COM OS LIVROS NA TERRA DOS SONHOS…

25 de novembro de 2011

 

 

 

 

 

Na I Feira do Livro de Santo Antonio da Patrulha,

a mítica “terra dos sonhos”

no Rio Grande do Sul

Walter Galvani

 

 

Falei de improviso em Santo Antonio  da Patrulha, onde estive dia 24 de novembro, com o escritor homenageado da I Feira do Livro da cidade, promovida pela excelente administração de Daiçon Maciel da Silva, (que não pode mais ser reeleito porque já o foi uma vez), e que tem uma secretaria cuidando da Cultura, com Fernando Rocha Lauck. Para quem não sabe, e como este site é, graças a bondade divina, e divinas amigas e amigos, lido em todo o país e até pelo meu amigo, Walter Galvani em França (sim, tenho um homônimo absoluto e, melhor ainda, meu amigo), procuro ir dando meu recado diário, me espraiando (como diria Olívio Dutra) por vários jornais do estado e, de vez em quando novo livro que vai pintando por aí.

Então, atendi um convite que muito me honrou e fui dar um “pitaco” naquele município, o dos sonhos, e “mãe” de metade do estado. Que o projeto “Raízes” o confirma.

Lá chegado comecei a encontrar velhos amigos e conhecidos, a falar na rádio Imembuí, a reencontrar gente como a Valquíria Abreu, poeta de primeira linha, com quem debati questões culturais e o seu desempenho como presidente da entidade que promove o Museu Caldas Jr., instalado na casa onde o fundador do “Correio do Povo” passou sete anos de sua feliz infância.

O Museu, que abriga muito da história do grande jornal e da família do fundador, recebeu doações preciosas da sra. Nilza Caldas, filha e de netos do Dr. Breno Caldas. Respira-se ali o velho espírito que alimentou o sonho fantástico que foi assim recebido como uma aura de inspiração, de volta a Santo Antonio, terra dos sonhos em todos os sentidos.

Quem não relembra os velhos sonhos que a gente devorava com imenso prazer na passagem pelo restaurante “Boas Vindas” que marcava uma pequena pausa na viagem para o Litoral?

Velhos tempos.

E lá estava eu falando de improviso e toquei no assunto da leitura, naquilo que eu mais me apego e espero, sirva de exemplo.

Leio um livro por semana e isto muito me orgulha. Consigo separar da atividade diária, reservando quarenta, cinqüenta minutos por dia, ou mais, para que, ao cabo de uma semana tenha concluído a leitura de mais um volume que vai enriquecer a minha lista.

Assim tem sido desde os anos sessenta do século passado e acontece que, comparando com o índice das pessoas que conheço, me mantenho numa das primeiras posições, com muito orgulho. Eu disse, “aqui no Brasil”, porque meu amigo homônimo lá na Alsácia, onde reside, deve me bater, tenho certeza, não é mesmo, amigo Walter?

E então, pautei meu pronunciamento, pela necessidade e conveniência da leitura, do exercício da escrita, dos grêmios literários (Santo Antônio tem…) como eu tive e vivi a maravilhosa experiência noLa Sallede Canoas, quando o formidável Irmão Henrique Justo, hoje na felicidade produtiva dos seus 89 anos motivou os meninos do ginásio São Luiz, em1946, ase reunirem numa entidade deste tipo.

Que enorme e decisivo impulso! Obrigado, Irmão Henrique!

Era o que me cabia dizer. Eu apenas queria comunicar aos alunos que eles poderão fazer tudo o que eu fiz, e que cumprir a carreira que me trouxe até à situação de homenageado da sua cidade, depende apenas deles mesmos.

E pelo que vi e ouvi, com bons professores, interessados como eles tem a sorte de contar, uma secretaria de educação atuante (não é, dna. Josélia Fraga?) e uma secretaria de Cultura, mesmo que voltada também ao turismo e ao desporto, meio caminho andado.

