FÉRIAS DE JULHO

20 de julho de 2008

Crônica publicada no jornal ABC DOMINGO, do Grupo Editorial Sinos

AGOSTO, PAUSA PARA MEDITAÇÃO

 

Walter Galvani

 

Mudanças à vista, o mês de agosto poderá servir como uma espécie de pausa para meditação, pois, se o senado aprovar as mudanças previstas no Código de Processo Penal, o que parece certo, estarão sendo encerradas as barulhentas mega-investigações, as intervenções cinematográficas da Polícia Federal e dos pelotões de Bope (e muito ibope), pois serão impedidas prisões preventivas, os acusados terão conhecimento prévio das acusações e alguns crimes, como os de “colarinho branco” serão afiançáveis. Este novo pacote com que será brindada a sociedade brasileira trará a vantagem de promover o retorno para a primeira linha de interesse público, a telenovela e o futebol. Voltaremos à sátira e à comédia, vamos deixar de lado a rude nudez da realidade e o dia-a-dia voltará a ser glamurizado pelos concursos de “misses” e o noticiário internacional. Além do mais, com a entrada em vigor das leis do Código Eleitoral, o estreitamento será uma conseqüência natural do ano de eleições.

Bom ou ruim para o leitor, para o ouvinte, para o telespectador? Enquanto minha gaivota sobrevoa a beira da praia em busca de assunto/alimento para o seu almoço, deixo a resposta em suspenso, no ar…

Teremos uma autêntica “pausa para meditação”, dentro de mais uma dúzia de dias, se tanto, quando nos obrigaremos a refletir sobre a conveniência ou não de mergulhar na realidade ou abraçar de vez o reino das metáforas…

Assim será o segundo semestre que já começou e depois da breve interrupção das férias de fim de julho será retomado com toda a intensidade e velocidade em todos os lados.

Não sei se minha gaivota vai morrer à míngua ou se contentará com as migalhas que cairão em seu caminho… O que é certo é que, pelo menos por um bom período deixaremos de comentar chegadas e saídas dos Cacciolas, Pittas, Dantas e outros mais ou menos votados.

Pensando bem, um belo intervalo para a reflexão e a recuperação do bom humor, o tradicional humor brasileiro, consagrado mundialmente e tão abalado por estes últimos anos de escândalos e derrapagens virtuais e concretas.

CORRUPÇÃO, FRAUDE, DESVIO DE VERBAS, LADROEIRA…

19 de julho de 2008

Você ainda não se cansou disso tudo? Acho que o leitor, o ouvinte, o telespectador, ou seja o público, deseja outra coisa. Não é por nada, não… nem que seja para mudar de assunto. E a podridão reinante cheira mal… Vamos lembrar uma frase célebre? Do alto destas pirâmides, QUARENTA SÉCULOS VOS CONTEMPLAM

 Walter Galvani 

Um dia destes, me perguntaram: “e você, tendo que produzir praticamente sete crônicas por semana, não cansa de falar sobre desvios de verbas públicas, falcatruas, roubos, prisões com algemas ou sem algemas, de pijama ou colarinho branco?” Resposta: canso, sim. Tanto que já me auto-decretei que, enquanto perdurarem estas difamações, calúnias, verdades, mentiras e desmentidos, vazamentos e escutas clandestinas, não retomarei estes temas, para não chatear os leitores. E eis que me alertam: vem aí agosto e com a aprovação de uma lei que tramita no senado, nada mais disso poderá ser assunto, além de que, com a aproximação das eleições os cuidados tem que ser redobrados para não atingir ou beneficiar candidatos e partidos.

Estreita-se o espaço, pois como se sabe, “tudo o que é sólido se desmancha no ar” e a minha gaivota preferida fazendo o vôo em busca do seu alimento vai ter que encontrar alternativas.

