiões normalmente asfixiadas pelos nossos hábitos e costumes. O verão é uma bênção anual que às vezes chega bem cedo, pode começar até em outubro e se prolonga até à Páscoa, quando é sempre benvinda a “ola” de uruguaios que comemoram a sua “Semana del Turismo” invadindo pacificamente a nossa província e arredores.

Desvalorização do Real perante estas “moneditas” vizinhas é, portanto, uma salutar aspiração regional. Agora, se isso prejudica o plano nacional de fortalecimento de imagem, se importações são favorecidas e exportações prejudicadas, como é que isso nos aquece ou nos abala, fica para os “entendidos”. Já o povão fica satisfeito com a entrada de viaturas com “tarjeta” estrangeira, pois sabe que na guaiaca dos visitantes vem, na certa, muitas e interessantes pelegas que ficam nos restaurantes, postos de gasolina, pedágio, hotéis, bares e na compra de “recuerdos” artesanais ou produzidos em massa. Assim, divididos, vamos para mais um verão.

QUE VENHA A “OLA”

16 de outubro de 2009

Crônica para o jornal Diário Popular, de Pelotas

de  Walter Galvani

 O governo se divide e ainda vai se dividir mais com a chegada do ano eleitoral, entre as inúmeras posições divergentes que formam a sua convergência política, diante da conveniência de medidas como “o fim do IPI da linha branca” ou a valorização do Real, diante do dólar, do euro e de todos os pesos. Enquanto isso, o que pode parecer fraqueza é discordância.

O que pode aparecer perante os olhos do público como indecisão ou discórdia, é apenas consequência do fato de que a política não é uma ciência exata, mas sujeita às oscilações das pessoas, dos partidos, e dos humores dos que a praticam.

Pelotas nem precisa pensar nos dólares que o turismo traz, mas porque não bateria palmas para uma generosa avalanche de argentinos e uruguaios? Só que, com o Real em alta, da maneira que está, se bate palmas à uma possível desvalorização, pois assim o desejam, com toda a razão, os exportadores. Em resumo, estamos com uma moeda tão forte, como jamais sonhamos, mas isso não interessa à maioria. Vejam como são incertos e duvidosos os caminhos do senhor das ovelhas. E, no entanto, por mais que as estimemos, é preciso vende-las… Ou tosquiá-las, metaforicamente ou não.

Enquanto isso, ficamos torcendo para que os “hermanos” consigam condições de atravessar a fronteira e visitar-nos. Teremos a maior paciência e compreensão para recebê-los, pois não é de hoje que esta gloriosa princesa do extremo sul brasileiro mostra internacionalmente seu alto grau de cultura e civilidade.

“Así es, se les parece” como diriam Calderon de la Barca, Tirso de Molina, Lope de Veja, Shakespeare e outros que tais.

 

O BURRO DO PADRE

8 de outubro de 2009

 

 

Crônica para o jornal DIÁRIO POPULAR, de Pelotas

 

por Walter Galvani

 

Antigamente, muito antigamente, quando as pequenas comunidades do interior nasciam e existiam graças à comunidade católica, lideradas pelo vigário que era mais ou menos juiz, advogado, portavoz e intermediário ante o prefeito (nomeado) e também conselheiro e arauto das novidades importantes, o burro era o automóvel, às vezes único e importante e ainda mais decisivo em doenças terminais. Mas, isso foi muito antigamente quando o burro do padre era o que havia de mais rápido naquelas pequenas comunidades que depois se transformaram em vilas, cidades e pólos regionais.

Hoje tem a televisão, o rádio, a internet, o blog, o twitter e nem sei mais lá o quê, pois todos os dias aporta uma novidade que vai mudar e muda mesmo a vida das comunidades. O burrico do padre ficou na saudade.

E então, o costume de dar uma escapada, fazer feriado ou feriadão, fugir do massacre do dia-a-dia, nem existia. Hoje faz parte. Não há quem não aproveite greve dos bancários, feriado nacional, Dia da Criança, fim-de-semana, Dia do Professor, Dia do município e nem sei mais lá o quê, tudo emendado, para garantir-se umas miniférias e fugir para a praia ou para a serra ou lá para o fundão do interior em busca do… padre e seu burrico saudoso.

Até conheço gente que começa o ano de olho no calendário para planejar suas escapadas e vai lutando semana por semana para ir concretizando-as e assim vencer a luta contra o ferro do trabalho e dos compromissos.

Psicólogos, psiquiatras, médicos, pais-de-santo, bruxas, adivinhos, uni-vos! Parece que em plena era do cientificismo, da modernidade e do objetivismo, ainda não se resolveu o conflito maior, aquele entre o homem e seus sonhos. Boas miniférias…

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