E aproveito para saudar a LivrariaLa Mancha, que se estreou recentemente láem Santo Antonioe assegura o espírito da presença de Miguel de Cervantes e do seu imortal personagem Dom Quixote ( deLa Mancha, naturalmente) que “lia até os papéis rasgados que encontrava na rua”.

Duas “Patronas” teve a Feira do Livro de Santo Antonio?

Ivone Selistre e Regina Barcellos, ambas poetas, sendo que a letra do belo hino do município é de Regina.

E para não esquecer, o competente e divertido “xerife” Felipe Schoenardie

No sábado, a feira contou com a visita do grande escritor Alcy Cheuiche e no final do evento, Ruy Carlos Ostermann entrevistou Caco Barcellos, dois ícones do jornalismo rio-grandense, em mais um momento da série “Entrevistas com o professor”.

Para encerrar falando um bom gauchês, “que baita evento!”

O DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA

21 de novembro de 2011

Crônica publicada no jornal DIÁRIO POPULAR, de Pelotas, o mais antigo diário em circulação do Rio Grande do Sul, na mimosa cidade de Pelotas, muitos anos chamada “A Princesa do Sul”. E ainda hoje, é claro… 

Walter Galvani

 

 

 

Não faz muito tempo, só dezesseis anos em verdade, que foi fixada a data que se assinala neste domingo, o “Dia da Consciência Negra”. A idéia é prestar uma homenagem a Zumbi dos Palmares e a saga do Quilombo, vivida por ele e que culminou com sua morte em 1695.

Na verdade, nem os negros, nem os brancos, nem os “pardos”, que se dizem “a maioria da população brasileira” de acordo com o último censo, sabem algo ou lembram da data que assinalou a 16ª. expedição dos portugueses e que destruiu o Quilombo. O nome de um bandeirante Domingos Jorge Velho, conhecido historicamente como predador de negros, ficou marcado como o “herói” daquela desumana destruição.

O dia, erigido em data da Consciência Negra, foi o 20 de novembro que marca a morte de Zumbi, depois de heróicos vinte e dois dias, defendendo a sua raça, seus direitos e sua liberdade.

A localidade de Macaco, na Serra da Barriga, havia se transformado na capital dos negros que lutavam pela sua emancipação, e que, justamente queriam fugir ao desumano estatuto da escravidão.

Não vamos desculpar ninguém, era o mesmo século de Bach, e logo ali, depois da curva, Voltaire e a Revolução Francesa.

Apoiando métodos primitivos de captura e execução, o Brasil, então colônia portuguesa, procurava manter a desigual situação, usando e abusando de métodos condenáveis.

Os negros eram 20 mil, lutando pela sua liberdade. Haviam sido trazidos à força de localidades africanas e aqui tinham que trabalhar para fazer a fortuna dos brancos. Já os indígenas, os povos aborígenes, se recusavam a aceitar a condição de escravos, e assim foi preciso trazer negros com ferros nos braços e nas pernas, para servirem de mão-de-obra da jovem colônia portuguesa.

Sem enfeites, foi isso que aconteceu. Vamos, pois, assinalar bem o dia 20 de novembro, o Dia da Consciência Negra, lembrando Zumbi e sua memorável resistência.

Foram necessários ainda 193 anos, praticamente dois séculos, para a proclamação oficial do fim da escravatura de seres humanos negros pelos brancos dominadores. Bendita miscigenação que acabou, aos poucos com o drama, embora não tenha ainda eliminado todos os preconceitos.  

O DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA

20 de novembro de 2011

Crônica publicada hoje no jornal ABC Domingo, órgão do Grupo Editorial Sinos, com sede em Novo Hamburgo, a poderosa “Cidade Industrial”

Walter Galvani

 

Resistir ao Império de Portugal em 1695, quando a escravatura ainda era moda na Europa e na América, suportar quinze expedições ofensivas e só cair na décima sexta, escapar ainda durante 22 dias, eis o balanço do fim do Quilombo de Palmares, que resistiu com sua população de 20 mil negros, até a morte do líder e símbolo, Zumbi.