Por que não buscar a grande frase da semana? Claro, de preferência perdida nos caminhos do tempo… Foi o que fiz, amáveis leitores dominicais desta prosa com que procuramos honrar o mundo da lusofonia, na semana que antecede a entrada em cena de um representante da Guiné-Bissau (onde se fala, sim, português, mas não muito), como presidente da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), que deverá ser eleito na “cimeira” (traduzindo: reunião de cúpula) que começa amanhã. Mas não foi de nenhum abnegado defensor da nossa língua que extraí esta bombástica lição de encorajamento e relações públicas. Foi dele, do famoso corso, Napoleão Bonaparte. Há exatos 212 anos, antes que ele se transformasse no terror da Europa, embora já pintasse como o adversário dos absolutistas e bem antes do desvio de conduta que o levou ao abismo. Estavam, pois, os franceses postados no deserto de Saara e Napoleão levantou-lhes a moral com esta frase inesquecível: “Do alto destas pirâmides quarenta séculos vos contemplam!” Venceu a batalha, tornou-se o martírio dos ingleses e ajudou a redesenhar o mapa da Europa, que foi outra vez redesenhado em 1815, depois de Waterloo, e assim, sucessivamente, até o final do século vinte. A mesma frase deveria servir hoje para botar a vergonha na cara dos nossos contemporâneos…

UM SIMPLES RECADO SOBRE A ARTE DA CRÔNICA E A BIOGRAFIA

17 de julho de 2008

Crônica publicada no Diário de Canoas, minha terra natal.

O COELHO MÁGICO

 

Walter Galvani 

A arte da crônica consiste em encontrar o assunto do dia, aquele tema que os leitores ao iniciarem a sua leitura exclamam: “Puxa! Isto é o que eu gostaria de abordar!” e escrever bem, o que arranca a reação subseqüente: “Ah, eu escreveria assim!” Por vezes, no entanto, somos obrigados a fugir do assunto, aquele que se diria insubstituível, pois tanto já se falou sobre aquilo que se tornou monótono, repetitivo, desagradável. Falar aqui sobre a greve da ECT e os prejuízos aos indivíduos, sobre o desvio de verbas do assunto Detran, indisponibilidade dos bens dos acusados ou sobre a “tolerância zero” nas estradas, ruas e avenidas, ou a operação do “entra e sai” da cadeia dos “colarinhos-branco” fisgados pela Polícia Federal, uns pilhados até de pijama e todos algemados, soa como uma espécie de coisa já vista, já conhecida, para os leitores deste ativo e eficiente “Diário de Canoas”, preocupado, muito justamente, com os problemas da comunidade, de olho no calçamento das ruas e a falta de água, transporte coletivo dos cidadãos e oportunidades de lazer e compras.

Por isso, mexo com freqüência no meu baú histórico e retiro da cartola, ora um coelho mágico, ora uma história dos “tempos do padre Leão”, ora uma saída do Hugo Lagranha que ameaçou obstaculizar a linha que se construía para o Trensurb se ela não mergulhasse no centro de Canoas. Não mergulhou e o Lagranha foi patrolado para fora da prefeitura. Teve que retornar na base do voto (era nomeado), mas não conseguiu mudar a travessia que teria salvado o centro histórico da cidade.

E por me habituar a mexer neste baú de histórias, tomei o gosto de pesquisar a biografia das pessoas, ao mesmo tempo em que escrevo e reescrevo a minha própria, contando fatos e lendas e interpretando e reinterpretando o que se consegue, mergulhei na preparação de uma oficina de Biografia e Autobiografia, aliás, matéria que lecionarei na Unisinos mais adiante. Esta oficina de agora que segue a ordem das primeiras, de crônica e escrita criativa, darei em breve em Canoas, sob a égide do Departamento Cultural da cidade. E isso fará parte da minha biografia.

 

O PERTURBADOR ENTRA E SAI DA CADEIA

13 de julho de 2008

Crônica publicada hoje no jornal  ABC DOMINGO, do Grupo Editoial Sinos, que circula em Porto Alegre, região metropolitana, Encosta da Serra, Vale do Rio dos Sinos.