Desde 1995, quando se completaram trezentos anos sobre o desenlace, tornou-se o dia 20 de novembro, o “Dia da Consciência Negra”. Mesmo os que nada sabem sobre o episódio desse dia se vêem compelidos a estudar a data e descobrir que a famosa “Abolição da Escravatura” ainda levaria, praticamente dois séculos (até 1888) para acontecer. Assim, com a nossa tendência em minorar os problemas e ignorar os dramas, somos obrigados a enxergar, embora trezentos anos depois, que a Liberdade levou a população negra, de que tanto nos orgulhamos de que  hoje constitua 35% da brasileira e esteja em nossas raízes, e nos fundamentos do samba, das mulatas e do carnaval e nos faça propalar a miscigenação como um bem extraordinário – ah e tem o futebol, onde somos campeões graças aos nossos negros – a fugir para as matas e constituir a sua resistência.

Elegeu-se então o dia 20 de novembro como o “Dia da Consciência Negra”, a data para lembrar o quilombo de Palmares e a morte de Zumbi.

No entanto, estamos em 2011 e ainda se escuta por aí, frases como “sim, ele é negro, mas é bom!”  Mas e “mas” porque?

De onde tiraram a tese de que a cor da pele influi na qualidade, na bondade, na capacidade, física ou intelectual, na personalidade de alguém?

Então, que se aproveite e bem, este dia 20 de novembro, para lembrar Zumbi, Palmares, a força  negra, a excelência da miscigenação, as virtudes e os efeitos desta mistura de raças, ou melhor, etnias, que levou o Brasil a esta maravilhosa liderança dos países chamados lusófonos, a frente de Portugal, Angola, Cabo Verde, Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomé- e-Príncipe e Timor Leste e tantos enclaves e ex-colônias onde se fala o português, saudavelmente misturado com o Iorubá ou algo mais do gênero. Como dizia aquela antiga música, viva o meu “Brasil brasileiro”.

EUROPA , ATÉ LOGO

14 de novembro de 2011

Crônica publicada no jornal ABC Domingo, dia 13-11-11

 

 

Walter Galvani

 

O leopardo está ali na esquina. Ele pode nos engolir. Mas, a gente faz de conta que ele não existe ou que afinal de contas, leopardo não é tigre. Não vai nos atacar. E assim vamos levando a vida.

A Comunidade Européia já sacrificou dois governos aos deuses da economia, os países estão se curvando ao seu próprio déficit e incapacidade de enfrentar os rigores da contabilidade. Nós vivemos no mesmo mundo, e uma inflação anunciada, de 6,97%, serve para exorcizar todos os nossos medos… Será mesmo?

Quem disse? É o que todos pensam. Quer dizer: é o que querem que todos pensemos.

Neste final de semana a Itália estará mudando o seu governo, para se adequar às exigências da Comunidade Econômica Européia. A Grécia já o fez. São os elos mais fracos da cadeia, assim como, poderão sê-lo os demais, como já o foi a Irlanda, como poderá ser Portugal, a carta da vez, assim como poderão todos os demais, caírem como um castelo, uns encostados nos outros.

Isso não chegará à América?

De onde tiramos esta ilusão?

Amanhã ou depois será a Argentina, como poderá ser o Uruguai, a Colômbia, México, Cuba e o Paraguai. E o Brasil, é claro, que, espremido no meio disso tudo, ou com a cabeça bem para fora por ser o gigante que é, poderá estar na fila, aguardando a vez, para que assine seu acordo – eu ia escrever submissão – ou perca a referida cabeça…

Ninguém está imune nesta comunidade econômica que é mundial e não exclusiva de certos continentes, limitada por razões geográficas, porque hoje em dia se passa por cima disso tudo. Os grandes problemas econômicos não tomam conhecimento dessas coisas pequenas que são os nossos interesses individuais, ou digamos, nossas pequenas comunidades.