A sede da empresa é em Novo Hamburgo, a grande “cidade industrial” da área de colonização alemã que se produziu no Rio Grande do Sul, a partir de 1825.

NA TERRA DA ENCENAÇÃO

 

Walter Galvani

 

“Banqueiro volta para a cadeia”, “banqueiro também vai preso”, “ex-prefeito vai para a prisão de pijama”, “hábeas libera ex-prefeito”, “grande investidor vai preso”, “banco perde um bilhão” e tudo dito e impresso, apresentado e lembrado assim, cria, na cabeça do humilde, do modesto, do pequeno, a ilusão de que o mundo é feito de tais encenações. Enfim, só é real o que “passa na televisão” ou é divulgado na “mídia”.

Esta “realidade” do mundo moderno é uma das maiores distorções provocadas pelo tipo de efeito que a difusão causa na mente das pessoas que precisam aprender a ler, ver e discernir o que é falso do verdadeiro, o que é permanente do que é fugaz, o que é justo do que é injusto, o que é concreto do que é fictício.

De uns tempos para cá, e naturalmente num processo vertiginoso e vertical que será aprofundado neste ano eleitoral, o brasileiro se defronta cada vez mais com esta alteração no que lhe é apresentado, uma vez que a verdade, manipulada desde o seu nascimento não deixa de se encaminhar para o paradoxo popularizado pelo escritor Marshall Berman. Repescado no “Manifesto Comunista” de 1848, redigido por Karl Marx, de que “tudo o que é sólido, se desmancha no ar”, a dúvida agora se aloja no espírito de todos. O pior é que se desmancha mesmo a “realidade”, que antes era apregoada por Aristóteles como o resultado da ação dos cinco sentidos do homem, e hoje vem em pacotes prontos, congelada ou resfriada, conforme o caso, para uso imediato ou reservada para utilizações futuras.

Fica difícil para o habitante do morro ou do subúrbio, da vila ou do bloco habitacional ou até mesmo das grandes e confortáveis residências dos “paraísos artificiais” dos condomínios fechados, entender o que se passa nos atapetados corredores dos altos escalões. E o que de fato acontece, antes ou depois da noite cair, ao amanhecer ou nas frias madrugadas, pois de pijama e pantufas andam todos de cá para lá e de lá para cá. E quem dorme nas prisões pode acordar nos cinco estrelas, e vice-versa. Está na hora de um “chega pra lá” severo e cortante. Nossa esperança é que isso aconteça antes da hora das decisões pessoais no silêncio e na privacidade das urnas.

ALGEMAS, APARATO PÚBLICO,FILMAGENS…

9 de julho de 2008

Tudo bem, vamos respeitar a Polícia Federal, mas nem sempre o escândalo é o melhor caminho. Há muitos criminosos que

tapam o rosto para não serem filmados. Nessa hora, seria bom um inspetor desmascará-lo para que todos vejam bem quem é e não esquecer mais suas feições…

CELSO PITTA DE PIJAMA

 

Walter Galvani

 

Tenho o maior respeito por estas operações da Polícia Federal até porque não tenho nada a esconder e acho bom que o país trema diante de alguma coisa. Afinal de contas, nem uniformes assustam mais (podem ter sido roubados) nem “carteiraços”, nem grandes nomes sociais ou econômicos. Por isso mesmo, a simples citação da Polícia Federal faz tremer, com justa razão todos os que têm  “culpa no cartório” e, por osmose, os que não tem…

Mas considero dispensáveis certas atitudes, como obrigar a um cidadão, seja ele um contribuinte qualquer, um “não contribuinte” por vadiagem ou desemprego (a linha divisória é cada vez mais estreita…) ou um ex-prefeito de São Paulo, tipo Celso Pitta.

Para que obrigá-lo a aparecer diante das câmeras de fotógrafos e operadores de tevê, de pijama e (com ou sem) chambre?

No mínimo desrespeito ao indivíduo que já pagou o mico de ter tido uma ex-esposa que o denunciou (em 2001) e por isso está metido nesta situação.

Nada a favor de corrupção ou de qualquer banqueiro, tipo Daniel Dantas, operador de bolsa tipo Nagi Nahas ou funcionário público do estilo de Celso Pitta. Também não me alinho na posição de alguns que dizem que neste último caso se trata de preconceito racial, pois, se Pitta fosse branco não apareceria na “mídia”, ainda mais de pijama…

Por favor: não tratem de misturar as coisas, o que é muito comum neste país: tentar esvaziar uma acusação, diminuindo o acusador. Mas, promover espetáculos com a miséria alheia, também não é uma atitude correta ou digna de cavalheiros. Ah, no mundo do crime não tem isso não? Pena que a tolerância zero não vá até o fim em todos os setores e ramos de atividade.

 

LIBERDADE, LIBERDADE, ABRE AS ASAS SOBRE NÓS

5 de julho de 2008

Crônica publicada neste fim-de-semana no “Diário Popular” de Pelotas:

VIVE LA LIBERTÈ!

 Walter Galvani

 

Ao longo dos últimos três séculos nos habituamos a cultivar a liberdade sob a égide da França. Parece que em francês, até as palavras soam melhor, quando se referem a este tema que esteve no cerne da Inconfidência Mineira, na bandeira farroupilha e em nossos corações e mentes desde 1789. Não foi por acaso que os cidadãos franceses derrubaram a Bastilha e os preconceitos, aboliram o absolutismo e transformaram os costumes sociais e econômicos, abrindo o caminho para as modernas repúblicas. Por isso, ver a senadora Ingrid Betancourt ser recebida pelo presidente Sarkozy e desfilar sob o Arco do Triunfo naquela que há centenas e centenas de anos se convencionou chamar “Cidade Luz” é uma vitória para as forças do Bem, neste período negro da história da Humanidade, este em que vivemos, e em que “triunfam as nulidades” como diria Ruy Barbosa, se impõem as mediocridades e os jovens não querem mais estudar e trabalhar, pensando em ganhar a vida “na sorte”. Pena para nós e pena para eles.

Mas Ingrid resgatou esta dignidade que muitos julgavam enterrada. Suportou quase sete anos de cativeiro, presa como uma fera por uma corrente na metade deste tempo, depois que provou que não se renderia e pretendia fugir das trevas da ignorância das tais Forças Armadas Revolucionárias que de revolução nada mais tem, querem apenas trocar reféns por dinheiro, assim mesmo como procedem os piores criminosos. Aliás, de criminosos estamos cheios, temos para todos os gostos no Brasil. Ocupam favelas, moram em edifícios granfinos, andam pelas ruas, elegem-se, conseguem nomeações e vencem licitações. Não necessitamos de uma selva amazônica por que eles desempenham seu feio papel na cidade mais bela da face da terra. Pobre Rio de Janeiro! Cidade que nos seduz, de dia falta água e de noite emite pus, parafraseando a velha marcha carnavalesca.

Vendo as emissões televisivas e olhando as fotos nos jornais e revistas, vendo a Ingrid Betancourt derrotada da sua última aparição, e a gloriosa e vitoriosa do retorno, pode-se aprender bem a lição de que, só mudou uma coisa no seu rosto: a aura de felicidade, nascida na mais pura liberdade.

 

Brasil, país do futuro…

30 de junho de 2008

UMA HISTÓRIA SUJA 

 

Walter Galvani 

 

Onze soldados foram identificados e acusados pelo assassinato de três jovens e entrega à uma facção de traficantes rivais, de um morro do Rio de Janeiro.

O restante é conhecido: foram mortos com vários tiros, quer dizer, foram assassinados.

Ninguém se responsabiliza pelo desfecho da ocupação do morro pelo Exército, a não ser para lembrar que foi o bispo Crivella, que é candidato ao governo do Rio de Janeiro, que havia pedido a intervenção militar.