Você já fez suas contas? Acredita mesmo na inflação oficial apresentada ou acha que há diferenças de cálculo ou de classe consumidora, para dizer o menos ou o mais suave?

Vamos todos ter um fim-de-ano de ignorância e euforia, ou de precaução e arrependimento. As luzes das festas podem nos enganar. Nunca é demais, como diziam nossos avós, cautela e caldo de galinha.

Quanto à Europa, até logo Europa. Logo ali na curva do 2012 nos encontraremos.

GRÉCIA E MARTE

7 de novembro de 2011

Crônica publicada no jornal “DIÁRIO POPULAR” de Pelotas, neste dia 6 de novembro de 2011


Walter Galvani

 

Duvido que o naufrágio econômico da Grécia, sob as ameaças da lógica do capital, consigam fazer submergir a doce lição de vida que os gregos sempre nos deram. Mas, a lembrança do passado, não poderá apagar, nesse fim de semana, a presença do planeta Marte, sim nosso vizinho mais próximo, aquele que vemos “vermelho” ao entardecer e às vezes durante o dia, quando dele nos lembramos.

Pois é, ele está mais próximo que a catástrofe econômica da Grécia, agora que seis terráqueos fizeram uma viagem simulada de 520 dias. Desde 3 de junho do ano passado, eles estavam enfiados numa pequena cápsula, “fingindo” que haviam ido e voltavam do “planeta vermelho”.

Agora temos que ver como estão fisicamente, como a sua psiqué foi afetada ou não, se eles, os heróicos soldados experimentais, estão se odiando, se foi possível conviver neste confinamento de mais de um ano e meio ou se a tarefa será impossível para o ser humano.

Vamos ter que estudar muito bem esse resultado, ouví-los, entrevistá-los, saber como sobreviveram à esta “viagem”.

Depois disso pode se dar andamento ao plano que só irá se concretizar lá pelo ano 2040.

Por enquanto queremos saber se dentro desta missão internacional, dois russos, um francês, um ítalo-colombiano e um chinês, puderam se entender, que línguas falaram, como foi um sentir o cheiro do outro, entender-se, saber sobre o que conversaram, se estavam ligados no “face-book”, sei lá, como é que ultrapassaram o isolamento e a convivência de mais de um ano e meio.

Enquanto vamos saboreando as reações dos nossos representantes e imaginando como será a vida no futuro, o que poderemos encontrar em Marte, sempre o mais visado, o mais simpático e o mais temido dos nossos colegas planetários, ocupar-nos-emos com os prognósticos e as perspectivas.

Os problemas aqui? Esses não estão e nem serão resolvidos tão cedo… Desde 1516, Thomas Morus já alertava que a Utopia não está ao nosso alcance, a não ser que nos dispamos de todas as honrarias, ilusões, sonhos patéticos e ambições, para dividir/repartir esta Terra que nos coube para viver, sem distinções de raça, cor, idade, crença ou aparência.

Será muito isso?

É apenas um sonho. De 495 anos…

520 DIAS IDA E VOLTA À MARTE

7 de novembro de 2011

Crônica publicada nesse domingo, 6 de novembro de 2011, no jornal 

ABC DOMINGO

Walter Galvani

 

 

Confinados há 520 dias, dentro de uma cápsula que simulava um voo completo, ida e volta ao planeta Marte, “retornaram” os seis representantes da espécie humana, tendo “desembarcado” em Moscou, de onde nunca saíram, aliás. Esgotadas as fronteiras terrestres, hoje que o computador, o celular, a internet, esses e outros equipamentos que derrubaram todas as barreiras e distâncias, o que resta para a Humanidade?

Bem, vamos dizer que “fingir” sempre foi o nosso forte. A arte poderosa do teatro ou o cinema, da literatura ou de todos os seus derivados e filhos diretos, nada mais é do que o aperfeiçoamento do ato de fingir, representar, interpretar.

Os seis “fingidores”, dois médicos e um engenheiro russo, um astronauta chinês em treinamento, um engenheiro francês e um ítalo-colombiano, estão “de volta à Terra”.

Nesse ano e meio aproximadamente, 17 meses e alguns dias, quanta coisa mudou em nosso Globo! Será que eles se reconhecem entre os habitantes bem informados de tudo o que se passa por aí, não estranharão eles algumas mudanças das quais tiveram conhecimento apenas virtual ? E como reagirão a liberdade de andar para lá e para cá, passear pelos parques de Moscou, Paris ou Pequim, depois de terem ficado todo esse tempo limitados aos poucos metros da cápsula?

Enfim, como será o relato que eles farão de sua experiência de convivência entre seus colegas de “voo”, e como terá se comportado o seu organismo com esses quinhentos e tantos dias de isolamento?

E o cérebro, a psiqué de cada um?

Se quisermos, mais adiante, de fato visitar o “planeta vermelho”, aquele que mais nos assombra pela proximidade e pela sua “passagem” frequente aqui ao nosso lado, enquanto nosso planeta prossegue em sua viagem pela vastidão do Universo, teremos que estar prontos para uma massacrante viagem como essa que nossos companheiros terráqueos acabam de fazer.

Parece mentira, mas os desafios já ultrapassaram as limitações que a nossa situação de humildes habitantes do nosso próprio habitat voador nos impôs.

O que haverá ali, logo ali e logo além?

Nossos viajantes estão “fora” desde o dia 3 de junho de 2010. Até a sua chegada, sexta-feira, passaram-se 520 dias. Estaremos prontos para conhecer o “planeta vermelho”, nosso “vizinho” mais próximo? Qual será o preço do desafio?

UMA BOLA NAS COSTAS DE PORTO ALEGRE

5 de novembro de 2011


 

Walter Galvani

Ainda há de tudo, e quando se pensa que a Humanidade progride, surgem comportamentos que retratam algum caráter deficiente, cretino, coisa de bandidos imiscuídos entre os cidadãos bem intencionados. E como há disso! A gente não pode é se desconcentrar, mesmo que isso seja pesado.

Eu, infelizmente, me distraí no final da tarde de sexta-feira, em torno das 7 horas, com este novo horário, dia claro.

Caminhava pela avenida Júlio de Castilhos tão absorto em meus pensamentos, me sentindo numa cidade de Primeiro Mundo e em meio à cidadãos como eu, trabalhadores, sérios, até obstinados pelo cumprimento do dever e sem malícia na cabeça. Pelo jeito era ilusão minha.

Agora, quando só se fala em Copa do Mundo de 2014, imagino que lembrança levará daqui um visitante que venha a sofrer o mesmo que eu naquele fim de tarde: um assalto, praticado por um reles punguista. Isso num país em que tantos são os ladrões de alto coturno… vejam só as propinas, enfim, o leitor que acompanha o noticiário diário, sabe de tudo isso – que a gente até esquece estes bandidinhos reles.

E eu caminhando ali pela avenida, bem no centro de Porto Alegre, admirando os cidadãos que se dedicam ao lazer, lotando os pequenos bares e restaurantes de calçada e até admirei alguém que doou uma garrafa de guaraná a um menino, que festejou com os olhos brilhando e os dentes escancarados, pela gentileza recebida.

Foi então, dez passos adiante daquela cena feliz, que senti uns dedos se infiltrarem em meu bolso lateral direito. O tal bandido prendeu algumas notas na sua “pinça” e puxou-as. Reagi na hora e o resultado foi que nos atracamos. Levei a pior, é claro, o sujeito tinha um terço da minha idade, e acabei no chão, beijando a pedra. Bati com o rosto, sei lá, o fato é que fiquei com um derrame junto ao olho e vários hematomas pelas pernas e braços.