Quer dizer: estamos diante de uma história suja.

Ninguém quer explicar, ninguém quer divulgar, só que, os jovens estão mortos e, segundo consta, foram “vendidos” por 60 mil reais.

Barato, não acham?

Este é o Brasil.

Em pleno século XXI, estamos presenciando fatos desta natureza e ninguém faz nada.

Quer dizer: fazem sim, se houver alguma vantagem política

TOLERÂNCIA ZERO

29 de junho de 2008

Crônica publicada hoje no jornal ABC DOMINGO

 

BOMBOM DE LICOR

 Walter Galvani

Não pensem que é só no Brasil, mas é em países intelectualmente subdesenvolvidos, (e não é a riqueza per capita nem algum prodigioso investimento industrial que evitam este padrão), que floresce certo tipo de lei, como essa, que visa acabar com os acidentes nas ruas, avenidas e estradas, criando a tolerância zero para a ingestão de bebida alcoólica para quem dirige.

Em primeiro lugar, a fiscalização será aleatória, isso é lógico, porque seria impossível abordar todos os motoristas que conduzem veículos no país. Em segundo lugar, porque, a única “fiscalização” possível é o amadurecimento das pessoas que passam a agir… como se vivessem numa nação de primeiro mundo.

Costumo lembrar sempre o que sucedeu comigo ao visitar um amigo diplomata que então vivia em Estocolmo, Suécia, e estou falando em tempos de 1972, que foi ao centro da cidade comigo, onde comemos sanduiches e tomamos uma cerveja e ele deixou o carro numa garagem e voltou para casa de táxi. Na época espantei-me, pois, vivendo aqui no Brasil, jamais me passaria pela cabeça que o fato de beber uma cerveja poderia interditar o uso da direção. Quarenta e seis anos depois, chega como lei, esta proibição que deveria estar dentro da cabeça das pessoas. Ou seja: o nome do jogo é educação.

Porém, como em tudo no Brasil, querem impor à força o novo comportamento e a lei chega draconiana, radical. Duvido que se cumpra, embora torça por ela… Deram já uma aliviada e agora “bombom de licor” já pode, assim como algum tipo de medicamento. Cuidado, hein, ao liberar o que não podem controlar, enganam mais uma vez a população, porque o mais grave, os produtos utilizados pelos motoristas para correrem como loucos nas estradas, bem como as drogas ingeridas pelos jovens notívagos, que pelo volume e multiplicidade também se tornam tão comuns que não há efetivo policial que consiga controlar.

Sabem a que hora a “vida noturna” nos países mais adiantados da Europa tem que terminar? Meia noite, em alguns casos muito liberais, uma hora da manhã. Só Madri, com sua “loca movida” está fora disso. Assim mesmo com uma Polícia que chega “dando”, nada de amaciar como se gosta de dizer. Falei em Educação, antes de tudo. Com E maiúsculo, como investimento do governo, em todos os níveis.

 

Rezar hoje é lembrar os 150 anos do “Theatro São Pedro”

27 de junho de 2008

O THEATRO DA PROVÍNCIA

 

Walter Galvani

 

Foi num dia 27 de junho, em 1858, portanto há exatos cento e cinqüenta anos que abria as portas pela primeira vez o teatro, aliás “Theatro São Pedro”, com o nome do padroeiro da província que então se chamava “São Pedro do Rio Grande do Sul”. O modelo, todos os que acompanham a atividade cultural sabem disso, foi o “Scala” de Milão, Itália, a pátria do canto lírico. Desde então, neste século e meio, apesar de alguns desvirtuamentos aí pelo caminho, inclusive pela sua utilização para festas de formatura ao invés de cumprir nobremente sua missão, foi o ponto central da difusão cultural na capital do estado.

Serviu de exemplo e de modelo. Desde 1975 foi sendo recuperado sob a coordenação de Eva Sopher, que depois de imigrar, deixando sua pátria por causa da Segunda Guerra Mundial, e que se casara com Wolfgang Sopher (que foi inclusive presidente da FIERGS) até chegar brilhantemente aos dias de hoje, totalmente recuperado.