Ganhei o dia. O miserável ladrão levou minguados quatorze reais e consegui reter meus óculos, o resto do meu dinheiro e a minha sacola cheia de livros comprados na Feira do Livro de Porto Alegre, e que me serviu como arma de defesa. Dei-lhe um sacolaço no rosto e ele, cercado já pelas pessoas de bem que me acudiam, fugiu, como todo covarde.

Provavelmente não deve ter uma mãe que lhe faça ficar com vergonha!

Estou inteiro, o estrago foi pouco, e o custo, banal.

Cuidado, Fortunatti, a tal Copa do Mundo pode ser uma bola nas costas de Porto Alegre…

nós e as feiras de livros

30 de outubro de 2011

Crônica publicada hoje no jornal ABC DOMINGO

 

Walter Galvani

 

A Feira do Livro de Porto Alegre que começou ontem e  receberá um glorioso público na principal praça, a da Alfândega ou Senador Florêncio, como queiram, quase toda regenerada, está completando 57 anos, portanto, a mais antiga da região o que honra a cidade-capital do Rio Grande do Sul, habitado por um povo que lê. Aos poucos, desde 1955, a idéia espraiou-se e, primeiro Pelotas, depois as demais, entre elas Novo Hamburgo, São Leopoldo e Caxias do Sul, passaram a ter suas feiras.

A de Porto Alegre hoje ultrapassa as previsões mais otimistas: espera-se um público de 1.700.000 nos seus 18 dias, mais de 700 sessões de autógrafos, mais de 200 encontros, palestras, mesas redondas e mais de 400 bate-papos com escritores. Números superlativos que confirmam que a idéia dos livreiros que montaram 14 barraquinhas na praça, a partir de 16 de novembro de 1955, fustigados pela chuva e pelo improviso, frutificou, fez milhares de seguidores e adeptos e continuará enquanto a idéia do livro permanecer no coração e na mente das pessoas.

Pratico aqui no ABC Domingo, a modalidade de Crônica que aprendi ao longo de minha carreira e transformei em sacerdócio por estes meus 57 anos de jornalismo, equivalentes à Feira. Minto: tenho um ano a mais, praticado em Canoas, onde ajudei a fundar um jornal, o “Expressão”, que morreu de morte prematura à altura da sétima quinzena.

Este ano estarei coordenando uma oficina, “O voo da gaivota”, metáfora que uso para definir a busca de assunto, tarefa indispensável de quem quer escrever uma crônica. Dias 4 e 5 de novembro, às quatro da tarde, inscrições abertas na Câmara Rio-Grandense do Livro.

Coordeno a mesa de autógrafos dos meus alunos cronistas da AGEA, que se reuniram para aprender o ofício, durante os últimos sete meses e posso garantir que não são prematuros… A Oficina deles, “Mãos à Obra Literária”, resultou numa antologia que aparece sob o título de “Estalos e Rabiscos”, um exercício fonológico e uma reflexão sobre a vida e o trabalho de cada um, no térreo do Memorial do RGS, dia 6 de novembro às 20 horas.

Ah e não percam: dia 9 na Feira, a escritora portuguesa Lídia Jorge, minha amiga o que é um dos meus maiores orgulhos, que será entrevistada, dará autógrafos e falará de vida e literatura.

SÚPLICA DE UM CARNAVALESCO

24 de outubro de 2011

Estou fazendo este ano, cinco “orelhas” de apresentação para livros que estarão na 57a. Feira do Livro de Porto Alegre que inaugura dia 28, sexta.

Esta que segue, foi para o livro do José Antonio Grings, médico e escritor que está residindo em Alegrete.

O livro se chama “Súplica de um carnavalesco”. Que contos, que crônicas!