São pouco mais de setecentos lugares disponibilizados para os espectadores que se distribuem pela platéia, camarotes e galerias, para assistirem aos grandes espetáculos locais ou de fora, trazendo nomes de primeira linha da música e do teatro, nacionais e internacionais.

Há muitas placas distribuídas pelas paredes do antigo teatro, registrando a presença de artistas famosos e músicos extraordinários.

Ficou fechado sem obras e depois com obras de recuperação de 1972 a 1984. Foi largamente apoiado por todos os veículos de comunicação social do estado, como uma jóia preciosa da nossa cultura. Reinaugurou a 28 de junho de 1984, quatorze dias depois que o “Correio do Povo” que o apoiava desde 1895, fechou suas portas. O “Correio” voltou a circular já em mãos de outro proprietário, mas o “Theatro São Pedro” não mudou de mãos: continuou propriedade do estado, pois fora erguido pelo executivo da província, tendo em vista o interesse da população.

Agora está novamente em obras. Constrói-se um excelente edifício de garagens a seu lado, assim como se ergue uma torre que abrigará salas de ensaio, treinamento e atividades necessárias.

Oxalá se mantenha nesta linha, com o apoio que sempre teve até aqui, lembrando Jair Soares, Amaral de Souza, Sinval Guazelli, e hoje Yeda Crusius e tantos outros que se sucederam no Palácio Piratiní.

 

 

 

O melhor dos mundos

22 de junho de 2008

Crônica publicada no ABC DOMINGO

MILHÕES DE EMPREGOS… 

Walter Galvani 

Estamos num ano eleitoral. Os leitores sabem disso e, portanto, ao tomarem conhecimento de uma notícia, a cada nova informação que circula na variada “mídia” que hoje se coloca à disposição, pensam com a antiga e conhecida “pulga atrás da orelha”, que o mundo que se abre é maravilhoso, mas… Pois não é que o governo federal comunica que há 30 milhões de brasileiros com emprego de carteira assinada? Que o Rio Grande do Sul vai ganhar 4 bilhões e trezentos milhões de reais para saneamento e urbanização em 221 municípios? Um assombro! E mais: 29.452 estudantes entraram na universidade com bolsas do Prouni; quinze novas escolas técnicas federais vão levar ensino profissionalizante para 18 mil estudantes; 57.580 famílias gaúchas estão incluídas no plano Luz para Todos e 402.362 no Bolsa Família.

Ficamos encantados com tantas perspectivas que parecem se abrir. É o melhor dos mundos que estará chegando ou estaremos sendo ludibriados? Não custa nada anotar e ficar na expectativa… Se tantas são as possibilidades para o Brasil e para o Rio Grande do Sul, então realmente vivemos num país “abençoado por Deus e bonito por natureza”, não é mesmo?

Mas, será verdade que tais coisas se concretizam e vão continuar se concretizando? Em todo o caso, nunca é demais ficar atento e ir se organizando para a eventualidade de que o futuro não seja tão risonho assim como está sendo apresentado. E com o olhos nas dificuldades e asperezas naturais, preparar nosso espírito e nosso estômago…

Faremos de conta de que não lemos, ouvimos e assistimos tantas promessas de bem estar e vamos “correr atrás da máquina”, procurando produzir mais e assim nos equiparmos para as dificuldades que podem estar pela frente. A ONU anda falando tanto em inflação e falta de alimentos, em crise disso e daquilo, não custa nada manter um olho aberto para este lado também.

O otimista, que teima em sobreviver no íntimo de cada um de nós, é “um idiota”, diria Voltaire. Nunca será demais, portanto, ficar atento ao que pode vir por acaso, imprevidência ou incompetência, por má fé e por ignorância, qualquer uma dessas pragas que podem se abater sobre a nossa boa colheita.