A coordenação da edição (Pergamus) é da Kelli Pedroso, que orgulhosamente apresento como minha ex-aluna. Hoje ela sabe mais do que o mestre…

Eis a “orelha”:

 

Ao ler “Súplica de um carnavalesco”,

do médico e escritor José Antonio Grings,

meu conselho é: “Não se distraia!”. Você

começa com os contos amen0s e divertidos,

muitos deles ambientados em Alegrete,

onde ele exerce a medicina há anos e daqui

a pouco, sem se dar conta, mergulha num

profundo e claro exame da vida e com o

envolvimento que a modernidade trouxe e

aprofundou. De repente, ele lhe receita

enviar e receber e-mails para ser

feliz e leva mais longe, até pontos

tão agudos onde “torna-se necessário

- escreve – que a esperança não

desapareça para que se possa ter um bom

relacionamento com o mundo ao redor. Se

isso não acontecer, a pessoa entra em

isolamento e depressão, com um sentimento

de culpa acentuado, procurando, muitas

vezes, projetar nos outros os seus

próprios desencantos”. Ou seus encantos,

completo eu, ou os encantos do autor, que

o pega pela mão e o arrasta ao mundo

mágico da saudade, da recordação e da

dedicação integral aos outros, praticando

o bem com a atividade médica.

Ah, os e-mails?

Sim, é isso mesmo: psicólogos da

Universidade do Texas afirmam que o

hábito de enviar e-mails com conteúdo

emocional é benéfico para a saúde mental

das pessoas, garante nosso médico e escritor

que “os internautas que procuram expor

seus sentimentos mais profundos

em mensagens eletrônicas têm uma saúde

melhor do que aqueles que não o fazem.”

Eu já aderi; tanto que estou mandando

via mail para os editores, este meu

pensamento positivo sobre um

livro imperdível.

Quem duvidar que me siga nesse

mergulho emocionante dos contos às crônicas.

 

Walter Galvani

Jornalista e escritor.

FALTA O ÚLTIMO ATO

23 de outubro de 2011

Crônica publicada n este dia 23 de outubro, no jornal DIÁRIO POPULAR, de Pelotas

 

Walter Galvani

 

 

 

Antigamente o teatro tinha regras claras e assim, o primeiro ato servia para apresentar os personagens e as questões básicas, o segundo para as ações que levavam os expectadores a se comover e tomar partido e o último, quando para o bem ou para o mal, chegava-se ao desfecho e às conclusões. Resumo aqui sinteticamente toda uma longa história de trinta e tantos séculos, casualmente a idade da cidade de Trípoli, onde ainda não se escreveu o último ato da grande tragédia que se abateu sobre o povo da Líbia.

O teatro foi invadido pela modernidade e hoje nem sequer se pergunta pelo número de atos ou melhor,  ninguém se preocupa mais com isso, nem com as imposições técnicas.

Mas, curiosamente a vida continua a imitar a arte, e a gente está sempre à espera do novo ato, aquele que vai restaurar a justiça e a virtude e impor a punição aos malfeitores, aos bandidos, aos indignos, aos corruptos e aos corruptores, aos ditadores e aos facínoras.

O que aconteceu em Trípoli, a bela capital mediterrânea da Líbia, cujos nomes latinos nos soam como indícios possíveis de alguma civilização honrosa, pode ser o prenúncio do terceiro ato que em aí, ou o fim da arquitetura teatral…

Muammar Kadhafi, o ditador sentado sobre os lucros da gasolina, amigo e irmão para alguns presidentes ocidentais, o homem que perseguiu, torturou e matou para se manter no poder, foi apeado. Na derrubada, alguns excessos típicos de “segundo ato”. Foi detido intacto, conduzido como um prisioneiro, foi alvejado primeiro num braço, depois numa perna, finalmente na cabeça, para que não restassem dúvidas.

Ele deixa a cena agora, nu e ensanguentado, será preparado com o requinte oriental de quase múmia e sepultado, talvez em solo sagrado islâmico.

Tudo o que se condenava nele, nos seus métodos selvagens e cruéis, foi agora praticado pelos que pretendiam “limpar” o país, com a sua derrubada.

Vem aí o terceiro ato. Na arte, como na vida e na vida, como na arte, o teatro é sempre metódico, imparcial, inescrutável e inevitável em seu instinto de restabelecer a justiça que, como se sabe, é tarda, mas não falha.